Sermão da dominga vigésima segunda Post Pentecosten

SERMÃO DA DOMINGA VIGÉSIMA SEGUNDA POST PENTECOSTEN

Na ocasião em que o Estado do Maranhão se repartiu em dois governos, e estes se deram a pessoas particulares, moradores da mesma terra.


Cujus est imago haec, et superscriptio? Dicunt ei: Caesaris[1]

I – Quais foram os aplausos com que foi recebida na República Hebréia as eleições de Saul e Davi ao governo. Os dois novos governos do Maranhão e a obrigação que têm os pregadores de promover a união e a concórdia dos repúblicos.

Não há terra mais dificultosa de governar que a pátria, nem há mando mais mal sofrido, nem mais mal obedecido que o dos iguais. Vivendo os hebreus governados por Deus, o qual no Propiciatório respondia a todas suas consultas, e ordenava em voz clara o que se havia de fazer ou não fazer, foram eles tão mal aconselhados, que quiseram ser governados por homens, como as outras nações, e, sendo tão soberbos, que desprezavam a todas em tudo o mais, neste ponto, que era a sua maior prerrogativa, pediram ser semelhantes a elas: Constitue nobis regem, sicut et universae habent nationes[2]. Os primeiros governadores, pois, que Deus lhes concedeu, com poder e soberania real, foram Saul e Davi: Saul que andava buscando as jumentas que se perderam a seu pai, e Davi que andava guardando as ovelhas do seu. Não fez Deus diferença das qualidades, porque todos eram filhos de Abraão; nem a fez também dos ofícios, porque todos naquele tempo viviam de suas lavouras e dos seus pastos. Só teve atenção às pessoas e aos talentos, porque, assim Saul como Davi, debaixo do seu saial eram homens de tão grandes espíritos, como logo mostraram as suas obras.

Mas quais foram os aplausos com que foi recebida naquela república, depois de tão apertadas instâncias, a eleição destes dois governos? A terra era a pátria, e os eleitos eram iguais — como dizia — e não bastou que um fosse Saul e outro Davi para serem bem aceitos. Alegraram-se os parentes, murmuraram os estranhos, e os demais que eram quase todos ficaram descontentes. Não digo o que disseram, porque as coisas não eram para dizer nem são para ouvir: só digo que estamos no mesmo caso. Temos repartido este nosso Estado em dois governos iguais, e debaixo de suas cabeças, ambas naturais da mesma terra, sem ser a de Promissão: e, assim da parte das cabeças como dos membros, assim da parte dos novos governadores como dos súditos, se podem recear, como já se temem, não pequenos inconvenientes. O recurso está longe, o remédio não pode chegar senão tarde: entretanto, só vos peço que tomeis o melhor conselho. A obrigação dos pregadores, a quem a Escritura chama anjos da paz, é serem ministros da união e concórdia; e, porque esta devemos desejar todos, como bons cristãos, como bons repúblicos e como bons vassalos, para eu satisfazer à minha obrigação, não me ocorre outro meio mais eficaz que declarar a uns e a outros as suas. O meu intento será este, o Evangelho a guia, a intercessora para a graça a Virgem, Senhora nossa. Peçamo-la com aquela atenção que requer tão importante matéria. Ave Maria.

II – A imagem de César, estampada na moeda do tributo. Todos os que governam, são imagens de seus príncipes. Quando começou este nome ou título de imagem? Em que consiste no homem o ser imagem de Deus? Não basta que o que houver de governar seja homem com alma, mas é necessário que seja alma com homem.

Perguntado Cristo, Senhor Nosso, como Mestre da lei, se era lícito aos hebreus pagar tributo ao César, imperador dos romanos, respondeu que lhe mostrassem primeiro a moeda do tributo: Ostendite mihi numisma census. (Mt. 22, 19). E como na moeda estivesse estampada uma figura com certas letras em roda, perguntou mais o Senhor, cuja era aquela imagem, e cujo o nome escrito nas letras: Cujus est imago haec, et superscriptio (ibid. 20)? — Responderam que a imagem e o nome era do mesmo César: Dicunt ei: Caesaris. — Isto é o que contêm as palavras que propus. O resto do Evangelho ficará para outra ocasião, e também a moeda. Eu não quero para hoje mais que a imagem do César, porque com as imagens dos Césares hei de falar.

Cujus est imago haec? Todos os que governam são imagens de seus príncipes, porque os representam na pessoa e no exercício dos poderes. Começou este nome ou título de imagem no primeiro governo do mundo, dado não menos que por Deus ao primeiro homem, e não nas provisões do ofício, senão antes da criação dele, e do mesmo que o havia de exercitar. Faciamus hominem ad imaginem et similitudinem nostram, et praesit (Gên. 1, 26): Façamos o homem — disse Deus — à nossa imagem e semelhança, para que tenha a presidência e governo do mundo. — Sobre estas palavras é grave questão entre os teólogos em que consista no homem o ser imagem de Deus. Os hereges audeanos disseram que consistia na forma e estatura do corpo. E também é heresia política a de alguns príncipes, os quais tanto se deixam levar dessas aparências exteriores, que por elas fazem a eleição das suas imagens. Tão pouco importa para o governo da república a estatura ou gentileza dos corpos — diz Sêneca — como para o governo da nau ser o piloto formoso. Resolvem, pois, todos os santos e doutores católicos que a razão da imagem de Deus no homem consiste na alma adornada de três potências, em que representa ao mesmo Deus trino e um. Porém, S. Basílio e S. João Crisóstomo acrescentam que a Adão particularmente deu Deus o título de imagem sua, porque lhe encarregou o governo do mundo, e que ajuntou à imagem a semelhança: Ad imaginem, et similitudinem — para que no mesmo governo se lembrasse Adão que se devia fazer semelhante, quanto fosse possível, ao supremo Senhor a quem representava: Imaginem dixit ob principatus rationem, similitudinem ut pro viribus humanis similes fiamus Deo.

Oh! quantos e quão excelentes documentos deixou Deus naquela primeira ação aos príncipes, de como deviam fazer e eleger as suas imagens! Todas as outras criaturas mandou-as Deus fazer, ou mandou que se fizessem; o homem, que o havia de representar como sua imagem, e a quem havia de entregar o governo do seu mundo, fê-lo com consulta e conselho, e não de homens, que ainda não havia, nem de anjos, que já eram criados, mas das três Pessoas divinas: Faciamus hominem ad imaginem et similitudinem nostram. — E para quê? Et praesit piscibus mares, et volatilibus caeli, et bestiis, universaeque terrae (Gên. 1, 26) — para que governe os peixes do mar, as aves do ar e os animais da terra. — E, se para a eleição de quem há de governar brutos se requer tanto aparato e prevenção de consultas e conselhos na sabedoria do mesmo Deus, que será para eleger um homem que há de governar homens? O caráter de imagem sua, pô-lo Deus porventura na alma do homem por que se não há de entregar o governo a homens sem alma? Sim, mas não só por isso. Não basta que o que houver de governar seja homem com alma, mas é necessário que seja alma com homem. Se tiver alma, e boa alma, não quererá fazer mal; mas, se juntamente não tiver atividade e resolução e talento de homem, não fará coisa boa. Deu-lhe Deus memória, entendimento e vontade: a memória, para que se lembre da sua obrigação; o entendimento, para que saiba o que há de mandar; e a vontade, para querer o que for melhor — e não homens de uma só potência que por isso fazem impotências — e, faltando-lhes a memória e o entendimento, só têm má vontade. Com todas estas qualidades formou Deus e aperfeiçoou a imagem que no governo do mundo havia de representar a Majestade divina, bem assim como representam as majestades humanas os que, em seu lugar e com seus poderes, governam esta ou outras pequenas partes do mesmo mundo. A imagem do César não só estava estampada na moeda, senão também, e muito mais, em quem governava a república. Na moeda, era imagem morta; em quem governava, imagem viva: na moeda dava-lhe o cunho o valor; em quem governava davam-lhe as provisões o poder. E, se de qualquer delas se perguntasse: Cujus est imago haec: Cuja é esta imagem? — de ambas se há de responder em diferente sentido, mas com a mesma verdade que era imagem do César: Dicunt ei: Caesaris,

