Sermão da Terceira Dominga do Advento (1644)

SERMÃO DA TERCEIRA DOMINGA DO ADVENTO NA CAPELA REAL

ANO DE 1644


Miserunt Judaei ab Jerosolymis sacerdotes et levitas ad Joannem, ut interrogarent eum: Tu quis es[1]?

I – Em vez de o Batista vir do deserto à corte a pretender a dignidade, a dignidade foi da corte ao deserto a pretender o Batista. A razão e a razão da razão por que as pretensões e os pretendentes não hão de ser as pessoas, senão os ofícios. Por que Cristo despede a quem o quer seguir, e busca aos que o não procuram? Assunto do sermão: Quão venturoso seria o Reino de Portugal se seguisse a admirável política de Cristo!

Uma coisa que eu desejara muito ao Reino de Portugal conta o evangelista São João que se viu hoje na República de Jerusalém. Diz que os do governo daquela grande cidade mandaram uma embaixada aos desertos de Judéia, na qual ofereciam ao Batista a maior dignidade que nunca houve no mundo, querendo-o reconhecer e adorar por Messias. O que reparo muito neste caso é que em vez de o Batista vir do deserto à corte a pretender a dignidade a dignidade foi da corte ao deserto a pretender o Batista. E isto é o que eu desejara, como dizia, para o nosso reino. É força que haja pretensões e pretendentes, mas estes não hão de ser as pessoas, senão os ofícios:. E por quê? Darei a razão, e mais a razão da razão. A razão é porque não pode haver nem mais bem governada, nem mais bem servida república que onde os ofícios forem os pretendentes, e os homens os pretendidos. Assim foi hoje o Batista o pretendido, e o messiado o pretendente. E a razão desta razão é, não porque assim o fizeram os embaixadores e magistrados de Jerusalém, senão porque assim o ensinou com seu exemplo a primeira e suma verdade daquele supremo Rei, em cuja política não pode haver dúvida, nem nos seus ditames engano, nem erro, ou desacerto no seu governo.
Veio um homem oferecer-se a Cristo para o seguir a qualquer parte. Sequar te, quocumque ieris[2] – e diz o evangelista que o Senhor o despediu secamente, e o lançou de si com palavras ásperas. Vai o mesmo Cristo às praias de Galiléia, chama a Pedro, e André, e aos filhos do Zebedeu, e diz-lhes que o sigam: Venite post me[3]. – Pois, Senhor, se estes homens vos não buscam, por que lhes dizeis que vos sigam? E se outro homem diz que vos quer seguir em tudo e por tudo, por que o não admitis, antes o lançais de vós com aspereza? É culpa querer-vos seguir? É merecimento não vos buscar? Pois, se a quem vos não busca dizei que vos siga, a quem vos quer seguir, por que o não aceitais em vosso serviço? Porque Cristo, supremo monarca, e exemplar de todo o bom governo, não queria no seu reino homens pretendentes nem ofícios pretendidos: homens pretendidos e ofícios pretendentes, sim. Quando o outro homem pretendeu seguir a Cristo, o homem era o pretendente, e o apostolado o pretendido, pelo contrário, quando o Senhor chamou a Pedro e os demais, os homens eram os pretendidos, e o apostolado o pretendente; e homens que não pretendem os ofícios, senão os ofícios a eles, como hoje aconteceu ao Batista, estes são os que só podem compor, conservar e estabelecer um reino que houver de durar para sempre, como o de Cristo.
Oh! que venturoso seria o nosso, se nele se introduzisse esta nova e admirável política! E porque ela não é dos que governavam a corte de Jerusalém, senão ao supremo Governador e Mestre do mundo, e por isso verdadeiramente cristã, não será matéria alheia, senão muito própria deste lugar, e mais própria ainda do tempo presente, se eu a souber persuadir, como pretendo. Deus, a quem devemos a felicidade do tempo, e cujos exemplos e ditames somente hei de seguir em quanto disser, se sirva de me assistir com sua graça. Ave Maria.

II – As quatro principais conveniências desta política do céu, pouco entendida, e menos praticada na terra.

Miserunt Judaei ab Jerosolymis sacerdotes et levitas ad Joannem (Jo. 1, 19). – Assim como não foi o Batista o que veio do deserto à corte pretender a dignidade, senão a dignidade a que foi da corte ao deserto pretender o Batista, assim digo que em todo o reino bem governado não devem os homens pretender os ofícios, senão os ofícios pretender os homens, As razões desta política do céu, pouco entendida, e menos praticada na terra, são muitas. Eu, para maior brevidade e clareza, a reduzirei neste discurso a quatro principais, com nome de conveniências. Primeira, porque andaram mais autorizados os ofícios. Segunda, porque viverão mais descansados os beneméritos. Terceira, porque estará mais desembaraçada a corte. Quarta, porque será mais bem servida a república.

III – Primeira conveniência: os ofícios quando não pretendidos, serão mais autorizados. Quando esteve o ofício e dignidade episcopal mais autorizada, agora que a procura descobertamente a ambição, ou quando a recusava a modéstia, e fugia dela a consciência? As igrejas, esposas dos prelados eclesiásticos, são como a Esposa dos Cantares: bela como a lua, e formidável como um exército armado posto em campo. As dignidades e ofícios seculares. O que buscava Saul e o que encontrou.

