Sermão do evangelista São Lucas

SERMÃO DO EVANGELISTA S. LUCAS

Padroeiro dos Médicos, na sua festa.


Curate infirmos, et dicite illis: Appropinquavit in vos regnum Dei[1].

I – Os três dedos de Deus e os três dedos do evangelista S. Lucas. A SS. Trindade, e a trindade de S. Lucas. Argumento do sermão: a idéia e o original do perfeito médico no Evangelho do dia.

Com três dedos, diz o profeta Isaías, que sustenta Deus todo o peso e máquina deste mundo: Appendit tribus digitis molem terrae[2]. — E abaixo destes três dedos, em que a glosa do mesmo texto reconhece as três pessoas divinas, não há outros tão maravilhosos como os da mão de S. Lucas, também três, e três vezes admiráveis? Foi S. Lucas evangelista, foi pintor, foi médico. Admirável quando com três dedos tomava a pena como evangelista; admirável, quando com três dedos tomava o pincel como pintor; admirável, quando com três dedos tomava o pulso como médico.

De Hermes, aquele famoso atleta do anfiteatro romano, famoso na espada, famoso na lança, famoso no tridente, disse com elegante encarecimento o poeta gentio: Hermes omnia solus, et ter unus[3]: Hermes é três vezes um, e tudo ele só. — Este elogio, se Roma já então fora cristã, pudera ela aplicar com maior propriedade, não ao seu fabuloso Júpiter, senão ao verdadeiro Deus trino e um. Ele só é tudo: omnia solus; e ele só é três vezes um e o mesmo: et ter unus.

Homem foi S. Lucas; mas tão grande homem, que esta é já a segunda vez que se nos equivoca não com menos pessoa, ou pessoas, que com as três divinas. Foi S. Lucas três vezes um: ter unos: uma vez um, como evangelista; outra vez um, como pintor; e a terceira vez um, como médico. Um, como Mateus ou João; um, como Apeles ou Zêuxis; um, como Esculápio ou Hipócrates. Tudo isto foi S. Lucas só: omnia solus. Mas como? Não com tudo o que ele era, nem com duas mãos, como Hermes, nem com uma só mão, senão com três dedos somente dela. Ó quão grande, ó quão vária, ó quão formosa e agradável matéria nos ofereciam hoje estes três dedos, dividida já em outros tantos discursos, se o tempo nos dera lugar para ver separadamente o que a natureza, a arte e a graça organizou e uniu naquelas extremidades, e não todas, de tão prodigiosa mão? Mas porque a presente solenidade toda se dedica e consagra ao mesmo santo enquanto protetor e protótipo da ciência médica, para que também concorra a ela, do modo que pode ser, enquanto evangelista e enquanto pintor, na primeira parte do discurso, enquanto evangelista, nos descreverá em si e no Evangelho a idéia e original do perfeito médico; e na segunda parte, enquanto pintor, nos retratará do mesmo original as cópias, para que o possam ser, por imitação, todos os professores da mesma faculdade. Desta sorte será o dia e a celebridade toda de S. Lucas, e toda dos devotos que a celebram. Ave Maria.

II – Os apóstolos, e a salvação da vida temporal e espiritual do mundo. Discordância entre o tema e o assunto. A virtude sobrenatural, com que os apóstolos e discípulos de Cristo curavam as enfermidades milagrosamente, e a ciência da medicina, com que os médicos curam naturalmente, e sem milagre. A medicina natural nas curas dos apóstolos. Por que não disse o Senhor sanate, senão curate? Os remédios naturais nas curas da Escritura Sagrada.

Curate infirmos, et dicite illis: Appropinquavit in vos regnum Dei[4].

Uma das maiores maravilhas da providência e sabedoria divina, ou, por falar mais ao certo, a maior de todas, foi conquistar e sujeitar Cristo o mundo com tão poucos homens, tirados pela maior parte da barca e do remo. — De pescadores de peixes vos farei — disse — pescadores de homens. — Mas de que modo, ou com que artifício? Trocando-lhes os instrumentos, de tal sorte que, assim como no mar pescavam os peixes, matando-os, assim na terra pescassem os homens com lhes dar a vida, Este cevo da vida, que é o mais saboroso, o mais útil, e o mais precioso na estimação de todos os mortais, é o que voluntária e espontaneamente os rendeu todos à obediência de Cristo, e ao jugo, só por isso mais suave, da sua lei. Os homens só conheciam por experiência uma vida, que é a temporal, e a outra, que é a imortal e eterna, só a tinham os mais repúblicos por necessária politicamente a opinião do vulgo, mas verdadeiramente por falsa e fabulosa.

Assim o ensinava Sêneca, assim o pregava Túlio, e os outros que em Roma tinham nome de sábios. E que fez a sabedoria divina e humana do Senhor e Redentor do mundo? Mandou por todo ele os pregadores da sua fé, armados de dois poderes sobre ambas as vidas: o primeiro, para conservar e estender a temporal; o segundo, para prometer e segurar a eterna. Isto é o que contêm expressamente as palavras que tomei por tema: Curate infirmos, et dicite illis: Appropinquavit in vos regnum Dei: Curai os enfermos, e dizei-lhes que é chegado o tempo em que se hão de abrir as portas do céu, que até agora estiveram fechadas. — Na cura dos enfermos milagrosa se continha o poder de conservar e estender a vida temporal: Curate infirmos — e na promessa do reino do céu, confirmada com os mesmos milagres, se assegurava a imortal e eterna: Appropinquavit in vos regnum Dei.

Mas daqui nasce uma grande dificuldade ao que havemos de dizer, e é que a mesma propriedade que nos introduziu o tema, parece que nos exclui o assunto. Porque o tema fala da virtude sobrenatural, com que os apóstolos e discípulos de Cristo curavam as enfermidades milagrosamente, e o nosso assunto supõe, e há de falar da ciência da medicina, com que os médicos curam naturalmente, e sem milagre; logo, não assenta bem o assunto sobre o tema, que é o mesmo que tirar os alicerces ao edifício[5]. Respondo que o tema não só fala da medicina sobrenatural, senão também da natural, e que os apóstolos, assim como nem sempre falavam pelas línguas do Espírito Santo, senão também pela própria, assim nem sempre curavam sobrenatural e milagrosamente, senão por si, ou por outros, pelos meios e remédios da natureza e da arte. Provo com o exemplo dos dois maiores apóstolos, S. Pedro e S. Paulo.

Da sogra de S. Pedro diz o mesmo evangelista S. Lucas que jazia com grandes febres, sem se poder levantar de uma cama: Socrus autem Simonis tenebatur magnis febribus (Lc. 4, 38). — E assim como é admirável moderação do príncipe dos apóstolos que a não sarasse milagrosamente, como podia, aplicando-lhe os remédios do céu, assim é certo da sua caridade, que lhe não negava os naturais e da terra. E S. Paulo, não menos poderoso, na primeira Epístola que escreveu a seu discípulo Timóteo, lhe mandou a receita com que naturalmente se havia de curar das suas freqüentes enfermidades: Noli adhuc aquam bibere, sed modico vino utere propter stomachum tuum, et frequentes tuas infirmitates[6]. — Pois, se S. Pedro, passando pelas ruas, sarava os enfermos estranhos, bastando só que os tocasse com a sua sombra, a enferma que tinha dentro de casa, tocando-lhe tão de perto no parentesco, por que a não sarava? E S. Paulo, que tanto adoecia das enfermidades alheias, como os doentes das próprias: Quis infirmatur, et ego non infirmor[7] — se dentro na mesma carta podia mandar a Timóteo a saúde, por que lhe manda a receita para o remédio? Quanto à sogra de S. Pedro, dizia eu noutra ocasião, que ainda em prudência econômica e política se podia deixar esta enferma só por ser sogra. Uma sogra talvez é melhor estar doente que sã, porque doente, a mesma doença a tem quieta a um canto da casa; e sã, rara é a que não se contente com menos que com todos os quatro cantos dela. A mesma palavra tenebatur, parece que diz que a doença a tinha ali atada. Mas agora digo, que a deixava S. Pedro estar assim, para que ela exercitasse a paciência, e ele a caridade. E, com o mesmo zelo, S. Paulo não quis livrar a Timóteo das suas enfermidades, posto que freqüentes, porque, ainda que na saúde teria mais livres as ações para servir à Igreja, na enfermidade tinha mais seguras as ocasiões em que aperfeiçoar a virtude: Nam virtus in infirmitate perficitur[8] — diz o mesmo S. Paulo.

Pelo que toca, porém, ao nosso caso, ou as razões dos dois apóstolos fossem estas, ou quaisquer outras, o que a mim me serve dos exemplos referidos, é a certeza do mesmo fato, do qual se prova que os apóstolos e discípulos de Cristo, na cura das enfermidades, não só usavam da virtude sobrenatural e milagrosa, mas também se ajudavam da medicina natural e humana, que é a própria do nosso assunto. Nem as palavras do tema dizem o contrário, antes confirmam o mesmo. E se não, pergunto: As palavras do tema dizem: Curate infirmos. E por que não disse o Senhor, cujas elas são, sanate, senão curate? Por que não disse sarai, senão curai? Porque o sarar, que tem por efeito passar de repente da enfermidade à saúde, é só de virtude sobrenatural e milagrosa; por isso, dos que tocavam o corpo, ou vestiduras de Cristo, não se diz que os curava a sua virtude, senão que os sarava: Quia virtus de illo exibat, et sanabat omnes[9]. — Porém, a palavra curate, segundo a sua mesma etimologia, mais propriamente significa a saúde que se alcança, não súbita e imediatamente, senão por meio da virtude natural dos medicamentos, e assim usa da mesma palavra a Sagrada Escritura.

