Sermão da Quarta Dominga do Advento

Facturo est verbum Domini super Joannem, et venit in omnem regionem Jordanis, praedicans baptismum poenitentiae in remissionem peccatorum[1].

I – Quarto e último juízo: o juízo dos três juízos: o juízo de Deus, o juízo dos homens e o juízo de si mesmo. Matéria do sermão: o juízo de si mesmo emendado, o juízo dos homens desprezado, e o juízo de Deus revogado debaixo do juízo da penitência. Oração pelo bom êxito da pregação.

Sem que eu o diga, está dito por si mesmo que havemos de ter hoje o quarto juízo. No primeiro sermão vimos o juízo de Deus para com os homens; no segundo vimos o juízo dos homens uns para com os outros; no terceiro vimos o juízo de cada um para consigo mesmo. Mas, qual será o quarto e último juízo que nos resta hoje para ver? Nem é juízo de si mesmo, nem é juízo dos homens, nem é juízo de Deus: é o juízo destes três juízos. Todos os três juízos que vimos vêm hoje chamados a juízo. Levanta neste Evangelho o Batista o tribunal supremo da penitência: Praedicans baptismum poenitentiae in remissionem peccatorum – e assenta-o com grande propriedade e mistério nas ribeiras do Jordão: In omnem regionem Jordanis – porque Jordão quer dizer: Fluvius judicii: o rio do juízo. A ver-se nas águas deste rio, e apresentar-se diante deste tribunal, vêem note os três juízos, cada um por suas causas. O juízo de si mesmo vem por suspeições, porque o damos por suspeito; o juízo dos homens vem por agravo, porque agravamos dele; o juízo de Deus vem por apelação, porque apelamos de Deus para a nossa penitência, Todos estes juízos hão de ser julgados hoje, e espero que, hão de sair bem julgados, porque debaixo do juízo da penitência, o juízo de si mesmo emenda-se, o juízo dos homens despreza-se, o juízo de Deus revoga-se. Assim que o juízo de si mesmo emendado, o juízo dos homens desprezado, o juízo de Deus revogado é o que havemos de ver hoje.

Tenho proposto – católico e nobilíssimo auditório – a matéria deste último sermão. E, se nos passados mereci alguma coisa a vossos entendimentos – quod sentio quam sit exiguum[2]quisera que mo pagassem hoje vossos corações. Aos corações determino pregar hoje, e não aos entendimentos. Cristo, soberano exemplar dos que pregam a sua palavra, comparou os pregadores aos que lavram e semeiam: Exiit qui seminat seminare: semen est verbum Dei[3]. O último sermão é o agosto dos pregadores: se se colhe algum fruto, neste sermão se colhe. Mas, quando eu vejo que hoje nos torna a repetir o Batista que clamava no deserto: Vox clamantis in deserto[4]que confiança pode ficar a qualquer outro pregador que não desmaie, ou que palavras podem ser tão fortes e eficazes as suas que, antes de as pronunciar a voz, não emudeçam? Lembra-me, porém, que para Cristo converter um homem que o tinha negado três vezes, porque se dignou de lhe pôr os olhos, bastou a voz irracional e noturna de uma ave, cujas asas apenas a levantam da terra, para o restituir outra vez ao caminho do céu. Tanto pode um respexit dos olhos divinos. – Assim é, Senhor, assim é. E posto que este indigno ministro de vossa palavra seja tão desproporcionado instrumento para obra tão grande, se os olhos de vossa piedade e clemência se puserem nos que me ouvem, e um raio de vossa vista lhes ferir as almas, não desespero, antes confio de vossa graça que as soberanas influências de sua luz farão o que podem e o que costumam: Qui respicit terram, et facit eam tremere[5]. Olhai vós, Senhor, que, ainda que sejamos de terra insensível e dura, nós tremeremos de vos ofender. Aspexit, et dissolvit gentes[6] olhai vós, Senhor, que, ainda que fôssemos gentios sem fé, e não cristãos, os nossos corações se farão de cera, e se derreterão. Neste dia, pois, em que nos não resta outro, acendei a frieza de minhas palavras, e alumiai as trevas de nossos entendimentos, de sorte que resolutamente desenganados, façamos hoje um inteiro e perfeito juízo de vós, de nós e do mundo: de Vós, para que vos conheçamos e vos amemos; de nós, para que nos conheçamos e nos humilhemos: do mundo, para que o conheçamos e desprezemos.

II – O juízo de si mesmo e o cego que via andar os homens como árvores. Maior cegueira é ver uma coisa por outra que não ver nada. Que faz a penitência para emendar o juízo de si mesmo? Nenhuma coisa trazemos os homens mais detrás de nós que a nós mesmos. A transformação e conversão de Nabucodonosor

Ora, venham entrando os três juízos, para serem examinados e julgados no tribunal da penitência: o juízo de si mesmo, para que se emende; o juízo dos homens, para que se despreze; o juízo de Deus, para que se revogue: e comecemos pelo que nos fica mais perto. No tribunal dos areopagitas em Atenas, costumavam entrar os réus com os rostos cobertos. Assim entra e se apresenta no tribunal da penitência o juízo ele si mesmo. Entra com os olhos tapados, porque não há juízo mais cego. A cegueira do juízo e amor próprio é muito maior que a cegueira dos olhos: a cegueira dos olhos faz que não vejamos as coisas; a cegueira do amor-próprio faz que as vejamos diferentes do que são, que é muito maior cegueira. Trouxeram um cego a Cristo para que o curasse; pôs-lhe o Senhor as mãos nos olhos, e perguntou-lhe se via? Respondeu: Video homines velut arbores ambulantes (Mc. 8, 24): que via andar os homens como árvores. – Pergunto: e quando estava este homem mais cego: agora ou antes? Agora, não há dúvida que tinha alguma vista, mas esta vista era maior cegueira que a que dantes tinha: porque dantes não via nada, agora via uma coisa por outra, homens por árvores, e maior cegueira é ver uma coisa por outra, que não ver nada. Não ver nada é privação: ver uma coisa por outra é erro. Eis aqui porque sempre erra o juízo próprio, eis aqui porque nunca acabamos de nos conhecer: porque olhamos para nós com os olhos de um mais cego que os cegos, com uns olhos que sempre vêem uma coisa por outra, e as pequenas lhes parecem grandes. Somos pouco maiores que as ervas, e fingimo-nos tão grandes como as árvores; somos a coisa mais inconstante do mundo, e cuidamos que temos raízes: se o inverno nos tirou as folhas, imaginamos que no-las há de tornar a dar o verão, que sempre havemos de florescer, que havemos de durar para sempre. Isto somos, e isto cuidamos.

E que faz a penitência para emendar este juízo tão sem juízo? Que faz a penitência para alumiar este cego tão cego? Duas coisas. Tira-lhe o véu dos olhos, e mete-lhe um espelho na mão. Tira-lhe o véu dos olhos, como pedia o pecador a Deus – Revela oculos meos[7]mete-lhe um espelho na mão, dizia Deus ao pecador: Statuam te contra faciem tuam (SI, 49, 21): – Por-vos-ei a vós diante de vós. – Nenhuma coisa trazemos os homens mais esquecida e desconhecida, nenhuma trazemos mais detrás de nós que a nós mesmos. E que faz o juízo da penitência? Põe-nos a nós diante de nós: Statuam te contra faciem tuam. Põe-no a nós diante de nós, como a réus diante do tribunal, para que nos julguemos; põe-nos a nós diante de nós, como objeto diante do espelho, para que nos vejamos. Coisa dificultosa é que homens tão derramados nas coisas exteriores, cheguem a se ver interiormente, como convém. Mas isso faz a penitência por um de dois modos, ambos maravilhosos: ou voltando-nos os olhos de fora para dentro, para que nos vejam, ou virando-nos a nós mesmos de dentro para fora, para que nos vejamos.

