Sermão do Nascimento da Mãe de Deus

SERMÃO DO NASCIMENTO DA MÃE DE DEUS

Em Odivelas, Convento de Religiosas do Patriarca S. Bernardo.


Maria, de qua natus est Jesus[1].

I – O Evangelho que canta e nos propõe a Igreja no dia do nascimento da Mãe de Deus. O que o evangelista devera calar e o que devera falar. Se o evangelista cala o donde, se cala o de quem nasceu, por que diz o para quê? Argumento do discurso: para que nasceu Maria?

Se eu licitamente me pudera queixar do evangelista, neste dia me queixara, e cuido que com razão. Cala nele o evangelista três coisas não pequenas, que devera dizer, e diz só uma, posto que grande, que devera calar. A obrigação dos historiadores nos nascimentos das grandes personagens é dizer o lugar onde nasceram, o tempo em que nasceram, e os pais de que nasceram. E, celebrando o mundo hoje o nascimento da maior pessoa depois de Deus, que saiu à luz do mesmo mundo, o Evangelho que canta e nos propõe a Igreja Católica, nem do lugar, nem do tempo, nem dos pais de que nasceu faz memória ou menção alguma. Isto é o que cala o evangelista, que devera dizer. E que é o que diz, que devera calar? Diz que de Maria nasceu Jesus: Maria, de qua natus est Jesus. — É verdade que antecipando os olhos ao futuro a soberana Princesa que hoje nasce, nasce para que dela haja de nascer Jesus; mas, se o evangelista cala o quando, cala o donde, e se cala o de quem nasceu, por que diz o para quê? Bem se mostra que a pena que isto escreveu foi tirada das asas do Espírito Santo. Nos nascimentos humanos fazem grande caso os filhos de Adão da conjunção do tempo e constelação em que nascem, prezam-se muito da grandeza da terra e pátria onde nascem, estimam e estimam-se sobretudo da nobreza da geração e pais de quem nascem. Mas quando nasce a que o Espírito Santo preveniu com a graça original para Esposa sua, não quer o mesmo Espírito Santo que se diga que nasceu na Sexta idade do mundo, e no quarto ano da Olimpíada cento e noventa; nem que nasceu na cidade de Nazaré, chamada por antonomásia Flor de Galiléia; nem que nasceu de Joaquim e Ana, nos quais se uniu, desde Abraão e Davi, por legítima e continuada descendência o sangue de todos os patriarcas e Reis, e só manda escrever que nasce a de quem nasceu Jesus. Por quê? Porque só quando se sabe o para que nasceu cada um se pode fazer verdadeiro juízo do seu nascimento. Quereis saber quão feliz, quão alto é, e quão digno de ser festejado o nascimento de Maria? Vede o para que nasceu. Nasceu para que dela nascesse Deus: De qua natus est Jesus. Este para que será toda a grande matéria do meu discurso. E para que vejamos quão gloriosa é para a Virgem Maria, e quão proveitosa para nós, peçamos à mesma Senhora a assistência de sua graça. Ave Maria.

II – Que coisa é nascer? Avaliar o nascimento pelos pais é vaidade, medi-lo pelo tempo é superstição, estimá-lo pela pátria é ignorância, e só julgá-lo pelo fim é prudência. Que motivo teve o juízo de Salomão para antepor o dia da morte ao dia do nascimento? Por que no dia do nascimento de Maria nos diz o Evangelho que nasce para dela nascer Jesus?

Para fundamento do que pretendo dizer sobre o soberano nascimento, de que celebramos a memória neste felicíssimo dia, consideremos primeiro que coisa é nascer, e filosofemos um pouco. Os homens — deve de ser porque são mortais — o que costumam festejar com maiores demonstrações de gosto, parabéns e aplausos, assim pública, como privadamente, são os nascimentos. Mas isto de nascer, pelo que tem de si, nem merece alegria nem tristeza; antes, se bem se considera, mais digno é de tristeza que de alegria. Não debalde, com ser o risível a primeira propriedade de nossa natureza, a mesma natureza nos ensina a nascer chorando. Com lágrimas choraram muitas nações os nascimentos que nós solenizamos com festas, e não sei se nos deveram tomar o nome de bárbaros, que lhes damos. Queixamo-nos da vida, e festejamos os nascimentos, como se o nascer não fora princípio da mesma vida que nos traz queixosos. O nascimento é o princípio da vida, como a morte o fim; e uma carreira que tem o fim tão duvidoso, uma navegação que tem o porto tão pouco seguro, como pode ter o princípio alegre? Nascemos sem saber para que nascemos, e bastava só esta ignorância, para fazer a vida pesada, quando não tivera tantos encargos sabidos. Os ditosos e os desgraçados todos nasceram, e como são mais os que acusam a fortuna que os que lhe dão graças, maior matéria dão os nascimentos ao temor que à esperança. A esperança promete bens, o temor ameaça males, e entre promessas e ameaças tanto vem a se padecer o que se espera como o que se teme. A quem começa a vida, tudo fica futuro, e no futuro nenhuma distinção há de males a bens: todos são males, porque todos se padecem. Os males padecem-se, porque se temem, os bens padecem-se, porque se esperam, e para afligir o mal, basta ser possível, para molestar o bem, basta ser duvidoso. Se alguma coisa nos pudera segurar os sobressaltos desta contingência, para que era o tempo, o lugar e as pessoas de que nascemos; mas, por mais que destas circunstâncias conjecture a vã sabedoria felicidades, o certo é que nem o tempo as influi, nem a pátria as produz, nem dos mesmos pais se herdam. Do mesmo pai nasce Isac e Ismael, e um foi o morgado da fé, outro da heresia. Na mesma hora nasceu Jacó e Esaú, e um foi amado de Deus, outro aborrecido. Na mesma terra nasce Caim e Abel, e um foi o primeiro tirano, outro o primeiro mártir. Assim que avaliar o nascimento pelos pais é vaidade, medi-lo pelo tempo é superstição, estimá-lo pela pátria é ignorância, e só julgá-lo pelo fim é prudência.

