Sermão das chagas de São Francisco (1646)

SERMÃO DAS CHAGAS DE S. FRANCISCO,

Em Lisboa, na Igreja da Natividade, Ano de 1646.


Si quis vult post me venire, abneget semetipsum, tollat crucem suam, et sequatur me[1].

I – As cinco coisas que aconselha Cristo no Evangelho de hoje.

Se alguém quiser alistar-se debaixo das minhas bandeiras — diz Cristo, Redentor nosso — há de negar-se a si mesmo, tomar a sua cruz às costas, e seguir-me.

Cinco coisas, se bem advertimos, faz Cristo nas palavras deste texto, as quais, não sem grande mistério, no dia e solenidade em que as lemos, são nem mais nem menos contadamente cinco: duvida uma, supõe outra, e aconselha três. Duvida se haverá quem o queira seguir: Si quis vult post me venire[2]. — Supõe que todos têm sua cruz: Crucem suam[3]. — E aconselha que nos neguemos a nós mesmos: Abneget semetipsum[4] — que tomemos nossa cruz às costas: Tollat crucem suam[5] — e que vamos em seguimento seu: Et sequatur me[6].

II – Por que põe em dúvida o Senhor se haverá alguém que o queira seguir? A verdadeira regra de quem quer a salvação. A mais notável sentença que Cristo disse. Que quer dizer que nos neguemos a nós mesmos? Que leve será a cruz a quem se tiver negado primeiro. A nossa cruz e a cruz alheia. O exemplo de S. Francisco de Assis, estampa a vida de Cristo.

Si quis vult. — Cuidava eu que não havia coisa mais universal no mundo que quererem todos salvar-se, mas parece que devem de ser mui poucos os que o querem, pois Cristo põe em dúvida se haveria alguém: Si quis vult. — O certo é que todos nós nos queremos salvar, mas salvar-nos como queremos, e isto não é querer salvação. Quereis saber se vos quereis salvar? Vede se fazeis pela salvação o que costumais fazer pelo que muito quereis. E se esta é a verdadeira regra do querer, poucos somos os que verdadeiramente queremos salvar-nos. Queremos e não queremos. Em nenhum entendimento cabe esta contradição, e cabe nas nossas vontades: Vult et non vult piger (Prov. 13, 4) — diz o Espírito Santo: O homem preguiçoso e irresoluto quer e não quer. — Quer, porque quer o fim: vult; — não quer, porque não quer aplicar os meios: non vult. — Assim somos nós: queremos e não queremos. Queremos ir ao céu, mas não queremos ir por onde se vai para o céu. No caminho do inferno se vê isto melhor. Ninguém vai ao inferno por sua vontade, e ninguém vai ao inferno senão por sua vontade. Por isso Cristo não duvida do querer, senão do querer ir após ele: Si quis vult post me venire. — O querer e o seguir há de ser conformemente para a mesma parte, que ir a vontade para uma parte, e os passos para outra, é não querer seguir. Não vistes os que remam nas galés, como levam os olhos em uma parte, e a proa em outra? Assim somos nós ao remo desta vida. Se perguntarmos aos nossos desejos onde têm os olhos: no céu. Se olharmos para nossas ações onde levam a proa: no inferno. Eis aqui como queremos.

Abneget semetipsum: Se alguém quer ir após mim, diz o Senhor, negue-se a si mesmo. — Porventura que é esta a mais notável sentença que Cristo disse. Que quer dizer que nos neguemos a nós mesmos? Quer dizer que nos hajamos conosco como se não fôramos nós. Eu, que me haja comigo como se não fora eu; vós, que vos hajais convosco como se não fôreis vós. Oh! que documento tão divino para o bem e para o mal! Se as nossas prosperidades nos vieram como se foram de outrem, que pouco nos haviam de desvanecer! E se as nossas adversidades as tomáramos como se não foram nossas, que pouco nos haviam de molestar! O verdadeiro amigo dizem que é outro eu; o verdadeiro cristão diz Cristo que há de ser um não-eu: Abneget semetipsum. — O verdadeiro amigo é outro eu, porque se há de haver nas coisas do amigo como se foram próprias; o verdadeiro cristão é um não-eu, porque se há de haver nas coisas próprias como se foram alheias. Ao próximo diz Cristo que tratemos como a nós mesmos, e a nós que nos tratemos como se não fôramos nós. Nestes dois pontos se encerra toda a perfeição evangélica: aos outros, como se fora eu, a mim como se eu fora outro. E que vida tão descansada fora a nossa, se assim vivêramos! Que fácil fora a paciência nas injúrias! Que igual a conformidade nos trabalhos! Que moderado o apetite nas pretensões! Que comedido o desejo nos afetos! Enfim, que, senhores fôramos de nós mesmos, e da fortuna! Mas porque não nos despegamos de nós, vimos a andar pegados a tudo, e por isso nos embaraça tudo. Negar-se a si mesmo, dizem que é a maior fineza; e não sei eu comodidade maior; dizem que é o maior ato de amor de Deus, e eu o tenho pela maior destreza do amor-próprio. Só se sabe querer bem quem se sabe livrar de si.