Adoeceu mortalmente el-rei Ezequias, e, depois que o mesmo profeta que lhe tinha denunciado a morte lhe aplicou à parte lesa a massa dos figos: Afferte massam ficorum[10] — então diz o texto que foi curado: Quam cum posuissent super ulcus ejus, curatus est[11]. — E S. Rafael, quando mandou a Tobias, o moço, que com o fel do peixe que tinha tomado no caminho, ungisse os olhos de seu pai, e ele com este remédio cobrou a vista, também o declarou, sendo anjo, com o mesmo verbo de curar: Et nunc misit me Dominus ut curarem te[12]. — Finalmente, Isaías, que foi de todos os profetas o que mais própria e elegantemente soube falar, onde diz vulnus, et livor, et plaga tumens, non est circumligata, nec curata medicamine, neque fota oleo[13] — expressamente ajuntou o medicamento com o curar, e o curar com o medicamento. E se os dois principais discípulos da primeira e segunda escola de Cristo assim entenderam e praticaram o curate infirmos do Evangelho, quanto mais o mesmo S. Lucas, que o escreveu, sendo médico de profissão, e tão amado e estimado médico, como diz S. Paulo: Lucas medicus charissimus (Col. 4, 14)?

III – Assim como Deus no Paraíso criou a árvore da vida, antes do pecado de Adão, assim, depois do pecado, criou fora do Paraíso a medicina. O médico e o querubim do Paraíso. De que, e em que terra criou Deus a árvore da medicina. A descrição ou pintura da segunda árvore da vida.

Assentado, assim, o fundamento do nosso assunto, para que nem ele, nem o escrúpulo de algum ouvinte tenha em que tropeçar, tomando toda a matéria em sua primeira fonte, formou Deus o corpo humano com suas próprias mãos, de barro, e logo, com o alento de sua própria respiração — para que todo, e de todos os modos fosse seu — lhe deu a vida. Mas como esta consiste na conservação do cálido e úmido, que sempre se fazem guerra, e por isso naturalmente se havia de ir enfraquecendo, e mais tendo as raízes no mesmo barro, para reparo desta fraqueza tinha o soberano Autor da mesma vida plantado no meio do Paraíso uma árvore de tal virtude, que, comido o fruto dela, lhe restituísse o vigor perdido, e a repusesse outra vez nas suas primeiras forças. Estes foram os princípios da nossa vida, e os remédios que Deus lhe tinha prevenido, não só para a conservação, senão para a perpetuidade de anos e séculos. Mas, como pelo apetite de Eva e desobediência de Adão, e pelo pecado de ambos, foram lançados do Paraíso, para que comendo da árvore da vida, a não pudessem perpetuar, às portas do mesmo Paraíso pôs Deus em guarda dela um querubim armado com uma espada de fogo, com a qual lhe defendesse a entrada. Desta maneira toda aquela felicidade se converteu em miséria, e à vida que havia de ser quase imortal, sucedeu a sentença de morte, ao vigor do corpo a fraqueza, à saúde as enfermidades e tudo sem remédio nem esperança dele, impedido formidavelmente o acesso da árvore vital com as primeiras armas de fogo que houve no mundo, e não meneadas por mãos ou braços humanos, senão por impulsos e forças insuperáveis, quais são as angélicas.

Que faria, porém, no estado desta desesperação, a misericórdia daquele Senhor, tão prezada sempre de se exaltar gloriosa sobre as execuções da sua mesma justiça? Dai-me agora grande atenção ao que hei de dizer. O que fez Deus, foi plantar fora do Paraíso outra árvore da vida, e entregar a guarda dela a outro querubim, não armado de fogo, senão de luz, o qual, não só defendesse, mas cultivasse a mesma árvore, e com os seus frutos recuperasse aos homens a saúde, e lhes acrescentasse a vida. E que árvore, e que querubim foram estas? A árvore foi a ciência da medicina, e o querubim é o médico, Não é isto invento ou consideração minha, senão verdade de fé, e texto expresso da Sagrada Escritura. Altissimus creavit de terra medicinam[14]: O Altíssimo criou da terra a medicina: eis aqui a árvore. — Honora medicum propter necessitatem; etenim illum creavit Altissimus (Eclo. 38, 1): Honrai o médico por amor da necessidade, porque o Altíssimo o criou a ele: eis aqui o querubim.

De sorte que, assim como Deus no Paraíso criou a árvore da vida antes do pecado de Adão, assim depois do pecado criou fora do Paraíso a Medicina: Altissimus de terra creavit medicinam. — E assim como Deus entregou a guarda e defensa da árvore da vida a um querubim, assim entregou a guarda e cultura da Medicina ao médico: Etenim medicum creavit Altissimus. — E a razão destas duas criações, que depois da criação do mundo fez o Altíssimo, repetindo em uma e outra a mesma palavra creavit, foi, como acrescenta o mesmo texto, da parte de Deus, porque toda a medicina é obra sua: A Deo est enim omnis medela[15] — e da parte do homem, porque todo o homem prudente não deve recusar os medicamentos: Et vir prudens non abhorrebit illa[16]. — Vamos agora por partes.

Altissimus de terra creavit medicinam: Deus criou da terra a Medicina: — Mas de que terra, ou em que terra? Assim como a primeira árvore da vida foi criada no meio do Paraíso: Lignum vitae in medio Paradisi (Gên. 2, 9) — assim a terra, de que Deus e onde Deus criou a segunda, foi o meio da redondeza da mesma terra. A prova e a razão é porque em todas as quatro partes do mundo criou Deus, para serviço e uso da Medicina, vários antídotos ou instrumentos medicinais, conforme as qualidades e enfermidades das mesmas terras. Os romanos, nas suas conquistas, queixavam-se de que entre as novas riquezas que de lá traziam, vinham também os contágios de novos gêneros de doenças, com que parece que os conquistados se vingavam dos seus mortos, matando também dentro em Roma os seus mesmos conquistadores. Nem é alheio deste pensamento o com que, sendo el-rei D. Manoel o fundador dos hospitais de Lisboa, se dizia dele, que justamente fabricava os hospitais, quem com as suas conquistas acrescentara os enfermos. Mas nesta mesma experiência se vê e reconhece mais claramente o altíssimo conselho da providência divina, pois são muitos mais os novos e esquisitos remédios, que das mesmas conquistas se descobriram, ainda contra as antigas enfermidades, do que requerem as novas.

Plantada, pois, no meio das quatro partes do mundo a segunda árvore da vida, ela, com as suas raízes, penetra até o centro da terra, donde com maior utilidade que a cobiça, desenterra todo o gênero dos minerais, de tanto mais poderosas virtudes quanto mais simples. De lá cava, não só o ouro e a prata morta e viva, senão também o ferro, para os casos extremos; de lá tira as esmeraldas, os rubis, os jacintos, e todas as outras pedras preciosas, de que a branda medicina se serve e se coroa, tão diferentes na eficácia, como nas cores, e tanto de maior valor quando líquidas as bebe a saúde, que quando sólidas se engastam nas jóias. Regam estas raízes os rios e fontes, umas quentes, outras frias, todas saudáveis. E as mesmas águas do mar, posto que salgadas, as não fertilizam nem enriquecem menos, fecundas e abundantes dos remédios, que, ou nadam nos ossos e entranhas dos peixes, ou moram e se encerram nas conchas dos que não podem nadar.

Dos lodos mais profundos recebe o tributo das pérolas e aljôfares; das areias limosas, o misterioso coral, que primeiro é vime verde e branco, e logo pedra vermelha e dura; até da fúria das tempestades, ou da fome das baleias, os sobejos odoríferos do âmbar, que estas arrancam, e aquelas lançam às praias. De raízes assim regadas, cresce e se engrossa o tronco de toda a famosa árvore, formado de todos os lenhos medicinais que criam os vizinhos e remotos climas, dos quais, ou abertos os poros com o calor do sol, se destilam em suores, ou feridos mais interiormente nas veias, correm como sangue os bálsamos e as mirras, e estas, pelo parentesco que têm de humores, ou restringindo, ou relaxando — como no instrumento as cordas — os reduzem facilmente à natural harmonia.

Daquela árvore que viu em sonhos Nabucodonosor, depois de referir Daniel que estava plantada no meio da terra, e se estendia até os últimos fins do mundo, como nós dissemos da nossa, acrescenta o mesmo profeta que debaixo dela habitavam todos os animais, e nos seus ramos conversavam todas as aves: Subter eam habitabant animalia et bestiae, et in ramis ejus conversabantur volucres caeli (Dan. 4, 9). — E é sem dúvida que da segunda árvore da vida, não em aparências sonhadas, mas com experiências muito certas, se verifica com toda a propriedade o mesmo, porque de todos os autores da história natural, que escreveram, assim dos animais terrestres, mansos e feros, como das aves domésticas e de rapina, consta que de uns e outros, sem exceção, tirou a medicina diversos gêneros de remédios, e até da víbora, a mais venenosa de todas as serpentes, formou a triaga. E o que nesta parte mais se deve admirar e venerar — porque onde não há docilidade não pode haver ciência — é que a mesma ciência da Medicina se deixou ensinar, e não se envergonhou de aprender dos mesmos brutos, aprendendo do veado, entre os animais, o medicamento do dictamo, e da andorinha, entre as aves, o da quelidônia. Tanto assim que, prezando-se os egípcios de inventores desta grande arte, o geroglífico com que pintaram a Medicina foi uma pomba com um ramo de louro na boca, por ser o louro o remédio com que esta ave, por instinto da natureza, se cura.

Das folhas da nossa árvore não posso dizer mais nem devo dizer menos, que o que doutra árvore da vida disse S. João no seu Apocalipse: Lignum vitae, et folia ligni ad sanitatem gentium[17] — aludindo e conformando-se com Ezequiel, que ainda o disse com mais breves palavras: Folia ejus ad medicinam[18]. — A primeira árvore da vida tinha a virtude de conservar no fruto, que por isso disse Deus quando a vedou: Ne comedas[19]. — E se a segunda tem a saúde e a medicina nas folhas, que folhas posso eu dizer ou interpretar que são estas da medicina, senão as inumeráveis de tantos livros, que dela se tem escrito, nos quais não há folha alguma que não contenha algum remédio para a saúde do homem: Folia ejus ad sanitatem gentium[20]? — Finalmente, acabando com as flores e com os frutos, conforme os aforismos do maior médico do mundo, que foi Salomão, flores e frutos pediu a sua esposa que lhe aplicassem: Fulcite me floribus, stipate me malis[21]. — E é certo que com estes dois simples sarou e tornou em si, sendo o acidente tão perigoso como um delíquio e desmaio mortal, causado daquela febre, que, nascendo do coração, não é calor que se difunde por todo o corpo, mas que abrasa toda a alma, e a derrete: Quia amore langueo[22].