Salomão, o mais sábio de todos os que nasceram, faz uma comparação tão superior ao nosso juízo, que só podia caber no seu. Compara o dia da morte com o do nascimento, e na diferença destes dois extremos, quem não imaginará que se compara o dia com a noite, a luz com as trevas, a alegria com a tristeza, a felicidade com a desgraça, a coisa mais desejada com a mais temida, e com a mais terrível a mais amável? Sendo, porém, tão prenhe de admiração a proposta mais digna de espanto é a sentença. Resolve Salomão que melhor é o dia da morte que o dia do nascimento: Melior est dies mortis die nativitatis (Ecl. 7, 2). E que tem o dia da morte para ser melhor que o do nascimento? O dia do nascimento não é o mais alegre, e o da morte o mais triste? O do nascimento não é o que povoa o mundo, o da morte o que abre e enche as sepulturas? O do nascimento o que veste de gala as famílias e as cortes, o de morte o que as cobre de lutos? A morte não é o maior inimigo da vida, e o nascimento não é o que, sendo ela mortal, a imortaliza? Que é o nascer, senão o remédio do não ser, e que seria do mundo se em lugar dos mortos não nasceram outros que lhes sucedessem? Até em Deus necessita do nascimento a mesma Trindade, porque, sendo só a pessoa do Padre inascível, Deus, sem nascimento, seria um, mas não seria trino. Pois, se tantos são os bens e felicidades que traz consigo o dia do nascimento, os quais todos funesta, consome, e acaba o dia da morte, que motivo teve o juízo de Salomão para antepor o dia da morte ao dia do nascimento? Entendeu-o melhor que todos o maior intérprete das Escrituras. É melhor — diz S. Jerônimo — o dia da morte que o dia do nascimento, porque no dia do nascimento ninguém pode saber o para que nasce, e só no dia da morte se sabe o fim para que nasceu: Certe quod in morte quales simus notum sit, in exordio vero nascendi qui futuri simus ignoratur. — Se no nascimento de Judas e Dimas se levantasse figura certa ao que cada um havia de ser em sua vida, a do primeiro diria que havia de ser apóstolo, a do segundo que havia de ser ladrão, e assim foram na vida; mas o verdadeiro juízo do fim para que cada um deles nascera ainda estava incerto; veio finalmente o dia da morte, que foi o mesmo em que ambos acabaram, e esse dia declarou, com assombro do mundo, que Judas nascera para morrer enforcado como ladrão, e Dimas para confessar e pregar a Cristo como apóstolo. E como se não pode fazer verdadeiro e certo juízo do nascimento sem se saber juntamente o para que nasce quem nasce, por isso no dia do nascimento de Maria nos diz o Evangelho que nasce para dela nascer Jesus: De qua natus est Jesus — e quando se publica e se sabe o felicíssimo e altíssimo fim para que nasceu, então se soleniza e festeja com razão o dia do seu nascimento.

III – Por que razão se não faz a festa do natal e nascimento do mundo ao primeiro dia em que foi criado senão no dia sétimo? Se ao nascimento do mundo, que nasceu para servir ao homem, se dedicou dia de festa, ao nascimento do homem, que nasceu para senhor do mesmo mundo, por que se não dedicou mais dignamente esse dia, ou quando menos outro? Se os santos não costumam celebrar nascimentos, por que se celebra o do Batista em casa de Zacarias?

O mais notável nascimento que houve no mundo foi o do mesmo mundo. Tirou-o Deus do não ser ao ser, e das entranhas do nada às existências e perfeição de tudo; e como o parto era tão grande, tardou em acabar de nascer seis dias. Seguiu-se o sétimo, e a este santificou Deus: Requievit die septimo, et sanctificavit illum[2]. — Mas, se perguntarmos de que santo era este dia sétimo, e a que festa foi dedicado, diz Filo Hebreu, em duas partes, que foi dedicado ao nascimento do mundo: Septimus dies mundi natalis est. — Pois, se o mundo por maior nasceu no primeiro dia, e por partes nos seguintes, por que razão se não faz a festa do natal e nascimento do mundo ao primeiro dia em que foi criado, senão ao dia sétimo? Faz dias o mundo, como se fizera anos, em um dia; e a festa do seu nascimento não se lhe faz no mesmo dia, senão em outro? Sim, porque as festas dos nascimentos não se podem fazer seguramente senão depois de se saber o fim para que nasce quem nasce. E como o fim para que nasceu o mundo era o homem, e o homem foi criado ao dia sexto, por isso se guardou a festa do nascimento do mundo para o sétimo. Enquanto o mundo se criou, e foi nascendo por partes, esteve suspenso e duvidoso o aplauso entre a esperança e o temor, porque não se sabia o fim para que nascia; porém, tanto que ao sexto dia apareceu o homem, glorioso fim para que fora criado o mundo, por isso logo se lhe dedicou dia de festa, e foi dia santo o do nascimento do mundo: Septimus dies natalis est mundi, et sanctificavit illum.