Ao abneget semetipsum ajunta Cristo o tollat crucem suam. — E que leve será a cruz, a quem se tiver negado primeiro! A nossa cruz não tem mais peso que o que nós lhe damos. Se na nossa cruz nos não leváramos a nós, pouco teríamos que levar. Do peso de si mesmo, e não do da cruz, se queixava Jó: Factus sum mihimetipsi gravis[7]. — E não foi Jó o que menos cruz levou neste mundo. Tollat crucem suam: Só a nossa cruz nos manda levar Cristo: bendito ele seja. E quantos há que todos se cansam em levar as cruzes alheias? Até nas cruzes há ambição, onde parece que tinha só lugar a paciência. Que aliviado andara o mundo, e que bem governado, se cada um se contentara com levar a sua cruz! Se Deus vos cortou a vossa cruz pelam medida de vossos ombros, para que quereis tomar outras, com que pode ser que não possais? Mas é engano natural este, com que nascemos, que sempre ou as cruzes alheias nos parecem as mais leves, ou os ombros próprios os mais robustos. Assaz fará cada um em levar a sua cruz, sem cansar nem cair. Cristo houve mister quem o ajudasse a levar a sua, e nós cuidamos que podemos levar as nossas e mais as alheias. A causa cuido eu que é porque olhamos para os títulos das cruzes, e não para o peso delas. Pois, crede-me, que as que parecem mais para cobiçar são as que têm mais que temer. Não vedes que as mais preciosas são as mais pesadas?

Crucem suam. — Supõe Cristo que todos têm sua cruz, e, se com olhos desapaixonados dermos uma volta ao mundo, acharemos que é assim. Que estado há no mundo, desde o mais alto ao mais humilde, desde o mais livre ao mais sujeito, desde o mais abundante ao mais pobre, desde o mais apetecido ao mais desprezado, que, ou por fora, ou por dentro não tenha sua cruz? Umas vemos, outras não vemos, e as menos visíveis são ordinariamente as mais pesadas, porque são as mais interiores, e as que carregam só na alma. É este mundo como o Monte Calvário, em que se acham todos os estados, e todos com cruz, como noutra ocasião ponderamos. Mas somos nós tão mal aconselhados que, não podendo deixar de a levar — pois todos a temos — sofremos o peso, e perdemos o merecimento, porque a não queremos levar em seguimento de Cristo. Se, por deixarmos de seguir a Cristo, tiráramos a cruz dos ombros, ainda tinha alguma desculpa a nossa ingratidão, ou a nossa fraqueza; mas a desgraça é que quanto mais nos afastamos do seguimento de Cristo, tanto mais cresce o peso à nossa cruz. Nenhuma coisa quisera no mundo, senão uma balança fiel, em que os que seguem a vaidade e os que seguem a Cristo vieram pesar suas cruzes. Oh! que enganados se haviam de achar uns, e que consolados outros! Mihi mundus crucifixus est, et ego mundo[8]. — Paulo tem cruz, e o mundo tem cruz, mas quanta diferença vai da cruz do mundo à cruz de Paulo! Se os homens acabáramos de conhecer esta verdade, eu vos prometo que o mundo trocara a sua cruz pela cruz de Paulo. Mas a cegueira é que, entre os que têm a profissão de Paulo, não falta — ainda mal! — quem queira trocar a sua cruz pela cruz do mundo. Gente duas vezes mofina, que, por não levar uma cruz com Cristo, vêm a levar ambas sem Cristo.

Que diferentemente entendeu esta filosofia aquele serafim humano, aquele vivo crucificado, aquele cruz e crucifixo de si mesmo, o glorioso patriarca S. Francisco! Negou-se a si, tomou a sua cruz às costas, e seguiu tão de perto a Cristo que, de muito chegado e unido, apareceu hoje com uma viva estampa sua, com as cinco chagas abertas. Pasmou o mundo, assombrado de tão nunca vista maravilha; pasmou a natureza, e pasmou a mesma graça; e nós, para que possamos também pasmar, vamos ponderando cláusula por cláusula o nosso texto, sem sair dele.

III – Por que não diz Cristo: Quem me quiser seguir tome a minha cruz — senão, tome a sua? Por que diz o Senhor que não há de dar a sua glória a outrem? De que glória falava? Da glória que padecia ou da glória que gozava?

A primeira, em que reparo, é o tollat crucem suam. — Manda-nos Cristo que tomemos a nossa cruz, e o sigamos a eles. O exemplo há de ser seu, e a cruz há de ser nossa. E não seria melhor que, assim como a pessoa a que havemos de seguir é a de Cristo, assim a cruz que havemos de levar fosse também de Cristo? Parece que sim. Pois, por que não diz Cristo: Quem me quiser seguir, tome a minha cruz, senão, tome a sua: Tollat crucem suam? — A razão é porque estima Cristo tanto a sua cruz, que a não quer dar a outrem. Como se dissera o Senhor: Quem quiser seguir-me, tome a cruz, mas essa cruz há de ser a sua, que a minha não a dou a ninguém. Não estimo eu tão pouco os tormentos e instrumentos de minha Paixão, que os haja de dar a outrem.

Diz o mesmo Senhor que a sua glória não a há de dar a outrem: Gloriam meam alteri non dabo (Is. 42, 8). — Parece dificultoso este texto, porque Cristo oferece a sua glória a todos os que a quiserem, e dá-a a todos os que a ganham; antes, só para nos dar a sua glória, veio do céu à terra, e a glória que mereceu foi para nós, e não para si, porque para si não a podia merecer. Pois, por que diz que não há de dar sua glória: Gloriam meam alteri non dabo? — Com outro lugar entenderemos este. Antes de Cristo entrar na batalha de sua Paixão, fez oração ao Padre, e disse: Glorifica me, Pater (Jo. 17, 5): Padre meu, glorificai-me[9]. — Cristo não estava glorificado, e não era glorioso desde o instante de sua conceição? Sim, era. Pois, se tinha já a glória, como pedia ao Padre que lha desse? Direi: Cristo, Senhor nosso, neste mundo tinha duas glórias: uma glória que se gozava, outra glória que se padecia. A glória que se gozava era a glória da visão, que consistia na bem-aventurança de ver a Deus; a glória que se padecia, era a glória da Paixão, que consistia nos tormentos que Cristo padeceu pelos homens; e, ainda que Cristo teve a primeira glória desde o instante de sua conceição, a segunda não a teve, senão no dia de sua Paixão, e esta é a glória que pedia a seu Padre: Pater, glorifica me.

