Sermão da Conceição da Virgem Maria Senhora Nossa (1635)

SERMÃO DA CONCEIÇÃO DA VIRGEM SENHORA NOSSA,

Pregado pelo autor, antes de ser sacerdote, na Bahia, e na Igreja da mesma invocação, que, por estar na praia, se julga extra muros. Ano de 1635.


David autem rex genuit Salomonem ex ea, quae fuit Uriae[1].

I – Os primores da arquitetura às avessas da onipotência divina na conceição da Virgem, Senhora nossa. A traça milagrosa da criação do mundo, planta ou debuxo da conceição puríssima de Maria. As prevenções da graça e as exceções da natureza. Em dia em que o mesmo Deus andou às avessas, nem o autor pregará às direitas.

Começar pelos fins e acabar pelos princípios, são primores da onipotência de Deus, e sutilezas de sua divina sabedoria. Edificou o Criador esta grandiosa fábrica do mundo, e diz o texto sagrado que primeiro fez o céu, e depois a terra: In principio creavit Deus caelum et terram[2]. — É explicação e admiração juntamente de S. João Crisóstomo, o qual diz assim: Deus, praeter humanum morem, suum perficiens aedificium, prius caelum extendit, postea et terram substernit: prius culmen, et postea fundamentum. Quis tale vidit? Quis tale audivit[3]? Quem viu nunca tal arquitetura? Quem viu nunca tal traça — diz Crisóstomo — que, para fazer um edifício, primeiro se arme o teto do que se levantem as paredes, primeiro se fechem as abóbadas do que se abram os alicerces? Pois isto é o que obrou na criação e fábrica do mundo o supremo Arquiteto dele: Creavit caelum et terram: Primeiro fez o céu, e depois a terra; primeiro levantou o teto, e depois armou as paredes; primeiro correu essas abóbadas, e depois fundou estes alicerces. — Sed ex ipso opificii modo divinae naturae dignitas innotescit — conclui o santo: Mas nestes avessos do fraco poder humano, consiste o direito, o sublime, o maravilhoso da onipotência divina: em começar por onde os homens acabam, em acabar por onde eles começam.

Toda esta traça tão milagrosa da criação do mundo, nenhuma outra coisa foi, senão uma planta ou debuxo da conceição puríssima de Maria, mundo segundo, que para o segundo Adão, Cristo, singular e milagrosamente foi edificado. Toda a arquitetura andou trocada neste soberano edifício, toda andou às avessas. Nos outros edifícios espirituais, nas outras puras criaturas, por mais santas e santificadas que sejam, a primeira pedra é da natureza, e a segunda da graça. Primeiro se edificam pela parte da terra, e depois pela parte do céu. Primeiro nascem tributárias ao pecado de Adão, e depois renascem justificadas pelos merecimentos de Cristo. Não assim na conceição de Maria. Começou-se este milagroso edifício pelo muito que tinha do céu, e acabou-se pelo pouco que participava da terra. Primeiro se fecharam as abóbadas do espírito, e depois se lançaram os fundamentos do corpo. Primeiro — ou quase primeiro — a santificou a graça, e depois a produziu a natureza, Que elegante e que expressamente o disse S. João Damasceno! Natura voluit in conceptione Virginis gratiae cedere, ut Virginis conceptio gratiae Dei, non viribus naturae tribueretur. A natureza, que em todas as outras conceições costuma ser a primeira, cedeu de seu direito nesta obra, e concedeu-o à graça. As prevenções da graça puseram a primeira pedra no edifício, e as exceções da natureza a segunda. Primeiro foi em Maria o ser santa que o ser mulher. Começou Deus na Virgem Santíssima por onde acaba nos outros santos, e acabou por onde começa. Lá começa pela natureza e acaba pela graça, cá começou pela graça e acabou pela natureza, manifestando as delicadezas de sua sabedoria nestes trocados de sua onipotência: Ut Virginis conceptio gratiae Dei, non viribus naturae tribueretur.

Ora em dia, e em obra em que o mesmo Deus andou às avessas, também eu não quero pregar às direitas. Havemos de começar hoje pelo fim, e acabar pelo princípio. Havemos de acabar por onde os outros começam, e começar por onde acabam. Os outros sermões começam pela explicação do tema, e acabam pela prova do assunto; este hoje há de começar pela prova do assunto, e acabar pela explicação do tema. Isto posto, não resta mais que pedir a graça à cheia de graça. Ave Maria.

II – A estranha comparação do Esposo sagrado nos Cantares, falando da formosura de sua Mãe e Esposa. Por que a não compara o Esposo, como pastor, às flores do campo, às rosas e às açucenas, senão a uma cidade real? Como é possível que haja tanta formosura na Virgem como na Jerusalém do céu? O testemunho de vista do insigne Dionísio Areopagita.

David autem rex genuit Salomonem ex ea, quae fuit Uriae[4].

