Sermão ao enterro dos ossos dos enforcados (1637)

SERMÃO AO ENTERRO DOS OSSOS DOS ENFORCADOS,

Pregado na Igreja da Misericórdia da Bahia, ano de 1637, em que ardia aquele estado em guerra.


Misericordia et veritas obviaverunt sibi; justitia, et pax osculatae sunt[1].

I – Os despojos da justiça e os troféus da misericórdia. A paz, fruto da justiça. Absalão, paz de seu pai. A pomba e o corvo da Arca de Noé. A justiça e a paz se abraçaram.

Esta dobrada união de virtudes, que Davi prometeu ao mundo, quando nele se vissem também unidas a natureza divina com a humana, são as duas partes de que religiosamente se compõe todo este aparato fúnebre, que, entre horror e piedade, temos presente. Despojos da justiça, troféus da misericórdia. Vede com que diferentes procissões, e com que diversos acompanhamentos, estes mesmos homens, vivos, foram levados pela justiça ao lugar infame do suplício, e, mortos, são trazidos pela misericórdia, com tanta honra ao da eclesiástica sepultura. Ali pagaram o que mereciam os delitos, aqui recebem o que se deve à humanidade. Diz pois Davi que naqueles tempos ditosos, saindo a se encontrar a misericórdia e a justiça, a justiça se abraçou com a paz, e a misericórdia com a verdade: Misericordia et veritas obviaverunt sibi; justitia et pax osculatae sunt (Sl. 84, 11).

Abraçaram-se a justiça e a paz, e foi a justiça a primeira que concorreu para este abraço: Justitia, et pax, porque a justiça não é a que depende da paz — como alguns tomam por escusa — senão a paz da justiça. Faça a justiça aquela justa guerra de que estes ossos são os despojos, e deles, e dela nascerá a suspirada paz, cuja falta padecemos há tantos anos. No nascimento de Cristo anunciaram os anjos paz aos homens: Et in terra pax hominibus (Lc. 2, 14). E donde havia de vir essa paz aos homens e à terra? Não precisamente do Rei pacífico que nascia, senão da justiça que em seus dias havia de nascer: Orietur in diebus ejus justitia, et abundantia pacis (Sl. 71, 7): Nascerá em seus dias a justiça — diz o profeta — e então haverá grande colheita de paz — porque a paz são os frutos da justiça. Toda a República, em todo o tempo, há mister paz, e a nossa no tempo presente dobrada paz: paz interior contra os inimigos de dentro, paz exterior contra os de fora, e uma e outra teremos, se a justiça a cultivar como deve. Vedes aqueles ossos desenterrados? Pois aquela é a semente de que nasce a paz. A justiça semeia-os no ar, e a paz colhe-se na terra. Absalão quer dizer: Pax Patris: Paz de seu pai; mas não foi paz de seu pai estando vivo, senão depois de morto e enforcado (2 Rs. 18). Vivo, fez-lhe cruel guerra; enforcado, deu-lhe a paz de todo o reino. Se houvera justiça que enforcara Absalões, eu vos prometo que dentro e fora não houvera tantas guerras. O maior exemplo de justiça que viu o mundo foi o do dilúvio. E que se seguiu depois dele? A paz que trouxe a pomba a Noé no ramo da oliveira. As águas do dilúvio não arrancaram nem secaram a oliveira, antes a regaram (Gên. 8, 11). Debaixo delas se conservou inteira e verde, porque, debaixo dos grandes e exemplares castigos, cresce e reverdece a paz.

Para mim, o primeiro sinal dela, não foi o da pomba, senão o do corvo. Saído o corvo da arca, pôs-se a comer e cevar nos corpos afogados do dilúvio; e quando se dá carne de justiçados aos corvos, segura está a paz do mundo. Se o corvo trouxera à Arca uma daquelas caveiras, tanto e mais se pudera assegurar dela Noé, que da oliveira da pomba. Nunca Jerusalém gozou maior paz que no tempo de el-rei Salomão; mas essa não estava só no Olivete, senão no Calvário. Assim o profetizou ao mesmo Salomão seu pai, falando da felicidade do seu reinado: Suscipiant montes pacem populo, et colles justitiam (Sl. 71, 3): Os montes trarão a paz ao povo, e os outeiros a justiça. — E por que os outeiros a justiça, e os montes a paz? Porque em Jerusalém, havia um monte mais alto, coberto de oliveiras, que era o Olivete, e outro outeiro ou monte mais baixo, coberto de caveiras, que era o Calvário, onde se justifiçavam os delinqüentes. E quando os outeiros, como o Calvário, com as suas caveiras, mostram a justiça, os montes, como o Olivete, com as suas oliveiras, anunciam a paz: Suscipiant montes pacem, et colles justitiam. Oh! como veríamos esses montes coroados de paz, se se vissem estes outeiros semeados de justiça! Mas nós, esquecidos desta regra — que também é militar — todos nos ocupamos em fortificar e presidiar outeiros e montes. Que importa que estejam presidiadas as fortalezas, se estão desguarnecidas as forcas? Aquelas são as que nos hão de defender da justiça divina, que só vem do céu, quando falta na terra. O imperador Maximiliano quando via uma forca tirava-lhe o chapéu, porque estas, dizia, são as que me sustentam em paz o meu império. Por isso diz Davi, como profeta, e também o pudera dizer como rei, que a justiça e a paz se abraçaram: Justitia, et pax osculatae sunt.

Tenho declarado uma das partes do tema que, sendo tão própria do tempo, também não foi alheia do lugar e do ato presente, pois é de misericórdia que supõe justiça; para discorrer mais largamente sobre a segunda e principal, é-nos necessária maior graça. Ave Maria.

II – O terremoto da Ilha Terceira e as ruínas da Vila da Praia. A irmandade das virtudes, e a desarmonia dos vícios. A misericórdia mentirosa de Judas, e a misericórdia interesseira de Faraó a Abraão. Davi pregador da misericórdia divina.

Misericordia et veritas obviaverunt sibi.

Um dos mais prodigiosos casos com que o céu assombrou a terra, e as nossas terras, foi o memorável terremoto da Ilha Terceira, não muitos anos antes deste. Arruinou, soverteu e arrasou totalmente a vila chamada da Praia, mas foi muito mais notável pelo que deixou em pé, que pelo que derrubou. Unicamente ficaram inteiras sem lesão estas três partes, ou peças daquele povo: a cadeia pública, a Casa da Misericórdia, e o púlpito da igreja maior. Oh! providência divina, sempre vigilante, ainda nos casos que parecem e podem ser da natureza! Aquelas três exceções tão notáveis não foram sem grande mistério, e todos os que as viram o notaram e reconheceram logo. No cárcere, o reconheceram a justiça, no hospital a misericórdia, e no púlpito a verdade. Como se nos pregara Deus aos portugueses, e mais aos das cidades e praças marítimas — como esta é, e aquela era — que por falta de justiça, de misericórdia e de verdade, se vêem tão destruídas e assoladas as nossas conquistas, e que só se pode defender, conservar e manter em pé sobre três colunas, com verdade, e com misericórdia, e com justiça; da justiça, basta o que fica dito; da misericórdia e verdade, diremos agora.