IV – Lucas, enquanto médico, querubim da segunda árvore da vida. Por que é necessário que o médico seja mais que homem, e passe a ser querubim? A vantagem de S. Lucas sobre os outros evangelistas na visão enigmática do carro de Ezequiel.

Assim descrita, ou mal pintada a segunda árvore da vida, que é a medicina, tomara eu agora o pincel de S. Lucas para pintar o querubim, que é o médico. Mas quando chegarmos às cópias do original, que é o mesmo S. Lucas, se o não delinearmos com as cores do seu pincel como pintor, descrevê-lo-emos com a verdade da sua pena como evangelista, Disse que a guarda desta segunda árvore da vida era também outro segundo querubim, não armado de fogo para a defender, senão de luz para a comunicar. E por que não pareça encarecimento ou atrevimento chamar ao médico querubim, a razão e merecimento deste nome é porque querubim quer dizer plenitudo scientiae: a enchente das ciências. Cada uma das outras faculdades é uma ciência; a faculdade e ciência do médico é um ajuntamento de todas, e por isso entre os homens como o querubim entre os anjos.

O autor da vida do homem, em sua criação, foi só Deus, mas o autor da conservação da mesma vida é Deus e o médico: de Deus dependente in fieri; de Deus, e do médico, in conservari. E como a vida do homem, e sua conservação, é o objeto do médico, já se vê qual deve ser a sua ciência. Davi, falando com Deus, dizia: Tu formasti me, et posuisti super me manum tuam. Mirabilis facta est scientia tua ex me (Sl. 138, 5 s): Vós, Senhor, me formastes com vossas mãos, e é admirável em vós a ciência que tendes de mim. — O homem chama-se mundo pequeno, e S. Gregório Nazianzeno diz que o pequeno é o mundo, e o homem o grande, porque mais dificultosamente se pode compreender o que há dentro nele. Tertuliano refere de certo médico, que fez anatomia em seiscentos mortos, e não acabou de entender a fábrica do corpo humano. E se a ciência e conhecimento deste labirinto é admirável no supremo Arquiteto que o fabricou: Mirabilis scientia tua ex me — quanto mais admirável será em quem há de curar, e não pode sem o entender? O médico não só há de conhecer a compleição de um homem, senão de todos os homens e de todas as nações, cujos temperamentos são tão diversos como as cores. E do mesmo modo há de conhecer as qualidades, não só de uma terra, senão de todas as terras, nem de uma só água, senão de todas as águas, nem de um só ar, senão de todos os ares e todos os climas.

Não só há de fazer juízo da enfermidade pelo que vê no enfermo, mas há de tomar o pulso ao sol, à lua e às estrelas, observando suas conjunções, fugindo, ou aproveitando-se de suas influências, e não só contando os dias críticos, mas vigiando sobre as horas e sobre os momentos, porque o mesmo medicamento aplicado a seu tempo é antídoto, e fora dele veneno. Os antigos, que tinham por deus da medicina a Esculápio, consagraram-lhe e galo e a serpente; a serpente, pela astúcia e prudência; o galo, pela vigilância. Mas que vigilância é necessária, e pode ser bastante, não digo já para as enfermidades, senão para os mesmos remédios? O mitridático, inventado por Mitrídates, compõe-se de cinqüenta e quatro ingredientes; a triaga, inventada por Andrômaco, compõe-se de noventa; e cada um destes simples há de entrar e fazer composição, regulado por certo peso e por certa medida. Mas que vaso haverá tão ajustado que os possa medir, e que balança tão sutil que os possa pesar, e, sobretudo, que mão humana tão igual que os possa temperar e unir? Por isso é necessário que o médico seja mais que homem, e passe a ser querubim.

Parece demasiado encarecer, mas a evidência da demonstração tirará toda a dúvida ao espanto. E, se não basta por prova do nome de querubim a etimologia e definição do mesmo nome: Plenitudo scientiae — nem basta o concurso universal de todas as ciências, que no perfeito médico se ajuntam, nem menos, como acabamos de ver, o conhecimento de todas as coisas criadas, quantas imensamente abraça e compreende em si o mesmo universo, se tudo isto, como digo, não basta para prova, bastará a autoridade divina, que não só o ensinou assim de palavra, mas visivelmente mostrou ao profeta Ezequiel o famoso exemplar do perfeito médico e do protetor de todos, S. Lucas. E em que forma, ou em que figura? Em forma e figura natural de querubim, e não por outro título ou ciência, senão pela da medicina. É texto ao intento mais milagroso que admirável, e como tal se deve ouvir e ver com a atenção dos sentidos muito abertos.

Duas vezes viu Ezequiel aquela famosa carroça chamada da glória de Deus, pela qual tiravam quatro animais enigmáticos, com outras tantas figuras, de homem, de leão, de águia, de boi. A primeira vista, ou visão, refere o profeta no primeiro capítulo, e a segunda no décimo; mas nesta com uma notável mudança, porque o mesmo que na primeira era boi, agora era querubim. — Similitudo vultus eorum, facies hominis et facies leonis a dextris ipsorum quatuor, facies autem bovis a sinistris ipsorum quatuor, et facies aquilae desuper ipsorum quatuor[23]. — Este é o texto da primeira visão; o da segunda diz: Facies una, facies cherub; et facies secunda, facies hominis; et in tertio facies leonis, et in quarto facies aquilae[24]. — De maneira que o mesmo que na primeira visão era boi — facies bovis — agora era querubim — facies cherub; e o que na primeira estava à mão esquerda, no pior lugar: facies bovis, a sinistris ipsorum quatuor — agora estava no primeiro: facies una, facies cherub; facies secunda, etc. — E para que não faça dúvida que os animais nesta segunda visão eram os mesmos que na primeira, o mesmo profeta o ratifica: Et similitudo vultuum eorum, ipsi vultus quos videram juxta fluvium Chobar[25].

Pois, se o boi na primeira visão tinha o pior lugar, como agora tem o primeiro? E se na primeira era boi, como agora é querubim? Nenhum cristão há que ignore serem significados nestas quatro figuras enigmáticas do carro de Ezequiel os quatro evangelistas. O homem significava a S. Mateus, o leão a S. Marcos, a águia a S. João, o boi a S. Lucas. E daqui se seguem duas coisas, ambas certas: a primeira, que S. Lucas foi o evangelista acrescentado a querubim; a segunda, que este acrescentamento foi em gênero de ciência, não só pela significação do nome, senão pela vantagem com que o querubim excede no saber, não só ao leão e à águia, senão também ao homem, e por isso se lhe deu o primeiro lugar entre todos quatro. Mas daqui resulta outra dificuldade maior, porque os evangelistas todos foram iguais na ciência sobrenatural e divina, com que escreveram; e se algum excedeu nela, foi S. João. Porém, o mesmo texto desfaz estes embargos, com novo mistério e novo grande reparo, porque na primeira visão, em que o boi ainda não tinha passado a querubim, diz que a águia voava sobre todos: Et facies aquilae desuper ipsorum quatuor — porém, depois que o boi foi querubim, abateu a águia as asas, e ficou como cada um dos outros dois: In tertio facies leonis, et in quarto facies aquilae: — Pois, se a vantagem de S. Lucas era em ciência, em que ciência foi? Já tenho dito, e torno a dizer, que na da Medicina.

Na ciência de evangelista e de escritor canônico, comum a todos quatro, era como os outros três; mas na medicina era singular entre eles, porque só ele era médico, e os outros não, e nesta ciência consistiu a vantagem. Há autor que o diga? Nenhum; pois eu o digo, eu o provarei, e do mesmo texto. Notai. Antes de o boi ser querubim, era o mais humilde de todos os quatro animais, porque do boi é trabalhar e servir, e os outros três todos eram e são reis: o homem rei do mundo, o leão rei dos animais, a águia rei das aves; logo, se o boi, feito querubim, se avantajou aos outros pela ciência, segue-se que não podia ser por outra, senão pela medicina. Por quê? Porque entre todas as ciências só a medicina tem sujeitos e debaixo de seu império aos reis. Admiravelmente Plínio, e mais sendo pouco afeto aos médicos: Medicina una artium imperatoribus quoque imperat[26]: Entre todas as artes e ciências, só a medicina impera aos imperadores — porque assim como todos obedecem ao imperador e ao rei, assim os imperadores e os reis obedecem ao médico; logo, se o boi, depois de ser querubim, passou do último lugar em que estava, ao primeiro, e ficou superior ao rei dos animais, ao rei das aves, e ao rei do mundo, ainda que o querubim tenha todas as ciências, plenitudo scientiae — não podia ser por outra, senão pela medicina: Medicina una artium imperatoribus quoque imperat.

V – Lucas, querubim, não de fogo, mas de luz. O testemunho de seu nome na Epístola aos Colossenses e na Epístola aos Romanos. O próprio e natural retrato de S. Lucas nas visões de Daniel e de S. João. O infalível sucesso da voz de S. Lucas.

Já temos a S. Lucas, enquanto médico, querubim da segunda árvore da vida, a medicina. E para prova de que era querubim, não armado de fogo, como o do Paraíso, senão vestido de luz, como eu prometi, o seu mesmo nome seja o primeiro testemunho. Na Epístola aos Colossenses, falando S. Paulo em S. Lucas, chama-lhe Lucas: Salutat vos Lucas medicus[27]; e na Epístola aos Romanos, chama-lhe Lucius: Salutat vos Timotheus, et Lucius, adjutor meus[28]. — Aqui se deve muito notar o princípio e fim destes dois nomes, no princípio tão semelhantes, e no fim tão diferentes. E por que tão diferentes no fim, e no princípio tão semelhantes? No fim tão diferentes, porque na Epístola aos Colossenses falava S. Paulo com os gregos, e na Epístola aos Romanos falava com os latinos; e no nome Lucas observou a terminação grega, e no nome Lucius a terminação latina. Pelo contrário, no princípio dos mesmos nomes nenhuma coisa alterou da sua natural semelhança, porque em ambas seguiu a propriedade da derivação, na qual assim Lucas, como Lucius, um e outro nome se deriva de luz.