Suposta esta significação, nascida com o mundo e com a mesma natureza, de que são imagens dos príncipes os que governam em seu nome e os representam, se eu pregara em outra parte, havia de repartir o sermão em três pontos: primeiro, como hão os Césares de fazer as suas imagens; segundo, como hão as imagens de representar os Césares; terceiro, como os súditos e vassalos dos Césares hão de reverenciar e obedecer às mesmas imagens. Mas, porque o primeiro ponto não pertence a esta terra nem a este auditório, tratarei somente do segundo e do terceiro, que são tão próprios do lugar como necessários ao tempo.

III – A dificuldade e o arriscado acerto de representar um príncipe nos olhos do mundo. Por que diziam os antigos que a imagem de Mercúrio não se faz de qualquer madeiro? Como chamavam os gentios a Paulo e Barnabé em Licaônia? O Verbo Eterno, imagem perfeitíssima de Deus Padre. A facilidade das imagens que vemos no espelho e a dificuldade das que se mostram e representam em si mesmas que são as de pintura ou escultura. As facilidades da imagem de Júpiter e as dificuldades da imagem de Mercúrio.

Começando, pois, pela obrigação das imagens, assim como é grande dignidade haver de representar um príncipe supremo nos olhos do mundo — ou seja maior ou menor o teatro — assim é mui dificultoso e arriscado o acerto dessa grande representação. Fácil no que toca ao poder, mas no mandar e obrar muito dificultosa e de poucos. Isso quis significar o provérbio dos antigos, quando disseram que a imagem de Mercúrio não se faz de qualquer madeiro: Non ex quolibet ligno fit Mercurius. — E por que mais a imagem de Mercúrio que a de Júpiter, que era entre os deuses a primeira e mais alta soberania? Porque Júpiter era Deus do poder, Mercúrio da sabedoria e prudência; e a majestade do poder qualquer a pode representar facilmente; as ações, porém, da sabedoria e prudência, são mui poucos os que sejam capazes de as compor e exercitar como elas requerem. Mais fácil é parecer Júpiter que Mercúrio. Quando S. Paulo e S. Barnabé entraram em Licaônia, admirados aqueles gentios do que viam em ambos, disseram que os deuses, em semelhança de homens, tinham descido do céu à sua cidade, e a Barnabé chamavam Júpiter, e a Paulo Mercúrio: Vocabant Barnabam Jovem, Paulum vero Mercurium (At. 14, 11). — Mas, se Paulo, por tantas e tão excelentes prerrogativas era maior que Barnabé, por que deram a Barnabé, e não a Paulo, o nome de Júpiter, e a Paulo, e não a Barnabé o de Mercúrio? Porque Barnabé excedia na estatura e majestade da pessoa; Paulo na eloqüência, na sabedoria e na doutrina: Quoniam ipse era dux verbi[3] — e a representação da sabedoria requer muito maior cabedal e muito maior homem que a da majestade.

Subamos das deidades fabulosas à verdadeira e ela nos dará a razão desta diferença. O Verbo Eterno, como Filho natural de Deus Padre, é imagem perfeitíssima do mesmo Deus. E porque no ser divino até os gentios consideravam duas eminências superlativas, uma da suma bondade e outra da suma grandeza, por onde chamavam a Deus Optimo Maximo, declarando Salomão no Livro da Sabedoria, a suma perfeição com que no Verbo se representam uma e outra, diz que é espelho sem mácula da majestade de Deus, e imagem de sua bondade: Speculum sine macula Dei majestatis, et imago bonitatis illius (Sab 7, 26). — O que aqui só reparo é que uma e a mesma representação, enquanto é da majestade, se chama, espelho: speculum majestatis — e, enquanto é da bondade, se chama imagem: imago bonitatis illius. — E a razão desta diferença, deixando por agora a teológica, e buscando, somente a moral, qual é ou pode ser? É a mesma que experimentamos na facilidade das imagens que vemos no espelho, e na dificuldade das que se mostram e representam em si mesmas. As imagens que se representam em si mesmas, ou são de pintura ou de escultura. As de pintura fazem-se com muitos debuxos, muitas cores, muitas sombras, muitos claros, muitos escuros: as de escultura com muito bater, muito cavar, muito polir, muitos cheios, muitos vazios; e umas e outras com muita arte, muita aplicação, muito trabalho. Pelo contrário, as imagens que se representam no espelho, elas se pintam sem tinta e se entalham sem ferro, e aparecem perfeitas em um momento, sem mais trabalho ou artifícios que uma reflexão natural. Pois, por isso as da majestade se representam no espelho, porque a majestade, e o poder, e a ostentação e execução dele é muito fácil; porém, as da bondade, que são as do bem mandar, e bem obrar, e bem fazer a todos, representam-se nas outras imagens, ou pintadas ou esculpidas, porque estas são muito dificultosas e trabalhosas, e que requerem muita arte, muita sabedoria, muita proporção, muita regra. As imagens de escultura fazem-se tirando, as de pintura, pondo; para este tirar é necessário muito desinteresse, para este pôr e acrescentar muita igualdade, e para uma coisa e outra, muita prudência, muita justiça, muita inteireza, muita constância, e outras grandes virtudes, que mais facilmente faltam todas do que se acham juntas.

Nas duas imagens de Júpiter e Mercúrio, que se atribuíram aos dois apóstolos, temos o exemplo de tudo. A imagem de Júpiter pintava-se com um raio na mão: a de Mercúrio com um báculo entre duas serpentes. E aqui se via bem quão fácil é uma representação, e quão dificultosa outra. Fulminar raios, estremecer o mundo com trovões, escalar torres, derrubar casas, matar homens, fender de alto a baixo cedros, ciprestes, enzinhas, e todas as outras violências e danos que causam os raios, tudo é muito fácil ao poder, em quem abusar dele. Porém, meter o bastão entre serpentes discordes e venenosas, e fazer que não se mordam nem se espedacem; domar ferezas, amansar rebeldias, e reduzir a que vivam conforme a razão os que, por natureza e costume, não têm uso dela, esta é a dificuldade grande em toda a parte, e, na terra em que estamos, maior que em nenhuma outra. Menos há de cinqüenta anos que nesta terra se não conhecia o nome de rei, nem se tinha ouvido o de lei; e que dificuldade será fazer obedecer e guardar nela as leis dos reis? Desde o mesmo tempo se sustentam os que a conquistaram, não dos pastos de animais domésticos, senão da caça e montaria de homens; e que dificuldades será ainda maior manter em paz e justiça os que só se mantêm da guerra injusta? Esta é, pois, a primeira dificuldade geral deste governo, mas esta a obrigação e ofício dos que nele representam a imagem do César.

IV – A segunda dificuldade que quase impossibilita a boa representação destas imagens é que as imagens e o César estão muito distantes. Se no tempo de Cristo o César estava em Roma, e sua imagem em Jerusalém, que acontecerá onde o César está na Europa e as imagens na América? O perigo e as fúrias dos longes. A parábola do rei que partiu para muito longe, deixando encomendada a sua fazenda a três criadas. O que acontece quando os reis não vão às conquistas? O que fez Adão na Ásia, é o que fazem na mesma Ásia e na América os que não se contentam com ser imagens dos reis.