Misericordia et veritas obviaverunt sibi. Contêm estas palavras, senhores, um documento notável e muito digno de o notarem e advertirem todos os que nesta ilustríssima comunidade, com o nome e com as obras professam misericórdia. Profetiza e canta Davi, como maravilha e excelência própria da lei da graça, que nos tempos dela — que são estes nossos — a misericórdia e a verdade se concordariam, se abraçariam e se uniriam entre si. Isto quer dizer obviaverunt sibi. E é notável dizer. As virtudes não são como os vícios. Os vícios, ainda que se ajuntem no mesmo sujeito, e para o mesmo fim, sempre vão atados ao revés, como as raposas de Sansão, sempre desencontrados e inimigos. Não assim as virtudes. As virtudes conservam tal irmandade e harmonia entre si, que sempre estão unidas e concordes; e entre todas as virtudes, a nenhuma é mais intrínseca esta união, que à verdade, porque a virtude que não é juntamente verdade, não é virtude. Como diz logo Davi, e como celebra por maravilha própria da lei de Cristo, que a misericórdia se ajuntaria com a verdade, e a verdade com a misericórdia: Misericordia et veritas obviaverunt. Uma coisa diz Davi, outra supõe, e ambas certas. Diz que a misericórdia e a verdade se haviam de encontrar e unir, porque assim o manda Cristo; e supõe que a misericórdia e a verdade podiam andar desencontradas e desunidas, porque assim acontece muitas vezes. Nem tudo o que parece misericórdia é misericórdia e verdade. Há misericórdias, que são misericórdia e mentiras: parecem misericórdias e são respeitos, parecem misericórdias e são interesses, parecem misericórdias e são outros afetos tão contrários desta virtude, como de todas.

Quem ouvisse dizer a Judas: Ut quid perditio haec? Potuit enim istud venundari multo, et dari pauperibus (Mt. 26, 8 s): Para que é esperdiçar assim este ungüento tão precioso? Melhor fora vendê-lo por muito dinheiro, e matar com ele a fome a muitos pobres. — Quem ouvisse isto a um apóstolo havia de dizer que era vontade de fazer bem, que era espírito de caridade, que era impulso e afeto de misericórdia. Mas o evangelista S. João, que lhe conhecia o ânimo, vede que diferentemente no-lo pintou e despintou: Dixit autem hoc, non quia de egenis pertinebat ad eum, sed quia fur erat, et loculos habens[2]. Não dizia isto Judas porque tratasse dos pobres, senão porque tratava de si. As palavras pareciam de um apóstolo, mas os intentos eram de um ladrão. Era cobiça em hábito de piedade, era ladroíce com rebuço de misericórdia: Quia fur erat, et loculos habens. Eu não quero aplicar; faça-o cada um consigo, se achar por onde. Vamos a outro exemplo de gente mais honrada, e de matéria mais perigosa.

Saiu Abraão peregrino de sua pátria, fez assento em Egito com toda sua família, e não se tinham passado dias depois que chegara, quando já era um dos mais ricos e poderosos do lugar: tinha muitos campos, muitos gados, muitos escravos, liberalidades tudo do rei e moradores daquela terra. Quando isto li a primeira vez, comecei a murmurar de nossos tempos, e a dizer comigo: Esta sim que é caridade, esta sim que é misericórdia! Remediar com tanta presteza um homem peregrino, socorrer com tanta abundância uma família desterrada: não se faz assim entre nós com os retirados de Pernambuco. Li por diante, tudo o que ouvistes, nada era menos que aquilo que aparecia. Parecia piedade, eram respeitos, parecia misericórdia, e eram interesses. Digamo-lo mais claro: parecia caridade, e era amor. Todas estas enchentes de bens corriam à casa de Abraão, não por amor de Abraão, senão por amor de Sara, e não porque era peregrina Sara, senão porque a formosura de Sara era peregrina: Scio quod pulchra sis, mulier; Abram bene usi sum propter illam[3].

De sorte — como dizia — que nem tudo o que parece misericórdia é misericórdia e verdade, senão, muitas vezes, misericórdia e mentira. Em Judas o zelo dos pobres parecia misericórdia, e era cobiça; em Faraó o agasalho dos peregrinos parecia misericórdia, e era lascívia; e se estes defeitos se acham em misericórdias coroadas, ou com a coroa sacerdotal, como era a de Judas, ou com a coroa real, como a de Faraó, menos maravilha seria que se possam achar nas misericórdias de outros sujeitos, onde os da menor condição, e os da maior, todos são inferiores. Com ser porém assim, que em muitas ações e obras de misericórdia a misericórdia e a verdade andam desencontradas — de que pode ser, que nesta mesma casa, e dentro destas santas paredes, assim nas eleições dos ofícios, como no exercício deles haja menos antigos, e mais palpáveis exemplos — deixados eles à consideração e consciência do tribunal a quem toca, e vindo ao ato presente, como próprio deste dia; digo, senhores, que entre todas as obras de misericórdia que, ou pública ou privadamente, professa o vosso instituto, esta é singularmente aquela em que a misericórdia e a verdade se acham juntas. Nas outras obras de misericórdia pode ir a misericórdia por um caminho e a verdade por outro; nesta não é assim. Por mais desencontradas, e mais longe que andassem uma da outra, aqui se encontram, aqui se abraçam, aqui se unem: Misericordia et veritas obviaverunt sibi.

E para que conheça a Irmandade da Misericórdia quanto digo nisto que digo, ouçamos ao mesmo Davi, não já falando da misericórdia humana, mas da divina. O maior pregador da misericórdia, entre todos os profetas, foi Davi. E todas as vezes em que ele — como eu agora — se achava em algum grande auditório, o que pregava da misericórdia de Deus é que sempre andou junta com a verdade: Non abscondi misericordiam tuam, et veritatem tuam a concilio multo. Domine, in Caelo misericordia tua, et veritas tua usque ad nubes[4]. Se falava de Deus, misericórdia e verdade: Misericordiam et veritatem diligit Deus. Universae viae Domini misericordia et veritas[5]. Se nos exortava a louvar a Deus, misericórdia e verdade: Laudate Dominum omnes gentes, quoniam confirmata est super nos misericordia ejus, et veritas Domini manet in aeternum. Non nobis Domine, non nobis, sed nomini tuo da gloriam; super misericordia tua, et veritate tua[6].

