Sermão de Santa Bárbara

SERMÃO DE SANTA BÁRBARA


Simile est regnum caelorum thesauro abscondito in agro, quem qui invenit homo, abscondit, et prae gaudio illius vadit, et vendit universa quae habet, et emit agrum illum[1].

I – Santa Bárbara entre os santos escolhidos para louvar a Deus e favorecer e ajudar aos homens. O tesouro escondido de que fala Cristo no Evangelho. Quais são os tesouros que Santa Bárbara comprou com o preço de quanto tinha? O que comprou para si e o que comprou para nós. Assunto do sermão: o perpétuo socorro com que Santa Bárbara nos ajuda a batalhar e vencer na Igreja militante.

Assim como há uns homens que nasceram só para si, e outros que nasceram para si e para a república, e por isso são os mais beneméritos do gênero humano e celebrados da fama, assim há uns santos que foram escolhidos só para louvar a Deus, e outros para louvar a Deus e favorecer e ajudar aos homens. E sendo esta segunda prerrogativa tão parecida ao mesmo Deus, que não nasceu para si senão para nós, e tão semelhante aos anjos, que juntamente vêem a Deus no céu e nos guardam na terra, se fizermos comparação no mesmo gênero entre todos os santos e santas, facilmente acharemos que não só igualou mas excedeu a todos: quem? A gloriosa Santa Bárbara, a cuja proteção e memória, com tanto estrondo e abalo dos elementos, se dedica este alegre dia.
Nas palavras que propus, diz Cristo, Mestre divino e Senhor nosso, que é semelhante o reino do céu a um tesouro escondido no campo, o qual, como o achasse um homem venturoso, se foi logo a vender quanto tinha, para comprar o campo e se fazer senhor do tesouro. Para inteligência de que tesouro escondido fosse este, é necessário saber primeiro qual seja o reino do céu que Cristo chama semelhante a ele: Simile est regnum caelorum thesauro abscondito. — S. Gregário Papa adverte aqui doutamente que o reino do Céu nas divinas letras se divide ou distingue em dois reinos: um eterno, outro temporal; um futuro, outro presente; um na Igreja triunfante, que descansa em paz no céu, outro na guerreira e militante, que ainda trabalha e peleja na terra. Daqui se segue que, assim como há dois reinos semelhantes ao tesouro escondido, assim há dois tesouros escondidos semelhantes a um e outro reino, e estes são os dois tesouros que Santa Bárbara comprou com o preço de quanto tinha: Vendit universa quae habet, et emit agrum illum[2].
Tinha Santa Bárbara, como filha única e herdeira de Dióscoro, seu pai, senhor nobilíssimo da cidade de Nicomédia, um riquíssimo patrimônio dos bens que chamam da fortuna. Tinha mais outro mais precioso e mais rico, que era o de todos os dotes da natureza e graça, formosura, discrição, honestidade, e as demais virtudes por onde o desejo e emulação de todos os grandes a procu­ravam por esposa. E tendo já consagrado tudo isto a Deus na flor da idade, até a liberdade e a vida lhe sacrificou a sua fé e o seu amor: a liberdade em um dilatado martírio, presa por muito tempo e aferrolhada em um castelo, e a vida em outro martírio, mais breve, mas muito mais cruel, sendo variamente atormentada com todos os gêneros de tiranias, e, finalmente, degolada com a maior de todas, por mão de seu próprio pai.
Este foi o preço verdadeiramente de tudo quanto possuía com que Bárbara comprou os dois tesouros, um para si, outro para nós. Para si, o da eterna coroa que goza em paz na Igreja triunfante do céu, para nós o do perpétuo socorro com que nos ajuda a batalhar e vencer na militante da terra. Deste, que é o que hoje vimos reconhecer diante de seus altares em perpétua ação de graças, é o de que tratarei somente. Confessando, porém, primeiro que para publicar os poderes e louvores de Santa Bárbara, assim como os trovões da artilharia são mudos, assim as vozes mais polidas dos pregadores, e toda a nossa eloqüência é bárbara. Ave Maria.

II – Os tesouros escondidos de Deus. O fogo, o maior, o mais nobre e o mais escondido tesouro do universo. Por que razão Moisés faz menção da terra, da água e do ar; e não a faz do fogo? 0 fogo no aparato da majestade de Deus. Santa Bárbara, governadora, protetora e defensora do fogo.

Simile est regnum caelorum thesauro abscondito.
Uma das coisas admiráveis que fez e tem Deus neste mundo, e de que sua sabedoria e grandeza muito se preza, são os seus tesouros escondidos. Porventura — diz Deus a Jó — entraste tu nos meus tesouros da neve, ou viste os meus tesouros da saraiva, os quais eu tenho guardado para o tempo dos inimigos, e para o dia da guerra e da batalha? Numquid ingressos es thesauros nivis, aut thesauros grandinis vidisti, quae praeparavi in tempos hostis, et in diem pugnae et belli (Jó 38, 22 s) — Porventura pôde até agora a especulação dos filósofos descobrir a origem e verdadeiras causas dos ventos, tão inconstantes e leves eles, e tão encontrados nas suas opiniões, como o norte e o sul? Mas por isso o desenganou Davi, que só Deus, que criou os ventos, lhes conhece o nascimento, e os tira, quando e como é servido, do secreto de seus tesouros: Qui producit ventus de thesauris sui[3]. — Não é menor maravilha que, não crescendo a superfície do mar um dedo, com todas as correntes dos rios que nele deságuam, sejam tais as inundações do mesmo mar que tenham afogado cidades e sepultado províncias inteiras. Mas todos estes dilúvios particulares, sem serem ajudados do céu nem das nuvens, os tem depositado Deus nos ocultos e profundos abismos dos seus tesouros: Ponens in thesauris abvssos[4]. –Finalmente, destes mesmos tesouros escondidos tinha já profetizado Jacó: lnundationem maris quasi lac sugent, et thesauros absconditos arenarum[5].
De maneira que na terra, na água, no ar, como em diferentes e vastíssimos campos, tem Deus escondidos seus tesouros. Mas nenhum destes, com serem tão grandes e tão vários, é o que o mesmo Deus descobriu a Santa Bárbara, e de que ela, com os cabedais de seu merecimento se fez senhora. O maior, o mais nobre, o mais maravilhoso, e o mais escondido tesouro do universo, é o quarto elemento, o fogo. É tão escondido, que Pitágoras e outros, que refere Santo Agostinho, porque não vemos a esfera do fogo, a negaram totalmente. Os lugares em que a natureza colocou os elementos ocupam todo o espaço que se estende desde o centro do mundo até o céu. A terra ao redor do centro, a água sobre a terra, o ar sobre a água, o fogo sobre o ar até o côncavo da lua ou do empíreo. Mas, se a esfera do fogo é tão imensa, e o fogo naturalmente luminoso, como a não vemos ao menos de noite? Logo sinal é — inferiam estes autores — que o fogo não tem esfera. Mas, sendo evidente por outras demonstrações que a perfeição do universo não podia carecer deste tesouro, o que deviam inferir, como nós dizemos, é que se não vê por ser tesouro escondido. E porque o não possam contradizer filósofos nem matemáticos, leiam-se as primeiras palavras com que a Escritura Sagrada descreve a criação do mundo, e acharemos nelas expressamente a terra, a água, o ar, mas o fogo não: Terra autem erat inanis et vacua, et Spiritus Domini ferebatur super aquas[6]. — Terra autem: eis aí a terra; super aguas — eis aí a água; Spiritus Domini –eis aí o ar. — E por que razão Moisés, assim como fez menção dos outros três elementos, a não fez também do quarto? Se fez menção da terra, da água e do ar, por que a não fez também do fogo? Porque Moisés, como notam S. Basílio, S.João Damasceno e Beda, só falou das coisas manifestas, e que se vêem. E assim como calou a criação dos anjos, porque são invisíveis, assim não falou do fogo elementar, porque está escondido a nossos olhos.
Este tesouro, pois, tão propriamente escondido, é o que Deus descobriu, e de que deu o domínio a Santa Bárbara, fazendo-a governadora, protetora e defensora do fogo. Ó gloriosa filha de Eva, maior senhora que a primeira mulher, ainda no estado da inocência e na felicidade do paraíso! O maior poder, ou poderes, que nunca Deus deu a algum homem, foi a Adão. E que poderes lhe deu? Sobre a terra, sobre a água, sobre o ar: Ut praesit piscibus maris, et volatilibus caeli, et bestiis, ac universae terrae[7]. — Tudo o que se move neste mundo, ou andando na terra, ou nadando na água, ou voando no ar, será sujeito a teu império. Mas, assim como Deus deu a Adão o domínio dos três elementos inferiores, o do quarto e supremo, por que lho deu? Se ao império da terra ajuntou o da água, e ao da água o do ar, ao do ar, por que não ajuntou também o do fogo? Porque esse reservou-o Deus para si. Lede os profetas, que são os que, vivendo na terra, só pediam entrar e ver a corte do céu, e achareis que todo o aparato da majestade de Deus é fogo, e tudo quanto decreta e executa, por instrumentos de fogo. Se está assentado, o seu trono é de fogo: Thronus ejus flammae ignis[8]; — se sai a passear como em carroça, as rodas são de fogo: Rotae ejus ignis accensus[9]; se leva diante a sua guarda real, os archeiros são de fogo: Ignis ante ipsum praecedet[10]. — Para qualquer parte que volte o rosto saem dele chamas de fogo: Ignis a facie ejus exarsit[11]; — se olha, é com olhos de fogo: Oculi ejus tanquam flamma ignii[12]; — se ouve, com ouvidos de fogo: Deus qui exaudiet per ignem[13]; — se fala, com vozes de fogo: Audisti verba illius de medio ignis[14]. –E até o mesmo Deus se cria vulgarmente que era fogo: Deus noster ignis consumens est[15]. — Isto é o que viram os profetas no céu, e também o viu todo o povo na terra, quando Deus desceu a lhe dar a lei no Monte Sinai: Totus autem moas Sinai fumabat: eo quod descendisset Dominus super eum in igne (Êx. 19, 18): De todo o monte saíam e subiam nuvens espessas de fumo, porque Deus tinha descido sobre ele em fogo. — Tudo o que se ouvia eram trovões, tudo o que se via, relâmpagos. Et ecce coeperunt audiri tonitrua, et micare fulgura[16]. — Até os gentios, por estes efeitos, ao seu Júpiter chamaram Tonante, e lhe deram por armas os raios, cantando os seus poetas do falso Deus o mesmo, nem mais nem menos, que Davi afirmou do verdadeiro: Intonuit de caelo Dominus, et Altissimus dedit vocem suam: grando et carbones ignis[17]. — E este é, como dizia, o império e governo do quarto e supremo elemento que Deus reservou para si, e, tendo-o negado a Adão, e não concedido a algum de tantos famosos heróis que passaram em tantos séculos, o delegou finalmente em Santa Bárbara, sujeitando a esfera do fogo, e seus prodigiosos e temerosos efeitos, ao arbítrio de seus poderes, e o socorro e remédio deles à invocação de seu nome.