Mas daqui nasce outra dúvida, não menos bem fundada, antes mais. Se ao nascimento do mundo, que nasceu para servir ao homem, se dedicou dia de festa ao nascimento do homem, que nasceu para senhor do mesmo mundo, por que se não dedicou mais dignamente esse dia, ou quando menos outro? Santo Ambrósio: Quia laudatio hominis non in exordio, sed in fine est[3]. — O dia em que acabou de nascer o mundo foi o mesmo dia sexto em que também nasceu o homem; mas ao mundo podia-se-lhe dedicar o dia de festa logo depois do nascimento, que foi ao sétimo, e ao homem não. E por quê? Porque o fim para que nasceu o mundo foi para servir ao homem, o fim para que nasceu o homem foi para servir a Deus, e aquele fim sempre foi certo desde o nascimento das outras criaturas, e no homem, pelo contrário, sempre foi e é duvidoso até o dia da sua morte. Por isso Deus, assim como iam nascendo as outras criaturas, ia juntamente louvando: Vidit Deus quod esses bonum[4] — porém, ao homem, posto que o viu quando nasceu, não o louvou, porque a bondade e felicidade do seu fim ainda estava duvidosa quando Deus o viu a ele, e só estaria segura quando ele visse a Deus. Foi logo necessário que a festa do nascimento do homem se trasladasse para o dia da morte, e assim o faz a Igreja, que ao dia da morte dos santos chama natalitia sanctorum. Se Moisés falara como profeta, poderia dizer o que calou como historiador; mas o que ele não fez no nascimento de Adão fez S. Mateus no nascimento de Maria, anunciando o seu Evangelho, quando nasce, que nasce para dela nascer Jesus: De qua natus est Jesus.

Daqui se infere contra o atrevimento dos juízos humanos, posto que eles o façam com os olhos nas estrelas, que o solenizar e festejar nascimentos só os profetas o podem fazer sem erro, nem os outros crer sem ignorância. Advertiu Orígenes, é certo, que em todo o Testamento Velho se não lê que algum homem santo fizesse festa ao nascimento de seus filhos: Nemo ex omnibus sanctis invenitur diem festum egisse in die natalis filii, aut filiae suae. — Com isto ser assim vemos, contudo, que o nascimento do Batista, nascendo de pais santos, eles o celebraram com tantas festas, que então alegraram toda a montanha, e depois o mundo. Pois, se os santos não costumam celebrar nascimentos, por que se celebra o do Batista em casa de Zacarias? A razão é porque a casa de Zacarias era casa de profetas. Profetizava Zacarias, profetizava Isabel, profetizava o mesmo Batista, e como todos tinham espírito de profecia, por isso só naquela casa se celebra o nascimento do filho, que só onde se sabem os sucessos futuros se podem festejar com razão os nascimentos presentes. Bem se vê no modo com que o festejaram os montanheses, porque o estribilho de suas alegrias era: Quis putas puer iste erit (Lc. 1, 66)? Quem vos parece que há de ser este menino? — De sorte que não o festejaram pelo que era, senão pelo que havia de ser; não porque era nascido, senão porque havia de ser o maior dos nascidos. E como para as festas dos nascimentos serem bem fundadas é necessário saber os sucessos futuros da pessoa que nasce, por isso o Evangelista com grande conveniência antecipou em profecia as leis da história, e quando havia de dizer que nasceu Maria, disse: Maria, de quem nasceu: De qua natus est Jesus.

IV – As grandes matronas do Testamento Velho no nascimento de Maria. Em que gastou Moisés os quarenta dias que passou com Deus no Monte Sinai? Moisés e as figuras e enigmas que representaram e significaram a Mãe de Deus antes que o fosse.

Este foi o novo e misterioso estilo que depois do nascimento da Mãe de Deus observou o evangelista como profeta do passado; e o mesmo tinham já feito, muito antes do seu nascimento, todas as Escrituras do Testamento Velho, como evangelistas do futuro. Diz S. João Damasceno que desde o princípio do mundo contendiam os séculos sobre a felicidade de qual deles se havia de honrar com o nascimento da que nasceu para dela nascer o Redentor do mesmo mundo. E todas as grandes matronas, que, dentro da sucessão dos mesmos séculos, ou a graça, ou a fortuna, ou a natureza fez singulares, foram a sombra deste sol, foram a figura desta verdade, foram a representação deste nascimento. Em todas nasceu Maria, ou todas tornaram hoje a nascerem Maria, muito mais avantajadas que em si mesmas, e para fins muito mais gloriosos. Nasce hoje Eva[5], para meter debaixo do pé e quebrar a cabeça à antiga e enganosa serpente, que com o veneno original tinha infeccionado toda sua descendência. Nasce hoje Sara[6] para ser mãe universal da fé, e de todos que desde então haviam de esperar escuramente, e depois crer com toda a luz a divindade do Messias. Nasce Rebeca[7], para tirar a bênção do cego Isac ao rústico e fero Esaú, e dá-la ao manso e religioso Jacó. Nasce Raquel[8], para ser a mais formosa, a mais servida e a mais amada que Lia, mas, como Lia, a mais fecunda. Nasce Éster[9], para ser a maior senhora do mundo, a mais respeitada do seu supremo monarca, isenta de todas as leis, e superior a todas. Nasce Débora[10], a famosa guerreira, a quem seguiam como soldados em ordenados esquadrões as estrelas do céu, e por quem os soldados venciam sem ferida como estrelas na terra. Nasce Judite[11], para libertar dos exércitos inimigos a sitiada Betúlia, e arvorar sobre seus muros, cortada com a própria espada, a cabeça do soberbo Holofernes. Nasce Abigail[12], para convencer com sua prudência e aplacar com sua piedade, não a Davi, descortesmente ofendido, mas ao mesmo Deus das vinganças, justamente irado. Nasce Rute[13], não só para colher, mas para regar com o orvalho do céu, e criar as espigas, de que se há de fazer o pão que há de ser o sustento do mundo. Nasce, finalmente, hoje Maria[14], não a irmã, mas a Mãe do verdadeiro Moisés, para passar o Mar Vermelho a pé enxuto, para ser a primeira que cante o triunfo da tirania de Faraó, e a primeira que ponha os passos seguros no caminho da Terra de Promissão.