Mas, passando do nome à pessoa, e dos ouvidos aos olhos, vejamos ao mesmo Lucas e ao mesmo Lúcio no seu próprio e natural retrato. O profeta Daniel nas suas visões, e S. João Evangelista nas suas, descrevem um homem todo, não só vestido, mas composto de luzes. O rosto era como o sol, quando mais resplandecente: Facies ejus sicut sol lucet in virtute sua[29]; os olhos como duas alâmpadas: Oculi ejus ut lampas ordens (Dan. 10, 6): os braços e o resto do corpo, até os pés, como de auricalco — metal semelhante ao ouro — quando sai da fornalha ardente: Similis aurichalco, in camino ardenti (Apc. 1, 15); e a sua voz, como voz, não de um homem, senão de muitos: Vox sermonum ejus ut vox multitudinis (Dan. 10, 6). — Até aqui ambos os profetas, um como pintura original, outro como cópia. Mas quem eram, ou a quem representava esta figura toda luz, ou toda luzes? S. Jerônimo diz que representava a S. Lucas: Beatus Lucas, de quo dici potest: Facies ejus sicut sol lucet in virtute sua[30]. — Da virtude do sol, diz Malaquias que traz a saúde nas penas, chamando penas aos raios da sua luz: Sanitas in penis ejus (Mal. 4, 2). — Tais eram os raios da luz e ciência médica de S. Lucas. Quando as penas da sua mão escreviam receitas, não receitavam medicamentos, receitavam saúdes.

Isto faziam os seus três dedos com a pena. E a sua voz com as palavras, que fazia? Esta é a última e maior maravilha. Não mudo, como costumam ser os outros: Vox sermonum ejus ut vox multitudinis — a voz das suas palavras, era como a voz da multidão. A multidão, nos casos da medicina, não está bem acreditada: Turba medicorum Caesarem perdidit — disse Menandro: A multidão dos médicos matou ao César. — E o imperador Adriano, experimentando em si a verdade deste dito, dizem que o mandou escrever por epitáfio na sua sepultura. Nem foi menor a observação de Marcial, o qual, visitado do médico Símaco, com toda a multidão dos discípulos que levava consigo à prática, ao uso de Roma, em um achaque leve, disse jocosamente:

Centum me tetigere manus aquilone gelatae;
Non habui febrem, Symmache, nunc habeo[31].

Para sentenciar com justiça as enfermidades, ou sem perigo os enfermos, as juntas não hão de ser de muitos médicos, senão de muita ciência em um só médico. Assim o entendeu o grande juízo de Homero, quando disse:

Vir medicus par est multorum millibus unus[32].

E, verdadeiramente, tão grande atrevimento é nos que curam como nos que se deixam curar, que, sendo as enfermidades sem número, as haja de conhecer e remediar um só homem. Os egípcios com esta consideração, como refere Plutarco, com tal igualdade e proporção repartiram ou distribuíram as enfermidades e os médicos, que um médico não pudesse curar mais que só uma. De sorte que, debaixo do gênero das febres, um curava as agudas, outro a terçã, outro a quartã, outro a diária, outro a héctica, outro a tísica. Mas isto, que intentou e não conseguiu a indústria humana, repartindo a multidão das enfermidades pela multidão dos médicos, isto mesmo obrava só, e com infalível sucesso, a voz de S. Lucas: Vox sermonum ejus ut vox multitudinis[33] — e não porque naquele novo e segundo querubim se multiplicasse a multidão das pessoas, senão a multidão das luzes.

VI – Por que razão ou dificuldade necessita a perfeita medicina de tanta luz, e de tantas luzes, entre todas as outras ciências? O médico cristão e a arte mágica. Que semelhança tem S. Lucas com a taça mágica de José? S. Lucas, depois de S. Paulo, segundo vaso de eleição. Razão por que o mesmo S. Paulo, ao Evangelho de S. Lucas, chama Evangelho seu.

E se alguém me perguntar por que razão ou dificuldade necessita a perfeita medicina de tanta luz e tantas luzes entre todas as outras ciências, a razão de que não se pode duvidar é por ser a medicina ciência conjectural, que cura o que não vê, e nesta conjectura não só se pode enganar o discurso, mas até a mesma experiência se engana, como confessou Hipócrates: Experimentum fallax. — Aristóteles disse que onde acaba a filosofia ali começa a medicina. E quão sutil e alumiado há de ser o entendimento que penetre um caos tão oculto e tão escuro, como o interior do corpo humano? Baldo, depois de estudar a medicina, experimentando que não acertava a curar umas maleitas, passou ao geral das leis, e foi na jurisprudência tão eminente, que se pôs ombro por ombro com Bártolo. Tanto mais necessita de luz uma ciência, que a outra. O jurista, para dar ou tirar a vida a um homem, vê as leis e vê os autos; o médico vê as leis, mas dos autos não se lhe dá vista.

Se eu houvesse de fazer o anel ao médico, o metal do círculo não havia de ser ouro, senão electro, e a pedra não havia de ser diamante, ou rubi, senão ametisto, porque ambos estes simples têm virtude de adivinhar e descobrir o veneno, ou por suor, ou por tremor, ou por outro efeito, extraordinário de quem o tem no dedo, sendo o dedo anular o que tem maior correspondência com o coração. Os americanos, com serem bárbaros, deram em uma notável política, e foi que, debaixo do mesmo nome pajé, ajuntaram o ofício de médico com o de feiticeiro, entendendo que só quem souber adivinhar pode curar com acerto. Com a mesma prudência ou astúcia — não sei se antes, se depois — os egípcios na África, os gregos na Europa, e os bracmenes na Ásia uniram a ciência mágica com a médica, para que o que não podia alcançar a medicina conjecturando, suprisse a magia adivinhando.

E se o médico cristão duvidar se em algum caso se pudera valer da arte mágica para adivinhar o que a sua não alcança, respondo que sim, se o instrumento for S. Lucas. S. Lucas foi perpétuo companheiro de S. Paulo; e porque S. Paulo era da tribo de Benjamim, diz S. Pedro Damião, que, em lhe dar tal companheiro, o avantajou Cristo aos outros apóstolos, como José a Benjamim aos outros irmãos. Foi o caso que, quando os irmãos de José voltaram do Egito com o pão que lá tinham ido comprar, mandou José ao seu veador, que nos sacos de cada um, não só metesse o trigo, senão também o dinheiro, e particularmente no de Benjamim, além do trigo e do dinheiro, metesse a taça por onde ele bebia. Feito assim, e caminhando já todos os irmãos, veio após eles o copeiro de José, bradando que lhe levavam roubada a taça de que seu senhor usava, não só para beber, mas era o instrumento mágico com que adivinhava todas as coisas: Scyphus, quem furati estis, ipse est in quo bibit dominus meus, et in quo augurari solet[34]. — E, levados todos diante de José, ele confirmou o mesmo dizendo: An ignoratis quod non sit similis mei in augurandi scientia (Gên. 44, 15)? Não sabeis que na ciência de adivinhar nenhum há semelhante a mim? — Isto posto, diz agora S. Pedro Damião, falando de S. Lucas: Quid per Benjamin, nisi Paulus, qui de tribu Benjamin originem duxit? Soli autem Paulo etiam scyphus adjicitur[35] S. Paulo é significado em Benjamim, porque foi da tribo de Benjamim; e assim como só ao saco de Benjamim se acrescentou a taça de José, assim só a S. Paulo foi dado por companheiro S. Lucas.

E que semelhança tem S. Lucas com a taça de José? A que disse o seu copeiro, e ele confirmou: ser o instrumento por onde adivinhava todas as coisas: Scyphus in quo augurari solet dominus meus. — A virtude sobrenatural e divina, com que a José eram manifestas as coisas ocultas, bem celebrada é nas Sagradas Escrituras; e porque ele a quis declarar pelo modo com que os mágicos do Egito costumavam adivinhar, por isso a atribuiu à taça por onde bebia, e por isso, com grande propriedade, semelhante a S. Lucas: Soli Paulo scyphus adjicitur. — S. Lucas, como companheiro inseparável de S. Paulo, foi depois dele o segundo vaso de eleição, cheio de todas as graças do Espírito Santo, como evangelista próprio seu — diz Ecumênio — no livro dos Atos dos Apóstolos, no qual S. Lucas escreveu a vinda do Espírito Santo sobre os apóstolos, e o que por si mesmo e por eles obrou o mesmo divino Espírito na primitiva Igreja. E não há dúvida que, sendo tão íntimos companheiros Paulo e Lucas, assim como Lucas bebia, como de fonte, as revelações de Paulo, assim Paulo, como de taça, bebia também as de Lucas.

E esta é a razão por que o mesmo Paulo ao evangelho de S. Lucas chamava Evangelho seu: Secundum Evangelium meum (2 Tim. 2, 8). — E neste Evangelho de ambos, é circunstância muito digna de se notar, que os outros evangelistas escreveram o que viram, e S. Lucas, porque não viu a Cristo, nem foi seu discípulo, tudo o que escreveu no seu Evangelho foi por influência ou elevação daquela virtude que fica fora da jurisdição e esfera da vista, que é o que faz dificultosos os acertos da medicina. Ditoso, pois, aquele médico, que, por devoção e intercessão de S. Lucas, merecer que ele o admita à participação desta graça tão particularmente sua, para que, depois de esgotado tudo o que a medicina natural alcança, bebendo naquela taça a magia sobrenatural e divina, supra ela com verdadeira certeza nas enfermidades as dúvidas e perigos da conjectura. E não haja enfermo tão desconfiado da saúde, nem enfermidade tão incurável, que o médico, por intercessão e graça de S. Lucas, e S. Lucas por meio dele não cure: Curate infirmos.