III – Quando (leu Deus a Santa Bárbara a investidura deste império? Os dois raios fatais e os dois cruelíssimos tiranos que concorreram para a morte da santa. Os dois raios racionais de S. Tiago e de S. João, e os raios sem entendimento de S. Bárbara. A oportunidade dos obséquios da Madalena. A espada de Pedro no Horto e a natureza dos raios. A obediência dos raios nas palavras de Jó.

E se perguntardes quando lhe deu Deus a investidura deste império, ou a posse deste governo, e de que modo, respondo que por meio de dois raios fatais, pouco depois da morte da mesma santa. Concorreram para a morte ou para o triunfo de Bárbara dois bárbaros, um menor, outro maior tirano, ambos cruelíssimos. O primeiro tirano, e menor, foi Marciano, que martirizou o corpo inocente e virginal da santa com os mais esquisitos tormentos; o segundo tirano, e maior, foi Dióscoro, seu pai, que com entranhas mais feras que as das mesmas feras, desembainhou a espada e lhe cortou a cabeça. Que faria à vista deste espetáculo o fogo, que com instinto oculto e mais que natural já sentia naqueles sagrados e coroados despojos, e já começava a reconhecer a nova sujeição e obediência que depois de Deus lhe devia? Rasgam-se no mesmo tempo as nuvens, ouvem-se dois temerosos trovões, disparam-se furiosamente dois raios, os quais, derrubando, abrasando e consumindo os dois tiranos, em um momento os desfizeram em cinzas. Ah! miseráveis idólatras e tiranos impiíssimos, que se no mesmo tempo em que os dois relâmpagos vos feriram os olhos, invocásseis o nome da mesma vítima, a quem tirastes a vida, ela sem dúvida vos livraria da morte! Mas nem os tiranos cegos souberam conhecer onde tinham o seu remédio, nem os mesmos raios, que nesta execução começavam já a professar o culto e veneração de Bárbara, esperaram seu império eu consentimento para vingar suas injúrias, porque não obravam como causas naturais, por próprio impulso, mas guiados por destino oculto e entendimento superior que os governava.
E para que vejamos quão entendidamente servirem a Santa Bárbara, e sem esperar sua obediência lhe obedeceram, comparemos estes dois raios sem uso de razão com outros dois raios racionais e de grande entendimento. Aos dois irmãos S. Tiago e S. João mudou-lhes Cristo o nome, ou acrescentou-lho, chamando-lhes raios: Jacobum Zebedaei, et Joannem fratrem Jacobi, et imposuit eis nomina Boanerges, quod est filii tonitrui[18]. — Boanerges propriamente quer dizer filhos do trovão, e porque do trovão nasce o raio boanerges em frase hebréia ou siríaca, qual era a vulgar daquele tempo, significa raios. E que fizeram estes dois raios tão entendidos? Negando os samaritanos a Cristo a entrada da sua cidade, quiseram ambos castigar este desprezo e vingar esta injúria de seu Mestre, fazendo como raios que descesse fogo do céu e abrasasse os samaritanos; mas este fogo, este zelo e este pensamento tão bravo e tão bizarro tudo ficou no ar: por quê? Porque consultaram e pediram licença a Cristo: Domine, vis dicimus ut descendat ignis de caelo, et consumai illos[19]? — Respondeu o Senhor que ele não viera ao mundo a matar homens, senão salvá-los, e que eles, como seus discípulos, haviam de perdoar as injúrias, e não vingá-las. O mesmo havia de responder Santa Bárbara, se os nossos dois raios a consultaram ou lhe pediram seu consentimento, para vingar as suas injúrias, e matar e abrasar os tiranos. Mas eles, sendo raios sem entendimento, entenderam melhor o caso. Há casos em que, por pedir licença, se perdem as mais gloriosas ações. Notou discretamente S. João Crisóstomo que, se a Madalena pedira licença a Cristo para lhe derramar uma vez aos pés, outra sobre a cabeça os seus preciosos ungüentos — que eram as águas de Córdova ou de Âmbar daquele tempo — como este regalo fosse tão contrário à mortificação que o Senhor professava, claro está que lhe não havia de conceder a licença. Mas o mesmo Senhor, que não havia de conceder a licença pedida, depois que a Madalena, sem a pedir, lhe fez aquele obséquio, não só defendeu a obra, mas a aprovou e louvou: Bonum enim opus operata est in me[20]. — O mesmo havia de suceder aos dois raios do apostolado, se ele abrasaram os samaritanos, como justamente mereciam. Mas o que eles, sendo tão entendidos, não entenderam nem fizeram, fizeram sem entendimento os nossos raios, porque eram governados por outra inteligência mais alta.
No caso da prisão de Cristo, S. Pedro, sem pedir licença, tirou pela espada, investiu os inimigos, e começou a cortar orelhas; os outros discípulos, pelo contrário, chegaram-se ao Senhor e pediram licença: Domine, si percutimus in gladio[21]? –E quem se mostrou mais fiel servo, mais valente, e mais zeloso da vida e da honra do seu Senhor? Não há dúvida que Pedro, e como tal o louvam todos os santos. Entre os outros discípulos também se achavam os dois Boanerges, os dois raios, mas quem se portou como raio foi Pedro, porque essa é a bizarra natureza dos raios, ferir e executar primeiro, e depois protestar a sua sujeição e obediência. É texto excelente no livro de Jó. — Numquid mittes fulgura, et ibunt, et revertentia dicent tibi: Adsumus (Jó 38, 35)? Porventura — diz Deus a Jó — são tais os teus poderes, como os meus, que despidas do céu os raios, e eles depois de executarem tornem a ti, e te digam: Aqui estamos prontos para obedecer o que nos mandares? — Caetano, demasiadamente sutil neste passo, disse que estão aqui as palavras trocadas, e que primeiro se haviam de apresentar os raios obedientes, e dizer adsumus, e depois executar o que lhes mandassem. Mas com razão é rejeitada de todos esta sutileza, como alheia do texto e da condição do raio, porque os raios, depois de qualificarem a sua obediência com a execução, então é que a protestam com dizerem: aqui estamos: Ibunt, et revertentia dicent: Adsumus. Isto é o que fizeram os dois raios vingadores das injúrias de Santa Bárbara, começando a protestação e reconhecimento da sua obediência e sujeição à santa pela ante­cipada execução do que deviam à sua honra, sem esperar o mandado, ou licença do seu império. Est nimirum haec circumlocutio obsequentissimorum famulorum — diz, com S. Gregório Papa, o doutíssimo Pineda.

IV – Qual foi o preço proporcionado e justo com que Santa Bárbara, e ela só, comprou e mereceu o extraordinário domínio do fogo e dos raios. A águia e o louro, exceções da natureza na jurisdição do raio. O privilégio das virgens e mártires, e o privilégio único de Santa Bárbara. A singularidade do martírio da santa. Paralelo entre Jefté e Dióscoro, pai de Santa Bárbara. As virgens e a natureza do fogo. As três janelas da torre de Santa Bárbara e o caráter próprio da SS. Trindade.