Pois havemos de pregar hoje às avessas; pois se há de começar este edifício pelo ar, seja pelo ar e graça da mais formosa de todas as mulheres, O Esposo sagrado, nos Cantares, falando da formosura de sua Mãe e Esposa, a Virgem puríssima, diz assim no capítulo sexto: Pulchra es, amica mea, suavis, et decora sicut Jerusalem (Cânt. 6, 3): Sois formosa e suave, amiga minha, tão formosa como a cidade de Jerusalém. — Galante comparação por certo! Já que o Esposo se não fizesse astrólogo, como se fazem comumente todos os amantes, já que não comparasse a formosura que adorava ao sol, à lua, às estrelas, por que a não compara, como pastor, às flores do campo, às rosas, aos cravos, aos jasmins, às açucenas? Comparar a formosura de um rosto a uma cidade: Decora sicut Jerusalem? — Quem viu nunca tal comparação? Seguem vários pensamentos os expositores, melhor que todos o Legionense: Ea erat sponsae pulchritudinis magnitudo, ea oris et corporis totius majestas, ut non posse declarari putaret, nisi similitudine earum rerum, quae non solum pulchrae, sed amplae etiam, et multa rerum varietate praeditae sunt, quales sunt urbes regiae: Era tão grande a formosura daquele rosto, era tão grande a majestade daquela formosura, havia tanto que ver naquele pequeno espaço, havia tanto que admirar naquela breve esfera, que não achou o Esposo coisa alguma tão formosa e grande a que a comparar, senão ao empório de muitas grandezas, quais são as cidades reais e metrópoles do mundo.

Entra um peregrino em uma cidade metrópole, qual naquele tempo era Jerusalém, e hoje é Roma: vê torres, vê templos, vê palácios, vê jardins artificiosos, em que vence a arte a natureza, e por mais que veja, sempre lhe fica mais que ver; por mais que admire, sempre lhe fica mais que admirar; não lhe basta um dia nem muitos dias: quando cuida que acabou de notar tudo, ainda lhe fica muito que observar de novo. Tal, diz o Verbo Encarnado, é a formosura de sua Esposa: Decora sicut Jerusalem. — Depois de visto uma vez, e outra vez, sempre há que ver nesse rosto; depois de admirada um dia e outro dia, sempre há que admirar nessa formosura. Chamou Santo Agostinho à formosura de Deus: Pulchritudo nova et antiqua: Formosura antiga, mas sempre nova. — As formosuras mortais, no primeiro dia agradam, no segundo enfastiam; são livros que, uma vez lidos, não têm mais que ler: não assim a formosura divina. Mil e seiscentos anos há que o Batista está vendo o rosto de Deus; mil e seiscentos anos há que está lendo por aquele livro eterno, e sempre acha de novo que ver, sempre acha de novo que contemplar naquele mar de formosura, naquele abismo de perfeições. Tais atributos reconhecia o Esposo na formosura infinita de Maria; por isso a compara a uma cidade real, em que sempre há que ver de novo: Decora sicut Jerusalem.

Com algum escrúpulo levantei a comparação de Jerusalém, e a da formosura da Virgem Maria à do rosto de Deus na Jerusalém do céu; mas deste escrúpulo me livrou S. Gregório Nazianzeno — por antonomásia, entre todos os doutores da Igreja, o Teólogo — o qual, comentando as mesmas palavras do Esposo: Decora sicut Jerusalem — as não entende da Jerusalém da terra, senão da do céu: Decora sicut caelestis Jerusalem. — Ao mesmo Nazianzeno seguem, e o mesmo sentido aprovam Teodoreto, Ruperto, Pselo, Beda, Apônio, e é o comum dos doutores. Quer pois dizer este notável elogio da Esposa, segundo o juízo de tão grandes entendimentos, que há tanto que ver na formosura da Virgem, quanto há que ver na formosura da glória. Se na glória não houvera formosura mais que a dos espíritos angélicos, nenhuma dificuldade tinha a exposição, porque o mais gentil-homem, serafim do céu, se preza muito de servir de chapins a esta soberana Rainha. O ponto da dificuldade está em que na Jerusalém celestial mostra-se o rosto de Deus aos bem-aventurados de cara a cara; e, sendo isto de fé: Tunc autem facie ad faciem[5] — como é possível que haja tanta formosura na Virgem como na Jerusalém do céu: Decora sicut caelestis Jerusalem? — Para a solução não temos menos que o testemunho de vista do insigne Dionísio Areopagita, chamado, como o Platão da Igreja, o Divino. Foi este santo tão venturoso, que mereceu ver com seus olhos a Virgem sacratíssima, quando ainda vivia em carne mortal; e o que lhe sucedeu nesta vista escreveu o mesmo santo, falando com Deus, por estas admiráveis palavras: Nisi tua divina doctrina me docuisset, o Deus, hanc verum Deum credidissem, quoniam nulla videri posset major gloria beatorum, quam felicitas illa, quam ego tunc felicissimus degustavi. Quando cheguei a ver o rosto de vossa Mãe Santíssima, ó Deus eterno, se a doutrina de vossa fé me não tivera de sua mão, sem dúvida se prostrara de joelhos, e a adorara por Deus. — Representava tão grande majestade aquele rosto imperial, saíam raios tão divinos daquela soberana presença, que me pareceu que já gozava o estado felicíssimo da bem-aventurança, e que não tinha mais quilates de glória aquela sobrenatural visão, que faz aos anjos bem-aventurados; Quoniam nulla videri posset major gloria beatorum, quam felicitas illa, quam ego tunc felicissimus degustavi. — Os bem-aventurados, quando entram a ver Deus, perdem a fé, porque ver e crer não se compadecem. Se entrara S. Dionísio sem fé a ver Maria, parece a adorara com adoração de latria por Deus verdadeiro, ficando idólatra daquela imaginada divindade: Nisi tua divina doctrina me docuisset, o Deus hanc verum Deum credidissem. — Tanta razão como esta teve o Esposo de comparar a formosura da sua esposa à formosura da Jerusalém do céu: Decora sicut caelestis Jerusalem.