A segunda dificuldade que mais ainda impede, e quase impossibilita a boa representação destas imagens, é que as imagens e o César estão muito distantes. Quando responderam a Cristo que aquela imagem era do César, o César estava em Roma, e a imagem em Jerusalém. Que será onde o César e o rei está na Europa, e a imagens na América? O rei em um mundo, e os que o representam em outro? Até Deus se temeu destes longes, não porque não esteja em toda a parte e veja tudo mas porque vê sem ser visto. Assim o mandou notificar ao mundo pelo profeta Jeremias: Putasne Deus, e vicino ego sum, et non Deus de longe (Jer. 23, 23)? Cuidais que eu sou Deus só de perto e não de longe? — Enganai-vos, porque ainda que no céu tenho a minha corte, tanto assisto na terra como no céu: Caelum et terram ego impleo (ibid. 24). — Houve, contudo, homens tão ignorantes que, interpretando mal o verso de Davi: Caelum caeli Domino; terram autem dedit filiis hominum[4] — cuidaram que, porque Deus pusera a sua corte no céu, demitira de si o domínio da terra, e o dera aos homens. Não creio que os que governam as conquistas cuidem o mesmo, mas é certo que muitos as dominam tão despoticamente como se o cuidaram. Tão senhores se fazem delas, como se elas e eles não tiveram outro senhor. Tanto atrevimento lhes dá estar o príncipe longe, o recurso longe, o remédio longe, e até a verdade, não só escurecida, mas oprimida dos mesmos longes! A rainha Sabá chamava bem-aventurados os que serviam a el-rei Salomão em sua presença. E desta bem-aventurança se privam em tempos de tão bons e tão justos reis, como os nossos, os que por serviço seu e de Deus, se expõem, não só às inclemências dos climas, que é muito menos, mas às fúrias dos longes, e a ver e chorar de perto as perdas temporais e eternas de que eles são causa.

Diz a parábola do Evangelho que partiu um rei para muito longe a conquistar um novo reino, e, entretanto, deixou encomendada a sua fazenda a três criados para que negociassem com ela. Destes três criados um não negociou, mas não roubou, e os dois deram tão boa conta da sua negociação, que dobraram o cabedal do rei, e mereceram dele grandes mercês. Ditoso tempo em que, de três criados de que fez confiança um rei, servindo não à sua vista, senão muito longe dele, os dois lhe acrescentaram a fazenda em dobro, e o menos diligente, posto que a não acrescentou, nem um ceitil furtou dela. Achar-se-á hoje um par e meio de criados semelhantes a estes? Nem em três, nem em trinta, nem em trezentos. E qual a razão? O mesmo texto a deu narrativamente, em bem clara prova de que imos dizendo. Diz o texto que foi o rei muito longe do seu reino a conquistar outro, mas para tornar outra vez: Abiit in regionem longinquam accipere sibi regnum, et reverti[5]. — Quando os reis vão do seu reino às conquistas, e das conquistas tornam ao reino, ainda que as conquistas estejam muito longe, aqueles longes têm depois os seus pertos, e por isso os criados na ausência servem com tal respeito, ou tal medo, que na presença dão boa conta de si. Porém, quando os reis não vão às conquistas, ou elas são tão remotas que não podem lá ir, como os longes sempre são longes, quão longe está o rei dos criados, tão longe se põem eles das suas obrigações. Quando o rei vai do reino às conquistas e das conquistas torna ao reino, é rei do reino e mais das conquistas; mas, quando o rei fica no reino, e às conquistas manda só os criados, os criados são os reis das conquistas, e não o rei. O rei fá-los suas imagens, e eles fazem-se reis.

E quem lhes dá estes azos, ou estas asas, senão aquelas que os levam e põem tão longe? De Roma a Jerusalém ainda tinham algum vigor os respeitos do César: Si hunc dimittis, non es amicus Caesaris[6]. — Mas de Lisboa à Índia e ao Brasil, com todo o mar Oceano em meio? A fé, a obrigação, a obediência, o respeito, tudo se esfria, tudo se mareia, tudo referve. Vendo-se tão longe de quem os manda, como lá podem o que querem, não se contentam com querer o que podem. Levam os poderes de imagens, e tomam as onipotências de Césares, e não de Augustos ou Trajanos, para conservação e aumento da monarquia, mas de Tibérios, de Calígulas, de Neros, destruidores dela, para que nos não admiremos das ruínas da nossa, nem lhes busquemos outra causa. Por que perdeu Adão, com o paraíso, a monarquia do universo? Porque se não contentou com ser imagem de Deus, mas quis ser como o mesmo Deus que o fizera sua imagem. A tentação com que o fez apostatar o demônio, foi com lhe dizer que seria como Deus. Mas, se Adão já era como Deus, pois era sua imagem, que lhe prometeu de mais o demônio naquele sicut; Eritis sicut dii[7]? O equívoco do sicut foi verdadeiramente diabólico. Adão, enquanto imagem de Deus, já era como Deus na representação; mas não era como Deus na soberania: e isto é o que lhe prometeu o demônio. E como Adão se não contentou de ser como Deus só não representação, que era o que tinha por imagem, e quis ser como Deus na soberania, que era o que lhe vedava a obediência e o preceito, por isso que quebrou o preceito e negou a obediência a Deus. E isto que fez Adão na Ásia, é o que fazem na mesma Ásia e na nossa América os que, não se contentando com ser imagens dos reis, excedem tão exorbitantemente toda a medida e proporção de imagens, como agora veremos.

V – Impropriedade das imagens cortadas pela medida da sombra. Os ricos feitios de Portugal. Quanto excedem as medidas de Nabucodonosor a grandeza daquela imagem que ele mandou fazer depois que viu em sonhos a sua estátua. A alquimia dos que sabem converter a sombra do rei em ouro. Os milagres daquelas canonizadas imagens que, chegando aqui despidas e toscas, tornam estofadas de brocado e ouro.

Antes de haver no mundo a arte da pintura — que começou depois do incêndio de Tróia — diz Plínio que se retratavam os homens cada um pela sua sombra. Punha-se o homem em pé, fazia sombra com o corpo interposto à luz do sol, e aquela sombra, cortada pela mesma medida, era a sua imagem. E como se podia conhecer a imagem, se não tinha feições por onde se distinguisse? Diz o mesmo Plínio que, para se conhecer, lhe escreviam ao pé o nome de quem era: Omines umbra hominis circumducta: ideo et quos pingerent adscribere institutum. — Faziam-se os retratos naquela rudeza da arte, como em Portugal os que chamam ricos feitios, nos quais as imagens se não conheceriam pela figura, se o não dissesse o rótulo. E é lástima que, proibindo Alexandre que ninguém pudesse pintar a sua imagem senão Apeles, cá nos apareçam algumas figuras tão dessemelhantes dos soberanos originais, que mais parecem ricos feitios que verdadeiras imagens do que há de crer a nossa fé que representam. Mas ainda tinham outra maior impropriedade as imagens cortadas pela medida da sombra, porque, segundo o lugar em que estivesse o sol, seriam, sem nenhuma proporção, muito maiores que os mesmos a quem representavam. E isto é o que se vê, como eu dizia, na Ásia, e na América, e nas Índias Orientais, onde nasce o sol, e nas Ocidentais, onde se põe. Não pode haver semelhança mais própria. A sombra, quando o sol está no zênite, é muito pequenina, e toda se vos mete debaixo dos pés; mas, quando o sol está no oriente, ou no ocaso, essa mesma sombra se estende tão imensamente que mal cabe dentro dos horizontes. Assim nem mais nem menos os que pretendem e alcançam os governos ultramarinos. Lá, onde o sol está no zênite, não só se metem estas sombras debaixo dos pés do príncipe, senão também dos de seus ministros. Mas, quando chegam àquelas índias, onde nasce o sol, ou a estas, onde se põe, crescem tanto as mesmas sombras que excedem muito a medida dos mesmos reis, de que são imagens.