Quanto à primeira conveniência, de que os ofícios, quando não forem pretendidos, então serão mais autorizados, não faltará quem cuide e diga o contrário, e parece que com bons fundamentos. Não é grande autoridade e crédito do ouro entre os outros metais, que todos o desejem, procurem e façam tantos extremos por ele? Não foi grande autoridade da formosura que pela de Helena contendessem com tanto empenho, e se dessem tantas batalhas a Grécia e Tróia? Logo, da mesma maneira será grande autoridade e crédito dos ofícios que concorram muitos a os pretender, e que a ambição e emulação dos opositores se empenhe com todas as forças em os conseguir. E quanto maiores forem as negociações, as diligências, as controvérsias, as valias, e ainda as valias e ainda as adulações e os subornos dos que os pretendem alcançar, tanto mais crescerá a estimação e autoridade dos mesmos ofícios assim pretendidos. Pelo contrário, se eles forem os que hão de pretender, não terão estimação nem séquito, e ficarão solitários, e, quando menos, mal providos. Já Tertuliano ponderou gravemente a quantas indignidades se sujeitam e abatem os que pretendem subir às dignidades; e, se os ofícios se fizerem pretendentes, pelo mesmo caso se farão indignos, e perderão o nome da honra e dignidade, que é o que os acredita e autoriza.
Ora, antes que desfaça a aparência destas objeções, quero-as convencer com a evidência de um exemplo que todos trazemos diante dos olhos, e ninguém pode negar. O ofício, os embaixadores, e os que hoje mandaram, e o mesmo Batista, tudo era eclesiástico; seja, pois, também eclesiástico o exemplo. Pergunto: quando esteve mais autorizado na Igreja o ofício e dignidade episcopal? Quando os santos – de que é infinito o número – se não atreviam a o pretender, mas, pretendidos eles, buscados e aclamados, se metiam pelos bosques, e se escondiam nas covas, temendo e fugindo de tão alta dignidade, ou agora, quando tantos freqüentam os palácios dos reis, e os tribunais e casas dos ministros, fazendo oposição com a cara descoberta às mitras, e ostentando letras, antigüidades e cargos da religião, e talvez os procedimentos e as mesmas virtudes, para que as cabeças cheias destes pensamentos sejam coroadas com aquela sagrada insígnia? Torno a perguntar, quando esteve o ofício e dignidade episcopal mais autorizada? Agora, quando tantos a pretendem, ou quando ela era a pretendente? Agora que a procura descobertamente a ambição, ou quando a recusava a modéstia, e fugia dela a consciência? Os mesmos sagrados cânones respondem à minha pergunta. E que dizem? Quaeratur cogendus, qui rogatus recedat, et invitatus fugiat. – Notai as palavras. Quaeratur: busque-se. E quem, há de ser o buscado? O bispado e o ofício? Não, senão o homem digno dele. E esse homem digno, que qualidades há de ter? Grande casa? Grande nobreza? Grande apelido? Grandes cargos, antecedentes? Não diz isto o Cânon. Pois, que diz? Que seja tal que o hajam de obrigar por força a aceitar: Quaeratur cogendus – e que rogado com a Igreja se retire, e convidado com a dignidade fuja dela: Qui rogatus recedat, invitatus fugiat.
As igrejas são as esposas dos prelados eclesiásticos, e verdadeiramente que elas são tão formosas e bem dotadas que parecem devem causar amor, e ainda cobiça; mas que as mesmas esposas hajam de meter medo aos que elas buscam e pretendem, e os buscados, convidados e rogados hajam de fugir delas! Sim. Vamos à Escritura. Fala o texto sagrado de uma destas esposas – em que se representam todas – e diz assim: Quae est ista quae progreditur quasi aurora consurgens, pulchra ut luna, electa ut sol (Cânt. 6,9)? Quem é esta que sai resplandecente como a aurora, formosa como a lua, e escolhida como o sol? – Já aqui temos respondidos ou correspondidos os dois exemplos acima alegados, da estimação do ouro e da formosura de Helena. Aurora deriva-se de aurum, que em latim é o ouro, e Helena deriva-se de elion, que em grego é o sol pois, se as esposas eclesiásticas são tão ricas e arraiadas de ouro como a aurora, e tão semelhantes na formosura, não só à lua entre as estrelas, senão no mesmo sol, em cuja presença desaparecem como é possível que, em vez de causarem cobiça com a riqueza, e amor com a formosura, causem tal medo e horror aos mesmos que elas pretendem, convidam e rogam, que os façam retirar, esconder e fugir: Qui rogatus recedat, invitatus fugiat? – O mesmo texto o declara admiravelmente no que logo acrescenta: Quasi aurora consurgens, pulchra ut luna, electa ut sol, terribilis ut castrorum acies ordinata (Cânt. 6, 9). – De sorte que a mesma esposa, que por uma parte é tão dourada como a aurora, tão prateada como a lua, e tão formosa como o sol, por outra parte é tão terrível, tão formidável e temerosa como um exército armado posto em campo. – Terribilis, pavoremque incutiens – verte e comenta Símaco. – Que muito, logo, que uma tão grande diferença produza tão encontrados afetos? No exército de Saul, todos apeteciam a honra e cobiçavam os prêmios que o rei prometia a quem saísse a desafio com o filisteu; mas quando viam o gigante de tão desmedida estatura, e as armas iguais aos membros, com que parecia uma torre de feno, todos desmaiavam e tremiam. Assim também a esposa, como rica e formosa causava cobiça e amor, mas como exército armado causava pavor e assombro. E se alguém me perguntar como a esposa, sendo uma só, em si mesma e de si mesma podia formar um exército, questão era esta digna de a excitarem e resolverem os expositores – o que não fizeram. – Mas a resposta e a razão é muito clara. Já dissemos que as esposas dos prelados eclesiásticos são as igrejas e dioceses, e como elas se compõem, não só de mil, senão de muitas mil almas, estas são as que formam o exército terrível e formidável, porque de todas hão de dar conta a Deus. Logo, não é maravilha que uns apeteçam a mesma dignidade, outros a temam e fujam dela. Os que a vêem sicut aurora consurgens, pulchra ut luna, electa ut sol, e param aqui, deixam-se levar da riqueza do dote e da formosura da esposa; porém, os que passam adiante, e a consideram terribilis ut castrorum acies ordinata, terrível e formidável como um exército armado posto em campo, têm razão de se retirar, temer e fugir: Qui rogatus recedat, invitatus fugiat.
E por que não pareça que este temor e retiro de não apetecer nem pretender dignidades, antes fugir delas, toca só às prelasias e dignidades eclesiásticas, a mesma razão concorre nos magistrados, governos e ofícios seculares, que têm jurisdição, ou toda, ou repartida sobre os povos. E se não, ponhamos o caso em um homem leigo, e tão leigo que o não podia ser mais. Quando Saul andava buscando as jumentas de seu pai, Samuel, mandado por Deus, o ungiu em rei de Israel. Vede o que buscava e o que achou, ou, falando mais a nosso propósito, vede o que buscava e o para que o buscavam. Chegado, pois, o dia em que se havia de publicar o que até ali estava oculto, convocou o mesmo Samuel na cidade de Masfá as doze tribos[4], e, lançadas sortes sobre todos, para que todos entrassem à eleição e nenhum fosse excluído, no meio desta universal expectação saiu a sorte sobre a tribo de Benjamim. Restava ainda por saber qual fosse a família da mesma tribo, e qual a pessoa da família, e, continuando as sortes, saiu a família de Cis, e nela seu filho Saul. Este era o que já tinha sido secretamente ungido, e só ele faltava naquele universal ajuntamento, nem aparecia. Bem se deixa ver as diligências que se faziam por lhe levar a nova e ganhar as alvíssaras, e, contudo, ninguém o pode descobrir, nem novas dele. Assim andava o ofício – e tal ofício – buscando o homem, e o homem fugindo do ofício. Que remédio? Foi necessário que o profeta consultasse a Deus, e respondeu o divino oráculo que estava escondido em sua casa: Respondit Dominus: Ecce absconditus est domi[5].
Esta última palavra parece que desfaz quanto imos dizendo. O mesmo Saul, quando Samuel o ungiu, replicou que não só a sua tribo era a menor de Israel, senão também a sua casa a menor e a mínima casa da sua tribo. Non filius Jemini ego sum de minima tribu Israel, et cognatio mea novissima inter omnes familias Benjamin[6]? – Logo, se o homem pretendido para o ofício era da menor casa da menor tribo, parece que foi errada a eleição do ofício, que nesse caso era o pretendente? Assim o cuidaram os que medem os homens pelas casas. O erro por que muitas vezes se não acertam as eleições dos ofícios, é porque se buscam os homens grandes nas casas grandes, e eles estão escondidos nas casas pequenas: Ecce absconditus est domi (1 Rs. 10, 22). – Enfim, apareceu o escondido, e viram e confessaram todos que na menor casa de Israel estava encoberto o maior homem de Israel: Certe videtis quem elegit Dominus, quod non sit similis illi in omni populo[7]. – Note-se muito a cláusula quem elegit Dominus, e digam-me agora os que se não prezarem de mais entendidos que Deus, se neste primeiro provimento ficou desautorizado o ofício por não ser ele o pretendido, senão o pretendente. Se se puseram editais para o governo do novo reino, e ele se houvesse de dar por oposição, quantos pretendentes, e quão estirados haviam de aparecer em Masfá diante de Samuel, fundando cada um a sua pretensão em grandes merecimentos. Os da tribo de Rúben, que foi o primogênito, pela prerrogativa da antigüidade; os da tribo real de Judá, pela soberania do sangue em que já trazia a púrpura; os da tribo de Efraim e Manassés, pela duplicada bênção e herança de Jacó, seu avó, e de José, seu pai. Mas, porque os homens não foram os pretendentes do ofício, senão o ofício pretendentes do homem, o qual fugia e se escondia dele, sendo esse mesmo homem o maior de todo Israel, vede se ficou mais autorizado o ofício.

IV – O concurso dos pretendentes e competidores. Onde ficará o ofício mais autorizado: onde servir ou onde for servido? Os pretendentes ao Sumo Pontificado de Arão, e os competidores na eleição de Davi. A honra e autoridade dos eleitos provada pela indignidade dos excluídos.