Termos visto como Santa Bárbara dominou o mais escondido tesouro da natureza, que é o fogo, e como Deus lhe sujeitou as mais violentas e temerosas partes ou efeitos dele, que são os raios. Dizendo, porém, o Evangelho que os tesouros de que fala ninguém os alcança de graça, senão comprados, e comprados com tudo quanto possui: Vendit universa quae habet, et emit agrum illum[22] — segue-se que vejamos qual foi o preço proporcionado e justo com que a nossa santa, e ela só, comprou e mereceu este extraordinário domínio. É questão curiosa e não fácil. Para inteligência dela havemos de supor que estes tesouros, quaisquer que sejam, ou os compram os santos por mão própria, ou por mão alheia. Os confessores compram por mão própria, com as virtudes e boas obras que eles por si mesmo exercitam; os mártires compram por mão alheia, com os tormentos e crueldades que lhes fazem padecer os tiranos. Mas daqui parece que se segue que esta singular prerrogativa de Santa Bárbara, qualquer outra virgem e mártir a mereceu igualmente, porque deu o mesmo preço. A mesma natureza parece também que confirma este direito em duas exceções ou limitações com que produz os raios. Não só os poetas, que merecem pouco crédito, mas os autores da história natural, como Plínio e os mais, excetuam da jurisdição dos raios, entre as aves, a águia, e, entre as árvores, o louro. E assim como a águia e o louro não são dominados, senão predominantes ao raio, assim à virgem e à mártir parece que é devido este predomínio: à virgem, enquanto mártir, como à águia, pela coroa; e à mártir, enquanto virgem, como ao louro, pela lauréola. Que causa há logo, ou que razão de diferença entre tantas virgens e mártires, para que a singular prerrogativa deste domínio a desse a divina justiça, como prêmio de seu merecimento, unicamente a Santa Bárbara?
A razão manifesta é porque o martírio de Santa Bárbara, entre todas e todos os mártires, foi o mais violento e furioso de quantos se padeceram a mãos dos tiranos. Os outros mártires padeceram a mãos dos Neros e dos Dioclecianos: Santa Bárbara a mãos de seu próprio pai, gênero de martírio, pela atrocidade desta circunstância, não só singular e inaudito, mas não imaginável. Soube Dióscoro que sua filha era cristã, e porque nenhum meio lhe bastou de promessas ou ameaças, de benevolência ou rigor, com que a pudesse apartar da fé, primeiramente a entregou ao presidente Marciano, debaixo de juramento que todos os tormentos e gêneros de martírios, quantos até então se tinham inventado, os havia de experimentar e executar nela; e assim o jurou e se fez. Os ecúleos, as catastas, os escorpiões e pentes de ferro, as lâminas ardentes, os chumbos derretidos, os peitos cortados, os dentes e voracidade das feras, tudo se experimentou em Bárbara, não havendo parte sã e de que não corresse sangue em todo o delicado corpo, e ferindo-se já não o corpo, senão as feridas umas sobre outras. Vencido, pois, Marciano, e vendo esgotados em vão todos seus tormentos, pronunciou finalmente a última sentença, e mandou aos verdugos que cortassem a cabeça a Bárbara. — Os verdugos? — replicou o pai — isso não. Eu sou, e com estas mãos, o que lhe hei de tirar a vida. — Isto disse desembainhando a espada, e, descarregando-a com toda a força na garganta inocente, com um golpe lhe apartou a cabeça dos ombros. Oh! espetáculo, oh! portento de desumanidade, nunca visto — como dizia– nem ouvido, nem imaginado!
Um só pai lemos nas Escrituras que tirasse a vida a sua filha, que foi Jefté, em cumprimento de um voto que tinha feito a Deus. Mas que comparação tem aquele caso com este? Aquele foi um excesso de religião, este um prodígio de crueldade. Ali o pai era sacerdote, aqui sacrílego, ímpio e blasfemo. Um sacrificava a filha amada a Deus, outro a filha aborrecida aos ídolos. Um derretendo-se-lhe as entranhas de compaixão como cera, outro com o coração mais duro que os mármores. Um correndo-lhe dos olhos lágrimas de piedade e amor, outro vomitando pela boca labaredas de ódio e ira. Um derramando o sangue ela filha como próprio, outro não só como alheio, mas como do maior inimigo. Um tremendo-lhe a mão da espada, outro triunfando de a ver tingir na púrpura que lhe saíra das veias. Um matando a quem desejava a vida, outro tirando-a a quem a tinha dado. Um com o maior exemplo da fé, outro com o maior escândalo horror da natureza. Enfim, ambos pais e filhas, mas com tal diferença em um e outro espetáculo que, vendo o sacrifício de Jefté, choravam de lástima mulheres e homens, e à vista do parricídio de Dióscoro pasmavam e estavam atônitos os leões e os tigres. E como o martírio de Bárbara foi o mais violento e furioso de todos os martírios, por isso mereceu com ele o domínio do mais violento e furioso de todos os elementos.
Comparai-me o pai de Bárbara, na violência e fúria desta sua ação, com o fogo, e vereis quão parecidos e semelhantes são um e outro. Notou advertidamente Sêneca que é natural da violência e eficácia do fogo não consentir que as coisas sejam o que são. –Ignis nihil esse quod sit patitur[23]. — Era Dióscoro pai de Bárbara, mas a violência e fúria, ou, por melhor dizer, o fogo da sua tirania não consentiu que fosse o que era. Era pai, e deixou de ser pai. Mas assim havia de ser, ou deixar de ser o que era, para mais propriamente ser como o fogo. Entre todos os elementos só o fogo não é pai: todos os outros geram e são fecundos, só o fogo é estéril e não gera. Essa é a propriedade da etimologia, com que os latinos sabiamente lhe chamaram ignis. Compõe-se o nome de ignis de in e de gigno, como se disseram, non gignens: o que não gera, porque as salamandras, que alguns lhe perfilham, são fábula. Mais fizeram. Para guardar perpetuamente o fogo, que chamavam sagrado, instituíram a religião das virgens vestais. E por que razão virgens? Para que elas e o fogo, a quem guardavam, fossem semelhantes: ele por natureza, e elas por instituto, sem geração. Ouçamos ao autor do seu ritual no livro dos Fastos:
Nec tu aliud Vestam, quam vivam intellige flammam:
Nataque de flamma corpora nulla vides.
Jure igitur virgo est, quae semina nulla remittit
Nec capit([24]).
E como o pai de Bárbara, sendo pai por natureza, deixou de ser pai por tirania, e, tendo-a verdadeiramente gerado, lhe tirou tão cruelmente a vida, como e se a não gerara, em perpétua memória deste portento da desumanidade lhe deu justamente Deus o domínio do elemento que só não é pai nem gera; e assim como ela padeceu a violência e fúria do mais violento e furioso de todos os martírios, assim dominasse a violência e fúria do mais violento e furioso de todos os elementos.
E se a singularidade do martírio de Santa Bárbara mereceu este domínio comum sobre o fogo, não foi menos devido à causa do mesmo martírio o domínio e império particular sobre as partes mais violentas e furiosas do mesmo fogo, que são os raios. Quando o pai já cruel encerrou a santa naquela torre, mandou que se abrissem nela duas janelas, e como depois visse abertas três, e soubesse da mesma filha que ela tinha acrescentado a terceira em honra da Trindade do verdadeiro Deus trino e uno, que adorava, esta fé e protestação constante foi a causa do seu martírio. Vamos agora ao mistério e proporção do prêmio com que Deus o remunerou. Em todas as coisas que Deus criou, como marca ou caráter próprio — a modo dos grandes artífices — imprimiu alguns vestígios do seu soberano ser, trino e uno, posto que muitos os não conheçam, como disse Davi: Et vestigia tua non cognoscentur[25]. — Mas, entre todas as criaturas irracionais, nenhuma traz mais impresso e expresso em si este caráter que o raio, o qual é um tridente de fogo dividido em três pontas, e por isso chamado trino ou trissulco. Illle pater rectorque Delfim, cui dextra trisulcis ignibus armata est — diz Ovídio; e Sêneca: Opifex trisulci fulminis sensit Deus[26]. — Por outra parte, a mais natural hostilidade dos raios — que sempre buscam o mais alto — é combater e escalar as torres. Tanto assim que em alguns lugares de Itália, que refere Plínio, foi vedado no tempo da guerra levantarem-se torres, porque todas batiam e destruíam os raios: Turres bellicis temporibus desiere fieri, nulla non earum fulmine diruta[27]. — E como a causa do martírio de Santa Bárbara foi a fé e protestação da Santíssima Trindade, esculpida ou declarada nas três janelas da sua torre, para que o prêmio fosse proporcionado, não só ao martírio, senão também à causa, em memória da Trindade deu-lhe o domínio dos raios, que representam a mesma Trindade nas suas três pontas, e em memória da torre fê-la tutelar das torres e dos castelos, para que as guarde e defenda dos mesmos raios.

