Sermão da Exaltação da Santa Cruz (1645)

SERMÃO DA EXALTAÇÃO DA SANTA CRUZ,

No Convento da Anunciada, em Lisboa, ano de 1645.


Nunc judicium est mundi: nunc princeps hujus mundi ejicietur foras. Et ego, si exaltatus fuero a terra, omnia traham ad me ipsum[1].

I – Um sermão à religião e ao mundo. Os dois gêneros de cruzes: a cruz material e a cruz espiritual, a nossa cruz e a cruz de Cristo. A Exaltação da Cruz material de Cristo, e a libertação de nossa cruz espiritual.

Uma prática espiritual, com acidentes de sermão, é o que temos hoje para ouvir. Encomendaram-me ao princípio que fizesse neste dia uma prática da Exaltação da Cruz, encaminhada somente a espíritos religiosos, e depois, mudando-se de parecer, ou estendendo-se a caridade e a devoção, ordenaram que a cadeira se trocasse com púlpito, que as portas se abrissem, e o que havia de ser prática particular fosse sermão para todos. Assim será: pregaremos à religião, e pregaremos ao mundo, mas da cruz espiritual a ambos.

Para inteligência desta não ordinária matéria, havemos de pressupor que há dois gêneros de cruzes neste mundo: uma cruz material e outra espiritual. A cruz material, é aquele sagrado lenho em que Cristo, Salvador nosso, obrou os mistérios divinos da redenção do gênero humano. A cruz espiritual é a mortificação interior e exterior do corpo e alma, com que os verdadeiros cristãos, e particularmente os que professamos vida religiosa, crucificam suas paixões e apetites. Desta segunda cruz falava S. Paulo, quando disse: Qui carnem suam crucifixerunt cum vitiis et concupiscentiis suis (Gal. 5, 24): que crucificaram sua carne com seus vícios e desordenados desejos — e da mesma cruz falou Cristo naquele desengano que deu a todos: Si quis vult venire post me, tollat crucem suam, et sequatur me (Mt. 16, 24; Mc. 8, 34): Se alguém quiser vir após mim, tome a sua cruz, e siga-me.

Estas duas cruzes, com serem tão diferentes, ambas são instrumentos de nossa redenção, porque, para um homem se salvar, não bastam só os merecimentos de Cristo, são necessários também merecimentos próprios. Na cruz material temos os merecimentos de Cristo, na cruz espiritual temos os merecimentos nossos. A cruz material foi instrumento da redenção de todos, quanto à suficiência; a cruz espiritual é instrumento da redenção de cada um, quanto à eficácia. Donde se segue que, em certa maneira, importa mais para a salvação a nossa cruz que a cruz de Cristo, porque sem a cruz de Cristo ninguém se pode salvar, mas com a nossa cruz ninguém se pode perder. Depois de Cristo morrer na cruz por amor de nós, muitos se perdem; mas os que tomam a sua cruz em seguimento perseverante de Cristo, todos se salvam.

Isto posto, quinta-feira celebrou a Igreja a festa da Exaltação da Cruz material, quando o imperador Heráclio a libertou do cativeiro da Pérsia, onde a tinha levado Cosroas, tirando-a de Jerusalém; porém hoje celebraremos a Exaltação da Cruz espiritual, que, bem considerada em suas circunstâncias, será ainda maior e mais cristã solenidade, porque, se a cruz material esteve cativa catorze anos, a cruz espiritual está cativa desde o princípio do mundo, que na árvore vedada, e na desobediência de Adão, se deu princípio a seu cativeiro; e se a cruz material esteve cativa só em Pérsia, a cruz espiritual esteve e está cativa em todos os reinos e em todas as nações do mundo, porque não só os judeus a têm por escândalo: Judaeis quidem scandalum (1 Cor. 1, 23) — nem só os gentios a têm por ignorância: Gentibus autem stultitiam (ibid.) — mas ainda os mesmos cristãos, que adoram a cruz material de Cristo, a aborrecem, e vituperam a espiritual, como chorava S. Paulo: Nunc autem et flens dico, inimicos crucis Christi[2].

E como o cativeiro da cruz espiritual é tanto mais antigo e tanto mais universal que o da cruz material de Cristo, se eu hoje conseguisse deste auditório com as palavras, o que Heráclio antigamente alcançou dos persas com as armas, se hoje libertássemos a cruz espiritual do cativeiro, em que a tem tão sepultada e abatida a opinião e obstinação dos homens, não há dúvida que seria muito maior exaltação da cruz de Cristo esta. Mas tão grandes vitórias não se alcançam sem grandes socorros da graça divina; peçamo-la primeiro ao Espírito Santo, por intercessão da Senhora. Ave Maria.

II – As notáveis palavras de Cristo ao mundo: Hoje é o dia do juízo. Se o dia do juízo há de ser no fim do mundo, como diz Cristo que hoje é o dia do juízo do mundo? O juízo em que os homens são julgados, e o juízo em que os homens julgam. O juízo entre os homens e Cristo. As cruzes deste mundo. Assunto do sermão: o juízo das cruzes: a Cruz de Cristo, a cruz da religião e a cruz do mundo.

Nunc judicium est mundi: nunc princeps hujus mundi ejicietur foras. Et ego, si exaltatus fuero a terra, omnia traham ad me ipsum (Jo. 12, 31).