É coisa muito notável, e que porventura não tendes advertido, quanto excedeu a medida de Nabucodonosor à grandeza daquela imagem, que ele mandou fazer, depois que viu em sonhos a da sua estátua. Diz a História Sagrada que tinha de altura ou comprimento sessenta côvados: Nabucodonosor rex fecit statuam auream, altitudine cubitorum sexaginta[8]. Agora pergunto: e quanto vinha a ser maior a grandeza desta imagem, que a estatura do mesmo rei a quem representava? Segundo as regras de Vitrúvio, e a simetria e proporções de um corpo humano, o dedo menor da mão, a que vulgarmente chamamos meminho contém a décima-oitava parte do mesmo corpo. E que se segue daqui? Coisa verdadeiramente, não sei se mais para admirar, se para rir. Segue-se que todo Nabucodonosor cabia dentro do dedo meminho da sua imagem. Já não é grande a insolência de Roboão em dizer que era mais grosso o seu dedo meminho que el-rei Salomão, seu pai, pela cintura. Mas qual será a daqueles vassalos que, sendo somente imagens dos seus reis, se fazem tanto maiores que eles cá onde o sol se põe, ou lá onde o sol nasce, quanto é o excesso imenso com que a sombra se estende, sem outra medida, sem outra proporção nem outro limite, mais que o que no mar ou na terra fecha os horizontes. A imagem de Nabuco era de ouro, as suas são de sombra; mas, como as artes que vêm ou vão exercitar são as da sólida e verdadeira alquimia, eles sabem converter essa sombra em ouro, e fazer-se melhor adorar que o mesmo Nabuco. A imagem de Nabuco para os seus adoradores não tinha prêmios, e para os que não adoravam tinha fornalhas. Lá e cá não é assim. Os que adoram e os que não adoram, todos ardem, porque todos, por diversos modos, ficam abrasados e consumidos.

Ainda resta a maior dor e o maior escândalo. E qual é? É que, quando estas imagens tornam para donde vieram, são tais as bulas de canonização que levam consigo, que merecem ser colocadas sobre os altares. Oh! quem lhes pusera também diante as insígnias dos seus milagres! Vede que Xavieres da Índia, e que Anchietas do Brasil! E o pior é que, se algum os não imitou, nem teve imitadores, esse é recebido sem aplauso, e está sepultado sem culto. Mas não deixemos em silêncio os milagres dos aplaudidos. Nesses famosos santuários da Europa, onde se veneram imagens milagrosas, ali se vêem penduradas as mortalhas, as muletas, as cadeias, as amarras, os pés, os braços, os olhos, as línguas, os corações dos que protestam naqueles votos dever-lhes miraculosamente todos estes benefícios. Deixadas, pois, as outras terras mais remotas, que também podem testemunhar neste caso, vós que me ouvis, que direis da vossa? Que milagres vistes nos já mortos? — que não falo, nem quero que faleis nos vivos. — E quais seriam as merecidas insígnias ou troféus dos mesmos milagres, com que a verdade, sem lisonja, e a memória ainda com horror, lhes adornaria as sepulturas? Também ali se veriam mortalhas, não de poucos que ressuscitassem, mas de infinitos e sem-número a quem tiraram a vida. Também se veriam cadeias, não dos que libertaram do cativeiro, mas das nações e povos inteiros que, sendo livres, fizeram cativos. Também se veriam amarras, não dos navios que salvaram, mas dos que fizeram naufragar e perder, sendo eles no mar e na terra a maior tormenta. Também se veriam muletas, não dos estropiados que sarassem, mas dos que, sendo ricos e abastados, os deixaram mendigando por portas e sem remédio. Também se veriam braços e pés dos que, sendo poderosos, só porque o eram, os enfraqueceu, derrubou e oprimiu o seu injusto poder, sem mais razão que a violência. Também se veriam, finalmente, os olhos que fizeram cegar com lágrimas, e os corações que afogaram em tristeza, em lástimas e desesperações, e as línguas que emudeceram sem poderem falar, nem dar um ai, por lhes não ser licito clamar à terra, nem ainda gemer ao céu. Estes e outros são os milagres daquelas canonizadas imagens que, chegando aqui despidas e toscas, tornaram estofadas de brocado e ouro, e pintadas com as falsas cores com que enganaram a fama: por ela são recebidas em andores, e freqüentadas com romarias.

VI – A difícil conservação das figuras de murta. O que sucede ou pode suceder aos que têm o governo da sua própria pátria, e não por outra razão ou fundamento, senão porque têm as raízes na terra? O apólogo das árvores no Livro dos Juízes. Quem há de governar bem deixa as suas raízes, e quem governa mal arranca as dos súditos, e só trata de conservar as suas.

Até agora tenho representado aos nossos novos governadores e naturais o que não devem imitar nos estranhos. Nem creio lhes será dificultosa a abominação de tão perniciosos exemplos, não só como experimentados em todos, mas também como feridos e magoados. Saibam, porém, que neles, como naturais, concorre outra terceira dificuldade, que nos estranhos não tem lugar. Por quê? Porque, ainda que uns e outros são imagens, eles são imagens com as raízes na terra. As imagens, não só são obra dos estatuários e pintores, senão também dos jardineiros. Uma das coisas mais curiosas que se vê nos jardins, onde as terras se cultivam mais primorosamente que nesta nossa, são várias figuras de murta ou de outras plantas, formadas com tal artifício, proporção e viveza de membros que, tirada a cor verde, em tudo o mais se não distinguem do natural que representam. Mas esta mesma representação é muito dificultosa de conservar. As outras imagens, ou sejam fundidas em metal, ou esculpidas em pedra, ou entalhadas em madeira, ou pintadas nos quadros, ou tecidas nos tapizes, sem mais diligência nem cuidado, sempre conservam e representam a figura que lhes deu o artífice. Porém, as que são formadas de plantas, como têm as raízes na terra, donde recebem o humor, crescendo naturalmente os ramos, facilmente se descompõem e se fazem monstros. Isto mesmo sucede ou pode suceder aos que têm o governo da sua própria pátria, e não por outra razão ou fundamento, senão porque têm as raízes na terra. Ali têm os parentes, ali os amigos, ali os inimigos, ali os interesses da fazenda, da família, da pessoa; e qualquer destes humores ou respeitos, e muito mais todos juntos, podem descompor de tal sorte a imagem e representação de quem governa, que nem aparência lhe fique do que deve ser, e em tudo obre e seja o contrário do que é obrigado. Se o humor das raízes lhe brotar pelos olhos, não poderá ver as coisas, nem ainda olhar para elas sem paixão, que é a que troca as cores às mesmas coisas, e faz que se vejam umas por outras. Se lhe tomar e ocupar os ouvidos, não ouvirá as informações com a cautela com que as deve examinar, ou ficará tão surdo que as não ouça, ainda que sejam clamores. Se lhe rebentar pela boca, mandará o que deve proibir, e proibirá o que deve mandar, e as suas ordens serão desordens, e as suas sentenças agravos. Finalmente, se sair e vicejar pelos braços e pelas mãos, que são as extremidades mais perigosas, e onde se experimentam maiores excessos, estenderá os braços aonde não chega a sua jurisdição, e meterá a mão e encherá as mãos do que não deve tocar.