Mas por que insistia tanto Davi nos louvores de Deus, em ajuntar sempre a verdade com a misericórdia? Porque é tão grande prerrogativa, tão alta e tão divina a união da misericórdia com a verdade, que entre todos seus atributos, de nenhuma se preza nem gloria mais Deus que desta união. O mesmo Deus o revelou assim a Davi, e o mesmo Davi a nós: Super misericordia tua et veritate tua, quoniam magnificasti super omne nomen sactum tuum[7]. Quis Deus magnificar e engrandecer o seu nome, quis tomar para si um nome que fosse sobre todo o nome, e o nome que elegeu entre todos seus atributos foi misericórdia e verdade. A seu Filho deu Deus um nome sobre todo o nome: Et dedit illi nomen super omne nomen (Flp. 2, 9), e para si tomou também um nome sobre todo o nome: Magnificasti super omne nomen sanctum tuum. E assim, como o nome de Cristo sobre todo o nome é Jesus: Ut in nomine Jesu omne genu flectatur[8], assim o nome de Deus sobre todo o nome é misericórdia e verdade: In misericordia tua, et veritate tua. Não misericórdia e justiça, não misericórdia e sabedoria, não misericórdia e onipotência, não misericórdia e imensidade, senão misericórdia e verdade. E se a união da verdade com a misericórdia é tão sobre-excelente e tão sobredivina na misericórdia de Deus, vede que será e qual será na misericórdia humana! Pois isto é, senhores, o que eu digo desta ação da misericórdia que temos presente: Misericordia, et veritas obviaverunt sibi.

III – No obséquio da Madalena a Cristo, um exemplo da verdadeira misericórdia, ou de misericórdia e verdade: o obséquio prestado aos mortos. Como anunciou o Anjo a José a morte de Herodes? A amizade de Davi, e a morte de Jônatas. A sepultura dos mortos, o maior oficio de piedade, no dizer de S. Ambrósio. Davi e as maravilhas da misericórdia de Deus para com os mortos.

E se me perguntais o fundamento desta tão gloriosa e quase divina singularidade, respondo que por duas razões, ambas também presentes, uma geral, outra particular. A primeira e geral, porque é obra de misericórdia feita a homens mortos; a segunda e particular, porque é feita a mortos justiçados e tirados da forca.

Começando pela primeira: então se une a misericórdia com a verdade quando a obra de misericórdia é tão verdadeira e pura, que não tem mistura de outro afeto que a vicie, nem liga de outro motivo ou respeito que a falsifique, e tais são as obras de misericórdia que se exercitam com os mortos. Quando Judas condenou a unção da Madalena, acudiu o divino Mestre a emendar a censura do mau discípulo, dizendo e ensinando a toda a sua escola que aquela obra fora boa: Opus enim bonum operata est in me[9],

Em dizer o Senhor absolutamente que a obra fora boa, qualificou e definiu que era livre de todo e qualquer defeito que a pudesse viciar, porque bonum ex integra causa, malum ex quocumque defectu. Agora pergunto: e por que foi absolutamente boa e pura aquela obra, e não só livre dos defeitos que lhe opunha a calúnia de Judas, senão de todo o defeito? Eu cuidava que nas mesmas palavras de Cristo estava a verdadeira razão. Não só disse o Senhor: Opus bonum operata est, mas acrescentou: in me, em mim. E como aquela obra fora feita em Cristo, a Cristo e por Cristo, parece que não havia mister outra coisa nem outra prova, para ser qualificada por boa, e puramente boa: Opus bonum. Assim o cuidava eu, e creio que o cuidaram todos, mas não foi esta a razão com que o Senhor provou a bondade e pureza da obra, senão outra muito mais secreta, que ninguém podia imaginar, verdadeiramente admirável e profundíssima. Mittens haec, unguentum hoc in corpus meum ad sepeliendum me fecit[10]. Os ungüentos preciosos e aromáticos naquele tempo usavam-se para ungir os mortos, e também os vivos. Os vivos por delícia, os mortos para a sepultura. Responde pois Cristo a Judas: vês este ungüento que derramou a Madalena sobre mim, e de que tu tanto te escandalizas. Pois hás de saber que ela não me ungia por delícia, como vivo, senão para a sepultura, como morto: Quando o meu corpo estiver morto no sepulcro, há-me de querer ungir a Madalena, e não há de poder. E porque a sua devoção merece que eu não deixe de receber este último ofício de piedade, por isso, com moção e instinto divino me veio ungir antecipadamente, para prevenir em meu corpo esta cerimônia de defunto: Praevenit ungere corpus meum[11]. De sorte — notai agora — que para Cristo haver por provado que aquela obra era absolutamente boa, e livre de todo o respeito e defeito humano, não bastou referir que era feita a ele, como todos estavam vendo, mas foi-lhe necessário revelar o mistério que só mesmo o Senhor e a Madalena entendiam, e declarar que o não ungiu como vivo, senão como morto: Opus bonum operata est, ad sepeliendum me fecit. Tanto vai nas obras de misericórdia serem feitas a mortos ou a vivos, ainda que o vivo seja o mesmo Cristo. Se fora obséquio feito a Cristo vivo, pudera argüir a especulação e suspeitar a malícia, ou murmurar e caluniar algum defeito aparente que, quando menos, o pusesse em dúvida; mas, como era obra de misericórdia exercitada com um corpo morto, e para lhe dar sepultura, irrefragavelmente ficou demonstrando que era verdadeira e pura misericórdia, ou, falando nos nossos termos, que era misericórdia e verdade: Misericordia, et veritas.

O fundamento sólido e claro desta filosofia é porque os motivos que podem viciar a pureza e falsificar a verdade das obras de misericórdia são outros respeitos humanos, e na dos mortos não há respeitos. Ponhamos o exemplo nos mais respeitados e nos mais respeitosos do mundo, que são os reis e os que andam mais chegados a eles. Morreu el-rei Herodes, aquele que logo em seu nascimento quis tirar a vida a Cristo e o obrigou a fugir ao Egito, e tanto que morreu, apareceu o anjo a S. José, e disse-lhe que seguramente podia tornar para as terras de Israel: Defuncti sunt enim qui quaerebant animam pueri (Mt. 2, 20): porque já eram mortos os que perseguiram o Menino. — Este porquê do anjo, parece que foi mais largo do que havia de ser. O evangelista diz que só morrera Herodes: Defuncto Herode. Pois, se o que morreu foi só Herodes, perseguidor de Cristo, como diz o anjo que morreram todos os que o perseguiam? Porque com a morte dos reis morrem todos os respeitos que os acompanham na vida. Herodes perseguia a Cristo por respeito da coroa; os demais perseguiam-no por respeito de Herodes, e como morreu Herodes também morreram com ele todos esses respeitos.