Enquanto ao concurso dos pretendentes e competidores, quando os homens são os que pretendem os ofícios, e não eles aos homens, tão fora está esta multidão de acrescentai autoridade ao ofício, que antes se desacredita a si e a ele. E se não, digam os mesmos pretendentes por que pretendem o ofício. Ou pela honra, ou pelo interesse. Se pela honra, mal a podem dar aos ofícios que se pretendem honrar com ele; e se pelo interesse, bem se vê que não querem o ofício para o servir, senão para se servirem dele; e onde ficará o ofício mais autorizado, onde servir, ou onde for servido? Pelo contrário, quando o ofício é o pretendente do homem, sendo o homem sempre o mais digno, na mesma dignidade do homem pretendido se conserva a autoridade do oficio pretendente, e na exclusão dos indignos, sempre excluídos, fica sempre a autoridade segura de se arriscar ou perder. Vamos à experiência.
O maior oficio e dignidade da lei antiga, como também da nova, é o Pontificado e Sumo Sacerdócio. Houve de se prover este oficio a primeira vez, e não foram os homens os que pretenderam o oficio, senão o oficio o que pretendeu o homem. Assim o diz expressamente São Paulo: Nec quisqumn sumir sibi honorem, sed qui vocatur a Deo tanquam Aaron[8]. – Foi, pois, eleito ao Sumo Pontificado um homem tão grande como Arão, mas como este homem era irmão de Moisés, governador universal do povo, julgaram e murmuraram os homens que também o homem fora empenhado na eleição do ofício, e não o ofício na eleição do homem. – Bom remédio – diz Deus. – Ponha-se a vara de Arão no tabernáculo na minha presença, e ponham igualmente no mesmo lugar todas as varas dos príncipes das doze tribos, e o efeito mostrará quem é o mais digno. – Fez-se assim, e, em espaço de doze horas somente, a vara de Arão se vestiu de flores e carregou de frutos, e as outras ficaram tão nuas e secas como tinham entrado no tabernáculo. Não lhes fora melhor a estes doze pretendentes não pretenderem nem competirem com Arão? Claro está que sim. Cada um deles no seu pensamento se media com Arão, mas a experiência mostrou que todas as suas varas eram tão curtas que nenhuma igualou a medida de tão grande homem. E por quê? Porque era um homem que não pretendeu ele o ofício, como os demais, senão o ofício a ele. Por isso no concurso de tantos triunfou de todos, e com dobrada honra e autoridade, não só ficou o ofício mais autorizado na dignidade do eleito, senão também na indignidade dos excluídos.
No concurso dos ofícios seculares sucede o mesmo. Chega o profeta Samuel à casa de Isaí ou Jessé, e diz que de mandado de Deus vem ungir um de seus filhos por rei. Tinha Jessé oito filhos, sete dos quais se achavam na mesma casa, e, divulgada a nova de tão grande e não esperada fortuna, já se vê qual seria o alvoroço de todos, e quais os pensamentos de cada um. Vieram à presença do profeta, chamados pela ordem da idade, e foi o primeiro Eliab moço de alta e galharda estatura, e lhe pareceu ao profeta que aquela gentileza era digníssima da coroa. Mas disse-lhe Deus que ele não elege os homens pela cara, senão pelo coração, e que não era Eliab o eleito. Veio o segundo, Abinadab[9], e teve a mesma resposta. Veio Sarna, que era o terceiro, vieram os demais até o sétimo, e todos foram excluídos. Admirado Samuel, perguntou se havia mais algum filho, e respondeu Isaí que só restava o menor de todos, o qual não estava em casa, porque guardava as ovelhas. Veio, enfim, o pastorzinho, o qual se chamava Davi, e este, que no nascimento, na casa e na ocupação tinha o último lugar, declarou Deus que era o que sua providência tinha destinado para a coroa, e como tal o ungiu logo o profeta na presença de todos os irmãos. Mas, se ele era o que havia de ser ungido, por que o não revelou Deus ao profeta nem antes nem depois de entrar na casa de Isaí, mas, com tão notável cerimônia, ordenou que viessem primeiro, e fossem excluídos os outros irmãos, e em presença de todos recebesse Davi a investidura do reino? A razão, diz S. João Crisóstomo, foi por que lhe não sucedesse a Davi com seus irmãos o que tinha sucedido a José com os seus: Ne videlicet idem Davidi accideret, quod prius Josepho. – A José revelou Deus que seus irmãos o haviam de adorar; mas como esta revelação foi feita em sonhos, chamavam-lhe os irmãos o sonhador, e, primeiro com a morte, e depois com a venda, lhe quiseram impedir a preeminência sonhada. Pois, para que a Davi lhe não suceda o mesmo com seus irmãos, vejam todos com os olhos abertos que em sua presença foi ungido pelo profeta, e, sendo testemunhas oculares da eleição divina, a inveja que lhes entrou pelos mesmos olhos se desengane, que a não pode impedir nem frustrar. Oh! que formosa e triste representação de quanto perturba os afetos e obrigações humanas uma eleição não esperada! De uma parte Davi ungido, da outra todos seus irmãos com diferentes semblantes, uns de admiração, outros de confusão, outros de desesperação, todos de sentimento, todos de dor, todos de ira, todos de inveja, e nenhum de verdadeiro amor! Tão fora esteve aqui o concurso de autorizar o ofício, que antes o ofício desautorizou o concurso, porque, buscando não o homem o ofício, senão o ofício ao homem, sete homens maiores foram excluídos e repudiados como menos dignos, e ao menor de todos, que ainda não chegava a ser homem, se lhe assentou na cabeça a coroa como digníssimo. Mais claramente estou vendo o oculto mistério da eleição nos que ela deixou que no mesmo que escolheu. Nos jogos de descarte, pelo descarte se vê claramente quão seguro tem na mão o triunfo quem há de vencer. Quando Deus – digamo-lo assim – se descarta de sete homens, tão grandes como os filhos maiores de Isaí, bem mostra que só em Davi tem o jogo seguro. Assim foi, e assim ficam autorizados os ofícios, quando eles são os pretendentes dos homens, e não os homens deles.

V – Segunda conveniência sendo os ofícios os pretendentes viverão mais descansados os beneméritos. Ainda a eleição de Davi. Quais foram os talentos ou merecimentos de Pedro o pescador para se ver exaltado ao Sumo Pontificado?A grande proporção que tem a arte e ofício de pescador com o de Pontífice.