III – Se a vista perfeitíssima daquele abismo de formosura, que é a visão clara de Deus, não embargava as atenções de Cristo, e se ocupava com tanto cuidado na salvação do mundo, como diz o mesmo Senhor à Virgem que eclipse um pouco o resplendor de seus olhos, para que não fique suspensa a salvação das almas? Marta, e o descuido de Deus diante de Maria. A mais encarecida hipérbole com que se podia subir de ponto a formosura da Virgem Maria.

Assaz ponderada ficava a formosura de Maria, se parara aqui o divino Esposo; mas não parou aqui: Averte oculos tuos a me, quia ipsi me avolare fecerunt (Cânt. 6, 4). — Têm tanta reputação comigo estas palavras, que ainda que descesse um serafim do céu a ponderá-las, não lhes há de dar o peso que elas merecem. — Apartai de mim vossos olhos, Senhora — diz Cristo a sua Mãe: quia ipsi me avolare fecerunt: porque fico arrebatado quando os vejo, fico em êxtase. — Vultavertere illam oculos — diz Santo Ambrósio — ne eam considerans elevetur, et caeteras animas derelinquat: Pede Cristo a sua Santíssima Mãe que ponha tréguas à vista, que aparte dele seus formosos olhos, porque se o não fizer assim, ficará tão absorto, tão enlevado na consideração de sua formosura, que não poderá tratar da salvação das outras almas; e ficará totalmente suspenso o mistério a que veio, da Redenção. Espantoso dizer! Queira Deus que acerte a o ponderar.

E bem, Cristo, Redentor nosso, não goza a visão clara de Deus, com o mais perfeito lume de glória, que de lei ordinária é possível? Pois, se a vista perfeitíssima daquele abismo de formosura não embargava as atenções a Cristo, e se ocupava com tanto cuidado na salvação do mundo, como diz o mesmo Senhor à Virgem que eclipse um pouco o resplendor de seus olhos, para que não fique suspensa a salvação das almas: Ne eam considerans elevetur, et caeteras animas derelinquat? — Mais ainda, Cristo, enquanto Deus, não se compreende a si mesmo? Não abraça dentro da infinidade da sua vista aquele mar imenso da divindade? Pois, se a visão compreensiva de Deus lhe não suspende o atributo da providência; se, compreendendo-se a si, lhe ficam bastantes advertências para governar o mundo; como agora o mesmo Deus, pedindo a Maria que aparte dele os olhos, dá por razão que, se cuidar em suas graças e perfeições, não lhe ficarão cuidados para tratar de outras almas: Ne eam considerans, caeteras animas derelinquat? Aqui não há senão ou dizer uma heresia, ou não responder nada. Mas este mesmo não saber responder, este mesmo encolher os ombros, este mesmo pasmar, é o maior encarecimento que se pode dizer nesta matéria. Que veja Cristo, enquanto homem, a formosura de Deus, e nem por isso perca a atenção de outros cuidados! Que compreenda Cristo, enquanto Deus, toda a essência divina, e nem por isso perca o uso de sua providência; e que, chegando a contemplar a formosura daquela Virgem puríssima, fique tão arrebatado, fique tão suspenso, em tal calma de sentidos, em tal êxtase de potências, que para poder advertir a outra coisa, seja necessário divertir-se daqueles olhos: Averte oculos tuos a me, ipsi me avolare fecerunt!