E diz o anjo angelicamente, não que morreram os respeitos, senão que morreram os respeitosos ou respectivos, isto é, os familiares de Herodes, para que se desenganem todos os mortais de quão pouco se devem fiar os mortos dos vivos. Em algumas nações na Índia, quando morrem os reis, matam-se juntamente com eles todos os seus criados e validos. Cá não se matam, mas também morrem. Morrem para eles, e vivem — como sempre viveram — só para si. E se isto sucede aos reis, que será ali dali abaixo? Desenganemo-nos pois, que para os mortos não há vivos. Todos morrem com quem morre: Defuncto Herode, defuncti sunt enim. Atai as palavras do evangelista com as do anjo, e notai muito aquele enim. Morrem os vivos com os mortos, sem outro achaque nem porquê, senão porque eles morreram. Não morreria muito tresvariado e fora de si quem nomeasse por seu testamenteiro um morto? Pois assim o fazem os que na morte encomendam os descargos de sua alma aos vivos. Até os que na vida morriam por vós, na morte morrem convosco. Vede-o nos filhos para com os pais, e nos irmãos para com os irmãos, e, o que é mais que tudo, nos amigos para com os amigos. O par maior de amigos que lemos nas Escrituras — que os outros são fabulosos — foram Jônatas e Davi. Morreu Jônatas, ficou Davi vivo, e tudo o que fez por ele foi tirar a fazenda a seu filho, e compor um soneto ou uma canção à sua morte: Doleo super te, frater mi Jonatha, decore nimis, et amabilis super amorem mulierum. Sicut mater unicum amat filium suum, ita ego te diligebam[12]. Reparai no diligebam: amava. Ele mesmo confessa e diz, não que ama, senão que amava, porque com a morte de Jônatas, morreu também o amor de Davi. Fiai-vos lá de amigos, e mais dos mais discretos! O que podeis esperar, quando muito, da memória ou do seu entendimento, é uma meia folha de papel com catorze versos; melhor fora uma bula de defuntos.

Mas, tornando a Herodes e à declaração dos respeitos por que na sua morte morreram com ele todos os seus, é de saber que este Herodes, por sobrenome Ascalonita, foi o homem que por todas as artes e manhas soube melhor ganhar, sujeitar e unir a si os ânimos dos homens. Como era intruso na coroa, e reinou quarenta e dois anos, sempre com receio de que o privassem do reino, a uns granjeava com favores e mercês, como rei, a outros sujeitava com rigores e castigos, como tirano. E por este modo dominava de tal sorte a todos, que não havia no seu reino mais que uma só vontade, que era a sua. Bem se viu na entrada dos magos em Jerusalém, com voz de outro rei: Turbatus est Herodes (Mt. 2, 3): Turbou-se Herodes; Et omnis Hierosolyma cum illo: e todos por ele, e com ele. — E, assim como todos viviam com ele, quando vivo, assim todos morreram com ele, quando morto. Enquanto vivo, uns viviam com ele pelo benefício, outros pelo medo; tanto que morreu, morreram também todos com ele, porque nem uns tinham já que temer, nem outros que esperar. Esta é a maior miséria dos mortos: serem gente que não pode fazer bem nem mal. E porque com eles morrem e se acabam todos os respeitos e dependências por que se governam os afetos humanos, por isso, assim como neles aquela é a maior miséria, assim para com eles esta é a maior misericórdia. Misericórdia sem respeito, misericórdia sem dependência, misericórdia sem motivo algum que não seja pura misericórdia, e por isso, enfim, misericórdia e verdade: Misericordia, et veritas.

Não sou muito amigo de autoridades, porque raramente se podem ajustar com quem disser o que não está dito. Ouçamos, porém, a de Santo Ambrósio, que melhor e mais altamente que todos tocou este ponto. Naquele seu famoso livro, que intitulou De Officiis, falando da sepultura dos mortos, diz que entre todos os benefícios que pode fazer a piedade humana, este é o mais excelente: Nihil hoc officio praestantius. Outros diriam que maior benefício e maior obra de misericórdia é sustentar os pobres e remir os cativos, porque a uns dá-se vida, e a outros liberdade. Contudo, este grande doutor da Igreja, e mestre de Santo Agostinho, diz que dar sepultura aos mortos, ainda da parte de quem recebe o beneficio, é o mais excelente de todos, e dá a razão: Nihil hoc officio praestantius, ei conferre, qui tibi jam non potest reddere: É — diz — o mais excelente de todos porque é o benefício feito a quem o não pode pagar; eu acrescentara, nem dever. É fazer bem a quem vos não pode fazer bem; eu acrescentara, nem mal. É obra de que se não espera agradecimento; eu acrescentara, nem queixa. É, finalmente, compadecer-me eu e remediar a quem não padece de miséria, nem sente o benefício, que isto é ser morto. O bem que se faz aos vivos — como bem sabem os que o fazem, e não ignoram os que o recebem — pode-o negociar o interesse, pode-o solicitar a dependência; pode-o violentar o respeito, e nada disto se pode esperar de uns ossos secos, nem temer de umas cinzas frias; logo a sepultura dos mortos é o maior ofício de piedade, como diz Ambrósio; logo a sepultura dos mortos é misericórdia e verdade, como nós dizemos, porque é misericórdia pura e limpa de toda outra atenção, e nua, como a verdade, de todo o respeito. Mas, concluamos com a Escritura, que é só a que diz tudo.