A segunda conveniência deste trocado modo de pretender, é que viverão mais descansados os beneméritos. Procurarão somente merecer, estando muitos certos que ainda que vivam retirados da corte, e muito longe dos olhos do príncipe, lá os irão buscar e pretender as dignidades, como ao Batista no seu deserto. Ainda não estamos longe da casa de Isaí. Põe-se alguns passos atrás da história que acabamos de referir, e exclama assim São Basílio de Selêucia: O res mirabilis! David cum ovibus sub diu agit, et Deus in caelo consilia cogitar. David gregem pascit solicitus, Deus ínterim thronum apparat: Oh! caso verdadeiramente admirável! Considerai-me – diz S. Basílio – a Deus no céu, e a Davi no campo, e notai quão diferentes são no mesmo tempo os cuidados do supremo Monarca e do humilde pastorinho. Davi está solícito sobre o rebanho, e Deus fazendo conselhos sobre Davi, Davi levando as ovelhas ao pasto, e Deus preparando-lhe o trono. – Ainda eu considero mais descansado a Davi do que a eloqüência de Basílio o representa. Quando ele, fugindo de Saul, se acolheu à corte de el-rei Aquis, e para viver se fingiu doido, valia-se para esta simulação das artes em que se exercitara quando pastor, e uma era tocar o tamboril e a frauta. Assim o exprime o texto grego. Por sinal que os sátrapas do mesmo rei Aquis mais se temiam do tamboril e frauta do mesmo Davi, que das caixas e trombetas de todo o exército de Saul. Considerai-me, pois, ao pastorzinho como Títiro à sombra da faia tocando a sua frauta, e Deus, que lhe conhecia o talento, decretando-lhe a coroa. Pode haver maior cuidado no céu e maior descanso na terra? Pois este é o que gozam no seu i retiro os beneméritos. Eliab, Abinadab e Sarna, irmãos mais velhos de Davi, e seguiam as armas e militavam no exército de Saul, quando muito seriam pretendentes de um venábulo e de uma gineta, suportando os trabalhos e perigos da guerra. E Davi, porque debaixo da samarra criava maior valor e talento que eles, sem marchar de dia, nem fazer a sentinela de noite, nem estar sujeito à ordem de uma legião de oficiais, não só se habilitava no cajado para o bastão do exército, senão para o cetro do reino.
Passemos do campo ao mar, e ponhamo-nos nas praias e ribeira do Tiberíades. Na praia andava passeando Cristo: Ambulans Jesus juxta mare Galilaeae[10] – e na ribeira viu a Pedro e a seu irmão, que estavam lançando as redes ao mar: Vidit duos fratres mittentes rete in mare (Mt. 4, 18). – Acrescenta o evangelista: Erant enim piscatores: porque eram pescadores – e eu pergunto sobre quem cai esta advertência? Todos dizem que sobre Pedro e seu irmão, e eu digo que não só cai sobre Pedro e André, senão também sobre Cristo, porque Cristo e eles, naquela ocasião, todos eram pescadores. Eles pescadores, porque estavam lançando as redes ao mar para pescar peixes, e Cristo pescador, porque andava passeando na praia para os pescar a eles. Excelentemente São João Crisóstomo: Piscator eos Jesus, uti ipsi piscentur alios. Ipsi primum pisces efficiuntur ut piscentur a Christo, postea alios piscaturi. – Suposto, pois, que Pedro com seu irmão e com as suas redes pescava, e Cristo só e sem redes também pescou, pergunto outra vez qual foi maior e melhor pescador, Pedro ou Cristo? Não há dúvida que Cristo era o melhor, mas ambos foram grandes pescadores. Cristo grande pescador, porque do primeiro lanço pescou um pontífice, e Pedro grande pescador, porque, sem recolher o lanço, pescou o Pontificado. Isto é o que significam ainda hoje, e significarão até o fim do mundo, as assinaturas e selos de todos os decretos pontifícios: debaixo do anel do pescador: Sub annulo Piscatoris. – Agora tomara eu poder entrar naquela grande cabeça, que depois foi coroada com a suprema tiara, e examinar-lhe os pensamentos, não só desta hora, senão de toda a sua vida. Porventura em toda a sua vida, quando Pedro ouvia dizer que em Jerusalém residia o Sumo Pontífice, ou fosse Simão, ou Matias, ou Joasaro, ou Eliasaro, ou Anano, ou Cai-fás, que são os que sucederam em seu tempo, veio-lhe algum dia ao pensamento, ou acordado, ou sonhando, que poderia ele subir àquela suprema dignidade? É certo que nunca a sua barca navegou com tão próspero vento e maré que tal coisa lhe passasse pela imaginação. E, contudo, desde a sua eternidade o tinha Deus destinado para outra e mais universal tiara, não dependente dos Césares romanos, ou dos tenentes da Síria, e na Judéia, que eram os que punham uns e despunham outros, mas estabelecida em si e em seus sucessores pela eleição o imutável da providência divina.
E se, assim como eu tenho perguntado tanto, me perguntaram também sobre que merecimento ou talentos de Pedro assentou Deus a proporção e justiça destes seus decretos, responde Eusébio Galicano que sobre a grande proporção que tem a arte e oficio de pescador com o de pontífice. Sobre a prudência de governar o leme, e sustentar elevar segura a barca; sobre constância e valor de contrastar com os mares e com os ventos; sobre o sofrimento e dureza, sem mimo nem regalo, de suportar os trabalhos; sobre a vigilância de observar a lua e as estrelas, e contar os passos às marés de dia e de noite; sobre a discrição de usar do remo ou da vela, segundo a oportunidade dos tempos, e muito particularmente sobre o instrumento universal, não do anzol ou do arpão, senão da rede, que cerca e abraça sem distinção a todos. E assim lemos deste grande pescador de homens que os pescava a milhares, ou a milheiros, em um lanço três mil, e em outro cinco mil. E como Pedro em tão singular ciência e talento se aplicava todo ao ofício da sua profissão, neste mesmo descuido, esquecimento e ócio de outras maiores pretensões ou desejos, se habilitava e fazia digno de que o mesmo Deus o fosse buscar às suas praias, e a maior dignidade e oficio do universo o pretendesse a ele, quando ele, no trabalho e descanso do seu não pretendia outro.

VI – A felicidade dos retirados ao descanso de não pretender, se fazem merecedores de ser pretendidos, e a infelicidade dos que, por ser pretendentes, nunca chegam a alcançar o descanso. As pretensões de Jacó e o descanso de José. A imitação das criaturas a que a natureza não deu razão nem sentido, e que, ocupadas só em crescer e se fazer a si mesmas, sem elas pretenderem nem buscarem a outrem, todos as buscam e pretendem a elas.