Quando Deus quis converter aquele tão desvanecido rei Nabucodonosor para que se descesse de seus soberbíssimos pensamentos e conhecesse o que era, o primeiro passo por onde o encaminhou à penitência foi transformá-lo em bruto. Sobre o modo desta transformação há variedade de pareceres entre os doutores: uns dizem que foi imaginária, outros que foi verdadeira; e, posto que este segundo modo é mais conforme ao texto, de ambos podia ser. Se foi transformação imaginária, voltou Nabucodonosor os olhos para dentro de si mesmo, e viu tão vivamente o que era, que desde aquele ponto se não teve mais por homem, senão por bruto, e como tal se tratava. Se foi transformação verdadeira, converter Deus em bruto a Nabucodonosor, não foi outra coisa que virá-lo de dentro para fora, para que mostrasse por fora na figura, o que era por dentro na vida. Oh! quão outro se imaginava este grande rei antes do que agora se via! Dantes não se contentava com ser homem, e imaginava-se Deus: agora conhecia que era muito menos que homem, porque se via bruto entre os brutos, Se voltarmos os olhos para dentro de nós ou se Deus nos virara a nós mesmos de dentro para fora, que diferente conceito havia de fazer cada um de si do que agora fazemos! Mas, sigamos os passos deste novo monstro, e vê-lo-emos, e ver-nos-emos. Andou pascendo aquele bruto racional o primeiro dia da sua transformação entre os animais; lá pela tarde teve sede; foi-se chegando sobre quatro pés à margem de um rio, e quando chegando no espelho das águas a deformidade horrenda da sua figura, valha-me e Deus, que assombrado ficaria ele de si mesmo! Provaria primeiro fugir de si; mas como se visse atado tão fortemente àquele tronco bruto, remeteria a precipitar-se na corrente, e se Deus o não tivesse mão, que o queria trazer por aqueles campos de Babilônia para exemplo eterno dos soberbos, ali ficaria sepultado, primeiro em sua confusão, e depois na profundidade do rio. Que rio é este, senão o rio Jordão: Fluvius judicii: rio do juízo? E quem é este Nabucodonosor, assim transformado, senão o pecador, bruto com razão, e sem uso dela, que anda pascendo nos campos deste mundo entre os outros animais, mais animal que eles? Só uma diferença há entre nós e Nabucodonosor, que ele quis fugir de si, e não pôde: nós ainda, podemos, se quisermos. Chega enfim o pecador a ver-se nas águas deste rio, espelhos naturais, e sem adulação; vê de repente o que nunca tinha visto: vê-se a si mesmo. Oh! que assombro,! É possível que este sou eu? Tal fealdade, tal horror, tal bruteza, tais deformidades há em mim? Sim, e muito maiores, Esse sois, e não o que vós cuidáveis. Vede se diz esse retrato com o que vós tínheis formado de vós mesmo no vosso pensamento; vede bem, e considerai muito devagar nesse espelho, o rosto e as feições interiores da vossa alma; vede bem esses olhos, que são as vossas intenções; esses cabelos, que são vossos pensamentos; essa boca, que são as vossas palavras; essas mãos, que são as vossas ações e as vossas obras; vede bem se diz essa imagem com o que tendes na vossa idéia: vede se se parece o que vedes com o que imagináveis; vede se vos conheceis; vede se sois esse, ou outro: Tu quis es?

III – Por que andamos tão vangloriosos e tão desvanecidos de nós mesmos? A galeria das façanhas de Davi e a galeria de suas fraquezas: Bersabé, Urias, Nabal, Abigail e Siba. De que maneira emenda o juízo da penitência os erros e as cegueiras do nosso juízo.

Sabeis porque andamos tão vangloriosos e tão desvanecidos de nós mesmos? Porque trazemos os olhos por fora, e a nós por dentro: porque não nos vemos. Se nos víramos interiormente como somos, se consideráramos bem a deformidade de nossos pecados, oh! que diferente conceito havíamos de formar de nós! Tão desvanecidos de ilustres, tão desvanecidos de senhores, tão desvanecidos de poderosos, tão desvanecidos de discretos, tão desvanecidos de gentis-homens, tão desvanecidos de sábios, tão desvanecidos de valentes, tão desvanecidos de tudo: por quê? Porque vos não vedes por dentro. Dizei-me vós se uma vez pusésseis bem os olhos em vossos pecados, oh! como havíeis de emendar todos estes epítetos! Nenhum homem houve no mundo que mais se pudesse prezar de si que Davi, porque nele ajuntou a natureza, a fortuna e a graça tudo o que repartiu pelos grandes homens e, contudo, nenhum homem achareis mais humilde, nem menos prezado de si mesmo, antes mais desprezador de si que Davi. E donde cuidais que lhe vinha isto? Peccatum meum contra me est semper[8] : estava Davi sempre olhando para seus pecados, e vendo-os, e vendo-se neles: Quasi peccatorum imagines contemplando, comenta S. João Crisóstomo: estava Davi contemplando os seus pecados, como se estivera vendo e considerando as imagens e retratos de suas ações. Não há dúvida que muitas peças do palácio de Davi pelo verão nas pinturas, pelo inverno nos tapizes, estariam ornadas com as famosas histórias de suas façanhas. Não deu tanta matéria às artes Hércules em seus trabalhos como Davi em suas vitórias. Mas não eram estas as vistas em que se entretinha aquele grande rei, nem estas as galerias em que ia passear. Em contraposição daquelas pinturas – sigamos assim a consideração de Crisóstomo – mandou fabricar Davi outra galeria, chamada de suas fraquezas, e nela pintar em diversos quadros, não as famosas, mas as lastimosas histórias de seus pecados. Aqui vinha passear Davi, aqui tinha o bom rei as suas meditações, e aqui alcançava a maior de todas as suas vitórias, que foi o conhecimento de si mesmo.

Quasi peccatorum imagines contemplando. Vamos com Davi considerando pecados e mudando epítetos. Punha os olhos Davi em um quadro, via a história de Bersabé, e dizia consigo: – É possível que me tenha o mundo por profeta, e que não antevisse eu que de uma vista se havia de seguir um pensamento, de um pensamento um desejo, e de um desejo uma execução tão indigna de minha pessoa e de meu estado! Não me chamem mais profeta, chamem-me cego. É possível que eu sou tido no mundo pelo valente da fama, e que bastou uma mulher para me vencer, e para que eu deixasse a guerra, e não saísse à campanha naquele tempo em que costumavam andar os reis armados diante de seus exércitos: Eo tempore, quo solent reges ad bella procedere (1Par.20, 1)! Não me chame ninguém valente, chamem-me fraco. – Dava dois passos adiante Davi, punha os olhos noutro quadro: via a história de Urias, como dava a carta a Joab, e como aparecia logo morto nos primeiros esquadrões, e vitoriosos os inimigos. É possível que me prezo eu de príncipe verdadeiro, e que mandei cometer uma aleivosia tão grande debaixo de minha firma, e que a um vassalo tão fiel, depois de lhe tirar a honra, lhe tirei também a vida enganosamente! Não me terei mais por verdadeiro, senão por fementido. É possível que me fez Deus rei do seu povo, para lho conservar e defender, e que consolo eu a nova da derrota do meu exército com a nova da morte de Urias, e que pesa mais na minha estimação a liberdade de um apetite que a perda de tão fiéis e valorosos soldados! Não me chamem rei, chamem-me tirano. – Ia por diante Davi, contemplava outro quadro: via o caso de Nabal Carmelo: como mandara tirar a vida a tudo o que em sua casa a tivesse, e como depois lhe concedia perdão pelos rogos de sua mulher Abigail. É possível que eu sou o celebrado de benigno e piedoso, e mando tirar a vida a um homem, porque não quis dar sua fazenda aos fugitivos que me seguem! Eu sou o que domei os leões e os ursos no deserto, e não pude domar um ímpeto de ira dentro em mim mesmo! Não me chamarei mais humano: chamar-me-ei fero. É possível que me preze eu de inteiro, e que sendo tão justificada a causa de Nabal, ao menos não digna de castigo, não bastasse para me aplacar a sua justiça, patrocinada só de si mesma, e que, depois, representada por Abigail, pudesse mais um memorial acompanhado do seu rosto que da sua razão! Não me chamarei inteiro: chamar-me-ei respectivo. Dava mais passos adiante Davi: via noutro quadro a história de Siba: como acusava a Mifiboset, seu senhor, como tomava posse da fazenda, e como, depois de provada a calúnia, lhe mandara restituir só ametade. – É possível que me prezo eu de considerado, e que pelo dito de um criado, sem mais informação nem figura de juízo, declaro Mifiboset, filho do rei meu antecessor, por réu de lesa-majestade, e lhe confisco a fazenda, e a dou ao mesmo acusador! Não me terei mais por prudente, senão por temerário. É possível que tenho eu opinião de reto, e que depois de averiguada a calúnia e provada a inocência, deixo ao traidor com a metade dos bens, e não mando que se restituam todos ao inocente! Não me terei mais por reto, senão por injusto. – Eis aqui tomo Davi, pelos retratos de seus pecados, ia mudando os seus epítetos, e emendando o juízo de si mesmo; e, tendo em si tanta matéria para a vaidade, achava tanta para os desenganos.