V – Por que dá o autor o parabém a Deus, e não à Santa, pelo privilégio que lhe é concedido. As queixas de Deus por boca de /saías e Ezequiel. As armas de Deus pintadas nas palavras de Davi. Como se podem não temer os raios, segundo Sêneca. O pedido da santa antes de oferecer a garganta à espada do tirano.

Para bem vos sejam, todo-poderoso e todo-piedoso Deus — que me não quero congratular neste caso com a nossa e vossa santa, senão com a vossa infinita bondade. Para bem vos sejam estes mesmos poderes que comunicastes à vossa grande serva e defensora nossa, para que tenha a vossa misericórdia quem modere os rigores de vossa justiça, e quando a vossa mão armada de raios queira fulminar o mundo, ou vos tenha mão no braço, ou os apague e divirta, antes de chegarem à terra.
É tal a bondade de Deus — o qual ainda quando mais irado se não esquece de sua misericórdia — que, quando quer castigar os homens, o que mais sente é não haver algum que se lhe oponha e lhe resista. Esta é a queixa que faz por boca de Isaías no Capítulo cinqüenta e nove, onde o profeta descreve ao mesmo Deus irado contra os cativos de Babilônia, e armado de justiça, de zelo, de indignação e vingança para os castigar e destruir como inimigos: Indutus est justitia ut lorica, et galea salutis in capite ejus; indutus est vestimentis ultionis, et opertus est quasi pallio zeli; sicut ad vindictam quasi ad retributionem hostibus sui, et vicissitudinem inimicis suis[28]. — Estas eram as armas de que Deus já estava vestido de ponto em branco para executar o castigo naqueles homens. E a sua queixa no meio desta mesma deliberação, qual era? Bendita seja tal bondade e tal amor! Et vidit guia non est vir, et aporiatus est, guia non est qui ocurrat[29]. — Assim, provocado de sua justiça, assim irado, assim armado, assim deliberado a castigar, e já com os instrumentos da vingança nas mãos, o que Deus mais sentia, o que mais o magoava, o que mais o afligia, e quase desesperava — que tudo isso significa aporiatus est — enfim, o de que só se queixava o bom Senhor é de não haver um homem que se opusesse e contrariasse a sua mesma deliberação, e acudisse pelos que queria castigar, e rogasse e intercedesse por eles, e, com eficácia de razões, como Moisés, o persuadisse a perdoar, ou lutando com ele, como Jacó, à força de braços e abraços o reduzisse e rendesse.
A mesma queixa fez outra vez Deus pelo profeta Ezequiel, dizendo: Non ascendistis ex adverso — ou, como lê o original hebreu; non ascendistis in fracturas et interruptiones — negue opposuistis muram pro domo Israel, ut staretis in praelio in die Domini[30]. — Foi o caso que tinha Deus sitiado a cidade de Jerusalém com o exército dos caldeus, para a castigar e destruir, e tendo já aberto brechas para o assalto real — que isso quer dizer fracturas et interruptiones — queixa-se Deus de que os cercados não fizessem contramuros às mesmas brechas: Neque opposuistis murum — e não saíssem a defender fortemente a entrada dos inimigos. Pois, se o sitiador era Deus, e o exército de Deus, e de Deus havia de ser a vitória e o castigo: In die Domini — por que se queixa o mesmo Deus de não haver quem se lhe opusesse e resistisse: Non ascendistis ex adverso, negue opposuistis murum?–Porque, sendo a condição de Deus não condenar, senão perdoar, não assolar, senão consolar, não matar, senão dar vida, quando, a mais não poder, toma as armas para nos castigar, o que mais deseja e estima é achar quem lhe resista, e o obrigue a embainhar a espada. Por isso, quando dá semelhantes poderes contra si ou sobre si mesmo a Bárbara, não a ela, nem a nós, senão ao mesmo Deus dou eu o parabém, porque, se dantes dizia: Non est vir qui occurrat — e se queixava de não ter um homem que se lhe opusesse, já agora terá uma mulher que o vença e o desarme.
As mais temerosas e formidáveis armas de Deus são os trovões e os raios: Dominum formidabunt adversarii ejus: et super ipsos in caelis tonabitt[31]. — Armado destas armas nos pinta Davi ao mesmo Deus, com tal horror de palavras, que até pintado faz tremer: Commota est et contremuit terra: fundamenta montium concussa sunt, et conquassata, quoniam iratus est eis. Ascendit fumus de naribus ejus, et ignis de ore ejus vorabit: carbones succensi sunt ab eo.Inclinavit caelos, et descendit: et caligo sub pedibus ejus. Prae fulgore in conspectu ejus, succensi sunt carbones ignis. Tonabit de caelo Dominus: et excelsus dabit votem suam. Misit sagittas et dissipavit eos: fulgur, et consumpsit eos. Et apparuerunt effusiones maris, et revelata sunt fundamenta orbis ab increpatione Domini, ab inspiratione spiritus furoris ejus[32]. — Não há língua que possa declarar a prosopopéia tremenda desta descrição, senão emudecendo. Inclinará Deus os céus, e avizinhar-se-á mais à terra para castigar seus habitadores; debaixo dos pés trará um remoinho de nuvens negras, escuras e caliginosas; das ventas lhe sairão fumos espessos de ira, de indignação, de furor; da boca, como de fornalha ardente, exalará um vulcão de fogo tragador, que tudo acenda em brasas e converta em carvões; atroará os ouvidos atônitos com os brados medonhos de sua voz, que são os trovões; cegará a vista com o fuzilar dos relâmpagos alternadamente acesos, abrindo-se e tornando-se a cerrar o céu temerosamente fendido, disparará finalmente as suas setas, que são os raios e coriscos; abalar-se-ão os montes, retumbarão os vales, afundar-se-ão até os abismos os mares, descobrir-se-á o centro da terra, e aparecerão revoltos os fundamentos do mundo. — E no meio desta confusão, assombro, terror e desmaio, quais estarão os corações dos homens, e que será deles? — Consumi-los-á Deus, diz Davi: Et consumpsit eos. — Mas isto se entende do tempo em que Davi escreveu, muitos séculos antes de haver na terra a gloriosa defensora destas baterias e destes tiros do céu, até então invencíveis. Porém, depois que no mundo foi conhecido aquele nome sagrado, ou o sagrado daquele nome, por mais que as nuvens se rasguem em trovões, se acendam em relâmpagos, e se desfaçam em raios — Santa Bárbara! — em se invocando e soando este poderoso e portentoso nome, os trovões, os relâmpagos, os raios, tudo se dissipou, e aqueles estrondos, medos e ameaças do céu, não só pararam sem efeito, e se desfizeram sem dano, mas donde a terra temia ser abrasada, se viu regada, porque os raios se resolveram em rios, e o fogo se converteu em água: Fulgura in pluviam fecit (SI. 134, 7).
Eu não quero, nem posso dizer, que depois que no mundo houve Santa Bárbara os raios não fossem nocivos aos homens, ou assombrando-os só com o ar, ou tirando-lhes a vida, e fazendo-os em cinza com o fogo, pois estão cheias as histórias de mortes notáveis de grandes personagens feridas e despedaçadas com raios. Mas o que só quero dizer é que, de pessoa que invocasse a Santa Bárbara, e algum raio a ofendesse, nenhuma história há nem, como logo direi, a pode haver. Sêneca, nas questões naturais, depois de disputar sobre a origem e formação dos raios, conclui com uma sentença verdadeiramente estóica: Maio fulmen non timere quam nosse: Antes quero não temer o raio que conhecê-lo. — Tu, Lucílio, ensi­na aos outros como os raios se fazem; eu para mim só quisera saber como se não temam: Itaque alios doce quemadmodum fiant: ego mihi metum illorum excuti mato, quam naturam indicari. — E se perguntarmos ao mesmo Sêneca como se podem não temer os raios, responde que não temendo a morte. Só quem não teme a morte não teme o raio. E não bastará falando gentilicamente, encomendar-se um homem aos deuses? Absolutamente não. Porque os raios, diz ele, uns são fatais e necessários, e estes de nenhum modo se podem evitar; outros são contingentes e arbitrários, e só para estes podem aproveitar as orações e os votos: Quae dam enim a diis immortalibus ita suspensa relida sunt, ut in bonum vertant, si adorotae diis preces fuerint, et vota suscepta[33]. — Até aqui Sêneca, como grande filósofo, mas sem fé. Para nós, porém, que sabemos que não há fado mais que a Providência Divina, sempre livre e toda poderosa, digo que nenhum raio poderá fazer mal a quem se encomendar a Santa Bárbara. E por quê? Porque assim o prometeu Deus à mesma Santa. Antes de oferecer a garganta à espada do tirano fez Bárbara oração a Deus que a todos os que a tomassem por intercessora concedesse sua divina Majestade o que pedissem: e no mesmo ponto se ouviu uma voz do céu, que dizia: — Assim será como desejas. — Logo, nenhum raio pode ferir a quem tomar por intercessora a Santa Bárbara. A conseqüência é evidente. Porque aquela voz que se ouviu do céu foi voz de Deus, e o raio que sai do trovão também é voz de Deus, como diz Jó: Tonabit Deus in voce sua[34]. — Logo, esta segunda voz de Deus é força que se conforme com aquela primeira, também de Deus, porque não seriam vozes da suma verdade se uma contrariasse a outra.