VII – Os particulares preceitos ou máximas com que o protomédico, S. Lucas, exercitou a parte curativa da sua arte. O primeiro capítulo ou instrução que Cristo, Senhor nosso, deu aos que mandou curar o mundo: Não levem bolsa nem dinheiro. As duas incoerências da resposta do homem que fora eleito por governador do povo, só porque tinha bom vestido para representar o cargo. Não há lavoura menos dependente do tempo que a da medicina. Por que proíbe o Senhor aos seus médicos a bolsa e o dinheiro? O preço de Cristo e o preço da saúde. Por que não perseguiram os médicos a Cristo, se eles eram os únicos que se podiam queixar? Se os médicos, pelo uso da sua ciência, não hão de levar dinheiro, quem os há de sustentar?

Estabelecido assim, nas luzes da ciência de S. Lucas o exemplo ou exemplar com que ele foi, e com que poderá ser excelente médico todo o que o quiser imitar, segue-se que passemos da teoria à prática, e que o mesmo protomédico nos ensine os particulares preceitos, ou máximas com que exercitou a parte curativa da sua arte. Mas porque referir todos os documentos deste exercício é impossível, e muito dificultoso escolher deles os mais necessários, para não errar na eleição, ponderaremos somente o que o mesmo S. Lucas, com o índice dos três dedos, nos apontar no seu Evangelho.

O primeiro capítulo da instrução que Cristo, Senhor nosso, deu aos que mandou curar o mundo, é que não levem bolsa nem dinheiro. Isso quer dizer: Nolite portare sacculum — ou, como lê o texto original: crumenam; mas este mesmo preceito, ou conselho, parece totalmente encontrado com o intento, esperança e fim dos professores da medicina. O fim que ordinariamente leva às universidades os candidatos da ciência médica, é aquela promessa vulgar do seu Galeno: Dat Galenus opes[36]. — A teologia, e Santo Tomás, promete dignidades eclesiásticas; a jurisprudência, e Justiniano, honras seculares; a medicina, e Galeno, riquezas.

Já em tempo de Isaías tinha lançado raízes esta opinião, e tinha o mesmo crédito a medicina. Conta Isaías perfeitamente que os pequenos se levantaram contra os grandes, e elegeram por governador do povo um homem, só porque tinha bom vestido para representar o cargo: Vestimentum tibi est, princeps esto noster[37]. — E o tal homem, que responderia? — Non sum medicus, et in domo mea non est panis; nolite constituere me principem populi[38]. — Respondeu que não era médico, nem tinha pão em sua casa, e que, por isso, nem ele quer, nem é bem que eles queiram que seja governador do povo. Duas incoerências acho nesta resposta: a primeira, não querer o eleito ser governador do povo, porque não tem pão em sua casa. Antes, porque não tendes pão em vossa casa, por isso deveis aceitar o governo. Para quem governa, qualquer terra é mais fértil de pão que Sicília. Aceitai as provisões, e logo tereis a vossa casa muito bem provida. Contudo, este homem, quem quer que fosse, em não querer aceitar o governo, mostrou que no juízo era sisudo, e na consciência timorato, porque os governos são para fazer bem com o pão próprio, e não para acrescentar os bens com o pão alheio. O mesmo Cristo o disse por boca do nosso S. Lucas: Qui potestatem habent super eos, benefici vocantur (Lc. 22, 25): Os que têm poder sobre o povo, se governam como devem, são chamados benéficos — e este nome de benéfico, ainda que se deriva de bem, não é dos bens que se recolhem, senão dos que se semeiam; nem dos que se adquirem, senão dos que se repartem. Bem disse logo aquele homem, posto que tumultuariamente eleito, quanto à primeira objeção.

A segunda, é dizer que não tinha pão porque não era médico: Non sum medicus, et in domo mea non est panis — e também aqui tirou a conseqüência tão discreta como verdadeiramente, porque a todas as outras ciências ou ofícios pode faltar o pão, mas ninguém o tem sempre mais seguro que o médico. Como todos somos mortais, só o médico vive do que nós morremos, e tão certo é na medicina o pão, como na mortalidade a doença. Nunca lhe pode faltar ao médico o pão em abundância, porque não há lavoura menos dependente do tempo, ou chova, ou faça sol, que a da medicina. Antes, quando a chuva afoga as searas, e o sol as queima, então cresce mais a lavoura dos médicos, porque então lavram mais as enfermidades. As quaresmas dos enfermos são as páscoas dos médicos, e com as dietas de uns, se fazem os banquetes dos outros.

Este é o riquíssimo patrimônio da medicina, e por aquele legado de Galeno: Dat Galenus opes — próprio e hereditário de todos os médicos. Pois, por que proíbe Cristo aos seus a bolsa e o dinheiro: Nolite portare sacculum? — Porque quis o supremo Legislador reduzir a medicina à sua natural nobreza, e que os professores dela a não desacreditassem com a fazer venal. A um pregador, dos que tomam a Escritura pela toada, ouvi eu argüir os médicos de se venderem muito caros, e o provava com o texto de S. Paulo: Salutat vos Lucas medicus charissimus[39] — Pouco conhece a riqueza da saúde quem cuida que por algum preço pode ser cara, quanto mais caríssima: Non est census super censum salutis corporis (Eclo. 30, 16): diz o Espírito Santo que não há riqueza no mundo que se iguale à saúde do corpo. — E Platão, fazendo um catálogo dos bens desta vida, e dando por sua ordem o lugar que merece cada um, no primeiro põe a saúde, e no quarto as riquezas; Primum locum obtinet bona valetudo, quartum opes[40]. — Donde se segue que, se o médico der ao enfermo a saúde, e o enfermo ao médico todas as riquezas, menos recebe o médico que o enfermo.

Sendo, pois, o objeto da medicina, a saúde do corpo: corpus sanandum — não há dúvida que faria grande injúria à medicina, e à mesma saúde, o médico interesseiro, que a quisesse embolsar, e que se lhe pagasse a dinheiro. Por quê? Porque seria pôr preço ao que não tem preço. O profeta Zacarias, falando nos trinta dinheiros que os príncipes dos sacerdotes deram a Judas, diz que foram o preço do pecado, a quem apreçaram os filhos de Israel: Triginta argenteos, pretium appretiati, quem appretiaverunt a filiis Israel[41] — De sorte que não pondera o profeta ser Cristo vendido, senão ser apreçado: Pretium appretiati — e não encarece que os príncipes dos sacerdotes o comprassem, senão que o apreçassem: Quem appretiaverunt — e assim foi, porque Judas não pôs o preço, e só disse: Quid vultis mihi dare[42]? — e os que avaliaram ou almotaçaram o preço, foram os sacerdotes: Illi constituerunt ei triginta argenteos[43]. — E esta foi, na venda de Cristo, a maior injúria e afronta que lhe fizeram, porque foi pôr em preço ao que não tem preço: Illius pretio aestimati qui inaestimabilis est — diz Teofilato. — Dê-nos agora licença o mesmo Cristo, saúde das nossas almas, para que dela desçamos à dos corpos.

Proíbe o mesmo Senhor aos seus médicos a bolsa e o dinheiro, porque, sendo a saúde, entre os bens temporais, o maior de todos, seria grande afronta da mesma saúde apreçá-la, ou pôr-lhe preço, como se ela o tivesse. Isto deviam fazer por própria eleição os professores da medicina, por crédito da sua ciência. Zêuxis, ao princípio, vendia as suas pinturas por muito dinheiro, depois dava-as de graça. E, perguntado por que, respondeu: Porque já não tinham preço: Quod nullo satis digno pretio permutari posse diceret — diz Plínio. — Assim o faziam os dois famosos médicos Cosme e Damião, por isso chamados anergérios, que quer dizer: os sem dinheiro. E por que ninguém me diga que eram santos, como se por isso foram menos para imitar, ouçam os médicos ao seu Hipócrates, o qual escreveu aos abderitas que, pelo uso da medicina, nunca recebera paga: Se nunquam pro medicinae usu mercedem accepisse.

E donde lhe vinha esta generosidade a Hipócrates? Não por ser rei, mas por ser médico. Seja prova desta grande excelência da medicina uma observação minha, que muito me admira não ser de todos. Não houve homem mais perseguido neste mundo — e bastava ser mais que homem — que Cristo, Senhor nosso. Quantas vezes o quiseram apedrejar, quantas traças e traições buscaram para lhe tirar a vida, até que o puseram na cruz? Mas quais foram os seus perseguidores? De todos os evangelistas consta que foram os escribas e fariseus, os príncipes dos sacerdotes, em suma, os eclesiásticos. E eu cuidava que não haviam de ser senão os médicos. Todos os enfermos concorriam a Cristo, e bastava que lhe tocassem em um fio da roupa, para ficarem sãos de qualquer enfermidade. E deste bem comum universal só se podiam queixar os médicos, porque estavam ociosos, as boticas fechadas, e todos eles, e os seus ministros, sem remédio. Exemplo seja aquela mulher de Cesaréia, que, tendo gastado com os médicos toda a sua fazenda, em uma doença crônica de doze anos, pela fama de Cristo o veio buscar, e, só com lhe tocar a ponta do manto, sarou.

Assim o diz o evangelista S. Marcos: Quae fuerat multa perpessa a compluribus medicis: et erogaverat omnia sua, nec quidquam profecerat[44] — Pois, se os médicos, por esta causa, eram os mais prejudicados, antes aqueles unicamente que perdiam os interesses do seu ofício, e todo o seu remédio, por que se não queixavam, e por que se não ajuntavam também aos outros perseguidores de Cristo? Eu não acho outra razão ou fundamento desta diferença, senão porque eram médicos. Provo. Porque, se olharmos para a pátria dos médicos, os escribas e fariseus eram da mesma pátria; se olharmos para a lei, que era a de Moisés, eles guardavam a mesma lei; se olharmos para a religião, eles professavam a mesma, e, como eclesiásticos, eram mais obrigados a ela; e, contudo, só pelo temor de poderem perder os interesses das suas prebendas: Venient romani, et tollent locum nostrum[45] — crucificaram a Cristo; logo, não resta outra razão deste desinteresse dos médicos, senão a sua própria faculdade e ciência, a qual é tão nobre e generosa, que por si mesma influi, ainda nos casos mais apertados, o desprezo de todo o interesse.