Considera Davi o estado dos mortos, e admirado de que também deles tenha providência Deus, exclama ou pergunta assim: Nunquid mortuis facies mirabilia? (Sl, 87, 11). É possível, Senhor, que com os mortos, que já não têm ser, há de ser tão cuidadosa a vossa providência, que faça por eles maravilhas? — Não se poderá exagerar mais, nem encarecer melhor, quão grande coisa é fazer bem aos mortos e lembrar deles, pois um profeta que sabia e conhecia de Deus mais que todos, chega a chamar a esta obra milagre da Divina Bondade, e não só o venera com tanta admiração, mas quase parece que o duvida: Nunquid mortuis facies mirabilia? Ora, saibamos em que topava esta admiração e dificuldade Davi, e que maior ou menor razão achava nos mortos que nos vivos, para ser mais maravilhosa neles a previdência e bondade divina. O mesmo Davi se declarou respondendo a uma pergunta com outra pergunta, e amplificando um nunquid com outro nunquid: Nunquid narrabit aliquis in sepulchro misericordiam tuam, et veritatem tuam in perditione (Sl. 87, 12)? É possível que se hão de contar exemplos da vossa misericórdia na sepultura, e da vossa verdade na perdição? — Se Davi fizera de encomenda este verso, não viera mais de molde ao que dizemos. Primeiramente chama à misericórdia verdade, e à sepultura perdição, e logo põe a misericórdia na sepultura: Misericordiam in sepulchro, e a verdade na perdição: Et veritatem in perditione, porque, em ser a sepultura perdição, consiste o ser a misericórdia verdade. Ora vede: lá disse com alta filosofia Sêneca que a verdade do bem fazer não consiste em dar o benefício e perdê-lo, senão em o perder e dá-lo: Beneficium est non dare et perdere, sed perdere et dare. Dar o benefício e perdê-lo é caso que sucede muitas vezes, ou por imprudência de quem o dá, ou por impossibilidade, ou por avareza, ou por ingratidão de quem o recebe; e, neste caso, a boa obra não é benefício; é ignorância ou desgraça. Pois, quando é verdadeiro benefício a obra boa? Quando quem a faz sabe que a perde, e, contudo, a faz. E tais são os benefícios que se fazem aos mortos. Como os mortes não sentem, nem conhecem o benefício que se lhes faz, e ainda que o conheceram não o podem agradecer nem pagar, tudo o que se faz aos mortos, é como se perdera, e por isso a sepultura se chama perdição: in sepulchro, in perditione. E, contudo, que sendo a sepultura perdição, haja contudo misericórdia tão alheia e tão limpa de todo o interesse, que não só dê sepultura aos mortos, mas sepultura tão nobre e tão honrada como a que temos presente, com tão longo e tão ilustre acompanhamento, com tanta pompa de luzes, com tanta majestade de insígnias, com tanto aparato e riqueza de túmulos, com tanto concerto e harmonia de cerimônias sagradas, de ministros, de sufrágios e de ofícios eclesiásticos, estas são as maravilhas da misericórdia, de que Davi parece que duvidava e se admira: Nunquid mortuis facies mirabilia? E esta é aquela pura misericórdia que, por não ter mistura alguma de outro afeto ou respeito, se chama em Deus e nos homens misericórdia e verdade: Misericordiam tuam in sepulchro, et veritatem tuam in perditione. Misericordia, et veritas obviaverunt sibi.

IV – Os mortos honrados por respeito aos vivos: O enterro do filho da viúva de Naim. As exéquias de Jacó e as exéquias de José. A maldição da forca. Isaías e a geração dos enforcados. Os judeus e o escândalo da cruz. Davi e a sepultura dos filhos de Saul. O maior interesse da misericórdia: a graça neste mundo e a glória no outro.

Está dada a primeira e geral razão, mas não basta, porque tem sua réplica. Passemos à segunda e particular, que a não tem nem pode ter. Basta absolutamente ser a obra de misericórdia feita a mortos, por ser misericórdia e verdade, se verdadeiramente se faz aos mortos, como a mortos. Mas alguma vez, e muitas, não basta, porque muitas vezes são servidos e honrados os mortos, não por si, mas por respeito dos vivos. E isto não é misericórdia e verdade, senão hipocrisia e mentira sem misericórdia. Não vedes nas mortes e funerais, principalmente dos grandes, os concursos e assistência de todas os estados que se fazem àqueles perfumados cadáveres, de cujas almas porventura se não tem tanto cuidado? Pois não cuideis que cuidamos que o fazeis por piedade dos mortos. Todos sabemos, tão bem como vós, que são puras cerimônias e lisonjas com que incensais os vivos.

Ia Cristo chegando às portas de Naim, quando vinha saindo a enterrar com grande pompa e acompanhamento de toda a cidade, um moço, filho único de uma mãe viúva, a qual também, com muitas lágrimas, seguia a tumba. Descreve o evangelista São Lucas este encontro por ocasião de um famoso milagre que o Senhor ali obrou, e diz desta maneira: Ecce defunctus efferebatur, filius unicus matris suae: et haec vidua erat: et multitudo copiosa plebis cum illa[13]: saía a enterrar um moço, filho único de sua mãe, a qual era viúva, e ia grande multidão do povo com ela. — Não sei se reparais nos termos. Não diz o evangelista que os que acompanhavam o defunto iam com ele, senão com ela: cum illa. Parece que havia de dizer que o acompanhamento ia com o filho, e não com a mãe, porque o filho era o defunto, e a mãe viva; mas por isso mesmo disse que iam com ela, e não com ele: cum ilia; porque ordinariamente o que parece que se faz aos defuntos, faz-se aos vivos. Se fora a defunta a mãe, o acompanhamento havia de ir com o filho; mas porque o defunto era o filho, o acompanhamento ia com a mãe. Por mais que sejam funerais os obséquios, aos vivos é que se fazem, e não aos mortos. Ouvis aqueles responsos de corpo presente, tão concertados e tão sentidos? Pois não se rezam aos defuntos: cantam-se aos vivos. Por isso os de Naim, no enterramento do filho da viúva, iam com ela, e não com ele. O filho era o defunto, e a mãe a acompanhada. Os da tumba levavam o morto, os do acompanhamento levava-os a viúva. Ele ia para a sepultura, e eles não iam com quem ia, iam com quem ficava.

Se isto é o que passa nas cidades pequenas, como a de Naim, que será nas grandes cortes, onde é tamanha a lisonja dos vivos como o esquecimento dos mortos? Ponhamo-nos na de Mênfis. Morreu Jacó, pai de José, no Egito, e depois morreu também José na mesma corte. Mas é digno de admiração e de pasmo o modo com que se portaram os egípcios em uma e outra morte. Na de Jacó, duraram os prantos e as exéquias setenta dias: Flevit eum populus septuaginta dies (Gên. 50, 3). E porque logo se trasladou o seu corpo para a terra de Canaã, como tinha mandado, acompanharam-no até lá todos príncipes e grandes do paço de Faraó, e todos os magistrados e senhores do Egito, com grandes tropas de cavalaria e aparato de carroças: Ierunt cum eo cuncti seniores domus Pharaonis, cunctique majores natu Aegypti; habuitque in comitatu currus et equites (Gên. 50, 7. 9). Assim foram caminhando até fora das raias do Egito, e, depois que passaram o Jordão e chegaram ao lugar do sepulcro, renovaram outra vez as exéquias por espaço de sete dias, com tantas lágrimas e extraordinários prantos, que admirados os cananeus, puseram por nome àquele sítio Planctus Aegypti: o pranto do Egito. Ubi celebrantes exequias planctu magno atque vehementi, impleverunt septem dies. Quod cum vidissent habitatores terrae Chanaan, vocatum est nomen loci illius: Planctus Aegypti (Gên. 50, 10 s). Tão sentida e tão majestosamente como isto celebraram os egípcios as exéquias de Jacó, pai de José. E quais vos parece agora que seriam as do mesmo José, quando depois morreu no mesmo Egito? De indústria referi todas as palavras com que a Escritura descreve as do pai, para que a mesma Escritura nos diga também as do filho. Ouvi com assombro o que diz: Mortuus est Joseph expletis centum et decem vitae suae annis. Et conditus aromatibus, repositus est in loculo in Aegypto (Gên. 50, 25): Morreu José de idade de cento e dez anos, e, ungido, como era costume dos hebreus, o meteram em um lugar do tamanho do seu corpo no Egito.