Hoje, diz Cristo, é o dia do Juízo do mundo; hoje há de ser o mundo lançado fora: e eu, se for crucificado, hei de trazer a todos a mim, — Notáveis palavras! O dia do Juízo do mundo é de fé que há de ser no fim dele; então há de vir Cristo a julgar os vivos e mortos. Pois, se o dia do Juízo há de ser no fim do mundo, como diz Cristo que hoje é o dia do Juízo do mundo: Nunc judicium est mundi[3]? — A razão, posto que a não tocassem os expositores, é esta. Neste mundo quer Deus que haja dois dias do Juízo: Um dia do Juízo, em que os homens sejam julgados; e outro dia do Juízo, em que os homens julguem. No dia do Juízo futuro há de julgar Cristo entre homens e homens; no dia do Juízo presente hão de julgar os homens entre o mundo e Cristo. No dia do Juízo futuro há Cristo de lançar de si aos maus, e chamar a si aos bons; no dia do Juízo presente hão os homens de lançar de si ao mundo: Nunc princeps hujus mundi ejicietur foras[4] — e hão de trazer a si, ou ser trazidos de Cristo: Omnia traham ad me ipsum[5]. — Finalmente, no dia do Juízo futuro há de sair a cruza julgar e a condenar: Tunc parebit signum Filii hominis[6] — no dia do Juízo presente há de sair a cruz a ser julgada e exaltada: Et ego, si exaltatus fuero a terra[7].

Para fazer este juízo entre o mundo e Cristo, entre a cruz de um e a cruz de outro, é necessário supor primeiro que, assim os que seguem ao mundo, como os que seguem a Cristo, todos nesta vida têm suas cruzes. É este mundo como o Monte Calvário, em que se vêem todos os estados dos homens, e todos em cruz. Todos os homens do mundo, ou são justos, ou pecadores, ou penitentes. Se sois justo, haveis de ter cruz, porque Cristo era justo, antes a mesma justiça, e tinha a sua. Se sois pecador, haveis de ter cruz, porque o mau ladrão era pecador, e estava crucificado. E se sois penitente, também haveis de ter cruz, porque o Bom Ladrão era penitente, e a cruz era a maior parte da sua penitência. Se fordes rei, haveis de ter cruz, porque Cristo tinha um título, que dizia: Rex Judaeorum — e o título e mais o rei ambos estavam pregados nela. E se fordes dos que estão ao lado do rei, também haveis de ter cruz, porque ao lado de Cristo estavam Dimas e Gestas, e estavam cada um na sua.

Muito em seu lugar, e muito fora de seu lugar estavam estes dois ladrões. Estavam muito em seu lugar, porque estavam crucificados com as mãos e pés pregados na cruz; e estavam muito fora de seu lugar, porque estavam ao lado do rei. Se viverdes na corte, haveis de ter cruz, que pelas ruas de Jerusalém levou Cristo a cruz às costas; e se viverdes no monte, também haveis de ter cruz, que no Monte Calvário teve a cruz a Cristo nos braços. Enfim, se tiverdes vontade de levar a cruz, levá-la-eis, que Cristo desejou muito leva-la, e levou-a: e se não tiverdes vontade de a levar, também a levareis, que o Cireneu não queria levar a cruz, e forçaram-no a que a levasse. De maneira que, ou por ato de virtude, ou por remédio de necessidade, não há passar esta vida sem cruz. Antes, a maior felicidade dos vivos é como o enterro dos defuntos: quanto mais pompa mais cruzes.

Para sabermos quais devem ser as escolhidas e quais as reprovadas, ajustando a festa com o Evangelho, determino fazer hoje um dia do Juízo das cruzes: Nunc judicium est mundi. — Chamaremos a juízo as cruzes de todo o mundo; e da maneira que no dia do Juízo final se hão de pesar os merecimentos de todos os homens, assim o faremos neste juízo das cruzes, e julgaremos quais delas são mais ou menos pesadas. Sentenciar e examinar cada cruz de per si seria coisa muito dilatada e impossível. Pelo que, acomodando-me às duas partes do auditório, secular e religioso, e não me esquecendo da Exaltação da Cruz de Cristo, que é a solenidade, reduzirei todos os gêneros de cruzes universalmente a três: cruz de Cristo, cruz da religião, cruz do mundo. O Juízo dos homens há-se de fazer no vale de Josafá, o juízo das cruzes fá-lo-emos no Monte Calvário; e assim como no dia do Juízo do vale de Josafá, Cristo há de estar no meio, e à mão direita bons, à mão esquerda maus, assim neste Juízo do monte Calvário, no meio poremos a cruz de Cristo, à mão direita a cruz da religião, à mão esquerda a cruz do mundo. Assentadas nesta forma as três cruzes, começará o rigoroso exame, e para que cada um de nós conheça e tome bem o peso à sua cruz, faremos entre todas três comparações. Na primeira, compararemos a cruz da religião com a cruz de Cristo, e examinaremos qual é mais pesada e mais estreita; se a cruz de Cristo, se a cruz da religião. Na segunda, compararemos a cruz do mundo com a cruz da religião, e examinaremos qual é mais estreita e mais pesada: se a cruz da religião, se a cruz do mundo. Destas comparações e exames assim feitos se seguirão no juízo de toda a boa razão as duas conseqüências que Cristo promete no nosso Evangelho. Primeira, que o mundo seja condenado, e vá fora: Nunc Princeps hujus mundi ejicietur foras. — Segunda, que todos se abracem com Cristo por meio da sua cruz: Et ego, si exaltatus fuero a terra, omnia traham ad me ipsum.

III – Primeira consideração: a cruz da religião e a cruz de Cristo. Primeira circunstância que faz mais pesada a cruz da religião. Por que a cruz da religião é mais estreita que a cruz de Cristo? Os três cravos da cruz de Cristo e o quarto cravo da cruz do religioso: o silêncio. Davi e o tormento do silêncio. Por que deixou o demônio sem lesão a língua de Jó?