Mas daqui se segue uma grave e bem pesada dificuldade, porque, se os médicos, pelo uso da sua ciência, não hão de levar dinheiro, quem os há de sustentar? Respondo que os enfermos, mas não por preço, senão por tributo devido à rainha de todas as ciências. Assim o manda o mesmo Deus que criou a medicina, naquele texto: Honora medicum propter necessitatem (Eclo. 38, 1): Honrai o médico pela necessidade — isto é, não só pela necessidade que vós tendes dele, senão pela que ele tem de vós. — E que quer dizer ali aquele honora? Quer dizer o mesmo que no quarto mandamento: Honora patrem tuum[46]. — Em um e outro lugar quer dizer que os filhos ao pai, e os enfermos ao médico, têm obrigação de assistir e servir com a condigna sustentação: Honora, idest, praebe illi sustentationem condignam — diz, com a comum interpretação, o doutíssimo A Lápide. E chama-se esta sustentação, com grande propriedade e energia, condigna, porque, se aos pais devemos o sustento, porque nos deram a vida, aos médicos a devemos com o mesmo direito, porque no-la conservam. E isto mesmo confirmou admiravelmente o mesmo Cristo no mesmo Evangelho em que proibiu a bolsa e o dinheiro, e não uma, senão duas vezes: uma vez, dizendo: Manducate quae apponuntur vobis, et curate infirmos[47] — e outra vez: Edentes et bibentes quae apud illos sunt[48]. — Notem-se muito os termos de umas e outras palavras, que são notáveis. Não diz que se sustentarão por onde forem como peregrinos ou hóspedes, senão como senhores, e como se os celeiros e despensas das cidades, e tudo o que nelas houver, fosse seu: Edentes quae apud illos sunt. — E, o que é muito mais, que isto o receberão e lograrão sem se lhes fazer a face vermelha com o pedir, porque tudo, sem cuidado nem diligência sua, se lhes porá diante: Manducate quae apponuntur vobis.

VIII – O segundo documento do Médico divino na instrução que deu aos seus: que no caminho a ninguém saudassem. Por que proíbe o divino Mestre as saudações aos médicos? A primeira coisa que se há de considerar no enfermo. Por que se curam melhor e mais facilmente os criados que os amos, os escravos que os senhores? A resposta de Diógenes, famoso cínico, à arrogância de Alexandre Magno. Razão por que devem ser os médicos como as enfermidades. O médico e o respeito aos reis. El-rei Jeroboão e a confiança nos prognósticos dos médicos de palácio. O grande exemplo do maior dos profetas maiores, Isaías, no prognóstico que fez para el-rei Ezequias. Daniel, e as honras oferecidas por Baltasar no banquete de Babilônia. Qual deve ser a verdade e inteireza com que os ministros da saúde devem desenganar os reis, sem temor de perderem sua graça.

O segundo documento do Mestre e Médico divino, na instrução que deu aos seus, é que no caminho a ninguém saudassem: Neminem per viam salutaveritis (Lc. 10, 4). — E, tomando também de caminho estas palavras, sem reparar no mais interior delas, é certo que não admitem, em quem acode aos enfermos, a menor detença, porque nenhuma há, ainda que seja de um só instante, em que se não possa arriscar a vida. A mesma ordem deu o profeta Eliseu a Giesi, familiar de sua casa, quando mandou, com o seu báculo, ao filho morto da Sunamitis, esperando que, posto sobre ele, o ressuscitasse. Mas naquele caso era menor o perigo da dilação, ou detença. O morto, sem novo risco, podia esperar uma ou mais horas pela ressurreição; mas o vivo, talvez apertado do acidente mortal, qualquer momento que lhe tarde o remédio, o perde para sempre. E é matéria muito escrupulosa, que se detenha em saudar a um são, quem leva a saúde a um enfermo.

Mas, dando um passo mais adiante neste caminho, não vejo combinar e ponderar, como é razão, a energia com que Cristo, Senhor nosso, proíbe ao médico o saudar a quem encontra, quando vai curar a quem padece a enfermidade: Neminem per viam salutaveritis. — A palavra salutaveritis deriva-se da saúde: salus — e é o mesmo que desejar saúde àquele com quem se fala. Para estas saudações formaram os latinos um verbo, que a nossa língua não tem, ao qual deram um só tempo no singular, que é salve, e no plural salvete. Salve, sancte parens, iterum; salvete recepti nequicquam cineres[49]. E como o salutaveritis significa este desejo da saúde, com grande razão e energia proíbe o divino Mestre as saudações aos médicos: Neminem salutaveritis — porque é grande abuso e implicância impedir ou divertir o dar saúde ao enfermo com saudar ao são, sendo que o verdadeiro saudar é dar saúde. Que coisa são essas saudações e cumprimentos, senão officiosa mendacia[50]? E que maior sem-razão que trocar a verdade pela lisonja, e arriscar por um cumprimento vão a maior importância da vida?

Contudo, como o saudar com os iguais é ato de amizade, com os maiores de urbanidade, e com todos de humanidade, parece que é fazer aos médicos menos urbanos e menos corteses, e mais se apertarmos bem aquele neminem: a ninguém: Neminem salutaveritis. — E que seria se aquele, a quem se negasse a saudação, fosse pessoa de grande autoridade e de grande respeito? Neste caso, muito mais, e por isso mesmo. Porque esses respeitos, e esses e outros obséquios, são os que mais encontram a saúde dos mesmos respeitados, e a obrigação e consciência do médico. A maior tentação do médico é quando a enfermidade é grave, e também é grave o doente. Para que eu melhor me declare, ouçamos a S. Gregório Nazianzeno, falando dos médicos do seu tempo. Vistes já a um médico tomar o pulso ao enfermo, e, arqueando as sobrancelhas com gestos de admiração, fazer o compasso com a cabeça aos golpes do mesmo pulso? Pois aqueles movimentos da cabeça do médico — diz Nazianzeno — são os da balança, em que ele está pesando duas coisas: de uma parte, a dificuldade da doença, e da outra, o preço que lhe hão de dar pela cura, e por isso a dificulta: Capitis motu salutem velut lance mercedem augens, aut deploratum morbum esse significat. — Isto se entende dos médicos cobiçosos, que já refutei; o que agora digo, e não louvo, é dos obsequiosos e respectivos. Quando a enfermidade é grave, e também grave o enfermo, o médico lisonjeiro, e de pouco valor, está pesando, como em balança, a graveza da doença e a gravidade da pessoa: para quê? Para temperar os medicamentos com tal brandura, que a doença se modere, e a pessoa de nenhum modo se moleste e agrave. Se isto é adular o gosto, ou zelar a saúde, julguem-no os mesmos que são juízes dela.

A primeira coisa, diz Aristóteles, que se há de considerar no enfermo, é o sujeito, mas não quem é, senão qual. Consta que, estando enfermo aquele grande príncipe dos filósofos, e provando, como já dissemos dele, que onde acaba a filosofia, começa a medicina, disse ao médico, como refere Eliano, que advertisse primeiro que ele não era cavador nem vaqueiro, e sobre isto, depois de examinada a causa, veria se havia de obedecer às suas receitas: Ne, inquit, me cures ut bubulcum, aut fossorem, sed prius causam edissere, sci enim facile persuasione me morigerum reddideris. — Distingue-se o filósofo do cavador, porque o cavador, com a enxada na mão, quanto come e bebe em todo o dia, sua em meia hora; e o filósofo, com a especulação da sua fantasia, avoca os espíritos à cabeça, e ficam mal assistidas as oficinas do sangue e fontes da vida. De sorte que a consideração do sujeito há de examinar se é robusto ou delicado, se de muitas ou poucas forças, se deste ou daquele exercício; mas nesta distinção, e na do temperamento, não há de entrar a da qualidade e dignidade da pessoa, sob pena de ficar bem lisonjeado o doente, e mal curado. Por isso vemos que melhor e mais facilmente se curam os criados que os amos, os escravos que os senhores. Donde nasce que, curadas nos nobres e ricos mais mimosa, e não radicalmente, as enfermidades, ou são freqüentes as recaídas, ou, como gravemente disse Tertuliano, quase tanto padece o mal são a sua saúde, como padecia a doença: Ex aliqua valetudine sanitatem suam patitur[51].

E se isto sucede às qualidades particulares, que será nas supremas e coroadas? Adoeceu de uma febre el-rei D. Sebastião, e, sendo chamado de Coimbra aquele oráculo da medicina, que nas cadeiras da mesma Universidade é alegado com nome de Magnus Thomas, que remédio aplicou ao rei, que era de pouca idade? Ordenou que lhe fizessem uma cama de rosas, e, deitado nela, ficou são. Mas o que naquela grande ciência obraram as rosas, em outra menor se pode curar com espinhas. É polícia da corte da China darem-se às doenças do rei os mesmos títulos que à pessoa real. E assim dizem os médicos: A muito alta e muito poderosa febre de Vossa Majestade, rainha sobre todos os reis, e imperadora sobre todos os imperadores, ou está mais remitida, ou mais alterada. — E como nas doenças dos reis se cura a majestade, e não a natureza, e o respeito aplica os medicamentos, e não o juízo, por isso a mesma natureza, que no viver e morrer fez a todos iguais, não costuma obedecer senão àqueles remédios — posto que mais austeros — onde ela depositou a virtude e pôs a eficácia.

O médico não cura a púrpura nem a coroa, senão o homem despido, e o corpo que em todos é do mesmo barro; e aonde o médico quis fazer distinção de barro a barro, ali se perdeu. Passando acaso Alexandre Magno por junto a um cemitério, viu nele a Diógenes; e como lhe perguntasse que fazia naquele lugar, respondeu o filósofo: — Ando aqui buscando os ossos de Filipe de Macedônia, mas não os posso distinguir: Ossa Philippi patris quondam tui quaero, sed inter plebeorum non discerno[52]. — Assim respondeu a liberdade do famosíssimo Cínico à arrogância daquele soberbíssimo monstro — como lhe chama Sêneca — e o ensinou a que se não estimasse mais que os outros homens, pois os ossos do pai, que lhe dera o ser e o sangue, se não distinguiam dos outros. Mas, como os palácios dos reis, aonde os médicos não são chamados, senão por necessidade, assim como têm as portas sempre abertas à adulação e lisonja, assim elas por si mesmas se fecham à verdade, muito valor há mister a do médico que houver de curar a um rei como a um homem.