Por certo que, se os que tomaram sobre si estes encargos, se aconselharam, não digo comigo, senão com as mesmas plantas que têm as raízes na terra, ainda que os governos foram de maior suposição e autoridade, os não haviam de aceitar. O primeiro apólogo que se escreveu no mundo — que é fábula com significação verdadeira — foi aquele que refere a Sagrada Escritura no capítulo nono dos Juízes. Quiseram — diz — as árvores fazer um rei que as governasse, e foram oferecer o governo à oliveira, a qual se escusou, dizendo que não queria deixar o seu óleo, com que se ungem os homens e se alumiam os deuses. Ouvida a escusa, foram à figueira, e também a figueira não quis aceitar, dizendo que os seus figos eram muito doces, e que não queria deixar a sua doçura. Em terceiro lugar foram à vide, a qual disse que as suas uvas, comidas, eram o sabor, e, bebidas, a alegria do mundo, e a quem tinha tão rico patrimônio, não lhe convinha deixá-lo para se meter em governos. De sorte que assim andava o governo universal das árvores, como de porta em porta, sem haver quem o quisesse. Mas o que eu noto nestas escusas é que todas convieram em uma só razão e a mesma, que era não querer cada uma deixar os seus frutos. E houve alguém que dissesse ou propusesse tal coisa a estas árvores? Houve alguém que dissesse à oliveira que havia de deixar as suas azeitonas, nem à figueira os seus figos, nem à vide as suas uvas? Ninguém. Somente lhes disseram e propuseram que quisessem aceitar o governo. Pois, se isso foi só o que lhes disseram e ofereceram, e ninguém lhes falou em haverem de deixar os seus frutos, por que se escusaram todas com os não quererem deixar? Porque entenderam, sem terem entendimento, que quem aceita o governo de outras só há de tratar deles, e não de si, e que, se não deixa totalmente o interesse, a conveniência, a utilidade, e qualquer outro gênero de bem particular e próprio, não pode tratar do comum.

Saibamos agora, e não de outrem, senão das mesmas árvores, se este bom governo, do modo que elas o entenderam, se pode conseguir e exercitar com as raízes em terra? Assim as que o ofereceram, como as que o não aceitaram, todas concordam que não. Que disseram as que ofereceram o governo? Disseram a cada uma das outras: Veni, et impera nobis (Jz, 9, 12): Vinde, e governar-nos. — Vinde? Logo, se elas haviam de ir, haviam-se de arrancar do lugar onde estavam, e deixar as suas raízes. E cada uma das que não aceitaram, que respondeu? Respondeu que não podia ir, porque, movendo-se, havia de deixar as suas raízes, e sem raízes não podia dar fruto: Numquid possum deserere pinguedinem meam, et venire ut inter ligna promovear[9]? — De maneira que governar, e governar bem, não pode ser com as raízes na terra. Governar mal, e para destruição do bem comum, isso sim. E na mesma história o temos, que ainda vai por diante. Vendo as árvores que as três a que tinham oferecido o governo o não quiseram aceitar, diz o texto que se foram ter com o espinheiro, e lhe fizeram a mesma oferta. E que respondeu o espinheiro? É resposta muito digna de ponderação. A proposta das árvores foi a mesma: Veni, et impera super nos[10] — e ele respondeu, não só como espinheiro, senão como espinhado: Si vere me regem vobis constituitis, venite, et sub umbra mea requiescite; si autem non vultis; egrediatur ignis de rhamno, et devoret cedros Libani (Jz. 9, 15): Se verdadeiramente me dais o império, vinde todas deitar-vos a meus pés e pôr-vos à minha sombra, e se houver alguma que repugne, sairá tal fogo do espinheiro que abrase os mais altos cedros do Líbano. — Não sei se reparais na diferença. As árvores que lhe ofereceram o governo disseram-lhe: veni — e ele disse-lhes: venite. — Não sou eu o que hei de deixar as minhas raízes, senão vós as vossas. — Em conclusão, que quem há de governar bem deixa as suas raízes, e quem governa mal arranca as dos súditos, e só trata de conservar as suas.

VII – Que remédio há para que as novas varas que nos governam, tendo, como têm, as raízes na terra, conservem a imagem do César que representam? Que faz o jardineiro para conservar a representação das suas imagens, e que há de fazer quem há de retratar em si a imagem sagrada da pessoa real? Os regimentos dos reis e o Verbo de Deus, figura de sua própria substância. O espelho e as escrituras reais. Adão, imagem natural e política de Deus. O que sucedeu a Adão quando perdeu a imagem política de Deus?

Esta é a particular dificuldade e o grande perigo em que estão de se não conformarem com o soberano original, que representam, as imagens que têm as raízes na terra. É necessário, para se conservarem nesta nova representação e para governarem como devem, que se apartem das suas próprias raízes. Olhai para todas as varas, desde a maior à menor, com que se governa a república. Aquelas varas não tiveram também suas raízes? Sim, tiveram. Mas para governarem e terem jurisdição todas foram primeiro cortadas das mesmas raízes, e por isso todas são varas secas. Que remédio, logo para que as novas varas que nos governam, tendo como têm as raízes na terra, conservem a imagem do César que representam? O menor e antecipado remédio houvera sido escusarem-se, como fizeram as árvores bem entendidas; mas a escusa já não tem lugar. O receio de poderem ser como o espinheiro, que prometeu sombras e ameaçou raios, também me não dá cuidado, porque todos conhecemos a moderação e modéstia dos que aceitaram o governo. Mas, porque os mesmos governos antes costumam mudar as condições dos homens que conserva-las, o mais seguro meio de todos seria cortar as raízes. E quando a resolução de algum fosse tão animosa que assim o fizesse, eu me atrevia a lhe prometer, da parte de Deus, que nem por isso lhe fariam falta. A vara de Arão não tinha raízes na terra, e contudo reverdeceu, floresceu, e deu em meio dia o fruto que as raízes lhe não podiam dar em menos de um ano. Mas deixados os milagres a Deus, e recolhendo-nos aos limites da natureza, só vos aconselho que façais, com toda a aplicação, o que pode a diligência e a indústria. Que faz o jardineiro para conservar a representação das suas imagens, por mais que tenham as raízes na terra? Traz sempre os olhos postos na figura que representam, e contra todo o ímpeto do humor que as mesmas raízes naturalmente comunicam à planta, já dobrando, já ligando, já decotando, conserva nelas a imagem tão proporcionada, inteira e sem mudança, como se a tivera lavrado em mármore ou fundido em bronze.