Cristãos – e não digo senhores, porque quisera que vos prezásseis mais de cristãos – ponha-se cada um diante das imagens de seus pecados: Peccatorum imagines contemplando – cuide e considere nelas um pouco, e verá como as idéias antigas que tinha na fantasia se lhe vão despintando, e como muda e emenda o juízo errado que de si mesmo fazia. Todos vos prezais de honrados, todos vos prezais de valorosos, todos vos prezais de entendidos, todos vos prezais de sisudos: quereis emendar esses epítetos? Virar os olhos para dentro aos pecados. Eu sou o que me tenho por honrado: e cometi tantas vezes uma vileza tão grande, como ser ingrato e infiel a meu Senhor e a meu Deus, que me criou e me remiu com seu sangue! Não sou honrado, sou vil. Eu sou o que me tenho por valoroso: e cometi tantas vezes uma fraqueza tão baixa, como deixar-me vencer de qualquer tentação, e virar as costas a Cristo, sem resistir, por seu amor, nem a um pensamento! Não sou valoroso, sou covarde. Eu sou o que me prezo de entendido: e cometi tantas vezes uma ignorância tão feia, como antepor a criatura ao Criador, a suma miséria ao sumo e infinito bem! Não sou entendido, sou néscio. Eu sou o que me prezo de sisudo: e cometi tantas vezes uma loucura tão rematada, como arriscar por um apetite leve, por um instante de gosto, uma eternidade de glória ou de inferno! Não sou sisudo, sou louco. Desta maneira emenda o juízo da penitência os erros e as cegueiras do nosso. Em lugar de sisudo, põe louco; em lugar de discreto, néscio; em lugar de valoroso, covarde; em lugar de honrado, vil: e aquilo era o que cuidávamos, isto é que somos. Ninguém nos diz melhor o que somos que os nossos pecados.

IV – Cada um em seu juízo não se deve estimar mais que aquilo em que ele mesmo se avalia. Se nos vendemos tão baratos, por que nos avaliamos tão caros? Muito melhor me conheço eu diante da imagem de um pecado que diante da imagem de um Cristo crucificado.

Ainda os nossos pecados, postos diante dos olhos, têm outro modo de convencer e emendar, mais apertado e mais forçoso: que é convencer-nos a nós conosco, e emendar o nosso juízo com o nosso próprio juízo. Cada um em seu juízo não se deve estimar mais que aquilo em que ele mesmo se avalia. E como se avalia cada um de nós? Isto não se vê nos nossos pensamentos: vê-se nos nossos pecados. Todas as vezes que um homem peca vende-se pelo seu pecado: Venundatus est ut faceret malum[9]diz a Escritura Sagrada. Ora, veja cada um de nós o preço por que se vende, e daí julgará o que é. Prezais-vos muito, e estimais-vos muito, desvaneceis-vos muito: quereis saber o que sois por vossa mesma avaliação? Vede o preço por que vos dais, vede os vossos pecados. Dais-vos por um respeito, dais-vos por um interesse, dais-vos por um apetite, por um pensamento, por um aceno: muito pouco é o que por tão pouco se dá. Se nos vendemos por tão pouco, como nos prezamos tanto? Filhos de Adão enfim, Quem visse a Adão no Paraíso com tantas presunções de divino, mal cuidaria que em todo o mundo pudesse haver preço por que se houvesse de dar. E que sucedeu? Deu-se ele, e deu a todos os seus filhos por uma maçã. Se nos vendemos tão baratos, por que nos avaliamos tão caros? Já que vos estimais tanto, não vos deis por tão pouco; e, pois, vos dais por tão pouco, não vos tenhais por mais. Não é razão que se avalie tão alto no seu pensamento quem se vende tão baixo no seu pecado.

Agora entendereis o espírito e a prudência de Davi, em pôr diante dos olhos as imagens de seus pecados: Peccatorum imagines contemplando – quando para se excitar à contrição e conhecimento de sua miséria, parece que, como profeta, pudera representar diante de si outra imagem, que mais o movera. Não movera mais a Davi uma imagem de Cristo crucificado, pois ele sabia, mui bem, que Deus havia de morrer em uma cruz por aqueles mesmos pecados? Digo que não; e vede a razão por que o digo. Muito melhor me conheço eu diante da imagem de um pecado que diante da imagem de um Cristo crucificado. Quando estou diante da imagem de Cristo crucificado parece que tenho razões de me ensoberbecer, porque vejo o preço por que Deus me comprou; mas quando me ponho diante da imagem de um pecado, não tenho senão razões de me humilhar, porque vejo o preço por que eu me vendi. Quando vejo que Deus me compra com todo o seu sangue, não posso deixar de cuidar que sou muito; mas quando eu vejo que me vendo pelos nadas do mundo, não posso deixar de crer que sou nada. Eis aqui a que se reduz, e como se desengana o juízo de si mesmo, quando se vê, como em espelho, na imagem de seus pecados: e assim o muda, assim o emenda o juízo da penitência: Praedicans baptismum poenitentiae[10].

V – O juízo dos homens diante do tribunal da penitência. Que faz a penitência para desprezarmos este ídolo tão temido e respeitado no mundo? O pouco caso das opiniões do mundo no julgamento de Cristo. A penitência verdadeira de Davi e a penitência falsa de Saul.

O juízo de si mesmo – como acabamos de ver – emenda-se: e o juízo dos homens? Despreza-se. Entra pois o juízo dos homem a apresentar-se diante do tribunal da penitência, e não vem com os olhos vendados, como o juízo de si mesmo, mas com todos os sentidos e com todas as potências livres, e muito livres, porque com todas julga a todos, Traz livres os olhos, porque julga tudo o que vê; traz livres os ouvidos, porque julga tudo o que ouve: traz livre a língua, porque publica tudo o que julga e traz livre mais que tudo a imaginação, porque julga e condena tudo o que imagina.

Mas, que faz a penitência para desprezarmos este ídolo tão adorado, tão temido, e tão respeitado no mundo? Que faz ou que pode fazer a penitência, para que não façamos caso, sendo homens, do juízo dos homens? Com abrir ou fechar um sentido, faz a penitência tudo isto. Para o juízo de si mesmo abre-nos os olhos; Para o juízo dos homens, fecha-nos os ouvidos. No dia da Paixão choviam testemunhas e blasfêmias contra Cristo, e o Senhor, como se nada ouvira. Assim lho disse admirado Pilatos: Non audis quanta adversum te dicunt testimonia[11]? Não ouves quantos testemunhos dizem contra ti? – Não ouvia Cristo, porque ouviu como se não ouvira. O Senhor naquele dia ia satisfazer pelos pecados nossos, que fizera seus, e quem trata de satisfazer a Deus por pecados, não tem ouvidos para o que contra ele dizem os homens: Ego autem, tanquam surdus, non audiebam[12]. Digam os homens, julguem os homens, condenem os homens o que quiserem, e quanto quiserem, que quem trata deveras da satisfação de seus pecados, quem trata deveras de ser julgado de Deus, não se lhe dá do juízo dos homens. Sabeis por que fazemos tanto caso dos juízos humanos? Porque não somos verdadeiros penitentes. Se a nossa penitência, se o nosso arrependimento fora verdadeiro, que pouco caso havíamos de fazer de todas as opiniões do mundo!