Mas como pode ser que a Paixão de Cristo fosse para eles glória? Esta dúvida teve S. João Crisóstomo, e perguntou assim ao mesmo Cristo: Ad crucem raperis cum praedonibus, et hoc gloriam appellas? É possível, Senhor, que ides a ser pregado em uma cruz entre dois ladrões, e a isto chamais glória? — Ita quidem, pro dilectis enim patior: Sim — responde Cristo — é minha glória essa cruz e esses tormentos, porque os padeço por aqueles a quem amo. — Quem padece muito pelo que muito ama, a sua cruz é a sua glória. De maneira que Cristo era duas vezes glorioso: uma vez pela glória da visão, com que sempre via e gozava a Deus; outra vez pela glória da Paixão, com que padecia pelos homens. E estimava Cristo a glória que padecia, tanto mais que a glória que gozava, que da glória que gozava era tão liberal, que a dava a todos, e da glória que padecia era tão avarento, que a quis só para si: Gloriam meam alteri non dabo. — A glória da visão, a glória de ver a Deus, essa seja glória vossa: gozai-a todos quantos quiserdes; mas a glória da Paixão, a glória de padecer pelos homens, esta é glória só minha: não a hei de dar a ninguém. Por isso, quando fala na cruz, diz: Tome cada um a sua, que a minha é só para mim: Tollat crucem suam.

IV – Concedendo Cristo a S. Francisco as cinco chagas da sua Paixão, o admitiu a uma glória a que não quis admitir nem aos homens, nem aos anjos, nem ao mesmo Deus. Por que não quis Cristo a nenhum dos discípulos consigo em sua Paixão, nem tampouco aos anjos? Por que diz Cristo publicamente que seu Pai o desamparou? Os testemunhos de Davi e de Isaías. A glória das chagas, a maior glória de Cristo.

E, sendo isto assim, sendo Cristo tão avarento — deixai-mo outra vez dizer com esta palavra — de seus tormentos, e das glórias de sua Paixão, amou o Senhor tanto a S. Francisco, que lhe deu a melhor parte de sua glória, e a maior glória de sua Paixão, que são as cinco chagas que lhe imprimiu no corpo. Língua seráfica era necessária para ponderar este favor; mas para que a capacidade humana a rasteie de alguma maneira, vede o que digo. Digo que em conceder Cristo a S. Francisco esta parte de sua Paixão, o admitiu a uma glória a que não quis admitir nem aos homens, nem aos anjos, nem ao mesmo Deus. Ora, dai-me atenção.

Vão os soldados prender a Cristo ao Horto, onde o Senhor estava com seus discípulos, e, dando-lhes licença para que o levassem preso, disse, olhando para os apóstolos: Si ergo me quaeritis, sinite hos abire (Jo. 18, 8): Se me buscais a mim, deixai ir a estes. — Pergunto: E por que não deixou Cristo que os judeus prendessem alguns de seus discípulos, para que morressem juntamente com eles? Não era mui conveniente que houvesse algum dos que seguiam a sua doutrina que desse a vida pela verdade dela? E que, já que havia um Judas, que o vendeu, houvesse um Pedro, que o acompanhasse? Se Cristo havia de morrer entre dois ladrões, se havia de ter de uma parte a Dimas, e da outra a Gestas, não fora mais decente que morrera entre dois apóstolos, e que tivera de uma parte a João, e da outra parte a Pedro? Logo, por que não quis Cristo consigo a nenhum dos discípulos em sua Paixão? Porque queria toda a Paixão para si. Se algum dos discípulos fora preso juntamente com Cristo, repartira-se com ele parte do ódio dos tiranos; pois, para que as penas ou a glória de as padecer seja toda minha, diz o mesmo Cristo, vão-se os discípulos embora: Sinite hos abire. — Foi lanço de ambicioso de glórias não querer companhia nos tormentos. Vede aonde chegou o amor de Cristo para com os discípulos, e aonde não chegou. Chegou a padecer por eles todas as penas da Paixão; mas a dar-lhes parte dessas penas, não chegou a tanto. Que tenha eu por glória o padecer por meus discípulos, isso sim; mas que os haja de admitir a serem comigo companheiros dessa glória, isso não. Só essa exceção tem a liberalidade de meu amor: Sinite hos abire.

Mais. Quando o Senhor mandou a S. Pedro que embainhasse a espada, disse: An putas quia non possum rogare Patrem meum, et exhibebit mihi modo plusquam duodecim legiones Angelorum (Mt. 26, 53)? Imaginas, Pedro, que não posso rogar a meu Padre, e me mandará logo do céu mais de doze legiões de anjos? — Notável razão! Não estava mais achado dizer Cristo: Embainha, Pedro, a espada, porque para me defender a mim não são necessárias nenhumas armas, e muito menos as tuas? Não vês como só com uma palavra acabo de prostrar por terra meus inimigos? — Pois, se esta razão estava tanto à flor da terra, por que vai Cristo buscar outra ao céu? E por que faz menção dos anjos nesta ocasião? Por que, como os anjos costumam assistir e ajudar invisivelmente as ações humanas, soubessem os homens por esta advertência que nem os anjos do céu admitia Cristo à companhia de suas penas. São os anjos impassíveis por natureza, são espíritos que não podem padecer corporalmente, e era Cristo tão amante das penas da sua Paixão, que até dos impossíveis as ciava. Por isso não quis ter anjos por companheiros em sua Paixão, porque, ainda que lhe não podiam participar dos tormentos pela paciência, podiam-lhe levar parte da glória pela companhia. Parte da glória de suas penas, nem aos anjos a dá Cristo: An putas, quia non possum rogare Patrem meum, et exhibebit mihi modo plusquam duodecim legiones angelorum?