Tudo isto é necessário a quem há de retratar ou transfigurar em si, não outra nem menor ou menos sagrada imagem que a da mesma pessoa real, a quem representa. Há de endireitar, há de dobrar, há de ligar, há de cortar, e como? Há de endireitar a intenção, tendo-a sempre muito reta de servir só a Deus e ao rei. Há de dobrar a vontade, para que sempre se incline e siga o juízo e ditames da verdadeira razão. Há de ligar e atar o apetite que, junto com o poder, é muito violento e rebelde, para que se não desenfreie. E, finalmente, se algum destes afetos quiser brotar no que não é decente a tão soberana representação, decotá-lo logo e cortá-lo, para que a não descomponha, e, se acaso se sente por dentro, não apareça fora. A figura que haveis de trazer sempre diante dos olhos, é o mesmo rei de quem sois imagem e não como ausente, senão como presente, nem como invisível, senão como visto. Mas, como pode isto ser, se ele está tão distante? Muito facilmente, se não tirardes os olhos do seu regimento, no qual vereis ao mesmo rei tão natural e vivamente retratado em sua própria figura como se a tivéreis presente. Dir-me-eis que no vosso regimento ledes sim as palavras e firma do rei, mas não lhe vedes a figura. Ora, abri melhor os olhos, e logo a vereis; mas é necessário levantar o pensamento. S. Paulo diz que o Verbo Eterno é a figura da própria substância do Padre: Qui cum sit splendor gloriae, et figura substantiae ejus[11]. — E que é ou quer dizer o Verbo? É e quer dizer a palavra. Pois, a palavra de Deus é a figura da sua própria substância: figura substantiae ejus? — Sim. Porque toda a substância, e todo o seu ser imprimiu e exprimiu Deus na sua palavra, como própria, natural e perfeitíssima figura de si mesmo. E, assim como Deus imprime e exprime a sua figura na sua palavra, assim os reis, que são os deuses da terra, se imprimem e estampam nas suas. De maneira que quem lê as palavras, a firma e as ordens do rei nos seus regimentos, vê a própria figura do rei, ou vê ao rei em sua própria figura. Nunca o pincel de Apeles retratou tão felizmente a Alexandre, e o representou aos olhos tão próprio e tão vivo, como os reis no que escrevem e ordenam se retratam ou reproduzem a si mesmos: Sapiens in verbis producet seipsum[12] — diz o Espírito Santo. Mas, ouçamos a um rei.

No tempo em que os godos dominaram a Itália, um dos reis que tiveram a fortuna de escrever com a pena de Cassiodoro, despachando seus regimentos a alguns ministros ausentes, que nunca o tinham visto, diz assim: Tenete speculum cordis, speculum voluntatis, ut quibus non sum facie notus fiam morum qualitate recognitus: Quando chegarem a vossas mãos estas minhas letras, recebei-as como um espelho do meu coração, da minha vontade, e de mim mesmo, das quais, pois, me não conheceis pelo rosto, me conhecereis pelo ânimo. — Notai agora o que acrescenta com juízo verdadeiramente real, e discrição e agudeza mais que de rei: In hac me potius parte conspicite quae latet praesentes: non est vobis damnum absentiae meae: utilius est mente nosse, quam corpore: Folgai — diz — de me ver antes no que vos escrevo, que em minha própria pessoa, entendendo que vedes melhor do que os que na minha corte estão presentes, porque vereis o que eles não vêem, e sabereis de mim o que eu lhes encubro a eles: assim que por este modo nenhum dano recebereis da minha ausência, nem a minha presença vos fará falta, porque na presença, como os demais, ver-me-eis o rosto, e na ausência, pelo que vos ordeno, ver-me-eis a alma. — Mas não deixemos sem ponderação chamar o rei às suas ordens escritas espelhos de si mesmo: Tenete speculum cordis, speculum voluntatis. — A mais perfeita figura que inventou a natureza, e não pode imitar a arte, é a que se vê no espelho. Porque o que se vê nas cores da pintura, ou no vulto das estátuas, é só uma semelhança e representação da pessoa, porém, no espelho não se vê semelhança ou representação, senão a mesma pessoa, por reflexão das espécies. O espelho não é outra coisa que um impedimento das espécies com que vemos, o qual as não deixa passar, e tornam para os olhos. E, assim como o espelho, sendo impedimento da vista, por meio da reflexão melhora a mesma vista, assim na ausência, que também é impedimento da vista, por meio da escritura fica a mesma vista melhorada. Sem escritura é a ausência impedimento: com escritura é espelho. Este espelho, pois, dos reis, em que mais vivamente se representa a sua mesma pessoa que na sua própria figura, é o que hão de trazer sempre diante dos olhos os que têm por obrigação e ofício ser imagens do rei. Entendendo que, enquanto observarem as ordens do seu regimento, serão imagens do César, e, pelo contrário, no ponto em que se não conformarem com elas, perderão a semelhança, a figura e o ser de imagens suas.

Perguntam os teólogos se Adão, pela desobediência, perdeu o ser que tinha de imagem de Deus? E respondem geralmente que não, porque não perdeu a memória, entendimento e vontade, em que consistia a semelhança de Deus trino e um, a que o mesmo Deus o tinha criado. Mas esta resposta tem necessidade de distinção. O mesmo homem de dois modos era imagem de Deus: um como imagem natural, outro como imagem política. Enquanto criatura racional, com a soberania do livre alvedrio em três potências, era imagem que naturalmente representava a Deus, a qual de nenhum modo podia perder, porque nela consistia a sua própria essência. Porém, enquanto senhor do mundo, com o governo de todos os animais, era loco-tenente do mesmo Deus, e a imagem política sua e esta não só a podia perder Adão, senão que de fato a perdeu. Mas quando, e como? Tinha-lhe Deus dado por regimento que guardasse o paraíso, e que nem ele nem sua mulher comessem do fruto da árvore vedada. E enquanto Adão guardou este regimento — que não se sabe ao certo por quanto tempo foi — conservou inteiramente em si esta segunda imagem de Deus, sendo venerado e reconhecido por senhor, e obedecido no ar, no mar e na terra de tudo quanto vivia nestes três elementos. Porém, depois que faltou à observância do mesmo regimento, antes o quebrantou em tudo, não guardando o paraíso, porque deixou entrar nele a serpente, nem se abstendo da árvore proibida, porque consentiu que Eva comesse, comendo também ele, logo perdeu a imagem em que representava a Deus politicamente, e os animais, que já não viam nem reconheciam nele a imagem que tinha perdido, por instinto natural se rebelaram e lhe negaram obediência.

Vistes — diz elegantemente neste passo S. Crisóstomo — vistes a sujeição com que o vosso cão vos reconhece, a prontidão com que chamado acode, o amor com que vos segue, e o alvoroço natural com que, vindo de fora, vos sai a receber, e a saltos vos festeja; e, pelo contrário, se vos disfarçastes e cobristes o rosto com uma máscara, esse mesmo cão, ladrando, remete a vós, e, como estranho ou inimigo, dá rebate contra vós em vossa própria casa? Pois isto mesmo sucedeu a Adão com todos os animais, depois que, desobedecendo, mudou a figura e perdeu a imagem de Deus, que era o caráter visível do domínio do universo que nele tinha delegado. Tanto vai de guardarem ou não guardarem o regimento e ordens do supremo príncipe os que ele substituiu em seu lugar, para que, como imagens suas, o representem. Eu não me queixo das imagens emascaradas, porque sei muito bem as cores com que honesta e modestamente se sabem tingir e fingir, enquanto assim lhes importa as suas pretensões; mas a minha queixa, e de todos, é que depois que se vêem feitas, ou enfeitadas em imagens, então tiram a máscara, e mostram descobertamente o que eram e sempre foram. Assim que não há outro meio certo e seguro de se conservarem na inteira representação de imagens do César os que, por mercê e autoridade sua, têm esse nome, senão a verdadeira e exata observância de suas ordens, e verem-se, comporem-se e retratarem-se em seus regimentos como em espelhos.

VIII – Como devem os súditos obedecer e reverenciar as imagens do César. Razões de conveniência e utilidade que persuadem no presente governo à pronta sujeição e alegre obediência dos súditos, respeitando as novas imagens do César, com tanto maior vontade quanto mais tem de naturais, domésticas e suas. A escolha de Moisés e a escolha de Habacuc. A eleição de Saul e Davi. Como foi recebida a eleição de Arão? O bom pastor e o conhecimento das ovelhas.