Já agora me não espanto de uma coisa, que estranhei sempre muito na cortesia de Santa Marta. Estava a Madalena aos pés de Cristo, seu divino Mestre; e Marta, que andava mui solícita no adereço da mesa, chega, e diz: Domine, non est tibi curae quod soror mea reliquit me solam ministrare[6]? — E bem, Senhor, não tendes cuidado? — Parai aí, divertida Marta: vós sabeis com quem falais? Esse a quem chamais Senhor, não é aquele cuja providência cuidadosa alcança até as avezinhas do ar e aos bichinhos da terra? Pois, como vos atreveis a pôr descuido no mesmo Deus: Domine, non est tibi curae? — Andou muito delgado neste lugar um doutor grave da nossa Companhia: Umbra erat Mariae Deiparae, cujus gratiae prae omnibus aliis creaturis sic Deum capiebant, ut posset fieri quod habens Deus secum Mariam, non multum curaret caeteras creaturas: Quando Marta fez aquela queixa a Cristo, estava o Senhor falando com Maria Madalena, figura de Maria, Mãe de Deus; e como tinha diante dos olhos este formoso retrato, não é muito que Marta chamasse a Cristo descuidado: Domine, non est tibi curae? — porque, quando se põe este Senhor a contemplar as perfeições e graças de Maria, tanto o cativam, tanto o enlevam, tanto lhe roubam os pensamentos, e embargam os cuidados, que parece lhe não deixam atenção para cuidar de outra coisa: Domine, non est tibi curae? — E como o Verbo encarnado viera ao mundo com um cuidado de tanta importância, como a redenção e remédio dele, por isso pede à Senhora, que ponha tréguas à vista, que aparte um pouco os olhos, que lhe descative os pensamentos, que lhe liberte os sentidos, e lhe desembargue os cuidados: Averte oculos tuas ame, quia ipsi me avolare fecerunt.

Estas últimas palavras: Ipsi me avolare fecerunt — conforme a versão hebréia, ainda tem mais alma. Diz o texto hebreu: Averte oculos tuos a me, quia ipsi me superbire fecerunt: Tirai de mim vossos olhos, Virgem Mãe minha, diz Deus, porque sua formosura me faz ensoberbecer. — Ensoberbecer? Que quer dizer isto? Na fonte de toda a santidade pode caber soberba? Na pureza da verdade eterna pode ter lugar a vaidade? Claro está que nem vaidade nem soberba pede caber em Deus; mas foi a mais encarecida hipérbole com que se podia subir de ponto a formosura da Virgem Maria. Como se dissera Deus: A glória que recebo da vista de vossos olhos é tanta que, se em mim coubera vã glória, sem dúvida que me ensoberbecera. De Lúcifer diz o profeta Ezequiel que, considerando a formosura de sua natureza, se ensoberbeceu: Elevatum est cor tuum in decore tuo[7]. — De Adonias se diz também no Livro dos Reis que se ensoberbeceu, e se dá por causa sua grande formosura: Erat autem pulcher valde[8]. — Só de Deus não há Escritura alguma que diga — não digo por verdade, que não pode ser, mas nem por figura eu semelhança — que, contemplando-se a si, que contemplando aquela formosura imensa de seu ser, se ensoberbecesse. Pois, Senhor e Deus meu, se essa formosura eterna, imensa, infinita, incompreensível; se essa formosura, de que são umas participações mui escassas tudo o que é formosura no céu e na terra, tudo o que é formosura nos homens e nos anjos; se não chega essa formosura a vos ensoberbecer por metáforas; se não chegais a dizer dela que vos ensoberbeceu contemplando-a: como dizeis por vossa boca que a formosura dos olhos de Maria foi poderosa a vos ensoberbecer: Ipsi me superbire fecerunt?

Tudo são exagerações, tudo são hipérboles, tudo são encarecimentos da formosura daquela soberana Virgem; mas exagerações as mais levantadas, hipérboles as mais subidas, encarecimentos os mais sobrelevados. A formosura de Eva chegaria a ensoberbecer a Adão; a formosura de Raquel chegaria a ensoberbecer a Jacó; a formosura de Ester chegaria a ensoberbecer a Assuero; mas a formosura de Maria chegou a ensoberbecer, do modo que se pode dizer, ao mesmo Deus. Chegou a confessar o mesmo Deus que a formosura de seus olhos o ensoberbecia: Ipsi me superbire fecerunt.

IV – O julgamento de Frenes, em Atenas, e a especulação em torno da conceição imaculada de Maria. As excelências da formosura da Mãe de Deus, e o manto com que mandou Abimelec a Sara que cobrisse os olhos. Resposta do Esposo à pergunta da Senhora nos Cantares: Onde descansais repousando às horas do meio-dia?