Pecou Davi o pecado de Bersabé e Urias: ao cabo de algum tempo veio o profeta Natã a adverti-lo do grande mal que tinha feito; reconheceu Davi sua culpa e disse: Peccavi (2 Rs. 12, 13): Pequei – e no mesmo ponto, por parte de Deus, o absolveu o profeta do pecado: Dominus quoque transtulit peccatum tuum[13]. Pecou Saul o pecado de desobediência, reservando do despojo de Amalec para o sacrifício: veio também o profeta Samuel adverti-lo de quanto Deus sentia aquela culpa; conheceu-a Saul e disse: Peccavi, pequei; mas nem o profeta respondeu que estava perdoado, nem Deus lhe concedeu perdão. É este um dos notáveis casos que tem a Escritura, considerada a semelhança de todas as circunstâncias dele. Davi era rei, Saul também era rei; Davi pecou, Saul pecou; a Davi veio admoestar um profeta, a Saul veio admoestar outro profeta; Davi disse: Peccavi, pequei; Saul disse: Peccavi, pequei, Pois, se os casos em tudo foram tão semelhantes, como perdoa Deus a Davi, e não perdoa a Saul? Se um peccavi basta a Davi, a Saul por que lhe não bastou um peccavi? A razão literal que dão todos os doutores é que o peccavi de Davi foi dito de todo o coração: o peccavi de Saul foi dito somente de boca; a penitência de Davi foi penitência verdadeira: a penitência de Saul, foi penitência falsa. Muito bem dito: mas donde se prova? Donde se prova que foi falsa a penitência de Saul; donde se prova que o seu peccavi foi dito de boca, e não de coração? Não o dizem os doutores, mas eu o direi, ou o dirá o texto. Quando Saul disse: Peccavi – acrescentou estas palavras: Peccavi: sed honora me coram senioribus populi mei, et coram Israel (1 Rs. 15, 30). Pequei, mas vós, Samuel, tratai de minha reputação, e honrai-me com os grandes do povo de meu reino, – Ah! sim, Saul, e vós, depois de dizer peccavi, depois de vos pordes em estado de penitente, ainda vos lembra a reputação, ainda fazeis caso do que dirão ou não dirão de vós os homens? Sinal é logo que não é verdadeira a vossa penitência, e que aquele peccavi nasceu na boca, e não no coração. Quem chega a estar verdadeiramente penitente, quem chega a estar verdadeiramente arrependido, como estava Davi, não lhe lembram mais que os seus pecados: Peccavi não se lhe dá do que julgam nem o que dizem os homens.

VI – Como se aborrece a si, e como aborrece de si o verdadeiro penitente? O que teme e estima o verdadeiro penitente. O juízo dos homens e os pecados. Quem teme que o pode condenar Deus, não se lhe dá que o condenem os homens.

As razões desta verdade são muitas e grandes: ouvi as da minha tibieza, que a quem tiver melhor espírito lhe ocorrerão outras mais e maiores. O verdadeiro penitente, ele mesmo se acusa e se condena: que se lhe dá logo que digam outros o que ele confessa de si? Que importa que outros levem o pregão, quando eu mesmo executo o castigo? Quem se confessa por réu não lhe fazem agravo as testemunhas. Se um homem está verdadeiramente arrependido, se conhece verdadeira e profundamente suas culpas, nunca ninguém dirá dele tanto mal, que ele se não julgue por muito pior. E quem se vê julgado mais benignamente do que suas culpas merecem, antes tem razão de agradecer, que de queixar-se. Por isso os grandes penitentes não se queixavam das injúrias. Julgue e diga o mundo o que quiser, que nunca poderá dizer tanto mal quanto eu sei de certo que há em mim.

Nenhuma coisa deseja mais um verdadeiro penitente que tomar vingança em si das injúrias de Deus, e como o juízo dos homens se põe da parte desta vingança, antes nos ajuda que nos ofende. Quem se não aborrece a si – diz Cristo – não me pode servir a mim. Oh! como se aborrece a si e como se aborrece de si um verdadeiro penitente! E que se me dá a mim que seja bem ou mal julgado quem eu aborreço? Se eu conheço verdadeiramente a deformidade de minhas culpas, não hei de aborrecer mais a quem as fez, que a quem as diz?

O verdadeiro penitente só uma coisa estima, e só uma coisa teme nesta vida: só estima o que pode dar graça de Deus, e só teme o que a pode tirar. E como o juízo dos homens não pode dar nem tirar a graça de Deus, que se lhe dá ao penitente do juízo dos homens? O juízo dos homens, quando muito lhe demos, poderá fazer mal, mas não pode fazer maus. Se eu sou bom, por mais que me julguem mal os homens, não me podem fazer mau: se eu sou mau, por mais que julguem bem os homens, não me podem fazer bom; e como o juízo dos homens não tem poder para fazer maus nem bons, que caso há de fazer deste juízo o verdadeiro penitente, o qual só uma coisa deseja, que é ser bom, e só de uma coisa lhe pesa, que é ter sido mau?

Feche todas estas razões uma maior que todas. O juízo dos homens, por mais que vos condenem, pode-vos impedir o céu ou levar-vos ao inferno? Não. Ponde agora de uma parte todos os juízos dos homens, e da outra os vossos pecados, e perguntai-vos a vós mesmo, quais destes deveis mais temer, Os juízos dos homens, ainda que façam todo o mal que podem, nem podem dar o inferno, nem tirar o paraíso; os pecados, ainda que acheis neles os todos falsos bens que vos prometem, só eles tiram o paraíso e dão o inferno. E, como o verdadeiro penitente está vendo que só os seus pecados o podem tirar do paraíso e levá-lo ao inferno, que caso há de fazer dos juízos dos homens? Dos pecados sim, e só dos pecados, porque só por eles o pode condenar Deus. E quem teme que o pode condenar Deus, não se lhe dá que o condenem os homens.

VII – Quem conhece que tem ofendido a Deus nenhuma coisa o ofende. As injúrias de Semei el-rei Davi. Os três julgamentos da Madalena. Se antigamente podia tanto com Deus o que dirão dos homens, porque depois da Encarnação fez tão pouco caso do que dirão. Faça-se tudo o que for necessário à salvação, e digam os homens o que quiserem.

Suposta a verdade desta doutrina, que poucos e que poucas penitentes verdadeiras deve haver hoje no mundo, onde tanto se trata só de agradar e contentar aos homens! Vejam-no os homens em Davi, e as mulheres na Madalena. Davi, que pouco caso fez das injúrias de Semeï! Disse Semeï a el-rei Davi em seu próprio rosto as injúrias que se não puderam dizer ao mais vil homem: quiseram remeter logo a ele os que acompanhavam ao rei, para lhe tirarem a língua e a vida, e que fez Davi? Teve mão neles para que o deixassem dizer. As injúrias são a música dos penitentes; tal ia Davi naquele passo, descalço, e chorando seus pecados. Quem conhece que tem ofendido a Deus, nenhuma coisa o ofende. Assim desprezava Davi o juízo dos homens.

Da Madalena quem o poderá explicar com a ponderação que merece? Uma senhora tão principal em Jerusalém, tão servida, tão estimada, tão dada a vaidade e galas, quem a visse com o toucado desprendido, com o vestido sem conserto, pela rua sem companhia, em casa do fariseu sem reparo, toda fora de si – ou toda dentro em si, porque toda era coração naquela hora – os cabelos descompostos, o alabastro quebrado, os olhos feitos dois rios, lançada aos pés de Cristo, abraçando-os, e abraçando-se com eles: que diria? – Valha-me Deus, senhora, que mudança é esta? Não vedes quem sois? Não vedes o que fazeis? Não vedes o que dirão os homens? – Não: nada vejo, que quem viu seus pecados, não lhe ficam olhos para ver outra coisa. Não vejo o que sou, porque vi o que fui; não vejo o que faço, porque vi o que fazia. Já vi tudo o que havia de ver nesta vida, e provera a Deus que não tivera visto tanto. Já não faço caso dos homens, nem dos seus juízos: digam o que quiserem.

Três vezes foi a Madalena julgada e condenada dos homens. Julgou-a e condenou-a o fariseu, chamando-lhe pecadora: Quía peccatrix est[14]; julgaram-na e condenaram-na os apóstolos, chamando-lhe esperdiçada: Ut quid perditio haec[15]; julgou-a e condenou-a sua irmã, chamando-lhe ociosa: Reliquit me solam ministrare[16]. Tudo isto ouviu sempre a Madalena, mas nunca se lhe ouviu uma palavra, como se respondera com o seu silêncio: – Condenem-me embora os fariseus, condenem-me os apóstolos, condenem-me os de que menos se podia esperar, os irmãos. Nos fariseus condene-me a malícia, nos apóstolos condene-me a virtude, na irmã condene-me a mesma natureza, que a quem tem maiores causas para sentir não lhe dão cuidado essas. Quando as dores são iguais, sentem-se todas; quando uma é maior suspende as outras. A dor dos pecados, se é verdadeira, é a maior dor de todas, porque tem maiores causas, e a quem verdadeiramente lhe doem seus pecados, nenhuma outra coisa lhe dói. A seta que feriu o coração defende de todas as setas, porque, ainda que, achem corpo, já não acham sentimento: faça os tiros que quiser o juízo dos homens, que se o coração está ferido de Deus, ou não ofendem, ou não magoam. O amor é um sentimento que faz insensíveis: por isso se compara à morte. A morte faz insensível a quem mata: o amor insensível a quem ama. Quem trata só de amar a Deus só sente havê-lo ofendido: a tudo o mais é insensível.