Tudo isto quer dizer que de Maria, que hoje nasce, há de nascer Jesus. E quer dizer mais alguma coisa? Muitas e grandes, estampadas também todas nas páginas dos segredos divinos. E para que não possa imaginar algum pensamento humano que são isto estátuas mortas fabricadas pelo afeto da devoção ao nascimento da verdadeira Mãe dos viventes, ouçamos, antes que passemos adiante, o que sempre entenderam e ensinaram os maiores lumes da Igreja Católica. Santo Agostinho, tomando por testemunha ao mesmo Deus: Sola meruit Deum et hominem paritura suscipere, sicut nos docuit figuris[15]. Santo Ildefonso, com os olhos em todo o Testamento Velho: Haec est illa Virgo gloriosa, cujus ineffabile meritum longe ante figuris legalibus praenunciabatur[16]. E Santo Anselmo, falando nomeadamente do mistério deste dia: Nativitatem ejus magna quaedam atque miranda divinorum signorum indicia praecurrisset[17] — O mesmo deixara escrito S. Cirilo, S. Jerônimo, Santo Ambrósio, S. Pedro Damião, S. João Damasceno, S. Bernardo, e outros padres. Mas o que nesta matéria, por ilustração divina nos descobriu, o mais oculto, o mais antigo, e o mais profundo segredo foi S. Metódio.

Quarenta dias esteve Moisés com Deus dentro daquela nuvem escura e caliginosa no cume do Monte Sinai, e, bastando muito menos tempo para ele ouvir o que então declarou ao povo, e depois escreveu no deserto, é questão curiosa saber em que se gastou o resto de tantos dias entre Deus e aquele seu grande valido. Dizem os antigos hebreus, cuja opinião nesta parte não só é verossímil, mas recebida dos mais doutos intérpretes das letras sagradas, que em todo este tempo revelou Deus a Moisés a que eles chamam lei oral, ou lei de boca, na qual se continham os mistérios mais profundos, de que então o mesmo povo não era capaz se lhe descobrissem e fiassem, os quais, enquanto não chegava a lei da graça, só ficaram em tradição na fé dos patriarcas. Tal foi o mistério altíssimo da Trindade, o da divindade do Messias, o do Santíssimo Sacramento da Eucaristia, e muito particularmente — que é o nosso ponto — as figuras que pertenciam à Virgem, Senhora nossa. Isto é o que não só afirma, mas supõe como indubitável S. Metódio, por estas palavras: Nonne Moyses ille magnus propter figuras intellectu difficiles, quae te, o Virgo, tangebant, diutius in monte commoratus, ut ignota de te, o casta, sacramenta edoceretur[18]? De sorte que o tempo da maior demora que Moisés teve no monte com Deus, o empregou o mesmo Deus em ensinar a Moisés, e lhe descobrir a verdadeira e oculta inteligência dos segredos que se encerravam nas figuras daquela Virgem, que havia de ser sua Mãe. Estas figuras, que tanto antes do seu nascimento ainda não estavam retratadas nas Escrituras — porque ainda não havia Escrituras — depois que as houve, que foi sucessivamente em muitos séculos, com a mesma sucessão se foram estampando nelas, posto que com sombras escuras, e cores pouco vivas, porque estava ainda muito longe a vida de que haviam de receber a luz. Isto é o que nota o mesmo santo, dizendo que aquelas figuras eram dificultosas de entender: Figuras intellectu difficiles — porque, como bem distinguiu Sofrônio[19], quando chamou à mesma Senhora: Figuris et aenigmatibus praesignatam — as figuras que representaram e significaram a Mãe de Deus antes que o fosse, umas eram naturais e animadas, como as que temos referido, e por isso de mais fácil inteligência; outras, porém artificiais e enigmáticas, que não se podia entender senão com grande dificuldade, e são as que agora diremos.

V – As figuras enigmáticas que representaram e significaram a Virgem Maria no Testamento Velho.

As pinturas de que se formavam os corpos destes enigmas eram notáveis. Em um se via, no meio de uma horrenda tempestade, uma grande máquina de madeira, a que hoje chamaríamos nau, mas sem mastros, nem velas, nem leme[20]; em outro uma escada, que com o pé se firmava na terra e com as pontas tocava nas estrelas[21]; em outro um cajado de pastor, não enroscada mas entalhada nele, desde a cabeça até a cauda, uma serpente[22]; em outro dois querubins, que se olhavam reciprocamente com as asas estendidas, e sobre elas uma lâmina de ouro[23]; em outro um trono de seis degraus, assistido cada um de dois leões, que de uma e outra parte o defendiam[24]; em outro uma torre alta, e de formosa arquitetura, de cujas ameias estavam penduradas as armas, e estas só eram escudos [25]; em outro uma arca dourada cerrada, mas sem fechaduras, e coroada com duas coroas[26]; em outro um pavilhão forrado de peles, e um grandioso templo todo coberto de ouro[27]; em outro um formoso jardim regado de quatro fontes, e no meio duas árvores muito altas, ambas carregadas de frutos[28]; em outro um meio corpo de anjo sobre duas colunas, uma de nuvem, que reparava os raios do sol, outra de fogo, que alumiava a noite[29] em outro, finalmente, deixando por brevidade os demais, uma vara e uma flor, mas assim a flor como a vara nascidas da mesma raiz[30]. E sendo tanta a variedade das figuras sem letra até então, que as declarasse, bem se vê quão dificultosa seria a inteligência: Figuras intellectu difficiles — e que só Deus podia ser o mestre que as ensinasse a Moisés: Ut ignota de te sacramenta edoceretur.