Em suma, posto que esta matéria seja tão alheia da minha profissão, eu a reduzo confiadamente a uma só palavra. E qual é? Que os médicos devem ser como as enfermidades. Assim como as enfermidades não respeitam qualidades nem dignidades, assim o devem eles fazer. A enfermidade não respeita qualidades, porque, ainda que a nobreza se chame sangue, a enfermidade não se compõe ou descompõe deste só humor, senão da discórdia de todos quatro. E não respeita dignidades, porque tão sujeito está à febre em palácio o rei, como o moço do monte, e em Roma o Papa, como o faquino. Sejam, pois, os médicos como as enfermidades, porque contrariorum eadem est ratio — e não é bem que sejam de melhor condição os males que os remédios. E porque todo o médico se empenha muito pela verdade e acerto do seu prognóstico, sirva de conclusão a este ponto, e de prefação ao seguinte, que é de maior importância, um caso que agora me lembra, tão merecedor de ser ouvido, por discreto, como de ser imitado, por verdadeiro.

Estando enfermo S. Francisco de Borja, no tempo em que era duque, tomou-lhe o pulso o médico, e disse: Que me dará Vossa Excelência, se amanhã lhe pedir as alvíçaras de estar livre da febre? — Estava no aposento um aparador com muita peças ricas de prata, e respondeu o duque que daquela baixela escolhesse o que lhe parecesse melhor e escolheu a maior de todas, que era um grande prato. Tornou ao outro dia o médico, tomou o pulso, e, equivocando, como castelhano, na palavra Plato, disse: Amicus Plato, sed magis amica veritas[53]: Vossa Excelência ainda tem febre. — Não refere o historiador o que respondeu o duque, mas eu lhe não dera então o prato, senão ametade da baixela, e, se acrescentara que a febre tinha degenerado em maligna, lha dera toda. Maior ação que a deste meu pensamento veremos depois. Em dois casos obrará culpavelmente a inteireza e verdade do médico: ou na aplicação respeitosa dos remédios, de que acabamos de falar, ou no silêncio e dissimulação do perigo, de que agora falaremos. Uma coisa é a doença que ameaça a saúde temporal, outra a que pode arriscar a eterna: a primeira pertence à cura da enfermidade, a segunda ao desengano da morte. E quantos médicos, ou por falta de valor, ou com sobeja e mal entendida piedade, por não desanimar os enfermos, e por não desconsolar os vivos, são causa de que se condenem os mortos? Contra a enfermidade, peca-se na cura, não se lhe aplicando os remédios eficazes, posto que duros. E contra o enfermo, quando a doença é mortal, peca-se muito mais gravemente na dissimulação, não o desenganando logo do seu perigo. O primeiro pecado é contra o curate infirmos; o segundo contra o dicite illis: Appropinquavit in vos regnum Dei. — Este é o terceiro documento do Evangelho: Dizei aos enfermos, a quem curardes, que é chegado a eles o tempo de passar desta vida, e de ir reinar com Cristo.

Que bem conheceu a dificuldade deste desengano, e a força deste respeito, el-rei Jeroboão! Estava gravemente enfermo o seu primogênito: quis saber se viveria ou não, e disse à rainha — não fiando a matéria de outrem — que, disfarçada em trajos de uma mulher ordinária, fosse consultar o profeta Aías, e lhe dissesse que tinha um filho muito doente, de qual dependia o remédio da sua casa, e que, para saber o que havia de dispor dela, lhe pedia, como o oráculo de Deus, a certeza da sua vida ou morte. Porventura faltavam a Jeroboão os seus médicos da câmara, e estes, como se costuma, não eram dos mais doutos de todo o reino? Pois, por que os não consultou o rei, e ainda, para tirar a verdade da boca do profeta, com o engano do disfarce da rainha, quis alcançar dele este desengano? O mesmo fato é a razão dele. Não consultou os médicos, porque, ainda que não duvidasse da sua ciência, tinha por certo que nenhum deles teria valor para não dissimular a morte do filho, e lhe manifestar com clareza que não podia escapar. E até do mesmo profeta, que lhe tinha anunciado a coroa, quis alcançar por meio daquele disfarce a verdade, que tanto cuidado lhe dava, por que a primeira revelação era dar a um particular a nova de um reino, e a segunda dar a um rei a da morte de um filho.

Oh! quanto trabalha o demônio para impedir, principalmente aos reis, estes desenganos! Para impedir o fruto da primeira árvore da vida, disse a Eva: Nequaquam morte moriemini[54]; para impedir o fruto da segunda, que é a medicina, assim como pôs estas palavras nos ouvidos da primeira mulher, assim põe as mesmas na boca dos médicos. Notai muito aquele nequaquam. Não disse que não morreriam, senão que de nenhum modo haviam de morrer: Nequaquam morte moriemini. — A promessa foi uma, e as mentiras foram sem-número, porque, sendo inumeráveis os modos de morrer, como experimentamos os filhos de Eva, ele disse que de nenhum modo morreriam. Foram tantos os modos de mentir como são os modos de morrer, para que em nenhum modo de morrer faltasse o seu modo de mentir. E, por isso, são tantos os modos de enganar, ou de não desenganar, com que encobrem a morte aqueles que têm obrigações, não só de a declarar, mas a tempo.

Grande exemplo o do maior dos profetas maiores. Adoeceu mortalmente el-rei Ezequias, no meio — como ele cuidava — da sua idade: In dimidio dierum meorum[55]. Avisou-o Isaías para morrer, e foi o aviso com estas palavras: Dispone domui tuae: morieris enim tu, et non vives: (4 Rs. 20, 1): Dispõe de tua casa, porque hás de morrer tu, e não hás de viver. — Quem haverá que não admire esta repetição? Haver de morrer, e não haver de viver, não é o mesmo? O mesmo é, mas mais claro. E repetiu o profeta o mesmo desengano, para que o rei o não duvidasse. Quando Cristo disse aos apóstolos que ia a morrer, por mais que lhes declarou o tempo, o lugar, o modo, os executores, e o mesmo gênero da morte, diz o evangelista que eles o não entenderam: At ipsi non intellexerunt (Lc. 2, 50) — porque não há coisa mais dificultosa de entender que esta palavra morrer. Por isso o profeta o declarou, não uma, senão duas vezes, nem por um, senão por dois modos: uma vez por afirmação: morieris; e outra por negação: non vives. Imaginas que estás no meio dos teus dias, e enganas-te; pois os passados já são de morte — morieris — e os futuros não hão de ser de vida — non vives. — A vida dos reis é de mui desigual esfera à dos outros homens, mas estas desigualdades, que só faz a fortuna, já é chegada a ti, ó Ezequias, a morte que as iguala. Morieris: morrerás à vida — et non vives; e já não viverás à fortuna; morieris: morrerás ao mundo — et non vives: e já não viverás à majestade; morieris: morrerás como homem — et non vives, e já não viverás como rei; morieris: morrerás como todos — et non vives, e já não viverás sobre todos.

Tudo isto quer dizer: Morieris tu, et non vives. — Porém, aquele tu, não deve passar sem reparo. A palavra tu, na língua hebraica, como na latina, é comum para todos; mas os vassalos, quando falam com os reis, em lugar de tu, dizem: Domine mi rex — que vale o mesmo que Vossa Majestade, como consta de toda a Escritura Sagrada nos Livros dos Reis; e os profetas, quando menos, à palavra tu acrescentam rex: Tu, rex. — Assim falou Daniel a el-rei Nabucodonosor: Tu, rex, cogitare coepisti[56]. — Assim a el-rei Baltasar: Pater, inquam, tuus, o rex[57]. — E assim a el-rei Dario: Coram te, rex, delictum non feci[58]. — Pois, se Isaías era profeta e vassalo de el-rei Ezequias, e entre os profetas, como o mais polido e discreto de todos era chamado o profeta cortesão, por que, deixado um e outro título, falou ao seu rei, nem como vassalo, nem como profeta, senão tão nua e secamente com um tu: Morieris tu, et non vives? — Porque a ocasião não era de lisonjas, nem ainda de cortesias; senão de desenganos. Anunciava-lhe a morte, em que são iguais todos os homens, e por isso lhe falou como a qualquer outro homem, e não como a rei. Assim como não usou de prólogos, ou prefações, nem de rodeios ou metáforas para a clareza, assim cortou pelas cortesias da majestade, por não perder aquele pouco tempo, aonde são tão importantes os instantes. Não esperou a que a debilidade da natureza o avisasse do seu perigo, mas ele lho declarou enquanto os sentidos e potências do corpo e alma estavam inteiras, e em seu vigor, para orar, como orou, para chorar; como chorou, e para recorrer a Deus, como recorreu, e então o advertiu que dispusesse de sua casa: Dispone domui tuae — quando o podia fazer com o juízo, quietação e sossego, que não permitem os acidentes nos desmaios e perturbações da morte; e, pois, perdia a vida, que acaba com o tempo, seguia-se a que não há de acabar por toda a eternidade.