Entrando no primeiro exame, e comparando a cruz da religião com a cruz de Cristo, ainda que a cruz de Cristo, absolutamente falando, foi a mais rigorosa de todas as cruzes, contudo, atendendo a muitas circunstâncias particulares, digo que mais estreita é a cruz da religião que a cruz de Cristo. Parece proposição atrevida, mas tenho fiador abonado dela um grande douto, e grande espiritual, Pedro Blesense: Audeo, et dico: In strictiore cruce pendet vir contemplativus, quam Christus: Ouso dizer, e digo. — diz Blesense — que a cruz da religião é mais estreita que a cruz de Cristo, e provo: Christo confixus sum cruci (Gal. 2, 19): Eu, diz S. Paulo, estou crucificado na mesma cruz com Cristo. — Donde se colige claramente que mais estreito e apertado estava na sua cruz S. Paulo do que Cristo na sua, porque Cristo estava só, e S. Paulo na sua estava acompanhado; Cristo na sua cruz não estava com Paulo, e Paulo na sua cruz estava com Cristo: logo, mais estreita é a cruz para Paulo religioso, que para Cristo crucificado.

Para prova desta major estreiteza traz Pedro Blesense uma razão, e eu acho quatro. Comecemos pela sua. É mais estreita a cruz da religião que a de Cristo — diz Blesense — porque, se bem advertis, Cristo na cruz tinha cravados os pés e as mãos, mas não tinha cravada a língua, porque, falava; porém o religioso, não só tem cravado o corpo na cruz da religião, com três votos essenciais de pobreza, castidade e obediência, senão tem cravada e crucificada a língua pela regra do silêncio, que é outro cravo.

Quão terrível circunstância seja esta de não falar, explicou melhor que todos Davi: Quoniam tacui, inveteraverunt omnia ossa mea (Sl. 31, 3): Porque não falei, se me envelheceram os ossos, — Grande tormento deve de ser o silêncio, pois se compara à velhice, que tanto dói a tantos. Se dissera Davi que com o silêncio se lhe fizeram brancos os cabelos, se lhe enrugara o rosto, se lhe entorpeceram os pés, grandes eram os poderes do silêncio; mas o em que reparo é que não só diz que envelheceu porque calou, senão que lhe envelheceram os ossos: Inveteraverunt ossa mea — sim, que é tão grande violência em uma criatura racional o calar, que chega a fazer em poucos dias o que não pode fazer a morte em muitos anos: é tão penetrante o calar, que cala até os ossos.

E qual será a razão? É porque a morte é violência da vida animal, e o silêncio é violência da vida racional. Pela vida nos distinguimos dos mortos, pela fala nos diferençamos dos brutos; por isso, quando Deus infundiu a alma ao homem, em lugar de: Factus est homo in animam viventem[8] — diz o original hebreu: In animam loquentem. — E como o silêncio violenta uma parte superior mais delicada, que é a alma, e a morte violenta uma parte inferior, que é o corpo, por isso são mais excessivos os rigores do silêncio que os da morte.

Entra o demônio a atormentar a Jó, e, cobrindo-lhe de chagas todo o corpo, só lhe deixa livre a boca, e sem lesão a língua: Derelicta sunt tantummodo labia circa dentes meos[9]. — Pergunto: Se o demônio tem tão pouca piedade, como quem ele é, e queria atormentar a Jó com intensas crueldades, por que lhe não atormenta também a boca? Por que lhe deixa sem lesão a língua? Vede: quando Deus deu poder ao demônio sobre Jó, excetuou-lhe a alma: Verumtamen animam illius serva[10] — e como todo o direito do demônio se limitava ao corpo, e não se estendia à alma, por isso, executando martírios em todos os membros de Jó, lhe deixou livre a língua. Os outros membros são instrumentos do corpo; a língua é instrumento da alma, como intérprete do entendimento. E porque a língua é parte da alma, bem dizia eu que, pela circunstância do silêncio, é mais rigorosa a cruz da religião que a cruz de Cristo. Na cruz de Cristo estão cravados os pés e as mãos, que são membros do corpo; na cruz da religião está crucificada também a língua, que é membro da alma. E para fechar todo o discurso, digo, que na cruz de Cristo havia um preceito que não lhe tocassem nos ossos: Os non comminuetis ex eo[11] — e por isso non fregerunt ejus crura[12]; porém, na cruz da religião chegam os tormentos a penetrar os ossos, que é a eficácia do silêncio: Quoniam tacui, inveteraverunt ossa mea.

IV – Por que o falar das religiosas não diminui o martírio da cruz? O silêncio da Esposa dos Cantares, e o silêncio do condenado da Parábola do banquete.

Só vejo que me replicam que o silêncio será grande martírio, mas que as religiosas — com quem, e de quem particularmente falo — também falam. Pudera tapar as bocas a todos, com responder que, ainda que falam as religiosas, essas mesmas palavras saem tão crucificadas quantas são as cruzes de uma grade; mas não é isto o que respondo. Digo que o falar das religiosas não diminui o martírio da cruz, porque, ainda que falam alguma vez, falam com tais circunstâncias, que fazem maior o tormento, porque o seu falar é com escutas, e falar com escuta é maior pena que calar.