E não diz mais a História Sagrada, sendo estas as últimas palavras de toda a que escreveu Moisés. E que é das exéquias? Que é das lágrimas e prantos? Que é da solenidade do enterro? Que é dos aparatos fúnebres? Que é dos mausoléus e pirâmides egipcíacas? Que é do concurso da corte? Que é do acompanhamento e assistência dos tribunais, dos ministros e senhores grandes da casa de Faraó, de que José era o maior, o mais valido, o mais respeitado e adorado, e sobretudo, o mais benemérito? Nada disto diz Moisés, sendo sem dúvida que o havia de dizer, se houvera, assim como com tanta especialidade e miudeza descreveu as honras e exéquias de Jacó. Pois, se a Jacó, só por ser pai de José, sem outro merecimento ou serviço com que tivesse obrigado aos egípcios, lhe fazem na morte tão magníficas exéquias e tão esquisitas honras, e, o que é mais, acompanhadas de tantas lágrimas e prantos, como falta tudo isto na morte de José, na morte, outra vez, daquele mesmo José a quem os mesmos egípcios deram o nome de Redentor do mundo, porque ao rei tinha remido e conservado o reino, e aos vassalos primeiro tinha dado a vida, depois a fazenda, e ultimamente a liberdade? Aqui vereis quanto vai de mortos a mortos, quando concorre ou falta o respeito dos vivos. Quando morreu Jacó era vivo José, e porque era vivo o filho, e tal filho, fizeram tantas honras ao pai. Pelo contrário, quando morreu José, não deixou vivo depois de si a quem os egípcios respeitassem, ou de quem dependessem, e como não havia vivos para os obséquios, não houve exéquias para o defunto. Só se podiam desculpar os egípcios com José, dizendo que lhe faltaram com as lágrimas na morte, porque já lhas tinham dado em vida. E assim foi. Nas exéquias de Jacó, o chorado não era o pai, era o filho, porque não choravam os egípcios pelo morto: choravam para o vivo. Saíam as lágrimas dos seus olhos para que as vissem os de José, e não as exprimia a dor ou a saudade, senão a dependência e lisonja, como lágrimas de figuras pintadas, que, assim como se riem sem alegria, também choram sem tristeza.

De todo este discurso tão provado com a Escritura e tão confirmado com a experiência, se conclui sem controvérsia nem réplica, que este ato de misericórdia que temos presente é ato puramente de misericórdia e de verdade, porque é misericórdia exercitada com mortos, em quem não cabe dependência nem lisonja de vivos. Que vivo há que queira ser pai ou filho de um enforcado? É tão feio, tão infame e tão abominável o suplício da forca, que de todos estes respeitos priva e despoja aos miseráveis que nela acabam. O que hoje é a forca, era antigamente a cruz — como foi até o tempo do imperador Constantino — e falando dela São Paulo, diz: Maledictus omnis qui pendet in ligno (Gál. 3, 13): Todo o homem que acaba a vida pendurado de um pau é maldito. — Alude o Apóstolo ao capítulo vinte e um do Deuteronômio, onde a lei divina pronuncia a mesma maldição com palavras ainda de maior horror: Maledictus a Deo est, qui pendet a ligno (Dt. 21, 23): O homem que morre em um pau, não só é maldito, senão maldito de Deus. — Sentença verdadeiramente horrenda, e que só se pode entender por encarecimento da infâmia e abominação de tal gênero de morte. Eram condenados a este suplício não todos os delitos, senão os mais graves e atrozes, como o latrocínio, o homicídio, a rebelião, a blasfêmia, e não diz a lei que são malditos de Deus os ladrões, os homicidas, os sediciosos, os blasfemos, senão os que morrem pendurados de um pau: Maledictus a Deo est, qui pendet a ligno. Como se fora mais abominável a pena que a culpa, e mais mofinos e malditos os justiçados pela infâmia do suplício, que pela atrocidade dos crimes. E como esta infâmia, e maldição corre pelas veias, e se difunde e estende aos parentes, qual haverá que a queira herdar, ou ter parte nela? Esta é a razão por que os vivos destes mortos não podem ser adulados nem lisonjeados neles; envergonhados e afrontados, sim. Antes, a maior honra e graça que se pode usar com os tais, é dissimular-lhes o sangue e encobrir-lhes o parentesco. Por isso consideram alguns que, estando Cristo na Cruz, nem à Mãe chamou Mãe, nem ao primo, naquelas duas verbas do seu testamento, calando os nomes do parentesco, por lhe não publicar a afronta.