E para que vejamos quão ditosos e prudentes são os que, retirados ao descanso de não pretender, se fazem merecedores de ser pretendidos, e a infelicidade e mau conselho dos que, por ser pretendentes, nunca chegam a alcançar o descanso, leiamos a história de uma e outra fortuna em dois homens, não encontrados, mas pai e filho, Jacó e José. Jacó, ainda antes de nascer, começou a ser pretendente da bênção e morgado de Isac, lutando com seu irmão Esaú, desde as entranhas da mãe, sobre esta pretensão. Há poucos anos de nascido, conhecendo que o pai estava inclinado a Esaú, por haver sido o primogênito, para lhe fazer guerra com partido igual tratou de lisonjear e ganhar a vontade à mãe, não saindo jamais de sua presença: Jacob habitans in tabernaculis[11]. – Outra vez, dizendo-lhe Esaú que estava morrendo à fome, soube-se aproveitar tão bem da ocasião e tão mal das obrigações da irmandade, que lhe não quis emprestar o socorro da vida, senão a preço do mesmo morgado, sujeitando à força da necessidade a que lho vendesse. Chegado, enfim, o dia em que o pai havia de dar a bênção a Esaú, sabidos são os dolos, os enganos e as falsidades com que lha roubou com nome falso, com vestidos falsos, com mãos falsas, com iguarias falsas, infiel ao irmão, infiel ao pai e infiel ao mesmo Deus, alegando que fora vontade de Deus ter acha do tão depressa a caça, sem haver tal caça, nem tal pressa, nem tal vontade de Deus. Já agora parece que estará contente Jacó com a vitória em contenda tão duvidosa, mas não foi assim, porque, alcançando por tais meios o fim da sua pretensão, nem por isso conseguiu o descanso e felicidade que se prometia no domínio de tão opulenta herança, antes agora foram maiores e mais perigosos os seus trabalhos, obrigado, pobre, e com um pau na mão, a perder a casa do pai, a deixar o amor da mãe, e a se desterrar da pátria por salvar a vida. Ide embora, peregrino pretendente, caminhai subindo montes e descendo vales, chegai cansado à terra onde vos leva vosso destino, que lá pretendereis outra vez, e achareis a paga do vosso merecimento. Pretendeu Jacó a Raquel, filha de Labão, e ao cabo de sete anos que serviu por ela, deram-lhe em lugar de Raquel a Lia, com obrigação de servir outros sete. Servia de pastor a partido, e, posto que foram muitas as ovelhas que contou, os dolos e injustiças que nos mesmos partidos lhe faziam cada hora não tiveram conto. Desta maneira vingou Labão a Esaú, e padeceu Jacó, nos enganos de seu sogro, os que tinha feito a seu irmão.
Ponhamos agora à vista deste retrato de Jacó, sempre pretendente e nunca com descanso, a imagem tão diversa de José, seu filho, a quem em toda a parte pretenderam sempre os maiores lugares, sem ele dar um passo, nem ocupar um pensamento em os pretender. Filho em casa de seu pai, cativo e vendido a Putifar, preso nos cárceres do Egito, ministro no palácio de Faraó, esta foi em toda a parte a fortuna de José, ela pretendendo-o sempre, e elo nunca pretendente dela. Filho em casa de seu pai. de quem era o mais favorecido, estava dormindo José, e no campo as paveias dos segadores, e no céu o sol, a lua e as estrelas, que lhe vigiavam o sono, lhe estavam prometendo as adorações de seus irmãos e do mesmo pai. Vendido a Putifar, quando como escravo podia esperar um lugar na cavalariça, o senhor lhe deu o seu, mandando a todos que lhe obedecessem, e a ele que governasse a casa e toda sua fazenda, da qual, como dono, e não criado, se lhe não pedia conta. No cárcere do Egito, onde entrou como réu, e do mais grave crime, logo de preso passou a carcereiro, fiando-se-lhe as chaves, e o aperto ou alívio das cadeias, e o que é mais, pronunciando, antes da sentença dos juízes, ou o castigo aos que haviam de ser condenados, ou a soltura e liberdade aos que saíam absoltos. Finalmente, tirado da prisão e levado a palácio, el-rei Faraó não só o levantou ao lugar de seu primeiro ministro, mas lhe deu a representação e tenência de sua própria pessoa, sem mais diferença que a das insígnias reais, reservando o rei para si o cetro sem o governo, e dando a José o governo sem o cetro. Tais foram as fortunas de José em todos os estados de sua vida, e se alguém deseja saber com que artes a conseguiu, digo que com duas coisas: com se fazer sempre merecedor delas, e com nunca as pretender. Depois dos dois sonhos do rei, e sabido que em todas as ribeiras do Nilo e terras do Egito a sete anos de fartura haviam de suceder outros sete de fome, só aconselhou José ao rei que, para remediar a esterilidade de uns com a fertilidade de outros, se encomendasse o cargo desta prevenção a pessoa de talento e indústria que em todas as cidades do reino a fizesse executar. Pareceu bem o conselho ao rei e a todos seus ministros, e reconhecendo que em nenhum outro homem se podiam achar partes iguais às de José para aquela tão importante superintendência, logo foi nomeado no ofício com todos os poderes reais. De maneira que uma só vez que José falou em ofício, e o procurou para outro homem, não, estrangeiro com ele, senão egípcio, o ofício às avessas se fez pretendente do homem, e pretendeu ao mesmo José, e o conseguiu.
Oh! se acabassem os homens de querer antes imitar a José que a Jacó, e tratar mais de ser beneméritos que pretendentes! Se não bastam os exemplos humanos para nos persuadir esta honrada e descansada indústria, ponhamos os olhos em todas as outras criaturas a que a natureza não deu razão nem sentido, e veremos como todas as que têm valor e préstimo, ocupadas só em crescer e se fazer a si mesmas, sem elas pretenderem nem buscarem a outrem todos as buscam e pretendem a elas. Que fazia a oliveira, a figueira e a vide, senão carregar-se de frutos, quando toda a república verde das árvores e plantas lhes foi oferecer o governo e o império? Não o quiseram aceitar, porque se contentaram com o merecer. Deixe-se crescer o pinheiro, e subir até as nuvens na Noruega, que de lá o irão tirar para masto grande, e levar a bandeira no tope. Cresça também o cedro gigante do Líbano, e saiba que quando daquele monte for passado ao de Sião, não é para o sobredourar o ouro do Templo, mas para ele, com maior dignidade, cobrir e revestir o mesmo ouro. Bem mal cuidava o marfim na sua fortuna, quando se via endurecer nos dentes do elefante, e dali foi levado para trono de Salomão. Que descuidados crescem os rubis em Ceilão, e em Colocondá os diamantes, e lá os mandam conquistar com armadas os reis, para resplendor e ornato das suas coroas. Empreguem todo o seu cuidado os grandes sujeitos em aperfeiçoar os talentos e dotes que neles depositou a natureza ou a graça, e, se por retirados e escondidos cuidarem que perdem tempo e estimação, lembrem-se que, sepultadas as pérolas no fundo do mar, e a prata no centro da terra, nem às pérolas falta quem pelas desafogar afogue a respiração, nem à prata quem pelas desenterrar enterre a vida.
Os que se acharem com espírito guerreiro exercitem a arquitetura militar e a formatura dos exércitos na paz, e dêem sós por sós consigo as batalhas secas, para que depois as possam tingir no sangue dos inimigos. O político faça-se versado em toda a lição das histórias, e aprenda mais na prática dos exemplos que na especulação do discurso a resolução dos casos futuros e a experiência dos passados. O inclinado às letras procure com o estudo universal as notícias de todas as ciências, e não cuide que só com a memória de poucos textos das leis lhe podem dar as demandas e trapaças o falso e mal merecido nome de letrado; enfim, por humilde e rasteira que seja a inclinação ou fortuna de cada um, faça-se no seu estado insigne, lembrando-se que os antigos romanos, do arado eram escolhidos para o bastão, e do triunfo tornavam outra vez ao arado. E se acaso nestes solitários exercícios julgarem que estão ociosos por lhes tardar a promoção do que eles merecem, advirtam que tudo tem sua hora. As cinco da tarde chamou o pai de famílias para a vinha aqueles a quem disse: Quid hic statis tota die otiosi[12]? – e tanto mereceram e alcançaram estes na última hora como os que tinham trabalhado todas as doze do dia. Quem não julgará pelos mais ociosos de todos os homens a Enoc e Elias, retirados há tantos centos de anos no segredo do paraíso terreal? Mas, quando aparecerem no mundo os formidáveis exércitos do anticristo, então mostrará Deus que os não tem ociosos, senão poupados para restauradores do mesmo mundo. Assim vivem, assim descansam e assim merecem sem pretender, para última prova da segunda conveniência ou ponto do nosso discurso, em que dissemos que, retirados da corte e das pretensões, viverão mais descansados os beneméritos.

VII – Deixada à consideração dos ouvintes a terceira conveniência – porque estará mais desembaraçada a corte – passa o autor para a quarta: porque será mais bem servida a república. Quanto mais aptos e capazes são dos grandes lugares os que, pretendidos, os recusam, que os que, ambiciosos, os pretendem. Os exemplos da República Hebréia em seus quatro estados ou modos de governo.. Moisés, Gedeão, Saul e Jeremias.