O dito até aqui basta — quando não sobeje — para que os nossos novamente eleitos tenham entendido o modo com que podem e devem satisfazer as obrigações de imagens do César, em que sem outro exemplo, se vêem de presente constituídos, que era o primeiro ponto da nossa proposta. O segundo pertence aos súditos e vassalos do mesmo César e é como devem obedecer e reverenciar as mesmas imagens, em que todas as dificuldades que no primeiro discurso apontamos, estão facilitadas, e por isso será este muito breve.

Primeiramente, nos súditos não ocorre a dificuldade do acerto na indiferença ou resolução do que se há de obrar, porque esta só pertence a quem manda, e não a quem só deve obedecer, sendo privilégio singular da obediência que, podendo errar quem manda, e errando muitas vezes, só o que obedece, ainda seguindo esses mesmos erros, sempre acerta. Do mesmo modo não estão expostos os súditos àquela terrível tentação, em que mete as imagens dos Césares o estar longe deles, por que, se as imagens que os representam estão longe, os que se devem conformar com elas, ainda que elas sejam disformes, sempre as têm à vista. Finalmente, o serem imagens que têm as raízes na terra, tão fora está de ser inconveniente, que é o que mais convém a toda a república. Os que nasceram ou se criaram na mesma terra, como as qualidades de cada uma são diferentes, e diferentes os climas e influências do céu que nelas dominam, e conhecem as inclinações e costumes, ou bons ou viciosos, dos que as habitam, e de tudo têm larga experiência, assim podem suavemente promover o bem, assim sabem os meios eficazes e mais provados com que se pode obviar o mal. E de todas estas propriedades e notícias, não só importantes, mas totalmente necessárias, carecem os que vêm de novo, e de fora, sem lhes valer, como inexpertos, nenhuma ciência, discurso ou juízo, por agudo e bem instruído que seja. Adão e Eva tinham ciência infusa, e, sabendo, como não podiam ignorar, que as cobras não falavam, por informação de uma delas, tendo-os Deus posto no paraíso para governarem o mundo, o mundo e o paraíso tudo perderam em poucas horas.

Pelo contrário, quis Deus acudir ao perigo de se perder totalmente, em que o povo de Israel estava no Egito, e a quem escolheu para esta grande empresa de o conservar e livrar de tão poderosos inimigos? A pessoa que escolheu foi a de Moisés, o qual, posto que vestido de peles, e com um cajado na mão guardava ovelhas em um deserto, não tinha menos que quarenta anos de vida e experiência do mesmo Egito. No Egito nascera, entre os egípcios se criara, e nas escolas do Egito aprendera quanto eles sabiam; e por isso, não com outros instrumentos, senão com o mesmo cajado, venceu todas as dificuldades, e conseguiu felizmente a empresa, obrando os maiores milagres que jamais tinha visto nem viu o mundo. Então queremos que remedeie os cativeiros do Egito, e faça milagres no Egito quem nunca viu o Egito. O profeta Habacuc, quando Deus lhe mandou que fosse a Babilônia socorrer a Daniel, que estava no lago dos leões, prudentissimamente se escusou, dizendo que nunca vira a Babilônia, nem sabia onde estava tal lago: Babylonem non vidi, et lacum nescio[13]. — E, se foi a Babilônia e tornou a Judéia, e fez em meio dia pelo ar o que um diligente caminheiro não pudera em meio ano, foi porque o mesmo anjo, que lhe deu o recado da parte de Deus, o levou e trouxe, e lhe mostrou o que nunca vira, e ensinou o que não sabia. Suposto, pois, que os que vêm de mil léguas a esta nossa terra, tão nova para eles como Babilônia para o profeta, nem trazem, nem são trazidos de anjos, em suprimento das experiências que não têm, e quando começam a decorar os primeiros rudimentos delas, se voltam outra vez para onde vieram, muito melhor providos estão hoje os lugares que eles haviam de ocupar nos que com tanta capacidade de conhecimento, juízo, talento e verdadeiro amor da mesma terra, a cultivaram como própria, e não desfrutaram como alheia. E quando do seu cuidado e trabalho colham algum fruto, esse, quando menos, ficará onde nasceu, que é o mesmo que semear-se de novo, e não dá-lo a terra para que o leve o mar.

Todas estas razões de conveniência e utilidade persuadem no presente governo a pronta sujeição e alegre obediência dos súditos, respeitando estas novas imagens do César com tanto maior propensão e vontade, quanto mais têm de naturais, domésticas e suas. Mas é tal a protérvia da condição humana, e vício tão próprio da pátria que, por serem naturais, domésticas e suas as mesmas imagens, em vez de conciliarem maior veneração, obediência e respeito, degeneram em desprezo, desobediência e rebeldia. Assim lhes sucedeu a Saul e Davi, sendo ambos eleitos por Deus, e os mais dignos do governo da sua pátria. Uns obedeceram, outros se rebelaram, e em alguns durou a rebeldia não menos que sete anos inteiros, até que a experiência do seu erro os sujeitou à razão. E, se buscarmos as raízes a este vício, acharemos que todo ele nasce da igualdade das pessoas, presumindo cada um que a ele se devia a eleição do lugar e a preferência. A eleição do sumo sacerdócio na pessoa de Arão foi tão mal recebida de muitos, que Datã, Abiron e Coré levantaram tal tumulto no povo que, para Deus o sossegar, e castigar os rebeldes, se abriu subitamente a terra, e vivos foram sepultados no inferno, com todas suas casas e famílias, e abrasados com fogo do céu mais de catorze mil homens que seguiram a mesma rebelião. E por que a seguiram? Porque muitos deles eram iguais e parentes de Arão, e não sofriam que lhes fosse preferido. Mas tanto sente Deus, e tão severamente castiga a cegueira de semelhantes ambições, tendo dado por lei ao mesmo povo que, quando em algum tempo o houvessem de eleger quem os governasse a todos, não fosse outrem, senão de seus irmãos, e de nenhum modo homem estranho: Non poteris alterius gentis hominem regem facere, qui non sit frater tuus[14]. — Finalmente, se como diz Cristo, Senhor nosso, o bom pastor é aquele que conhece as suas ovelhas, e as suas ovelhas o conhecem a ele: Ego sum Pastor bonus et cognosco oves meas, et cognoscunt me meae[15] — como as poderá governar, e encaminhar bem o estranho — e mais se for mercenário — que nem ele as conhece a elas, nem elas a ele?

IX – A política dos que só olham ou se deixam cegar do resplendor das imagens, sem advertir que a representação em que elas consistem, posta em qualquer matéria sempre é a mesma. O alto e ilustre é bom para o bizarro e ostentoso, mas não para o útil e necessário. A eleição do governo na florente república das plantas. S. Agostinho e os adoradores do Templo do Sol. Em que circunstância obrou Nabucodonosor como desconfiado? Conclusão.

Mas, contra tudo isto se levanta aquela política, mais seguida pelo costume que aprovada pelos exemplos, a qual tem persuadido ao mundo que só olhe ou se deixe cegar do resplendor das imagens, sem advertir que a representação em que elas consistem, posta em qualquer matéria, sempre é a mesma. Quem verdadeiramente crê em Cristo, tanto o adora em um crucifixo de ouro como em outro de chumbo. Querem, contudo, os lisonjeiros e os lisonjeados que só se devam os governos e só sejam aptos para eles os nomes pomposos e apelidos ilustres, como se as ações e feitos honrosos se não hajam de esperar com maior razão daqueles que querem adquirir a honra, que dos que cuidam e dizem que já a têm. O mesmo lustre dos ilustres lhes tira o temor e os enche ou incha de imunidades, que lhes dão confiança para grandes ousadias, e das ousadias grandes nascem maiores ruínas. O mais ilustre dos elementos, o mais alto por lugar, e o mais nobre por qualidade, é o fogo, e dele se acendem os raios no céu, e se ateiam os incêndios na terra. O seu natural onde chega é levantar fumaças e fazer cinzas, e não é acomodado instrumento para edificar e conservar cidades o que costuma abrasar Tróias. Os outros elementos servem-nos de graça, e só o fogo à nossa custa, porque, para servir, há de ter que queimar, e, se não queima, não serve. Tal é a luz do mais ilustre elemento, e tal, muitas vezes, o governo dos mais ilustres. Não era ilustre Davi, e foi ilustríssimo seu filho Salomão; e o reino que sustentou e aplicou o que não era ilustre, perdeu e desbaratou o ilustríssimo.