Mas quem mais altamente ponderou a verdade desta razão foi o profeta Isaías. Aquele texto: Generationem ejus, quis enarrabit[14], a que se tem dado tantos sentidos literais, se bem se atar, como deve, com a relação do que fica atrás e vai adiante, quer dizer: Quem tomará na boca sua geração, ou quem se prezará e jactará de ser da geração de Cristo? E por quê? Quia abscissus est de terra viventium: Porque foi tirado da terra dos viventes, porque foi morto violentamente. — Pois por ser morto violentamente se haviam afrontar de sua geração? Morto violentamente foi el-rei Josias, morto violentamente Abner, mortos violentamente os famosos Macabeus, Judas e Eleazaro, e nem por isso se desprezava ninguém de ser de sua geração, antes se honravam muito. Como diz logo Isaías que se haviam de afrontar os homens de ser da geração de Cristo, por ser morto violentamente? Não diz isto Isaías pela morte nem pela violência, senão pelo gênero e ignomínia dela, como já tinha declarado nas palavras antecedentes, isto é, porque havia de morrer violentamente em uma cruz, que era o mesmo que em uma forca; e parente, e da geração de um enforcado, ninguém há que o queira ser. As palavras em que o declarou o profeta são aquelas: Vidimus eum, et non erat aspectus, quasi absconditus vultus ejus[15] como aguda e eruditamente notou aquele grande expositor, a quem Espanha tem dado modernamente o título de Beda, o Venerável Padre Gaspar Sanches. Assim como cá aos nossos enforcados lhes cobrem o rosto quando os hão de lançar da forca, assim antigamente cobriam o rosto aos crucificados, não quando os pregavam na cruz, senão quando os condenavam a ela. Quando el-rei Assuero mandou crucificar a seu valido Amã, diz o texto que logo lhe cobriram o rosto: Necdum verbum de ore regis exierat, et statim operuerunt faciem ejus[16]. E quando Caifás, e os do seu conselho condenaram a Cristo, logo também lhe cobriram o rosto: Condemnaverunt eum esse reum mortis, et caeperunt quidam conspuere eum, et velare faciem ejus[17]. E isto é o que declarou Isaías, profetizando o gênero da morte de Cristo, quando disse que o viram com o rosto coberto e escondido Vidimus eum, et non erat aspectus, quasi absconditus vultus ejus. E porque tinha já dito que o gênero de morte havia de ser tão ignominioso e afrontoso, como era o da forca daquele tempo, por isso acrescentou que ninguém havia de querer ser da sua geração, não por outra causa, senão pela morte com que havia de ser tirado deste mundo: Generationem ejus quis enarrabit, quia abscissus est de terra viventium.

Assim o disse Isaías, e assim o mostrou a experiência nos que eram do sangue e geração do mesmo Cristo, como notou São Paulo: Praedicamus Christum crucifixum, Judaeis quidem scandalum, gentibus autem stultitiam (1 Cor. 1, 23): Eu prego a Cristo crucificado, assim aos judeus como aos gentios; mas, como lhes digo que foi crucificado, os judeus escandalizam-se, os gentios zombam. — Deixemos aos gentios, vamos aos judeus. Cristo era da tribo de Judá: De tribu Juda. Era filho de Davi e de Abraão: Filii David, filii Abraham. E estes mesmos pais e avós são aqueles de quem tanto se prezavam os judeus: Nos semen Abrahae sumus[18]. Sobretudo, Cristo era Filho de Deus, como ele provou aos mesmos judeus com as palavras do salmo: Dixit Dominus Domino meo: Sede a dextris meis[19], a que eles não tiveram que responder. Pois, se por todos os lados lhes estava tão bem aos judeus serem parentes de Cristo, por que o não querem, por que se afrontam dele? Em que reparam os seus brios, em que tropeça a sua honra, que isto quer dizer scandalum? Todo o escândalo em que tropeçavam era a cruz; todo o reparo e toda a repugnância era haver sido Cristo crucificado: Christum crucifixum, Judaeis scandalum. De sorte que, posta de uma parte a honra da divindade, e da outra a afronta da cruz, afrontavam-se do parentesco de Deus, só por não ser parentes de um crucificado. E como os vivos fogem e abominam tanto o ser parentes dos que tão afrontosamente morreram, por isso a obra de misericórdia que se exercita com estes mortos é livre de toda a consideração e respeito dos vivos, e como tal, sem controvérsia, misericórdia e verdade: Misericordia et veritas obviaverunt sibi.

O mesmo Davi, que nos deu o fundamento de tudo o que temos dito, no dará também a última cláusula e prova, pois não pode haver melhor intérprete do texto que o mesmo autor dele. Morreu el-rei Saul na fatal batalha dos Montes de Gelboé, morreram juntamente três filhos seus, o príncipe, e dois infantes. Ao outro dia vieram os filisteus a recolher os despojos e reconhecendo entre os mortos os corpos dos quatro príncipes, insolentes com a vitória, os enforcaram barbaramente, e os deixaram pendurados das ameias, nos muros da cidade de Betsã. Assim não valem púrpuras nem coroas contra os castigos que vêm sentenciados pelo céu, e não há desgraça nem miséria tão indigna, a que não estejam sujeitos os que nasceram homens, por mais que o tenha levantado a fortuna sobre toda a igualdade da natureza. Desta maneira estiveram expostos aos olhos do mundo aquelas quatro grandes figuras desta grande tragédia, até que movidos à piedade, os moradores de Jabes Galaad, ajudados do silêncio da noite os desceram daquele infame lugar e lhes deram sepultura. O que agora faz ao nosso ponto, é que, agradecendo Davi aos de Jabes esta obra de misericórdia, o fez com estas palavras: Benedicti vos a Domino, qui fecistis misericordiam hanc cum domino vestro Saul, et sepelistis eum. Et nunc retribuiet vobis quidem Dominus misericordiam, et veritatem (2 Rs. 2, 5 s): Muito vos louvo e agradeço, diz Davi, a obra de misericórdia que usastes com Saul, vosso antigo senhor, com lhe dardes sepultura, e também vos prometo que Deus vos pagará esta misericórdia e verdade.

No primeiro lugar chamou a esta obra misericórdia, e no segundo, chamou-lhe misericórdia e verdade. E por quê? Porque enterrar os defuntos é absolutamente obra de misericórdia; mas enterrar defuntos enforcados, como estes eram, e sem outro respeito nem dependência de vivos porque também estes se tinham acabado com Saul não só é misericórdia de qualquer modo, mas misericórdia e verdade: Et nunc retribuet vobis Dominus misericordiam et veritatem. El-rei Saul, ainda que deixou alguns filhos, assim ele como eles estavam já desertados por Deus, e ungido para a coroa Davi, como era público em todo Israel; e que, não havendo vivos a quem respeitar nem adular, tivessem aqueles mortos e enforcados quem, tirados do lugar infame, lhes desse honrada sepultura, não só foi ato de misericórdia, mas de misericórdia e verdade, e de misericórdia e verdade canonizada pelo mesmo Espírito e pelo mesmo autor do nosso texto: Retribuet vobis Dominus misericordiam et veritatem: Misericordia, et veritas obviaverunt sibi.

E para que acabemos um ato de misericórdia tão desinteressada com o maior interesse que pode esperar a misericórdia, saiba toda esta santa comunidade que neste mesmo desinteresse seu consiste o maior interesse. Não o terão com os homens, porque estes mortos não têm vivos, mas tê-lo-ão com aquele Senhor que sempre vive, e nenhumas obras mais estima e premia que as que os vivos exercitam com os mortos. Deus sempre premia misericórdia com misericórdia, que é uma das maiores excelências desta virtude: Beati misericordes, quoniam ipsi misericordiam consequentur[20]. Mas assim como esta obra tem de mais ser misericórdia e verdade, assim a premia também Deus com misericórdia e verdade: Et nunc retribuet vobis Dominus misericordiam et veritatem.