Exemplos tinha em si mesma a Madalena, e pudera-se argumentar a si consigo. – Que importa parecer mal aos homens, se eu parecer bem a Deus? Que importa parecer mal aos demais, se eu parecer bem a quem amo? Quantas vezes nas minhas loucuras segui os desprezos deste ditame? E será bem que seja agora menos animoso meu amor, e menos resoluto? Se eu não reparei no que diriam os homens para ofender a Deus, repararei agora no que dizem, ou no que dirão para o buscar? Não reparei em que dissessem que era pecadora, e repararei em que digam que sou arrependida? Já que sofri que murmurassem o pecado, não é menos que caluniem a emenda?

Isto dizia o silêncio da Madalena, as três vezes que a condenaram os homens. E é muito de notar, que de todas estas três vezes estava a Madalena aos pés de Cristo. Oh! que grande remédio são os pés de um Cristo para um homem se lhe não dar dos juízos dos homens! E se isto faziam os pés de Cristo vivo, quanto mais os pés de um Cristo morto e crucificado! – É possível, Senhor, que estejais nessa cruz julgado e condenado, sendo a mesma inocência, e eu não sofrerei ser julgado e condenado, sendo pecador?! Se a vós vos julgam e condenam pelos meus pecados, por que hei de sentir eu que me julguem, e me condenem pelos meus? Em vós estou adorando as injúrias e as afrontas, e em mim não as hei de sofrer? Para vos ofender e me perder não reparei no que diriam os homens; e para vos amar e me salvar, repararei no que dirão? Não é isso o que vós me ensinais nessa cruz?

Ouvi uma coisa grande, em que parece que mudou de condição Deus. Quando Deus quis castigar o povo no deserto, alegou-lhe Moisés o que diriam os egípcios: Ne quaeso dicant Aegyptiit[17]e deixou o Senhor de os castigar. Quando Josué teve a primeira rota da Terra de Promissão alegou a Deus o que diriam os cananeus: Quid facies magno nomini tuo[18] – e continuou o Senhor a favorecê-lo. Quando o reino de Israel estava mais aflito, representou Davi a Deus o que diriam as gentes: Ne forte dicant in gentibus[19] – e cessou a aflição. De maneira que o remédio que tinham os patriarcas antigos para alcançar de Deus o que queriam, era alegar-lhe um ne dicant: o que dirão os homens, Determina Deus de vir à terra e remir e salvar o mundo: e se ali se achasse Moisés, Josué, ou Davi, com o espírito profético que tinham parece que puderam fazer a Deus a mesma réplica. – Como assim, Senhor? Quereis ir ao mundo? Quereis aparecer entre os homens? E não reparais no que dirão, e é certo que hão de dizer de vós? Hão de dizer que sois um samaritano e endemoninhado: Samaritanus es tu, et daemonium habes[20]; hão de dizer que sois um blasfemo: Blasphemavit[21]; hão de dizer que sois enganador: Seductor ille[22]; hão de dizer que sois um perturbador da república: Subvertentem gentem nostram[23]; hão de dizer que tendes pacto com o demônio: In Beelzebub principe daemoniorum ejicit daemonia[24]; hão de dizer que vos não podeis salvar: Se ipsum non potest salvum facere[25]; hão de dizer, finalmente, infinitos opróbrios contra vós: Saturabitur opprobriis[26]. Mais. Há-se de levantar um Ário, que há de dizer que não sois consubstancial ao Padre; há-se de levantar um Maniqueu que há de dizer que não sois homem; há de se levantar um Nestório que há de dizer que não sois Deus; há de se levantar um Calvino que há de dizer que não estais no Santíssimo Sacramento; hão-se de levantar infinitos heresiarcas outros, que hão de dizer contra vossa divindade e humanidade infinitas blasfêmias. Pois, se Deus estava prevendo tudo isto, e se antigamente podia tanto com Deus o que diriam os homens, por que agora faz tão pouco caso do que dirão? Porque antigamente encontrava-se o que dirão dos homens com o nosso castigo, agora encontrava-se com o nosso remédio: e quando o que dirão dos homens se encontra com o nosso castigo, deixa Deus de castigar pelo que dirão; mas, quando o que dirão dos homens se encontra com o nosso remédio, pelo que dirão os homens não deixa Deus de salvar. Vá por diante o negócio da salvação, e digam os homens o que quiserem. Cristãos há alguns de nós tão pusilânimes que, por medo do que dirão os homens, deixamos de fazer muitas coisas que importam à nossa salvação, Deus nos livre de uma cobardia como esta. Façamos por nossa salvação o que Deus fez pela nossa. Deus por me salvar a mim não fez caso do juízo dos homens, e será bem que o faça eu? Faça-se tudo o que for necessário à salvação e digam os homens o que quiserem, Que importa ser bem julgado dos homens, se vós não vos salvais? E se vós vos salvais, que importa ser mal julgado dos homens? Eis aqui como o juízo dos homens se despreza no juízo da penitência: Praedicans cans baptismum poenitentiae.

VIII – O juízo de Deus diante do tribunal da penitência. Que faz a penitência, ou que pode fazer, para revogar este tão independente e tão absoluto juízo? A penitência, para emendar o juízo de si mesmo, abre-nos os olhos; para desprezar o juízo dos homens, tapa-nos os ouvidos; para revogar o juízo de Deus, solta-nos o coração. A revogação do juízo de Deus nas palavras do profeta Joel.

Emendado no juízo da penitência o juízo de si mesmo, e desprezado o juízo dos homens, resta só por julgar o juízo de Deus, que, como temos dito, há de sair revogado neste juízo. Os outros dois juízos entrarão a ser julgados, e aparecerão diante do tribunal da penitência. Do juízo de Deus não sei como me atreva a dizer outro tanto. Não é o juízo de Deus aquele juízo supremo, que não só não reconhece superior, mas nem pode ter igual no céu nem na terra? Não é o juízo de Deus, de que falamos, aquele último e universal juízo, onde sem apelação nem agravo, se hão de absolver ou condenar, para toda a eternidade, aqueles que nele foram julgados, que hão de ser todos os homens? Pois, como pode ser que haja outro tribunal no mundo, em que a sentença deste juízo se revogue, ou como pode revogar-se?

O como, veremos logo: agora vejamos entrar o juízo de Deus, e apresentar-se diante do tribunal da penitência, acompanhado de toda aquela grandeza e temerosa majestade, que no último dia do mundo o fará horrível e tremendo. Não traz diante as varas e secures romanas, insígnias da suprema justiça e autoridade, mas traz aquela espada de dois gumes: Gladius ex utraque parte acutus (Ape. 1, 16) – que significam as duas penas de dano e de sentido, a que só o juízo de Deus, e nenhum humano, pode condenar não só os corpos, mas também os espíritos. Oh! que autoridade tão severa! Oh! que jurisdição tão horrenda! – Oh! que instrumentos tão formidáveis! Se assim faz tremer o juízo de Deus quando aparece a ser julgado, que será quando vier a julgar!

Mas que faz a penitência, ou que pode fazer, para revogar este tão absoluto e tão independente juízo? Faz quase o mesmo que para os demais. Para emendar o juízo de si mesmo, abre-nos os olhos; para desprezar o juízo dos homens, tapa-nos os ouvidos; para revogar o juízo de Deus, volta-nos o coração. Em dando uma volta o coração está o juízo de Deus revogado. Fala o profeta Joel à letra do juízo final de Deus: descreve o sol, a lua e as estrelas escurecidas, e o céu e a terra tremendo à sua vista: A facie ejus, contre muit terra, moti sunt caeli, sol et luna, obtenebrati sunt, et stellae retraxerunt splendorem suum[27]descreve os exércitos inumeráveis de anjos armados de rigor e obediência, de que o Senhor sairá acompanhado, como executores de sua justiça e vingança: Dominus dedit votem suam ante fatiem exercitus sue, quia multa sunt nimis castra ejus, guia fortia et facientia verbum ejus[28]; descreve, finalmente, a grandeza e terribilidade daquele temeroso dia: Magnus enim dies Domini, et terribilis valde[29]; e, perguntando quem haverá no mundo que o possa suportar Et quis sustinebit eum?- conclui com estas palavras: Nunc ergo, dicit Dominus, convertimini ad me in toco corde vestro[30]. Vedes todos estes aparatos, todos estes rigores, todos estes assombros de ira, de justiça, de vingança? Com dar uma volta ao coração está tudo acabado, Voltai o coração a mim, ou voltai-vos a mim com o coração, diz Deus, e toda a sentença que estiver culminada contra vós neste meu juízo ficará revogada: Nunc ergo, dicit Dominus, convertimini ad me in toco corde vestro. Notai o nunc eriço, pelo que agora; de maneira que a penitência há de ser agora, e o Juízo há de ser depois. Esta diferença há entre o juízo de Deus e o juízo dos homens: no juízo dos homens apela-se depois, no juízo de Deus apela-se antes: Nunc ergo: Agora, agora, cristãos, que agora é o tempo; e por que agora sim e depois não? Porque depois não pode haver penitência. Se depois do dia de juízo pudera haver penitência, pudera-se revogar a sentença do juízo de Deus; ruas a razão por que aquela sentença se não poderá revogar então é porque não há tribunal da penitência senão agora: Nunc ergo. Mas vejamos já os poderes deste tribunal por um exemplo, e seja o maior que houve no mundo: dai-me atenção.