Último encarecimento sobre todos. Antes de expirar na cruz, o Senhor põe os olhos no céu, e diz: Deus meus, Deus meus, ut quid dereliquisti me? (Mc. 15, 34): Deus meu, Deus meu, para que me desamparaste? — Todos perguntam aqui por que razão o Padre desamparou ao Filho, e por que quis o Filho que o Padre o deixasse. Mas eu pergunto mais: Por que fez Cristo esta queixa de público? O que passa entre os pais e os filhos — e muito mais se são razões de queixa — não é justo que saia à praça, quanto mais que, onde o Pai era Deus, não lhe era necessário ao Filho falar, para declarar seu sentimento. Pois, por que diz Cristo publicamente que seu Pai o desamparou? Porque quis o Senhor que soubesse o mundo que foi tão só em padecer pelos homens, que nem a companhia de seu próprio Pai aceitou em seus tormentos. A pessoa do Pai e a do Filho nenhuma coisa têm que se não comuniquem, e que não seja comum entre ambos; mas quis Cristo ser tão singular nas penas de sua Paixão, que nem a seu próprio Padre — da maneira que podia ser — quis ter por companheiro nelas. Tinha Cristo dito pouco antes a seus discípulos: Me solum relinquatis: et non sum solus, quia Pater mecum est (Jo. 16, 32): Ainda que vós fujais todos, e me deixeis só, eu não ficarei só, porque meu Padre está sempre comigo. — E para que soubessem os discípulos que, até em respeito do Padre, quis ser só em sua Paixão, por isso disse ao mesmo Padre que o desamparara: Deus meus, Deus meus, ut quid dereliquisti me?

Pedis-me doutores que o digam? Mais que doutores vos hei de dar: Davi e Isaías, ambos em pessoa de Cristo. Davi: Singulariter sum ego, donec transeam (Sl. 140, 10): Achei-me só, e sem estar alguém comigo no tempo em que passei desta vida para a outra. — Isaías: Torcular calcavi solus, et de gentibus non est vir mecum (Is. 63, 3): Quando fui espremido no lagar de minha Paixão, nenhuma pessoa se achou comigo. — Ambos disseram bem, mas melhor Davi. Isaías, fazendo menção dos homens, excluiu só aos homens da companhia de Cristo em sua Paixão: De gentibus non est vir mecum. — Davi, não fazendo menção de alguém, excluiu a todos: Singulariter sum ego. — E assim foi, porque Cristo na glória de sua cruz não foi só uma só vez, senão três vezes só: só, sem companhia de homens: Sinite hos abire[10] — só, sem companhia de anjos: Exhibebit mihi plusquam duodecim legiones angelorum[11] — só, sem companhia do mesmo Deus: Deus meus, Deus meus, ut quid dereliquisti me[12]?

E sobre esta ponderação — oh! assombro da grandeza de Francisco! — naquela glória em que Cristo não admitiu a companhia dos homens, nem a dos anjos, nem a do mesmo Deus, nessa mesma glória deu tanta parte a S. Francisco, que lhe deu suas próprias chagas, que é a principal glória de sua Paixão. Prova? Sim.

Quando Cristo subiu triunfante ao céu, os anjos que o acompanhavam disseram aos que estavam de guarda: Attollite portas, Principes, vestras, et introibit Rex Gloriae (Sl. 23, 7): Abri, ó Príncipes, as portas, para que entre o Rei da Glória. — Estranharam eles o termo e o nome, e, antes de abrirem, perguntaram: Quis est iste Rex Gloriae (ibid. 8)? Este, que chamais Rei da Glória, quem é? — A uns anjos, e por outros, respondeu Santo Agostinho com estas excelentes palavras: Viderunt caelites cuncti speciosum vulneribus Christum, et admirantes fulgentia divinae virtutis vexilla, talibus concrepant hymnis: Quis est iste Rex Gloriae? Quer dizer Agostinho que a causa por que os anjos chamam Rei da Glória a Cristo é porque lhe viam as cinco chagas abertas. — Grande dizer! Cristo, Senhor nosso, no dia de sua Ascensão, ia vestido dos dotes gloriosos, como bem-aventurado que era; mas os anjos não lhe chamaram Rei da Glória porque o viram glorioso, senão porque o viram chagado, porque maior glória eram para Cristo e para os anjos os sinais de sua Paixão, que os dotes de sua bem-aventurança. E, sendo esta glória das chagas maior glória de Cristo que sua mesma glória, esta glória comunicou Cristo a S. Francisco, e lhe deu a eles, o que prometeu de não dar a outrem: Gloriam meam alteri non dabo.

V – Por que deu o Senhor a S. Francisco o que tinha prometido de não dar a outrem? S. Francisco, Cristo por transformação. O que diz a Teologia Mística.