Ora, vamos ao ponto. Vejo está dizendo o auditório todo: Este pregador, como novo, e como moço, não sabe o que prega: hoje é dia de Nossa Senhora da Conceição, havia-nos o pregador de provar como a Virgem puríssima foi concebida sem pecado original; que quanto é retratar-nos as formosuras de Nossa Senhora, a que propósito? O propósito eu o direi agora. Conta Plutarco que em Atenas, impondo-se um grave crime a uma donzela formosíssima chamada Frenes, para se sentenciar a sua causa, apareceu em juízo com o rosto coberto, como era costume aparecerem as acusadas. Começou logo a alegar por sua parte um orador com grande cópia de palavras, com grande número de textos, com grande força de razões. Mas as presunções eram tão forçosas, e os indícios tão eficazes, que já nos rostos dos juízes se estava lendo sentença contra Frenes. Levanta-se neste passo Péricles, outro orador famosíssimo, lança mão ao manto da quase convencida donzela, e o mesmo foi aparecer a formosura de seu rosto, que trocarem-se subitamente os pareceres de todos. Aclama todo o senado: — Victor, victor, pela parte de Frenes. Em tanta formosura, dizem, não pode haver culpas; em tanta formosura não pode haver culpas.

Eis aqui a traça, senhores, eis aqui o pensamento que me levou após si neste sermão. A questão mais altercada, ou das mais altercadas, que houve na Igreja Católica, é esta em que estamos: Se foi ou não concebida com culpa original a Virgem puríssima Mãe de Deus? Na especulação deste ponto têm suado os mais insignes teólogos de toda a Igreja; na confirmação desta verdade têm corrido felizmente as penas mais engenhosas de todo o mundo. Mas ainda está a questão indecisa, ainda está a verdade em opiniões. Pois, que remédio para sair com vitória? Que remédio para tapar a boca de uma vez a todas as razões contrárias? O remédio é, Virgem puríssima, já que não posso ser digno orador de vossa pureza, fazer-me sumilher de cortina de vossa formosura. Apareça esse rosto, mais formoso que a Jerusalém da terra, mais formoso que a Jerusalém do céu; apareçam esses olhos, bastantes a enlevar a Deus, bastantes a o ensoberbecer; e, à vista de tanto extremo de formosura, todos aclamarão a uma voz que sois concebida, Senhora, sem culpa original: que em tanta formosura não pode haver culpa.

Pregando em tal dia como hoje um pregador de contrária opinião, não duvidou dizer pública e declaradamente que a Virgem Maria fora concebida em pecado original. Estava na mesma igreja uma imagem da mesma Senhora de vulto, e vestida como então se costumava mais, e em se ouvindo no auditório aquela proposição, que faria? — Escreve o caso Bernardino de Bustes. — Estendeu o braço direito a imagem, pegou no manto, e cobriu o rosto. Qual seria o espanto e assombro, e também o aplauso de todos, bem se deixa ver. A mim me está lembrando neste passo o que aconteceu a Sara com el-rei Abimelec. Partiu-se Abraão de sua pátria, e fez concerto com Sara, que dali por diante se chamassem irmão e irmã, e não mulher e marido, porque assim levava a vida mais segura. Chegados ao Egito, onde Abimelec reinava, levaram logo o alvitre ao rei os ministros de seus apetites, dizendo que era chegada à corte uma mulher de estranha formosura. Informou-se o rei se era casada, e, dizendo-se-lhe que não, mandou que lhe levassem ao palácio. Que boa ocasião tínhamos aqui para uma pequena de doutrina! Era rei Abimelec, era gentio, era poderoso, e não tinha fé, nem tinha um mandamento da lei de Deus que lhe dissesse: Non concupisces exorem proximi tui (Dt. 5, 21): Não desejarás a mulher de teu próximo — e, contudo, foi tão comedido, que não tratou de Sara senão depois que soube primeiro que era mulher sem marido. E andou muito acertada Sara em se desterrar para o Egito, e não para outra de muitas terras, onde pode ser que não achasse tanto comedimento nos homens.

Enfim, não chegou Abimelec a afrontar a Sara, porque Deus, que zelava a honra de Abraão mais que ele mesmo, apareceu a Abimelec em sonhos, mui severo, mandando-lhe que restituísse logo a mulher a seu marido, sob pena de lhe tirar a vida a ele, e lhe abrasar o reino. Executou-o assim o rei no mesmo ponto, e mandando dar a Abraão quatrocentos cruzados, disse assim a Sara: Ecce mille argenteos deli fratri tuo, hoc erit tibi in velamen oculorum ad omnes qui tecem sunt (Gên. 20, 16): Sara, aquele dinheiro que mandei a vosso irmão, é para comprares um manto, ou véu, com que cobrir os olhos diante daqueles que vos conhecem. — Cobrir os olhos de Sara, por que razão? Não consta da Escritura que Abimelec não tocou a Sara no fio da roupa: Abimelech vero non tetigerat eam (ibid. 4)? Não consta que o rei declarou logo o caso como passara aos da sua corte: Locutus est universa verba haec in auribus eorum (ibid. 8)? Pois, se Sara estava tão inocente, tão livre de culpa, por que havia de cobrir o rosto? Por que havia de tapar os olhos: Hoc erit tibi in velamen oculorum? — Apenas há lugar na Escritura que tenha tantas exposições dos doutores; cada um diz o que lhe parece, o mesmo hei de fazer eu.