Mas o que sobretudo dificultava o entendimento de tantos e tão vários enigmas, era ser um só o sentido de todos. E qual era? Era a prodigiosa Menina que hoje nasce, e o fim e fins altíssimos para que nasceu. Nasce — ide agora lembrando-vos, ou desenrolando as figuras — nasce para ser arca de Noé, em que o gênero humano, afogado no dilúvio, se reparasse do naufrágio universal do mundo. Nasce para ser escada de Jacó, e não para que os descuidados de sua salvação se não aproveitassem dela, como o mesmo Jacó dormindo, mas para que vigilantes e seguros subam por ela da terra ao céu. Nasce como vara de Moisés, para ser o instrumento de todas as maravilhas de Deus, e a segunda jurisdição, fama e alegria de sua onipotência. Nasce para ser o verdadeiro e infalível propiciatório, em que o Deus das vinganças, ofendido e irado, trocada a justiça em misericórdia, o tenhamos sempre propício. Nasce para ser trono do Rei dos reis, o Salomão divino, ao qual trono as três jerarquias das criaturas visíveis, e as três das invisíveis, servem de peanha, não humildes como degraus, por se confessarem sujeitas à sua grandeza, mas soberbas como leões, por acrescentarem altura à sua majestade. Nasce para ser torre fortíssima de Davi, fornecida e armada de milhares de escudos, tão prontos e aparelhados sempre à nossa defensa, como seguros e impenetráveis a todos os tiros e golpes de nossos inimigos. Nasce para ser verdadeira Arca do Testamento, coroada com as duas coroas de Mãe e Virgem, dentro da qual não só se conservavam sempre inteiras as tábuas da lei, mas esteve e está encerrado o Maná que desceu do céu, donde cotidianamente o podemos colher, por isso coberto e encoberto, mas não fechado. Nasce para ser tabernáculo no deserto e templo de Jerusalém: tabernáculo em que Deus havia de caminhar peregrino, e templo em que havia de morar de assento, tão imóvel e permanente nela como em si mesmo. Nasce para ser, não uma, senão as duas árvores famosas do Paraíso terreal, a da vida e a da ciência, porque dela havia de nascer o bendito fruto, em que estão depositados todos os tesouros da ciência e sabedoria de Deus, e o da vida da graça no mesmo Paraíso perdida, e por ela restaurada. Nasce para ser em seus passos como os daquelas duas colunas que guiaram o povo escolhido à Terra de Promissão: uma de nuvem para nos amparar e defender dos raios do Sol de justiça, e outra de fogo, para nos alumiar na noite escura desta vida, até nos colocar seguros no dia eterno da glória. Nasce, enfim, para ser Vara de Jessé, de cujas raízes havia de nascer a mesma Vara, Maria, que hoje nasce, e a mesma flor, Cristo Jesus, que dela nasceu: Maria, de qua natus est Jesus.

VI – As palavras de Jacó, depois que acordou do sono em que viu a escada que chegava da terra ao céu, e a mesma bizarria de retórica nos versos de Virgílio. Os infinitos nomes e sobrenomes com que a Virgem Maria costuma ser louvada, nascidos todos na etimologia de seus benefícios.

Para todos estes bens nasce hoje esta grande Menina, posto que entre figuras e enigmas, como sol entre nuvens, as quais, porém, desatadas em orvalho e chuva de benefícios, não é necessário já recorrer à escuridade de oráculos passados, mas à experiência ocular dos efeitos presentes. Infinitos são os nomes ou sobrenomes com que a mesma Virgem Maria costuma ser invocada e louvada, nascidos todos — notai — na etimologia dos mesmos benefícios, que é o mais nobre e sublime nascimento que eles podem ter. Uma das mais notáveis questões, e para muitos intérpretes uma das mais dificultosas da Escritura, é aquela a que deram ocasião as palavras de Jacó, depois que acordou do sono em que viu a escada que chegava da terra ao céu. E que disse então Jacó? Si dederit mihi Deus panem ad vescendum, et vestimentum ad induendum, erit mihi Dominus in Deum (Gên. 28, 20 s): Se Deus me der pão para comer, e pano para vestir, eu o terei por Deus. — Pois Jacó não tinha a Deus por Deus? Não o venerava e adorava como Deus? Sim. Com o mesmo nome de Deus o acaba de nomear pouco antes, e isso mesmo significa o nome Dominus, absolutamente pronunciado: Senhor, porque com sua onipotência criou o mundo; Senhor, porque com sua majestade o domina; Senhor, porque com sua providência o governa. Pois, se Jacó o reconhece, venera e adora como Deus, por que diz que o terá por Deus, e será para ele Deus, se lhe der o que pede: Si dederit mihi, erit mihi in Deum? Porque no tal caso não só obraria Deus como Senhor quanto ao domínio do poder, senão como Deus quanto à etimologia do nome. Ora vede. A etimologia deste nome Deus deriva-se do verbo dar: chama-se Deus porque dá: Deo, qui dat omnibus affluente[31] — diz o apóstolo São Tiago neste sentido; e no mesmo a Igreja: Veni dator munerum[32]. — Diz pois Jacó: Se Deus me der o de que eu tenho necessidade para comer e vestir: Si dederit mihi panem, et vestimentum — então obrará comigo como Deus, e eu o reconhecerei como Deus, não só pelo que é, senão pelo que significa o seu nome. O seu nome significa dar: logo, se me der a mim: si dederit mihi — será para mim Deus que dá: Erit mihi in Deum, id est, datorem, juva nomen suum.