Seguia-se agora a terceira conveniência de que por este modo estariam mais desembaraçadas as cortes, ponto de pouco gosto e utilidade para os que neste embaraço têm a sua lavoura, e, sem cavar nem semear, a sua colheita. Mas por que este tumulto e confusão nas portas e escadas dos ministros, e nas mesmas ruas, é tão freqüente que igualmente tropeçam nela os pés e os olhos, para não gastar o pouco tempo que nos resta em matéria tão sabida e tão vista, deixada a conveniência dela à consideração dos que me ouvem, passemos, como mais importante e menos advertida, à quarta.
A quarta conveniência de serem os ofícios os pretendentes e os homens os pretendidos é que, fazendo-se assim, será mais bem servida a república. E para que vejamos esta infalível verdade provada também, como prometi, com os exemplos e ditames do governo e política divina, ponhamos e passemos os olhos pela República Hebréia, que foi a que Deus chamou sua, e como tal a governou por si mesmo. Teve esta república em diversos tempos quatro estados, e neles quatro modos de governo. O primeiro no tempo do cativeiro, o segundo no tempo dos juízes, o terceiro no tempo dos reis, o quarto no tempo dos profetas, e em todos estes tempos e estados então foi mais feliz o seu governo quando foi administrado por homens, não só que não pretendiam os oficios, mas que se escusavam e fugiam deles.
Cativo o povo no Egito, e cada dia mais oprimido e tiranizado, elegeu Deus para seu libertador a Moisés, nascido e criado no mesmo Egito, com prática e experiência não menos que de quarenta anos. E é digna mais que de admiração a contenda que houve entre Deus e Moisés: Deus instando em que aceitasse o ofício, e Moisés replicando e escusando-se quase obstinadamente. Primeiro disse: Quis sum ego ut vadam ad Pharaonem, et educam filios Israel de Egypto (Ex. 3, I I )? Quem sou eu, para ir a Faraó, e livrar os filhos de Israel do Egito? – Tu só, respondeu Deus – não poderás nada, mas tu comigo, que sempre te assistirei, poderás tudo. – Não me crerão, Senhor, replica Moisés, que vós sois o que me mandais e me aparecestes. – Sim crerão, diz Deus, porque com essa vara que tens na mão fará tais milagres que não possam deixar de dar crédito a quanto lhes disseres. – Reparai, Senhor – torna a replicar Moisés – que eu sou tartamudo, e nem com os meus poderei falar, quanto mais com Faraó. – Arão, teu irmão, que, é expedito e eloqüente, irá contigo, e eu moverei a tua língua, e mais a sua: ele será teu intérprete e teu profeta, e tu como Deus falarás por ele. – Atalhadas por este modo todas as escusas, ainda se não aquietou Moisés, e, lançando-se aos pés de Deus, lhe pediu e protestou com instantíssimos rogos que mandasse a quem havia de mandar: Mitte quem missurus es[13] – e isto com tal resolução que o mesmo Deus se irou contra ele: Iratus est Dominus in Movsen[14]. – Obedeceu enfim Moisés, e quando parece que não havia de satisfazer a sua obrigação um ministro mandado por força e tanto contra sua vontade, o efeito mostrou que quem mais se escusa mais conhece as dificuldades, e quem melhor as prevê antes, mais fortemente as vence depois.
Não só libertou Moisés o povo, mas com tudo quanto possuía, não ficando dos seus gados no Egito, como diz o texto, nem uma unha, e com tal sagacidade e indústria que, pedidas por empréstimo o ouro, prata e Jóias dos egípcios, também saíram pagos do serviço injusto de tantos anos. Libertado o povo assim, ou quase libertado, nos últimos confins do Egito se viu no maior perigo, porque pela parte de diante lhe atalhava o passo o Mar Vermelho, e pelas costas o seguia Faraó com todos seus exércitos, e os hebreus, ainda que quisessem resistir, desarmados. Tudo supriu, porém, a vara do libertador. Tocou o mar, o qual abriu unia larga estrada, por onde o passaram a pé enxuto os fugitivos, e não fazendo alto, mas prosseguindo a marcha o exército inimigo por entre as duas muralhas, que de uma e outra parte tinha levantado o mar, tornando-se a unir, os afogou a todos. Restava a segunda viagem, que era dali para a Terra de Promissão, na qual se mostrou mais milagroso Moisés que a sua mesma vara, porque, constando o povo libertado de seiscentas mil famílias, e durando a peregrinação quarenta anos, sendo todos mal contentes, ingratos, murmuradores e descomedidos, se foi milagrosa naquele deserto a providência de Deus em os sustentar, a prudência e paciência de Moisés não foi menos milagrosa em os sofrer. Tão exatamente exercitou o ofício quem tão constantemente se tinha escusado dele.
Entrado o povo felizmente na Terra de Promissão, sucedeu àquela grande república o segundo estado e governo, chamados dos Juízes, os quais se não elegiam anualmente, senão quando alguma grave necessidade o requeria. Tal era a que padecia o mesmo povo, ocupadas todas as suas terras, ou mais verdadeiramente, inundadas pela multidão imensa dos madianitas, amalecitas, e outras nações orientais, que com seus camelos e outras grandes manadas de todo gênero de gados, à maneira de enxames de gafanhotos, talavam e abrasavam os campos, comendo e assolando quanto neles nascia. Fugitivos no mesmo tempo, e escondidos os miseráveis israelitas, mais como feras que como homens, nas grutas e concavidades dos montes e espessura dos bosques, neste aperto apareceu um anjo a Gedeão, ao qual chamou virorum fortissime, o mais valente dos homens, porque verdadeiramente o era na robusteza do corpo e no valor do ânimo. E sobre este título lhe encarregou que tomasse as armas e o governo do povo, e o livrasse do jugo daqueles bárbaros e de tão insuportável miséria. Não duvidava Gedeão ter sua parte como soldado na empresa, posto que tão dificultosas mas como o anjo lhe falou no governo, de que nunca tivera pretensão nem pensamento, a primeira proposta com que se escusou foi a humildade da sua casa, dizendo que era a ínfima da tribo de Manassés, e ele o mínimo dela: Obsecro, mi Domine, in quo liberabo Israel? Ecce familia mea intima est in Manasse, et ego minimus in domo patris mei[15] – Se o anjo não tivera dito a Gedeão que era o mais valente de todos os homens, só pela valentia desta escusa o antepusera eu à terceira parte dos anjos. Persistiu o valentíssimo herói nesta honrada resistência, com tal desconfiança de si mesmo que foram necessários milagres sobre milagres para o persuadir a que aceitasse o cargo. Aceitou, enfim, e a quem o tinha resistido com tal generosidade de ânimo, argumento era e prognóstico certo que nenhum poder haveria no mundo que bastasse a lhe resistir. Assim foi, porque só com trezentos combatentes desbaratou e pôs em fugida toda aquela imensa multidão que a Escritura compara às areias do mar, sendo muito poucos os que escaparam com vida. Desembaraçada a campanha, saíram os fugitivos israelitas das grutas e covas ressuscitados, habitaram outra vez as suas casas, povoaram as cidades arruinadas, e restituíram a dissipada república, a qual, agradecida a seu prodigioso libertador, o quis levantar do governo privado à monarquia, oferecendo-lhe por aclamação o título de rei; mas ele, com a mesma moderação e modéstia com que tinha recusado o bastão, recusou também a coroa, e, não a querendo aceitar nem para si nem para seu filho, não só coroou com esta todas as suas façanhas, mas mostrou e ensinou ao mundo quanto mais aptos e capazes são dos grandes lugares os que, pretendidos, os recusam, que os que, ambiciosos, os pretendem.