Diz Abimelec com muita razão a Sara que compre um manto com que cobrir os olhos, porque para uma mulher da autoridade de Sara, não são necessárias culpas verdadeiras: bastam culpas imaginadas para não ter olhos com que aparecer diante de gente. Ainda que o rei sabia a inocência de Sara, e a publicara, como o mundo é tão mau, muitos imaginariam o que quisessem; e basta que se imagine uma culpa em uma mulher tão santa, para que não tenha rosto com que aparecer, para que tape os olhos: In velamen oculorum. — De Sara pudera a Virgem Mana herdar este pundonor, como neta sua que era; mas em si tinha maiores obrigações que as herdadas. Corre o manto, tapa os olhos, quando ouve dizer de si que foi concebida em pecado original, não porque esta culpa fosse verdadeira, não; mas porque para a pureza da Mãe de Deus bastam culpas imaginadas para cobrir o rosto; basta uma suspeita, ainda que falsa, de culpa, para não ter olhos para aparecer: In velamen oculorum.

Assim é, Senhora minha, assim é; mas neste mesmo manto temos o remédio. Se porque vos condenam de culpa original cobris o rosto, descobri-o, e todos vos absolverão dessa culpa. A formosura desse rosto é a executória de vossa pureza. Não sou eu o que vo-lo digo, Senhora; nos Cantares vo-lo disse vosso Filho e Esposo sagrado, quando o consultastes neste caso: Indica mihi ubi pastas, ubi cubes in meridie (Cânt, 1, 6): Declarai-me, Esposo querido meu, diz a Senhora, onde repousais descansando às horas do meio-dia. — Ide notando as propriedades do texto, que são admiráveis. O pecado de Adão, que é o donde nasceu o original, foi cometido ao meio-dia. Assim se colhe do mesmo texto, em que Deus argüiu a Adão, e ele se escondeu logo depois do meio-dia: Et cum audisset votem Dei deambulantis ad auram post meridiem, abscondit se[9]. — E esta é a razão por que disse Rabano, e bem, que quis subir o Redentor à cruz no pino do meio-dia: Hora sexta — para que o pecado fosse pago na mesma hora em que fora cometido: Crucem meridie ascendit, ut qua hora primus homo lignum praevaricationis tetigerat, secundus homo lignum redemptionis ascenderet, — Vem, pois, a ser a pergunta da Senhora, que lhe declare o Esposo divino onde descansava por graça no tempo em que Adão pecara, e acrescenta maravilhosamente a nosso intento: Ne efficiar sicut adoperta[10]: Porque enquanto vós, Senhor, não declarardes isto, estarei eu com o rosto coberto, como costumam estar as acusadas de culpa: Ne efficiar sicut adoperta.

Ouvi agora o que respondeu o Esposo, que é milagrosa prova do nosso assunto: Si ignoras te, o pulcherrima inter mulieres[11]. — Perguntar isso, Esposa e Mãe minha, perguntar se estava eu em vós por graça no tempo em que pecou Adão, é ignorardes vós que sois a mais formosa de todas as mulheres. — Argumenta o Esposo pelas mesmas conseqüências em que o nosso discurso se funda, Diz que duvidar da graça original da Virgem é ignorar que é a mais formosa de todas as mulheres, porque quem conhecer sua formosura, impossível é que creia que foi concebida em pecado, que em tanta formosura não pode haver culpa. Divinamente o Abade Ruperto: O pulcherrima mulierum! Talis, ac tanta causa tua est, ut si te ipsam non ignores, statim scias illud quod quaeris: Dessa causa que perguntais, ó formosíssima entre todas as mulheres, dessa questão que moveis, convosco trazeis a resposta, convosco trazeis a solução. Vossa formosura é a prova de vossa imaculada Conceição. Só poderá duvidar dela quem ignora as excelências de vossa formosura: Si ignoras te, o pulcherrima inter mulieres (Cânt. 1, 7).

V — Se se passa em silêncio Sara, Rebeca, Raquel, e outras mulheres santíssimas, primo genitoras da Virgem, por que se faz menção de Bersabé, no catálogo da geração da Senhora? Donde havemos de coligir que quebrou Deus todas as leis de Adão na Conceição de Maria?