Mas, se Cristo prometeu de não dar sua glória a outrem, como a deu a S. Francisco? A palavra de Deus, ou prometendo, ou negando, é inviolável; pois, por que deu a S. Francisco o que tinha prometido de não dar a outrem? Por quê? Porque S. Francisco não era outrem. Parece paradoxo, mas no nosso texto o temos, e entra a segunda cláusula dele.

Si quis vult post me venire, abneget semetipsum: Se alguém me quiser seguir — diz Cristo — negue-se a si mesmo. — E que quer dizer negue-se a si mesmo? Quer dizer que cada um há de deixar de ser o que é. Nem eu hei de ser eu, nem vós haveis de ser vós. E assim o fez S. Francisco. Negou-se de tal maneira a si mesmo, que deixou totalmente de ser o que dantes era. Pois, se Francisco não era Francisco, que era? Era Cristo. Claramente, por palavras de S. Paulo: Vivo ego, jam non ego (Gal. 2, 20): Vivo eu, mas já não eu: eis aqui negar-se a si mesmo. Eu não-eu. Pois, se vós não sois vós, quem sois? Vivit vero in me Christus[13]. — Eu sou Cristo por transformação. De maneira que deixou Francisco de ser o que era, e passou a ser o que não era. Por força da abnegação, deixou de ser o que era, deixou de ser Francisco: Vivo ego, jam non ego. — E por força da transformação passou a ser o que não era, passou a ser Cristo: Vivit vero in me Christus. — E como Francisco já não era Francisco, senão Cristo, daqui veio que, dando-lhe o Senhor a glória de suas chagas, a não deu a outrem, como tinha prometido: Gloriam meam alteri non dabo.

Isto não tem exemplo na terra, nem nas coisas humanas: tem-no só no céu, e nas divinas. São Jerônimo entende estas mesmas palavras ditas pelo Padre Eterno: Gloriam meam alteri non dabo — e assim ficam muito mais dificultosas. E se não, vede. O Eterno Padre é de fé que dá toda a sua glória ao Filho e ao Espírito Santo. Pois, como diz que a não há de dar a outrem? Porque, ainda que o Filho e o Espírito Santo se distinguem realmente do Padre, são a mesma coisa com ele, porque são o mesmo Deus. E dar a glória a quem é a mesma coisa comigo, não é dá-la a outrem: Gloriam meam alteri non dabo. — O mesmo digo no nosso caso. Diz Cristo que não há de dar as glórias da sua Paixão a outrem, e, contudo, deu-as a S. Francisco, porque, como S. Francisco, por força da abnegação, deixou de ser Francisco, e por força da união, ou unidade, passou a ser Cristo, ainda que Cristo dê a sua glória a Francisco, não a dá a outrem: Alteri non dabo.

Cuidareis que são isto pensamentos; não são senão verdades sólidas, e Teologia rigorosa. Não a achareis vós nos Vasques, nem nos Soares, nem nos outros teólogos escolásticos; mas achá-la-eis nos que trataram a Teologia Mística, e muito mais nos que a experimentaram. Lede Dionísio Areopagita, lede Taulero, lede Rusbróquio, lede Canfil, lede Santa Teresa, os quais todos querem que esta transformação do homem com Deus seja por união real e verdadeira. E se não, explicai-me bem aquelas palavras de Cristo: Sicut tu Pater in me, et ego in te, ut et ipsi in nobis unum sint (Jo. 17, 21): Assim como vós, Pai meu, sois uma mesma coisa comigo, e eu convosco, assim sejam os homens conosco a mesma coisa. — Põem os contemplativos cinco graus para subir onde chegou S. Francisco: Aniquilação, Conformidade, Transformação, Identidade e Deificação. Por todos estes subiu Francisco: subiu pela Aniquilação, deixando de ser o que era; subiu pela Conformidade, conformando-se com a vontade divina; subiu pela Transformação, transformando-se em Deus; pela Identidade, identificando-se com eles; e pela Deificação, ficando endeusado todo, ou ficando todo um Deus. E como era a mesma coisa com Deus e com Cristo, dando-lhe Cristo a sua glória, não a deu a outrem, como tinha prometido: Gloriam meam alteri non dabo.

VI – Dizendo Cristo aos outros que o seguissem, só a S. Francisco consentiu que o igualasse. Diferença entre o seguir e o acompanhar a Cristo. O sacrifício de Abraão e o sacrifício e Paixão de Cristo. Por que não permitiu Deus que Isac chegasse a morrer? José, retrato de Cristo vendido, e Lázaro, retrato de Cristo sepultado. S. Francisco, retrato ao natural de Cristo chagado.