VI – A jurisdição e império da santa sobre o elemento do fogo. O domínio da Santa até ao ano de mil e trezentos e quarenta e quatro, ano da invenção da pólvora por Bertoldo Negro. A invenção da pólvora e a criação do Império Otomano. Os raios do ar e os raios da terra. Virgílio e o castigo do atrevimento de Sulmão. Os filhos do fogo artificial.

Até aqui temos visto quais são os poderes e domínio de Santa Bárbara sobre o fogo natural, e contra os mais violentos e furiosos partos dele, quais são os raios. Mas de trezentos anos a esta parte tem crescido muito mais a jurisdição e império da mesma santa sobre o elemento do fogo. Até o ano de Cristo mil trezentos e quarenta e quatro o campo em que dominava Santa Bárbara: Emit agrum illum — era a região do ar, com os seus relâmpagos e raios, e com todos os outros ­meteoros ardentes que nele acende o fogo, em que também entram os vastíssimos corpos e formidáveis incêndios dos comeras. Este universal domínio, como governadora e protetora, exercitou a nessa santa por espaço mais de mil anos, que tantos se contaram desde o seu martírio até o ano já referido de mil trezentos e quarenta e quatro. E faço esta distinção de tempos e de poderes, porque neste ano se acrescentou à mesma santa, sobre a jurisdição do fogo elementar e natural, a dos fogos artificiais, cujos prodigiosos excessos, que cada dia vemos crescer mais e mais com novos horrores da natureza, então tiveram seu princípio([35]). Com razão clamam as Escrituras que das partes setentrionais e do norte sairia todo o mal. Assim se viu na Germânia, porque dela saiu naqueles anos, para peste universal do gênero humano, a fatal invenção da pólvora, sendo seu descobridor Bertoldo Negro, o qual já trazia no apelido a cor que havia de ter o seu infernal invento. O primeiro profeta que profetizou os males que no setentrião haviam de ter sua origem foi Jeremias, quando em figura de uma caldeira ardente: Ollam succensam ego video[36] — viu o incêndio com que Nabuzardão havia de abrasar a Jerusalém. E verdadeiramente que as suas palavras muito mais naturalmente se podem entender do incêndio com que Bertoldo abrasou o mundo: Ab aquilone pandetur malum super omnes habitatores terrae[37]. — Aquele fogo abrasou somente os habitadores de Jerusalém, este tem abrasado e consumido a todas as nações do mundo. E dele se diz com maior propriedade: pandetur inalam — que o mal se abriria e descobriria porque até então estava encerrado e oculto nos segredos da natureza, e quando se inventou então se descobriu: pandetur.
Os primeiros que se acham haver usado da artilharia pelo artifício da pólvo­ra — ao menos na Europa — foram os mouros contra os cristãos na batalha de Algezira, em Espanha. De maneira que bem advertida a cronologia dos tempos, no mesmo século, e quase pelos mesmos anos, tiveram seu infausto nascimento as maiores duas pestes do mundo, a pólvora e o Império Otomano. E parece que assim estava profetizada uma e outra muitos séculos antes por Daniel no capítulo sétimo. Fala ali o profeta dos quatro mais famosos impérios do mundo, e com grande especialidade das três partes do romano, que lhe havia de roubar e dominar o turco na Ásia, na Europa e na África, chamando ao mesmo turco Coreu parvulum[38] pela baixeza de seus princípios. E na mesma ordem da narração, diz que viu a Deus assentado no trono de sua majestade, e que da boca lhe saía um rio de fogo, o arrebatado: Fluvius igneus rapidusque egrediabatur a fatie, hoc est, ab ore ejus[39] — E que rio de fogo nomeadamente arrebatado e furioso é este, senão o, da pólvora, inventada no mesmo tempo do império turquesco, como logo nota o mesmo profeta: Aspiciebam propter votem sermonum grandium quos corem illud loquebatur[40] — Era o autor deste invento de profissão religioso, ao qual, como bem diz Espondailo, fora melhor que, no tempo em que fazia aquelas experiências, se estivesse encomendando a Deus; mas permite o mesmo Deus semelhantes invenções assim para castigo dos maus como para glória e exaltação de seus santos. Primeiramente saía este rio de fogo da boca de Deus, porque não só as coisas naturais são efeitos da sua boca e da sua voz: Ipse dixit, et sunt [41] — senão também as artificiais, quando, querendo ou permitindo, dispõe sua Providência que se façam. Este rio, pois, do fogo arrebatado e furioso da pólvora, se dividiu logo em tantos canais, uns maiores, outros menores, quantos são os canos de ferro ou bronze por onde o mesmo fogo furiosamente rebenta, e por isso se chamam bocas de fogo. Na cavalaria as pistolas e as carabinas; nos infantes, os mosquetes e os arcabuzes; nos exércitos e nos muros das cidades, os canhões e as culebrinas. E todos estes instrumentos, e os que os manejam, ficaram desde então sujeitos ao império e debaixo da proteção de Santa Bárbara.
Vede quanto se aumentou o seu domínio com o invento da pólvora, na multidão, na variedade, na força, nos efeitos, e ainda na facilidade dos tiros e máquinas de fogo a que preside. Para se gerar um raio é necessário que as terras não sejam extremamente frias, que por isso na Cítia são raríssimos: é necessário que o tempo seja estio, ou outono, que as nuvens sejam espessas e úmidas; que as exalações sejam secas e cálidas; que o movimento ou anteparístesis as acenda, que a rotura por onde sai seja pela parte inferior, e não pela de cima; e que a matéria seja crassa e pingue, por que se não dissipe ou apague o fogo antes que chegue à terra. Tudo isto é necessário para formar um raio na região do ar. Na terra, porém, quão pouco basta? Basta que aos que têm o supremo poder lhes suba à cabeça um vaporzinho, ou de cobiça, ou de ambição, ou de inveja, ou de ódio, ou somente de vaidade e glória, para que contra uma fortaleza, ou sobre uma cidade, chova tanta multidão de raios quantas são as pedras das suas muralhas. Os raios que caem do céu em muitos anos são contados; os que se fulminam da terra, na bateria ou defesa de uma praça, não têm conto. Ainda quando os do céu se não contentam com ferir os montes, ou com se empregar nas feras, e nas ensinhas, ou só com meter medo aos homens, raro é o raio que seja réu mais que de um homicílio. Mas os que saem de uma peça de artilharia, se o não vistes, ouvi o estrago que fazem. Na batalha naval entre os cesarianos e franceses, na ribeira de Salerno, matou uma bala de artilharia quarenta cesarianos; na batalha campal dos alemães contra os espanhóis, junto a Ravena, matou outra peça com só tiro mais de cinqüenta alemães; na guerra de Alberto César contra os polacos, em Boêmia, não dizem as histórias de qual das partes, mas afirmam que uma só bala matou oitenta soldados.
Que semelhança têm com a sombra disto as balistas, as terebras, os aríetes, as catapultas, e todos os outros instrumentos bélicos, que com tanta força de engenho inventaram primeiro os gregos, depois os romanos, e com tanta força de braços não conseguiram em muito tempo e trabalho o que faz em um momento uma mão com um bota-fogo? Muitos houve que quiseram imitar os raios, que a gentilidade chamava de Júpiter, em que foi tão famosa a arrogância de Sulmão, rei de Elide, vivendo, como é fabuloso, no inferno, o castigo de seu atrevimento. Virgílio lhe chama louco, porque quis imitar o raio, que não é imitável:
Demens, qui nimbos, et non imitabile fulmen –
Aere, et cornipedum curso simularat equorum[42].
Mas se a sua musa adivinhai-a que do mesmo inferno havia de sair a pólvora, de nenhum modo dera ao raio o nome de inimitável, pois a nossa artilharia, não só o imita, mas vence. Todo o aparato e fábrica estrondosa de um raio, a que se reduz no ar? A uma nuvem, a um relâmpago, a um trovão, e ao mesmo raio. E tudo isto se vê e experimenta com vantagem no tiro de uma peça. O fumo é a nuvem, o fogo o relâmpago, o estrondo o trovão, a bala o raio. E digo com vantagem, porque a nuvem acabou no primeiro parto, e em se rompendo se desfez e desvaneceu, e a peça inteira e sólida dura anos e séculos, disparando e lançando de si no mesmo dia e na mesma hora, não só um, senão muitos raios. Pouco há dissemos que o fogo natural era estéril, e não gerava; mas, depois que o artificial se ajuntou com a pólvora, em todo o gênero de viventes tem filhos de fogo. Animais de fogo nos camelos, serpentes de fogo nos basiliscos, aves de fogo nos falcões, e, em todos os outros instrumentos sulfúreos, homens de fogo. Homens de fogo na artilharia, homens de fogo nas bombas, homens de fogo nas granadas, homens de fogo nos petardos, homens de fogo nos trabucos, homens de fogo nas minas, e, assim sobre a terra como debaixo dela, homens de fogo, que nele e dele vivem.