Entra agora o nosso tema, e, segundo o que prometi, é bom sinal: acaba-se o sermão. David autem genuit Salomonem ex ea quae fuit Uriae (Mt. 1, 6): Davi gerou a Salomão da mulher que foi de Urias. — Altercam muito os doutores por que se põe esta mulher no catálogo da geração da Senhora. E tem muito lugar a dúvida no dia de sua puríssima conceição. Se se passa em silêncio Sara, Rebeca, Raquel, e outras mulheres santíssimas, primogenitoras da Virgem, por que se faz menção desta, que foi muito menos casta, e menos santa? E já que se houvesse de falar nela, por que se não nomeia por seu nome de Bersabé, senão por mulher que foi de Urias? Porque nomear a Urias, é trazer à memória o aleivoso homicídio com que lhe mandou tirar a vida Davi; e dizer que fora sua mulher, é lembrar o adultério, que com tanto escândalo do mundo cometeu. Por todas estas razões entra no Evangelho de hoje Bersabé; por isso mesmo a põe Deus no catálogo da geração da Virgem. Assim como para fazer rainha a Bersabé, e para a fazer mãe de Salomão, quebrou Davi todas as leis divinas e humanas, matando a Urias, tirando-lhe a mulher, sem reparar em homicídios nem adultérios, assim Deus, para fazer a Maria Rainha dos anjos, e para a fazer Mãe do verdadeiro Salomão, Cristo, em nenhuma lei reparou: todas as leis quebrou, a quantas estavam sujeitos os filhos de Adão.

Por filhos de Adão, nascemos filhos da ira; por filhos de Adão, nascemos escravos do demônio; por filhos de Adão, nascemos deserdados da glória; por filhos de Adão, nascemos sujeitos àquela inclinação má, a que chamam fomes peccati. Por todas estas leis cortou Deus no dia da conceição de Maria, e a criou tão pura, tão imaculada, tão santa, quanto era bem que o fosse a que havia de ser Mãe do verdadeiro Salomão, Cristo: Genuit Salomonem ex ea quae fuit Uriae. — Bem está até aqui; mas donde havemos de coligir esses privilégios, donde havemos de coligir essas leis quebradas? Não no-lo hão de dizer doutores, senão o mesmo texto. Havemos de coligir estas leis quebradas do mesmo fundamento por que Davi as quebrou. O fundamento por que Davi quebrou todas aquelas leis não foi outro, como diz o texto, senão a formosura de Bersabé: Vidit mulierem se lavantem: erat autem mulier pulchra valde[12]. — Pois deste mesmo fundamento havemos de coligir também que quebrou Deus todas as leis de Adão na conceição de Maria: Erat enim mulier pulchra valde, antes, pulcherrima inter mulieres — porque é, como tão largamente temos visto, a mais formosa de todas as mulheres. Digamos logo com o Esposo: Tota pulchra es, amica mea, et macula non est in te (Cânt. 4, 7): Toda sois formosa, Senhora, e Mãe minha, e daí se colige, que não contraístes mácula de pecado original, — Digamos também com os anjos: Pulchra ut luna, electa ut sol (Cânt. 6, 9): Sois formosa, Senhora, como a lua e daí se colige bem que foste escolhida como o sol. — O sol de justiça, Cristo, é de fé que foi escolhido e predestinado sem pecado original; o mesmo confessa de vós, Virgem puríssima, a nossa devoção, e o fundamos em vossa formosura: Pulchra ut luna, electa ut sol — que onde a formosura é total, não pode haver mancha alguma: Tota pulchra es, amica mea, et macula non est in te[13]. — Assim o cremos, assim o confessamos. Cremo-lo com o coração, confessamo-lo com a boca, e o defenderemos sempre com o sangue e com a vida, se for necessário.

VI – Por que se mostrou Cristo tão liberal com o Bom Ladrão? A devoção à Conceição Imaculada de Maria, e as outras devoções. A lepra de Maria, irmã de Moisés, e o privilégio da Conceição Imaculada da Virgem, Senhora nossa.