Daqui se segue — e é a terceira cláusula do nosso texto — que, dizendo Cristo aos outros que o seguissem, só a S. Francisco consentiu que o igualasse. Ora, notai. Tollat crucem suam, et sequatur me: Tome a sua cruz, e siga-me. — Pergunto: Por que diz siga-me, e não diz acompanhe-me? Porque quem segue fica sempre atrás, e quem acompanha bem pode ir igual, e Cristo, nas matérias de sua cruz e Paixão, ainda que queria que o seguissem todos por imitação, não queria que alguém se lhe emparelhasse por igualdade. Manda Deus a Abraão que lhe sacrifique seu filho; toma Isac a lenha às costas, sobe ao monte, deixa-se atar para o sacrifício, e, quando já o pai ia a descarregar o golpe, diz Deus: Non extendas manum tuam super puerum (Gên. 22, 12): Tem mão: Não mates a teu filho. — E por que não quer Deus que se execute sacrifício, que inda agora tinha mandado fazer? Se é porque tinha prometido que em Isac se continuaria a descendência de Abraão, havia mais que ressuscitar outra vez a Isac? Pois, se era tão fácil o remédio, por que não quer Deus que Isac morra? Clemente Alexandrino: Ut primas partes Verbo cederet. — O sacrifício de Abraão era figura do sacrifício e Paixão de Cristo; pois por isso não permitiu Deus que Isac chegasse a morrer, para que nas matérias da Paixão tivesse Cristo o primeiro lugar, e não se pusesse Isac ombro por ombro com ele. Isac levou a lenha às costas, como Cristo levou a cruz; subiu ao monte, como Cristo; deixou-se atar para o sacrifício sem falar palavra, como Cristo; se lhe tiraram também a vida, como a Cristo, ficava em tudo com Cristo ombro por ombro. Pois, para que fique atrás, e não iguale, para que siga, e não emparelhe, morra Cristo, e ele fique vivo, e falte-lhe da Paixão a melhor parte, que só a S. Francisco consente Cristo que o iguale; os demais sigam, e fiquem atrás: Si quis vult post me venire.

E se não, respondam-me: Se Cristo queria dar chagas a S. Francisco, por que lhe não deu quatro somente, ou por que lhe não deu seis, senão cinco, nem mais nem menos? Porque não só lhe quis dar a imitação, senão a perfeita igualdade. Oh! que grande favor! Quis Deus fazer favor a José de que fosse vendido como Cristo; mas, se bem repararmos, acharemos que Cristo foi vendido por trinta dinheiros, e José só por vinte: Vendiderunt eum Ismaelitis, viginti argenteis[14]. — Pois, se foi figura de Cristo, e Cristo foi vendido por trinta, por que o venderam a ele por vinte? Ouvi a S. Pascásio: Quia servus non debebat esse pretiosior Domino suo: Porque era servo, e não havia de ser igual com seu Senhor. — Concedeu-lhe a imitação na venda, mas negou-lhe a igualdade no preço. Falando, porém, determinadamente do mesmo Cristo, quis Cristo fazer favor a Lázaro de que fosse sepultado, e depois ressuscitado, como eles; mas Cristo esteve na sepultura três dias, e Lázaro quatro. Pois, se lhe concedeu que ressuscitasse depois de morto, à sua imitação, por que lhe não concede a igualdade nas circunstâncias? Disse-o S. Pedro Crisólogo: Ne aequalis Domino videretur: Por que tivesse diferença o servo de seu Senhor. — De maneira que José, figura de Cristo vendido, e Lázaro, figura de Cristo sepultado; mas José vendido por menos dinheiros, e Lázaro sepultado de mais dias, para que um por mais, e outro por menos, nenhum igualasse a Cristo. Só Francisco o igualou, porque as suas chagas não foram menos que as de Cristo, nem foram mais, senão justamente cinco, nem mais nem menos. José foi retrato de Cristo vendido, mas não foi retrato ao natural, porque Cristo foi vendido por trinta dinheiros, e José só por vinte. Lázaro foi retrato de Cristo sepultado, mas não foi retrato ao natural, porque Cristo esteve três dias na sepultura, e Lázaro quatro. Só S. Francisco foi retrato ao natural de Cristo chagado, porque, se Cristo teve cinco chagas, S. Francisco, nem mais nem menos, teve outras cinco. Francisco igualou, os outros seguiram: Et sequatur me.

VII – Que chagas foram as que Cristo deu a S. Francisco? As chagas do corpo e as chagas da alma de Cristo. As chagas do corpo de Cristo espiritualizadas na alma da Senhora, e as chagas da alma de Cristo encarnadas no corpo de S. Francisco. Se Cristo imprimiu as chagas na alma da Senhora na realidade de seu corpo, por que razão, para as imprimir em S. Francisco, toma a transformação de espírito? A impressão das chagas de Cristo em S. Francisco por um serafim profetizada pelas Escrituras.

Mas que chagas foram estas que Cristo deu a S. Francisco? A pergunta parece mal fundada, mas a resposta vos dirá que fundamento tem. Todos dizem que as chagas que Cristo deu a S. Francisco foram as chagas de seu corpo. Eu digo que as chagas de S. Francisco não foram as chagas do corpo de Cristo, senão as chagas da sua alma.

Para inteligência deste tão extraordinário pensamento, havemos de supor duas coisas: primeiramente suponho que, assim como a humanidade de Cristo se compõe de alma e corpo, assim as chagas de Cristo se compõem de chagas do corpo e chagas da alma. Esta suposição é de S. Bernardo: Judaei non solum manus, sed et pedes, et latus quoque, et sanctissimi cordis intima furoris lancea perforaverunt, quod jam dudum amoris lancea fuerat vulneratum: As chagas dos pés, das mãos, e do lado de Cristo, fê-las o ódio dos judeus; mas já as tinha feito o amor dos homens muito tempo antes. — O ódio fê-las no corpo, o amor tinha-as feito na alma. Prova o mesmo S. Bernardo o novo pensamento com o passo dos Cantares: Vulnerasti cor meum, soror mea, sponsa; vulnerasti cor meum (Cânt. 4, 9): Feriste-me o coração, esposa minha — diz Cristo à Sinagoga — feriste-me o coração. — Cristo, Senhor nosso, no lado não teve mais que uma chaga; pois, se no lado foi ferido uma só vez, como diz que lho feriram duas? Porque cada ferida de Cristo foram duas feridas, e cada chaga duas chagas: uma, que lhe fez o ódio no corpo; outra, que lhe tinha feito o amor na alma: Quid necessarium fuit illud ab inimicis vulnerari, si jam vulneratum est[15]? — conclui o mesmo S.Bernardo. De maneira que Cristo teve chagas dobradas, umas no corpo, outras na alma.