VII – O patrocínio de Santa Bárbara ao intrépido e temeroso oficio da artilharia na terra e no mar. Quanto pode obrar o sábio artilheiro com um só tiro, não na terra, senão no mar O catálogo dos mais insignes capitães de Davi. O artilheiro sapientíssimo e o bichinho que rói a raiz das árvores. O grande milagre da sarça ardente. O galeão S. Domingos nas batalhas navais de Pernambuco, e a proteção de Santa Bárbara.

Tão necessário é ao intrépido e temeroso ofício da artilharia — que tudo isto compreende — o patrocínio de Santa Bárbara na terra. E, passando da terra ao mar, bem se deixa ver quanto mais importante será, e, quanto mais admirável e milagroso, defendendo aos que pelejam com os mesmos instrumentos de fogo, metidos em um lenho, e sobre as ondas, Averiguada conclusão é entre os mestres de uma e outra milícia que, comparada a da terra com a do mar, esta é muito mais trabalhosa e perigosa. Na terra peleja contra vós um elemento: no mar todos quatro; na terra tendes para onde vos retirar: no navio estais preso, e não tendes outra retirada que lançando-vos ao mesmo mar. Na terra ajudam uns esquadrões a outros esquadrões, e uns terços a outros terços: no mar estais com os companheiros à vista e nem eles muitas vezes vos podem socorrer a vós, nem vós a eles. E quanto ao exercício da artilharia, na terra borneais a vossa peça, coberta de um parapeito de pedra de cinco pés, ou de uma trincheira de faxina de dezoito: no mar detrás de uma tábua de três dedos. Na terra corre a artilharia sobre uma esplanada firme e segura; no mar sobre um convés inquieto, e também inquieto, da parte contrária, o ponto a que se nivela o tiro. Os gregos chamaram à peça de artilharia bombarda, pelo boato, os latinos tormentum, pelo que atormenta o corpo oposto que fere, eu na terra chamara-lhe tormento, e no mar tormenta: Ignis, et sulphur, et spiritus procellarum[43]. –Grande ciência geométrica é necessária para, entre dois pontos inconstantes, tirar uma linha certamente reta, qual há de seguir a bala para se empregar com efeito. Mas tudo isto pode fazer o sábio artilheiro náutico, com maiores estragos do inimigo, dos que acima referimos, conseguindo com um só tiro, por ser no mar, o que não pode suceder na terra. Explicar-me-ei com um exemplo famoso da Sagrada Escritura.
Por ocasião do testamento de Davi, faz a Escritura um catálogo dos seus mais insignes capitães, que é a melhor e mais preciosa herança que um rei pode deixar a seu filho, como bem o experimentou Filipe II nos que herdou de Carlos. Começa pois o catálogo: Haec nomina fortium David (2 Rs. 23, 8): Estes são os nomes dos valentes de Davi. — Eram estes valentes trinta, escolhidos entre todo o exército, os quais se chamavam os trinta fortes de Israel, nestes trinta eram escolhidos três, os quais se chamavam os três fortes, e destes três era escolhido um, o qual não se chamava o fortíssimo, senão o sapientíssimo. As palavras notá­veis do texto são estas: Sedens in cathedra sapientissimus princeps inter tres, ipse est quasi tenerrimus ligni vermiculus, qui octingentos interfecit impetu uno: Está assentado na cadeira o príncipe sapientíssimo entre três, o qual de um ímpeto matou oitocentos, e é como o bichinho se força, que rói as raízes da árvore. –Três dúvidas não vulgares tem este texto. Se este primeiro e mais afamado capitão de Davi matou oitocentos, como os podia matar de um só ímpeto: Interfecit octingentos impetu uno? — E se não só entre os trinta, senão entre os três fortes de Israel, era ele o mais forte, por que não se chama o fortíssimo, senão sapientíssimo: Sapientissimus inter Ires? Finalmente, se aquela sua grande façanha a declara a Escritura por uma comparação, por que se compara a um bichinho sem força, que rói as raízes da árvore: Ipse est tanquam tenerrimus ligni vermiculus? — Deixada a interpretação literal desta história, que não é fácil, eu, que só a referi e tomei por exemplo, digo que nela está admiravelmente retratado quanto pode obrar o sábio artilheiro com um só tiro não na terra, senão no mar. Atirando a uma capitania, ou a outra grande nau de guerra, se lhe penetrar com a bala o paiol da pólvora, ou lhe romper outra parte vital, como algumas vezes tem acontecido, sem dúvida à deitará a pique com um só tiro, e no tal caso de um só ímpeto matará oitocentos, e ainda mais homens: Occidit octingentos impetu uno. — E por uma vitória tão notável que nome ou fama alcançará o artilheiro? Não nome ou fama de fortíssimo, senão de sapientíssimo, porque aquela ação não foi obra das forças do seu braço, senão da ciência prática da geometria militar, com que governou tão acertadamente o tiro, e por isso sapientíssimo na arte: Sapientissimus inter Ires. — Finalmente, para tirar, a admiração de um tão grande estrago, executado por um instrumento sem forças, traz a Escritura a comparação do bichinho, que sem elas roeu as raízes da árvore, porque, alojados muitos homens debaixo de uma grande árvore, se ela, por lhe faltarem as raízes, caiu subitamente sobre eles, a todos oprimiu e acabou de um só golpe, não Fendo a causa principal de tamanha ruína a grandeza e peso da árvore, senão o bichinho que lhe roeu a raiz: Ipse est tanquam tenerrimus ligni vermiculus.[44] Por este singular exemplo se vê quanto mais poderosa é a artilharia no mar que na terra, ajudando-se e dando-se a mão o elemento da água com o do fogo. Já antigamente tinham feito a mesma companhia entre si estes dois elementos contra Faraó, no Egito: Grando et ignis mista pariter ferebantur[45] — e a mesma fazem naturalmente em todas as batalhas ou conflitos navais. O fogo queima, a água afoga, o fogo mata, a água sepulta. Mas, se tanto é o estrago que faz e pode, fazer uma peça de artilharia nas naus inimigas, daqui se deve fazer reflexão — como a fazia Agamenão no incêndio de Tróia — que o mesmo fará nas nossas, se não tivermos alguma mais poderosa proteção que nos defenda e livre. Verdadeiramente que é tão pia e cristã, como bem entendida arquitetura, aquela com que em todas as naus de guerra, que são cidades nadantes, a casa que os hereges e outros menos devotos chamam praça de armas, nós como templos pequenos a dedicamos a Santa Bárbara, e a fundamos sobre os armazéns mais secretos, em que a pólvora vai guardada. Como se dissera a nossa fé ou a nossa confiança, com os olhos na vigilança de tão soberana protetora: Non sinet perfodi domum suam[46]. — Para mim não são necessários outros milagres de Santa Bárbara mais que este tão universal e tão contínuo em todos os vasos de guerra, prenhes de mais aparelhados incêndios que o cavalo troiano.
Vendo Moisés nos desertos de Madiã que a sarça ardia e não se queimava, disse: Variam, et videbo visionem hanc magnam (Êx. 3, 3): Quero ir ver este grande milagre. — O milagre consistia em que, estando o fogo tão vizinho à sarça, ela, contudo, sem o admitir em si, estivesse tão verde que, como bem disse Filo Hebreu, mais parecia que a sarça queimava o fogo que o fogo a sarça; e que, em vez de o mesmo fogo a abrasar, a regava para que mais reverdecesse. Por isso Moisés, não só lhe chamou milagre, mas grande: Visionem hanc magnam. –E não seria grande nem milagre se a fome e voracidade do fogo não fosse qual é. O mistério com que os antigos fingiram a Vulcano, deus do fogo, manco e arrimado a um bordão, é porque só o fogo, entre todos os elementos, necessita de matéria em que se sustente. A terra, a água, o ar, sustentam-se e conservam-se em si mesmos: o fogo, se não tiver em que se sustente, apaga-se e morre. Assim se apagou nas lâmpadas das virgens néscias pela falta de óleo. E desta mesma necessidade de comer para se sustentar nasce ao fogo aquela voracidade com que tão facilmente se ateia, e tanto mais quanto a matéria é mais disposta. Suposto isto, quem não terá por milagre e contínuos milagres de Santa Bárbara, principalmente nas naus de guerra, em que perpetuamente se conserva o fogo, e muitos fogos, abster-se ele de se atear em matérias tão dispostas, como as dos mesmos corpos navais? Pode haver matéria mais disposta e mais gulosa para o fogo que tábuas secas, breu, alcatrão sebo, estopa e pólvora, e tudo isto assoprado dos ventos, e em perpétuo moto, que por si mesmo é causa do calor, e o calor do fogo? Se as nuvens úmidas e frias naturalmente produzem fogo por anteparístesis, como não obra os mesmos efeitos em matérias tão dispostas todo o elemento da água que as rodeia, por natureza mais úmido e mais frio? Mas, para que são argumentos onde as mesmas maravilhas se demonstram melhor nas experiências da vista do que as pode considerar ou argüir o discurso? Ponde-vos no galeão S. Domingos, Capitânia Real de nossa armada nas quatro batalhas navais de Pernambuco, sustentando a bataria de trinta e cinco naus holandesas: e que é o que se via dentro e fora em toda aquela formosa e temerosa fortaleza, nos quatro dias destes conflitos? Jogava o galeão sessenta meios canhões de bronze em duas cobertas; tinha guarnecidas por um e outro bordo o convés, os castelos de popa e proa, as duas varandas e as gáveas com seiscentos mosqueteiros. E sendo um Etna que lentamente se movia, vomitando labaredas e raios de ferro e chumbo por tantas bocas maiores e menores, dando todos e recebendo pólvora, carregando e descarregando pólvora, e tendo nas mesmas mãos os morrões com duas mechas acesas, ou os bota-fogos fincados junto aos cartuchos, e que, bastando qualquer faísca para excitar um total incêndio e voarem um momento toda aquela máquina, que entre tanta confusão e vizinhança de pólvora e fogo, estivesse o galeão tremulando as suas bandeiras, tão seguro e senhor do campo como uma rocha batida só das ondas, e não das belas, quem negará que supria ali a vigilância e patrocínio de Santa Bárbara o que nenhuma providência humana pudera evitar?