Aonde não houver este valor, esta liberdade, e esta verdade de Isaías, é certo que faltarão à sua obrigação — como muitas vezes têm faltado — não só os médicos do corpo, senão também os da alma, tão enganados nos respeitos humanos, ou desumanos, de que se deixam cegar, que eles são os maiores traidores dos reis e dos reinos, sendo, pelo contrário, dignos das maiores mercês, e dos mais avantajados prêmios, os que com verdadeiro zelo e amor, não só os desenganavam livremente do perigo da vida, senão da certeza da morte. Aqui entra agora o exemplo da heróica ação que eu prometi, muito maior que ó meu pensamento, sobre o médico de S. Francisco de Borja. Estando el-rei Baltasar, na última ceia de sua vida, brindando aos seus ídolos, nos mesmos vasos sagrados de que seu pai, Nabucodonosor, tinha despojado o templo de Jerusalém, apareceram três dedos de uma mão invisível, que escreviam na parede umas letras não conhecidas. Chamado Daniel para a interpretação delas, disse ao rei que nas primeiras se continha o número dos seus dias, nas segundas o peso das suas obras, e nas terceiras, e últimas, o fim da sua vida e do seu reino, que seria naquela mesma noite. Ó terrível e tremenda sentença! E que faria Baltasar ouvindo-a? Imediatamente, o conta o texto, e foi uma resolução, se pode ser, ainda mais admirável que a do profeta: Tunc, jubente rege, indutus est Daniel purpura, et circumdata est torques aurea collo ejus, et praedicatum est de eo quod haberet potestatem tertius in regno suo (Dan. 5, 29)! No mesmo ponto, sem falar outra palavra, o que fez Baltasar foi mandar que Daniel fosse logo vestido de púrpura com o colar de ouro, que era a outra insígnia real, e que na presença dos convidados, que eram mil, os maiores de toda a monarquia, fosse apregoado no poder e mando pela terceira pessoa do seu reino, sendo a primeira o mesmo rei, a segunda a rainha, e a terceira Daniel[59]. — E haverá quem pudesse imaginar tal resolução no maior caso, por todas suas circunstâncias, que pode suceder no mundo?

De maneira que, porque Daniel notificou a um rei a morte e a privação do reino, que era a monarquia dos assírios e caldeus, a maior que nunca houve, o mesmo rei avaliou com tal extremo este desengano, que o não pagou nem premiou menos que com igualar ao mesmo Daniel no poder e na dignidade a si, exceto somente a coroa. Mas não parou aqui o caso nem a causa da admiração; ainda vai por diante: Eadem nocte interfectus est Baltassar, rex Chaldaeus. Et Darius Medus successit in regnum (Dan. 5, 30 s): Naquela mesma noite, tomada por força de armas Babilônia, foi morto Baltasar, rei caldeu, e lhe sucedeu no reino Dario, medo — com que parece que a púrpura, o colar, o poder e a dignidade de Daniel também expirou, ou havia de expirar com o rei que lha tinha dado. Mas não foi assim, porque Dario, posto que, como inimigo e vencedor de Baltasar, nenhuma obrigação tinha de confirmar o que ele tinha mandado; tendo, porém, notícia do que Daniel havia dito e feito, não só o conservou nas proeminências da mesma dignidade, mas acrescentou a elas o amor, o respeito e a estimação que lhe devia o defunto, para que entendam os reis, quão animados e confiados devem ter os ministros de sua saúde e vida, para que nos perigos dela os desenganem com toda a liberdade, e qual há de ser a verdade e inteireza com que os mesmos ministros os devem desenganar, sem temor de perderem a sua graça, nem a de seus sucessores.

IX – Que devem fazer os médicos para que acabem hem? O maior exemplo que devem os médicos admirar e imitar em S. Lucas.

Daqui não há que passar para que acabem bem os enfermos. E para que acabem bem os médicos, falta alguma coisa? Como andam sempre com a morte entre as mãos, ou entre os dedos, pode acontecer que lhe tenham perdido o medo. Mas para que seja com confiança da vida, que há de durar para sempre, lembrem-se daquele provérbio: Medice, cura te ipsum[60]: Assim como curam os outros, não se esqueçam de se curar a si. — Este é o maior exemplo que devem admirar e imitar em S. Lucas, como evangelista de Cristo, como companheiro perpétuo de S. Paulo, como aquele varão apostólico que peregrinou com ele tantas partes do mundo, por mar e por terra, exercitando sempre as obras de misericórdia: as corporais, curando os corpos; as espirituais, convertendo e salvando as almas, podia confiadamente ter por segura a salvação própria; e, contudo, como se fora um grande pecador, que fazia? A mesma Igreja o diz: Qui crucis mortificationem jugiter in suo corpore pro tui nominis honore portavit. — Sendo o seu corpo tão santo e tão puro, que perpetuamente foi virgem, esse mesmo corpo mortificava e martirizava perpetuamente e sem cessar: jugiter — e não com menor mortificação que a da cruz: crucis mortificationem — a qual, não para satisfazer por seus pecados, senão por honra do nome de Cristo: pro tui nominis honore — sempre levava sobre o mesmo corpo às costas: in suo corpore portavit. — Quando Cristo, Redentor nosso, saiu com a cruz às costas, diz o texto sagrado: Bajulans sibi crucem, exivit (Jo. 19, 17): que levava a cruz para si. — Pois, se Cristo não tinha necessidade dela, por que a levava para si: sibi? Porque era protomédico do mundo, e quis ensinar a todos o que deviam fazer. Cristo: Bajulans sibi crucem; Lucas: Mortificationem crucis in suo corpore — para que nenhum médico seja tão descuidado que, curando aos outros, se não cure a si: Medice, cura te ipsum (Lc. 4, 23).

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[1] Curai os enfermos, e dir-lhes-eis: Está a chegar a vós outros o reino de Deus (Lc. 10, 9).
[2] Sustentou em três dedos toda a massa da terra (Is. 40, 12).
[3] Mart. t lib. 5.
[4] Curai os enfermos, e dir-lhes-eis: Está a chegar a vós outros o reino de Deus (Lc. 10, 9).
[5] Alicesses, no original.
[6] Não bebas mais água só, mas usa de um pouco de vinho, por causa do teu estômago, e das tuas freqüentes enfermidades (1 Tim. 5.23).
[7] Quem enferma, que eu não enferme (2 Cor. 11, 29)?
[8] Porque a virtude se aperfeiçoa na enfermidade (2 Cor. 12, 9).
[9] Pois saía dele uma virtude que os curava a todos (Lc. 6, 19).
[10] Trazei-me cá uma massa de figos (4 Rs. 20, 7).
[11] Como a pusessem sobre a úlcera do rei, ficou curado (ibid.).
[12] E agora o Senhor enviou-me a curar-te (Tob. 12, 14).
[13] Ferida, contusão, e chaga intumescida, que não está ligada, nem se lhe aplicou remédio para a sua cura, nem com óleo foi suavizada (Is. 1, 6).
[14] Juxta LXX, Jansen. et alii; na Vulgata: Altissimus creavit de terra medicamenta (Eclo. 38, 2).
[15] Porque toda a medicina vem de Deus (Eclo. 38, 2).
[16] E o homem prudente não terá repugnância por eles (ibid. 4).
[17] A árvore da vida, e as folhas da árvore servem para a saúde das gentes (Apc. 22, 2).
[18] As suas folhas servirão de medicina (Ez. 47, 12).
[19] Não comas (Gên. 2, 17).
[20] As suas folhas servem para a saúde das gentes (Apc. 22, 2).
[21] Acudi-me com confortativos de flores, trazei-me pomos que me alentem (Cânt. 2, 5).
[22] Porque desfaleço de amor (ibid.).
[23] E a semelhança do semblante deles era: rosto de homem e rosto de leão, à direita dos mesmos quatro; e rosto de boi à esquerda dos mesmos quatro; e rosto de águia no alto dos mesmos quatro (Ez.1,10).
[24] Uma face era a face de querubim, e a segunda face era face de homem, e no terceiro havia face de leão, e no quarto face de águia (Ez. 10, 14).
[25] E as semelhanças das caras deles eram as mesmas caras que eu tinha visto junto ao no Cobar (ibid. 22).
[26] Plin. fib. 24, cap. l.
[27] Saúda-vos Lucas, médico (Col. 4,14).
[28] Vieira inverte aqui a ordem das palavras, que na Vulgata se lêem assim: Salutat vos Timotheus, adjutor meus, et Lucius: Saúda-vos Timóteo, meu coadjutor, e Lúcio (Rom. 16, 21).
[29] O seu rosto resplandecia como o sol na sua força (Apc. 1, 16).
[30] São Lucas, do qual se pode dizer: O seu rosto resplandecia como o sol na sua força.
[31] Martial..
[32] Homero.
[33] O som das suas palavras era como o estrondo de uma multidão de homens (Dan. 10, 6).
[34] A taça, que furtastes, é a mesma porque bebe meu senhor, e da qual se serve para as suas adivinhações (Gên. 44, 5).
[35] Petr.: Dam. serro. de S. Luc.
[36] Galeno confere riquezas.
[37] Tu tens melhor vestido, sê nosso príncipe (Is. 3, 6).
[38] Não sou médico, e em minha casa não há pão; não queirais constituir-me príncipe do povo (ibid. 7).
[39] O muito amado Lucas, médico, vos saúda (Col. 4, 14).
[40] Plat. lib. 1 de Legibus.
[41] Zachr: relas. a Matth. 27, 9.
[42] Que me quereis vós dar (Mt. 26, 15)?
[43] E eles lhe assinaram trinta moedas de prata (ibid.).
[44] Que tinha sofrido muito às mãos de vários médicos, e que havia gastado tudo quanto tinha, nem por isso aproveitara coisa alguma (Me. 5, 26).
[45] Virão os romanos, e tirar-nos-ão o nosso lugar (Jo. 11, 48).
[46] Honra a teu pai (Dt. 5, 16).
[47] Comei o que se vos puser diante, e curai os enfermos (Lc. 10, 8 s).
[48] Comendo e bebendo do que eles tiverem (ibid. 7).
[49] Pela segunda vez, salve, meu divino pai; salve cinzas que me foram inutilmente trazidas. (Virg. Aen. Lib. 5,80).
[50] Mentiras oficiosas.
[51] Tertul. Apolog. cap. 27.
[52] Maximil. Sand. in Dedic. lib. de Morte.
[53] Sou amigo de Platão, mas sou ainda mais amigo da verdade.
[54] Não morrereis de morte (Gên. 3, 4).
[55] Na metade de meus dias (Is. 38, l0).
[56] Tu, ó rei, começaste a pensar (Dan. 2, 29).
[57] Teu pai, digo, ó rei (Dan. 5, 11).
[58] Diante de ti, ó rei, não cometi delito algum (Dan. 6, 22).
[59] Ita Maldon. ibi.
[60] Médico, cura-te a ti mesmo (Lc. 4, 23).

Fonte: https://www.literaturabrasileira.ufsc.br/documentos/?action=download&id=49873