A segunda coisa que havemos de supor, é que as chagas do corpo de Cristo se imprimiram na alma da Senhora. Esta segunda suposição é de Amoldo Carnotense: Fugientibus apostolis, in faciem Filii se opposuerat Mater, et gladio doloris animae ejus infixo vulnerabatur spiritu, et crucifigebatur affectu: et quod in carne Christi agebant clavi et lancea, hoc in ejus mente compassio naturalis, et affectionis maternae angustia. — Quer dizer que, fugindo os apóstolos, a Senhora se pôs em pé diante do Filho, retratando-se tão vivamente nele, que ambos estavam crucificados: ele crucificado em carne, ela crucificada em espírito: Vulnerabatur spiritu, et crucifigebatur affectu. — E como os crucifixos eram dois, as chagas também eram duas, ou dobradas; só com esta diferença: que as chagas do Filho faziam-nas os cravos e a lança, mas as chagas da Mãe fazia-as a dor e a compaixão: Et quod in carne Christi agebant clavi et lancea, hoc in ejus mente compassio naturalis, et affectionis maternae angustia. — Prova o mesmo Arnaldo o seu pensamento com a profecia de Simeão: Et tuam ipsius animam pertransibit gladius[16]. — Foi tão aguda a espada da Paixão, que traspassou corpo e alma; mas o corpo estava em uma parte e a alma noutra, porque o corpo era de Cristo, e a alma da Mãe: Tuam ipsius animam pertransibit gladius.

De sorte — resumindo todo o discurso — que Cristo tinha chagas da alma e chagas do corpo; e, assim como as chagas do corpo as imprimiu na alma da Senhora, assim as chagas da alma as imprimiu no corpo de Francisco. Quis Cristo fazer uma como encarnação e união de suas chagas em duas criaturas dignas de tanto favor: as chagas de seu corpo espiritualizou-as na alma da Virgem Maria, e as chagas de sua alma encarnou-as no corpo de S. Francisco. O corpo naturalmente apetece unir-se à alma, e a alma naturalmente apetece unir-se ao corpo. Assim aconteceu às chagas do corpo e alma de Cristo: as do corpo pediam alma, e deu-lhes Cristo a alma de Maria; as da alma pediam corpo, e deu-lhes Cristo o corpo de Francisco. Quereis prova? No mesmo caso a temos. Quando Cristo imprimiu as chagas a S. Francisco, veio em figura de um serafim. E por que não veio em própria figura? Se para receber as chagas se fez o Verbo homem, por que razão, para as imprimir, se fez Cristo anjo? Mais. Se Cristo imprimiu as chagas na alma da Senhora na realidade de seu próprio corpo, por que razão, para as imprimir em S. Francisco, toma a transformação de Espírito? A razão é porque Deus, ainda quando obra sobrenaturalmente, usa dos instrumentos mais proporcionados aos efeitos; e, para imprimir chagas no corpo, é mais proporcionado instrumento o espírito, e, para imprimir chagas no espírito, é mais proporcionado instrumento o corpo. Por isso, quando imprimiu as chagas no corpo de S. Francisco, veio em figura de um espírito, assim como, quando as imprimiu na alma da Virgem, estava em realidades de corpo.

Sim. Mas por que foi este espírito serafim, e não outro anjo das outras jerarquias? Porque as chagas da alma de Cristo fê-las o amor: Quod jam dudum amoris lancea fuerat vulneratum. — E, como entre todos os anjos os serafins são os espíritos do amor, ao serafim, e não a outro, competia esta gloriosa execução. Para Deus receber as chagas, tomou a natureza humana, e para as imprimir tomou a natureza angélica, para que, já que a natureza angélica não teve parte na encarnação do Verbo, tivesse parte na encarnação das chagas de Francisco. E haverá Escritura que nos diga esta mesma impressão das chagas de Cristo, não por outrem, senão por um serafim, que também veremos ser o mesmo de que Deus fiou esta grande obra? Vai a Escritura, e seja a última de tantas, e a mais admirável.