IX – Conto se revoga o juízo de Deus no juízo da penitência. É tão superior a jurisdição do tribunal da penitência que o que no juízo de Deus se sentencia, no juízo da penitência se revoga. A penitência dos ninivitas e a revogação dos decretos divinos. Paralelo entre o Juízo final e o juízo da penitência.

Entra o profeta Jonas pregando ou apregoando pela cidade de Nínive: Adhuc quadraginta dies, et Ninive subvertetur (Jon. 3, 4): Daqui a quarenta dias se há de subverter Nínive. – Era esta a sentença que estava dada no tribunal da divina justiça pelos pecados daquela cidade; e o profeta não fazia mais que ofício de um notário de Deus que o publicava. Com este pregão andou Jonas por toda a cidade, a qual era tão desmedidamente grande, que não pôde chegar à praça onde estava ou paço menos que ao cabo de três dias. Soou a sentença nos ouvidos do rei: e que vos parece que faria? Desce-se do trono real em que se assentavam sempre os reis, conforme o costume daqueles tempos, rasga a púrpura, veste-se de um áspero cilício, tira a coroa, lança da mão o cetro, cobre a cabeça de cinza, e manda que vão seguindo a Jonas com outro pregão, em que se diga que faça toda a cidade o que el-rei fazia. O pregão de Deus ia diante, o pregão do rei ia atrás; o pregão de Deus, para se executar dali a quarenta dias, o pregão do rei, para que se executasse logo: e assim se fez. Vestiu-se de cilício a rainha, vestiram-se de cilício as damas, vestiram-se de cilício os cortesãos, vestiu-se de cilício todo o povo, e, o que se não pudera crer se o não dissera a Escritura, vestiram-se e cobriram-se também de cilício, para horror e assombro dos homens, até os mesmos animais. Desta maneira foi passando a cidade todos aqueles quarenta dias em contínuo jejum, em contínua oração, em contínuas lágrimas e clamores ao céu. Chegado o último dia, retirou-se Jonas a um monte, para ver como Nínive se subvertia: aportara ele às praias de Nínive, suponhamos, que às nove horas da manhã, e quando ouviu dar as oito daquele dia: – Ah! mísera cidade, que já não te resta mais que uma hora de duração! – Já se vê a suspensão em que passaria o profeta toda aquela hora. Tocam às nove: – Eis lá vai Nínive. – Assim se lhe figurou a Jonas, quase deslumbrado entre o lume dos olhos e o da profecia; mas Nínive ainda se tinha mão. As suas torres estavam mui direitas, os muros estavam muito firmes, e nem a casa que dantes estava para cair fez movimento algum,

Passou assim a primeira hora, passou a segunda, passou o dia todo, e Jonas a benzer-se e a pasmar. – Que é isto Senhor? Que é da fé de vossas palavras? Que é da verdade de vossos profetas? Não estava determinado no tribunal de vossa divina justiça que Nínive fosse subvertida por seus enormes pecados? Não estava assinado o termo preciso de quarenta dias para a execução? Não estava notificada por vosso mandado esta sentença? Não sou eu o que a publiquei? Pois, como agora falta tudo isto? Como passam os quarenta dias? Como fica a minha profecia sem cumprimento? Como fica Nínive em pé e a vossa palavra por terra? Se o dissestes foi porque o tínheis decretado, e se o tínheis decretado, por que não se executou? Porque o rei e o povo de Nínive foram tão discretos que, sendo-lhes notificada a sentença do juízo de Deus, apelaram para o tribunal da penitência. E é tão superior a jurisdição do tribunal da penitência, que o que no juízo de Deus se sentencia, no juízo da penitência se revoga, Disse superior, porque se estes dois juízos foram iguais, assim como no juízo da penitência se absolve o que no juízo de Deus se condena, assim no juízo de Deus se pudera condenar o que no juízo da penitência se absolvesse; mas é tão superior o juízo da penitência sobre o mesmo juízo de Deus – por excesso de misericórdia sua – que o que no juízo de Deus se condena, no juízo da penitência pode-se absolver; mas o que no juízo da penitência se absolve, no juízo de Deus não se pode condenar. Bendito seja ele: Qui dedit potestatem talem hominibus[31].

Tudo o que tenho dito é literal; mas ouçamos para maior confirmação a S. Paulino: Ninivitae meruerunt denuntiatum evadere excidium, quia se spontaneis luctibus cruciando divinam sententiam, praevenerunt sua: Os ninivitas – diz S. Paulino -impediram a execução do castigo que já lhes estava denunciado, porque, condenandose a voluntária penitência, preveniram a sentença de Deus com a sua. – De maneira que, por benefício da penitência, pôde mais a sentença que os ninivitas deram contra si, que a sentença que Deus tinha dado contra eles: divinam sententiam praevenerunt sua. – Oh! grande dignidade! Oh! grande soberania da penitência! No juízo final de Deus – ide notando comigo grandes diferenças e grandes excelências do juízo da penitência sobre o juízo de Deus – no juízo final de Deus, não é lícito apelar de um atributo divino para outro atributo, não é licito apelar da justiça de Deus para a sua misericórdia: no juízo da penitência, é lícito apelar da justiça de Deus para a minha justiça. No juízo final de Deus não se pode apelar do Filho para o Padre, nem do Padre para o Filho, nem do Padre e do Filho para o Espírito Santo, em suma, no juízo de Deus não se pode apelar de Deus para Deus: no juízo da penitência posso apelar de Deus para mim. No juízo final de Deus são condenados os pecadores a não ver a Deus: no juízo da penitência são condenados os pecadores a não o ofender: que suave condenação! No juízo final de Deus não aproveitam lágrimas nem prantos: no Juízo da penitência basta uma só lágrima para todos os pecados do mundo. No juízo final de Deus não valem intercessões: no juízo da penitência não são necessárias. No juízo final de Deus condenam-se os pecadores pelos pecados: no juízo da penitência condenam-se os pecados, e salvam-se os pecadores. No juízo final de Deus uns saem absoltos, outros saem condenados: no juízo da penitência ninguém se condena, todos saem absoltos. No juízo final de Deus manifestam-se os pecados a todos os homens: no juízo da penitência manifestam-se a um só homem. Finalmente, no juízo final de Deus, Cristo há de ser o juiz: no juízo da penitência Cristo é o advogado: Si qui, peccaverit, advocatum babemus apud Patrem, Jesum Christum justum[32]. Vede, com tal advogado no tribunal da penitência, que diferença haverá do advogar ao revogar! Como não será revogado ?uso, aonde é advogado o juiz! Assim se revoga o juízo de Deus no juízo da penitência: Praedicans baptismum poenitentiae. E temos o juízo de Deus revogado, o juízo dos homens desprezado e o juízo de si mesmo emendado.

X – Que resta a quem tem fé e a quem tem esperança, senão tratar de fazer penitência. Se o reino de Deus já é chegado, por que estamos nós dizendo todos os dias: Adveniat regnum tuum? Os três estados do reino de Deus. Que motivos de converter havemos de ter depois que agora não tenhamos? A vocação divina no capítulo primeiro dos Provérbios. Uma promessa muito mal entendida. Advertência final e oração.