Muitas obras de misericórdia premia Deus muitas vezes com misericórdia que não é misericórdia e verdade. A misericórdia que os esmoleres exercitam com os pobres, muitas vezes a premia Deus com acrescentar a fazenda que com eles se reparte: Faeneratur Domino qui miseretur pauperi[21]. A misericórdia que os filhos exercitam com os pais, promete-lhe Deus em prêmio a larga vida: Ut sis longaevus super terram[22]. A misericórdia que os capitães exercitam com os inimigos também lhe remunera Deus com vitórias e despojos: Si reddidi retribuentibus mihi mala, decidam merito ab inimicis meis inanis[23]. Mas todas estas misericórdias com que Deus muitas vezes paga a misericórdia, não são misericórdia e verdade, porque a fazenda, a vida, as vitórias, e todas as felicidades do mundo são tão falsas e vãs como o mesmo mundo, com o qual todas acabam. Qual é logo a misericórdia e verdade com que Deus paga nesta vida? A misericórdia e verdade de que fala Davi quando diz: Et nunc retribuet vobis Dominus misericordiam et veritatem, é só a graça de Deus. Por isso Cristo se chama cheio de graça e de verdade: Plenum gratiae, et veritatis (Jo, 1, 14); porque nesta vida só a graça de Deus é verdade, e tudo o que não é graça de Deus é vaidade e mentira: mentira e vaidade as riquezas; mentira e vaidade as honras; mentira e vaidade as que tão falsamente se chamam delícias; enfim, tudo o que este mundo preza, ama e busca, mentira e vaidade: Ut quid diligitis vanitatem, et quaeritis mendacium[24]. Oh! se bem acabássemos hoje de entender esta verdade, que grande misericórdia de Deus seria! E como nesta vida só a graça de Deus é verdade, esta é também a verdade e misericórdia, com que Deus paga nesta vida, a misericórdia que juntamente é verdade. Isso quer dizer: Et nunc: agora, e nesta vida, retribuet vobis Dominus misericordiam et veritatem.

Mas porque Deus nos não fez só para vivermos neste mundo que acaba, senão também no outro, que há de durar para sempre, sabei por última conclusão que assim como Deus paga a misericórdia e verdade nesta vida com a verdade desta vida, assim a há de pagar também na outra vida, com a verdade da outra. E qual é a verdade da outra vida? É a glória que responde à graça. Neste mundo, que é a terra da mentira, a única verdade é a graça; no outro mundo, que é a terra da verdade, toda a verdade é a glória. E assim como Deus nesta vida paga a misericórdia e verdade com a graça, que é a verdade desta vida, assim na outra vida a há de pagar igualmente com a glória, que é a verdade da outra. Assim o tem prometido o mesmo Deus, e não por outra boca, senão pela do mesmo Davi, que nos ensinou e exortou a ajuntar a misericórdia e a verdade: Misericordiam et veritatem diligit Deus, gratiam et gloriam dabit Dominus: Porque Deus ama a misericórdia e verdade, a todos os que ajuntarem a misericórdia com a verdade dará Deus nesta vida a graça, e na outra a glória.

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[1] A misericórdia e a verdade se encontraram; a justiça e a paz se deram ósculo (Sl. 84, 11).
[2] E disse isto, não porque ele tivesse cuidado dos pobres, mas porque era ladrão, sendo o que trazia a bolsa (Jo. 12, 6).
[3] Conheço que tu és uma mulher formosa; e eles se houveram bem com Abraão, por amor dela (Gen. 12, 11.16)
[4] A misericórdia e a verdade irão diante da tua face (Sl. 88, 15).
— Senhor, a tua misericórdia está no céu, e tua verdade até as nuvens (Sl. 35, 6).
[5] Deus ama a misericórdia e a verdade (Sl. 83, 12).
Todos os caminhos do Senhor são misericórdia e verdade (Sl. 24, 10).
[6] Louvai todas as gentes ao Senhor, louvai-o todos os povos, porque sobre nós foi confirmada a sua misericórdia, e a verdade do Senhor permanece eternamente (Sl 116, 1 s). Não a nós, Senhor, não a nós, mas a teu nome dá glória (Sl 114, 1); sobre a tua misericórdia e a tua verdade (Sl 137, 2).
[7] Sobre a tua misericórdia e a tua verdade, porque engrandeceste sobre tudo o teu santo nome (Sl. 137, 2).
[8] Para que ao nome de Jesus se dobre todo o joelho (Flp. 2, 10).
[9] No que fez, me fez uma obra boa (Mt. 26, 10).
[10] Derramar ela este bálsamo sobre o meu corpo, foi ungir-me para ser enterrado (Mt. 26, 12).
[11] Embalsamou antecipadamente o meu corpo (Mc. 14, 8)
[12] Por ti me encho de mágoa, meu irmão Jônatas, o mais gentil, e o mais amável sobre as mais amáveis mulheres. Eu te amava bem como uma mãe ama a seu filho único (2 Rs. 1, 26).
[13] Na Vulgata: Et turba civitatis multa cum illa. — Eis que levavam um defunto a sepultar, filho único de sua mãe, que já era viúva; e vinha com ela muita gente da cidade (Lc. 7, 12).
[14] Quem contará a sua geração (Is. 53, 8)?
[15] Vimo-lo, e não tinha parecença do que era, e o seu rosto se achava como encoberto (Is. 53, 2 s).
[16] Ainda não havia saído da boca do rei esta palavra, quando logo lhe cobriram a cara (Est. 7, 8).
[17] A sentença que deram foi que era réu de morte. Então começaram alguns a cuspir nele, e a tapar-lhe o rosto (Mc, 14, 64s)
[18] Nós somos descendentes de Abraão (Jo. 8, 33. 39).
[19] Disse o Senhor ao meu Senhor: Senta-te à minha mão direita (Sl. 109, 1).
[20] Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia (Mt. 5, 7).
[21] O que se compadece do pobre dá o seu dinheiro a juro ao Senhor (Prov. 19, 17).
[22] Para teres uma dilatada vida sobre a terra (Êx. 20, 12).
[23] Se paguei com mal aos que mo faziam, caia eu com razão debaixo de meus inimigos, sem esperança (Sl. 7, 5).
[24] Por que amais a vaidade e buscais a mentira (Sl. 4, 3)?

Fonte: https://www.literaturabrasileira.ufsc.br/documentos/?action=download&id=49773