Quando Zorobabel, depois do cativeiro de Babilônia, estava reedificando o Templo, revelou-lhe Deus, por um anjo, que naquele mesmo Templo havia de pôr uma pedra tão maravilhosamente lavrada, que levaria após si os olhos e admiração do mundo, e que a escultura desta pedra havia de ser duas vezes lavrada e duas vezes esculpida: Super lapidem unum septem oculi sunt; ecce ego caelabo sculpturam ejus[17]. — Este é um dos mais dificultosos lugares da Escritura, e o texto original aclara ou escurece mais a dificuldade, porque, onde a Vulgata tem caelabo sculpturam ejus, lê Áquila: Aperiam aperturam ejus: Abrirei as suas aberturas — e Símaco e Teodosião: Sculpam sculpturam ejus: Esculpirei as suas esculturas. — Abrir-se e esculpir-se uma pedra, bem se entende; mas, depois de estar aberta e esculpida, abrirem-se as mesmas aberturas, e esculpirem-se as mesmas esculturas, como pode ser? Saibamos qual era a pedra, e quais eram as esculturas, e logo entenderemos o mistério. A pedra, como declara o mesmo texto, era Cristo: Ecce enim ego adducam servum meum Orientem, id est, Christum[18]. — Por isso prometeu o anjo que esta pedra seria trazida ao templo de Zorobabel, e não ao templo de Salomão, porque o templo que estava em tempo de Cristo, e em que Cristo tantas vezes entrou e pregou, não era o templo de Salomão, senão o de Zorobabel. Esta era a pedra. E as esculturas desta pedra, quais eram? Todos os padres e intérpretes respondem, e a mesma experiência o mostrou, que as esculturas da pedra Cristo, foram as chagas que com os cravos e lança se abriram e entalharam em seu corpo santíssimo: Istum lapidem clavis Crucis, et lancea militis faciam vulnerari[19] — comentou S. Jerônimo. E como as chagas que uma vez se abriram e esculpiram no Monte Calvário, se haviam de abrir e esculpir outra vez no Monte Alvérnio, por isso diz o anjo que não só se havia de abrir e esculpir a pedra, senão que se haviam de abrir as mesmas aberturas, e que se haviam de esculpir as mesmas esculturas, uma vez abertas e esculpidas em Cristo, outra vez abertas e esculpidas em Francisco. Em Cristo, aberta e esculpida a pedra, em Francisco, abertas e esculpidas as esculturas: Aperiam aperturam, et sculpam sculpturam ejus. — E quem foi o anjo que isto disse? Milagroso caso a nosso intento. O anjo que isto disse foi o serafim S. Miguel, o mesmo que imprimiu as chagas a São Francisco naquele monte, contemplando a Paixão de Cristo, e jejuando uma quaresma em honra de S. Miguel; e por isso, com muita razão, foi o mesmo S. Miguel o ministro e instrumento que Cristo escolheu, e o serafim de que se vestiu para a impressão das chagas. Assim o afirmam e provam graves comentadores do Apocalipse, sobre aquelas palavras: Vidi alterum angelum habentem signum Dei vivi[20]. — E como o mesmo S. Miguel, que falava como profeta, era o que havia de fazer esta impressão, por isso, não só disse que haviam de ser impressas e restampadas aquelas chagas, senão que ele mesmo havia de ser o que as imprimisse: Ego caelabo sculpturam ejus: Eu, eu sou o que, depois de abertas estas aberturas no corpo de Cristo, as hei de tornar a abrir: Ego aperiam aperturam. — Eu sou o que, depois de esculpidas estas esculturas, as hei de tornar a esculpir: Ego sculpam sculpturam ejus.

VIII – Quantas e quão gloriosas conseqüências se poderão tirar em assombro das glórias de Francisco! Conclusão.

Oh! quantas e quão gloriosas conseqüências se poderão daqui tirar em assombro das glórias de Francisco! Mas fiquem para outros, que eu tenho dito mais do que quisera, porque, de tudo quanto ouvistes, não temos nada que imitar. Nas outras festas dos santos concluem-se os sermões com exortar a que os imitemos. Nesta, a que vos hei de exortar? A que peçais a Cristo que vos imprima também as suas chagas? Eis aqui quem é São Francisco, que nem à sua imitação é bem que aspiremos nossos desejos. Contudo, quero deixar dois pontos à vossa meditação, que são os principais que devemos considerar nestas chagas, enquanto dadas e enquanto recebidas: enquanto dadas, e enquanto chagas de Cristo, considerai quanto amou Deus aos homens; enquanto recebidas, e enquanto chagas de Francisco, considerai quanto pode um homem amar a Deus. A confusão que daqui devem tirar nossas ingratidões fique ao juízo de cada um. Oh! se o temos, que pasmo será o nosso do imenso que devemos a Deus, e do mal que lhe correspondemos! Não sei que contas havemos de dar a Deus quando no-las pedir à vista de S. Francisco! Estou para dizer que não nos hão de acusar menos, no dia do Juízo, as chagas de S. Francisco que as chagas de Cristo. Enfim, Cristo era Deus, e Francisco era homem; e, à vista de tanto dever da parte de Deus, e de tanto poder da parte nossa, não sei que há de ser de nós, que tão pouco fazemos! Valha-nos a graça divina, penhor da glória.

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[1] Se algum quer vir após de mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz, e siga-me (Mt. 16, 24).
[2] Se algum quer vir após de mim (Mt. 16, 24).
[3] A sua cruz (ibid.).
[4] Negue-se a si mesmo (ibid.).
[5] Tome a sua cruz (ibid.).
[6] E siga-me (ibid.).
[7] Tenho-me feito pesado a mim mesmo (Jó 7, 20).
[8] O mundo está crucificado para mim, e eu crucificado para o mundo (Gal. 6,14).
[9] Ita Syrus et Arabicus.
[10] Deixai ir estes (Jo.18, 8).
[11] Porá aqui logo prontas mais de doze legiões de anjos (ML. 26, 53).
[12] Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste (Mc. 15, 34)?
[13] Mas Cristo é que vive em mim (Gal. 2, 20).
[14] Venderam-no aos ismaelitas por vinte dinheiros de prata (Gên. 37, 28).
[15] Por que então foi necessário ser ferido pelos inimigos, se já está ferido (S. Bern.)?
[16] E será esta uma espada que traspassará a tua mesma alma (Lc. 2, 35).
[17] Sobre esta pedra única estão sete olhos; eis aqui estou eu que a lavrarei com o cinzel (Zac. 3, 9).
[18] Eis aqui estou eu que farei vir o Oriente, meu servo, isto é, Cristo (ibid. 8).
[19] Ferirei esta pedra com os cravos da cruz e a lança do soldado (S. Jerôn)
[20] Vi outro anjo tendo o sinal do Deus vivo (Apc. 7, 2).

Fonte: https://www.literaturabrasileira.ufsc.br/_documents/0043-01938.html