Passado o povo hebreu do governo político e militar dos juízes ao dos reis, o primeiro eleito à soberania da dignidade real foi Saul. Já vimos como se escusou, já vimos como fugiu, já vimos como se escondeu; vejamos agora se estes temores e desconfianças de si e do seu talento eram bem fundadas. As duas primeiras coisas que viu e ouviu Saul feito rei foram as lágrimas do povo e as murmurações e desprezos dos que reprovavam a sua eleição. E como se portaria nestes dois casos o filho de Cis, homem tão pequeno como o seu nome, que poucos dias antes andava buscando as jumentas do pai? Se fora filho de Filipe de Macedônia, e de tão real talento como Alexandre Magno, não se pudera portar melhor nem obrar mais como rei. Quanto às murmurações e desprezos de sua pessoa, diz o texto sagrado: Ipse vero dissimulabat se audire (1 Rs. 10, 27): que ouvia .e dissimulava– já sabia reinar, porque sabia dissimular. Quanto às lágrimas do povo, perguntou qual era a causa por que chorava: Quid habet populus quod plorat[16] ? – Se não fora bom rei, não fizera caso das lágrimas do povo. Perguntou a causa porque as quis remediar, e remediou-as porque lhes não dilatou o remédio. Foi resolução por todas suas circunstâncias notável. A causa das lágrimas do povo era por ter chegado nova que os amonitas com poderoso exército tinham sitiado a cidade de Jabes Galaad, e que, oferecendo-se os cercados a se render a partido, Naás, que era o rei e general do exército, respondera que o partido havia de ser tirando-lhes a todos os olhos direitos, e que, sendo tão cruel e injusta esta condição, também a tinham já aceito se em espaço de sete dias não fossem socorridos. Isto ouviu Saul, diz o texto, indo recolhendo do campo para casa os seus bois, que eram dois, e no mesmo ponto em que teve notícia do aperto em que estava aquela cidade, que não era muito distante, o que fez foi partir os mesmos bois em muitos pedaços, e mandá-los por todas as tribos de Israel, dizendo o pregão: – Assim se há de fazer aos bois de quem logo não seguir a Saul: Quicumque non exierit, et secutus fuerit Saul, sic fiet bobus ejus (1 Rs. 11, 7). – Oh! que pregão tão bem entendido, que não só entrasse pelos ouvidos, senão também pelos olhos! Rei que para a guerra primeiro mata os seus bois, melhor matará os alheios se o não seguirem. Foi obedecido o bando, de maneira que marchando Saul toda a noite, no quarto da alva se achou com trezentos e trinta mil homens armados. Deram de repente nos inimigos, e estes foram tão rotos e desbaratados que não houve dois que ficassem juntos: Ut non relinquerentur in eis duo pariter (1 Rs. 11,11). – Haverá agora quem lhe pareça e diga mal da eleição de Saul? Foi tal o respeito e amor que conciliou o novo rei com esta vitória, que logo se levantou voz em todo o exército: – Apareçam os que reprovaram a eleição de Saul, e morram todos. – Acudiu ele, porém, não consentindo a execução daquele castigo, posto que merecido, e mostrando-se no mesmo dia verdadeiro rei, tanto nas vidas que tirou vitorioso a seus inimigos, como nas que perdoou ofendido a seus vassalos. Tudo isto se escondia naquele homem que se escondeu.
Ao governo dos reis sucedeu em parte, e em parte se ajuntou o dos profetas, como intérpretes da vontade divina, e também os que se escusavam e repugnavam o oficio foram os mais repúblicos. Baste por todos o exemplo de Jeremias. Disse-lhe Deus que desde o ventre de sua mãe o tinha escolhido para profeta, e ele que, quando recebeu esta primeira revelação contava somente catorze anos, respondeu: A, A, A, Domine Deus, ecce nescio loqui, guia puer ego sum (Jer. 1,6): Ah! Ah! Ah! Senhor, que sou uma criança, incapaz de tão alto, tão dificultoso e tão pesado oficio! – Tomou-lhe o peso, comenta Cornélio, e, reconhecendo-se incapaz de tamanha carga, aqueles três A, A, A, foram três ais com que começou a gemer debaixo dela: Per trinum AAA – diz Santo Tomás – notantur Ires defectus qui Jeremiam ineptum reddebant ad prophetandum, scilicet defectum actatis, scientiae et eloquentiae. – E um homem que não em três palavras, senão em três letras reconhece em si três defeitos, da idade, do saber e da língua, e em três letras dá a Deus três escusas para não aceitar o oficio, obrigado a o aceitar por obediência e por força, que faria? O que ninguém cuidou dele, nem ele de si. Não teve Deus profeta, nem mais zeloso da sua nação, nem mais amante da sua pátria, nem mais cuidadoso e vigilante da sua república, fazendo-se pedaços pela assistir em todos seus trabalhos, já na própria terra, já nos desterros; defendendo-a sempre dos mesmos que, enganados com falsas esperanças, ajudavam a sua ruína; aconselhando-os que se acomodassem com a presente fortuna, para não virem a padecer outra pior; chorando mais que todos suas desgraças, e ensinando-lhes os meios de as converter em bonanças. Fiel na vida, constante na morte, e, ainda depois de morto, imortal protetor dos que Deus lhe tinha encomendado. Na vida, ensinando-lhes a verdade contra os falsos profetas; na morte, deixando-se martirizar por defensa dela; e depois de morto, aparecendo a Judas Macabeu, e dando-lhe a espada, com que havia de restaurar, renovar e estabelecer, no culto do verdadeiro Deus e observância das leis pátrias, a mesma república. Agora tirarei eu da boca do mesmo Jeremias os seus três A A A, e lamentarei, com tanta razão como ele, que, porque há tantos ambiciosos e tantos pretendentes, e há tantos que alcançam os ofícios de que são indignos, e porque não há quem conheça os beneméritos, nem há quem busque os escondidos, nem há quem os desenterre dos seus retiros, por isso, ou está sepultada a república, ou caminha a passos largos para a sepultura, sem modo nem esperança de ressuscitar dela.