De passagem vejam os humanistas esta mesma energia e bizarria de retórica no Príncipe dos poetas: Vos, o mihi manes, este boni[33]. — Fala Virgílio de um, desconfiado ou desesperado dos deuses superiores, que são os do céu, o qual recorria aos inferiores, que são os do inferno, e se chamam manes: Vos, o mihi manes, este boni, quoniam superis adversa voluntas[34]. Mas naquele este boni, em que pede aos manes que sejam bons, parece que se esfriou e abateu, não pouco, senão muito o espírito ardente e sublime de tão insigne poeta; porém, não foi assim, senão que nisto mesmo mostrou a sua grande erudição e eloqüência. Manes na etimologia antiga e já antiquada, era o mesmo que boni, como se prova da palavra immanes, que significa o contrário. Diz pois o que invocava aqueles deuses subterrâneos: Vos, o mihi manes, este boni — como se dissera: Este mihi quales appellamini — já que a etimologia de manes é boni, e quer dizer bons: Sede bons para comigo: este mihi boni — e sereis propriamente manes, respondendo à significação do vosso nome. — Assim também Jacó dois mil anos antes de Virgílio, não como imitador, mas como exemplar desta poesia, diz com a mesma energia e com o mesmo sentido: Se Deus me der o que hei mister, será para comigo Deus: Si dederit mihi erit mihi in Deum — não porque não seja Deus ainda que não dê, mas porque dando responderá à etimologia e significação do nome Deus, que significa dar. Tais são todos os nomes e sobrenomes com que a cristandade invoca, venera e dá graças à Virgem Maria, tirados todos e fundados nas etimologias dos benefícios já experimentados e recebidos, para obradora dos quais hoje nasce ao mundo.

E se não perguntemos a todos os estados do mesmo mundo, e mais aos que mais padecem as suas misérias, que todos nos dirão este para quê. Perguntai aos enfermos para que nasce esta celestial Menina: dir-vos-ão que nasce para Senhora da Saúde; perguntai aos pobres: dirão que nasce para Senhora dos Remédios; perguntai aos desamparados: dirão que nasce para Senhora do Amparo; perguntai aos desconsolados: dirão que nasce para Senhora da Consolação; perguntai aos tristes: dirão que nasce para Senhora dos Prazeres; perguntai aos desesperados, dirão que nasce para Senhora da Esperança. Os cegos dirão que nasce para Senhora da Luz, os discordes para Senhora da Paz, os desencaminhados para Senhora da Guia, os cativos para Senhora do Livramento, os cercados para Senhora do Socorro, os quase vencidos para Senhora da Vitória. Dirão os pleiteantes que nasce para Senhora do Bom Despacho, os navegantes para Senhora da Boa Viagem, os temerosos da sua fortuna para Senhora do Bom Sucesso, os desconfiados da vida para Senhora da Boa Morte, os pecadores todos para Senhora da Graça, e todos os seus devotos para Senhora da Glória. E se todas estas vozes se uniram em uma só voz, todas estas perguntas em uma só pergunta, e todas estas respostas em uma só resposta, ou, mais abreviadamente, todos estes nomes em um só nome, dirão que nasce Maria para ser Maria, e para ser Mãe de Jesus: Maria, de qua natus est Jesus.

VII – O fim, verdadeiro princípio das coisas. O fim para que Deus nos criou, e para que nascemos neste mundo. A razão por que nenhum homem, em nenhuma fortuna, se devia queixar do dia em que nasceu, como o fez Jó. Que faremos para segurar um fim tão incerto e duvidoso? Resposta de Cristo Senhor nosso, a um mancebo desejoso de sua salvação. O remédio muito fácil com que o caminho estreito do céu se pode fazer largo, e muito largo.

Temos visto como para os nascimentos se festejarem, não vãmente, e por costume, senão com verdadeiro e sólido fundamento, é necessário saber primeiro dos mesmos nascidos o fim para que nasceram. E deste princípio tão certo e evidente inferiu e provou o nosso discurso quão digno é de ser elaborado com as maiores demonstrações de festa, aplauso e alegria o felicíssimo nascimento de Maria, Senhora nossa, pois sabemos que o fim para que nasceu foi para nascer dela o Filho de Deus, e seu, o Redentor do mundo. Agora será razão que este mesmo discurso o dobremos, e volte sobre nós, e consideremos todos, e cada um, o fim para que nascemos. As coisas não começam do princípio como se cuida, senão do fim. O fim por que as empreendemos, começamos e prosseguimos esse é o seu primeiro princípio; por isso, ainda que sejam indiferentes, o fim, segundo é bom ou mau, as faz más ou boas. Tal é, como dizíamos, o nascer. Importa, pois, considerar o fim para que nascemos, e se as ações da nossa vida são tais que devamos esperar delas que hajam de conseguir esse fim. Assim como esta grade divide o auditório, e esta divisão é tão grande quanto vai do céu à terra, assim dividirei eu também as conseqüências do que tenho dito. Comecemos pelos ouvintes de fora.

O fim para que Deus nos criou, e para que nascemos neste mundo, não é para servir ao mesmo mundo, como os pequenos, nem para nos servirmos dele, como os grandes, mas para grandes e pequenos — em que somos todos iguais: servirmos a Deus nesta vida, e o vermos e gozarmos na outra. E há alguém que saiba de certo, enquanto vive neste vale de misérias, se há de conseguir aquela suma felicidade, e se há de ver a Deus ou não? O que só sabemos com certeza infalível é que este fim, para que nascemos, é fim sem fim. No fim da vida se abrem as portas da eternidade, ou para dizer tudo, de duas eternidades: uma a que sobem os bons a gozar os eternos bens, e outra a que descem os maus a penar e a padecer os males, também eternos. E o estado em que de presente estamos, qual é? É a suspensão, a dúvida, a incerteza, a ignorância de qual destes dois é, será e há de ser o fim para que realmente nascemos. Oh! terrível consideração! Oh! cuidado que sempre nos devera trazer atônitos e pasmados, em comparação do qual todos os outros, em que tão divertidos andamos, importam nada!