Fixemos bem, cristãos, nesta proteção e devoção da Conceição da puríssima Senhora, e estejamos muito certos que nenhuma outra lhe agrada tanto à mesma Senhora, e que com nenhuma outra a havemos de obrigar tanto, como com esta. Duvidam os santos por que se mostrou Cristo tão liberal com o Bom Ladrão, que lhe prometesse tão efetivamente o reino do céu: Hodie mecum eris in paradiso[14] — coisa que se não lê haver o Senhor feito outra vez. A razão dizem que foi a que antecedentemente propõe o texto. Quando crucificaram a Cristo entre dois ladrões, o mau ladrão, como diz S. Lucas: Blasphemabat eum (Lc. 23, 39): blasfemava ao Senhor — dizendo que não era Filho de Deus, nem Messias, pois se não salvara a si nem a eles, como também o diziam os outros ouvintes: Praetereuntes blasphemabant[15]. — Acudiu o Bom Ladrão repreendendo-o, dizendo: Nos quidem juste, nam digna factis recipimus: hic vero nihil mali gessit (Lc. 23, 41): Os maus e os culpados somos nós, e assim justamente estamos aqui crucificados; que quanto a este Senhor: Nihil mali gessit: nenhum mal fez; é justo, é santo, é inocente. — E, dizendo isto, vira-se para Cristo: Domine, memento mei cum veneris in regnum tuum[16] Pois, homem, que quando me estão blasfemando, impugna aos que me blasfemam; homem, que quando todos me têm por malfeitor, ele me confessa por inocente; homem, que quando a minha honra está em opiniões, com tão ruim opinião, acode por mim, e diz que não tenho culpa: este homem, ainda que seja um ladrão, há de entrar comigo hoje no Paraíso: Hodie mecum eris in Paradiso (Lc. 23, 43). — O mesmo digo eu da Virgem puríssima. Todas as outras devoções que fazemos, todos os outros títulos que damos a esta Senhora lhe agradam muito; mas nenhum a obriga e rende tanto, como este de sua puríssima Conceição. Dizer da Senhora que é Mãe de Deus; dizer que foi Virgem antes do parto, no parto e depois do parto; dizer que é Filha do Padre, Mãe do Filho, e Esposa do Espírito Santo, todos estes títulos agradam muito à Senhora; mas não a obrigam tanto, como dizer que foi concebida sem pecado original, porque aqueles títulos, ainda que grandes, todos os crêem, todos os confessam, ninguém já duvida deles. Porém o título da Conceição Imaculada, como anda em questão, como está em opiniões, como há quem o duvida, que nos ponhamos nós da parte da Senhora, que impugnemos os que sentem o contrário, que a confessemos, apesar de todos, por concebida sem pecado original, isto obriga tanto à Senhora, que sem dúvida, como Mãe de tal Filho, dirá a cada um destes seus devotos: Mecum eris in paradiso. — Bem cabia aqui o quam mihi et vobis[17] — mas ainda digo mais uma palavrinha.

Quando os filhos de Israel iam caminhando para a Terra de Promissão, adoeceu de lepra Maria, irmã de Moisés. Parou logo o exército, e não deu mais passo adiante. Sara Maria outra vez, e fica purificada da lepra, e logo no mesmo ponto começou o exército outra vez a marchar: Et populus non est motus de loco illo, donec revocata est Maria[18]. — Por que não marcha o exército enquanto Maria está coberta de lepra; e tanto que sara da lepra, por que marcha logo? Orígenes responde a esta dúvida: Porque era figura de Maria, Mãe de Deus. — Onde Maria está coberta da lepra do pecado original, onde há uns que têm para si que foi a Senhora concebida em pecado, entendam e cuidem os que isso imaginam, que não hão de ir por diante no caminho da Terra de Promissão, não hão de fazer jornada no caminho do céu, Porém, onde Maria está pura da lepra original, onde há almas que têm para si, confessam e protestam que foi a Senhora concebida em graça, assim como lá os filhos de Israel logo marcharam para a Terra de Promissão, assim caminharão logo felizmente pelo caminho do céu, alcançando-lhes a mesma Senhora tantos auxílios, e importando-lhes tantas graças, quantas lhes segurem e façam certos os prêmios da glória: Ad quam nos, etc.

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[1] E o rei Davi gerou a Salomão, daquela que foi de Urias (M. 1, 6).
[2] No princípio criou Deus o céu e a terra (Gên. 1, 1).
[3] S. Joan. Chrys. ibid.
[4] E o rei Davi gerou a Salomão, daquela que foi de Urias (Mt. 1, 6).
[5] Mas então face a face (1 Cor. 13, 12).
[6] Senhor, a ti não se te dá que minha irmã me deixasse andar servindo só (Lc. 10, 40)?
[7] O teu coração se elevou na tua formosura (Ez. 28, 17).
[8] Ele era também muito belo (3 Rs. 1, 6).
[9] Como tivesse ouvido a voz de Deus, que passeava depois do meio-dia, escondeu-se (Gên. 3, 8).
[10] Apud Septuaginta.
[11] Se tu te não conheces, ó formosíssima entre todas as mulheres (Cânt. l, 7).
[12] Viu uma mulher que se estava lavando, e era uma mulher em extremo formosa (2 Rs. 11, 2).
[13] Toda tu és formosa, amiga minha, e em ti não há mácula (Cânt. 4, 7).
[14] Hoje serás comigo no paraíso (Lc. 23. 43).
[15] Os que iam passando blasfemavam (Mt. 27, 39).
[16] Senhor, lembra-te de mim, quando entrares no teu reino (Lc. 23, 42).
[17] Quam mini et vobis praestare dignetur Dominus Deus omnipotens: Que o Senhor Deus onipotente se digne conceder a mim e a vós (fórmula com a qual se terminavam os sermões).
[18] E o povo não se moveu daquele lugar enquanto Maria não foi tornada a chamar (Núm. 12, 15).

Fonte: https://www.literaturabrasileira.ufsc.br/documentos/?action=download&id=49776