VIII – Quem são os que hão de procurar e solicitar os homens, estando eles retirados, e quem são os que hão de requerer e falar pelos ofícios, sendo eles mudos. Resposta aos que julgam menos digno da autoridade real o ofício de solicitadores e requerentes de seus súditos. A vocação de Moisés, a conversão de Saulo e a escolha de Davi para rei de Israel. O exemplo que a todos os reis deixou Cristo, quando falou a primeira vez a Natanael.

Suposto, pois, que os corpos políticos – ou sejam de governo monárquico, ou de qualquer outro, que eu entendo geralmente debaixo do nome comum de república – suposto, digo, que então serão bem servidos, quando os ofícios forem administrados por homens que se escusem deles, isto é, não pelos ambiciosos, senão pelos beneméritos que não pisam as lamas nem freqüentam os oratórios das cortes, antes fogem e se retiram de as ver nem se lhes mostrar, e, suposto assim mesmo que os ofícios, corno hoje em Jerusalém, hão de pretender os homens, e não os homens os ofícios, e estes os hão de ir buscar, ainda que vivam nos desertos, com razão se me perguntará, reduzindo o discurso à prática, quem são os que hão de procurar e solicitar os homens, estando eles retirados, e quem são os que hão de requerer e falar pelos ofícios, sendo eles mudos? Respondo em uma palavra que estes solicitadores e estes requerentes devem ser todos aqueles a quem pertence a superintendência do governo, quais são nas repúblicas os supremos magistrados, e nos reinos os seus príncipes e monarcas.
E se a algum, porventura ou por desgraça, lhe parecer menos digno da autoridade real este cuidado de solicitadores e requerentes dos seus súditos e vassalos, ouçam agora, e o que lhes entrar pelos ouvidos lhes abaterá os arcos das sobrancelhas. Nos desertos de Madiã apareceu uma sarça que ardia e não se queimava, e debaixo desta cortina de fogo, quem estava? Deus, que tinha descido do céu à terra. E para quê? O efeito o mostrou logo. Andava apascentando o seu gado naquele deserto um homem chamado Moisés, o qual havia quarenta anos que se tinha retirado da corte de el-rei Faraó, e para buscar este homem, e lhe rogar que o quisesse servir na liberdade do seu povo cativo no Egito, chegando para isso a lhe dar o seu próprio título de Deus, tinha vindo Deus do céu à terra. Oh! não digo inchação e vaidade humana, mas descuido e esquecimento cego de quão iguais fez a natureza a todos os homens! De maneira que para buscar em um deserto a um pastor, porque o há mister, desce do céu à terra o Deus que fez os homens, e terão por menos decoro da majestade os que não são deuses, não digo já o ir buscar e rogar em pessoa, mas o chamar e trazer a seu serviço um daqueles homens que só Deus pode fazer, e eles não podem? Parecerá porventura que se Deus fora homem não fizera outro tanto, mas é certo que sim, fizera, e com muito maiores empenhos.
Já Deus era homem, e já estava assentado à destra do Padre, quando às portas de Damasco se ouviu um trovão que, derrubando do cavalo a Saulo, fez estremecer e cair em terra a todos os que o acompanhavam armados. No meio daqueles homens se ouviu juntamente uma voz que dizia: Saule, Saule, cur me persequeris (At. 9, 4)? Saulo, Saulo, por que me persegues? – Mas que voz foi esta, e de quem? Alguns cuidaram que fora somente formada no ar, por modo de visão imaginária, mas é certo e de fé que foi voz do mesmo Cristo em pessoa, como declarou o mesmo S. Paulo, e consta de outros muitos lugares da História Sagrada. E nota Santo Tomás que por todo aquele espaço de tempo deixou Cristo o céu, e desceu até as portas de Damasco para converter a Saulo. Pois, para converter um homem, e um homem atualmente seu perseguidor e inimigo, se abala em pessoa o Filho de Deus, e deixa o trono de sua Majestade, e vem à terra com tanto estrondo e aparato de poder, e lhe fala, e o chama duas vezes por seu próprio nome? Sim. E a razão deu o mesmo Cristo a Ananias, dizendo que tinha escolhido aquele homem para se servir dele na pregação do Evangelho e dilatação de sua Igreja por todo o mundo: Vas electionis est mihi iste, ut portet nomen meum coram gentibus[17]. – E se Cristo, Deus e homem, deixa o trono de sua Majestade, e desce do céu à terra para buscar e trazer a seu serviço um homem em quem na mesma guerra que lhe fazia conheceu o grande talento com que o podia servir, os homens que não são deuses, por que serão por ação menos decorosa à sua grandeza buscarem por si mesmo os homens, para se servirem de seus talentos nos ofícios e cargos de maior importância, e serem eles, como pretendentes dos mesmos homens, os requerentes dos mesmos ofícios?
Quem isto estranhar é porque o entende às avessas. Cuidam que nestes casos fazem os reis os provimentos nos vassalos, e é engano. Os providos nestes provimentos não são os vassalos, senão os mesmos reis. Deus era o Rei de Israel, e quando proveu o oficio em um filho de Isaí, que disse a Samuel? Mittam te ad Isai: providi enfim in filiis ejus mihi regem: Irás à caça de Isaí, porque, em seus filhos tenho provido para mim o rei. – Notai muito o providi mihi provi para mim: o provimento foi feito em Davi, mas o provido foi Deus. O mesmo se verificou no provimento de Moisés e no provimento de Paulo. Quando Deus proveu a Moisés, disse que descera do céu para, por meio dele, livrar do cativeiro a seu povo: Descendi ut liberem populum meum de maribus Aegyptiorum[18]. – De sorte que Deus e o seu povo era o empenhado no oficio provido em Moisés. E quando Cristo desceu também do céu, e elegeu a S. Paulo, o que disse foi: Vas electionis est mihi iste, ut portet nomen meum[19] – onde se deve notar o mihi e o nomen meum, porque também o empenhado no provimento de Paulo era o mesmo Cristo e o seu nome. E como os príncipes, quando provêem os ofícios nos grandes homens, eles, posto que supremos e soberanos, são os providos, não é muito que eles também sejam os que os busquem, e se dêem os parabéns de os acharem, como Deus se gloriava e dava o parabém de achar a Davi: Inveni David servum meum, inveni hominem secundum cor meum, qui faciat omnes voluntates meas[20].
Quando assim o fizeram os reis, buscando os escondidos, e pretendendo os que não pretendem, e tirando-os para seu serviço dos lugares onde estiverem mais retirados, então obrarão como reis, e serão venerados e adorados como reis descidos do céu. Quando Natanael apareceu a primeira vez diante de Cristo, disse o Senhor dele que era verdadeiro israelita: Ecce verus Israelita, in quo dolus non est[21]. – E como admirado Natanael perguntasse donde o conhecia, e o Senhor respondesse que já o tinha visto, quando deitado debaixo da sua figueira o chamara Filipe. Priusquam te Philippus vocaret, cum esses sub fico, vidi te[22] – exclamou Natanael dizendo: Tu es Filius Dei, tu es Rex Israel (Jo. 1,49): Confesso que vós, Senhor, sois o verdadeiro Rei de Israel, e Filho de Deus. – Pois, porque Cristo lhe disse que antes de aparecer diante dele o conhecia, e que o vira quando estava à sombra da sua figueira, daí infere Natanael que é verdadeiro Rei, Filho de Deus e Redentor de Israel? Sim, porque o rei que conhece os seus vassalos e as suas boas partes e merecimentos, antes de aparecerem em sua presença, e, estando ausentes e retirados ao pé de uma árvore, põem os olhos neles, este tal, não só é rei, mas vindo do céu, e merecedor de ser aclamado e venerado com adorações. Tal é o exemplo que a todos os reis deixou o verdadeiro Messias, e tal o estilo com que também hoje a República de Jerusalém não buscou ao mesmo Messias na corte, senão nos desertos: Miserunt Judaei ab Jerosolymis sacerdoteset levitas ad Joannem[23].

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[1] Os judeus enviaram de Jerusalém sacerdotes e levitas a João para perguntar-lhe: Quem és tu (Jo. 1, 19)?
[2] Seguir-te-ei para onde quer que fores (Mt. 8, 19).
[3] Vinde após mim (Mt. 4, 19).
[4] O vocábulo tribo aparece sempre como pertencente ao gênero masculino na edição original.
[5] Senhor respondeu: Está certamente escondido em casa (1 Rs. 10, 22).
[6] Acaso não sou eu filho de Jemini, da mais pequena tribo de Israel, e não é a minha família a menor de todas as famílias da tribo de Benjamim (1 Rs. 9, 21)?
[7] Vós bem vedes a quem o Senhor escolheu, porque não há em todo o povo quem lhe seja semelhante (1 Rs. 10, 24).
[8] E nenhum usurpa para si esta honra, senão o que é chamado por Deus, como Arão (Hebr. 5, 4).
[9] Aminadab no original.
[10] Caminhando Jesus ao longo do mar de Galiléia (Mt. 4, 18).
[11] Jacó habitava em tendas (Gên. 25. 27).
[12] Por que estais vós aqui todo o dia ociosos (Mt. 20, 6)?
[13] Rogo-te que envies aquele que deves enviar (Êx. 4, 13).
[14] Irou-se o Senhor contra Moisés (Êx. 4, 14).
[15] Dize-me, te peço, meu Senhor, como poderei eu livrar a Israel? Tu sabes que a minha família é a última de Manassés, e que eu sou o último na casa de meu pai (Jz. 6, 15).
[16] Que tem o povo para chorar (1 Rs. 11, 5)?
[17] Este é para mim um vaso escolhido para levar o meu nome diante das gentes (At. 9, 15).
[18] Desci para livrar o meu povo das mãos dos egípcios (Ex. 3, 8).
[19] Este é para mim um vaso escolhido para levar o meu nome (At. 9,15).
[20] Achei a Davi meu servo homem segundo o meu coração, que faça todas as minhas vontades (At. 13,22- Si. 88,21).
[21] Eis aqui um verdadeiro israelita, em quem não há dolo (Jo. 1,47).
[22] Antes que Filipe te chamasse, te vi eu quando estavas debaixo da figueira (ibid. 48).
[23] Os judeus enviaram de Jerusalém sacerdotes e levitas a João (Jo. 1,19).

Fonte: https://www.literaturabrasileira.ufsc.br/documentos/?action=download&id=49818