Ora, cristãos, suposto que todos os males e perigos que temos visto nestes juízos têm o remédio na penitência, e suposto que eles são tão grandes que abraçam todos os bens da vida e todos os da eternidade, que resta a quem tem fé e a quem tem esperança, senão tratar de fazer penitência? Agite poenitentiam; appropinquavit enfim regnum caelorum (Mt. 3, 2): Fazei penitência, porque é chegado o reino dos céus. – Há mil e seiscentos anos que o Batista disse estas palavras, e nós estamos dizendo todos os dias: Adveniat regnum tuum. Pois, se o reino já então era chegado, como pedimos nós ainda agora que venha? O reino dos céus em todos os tempos tem três estados: um em que tem chegado, outro em que chega, outro em que vem chegando. Para os que estão mortos, tem chegado; para os que estão morrendo, chega; para os que estão vivos, vem chegando. A uns chegará mais cedo, a outros mais tarde, mas a todos muito brevemente. Esta é a consideração mais poderosa de todas, para nos mover à penitência, Façamos penitência, cristãos: não nos ache a morte impenitentes. Nenhum cristão há que não diga que há de fazer penitência, mas nenhum a quer começar logo, todos a deixam para o fim da vida: Praedicans baptismum poenitentiae in remissionem peccatorum. O Batista pregava o batismo de penitência para remissão dos pecados. Se queremos remissão de pecados, tomemos a penitência como batismo. Todos queremos a penitência com a Extrema Unção, lá para o fim da vida: não se há de tomar senão como Batismo, que não é lícito dilatá-lo a quem tem fé. Se tendes fé, como não fazeis penitência? E se tendes propósito de a fazer e de vos converter a Deus, para quando a dilatais? Si aliquando cur non modo, dizia Santo Agostinho: Se me hei de converter em algum tempo, esse tempo por que não será hoje? – Esta pergunta não tem resposta, nem o mesmo Santo Agostinho lha achou, nem os Aristóteles, nem os Platões, nem os anjos do céu, nem o mesmo demônio do inferno lha pôde achar jamais para nos enganar.

Cristãos da minha alma, sobre tantos juízos bem é que venhamos a contas. Se me ouve algum que esteja resoluto de não se converter jamais, não falo com ele; mas se tendes propósitos de vos converter: Si aliquando cur non modo? Se tendes propósitos, e dizeis que vos haveis de converter depois, por que o não fazeis agora? Que motivos haveis de ter depois, que agora não tenhais? Apertemos bem este ponto: estai comigo. Que motivos de vos converter haveis de ter depois, que agora não tenhais? Se depois haveis de fazer verdadeira penitência, a qual não pode ser verdadeira sem verdadeira contrição, há-vos de pesar de ter ofendido a Deus por ser Ele quem é: pois Deus hoje não é o mesmo que há de ser depois? Não é a mesma majestade, não é a mesma grandeza, não é a mesma onipotência? Não é tão bom, não é tão amável como há de ser então? Pois, se então o haveis de amar, por que o não amais agora? De maneira, pecador, que Deus então há de ser digno de ser amado sobre todas as coisas, e agora é digno de ser ofendido em todas? Si aliquando cur non modo? Mais: se depois vos haveis de arrepender bem e verdadeiramente, é força que vos pese de todo o coração de vos não haverdes arrependido agora: pois, que loucura é estardes agora fazendo por vosso gosto e por vossa vontade aquilo mesmo que nesta hora estais propondo de vos pesar depois de todo o coração? Ou então vos há de pesar ou não: se vos não há de pesar, condenais-vos; e se vos há de pesar, e propondes de vos pesar, por que o fazeis? Se vos não há de pesar depois do presente, por que vos não pesa agora do passado? Si aliquando cur non modo? Mais: se os motivos de vosso arrependimento não hão de ser contrição perfeita, nem amor de Deus sobre todas as coisas, senão temor das penas do inferno somente: Si aliquando cur non modo? Se por temor do inferno vos haveis de arrepender então, por que vos não arrependeis agora por temor do inferno? Porventura fostes já ao inferno, e perguntastes pela idade dos que lá estão ardendo? Se no inferno não ardem senão os homens de setenta e de oitenta anos, guardai embora a vossa emenda para essa idade; mas se ao inferno se vai de sete anos, por que se há de guardar a emenda para os setenta? Pois, se as mesmas razões e os mesmos motivos que havemos de ter depois temos agora, se então não havemos de ter nem uma coisa mais que agora, salvo mais pecados que chorar, e mais culpas de que nos arrepender: Se ali quando cur non modo?

Mas até agora imos argumentando em uma suposição que eu não quero conceder daqui por diante, porque vos quero desenganar de todo. Quem diz: Si aliquando cur non modo: se vos haveis de converter depois, porque vos não converteis agora- supõe que, se vos não converterdes agora, que vos haveis de converter depois. Eu não quero admitir tal suposição, porque quero mostrar o contrário. Cristãos, se vos não converterdes agora, ordinariamente falando, não vos haveis de converter depois. Dê-me licença Santo Agostinho para trocar a sua pergunta e apertar mais a dificuldade. Santo Agostinho diz: Si aliquando cur non modo: se nos havemos de converter depois, por que não nos convertemos agora? Eu digo: Si non modo cur aliquando? Se não nos convertemos agora, por que cuidamos que nos havemos de converter depois? As razões que haveis de ter depois para vos converter, todas essas, e muito maiores, tendes agora: pois, se estas razões não bastam para vos converter agora, como hão de bastar humanamente para vos converter depois? A força desta razão fez enforcar a Judas. Fez Judas consigo este discurso: – Maiores motivos do que eu tive para me converter não são possíveis, porque tive o mesmo Cristo a meus pés; pois, se Cristo a meus pés não foi bastante motivo para me converter, não me fica que esperar: venha um laço. – Cristãos, eu não quero desesperar a ninguém, nem quero dizer que a salvação não é possível em todo o tempo: o que só vos quero persuadir é o que dizem todas as Escrituras e todos os santos: que os que deixam a penitência para a hora da morte, ou para o fim da vida, têm muito arriscada sua salvação, porque raramente se salvam: Si non modo cur aliquando? Se não vos converteis agora que tendes vida, como vos haveis de converter depois, quando pode ser que a não tenhais? Dizeis que vos não converteis agora, mas que vos haveis de converter depois: e se o depois for agora? Se morrerdes no estado presente, se não chegardes a esse depois, que há de ser de vós? Quantos amanheceram e não anoiteceram! Quantos se deitaram à noite e não se levantaram pela manhã! Quantos, postos à mesa, os afogou um bocado! Quantos, indo por uma rua, os sepultou uma ruína! A quantos levou uma bala não esperada! Quantos endoideceram de repente! A quantos veio a febre junta com o delírio! A quantos um espasmo, a quantos uma apoplexia, a quantos infinitos acidentes, que, ou tiram o uso da razão, ou a vida! Todos estes cuidavam que haviam de morrer de uma morte ordinária, como vós cuidais, e quem vos deu a vós seguro de que vos não há de suceder o mesmo? Si non modo cur aliquando? Se agora que estais sãos com o uso livre de vossos sentidos e potências vos não converteis, como cuidais que vos haveis de converter na hora da morte, cercado de tantas angústias e de tantos estorvos, a mulher, os filhos, os criados, o testamento, as dívidas, os acredores, o confessor, os médicos, a febre, as dores, os remédios, a vida passada, a conta quase presente! Quando todas estas coisas juntas e cada uma delas bastaram para perturbar e pasmar uma alma, e não a deixar com o juízo e com a liberdade que pede a matéria de maior importância, quando já as potências estarão fora de seu lugar e vós mesmo não estareis em vós, como cuidais que vos podereis converter então?