Veio o Esposo nos Cantares a buscar a sua Esposa com alguns amigos, e disse-lhe desta maneira: Quae habitas in hortis, amici auscultant; fac me audire vocem tuam (Cânt. 8, 13): Vós, Esposa minha, que habitais nesse horto, fazei-me graça de que eu ouça a vossa voz, porque estão aqui também alguns amigos, que vos escutam, e querem ouvir, — Que responderia a Esposa a esta proposição? — Heu, fuge dilecte mi (ibid. 14): O que eu vos peço, Esposo meu, é que por agora vos vades: em outra ocasião vos falarei. — Non optando loquitur — reparou bem Beda, que a Esposa neste lugar falou contra o que queria, e bem o mostra aquele ai: heu — porque se era seu amado: dilecte mi — claro está que havia de querer falar, e estar com ele. Pois, se a Esposa desejava falar com o Esposo, por que lhe diz que se vá: Fuge? — Não vedes o que dizia o Esposo: Amici auscultant? — Ainda que o Esposo vinha a falar, trazia os amigos por escutas; e houve-se a Esposa discretamente, que muito melhor era não falar. — Ide-vos agora, Esposo meu, que outro dia me falareis, que quanto a falar com escutas, melhor é o silêncio que o locutório. — E se isto é quando os que escutam são amigos — amici — que será quando as escutas forem desafeiçoadas?

A outra razão é porque, ainda que as religiosas falam, falam com licença; e para os que sabemos que coisa é religião, é certo que mais custa a licença que o silêncio. E a razão é clara, porque o silêncio é calar, e a licença é pedir; e muito mais custa abrir a boca para pedir que fechá-la para calar. Entrou o rei da parábola do Evangelho a ver os convidados, e achou um à mesa sem a vestidura de festa: mandou que o prendessem, e levassem logo a um cárcere escuro, donde os condenados saíam a justiçar: Ligatis manibus et pedibus, mittite eum in tenebras exteriores[13]. — Que faria o miserável neste caso? Diz o texto que emudecera: At ille obmutuit[14]. — Pois, homem mal-entendido, que fazes? Por que não te prostras de joelhos aos pés do rei? Por que não lhe pedes perdão? Este rei não é como Herodes, que corta cabeças em dia de convites. Pois, se é Rei piedoso, por que não pedes? Por que emudeces? Emudeceu, porque não se atreveu a pedir. De maneira que, posto um homem entre a morte e a vida, entre o calar e o pedir, antes quis calar com certeza da morte, que pedir com interesse da vida. Logo, bem digo eu que, por todas as razões é mais penoso nas religiosas o falar que o não falar, e por esta circunstância, em ânimos pouco atrevidos, mostra ser mais rigorosa a cruz da religião que a cruz de Cristo.

V – A segunda circunstância que faz mais pesada a cruz da religião: a cruz de Cristo não tira a vista, mas a cruz da religião, ainda que não tira a vida, cerra a vista. Como se vingou Sansão dos olhos que lhe tiraram? Razão pela qual é o Sacramento compêndio de todos os tormentos da Paixão.

A segunda circunstância de rigor que faz mais pesada a cruz da religião que a cruz de Cristo é que a cruz de Cristo não tirava a vista, mas a cruz da religião, ainda que não tira a vida, cerra a vista. A cruz de Cristo não tirou a vista, sendo que tirou a vida, porque estava descoberta em um monte, onde Cristo via o que queria: e assim viu a sua Mãe, e ao discípulo amado: Cum vidisset Jesus matrem et discipulum stantem[15] — mas a cruz da religião, ainda que não tira a vida, é cruz encerrada entre paredes, onde só se pode receber a luz do céu, e não se pode ver nada do mundo. Quão estreita circunstância de cruz seja esta, entenderam melhor que todos, a meu ver, os filisteus.

Fez Sansão aos filisteus os maiores agravos que cabem na maior crueldade. Em um ano os matou, roubou-os, destruiu-os, e afrontou-os. Fizeram eles extraordinárias diligências para o colher às mãos, e, depois que o tiveram em seu poder, diz o texto que lhe tiraram os olhos, e o deixaram vivo. Vivo Sansão? Pois se Sansão matou a tantos filisteus, por que não matam os filisteus a Sansão? Por que entenderam que se vingavam dele melhor tirando-lhe os olhos, e não tirando-lhe a vida. Se os filisteus tirassem a vida a Sansão, não ficavam vingados, por que Sansão tinha tirado muitas vidas, e muitas vidas não se pagam só com uma. Pois, para que o rigor dá vingança seja igual ao número das injúrias que Sansão lhes tinha feito, que fazem? Tiram-lhe os olhos, e deixam-no vivo, porque entenderam que ficava mais castigado vivo sem vista, que morto sem vida. Se mataram a Sansão, morria só uma vez; mas deixam-no sem vista, para morrer tantas vezes quantas queria ver, e não podia.

Bem o entendeu assim o mesmo Sansão, Depois que lhe cresceram os cabelos, fez que o levassem ao templo, e, lançando mão às colunas, dizendo: Assim se vinga Sansão dos olhos que lhe tiraram — deu com o templo em terra, matou-se a si e a todos quantos ali estavam: Pro amissione duorum luminum unam ultionem recipiam[16]. — De maneira que estimou Sansão tanto menos a vida que a vista, que só por vingar a vista quis perder a vida. E se o ver é mais estimado dos homens que o viver, não há dúvida que é mais fácil cruz aquela em que se vê e se morre, do que aquela em que não se vê e se vive. Mais ainda: a cruz de Cristo foi cruz em que ele perdeu o ver, mas não o ser visto; porém a cruz da religião é tal, que nela não só não pode uma religiosa ver, mas nem ser vista; por isso tanto mais pesada, quanto vai de estar sepultado a estar morto. Cristo na morte perdeu o ver, na sepultura o ser visto; porém, enquanto esteve na cruz, nem perdeu o ser visto nem o ver: logo, o estar na cruz da religião, sem ver nem ser visto, não só é estar crucificado, senão morto e sepultado. Donde se segue que é mais rigorosa a cruz, porque é cruz com acidentes de morte e com horrores de sepultura.