VIII – O império que Deus tinha dado a Elias sobre o fogo. Razões por que o mesmo fogo, como sujeito e súdito seu, se converteu em carroça e cavalos para o levar em triunfo. Paralelo entre Santa Bárbara e Elias. A galante conseqüência com que Elias fazia descer o fogo do céu. A invenção da pólvora no fogo que destruiu Sodoma. A proteção divina à família de Lot e a proteção de Santa Bárbara.

Sobre este conhecimento e reconhecimento, que vivas e louvores deve toda a milícia católica, assim no mar como na terra, à sua grande protetora? E que documentos darei eu aos oficiais maiores e melhores da nobilíssima arte de artilharia, seus súditos e devotos? Para o triunfo de Santa Bárbara se me oferecia a carroça de Elias, por ser de fogo; mas posto que tão singular entre todas as que viu com admiração o mundo, porque de nenhum modo iguala a pompa e majestade que é devida às vitórias da nossa santa, só nos servirá para notar no mesmo fogo a diferença, como servem as sombras e os opostos para mais ilustrar os contrários.. Descrevendo a Escritura o modo com que Elias, arrebatado da terra, se apartou de Eliseu, diz que foi em uma carroça por que tiravam cavalos, e que a carroça e os cavalos tudo era de fogo: Et ecce currus igneus, et equi ignei diviserunt utrumque[47]. — E sendo que o texto sagrado nos dá neste lugar a razão por que triunfou Elias pelo ar em carroça de fogo, podendo ser antes de nuvens mais vistosamente douradas com os raios do sol, de outros lugares da mesma Escritura tiram os santos padres a verdadeira causa. Estando Elias retirado em um monte, mandou-o chamar el-rei Ocosias por um capitão de infantarias, acompanhado de cinqüenta soldados, o qual lhe deu o recado do rei com estas palavras: Homo Dei,haec dicit rex: Festina, descende (4 Rs. 1, II ); Homem de Deus, diz el-rei que desçais logo, e lhe vades falar. — E que responderia Elias? Si homo Dei sum, descendas ignis de caelo, et devoret te, et quinquaginta tuos: Se sou homem de Deus, desça o fogo do céu que te abrase a ti e aos teus cinqüenta. — Assim o disse, e assim se cumpriu logo: desceu subitamente fogo do céu, que abrasou e consumiu o capitão e os soldados. Sabido o caso por el-rei, mandou outro capitão com outra companhia do mesmo número; e como este desse o recado com igual comedimento, a resposta de Elias foi como a primeira, e o capitão e os soldados todos foram abrasados com fogo do céu em um momento. Tal era o império que Deus tinha dado a Elias sobre o fogo de que ele usava tão despoticamente! E esta foi a razão por que o mesmo fogo, como, sujeito e súdito seu, se converteu em carroça cavalos para o levar em triunfo: ignis Eliam quasi suum imperatorem reveretur, eique quasi famulus suum ultro offert obsequium — diz com S. Crisóstomo, e os outros intérpretes literais, Cornélio[48].
Combinemos agora fogo com fogo, império com império, e Bár­bara com Elias. A Elias e a Bárbara deu Deus o império do fogo; mas com que diferente majestade exercita um e outro o mesmo império? Elias manda ao fogo que queime, e Bárbara que não queime; Elias manda-lhe que abrase homens, e Bárbara que os não toque: obedecendo porém o fogo a Elias, queima e abrasa como fogo que é; mas, obedecendo a Bárbara, como se perdera a própria natureza, quase deixa de ser o que é por não faltar ao que deve. Da parte de Elias parece que é igual o poder no império, mas da parte de Bárbara mostra que é muito maior na obediência. Se quando Daniel foi lançado no lago dos leões eles o comeram, não era maravilha; mas que, famintos e com o pasto à vista, refreassem a própria voracidade a sua abstinência era a que provava o milagre: e aquilo é o que fazia Elias nos homens que dava a comer ao fogo, isto o que faz Bárbara nos que livra dos incêndios. Verdadeiramente era galante a conseqüência com que Elias fazia descer o fogo do céu! Si homo Dei sum, descendas ignis de caelo, et devores te: Se sou homem de Deus, desça fogo do céu que te abrase. — Basta que o sinal de ser de Deus era abrasar e consumir homens! Para bem parece que havia de dizer: — Se sou de Deus, eu rogarei a Deus por ti, eu te guardarei, eu te defenderei — isto é com que prova a nossa Santa ser mais propriamente de Deus. Elias, imperando ao fogo, mostrava que era de Deus, mas de Deus vingador, de Deus rigoroso, de Deus severo; e Bárbara no mesmo império mostra também que é de Deus, mas de Deus perdoador, de Deus piedoso, de Deus benigno, enfim de Deus no de que mais se preza Deus.
Não há dúvida que, na comparação de império a império, o uso e exercício dele foi muito mais humano e benéfico, e por isso mais divino, em Santa Bárbara que em Elias. E passando a comparação de fogo a fogo, assim como no que domina Santa Bárbara descobriremos uma grande novidade, assim na combinação do mesmo domínio subiremos com a verdade onde só pode chegar o encarecimento, e de nenhum modo passar a imaginação.
Já dissemos, com a opinião comum dos historiadores, quem e quando foi o primeiro inventor da pólvora. Mas, se bem se lerem e entenderem as Escrituras, acharemos que quatro mil anos antes a tinha já inventado Deus, no fogo artificial que choveu sobre Sodoma. Que fosse artificial e não natural aquele fogo consta das palavras com que Moisés refere a mesma história, dizendo que o Senhor choveu do céu enxofre e fogo feito pelo mesmo Senhor: Dominus pluit super Sodomam sulphur et ignem a Domino de caelo[49] — onde é muito novo e digno de se notar aquele termo Dominus a Domino, para declarar, como advertem todos os intérpretes, que tal gênero de fogo não foi efeito das causas naturais, mas da arte e sabedoria divina, a qual não cria nada de novo, mas das coisas já criadas, compondo-as e unindo-as entre si, produz efeitos novos e maravilhosos, qual foi aquele fogo verdadeiramente artificial. Mas que o artifício fosse o mesmo da pólvora, não basta este só texto para o provar, porque só faz menção do enxofre: Ignem et sulphur. — Temos, porém, outro em que o mesmo Moisés no Deuteronômio torna a descrever o mesmo fogo, e diz expressamente que era composto de enxofre e salitre, que são os dois ingredientes da pólvora: Sulphure, et salis ardore comburens, in exemplum subversionis Sodomae[50]. — Deste fogo, pois, e do primeiro incêndio que causou no mundo a pólvora, livrou Deus a Lot. Mas por meio de quem? Não só de dois anjos, mas esses representadores de duas pessoas divinas, porque eram dois dos três que apareceram a Abraão no vale de Mambré — bem assim como o anjo que livrou aos três meninos da fornalha de Babilônia representava a segunda pessoa da Trindade, o Filho: Etspecies quarti similis Filio Dei[51]. — E quando Deus, para livrar a um homem qual era Lot, do primeiro incêndio da pólvora, comete esta diligência a dois anjos, e esses representadores de duas pessoas divinas, vede qual é o império, o domínio e a jurisdição de Santa Bárbara, pois a ela só encarregou Deus o cuidado e superintendência universal de livrar e defender a todos os homens, assim na terra como no mar, do fogo e incêndios da mesma pólvora!
Fabriquem, pois, os serafins, que são espíritos também de fogo, novo carro triunfal a Santa Bárbara, melhor e mais glorioso que o de Elias, diante do qual não sejam levadas em urnas tristes e funestas as cinzas de homens abrasados e mortos, mas vivos, dando vivas à soberana protetora todos aqueles — número sem-número — que livrou do fogo, e dos incêndios. E o nosso insigne capitão do mar e da guerra, que hoje com tanto aparato e grandeza celebra a mesma triunfadora, leve como nobilíssima parte dos seus triunfos, rodando em carretas douradas, os canhões ganhados em tantas e tão famosas vitórias, com os quais, melhor que com colunas de bronze, se honram as portadas de sua ilustríssima casa, digno sucessor daquele imortal herói, que como Marte da pátria, a defendeu na guerra, e como pai, cerradas as portas de Jano, a deixou vitoriosa em paz.