Mas eu vos dou de barato a vida e a saúde, e o rigor das potências e dos sentidos: mais há que isto. Para um homem se converter não basta só vida, e saúde, e juízo, mas é principalmente necessária a graça de Deus. Pois: si non modo cur aliquando? Se agora que tendes ofendido menos a Deus, Deus vos não dá graça eficaz para vos converterdes, que será quando o tiverdes ofendido mais? Parece-vos que é boa diligência multiplicar as ofensas de Deus para granjear a graça de Deus? Se ides continuando assim, não há dúvida que depois haveis de ser muito pior ainda do que sois agora: pois, se agora que sois melhor, ou menos mau, vos não converteis, como haveis de fazer depois, quando fordes pior? Os pecados, quanto mais continuados, tanto mais endurecem e obstinam ao pecador: pois, si non modo cur aliquando? Se agora, quando o vosso coração não está ainda tão endurecido e tão obstinado, não há pregações, nem inspirações, nem exemplos, nem mortes repentinas e desastradas que vos abrandem, que será quando estiver feito de mármore e de diamante? Os pecados, com a continuação e com os hábitos, tomam cada vez mais forças, e fazem-se cada dia mais robustos, e a alma, pelo contrário, com o costume mais fraca: pois, si non modo cur aliquando? Diz a Escritura: Beatus qui occidit parvulos suos ad petram[33]: Bem-aventurado o que quebra a cabeça a seus pecados, quando pequenos: – Et tu – diz S. Baquiário – expectas donec inimicus tuus gigas efficiatur? E nós, para vencer estes inimigos, somos tão loucos que esperamos que eles se façam gigantes? – Se agora que os pecados estão menos robustos e crescidos, e a alma tem ainda algum vigor, os não podemos derribar e vencer, que será quando os pecados estiverem gigantes, e a triste alma tão envelhecida neles e tão enfraquecida que se não possa mover? Finalmente, cristãos, não vamos mais longe: se Deus nesta mesma hora vos está chamando, e vos está dando golpes ao coração, e vós não lho quereis abrir nem o quereis ouvir, como esperais que Deus vos chame depois, ou que vos ouça quando o chamardes, ou que vós o possais chamar como convém? Si non modo cur aliquando? O mesmo Deus por suas palavras quero que vos desengane desta vã esperança, em que vos confiais e vos precipitais ao inferno: ouvi a Deus no capítulo primeiro dos Provérbios: Vocavi, et renuistis (Prov. 1, 24): Chamei-vos, e não acudistes. Extendi manum meam, et non fuit qui aspiceret: Estendi a minha mão, e não houve quem fizesse caso. Despexistis omne consilium meum (ibid. 25): Desprezastes todos os meus conselhos. – E que se seguirá daqui? Ego quoque in interitu vestro ridebo, et subsannabo (ibid. 26): Eu também – diz Deus – quando vier a hora de vossa morte, zombarei, e não farei caso de vós: e, assim como agora eu vos chamo, e vós não me ouvis, assim, então, eu não ouvirei, ainda que vós me chameis: Tunc invocabunt me, et non exaudiam (ibid. 28). Cristãos, nós fiamo-nos em que Deus tem prometido que todas as vezes que o pecador o chamar de todo o coração o há de ouvir; e esta promessa anda muito mal entendida entre os homens. É necessário advertir o que Deus tem prometido nela, e o que não tem prometido. Deus tem prometido, que todas as vezes que o pecador o chamar de todo o seu coração, o há de ouvir, mas não tem prometido que todas as vezes que o pecador quiser o há de chamar de todo o seu coração. Vai muito de uma coisa a outra. Se chamardes a Deus de todo o coração, há-vos de ouvir Deus; mas, se vós agora não ouvirdes a Deus, depois não o haveis de chamar de todo o coração. O chamar de todo o coração não depende só de nosso alvedrio: depende de nosso alvedrio e mais da graça de Deus; e tem Deus decretado, conforme os juízos altíssimos de sua justiça, que o não possa chamar de coração na morte quem lhe não quis dar o coração na vida. Que faz Deus em toda a vida, senão estar-nos pedindo o coração: Fili, praebe coibi cor muni[34]; e como vós agora negais a Deus o coração que vos pede, assim Deus, então, vos negará justissimamente que lhe peçais de todo o coração. Deus agora busca-nos, e não nos acha: então buscaremos nós a Deus, e não o acharemos. O mesmo Deus o prometeu e ameaçou assim: Quaeretis, et non invenietis me, et in peccato vestro moriemini (Jo. 7, 34; 8, 21): Buscar-me-eis, e não me achareis, e morrereis em vosso pecado. – Não diz menos que isto.

Ora, cristãos, pelas chagas de Cristo, e pelo que deveis a vossas almas, não queirais que vos aconteça tão grande infelicidade, Desenganai-vos, e seja este o último desengano: que se vos não converteis desde logo, e continuais pelo caminho que ides, vos haveis de perder e condenar sem remédio. O remédio é: baptismum poenitentiae: uma contrição de coração muito verdadeira, uma confissão muito inteira e mui apostada, com firme resolução de não ofender mais a Deus. Enfim, fazei agora aquilo que dizeis que haveis de fazer depois. Se vos haveis de converter no fim da vida, imaginai que chegou já esse fim, que não é imaginação. Mas que importa, Senhor, que eu o diga, se a vossa graça não ajuda a tibieza de minhas palavras? Socorrei-nos Senhor, com o auxílio eficaz desses olhos de misericórdia e piedade: alumiai estes entendimentos, acendei estas vontades, abrasai e abrandai estes endurecidos corações, para que vos não sejam ingratos, e se aproveitem neles os merecimentos infinitos de vossa Encarnação. Per adventum tuum: Senhor, pelo amor com que viestes ao mundo a salvar as almas, eu vos peço que salveis hoje nossas almas, ao menos uma alma, Senhor, em honra de vosso Santíssimo Nascimento. Per nativitatem tuam: pelo amor e pela misericórdia com que nascestes em um presépio, por aqueles desampares, por aquele frio, por aquelas palhinhas, por aquelas lágrimas, por aquela extremada pobreza, e por aquele afeto ardentíssimo com que tudo isto padecestes por amor de nós. Virgem Santíssima, hoje é o dia dos encendidíssimos desejos de vossa expectação: parti conosco, Senhora, desses afetos, para que nasça também Cristo em nossas almas. Convertei os suspiros em inspirações, pedi a vosso querido Esposo, o Espírito Santo, trespasse nosso coração com um raio eficaz de sua luz, para que o amemos, para que o sirvamos, e para que mereçamos a sua graça, e, por meio dela, a glória,

_________
[1] Veio a palavra de Deus sobre João, e ele foi discorrendo por toda a terra do Jordão, pregando o batismo de penitencia para remissão de pecado(Lc. 3, 2 s).
[2] O qual sinto quão pouco dure.
[3] Saiu o que semeia a semear: a semente é a palavra de Deus (Lc. 8. 5, 11).
[4] A voz do que clama no deserto (Lc. 3, 4).
[5] O que olha para a terra, e a faz tremer (‘Si. 103, 32).
[6] Olhou, e derreteu as gentes (Hab. 3, 6).
[7] Tira o véu de meus olhos (Si. 118, 18).
[8] O meu pecado diante de mim está sempre (SI. 50, 5).
[9] Vendeu-se para fazer o mal (3 Rs. 21, 25).
[10] Pregando o batismo de penitência (Lc. 3, 3).
[11] Tu não ouves de quantos crimes te fazem cargo (Mt. 27, 13)?
[12] Mas eu, como um surdo, não ouvia (SI. 37, 14).
[13] Também o Senhor transferiu o teu pecado (2 Rs. 12, 13).
[14] Porque é pecadora (Lc. 7, 39).
[15] Para que foi este desperdício (Mt. 26, 8)?
[16] Deixou-me só com o serviço da casa (Lc. 10, 40).
[17] Não permitas, te rogo, que digam os egípcios (Êx. 32, 12).
[18] Que farás tu ao teu grande nome (Jos. 7, 9).
[19] Para que não digam talvez as gentes (SI. 78, 10).
[20] Tu és um samaritano, e tens o demônio (Jo. 8, 48)
[21] Blasfemou (Mt. 26, 65)
[22] Aquele embusteiro (Mt. 27, 63).
[23] Pervertendo a nossa nação (Lc. 23, 2).
[24] Ele expele os demônios em virtude de Belzebu, príncipe dos demônios (Lc. 11,15).
[25] A si mesmo não se pode salvar (Mt. 27, 42).
[26] Fartar-se-á de opróbrios (Lam. 3, 30).
[27] A terra tremeu diante deles, os céus se abalaram, o sol e a lua se escureceram, e as estrelas retiraram o seu esplendor (Jl. 2, 10).
[28] O Senhor fez ouvir a sua voz ante a face do seu exército, porque os seus arraiais são muitos em extremo, porque são fortes, e executam as suas ordens (ibid. 11).
[29] Porque o dia do Senhor é grande e sobremaneira terrível (ibidem).
[30] Agora, pois, diz o Senhor: Convertei-vos a mim de todo o vosso coração (ibid. 12).
[31] Que deu tal poder aos homens (Mt. 9, 8).
[32] Se algum ainda pecar, temos por advogado para como Pai a Jesus Cristo justo(] Jo. 2, 1).
[33] Ou mais exatamente: Beatus qui tenebit et allidet parvulos mos ad petram – diz o Salmista no cativeiro de Babilônia: Bem-aventurado o que apanhar às mãos. e fizer em pedaços numa pedra teus tenros filhos (SI. 136, 9).
[34] Dá-me, filho meu, o teu coração (Prov. 23, 26).

Fonte: https://www.literaturabrasileira.ufsc.br/documentos/?action=download&id=49799