Nesta vida muitos há que lhes não pesa de ter nascido, e por fundamentos tão leves, que não é muito que lhes não pese nem pese[35]. Outros lançam maldições ao dia e hora em que nasceram, e também com pouca razão, porque olham para o que padecem, e não para o fim. Até Jó, com ser o exemplo da paciência, caiu nesta fraqueza. Afogado naquele naufrágio de todos os bens, e martirizado pelo mais cruel de todos os tiranos, com tantos tormentos e dores, volta-se Jó contra o dia de seu nascimento, lançando-lhe maldições, quais se não podiam imaginar da sua paciência e do seu juízo, e diz assim: Pereat dies in qua natus sum, non numeretur in imensibus; non requirat eum Deus desuper, et non illustre tur lumine, etc. (Jó 3, 3. 6. 4): Pereça e morra o dia em que nasci; não seja contado nos meses do ano; não faça caso dele Deus lá de cima, nem nasça nele o sol; seja mais escuro e tenebroso que a noite; os trovões, as tempestades, os raios o façam horrendo e medonho — e muitas outras pragas a este tom, que eu não posso deixar de lhas estranhar. — E bem, Jó, este dia não passou já há tantos anos, e todas estas maldições que lançais sobre ele, não são impossíveis? Pois, como vos entram no juízo, e vos saem à boca tais dissonâncias e implicações? Deus vos livre de dores maiores que grandes: não só atormentam o corpo e alma, mas tiram o juízo. Assim o tiraram a Jó as suas dores. Mas nunca chegariam a tanto, se ele, como empregou toda a vista em olhar para os trabalhos, olhara também para o fim. Se Jó olhara para o fim dos mesmos trabalhos que padecia, é certo que abendiçoaria mil vezes, e daria mil parabéns ao dia em que nasceu. Mas este erro ponderou e emendou depois admiravelmente o apóstolo Santiago: Sufferentiam Job audistis, et finem Domini vidistis (Tg. 5, 11): Ouvistes, dizia, paciência de Jó, e ouvistes também as pragas e maldições que lançou sobre o dia do seu nascimento? Pois, se quereis padecer animosa, constante e alegremente, sem cair em semelhante fraqueza, olhai para o que ele não olhou, e vede o fim que Deus teve em lhe dar aqueles grandes trabalhos, que foi fabricar-lhe deles no céu uma coroa igual a eles.

Esta é a razão por que nenhum homem em nenhuma fortuna se devia queixar do dia em que nasceu. E haverá algum tão mofino, que justamente lhe deva pesar de ter nascido? Sim, e muitos. Todos aqueles, que esquecidos do fim para que nasceram, por seguirem desatinadamente os seus apetites, e se entregarem aos vícios sem arrependimento e sem fim, em lugar de conseguirem a eternidade do céu, caíram na do inferno. Assim o disse Cristo, Senhor nosso, de Judas, estando ainda nesta vida: Bonum erat ei, si natus non fuisset homo ille (Mt. 26, 24): Quanto melhor lhe fora a tão mofino homem nunca haver nascido! — Porque, se não nascera, ainda que não conseguisse o fim da bem-aventurança, para que todos fomos criados, ao menos não estaria ardendo no inferno, nem padecera os tormentos que não padecem os que não nasceram, nem nós padecíamos antes que nascêssemos. Suposta esta sentença da Suma Verdade, não há dúvida que vivem hoje neste mundo muitos, e queira Deus que não estejam alguns neste auditório, que lhes fora muito melhor não nascerem nunca. E se me perguntarem quem são, como Judas perguntou a Cristo: Numquid ego sum, Rabbi[36]? — assim como Cristo lhe respondeu: Tu dixisti: Tu o dissestes — assim respondo eu a cada um que ele o diga. O fim para que fomos criados goza-se na outra vida, mas depende desta: nesta vida fomos criados para servir e amar a Deus, e na outra para o gozar; e como o goza a Deus no céu depende de o servir e amar na terra, veja cada um se o serve e se o ama, e daí infira se vai bem encaminhado para o último fim. Todos nesta vida servem, e todos amam. Mas a quem servis, e a quem amais? Vós o sabeis. Se é a Deus, esperai nele, que ele vos espera com glória aparelhada; mas se é alguma criatura, temei e tremei, porque ireis parar onde vos leva.