Toda a Paixão de Cristo se inclui no Sacramento da Eucaristia. Pois, se Cristo na Paixão padeceu tanto, e no Sacramento está impassível, por que há de ser o Sacramento não só uma cifra da cruz, senão um epílogo de todos os tormentos? Notai. Cristo no Sacramento não pode ver nem ser visto, pelo impedimento dos acidentes, e é tão grande violência estar um homem vivo sem ver nem ser visto, que nesse Sacramento se reduzem a compêndio todos os seus tormentos: Recolitur memoria passionis ejus.

VI – A terceira circunstância que faz mais pesada a cruz da religião: na cruz de Cristo houve uso do gosto e exercício da vontade, mas na cruz da religião nem o gosto tem uso, nem a vontade exercício. Razões por que pondera a Escritura mais a fé de Abraão que a sua obediência. Por que Cristo, Senhor nosso, não quis beber na cruz o fel e vinagre?

A terceira circunstância que faz mais pesada a cruz da religião, é que na cruz de Cristo houve uso do gosto, e exercício da vontade; mas na cruz da religião, nem o gosto tem uso nem a vontade exercício. Disse Cristo na cruz: Sitio (Jo. 19, 28): Tenho sede. — Trouxeram-lhe fel e vinagre: Et cum gustasset, noluit bibere (Mt. 27, 34) — e não quis beber. De sorte que na cruz teve uso o gosto, porque provou: Cum gustasset e teve exercício a vontade, porque não quis: Noluit, — porém, na cruz da religião nem o gosto tem uso, porque não há indiferença para provar, nem a vontade tem exercício, porque não há liberdade para não querer.

Mas a meu ver não é esta a maior diferença de cruz a cruz. A maior diferença da cruz da religião à cruz de Cristo, é que na cruz de Cristo esteve a vontade livre, e na da Religião está o entendimento cativo. Manda Deus a Abraão que lhe sacrifique o filho. Obedece o patriarca, e, ponderando o texto esta ação, diz assim: Credidit Abraham Deo, et reputatum est illi ad justitiam (Rom. 4, 3): Creu Abraão a Deus, e ficou por isso com grande reputação de santo. — Reparo naquela palavra credidit — dizer o texto que creu, havendo de dizer obedeceu. Pois, se obedecer é ato de obediência, e crer é ato de fé, por que pondera mais a Escritura a sua fé que a sua obediência? Respondem os doutores que a obediência de Abraão teve uma grande circunstância da fé, porque, tendo-lhe prometido Deus que lhe daria em Isac grande sucessão, e, mandando-lhe que lho sacrificasse, encontrando-se tanto a promessa com o sacrifício, em nada repara, e obedece Abraão. E a razão por que a Escritura pondera mais a sua fé que a sua obediência, é porque pela obediência sujeitou a vontade, e pela fé cativou o entendimento. E muito maior foi o sacrifício de Abraão por cativar o entendimento que por sujeitar a vontade. Matar a seu filho, era vencer repugnâncias da vontade; crer a Deus em tal caso, era vencer contradições do entendimento: e muito mais fez Abraão em sacrificar contradições do entendimento, que em sacrificar repugnâncias da vontade.

Daqui se entenderá por que Cristo, Senhor nosso, não quis beber na cruz o fel e vinagre. Cristo, pelo muito que nos amava, nenhum tormento recusou, de quantos lhe deram seus inimigos. Pois, se não recusou nenhum dos tormentos, por que não bebe o fel e vinagre? Responde que os outros tormentos deram-lhos por tormentos, mas o fel e vinagre deram-lho por alívio. A cruz deram-lha por cruz, o fel e vinagre deram-lho por água. Os tormentos dados por tormentos podem-se sofrer, porque são violências da vontade; mas tormentos dados por alívio não se podem tolerar, porque são contradições do entendimento. Que me dêem a mim cruz por cruz, tormento é, mas pode-se sofrer; porém, que me dêem fel por água, é tormento que se não pode tolerar. Tais são os tormentos da religião; hão-vos de dar fel, e haveis de crer que é água; o gosto há de dizer que amarga, e o entendimento há de dizer que é doce. Pode haver maior violência? Pois isto é que se padece na cruz da religião.

VII – Quarta circunstância: na cruz de Cristo houve liberdade para entregar o espírito nas mãos do Padre, porém na cruz da religião nem para entregar o espírito nas mãos do padre há liberdade.

A quarta circunstância da cruz, que prometi, não quero ponderar, porque vai faltando o tempo; mas ela é tão evidente, que não há mister ponderação. Estando Cristo na cruz disse: Pater, in manus tuas commendo spiritum meum (Lc. 23, 46): Padre, em vossas mãos encomendo meu espírito. — Vedes aqui a última circunstância em que a cruz da religião excede à cruz de Cristo? Na cruz de Cristo houve liberdade para entregar o espírito nas mãos do Padre; porém na cruz da religião, nem para entregar o espírito nas mãos do padre há liberdade. Na religião tendes um padre, a quem entregais o vosso espírito, a quem comunicais vossa alma; mas esse padre não é de vossa eleição. O maior rigor da lei de Deus é haver de entregar um homem seu espírito, e manifestar sua alma a outro homem; mas este rigor está tão apertado na religião, que esse homem, esse padre, não há de ser aquele que vós quiserdes, senão aquele que vos assinarem. Pode haver maior circunstância de cruz? Não há passar daqui, nem eu direi mais.