IX – Advertência final aos artilheiros.

E a vós — animosos ministros de Vulcano, que continuamente exerci­tais o perigoso manejo do fogo, nos maiores e mais arriscados instrumentos da vossa arte — o que só vos digo por fim é que não deixeis de vos aproveitar de uma só coisa boa que trouxe ao mundo o uso e invento da pólvora. Das víboras não só se tira veneno, senão também triaga. E que coisa boa trouxe ao mundo a pólvora? Um desengano universal, de que nenhum homem se deve já fiar das suas próprias forças. Antigamente havia Aquiles, havia Hércules, havia, Sansões; depois que a pólvora veio ao mundo acabou-se a valentia dos braços. Um pigmeu com duas onças de pólvora pode derrubar o maior gigante. Que fundamento cuidais que teve a filosofia simbólica das fábulas, para fingir que os gigantes fizeram guerra ao céu, e quiseram apear de seu trono a Júpiter, senão porque entenderam e quise­ram declarar aqueles sábios que os homens que se fiam em suas grandes forças não temem a Deus nem o veneram, como se não dependeram dele. Ouvi a arro­gância sacrílega e blasfema com que falava um destes, chamado Mesêncio: Dextra mihi Deus, et telum quod missile libro: O meu Deus é o meu braço e a minha lança. — Por certo, soberbíssimo capitão, que não havíeis de falar tão confiada­mente, se fora em tempo que o menor soldadinho do exército contrário vos pudera responder com uma boca de fogo. Este é, pois, o desengano que trouxe ao mundo a pólvora, para que todo o homem, e muito mais os que vivem na guerra e da guerra, se persuadam que só Deus lhes pode conservar a vida, e não o seu braço nem a sua espada. Assim o dizia Davi, aquele soldado tão esforçado e tão forçoso, que com as mãos desarmadas escalava ursos e afogava leões: Gladius, meus non salvabit me[52]
Sirva, pois, a pólvora, que sempre trazeis nas mãos, de vos lembrar o perigo em que igualmente trazeis a vida, vivendo de maneira que seja agradável a Deus, de quem por tão ordinários acidentes está mais dependente que a dos outros homens. E, valendo-vos da poderosa intercessão da vossa vigilantíssima protetora, a gloriosa Santa Bárbara, de cuja devoção e invocação vos prometo, por fim, o que a mesma santa tem provado ao mundo com vários exemplos. Ainda os que estão ardendo no meio das labaredas, invocando o seu nome, se ele lhes não salva totalmente a vida temporal, ao menos lha sustenta quanto basta, para que, recebidos os sacramentos, alcancem a eterna.

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[1] O reino dos céus é semelhante a um tesouro escondido no campo, que, quando um homem o acha, o esconde. e, pelo gosto que sente de o achar, vai e vende tudo o que tem, e compra aquele campo (Mt. 13, 44).
[2] Vende tudo o que tem, e compra aquele campo (Mt. 13, 44).
[3] Que produz os ventos dos seus tesouros (SI. 34, 7).
[4]Ele põe os abismos em tesouros (SI. 32..7).
[5] Chuparão como leite as riquezas do mar, e os tesouros escondidos nas areias (Dt. 33, 19).
[6] A terra, porém, era vã e vazia, e o Espírito de Deus era levado sobre as águas (Gên. 1, 2).
[7] Para que presida aos peixes do mar, às aves do céu, às bestas e a toda a terra (Gên. 1, 26).
[8] O seu trono era de chamas de fogo (Dan. 7, 9).
[9] NÃO HÁ TEXTO NA NOTA 9
[10] Fogo irá diante dele (SI. 96, 3);
[11] Saiu fogo ardendo de seu rosto (Sl. 17, 9).
[12] Os seus olhos pareciam uma como chama de fogo (Apc. 1,14).
[13] O Deus que ouvirá mandando fogo (3 Rs. 18. 24).
[14] Tu ouviste as suas palavras do meio do fogo (Dt. 4. 36).
[15] Nosso Deus é um fogo devorante (ibid. 24).
[16] Eis senão quando começaram a ouvir-se trovões e a fuzilar relâmpagos (Êx. 19, 16).
[17] O Senhor trovejou desde o céu, e o Altíssimo fez ouvir a sua voz, e caíram pedra e carvões de fogo (SI. 17, 14).
[18] Tiago, filho de Zebedeu. e João, irmão de Tiago, aos quais ele deu o nome de Boanerges, que quer
dizer filhos do trovão (Mc. 3. 17).
[19] Senhor, queres tu que digamos que desça fogo do céu, e que os consuma (Lc. 9, 54)?
[20] No que fez, me fez uma boa obra (Mt. 26, 10).
[21] No que fez, me fez uma boa obra (Mt. 26, 10). Senhor, tiramo-los a espada (Lc. 22, 49)?
[22] Vende tudo o que tem, e compra aquele campo (Mt. 13, 44).
[23] Senec. q. natur. lib. 2, cap. 41.
[24] Não se deve, contudo, ver em Vesta mais que a chama personificada, pois jamais nasceu corpo
algum da chama. De direito, pois, é virgem a que nem recebe nem deixa semente (Ovid. Fast. lib. IV).
[25] E não serão conhecidos os teus vestígios (SI 76, 20)
[26] Pai e senhor dos deuses, cuja destra está armada com um raio de três pontas (Ovid. Met. lib.II—848). — Deus se faz patente como autor do raio de três pontas (Sêneca).
[27] Plinius, lib. 2, cap. 4.
[28] Vestiu-se desta sua justiça como de urna couraça, e o capacete da salvação assentou na sua cabeça; pôs sobre si vestidos de vingança, e cobriu-se de zelo como de um manto. Assim corno quem se prepara para tomar vingança. como para retribuir a seus contrários e corresponder a seus inimigos (Is. 59,17 s).).
[29] E viu que não há varão, e tem ficado perplexo, por não haver quem se oponha (ibid. 16).
[30] Vós não subistes a encontrar o inimigo nem vos opusestes como um muro em defensa da casa de Israel, para que vos tivestes firmes no combate no dia do Senhor (Ez. 13, 5).
[31] Do Senhor tremerão seus inimigos, e ele trovejará sobre eles dos céus (1 Rs. 2, 10).
[32] A terra se comoveu e estremeceu; os fundamentos dos montes foram agitados e abalados, porque se irou contra eles. O fumo de seus narizes se elevou ao alto, e fogo devorador sairá da sua boca: por ele serão acesos carvões. Abaixou os céus, e desceu, e há escuridade debaixo de seus pés. Pelo esplendor da sua presença se acenderam carvões de fogo. O Senhor trovejará do céu, e o Altíssimo fará soar a sua voz. Disparou setas e dissipou-os, raios e consumiu-os. E apareceram as profundidades do mar, e descobriram-se os fundamentos da terra, ao ameaçar do Senhor, ao assopro do espírito do seu furor (2 Rs. 22, 8-10. 3-16).
[33] Senec. in g. natural. lib. I, c. 17.
[34] Trovejará Deus com a sua voz (Jó 37, 5).
[35] (35) Spondanus, corno Christi 1344.
[36] Eu vejo uma panela incendiada (Jer.. I, 3).
[37] Do aquilão se estenderá o mal sobre todos os habitadores da terra (ibid. 14).
[38] Pequeno chifre (Dan. 7, 8).
[39] Um raio de fogo, e arrebatado, saía de diante dele, isto é, da sua boca (ibid. 10).
[40] Eu olhava atentamente, por causa do estrépito das arrogantes palavras que este corno proferia (ibid. 11).
[41] Ele disse, e foram feitas as coisas (SI. 32, 9).
[42] Virgílio.
[43] Fogo, enxofre e tempestades (SI. 10, 7).
[44] Erro de numeração da edição original.
[45] A pedra e o fogo caíam a um mesmo tempo misturados (Êx. 9, 24).
[46] Não deixa minar a sua casa (Mt. 24, 43).
[47] Eis que um carro de fogo e uns cavalos de fogo os separaram um do outro (4 Rs. 2, 11).
[48] O fogo reverencia a Elias como seu imperador, e a ele, como súdito, rende-lhe homenagem (Cornel, in cap.48.8).
[49] Fez pois o Senhor da parte do Senhor chover sobre Sodoma enxofre e fogo vindo do céu (Gên. 19, 24).
[50] Com enxofre e com ardor de sal, à semelhança da ruína de Sodoma (Dt. 29, 23).
[51] E o aspecto do quarto é semelhante ao do Filho de Deus (Dan. 3, 92).
[52] A minha espada não me salvará (SI. 43, 7).

Fonte: https://www.literaturabrasileira.ufsc.br/documentos/?action=download&id=49850