No apólogo que referimos da Escritura Sagrada, em que as árvores buscaram e elegeram quem as governasse, é muito para notar que aquelas a que ofereceram o governo foram a oliveira, a figueira e a vide, sem entrar outra nos pelouros desta eleição. Reparai agora nos apelidos de figueira, vide e oliveira, que todos são honrados, mas da nobreza do meio. E por que não fizeram as árvores este mesmo oferecimento aos cedros, às palmas e aos ciprestes? Não são estas árvores entre todas as mais altas, as mais celebradas, as mais ilustres? Pois, por que não entraram em consideração para querer a verde e florente república das plantas que elas a governassem? Por isso mesmo: porque eram as mais altas e as mais ilustres. O alto e o ilustre é bom para o bizarro e ostentoso, mas não para o útil e necessário. As árvores, não as fez Deus para bandeiras dos ventos, senão para sustento dos homens. Que importa que a sua altura ou altiveza seja muita, se o seu fruto é pouco? A quem sustentaram jamais os cedros, as palmas ou os ciprestes? Pelo contrário, a figueira é a que saboreia o mundo, a oliveira a que o alumia, a vide a que o alegra, e todas entre as plantas as que mais o sustentam. O que diz a Escritura das outras três árvores altíssimas e ilustríssimas é que todas buscam a sua exaltação nos montes mais levantados: Quasi cedrus exaltata sum in Libano, et quasi cypressus in monte Sion, quasi palma exaltata sum in Cades[16]. — Honrem-se embora com essas árvores os seus montes, que os nossos vales não hão mister quem procure a sua exaltação, senão quem trate do nosso remédio. Os cedros, as palmas e os ciprestes são os gigantes das árvores, e o que trouxeram os gigantes à terra não foi menos que o dilúvio. Oh! que duro seria o governo daquele soberbo triunvirato: no forte do cedro, inflexível, no rugoso da palma, áspero, e no funesto do cipreste, triste! Porém, o das outras árvores de meã estatura seria igual, seria moderado, seria suave, que por isso todas alegaram a sua doçura. E isto é, pelas mesmas razões, o que devemos esperar do nosso.

Sendo, pois, tão particulares as conveniências do novo governo nas imagens que temos presentes do nosso felicíssimo César, que Deus guarde, seja também nova e mais exata que nunca a sujeição, respeito e reverência, com que todos os vassalos da mesma majestade os venerem e obedeçam, não só como se a real pessoa estivera presente, senão, em certo modo, ainda muito mais. Tenho observado, assim no céu como na terra, que mais estimam os supremos monarcas os obséquios que se fazem a suas imagens que a suas próprias pessoas. Lembra-me haver lido em Santo Agostinho, no livro dos seus Comentários sobre os salmos, que, residindo em Roma no tempo em que ainda não estava desterrada de todo a idolatria, se admirava muito de que os homens fossem ao templo do sol, de que hoje se vêem não pequenos vestígios, e que ali de dia, e não de noite, adorassem a imagem do mesmo sol com as costas muitas vezes voltadas a ele! Pois, se tinham o sol presente, por que não adoravam ao sol, senão a sua imagem? Porque entendeu a religião ou superstição dos romanos, governada pelos primores da sua própria política, que muito maior majestade era do monarca dos planetas ser venerado de tão longe em sua imagem, do que adorado em si mesmo, posto que visto. Ao menos assim é certo que o julgou a soberania de Nabucodonosor, quando se reputava em sua soberba, não só senhor, mas Deus de todo o mundo. Fez aquela estátua de ouro de tão desmedida grandeza, como sabemos, e com as fornalhas acesas contra os que a não adorassem, mandou que ao som de trombetas todos dobrassem os joelhos diante dela. Pois, se Nabucodonosor estava presente, por que não mandou que o adorassem a ele, senão a sua estátua? Porque era maior ostentação e glória da sua, que chamava onipotência, ser venerado e adorado na imagem que o representava que em sua própria pessoa.

Só em uma circunstância obrou Nabuco como desconfiado, que foi em fazer a mesma imagem de ouro. — Faze-a, rei, de pedra, e serão as suas adorações para ela muito mais reverentes, e para ti muito mais gloriosas. Na estátua de ouro pode parecer que adoram a matéria, e não a forma, o preço do metal, e não a representação da imagem. Onde a matéria das imagens é menos preciosa, ali está a fé e a reverência mais fina. E esta é a fineza do nosso caso, adorando, e respeitando e obedecendo o original soberano do nosso César, não nas imagens de ouro, que até agora cá se mandavam, senão nos mármores naturais e domésticos da nossa mesma terra. Se o feito for qual se espera, e eu me estou prometendo desta mudança da mão do Altíssimo, o presente governo será tão aceito a Deus e ao rei, que Sua Majestade o confirme e faça perpétuo, com menos despesa sua, com grandes utilidades nossas, e com tão conhecidas melhoras e aumento do serviço real e divino que, com suma paz, quietação e concórdia se verifique em todo este Estado o que Cristo respondeu à pergunta que hoje lhe fizeram no Evangelho, isto é, que a Deus se dê o de Deus, e o de César a César? Reddite quae sunt Caesaris, Caesari, et quae sunt Dei, Deo.

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[1] De quem é esta imagem e inscrição? Responderam-lhe eles: De César. (Mt. 22, 20 s).
[2] Constitui-nos pois um rei, como o têm todas as nações (I Rs. 8, 5).
[3] Porque ele era o que levava a palavra (At. 14, 11).
[4] O mais alto dos céus é para o Senhor, mas aterra a deu aos filhos dos homens (Sl. 113, 16).
[5] Foi para um país muito distante tomar posse de um reino, para depois voltar (Lc. 19, 12).
[6] Tu, se livras a este, não és amigo do César (Jo. 19, 12).
[7] Sereis como uns deuses (Gên. 3, 5).
[8] Fez o rei Nabucodonosor uma estátua de ouro que tinha sessenta côvados de altura (Dân. 3, 1).
[9] Acaso posso eu deixar o meu óleo, para vir a ser superior às outras árvores (Jz. 9, 9)?
[10] Vem, e serás o nosso rei (ibid. 14).
[11] O qual, sendo o resplendor da glória, e a figura da sua substância (Hebr. 1, 3).
[12] O sábio atrai a si a estima com as suas palavras (Eclo. 20, 29).
[13] Eu nunca vi Babilônia, e não sei onde é a cova (Dan. 14, 34).
[14] Não poderás fazer rei homem de outra nação, que não seja teu irmão (Dt. 17, 15)
[15] Eu sou o bom pastor, e eu conheço as minhas ovelhas, e as que são minhas me conhecem a mim (Jo. 10, 14).
[16] Elevei-me como o cedro do Líbano, e como o cipreste do Monte Sião; cresci como a palmeira de Cades (Eclo. 24, 17 s).

Fonte: https://www.literaturabrasileira.ufsc.br/documentos/?action=download&id=49779