VIII – Segunda consideração: a cruz da religião e a cruz do mundo. Primeira circunstância: quanto mais pesada é a cruz do mundo que a cruz da religião. A cruz da religião e os catorze anos que serviu Jacó a Labão. Os prêmios e a ajuda que nos dá o mundo.

Temos já comparada a cruz de Cristo com a cruz da Religião, para que as almas religiosas conheçam seu merecimento. Agora, para que conheçam sua felicidade, comparemos a cruz da religião com a cruz do mundo. Matéria é esta em que o mundo anda muito enganado, como em tudo. Cuida o mundo que é muito pesada a cruz da religião, e a sua é muito mais pesada: Mihi mundus crucifixos est, et ego mundo (Gal. 6, 14): O mundo — diz S. Paulo — tem-me a mim por crucificado, e eu a ele: maior é a sua cruz que a minha. — E para que vejamos quanto mais pesada é a cruz do mundo que a cruz da religião, façamos esta segunda comparação pelos mesmos pontos que fizemos a primeira, mas com brevidade. Primeiramente, argüimos a estreiteza da cruz da religião, por estar nela Paulo com Cristo: Christo confixus sum cruci — mas esta circunstância mais é de alívio que de tormento. Cristo não manda tomar a cruz aos religiosos para que estejam nela, senão para que a levem: Tollat crucem suam[17] — E quando a cruz é para estar e ter companhia, faz a cruz mais estreita; porém, quando é para a levar e ter companheiros, faz a cruz mais leve. — Serviant ei humero uno (Sof, 3, 9) — dizia o profeta, falando dos servos de Deus na lei da graça: que serviriam a Cristo com um só ombro — porque os religiosos só põem um ombro à cruz, e Cristo põe o outro. Oh! ditoso servir! e não o do mundo. Vede por quem, e com quem: com Cristo, e por Cristo.

Daqui infiro eu que a cruz da religião, ainda que tão pesada, nenhum peso tem, porque, como a cruz se leva por Cristo e com Cristo, uma parte do peso alivia a companhia, e a outra parte alivia a causa. Provou Jacó servir catorze anos por amor de Raquel, e os primeiros sete anos diz a Escritura que padeceu Jacó menos: Videbantur illi pauci dies[18]. — Nos últimos sete anos não diz o texto que Jacó padecesse alguma coisa. Pois, pergunto: Jacó não serviu muito em todos os catorze anos que serviu por Raquel? Sim, serviu, e trabalhou muito, como quem era pastor. Pois, se Jacó trabalhou tanto, por que se diz que nos primeiros sete anos padeceu pouco? E se nos primeiros sete anos padeceu esse pouco, por que se não há de dizer que nos outros sete padecesse muito ou pouco? A razão é por que nos primeiros sete anos trabalhou por Raquel, mas sem Raquel; e nos segundos sete anos, trabalhou por Raquel, e com Raquel: Hanc quoque dabo tibi pro opere quo serviturus es mihi septem annis aliis[19]. — De sorte que nos primeiros sete anos, Raquel era a causa; e nos outros sete era causa e companhia do trabalho: e como ambos juntos trabalhavam, todo o trabalho dos segundos sete anos não foi trabalho. O mesmo digo da cruz da religião. É pesada? Sim, como o ofício de Jacó; mas como nesta cruz se padece por Cristo e com Cristo, é Cristo a causa e a companhia. Enquanto causa, alivia uma parte do peso; enquanto companhia, alivia a outra: e ambas aliviam todo o peso, com que vem esta cruz a não pesar. Quão diferentes são as cruzes do mundo! Nem as alivia a causa, porque o mundo é um ingrato; nem as alivia a companhia, porque o mundo vos põe a cruz às costas, e deixa-vos. Ninguém serviu ao mundo melhor que Cristo, pois obrou por ele as mais estranhas finezas. Desterrou-se, padeceu, derramou seu sangue, entregou sua vida. E o mundo, que alívios lhe deu nestes trabalhos? Pôs-lhe a cruz às costas, e deixou-o: Omnes, relicto eo, fugerunt[20]. — Vedes aqui os prêmios e ajuda que vos dá o mundo? Ao fim de trinta e três anos de serviço, põem-vos a cruz às costas, E mais é de temer o desamparo que a cruz. O mesmo é entregar-vos à cruz, que deixarem-vos todos. E não é ainda esta a maior circunstância da sem-razão. Diz o texto que, sobre estar Cristo na cruz, veio um ministro do mundo, e lhe meteu a lança pelo peito. De sorte, mundo, que está este homem morrendo por ti, derramando sangue, e dando a vida, e tu, sobre o pôr na cruz, ainda lhe metes a lança? Este é, católicos, o mundo. Cristo morria por ele, e ele matava a Cristo. Servi lá ao mundo! Para que é morrer, por quem vos há de matar? Mas vamos às mais circunstâncias.

IX – Segunda circunstância; a cruz do mundo e o silêncio. Se no mundo não se falasse nem se visse, foram mais toleráveis as suas cruzes. Por que perdeu Eva o mundo?

A outra circunstância, que faz pesada a cruz da religião, dissemos que era ser uma cruz em que não se vê nem se fala. E eu o entendo tanto ao contrário, que digo que, se no mundo não se falasse nem se visse, foram mais toleráveis as suas cruzes. E se não, pergunte-o cada um a si mesmo, e à sua experiência. Para falar ao mundo, que tão mal responde, não fora melhor ser mudos? Oh! bem-aventurados os mudos, porque o mudo está desobrigado de falar talvez a um ministro incapaz, que dá a má resposta, e desobrigado de lisonjear ao príncipe, que não quer ouvir a verdade; desobrigado de fazer bom quanto ouve, sustentando a vida à custa da consciência. Finalmente, porque não está obrigado a mil desgostos, e a mil arrependimentos, que de haver calado ninguém se arrependeu, e de haver falado, sim. Oh! bem-aventurados os cegos, porque estais livres de ver a cara ao mundo, e tantas falsidades e erros, como nele se vêem! Que coisa é ver ao ignorante no lugar do sábio? Ao covarde comendo a praça do valente? Ao entremetido com valimento, ao murmurador bem ouvido, aos bons gemendo, aos maus triunfando, a virtude a um canto, e o vício com autoridade? Oh! que entremezes da fortuna! Oh! que tragédias do mundo!

Certo, senhores, que para falar o que aqui se ouve, e para ver o que aqui se vê, melhor é ter véu para os olhos e silêncio para a boca. Se Eva trouxera véu nos olhos, e guardara silêncio, não botara a perder o mundo, como perdeu. Por que cuidais que se perdeu o mundo? Porque houve uma mulher que quis falar e ver. Falou Eva com a serpente, e ficou enganada. Viu Eva a árvore, e ficou vencida. Não lhe fora melhor a ela, e a nós todos, não ter boca para falar nem olhos para ver? Estas são as liberdades do mundo, estes seus perigos.

Porém, noto — e quisera que todos o notassem — o que falou Eva, e o que viu. O que falou, foi sobre o preceito de Deus: Cur praecepit vobis Deus?[21] — O que viu, foi a Árvore da Ciência: Vidit lignum[22]. — Pois se são tais os perigos da língua, que falar aqui sobre os preceitos de Deus basta para perder ao gênero humano, e se são tais os perigos dos olhos, que ver as árvores do paraíso foi ocasião para abrir as portas do inferno, que arriscadas serão no mundo as práticas livres, em que não se fala dos preceitos? Que perigosas serão no mundo as vistas lisonjeiras, em que não se olha para as árvores, senão para as serpentes? Jacte-se embora o mundo, que, se tem cruzes, são cruzes em que se vê e se fala; mas lembre-se o mundo de quantos por palavra perderam a vida, e por uma vista perderam a alma.

X – Terceira circunstância: a cruz do mundo e o exercício da vontade. Maior cativeiro é estar sujeito à vontade própria que à alheia. O castigo de Deus ao povo de Israel. A vontade do religioso e a vontade de Deus.

Só parece que na última circunstância é mais fácil a cruz do mundo que a da religião, porque na cruz do mundo é cada um senhor da sua vontade, porém na da religião todos estão sujeitos à vontade alheia.

Para isto sei uma coisa, que parece nova. Digo que por isso mesmo é mais leve a cruz da religião que a do mundo, porque maior cativeiro é estar sujeito à vontade própria que à alheia. Pecou o povo de Israel, não querendo obedecer a Deus; trata Deus de castigá-lo, e diz: Já que os homens não querem fazer minha vontade, ordeno que façam a sua. — Expressamente o disse Davi: Non audivit populus meus vocem meam, et Israel non intendit mihi. Et dimisi eos secundum desideria cordis eorum[23]. — Pois, Senhor, que modo de sentença é este? Os homens de nenhuma coisa gostam mais que de fazer sua vontade; e com nenhuma coisa vos ofendem mais, que em não fazer a vossa: pois, se estes homens vos ofenderam, e não quiseram fazer vossa vontade, como lhes permitis por isso que façam a sua? É isto prêmio ou castigo? Prêmio não, porque não se dá prêmio por culpas. Castigo parece que não, porque não se dão gostos por penas. Pois, que é isto?

O maior tirano que há no mundo é a vontade de cada um de nós. Os tiranos atormentam por fora, este tirano aflige por dentro. Daqui se argúi que, quando Deus quer dar um castigo, entrega a um homem nas mãos da sua própria vontade; por isso lhes deu por castigo que fizessem a sua. De sorte que é maior mal estar sujeito aos apetites da vontade própria que aos impérios da vontade alheia: pois, quando a culpa é não querer obedecer à vontade alheia, dá-se-lhe por castigo fazer a própria. Veja agora o mundo qual é mais rigorosa cruz: se estar sujeito à vontade própria ou à vontade alheia. Mas, ainda que uma destas vontades seja mais tirana que a outra, não há dúvida que ambas molestam: a própria por dentro, a alheia por fora. Porém a cruz da religião é tão suave, que de ambas às coisas livra ao religioso. Ouvi.

Digo que o religioso está livre de toda a vontade humana: da própria, porque a sua vontade é a do prelado; da alheia, porque a vontade do prelado é de Deus. Assim que o religioso não está sujeito à vontade humana, senão à divina. E de estar o religioso sujeito só à vontade de Deus, que se segue? Segue-se que, em prêmio de despir-se de sua vontade, a está sempre fazendo. Não é paradoxo, senão verdade clara. Que remédio para fazer um homem sempre sua vontade? O remédio é querer o que Deus quer; e se eu quero o que Deus quer, sempre faço minha vontade. Este é o prêmio dos verdadeiros religiosos, no qual a sua cruz leva muita vantagem à do mundo porque na cruz do mundo vivem os homens à sua vontade, a qual em muitas coisas não conseguem, e por isso andam todos descontentes; na cruz da religião em tudo se faz a vontade do religioso, porque é força que em tudo se faça a vontade de Deus, com quem ele tem unida a sua.

XI – A vontade de Deus e a vontade dos prelados. Os prelados aprazíveis e os anjos de Deus. Os prelados mal-acondicionados e a sarça do deserto. Conclusão.

Mas vejo que me replicam que a vontade do prelado é verdade que é a de Deus, mas vem às vezes passada por tais prelados, que não pode deixar de ser mui penosa. Deus, nosso Senhor, no Testamento Velho comumente falava por anjos. Assim falou a Abraão, a Jacó, a Isac, e a outros. E talvez falou de uma sarça, como a Moisés, talvez de uma tempestade, como a Jó: De turbine (Jó 38, 1). — O mesmo costuma suceder nos prelados. Em todos, e por todos, nos fala Deus, mas uma vez fala de um anjo, como a Abraão, Isac e Jacó, porque talvez é o prelado prudente, benigno e aprazível; outras vezes fala de uma sarça ou espinheiro, como a Moisés, porque, se o prelado é áspero e mal-acondicionado, nunca vos chegais a ele que não venhais ferido; outras vezes fala de uma tempestade, como a Jó, porque, se o prelado é furioso, como trovão, não há em casa quem se entenda com ele. Pois, se a vontade de Deus vem executada por tal homem, que importa que seja de Deus?

Muito importa para padecer mais no mundo porque se cá há uma sarça e uma tempestade, há muitos anjos; porém se lá há um anjo, há muitas sarças e muitas tempestades. Mas quando em tudo o demais fora o mundo como a religião, há uma grande diferença no modo de obedecer, porque no mundo, se o superior é sarça, sente-se como sarça, e se é tempestade, como tempestade; mas na religião não é assim: ainda que o superior seja sarça, aceita-se como Deus, que assim o fez Moisés; ainda que seja tempestade, aceita-se como Deus, que assim o fez Jó. E vai tanto nesta diferença de obedecer, que assim como as obediências do mundo acrescentam novas violências ao sentimento, assim as obediências da religião acrescentam novos merecimentos ao sacrifício. Maior fineza é obedecer à voz de Deus pronunciada por um bruto que articulada por um anjo.

Antes digo que chegam os obséquios da obediência em créditos da verdade, onde chegaram os erros da idolatria em descréditos dela. A idolatria chegou a conhecer divindade nos ventos, plantas e animais; e a obediência dos religiosos em um espinheiro, e em uma tempestade chega a reconhecer a Deus em sua voz.

Eia, pois, Senhor, deixai-me que corra por minha conta este pleito e este juízo entre as cruzes. Façamos todos o mesmo, pois já temos visto que as cruzes do mundo não têm mais que aparência de leves, e verdadeiramente são pesadas: Nunc princeps hujus mundi ejicietur foras[24]; — fique-se o mundo embora, e atormente sua cruz aos cegos, que a desconheçam, e aos insensíveis, que a não sentem. E, pois, a cruz de Cristo, ainda que no exterior estreita e pesada, é tão larga pela causa e tão leve pela companhia, atemos nossos corações a esta cruz, como prisioneiros do carro de seu maior triunfo. Seja esta exaltação a do instrumento sagrado, com que nos remiu Cristo, para que, em seguimento de suas penas, seja este desterro meio para que cheguemos a gozar suas glórias. Amém.

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[1] Agora é o juízo do mundo; agora será lançado fora o príncipe deste mundo. E eu, quando for levantado da terra, todas as coisas atrairei a mim mesmo (Jo. 12, 31).
[2] E agora também o digo chorando, que são inimigos da cruz de Cristo (Flp. 3, 18).
[3] Agora é o juízo do mundo (Jo. 12, 31).
[4] Agora será lançado fora o príncipe deste mundo (ibid.).
[5] Todas as coisas atrairei a mim mesmo (ibid.).
[6] Então aparecerá o sinal do Filho do homem (Mt. 24, 30).
[7] Eu, quando for levantado da terra (Jo. 12, 31).
[8] Foi feito o homem em alma vivente (Gên. 2, 7).
[9] Só me restam os lábios ao redor dos meus dentes (Jó 19, 20).
[10] Mas guarda a sua alma (Jó 2, 6).
[11] Não quebrareis dele osso algum (Jo. 19, 36).
[12] Não lhe quebraram as pernas (ibid. 33).
[13] Atai-o de pés e mãos, e lançai-o nas trevas exteriores (Mt. 22, 13).
[14] Mas ele emudeceu (ibid. 12).
[15] Tendo visto a sua mãe, e ao discípulo (Jo. 19, 26).
[16] Para fazer pagar de uma só vez a perda dos meus dois olhos (Jz. 16, 28).
[17] Tome a sua cruz (Mt.16.24).
[18] Pareciam-lhe poucos dias (Gên. 29, 20).
[19] Dar-te-ei também essa outra, pelo trabalho de outros sete anos, que ainda me servirás (Gên. 29, 27).
[20] Todos o deixaram, e fugiram (Mt. 26, 56).
[21] Por que vos mandou Deus (Gên. 3, 1)?
[22] Viu a árvore (ibid. 6).
[23] Não ouviu o meu povo a minha voz, e Israel não me atendeu. E os abandonei, segundo os desejos de seu coração (Sl. 80, 12 s).
[24] Agora será lançado fora o príncipe deste mundo (Jo. 12, 31).

Fonte: https://www.literaturabrasileira.ufsc.br/documentos/?action=download&id=49783