Se a verdade e evidência desta consideração vos persuadir alguma coisa, vejo que me estais perguntando: Pois, que farei para segurar este fim tão incerto e duvidoso? A resposta que vos darei é muito segura e sem dúvida, porque é da boca do mesmo Cristo. Contam os evangelistas que veio um mancebo desejoso de sua salvação perguntar a Cristo, Senhor nosso, como Mestre de todo o bem, que boas obras faria nesta vida, para alcançar a eterna: Magister bone, quid boni faciam ut habeam vitam aeternam? — Respondeu-lhe o Senhor: Si vis ad vitam ingredi, serva mandata (Mt. 19, 16 s): Se te queres salvar e alcançar a vida eterna, guarda os mandamentos. — Esta é a resposta que alimpa a pauta, e tira toda a dúvida aos que a têm de sua salvação. Se quereis saber se vos haveis de salvar, e conseguir o fim para que nascestes neste mundo, vede se guardais os mandamentos, e guardai-os sempre. O que noto aqui, e reparo muito, é que não falou Cristo uma só palavra em predestinação, que é o maior tropeço desta mesma dúvida. Se sou predestinado, salvar-me-ei; se não sou predestinado, não me posso salvar. Pois, se assim é, por que não respondeu o Senhor com a predestinação? Não respondeu por este nome, que é muito embaraçado e escabroso, mas como bom Mestre: Magister bone — reduziu toda a matéria a termos mais claros, que são os mandamentos de Deus. Quereis saber se sois predestinado, e vos predestinou Deus? Vede se guardais ou não guardais os seus mandamentos. Se guardais os mandamentos de Deus, e perseverardes na guarda deles, sois predestinado; e se os não guardais, ou deixardes de os guardar, sois precito. Notai as palavras do mesmo Cristo: Si vis ad vitam ingredi: se vos quereis salvar. Logo, na nossa vontade está o salvarmo-nos ou não. Daqui se colhe que a predestinação foi praevisis meritis: com previsão das nossas obras. De sorte que se eu quiser cooperar com a graça de Deus, e guardar seus mandamentos, seguro está na minha mão o salvar-me, que não está na mão de Deus negar-me o Paraíso.

Estais já contentes? Ainda me parece que vos remorde na consciência um escrúpulo, e é que a observância dos mandamentos, ainda que sejam só dez, e esses se reduzem a dois, é muito dificultosa e apertada. Por isso o mesmo Cristo, falando da mesma observância e dos mesmos mandamentos, disse que o caminho do céu é muito estreito. Mas já eu apontei no princípio deste último discurso o remédio muito fácil com que o mesmo caminho de estreito se pode fazer largo, e muito largo, e também muito largos os mandamentos. Em que está este remédio? Nos olhos. Em olharmos para o último fim para que fomos criados. Expressamente o Real profeta: Omnis consummationis vidi finem, latum mandatum tuum nimis (Sl. 118, 96): Eu — diz Davi — olhei para o fim último e consumado para que Deus me criou, e logo com esta só vista, voltando-a para os mandamentos do mesmo Deus, que me pareciam muito estreitos, conheci claramente que eram muito largos. — O tempo que há de durar a observância dos mandamentos é o estreito, porque há de acabar com a vida; porém, o prêmio e o fim, esse há de durar por toda a eternidade. E como o fim é tão largo e tão imenso, como podem não ser largos também os meios: Latum mandatum tuum nimis?

VIII – Os religiosos e a condenação de Judas. Jeremias e a causa da queda de Jerusalém. Por que Davi lembra e repete tantas vezes nos salmos o fim? O fim das almas que professam a Religião. O caminho dos mandamentos e o caminho dos conselhos. A Virgem Maria, exemplo das religiosas. Jesus e os parentescos do espírito. Excelências da maternidade espiritual sobre o corporal. Conclusão.

Muito me detive com o auditório das grades para fora, que é o que tem necessidade de maior doutrina. Agora que hei de falar com almas religiosas, falarei também como religioso. A primeira coisa que digo, falando comigo, é o assombro que me causa considerar que também de um religioso se possa verificar que lhe seria muito melhor nunca ter nascido: Bonum erat ei, si natus non fuisset homo ille (Mt. 26, 24). — Homem chamou Cristo a Judas neste caso, e não religioso, nem sacerdote, nem discípulo, que foi o mesmo que degradá-lo da ordem e das ordens, e despir-lhe tremendamente o hábito naquele cadafalso público. Foi Judas não só religioso, senão bom religioso, e tão santo que fez muitos milagres. Mas foi mau sacerdote, porque comungou em pecado, e mau discípulo, porque depois deste horrendo sacrilégio acrescentou o de ir vender a seu Mestre. Se na escola de Cristo, se na comunidade dos doze apóstolos sucede uma desgraça como esta, quem se dará por seguro na religião, e quem não temerá de si que lhe fora muito melhor não haver nascido?

Já falei comigo; agora, muito veneráveis senhoras, que poderei dizer a esta tão grave como religiosa congregação? Direi o que de outra muito santa refere o profeta Jeremias, muito a propósito da matéria em que estamos. A cidade de Jerusalém chamava-se por antonomásia a Cidade Santa; mas como não há lugar neste mundo em que a santidade esteja segura, caiu a santidade, e a cidade com ela. Lamentando Jeremias esta miséria, representa a Jerusalém em uma figura viva, como outra Madalena antes de convertida: Mulier in civitate peccatrix[37] — e diz, ou chora desta maneira: Peccatum peccavit Jerusalem[38]: Pecou Jerusalém — e continua no seu pecado: Sordes ejus in pedibus ejus: está encravada no lodo, sem se tirar ou arrancar dele: Nec recordata est finis sui[39] — e a toda esta miséria chegou porque se não lembrou do seu fim. De que nos lembramos, se disto nos esquecemos? E que se pode esperar ou temer deste esquecimento, ainda nos lugares mais santos, senão o que o profeta lamenta e nós não choramos. De sorte, que o cair Jerusalém do cume da santidade no abismo do lodo e do pecado, não foi por outro descuido ou negligência, senão por se haver esquecido de olhar para o seu fim: Nec recordata est finis sui.

Toda a vida humana, por mais religiosa que seja, se não trouxer sempre diante dos olhos o fim para que nasceu, é navio sem norte, é cego sem guia, é dia sem sol, é noite sem estrela, é república sem lei, é labirinto sem fio, é armada sem farol, é exército sem bandeira; enfim, é vontade às escuras, sem luz do entendimento que lhe mostre o mal e o bem, e lhe dite o que há de querer ou fugir. Que lugar mais religioso e mais santo — para que não vamos mais longe — que este mesmo coro? Que exercício mais agradável a Deus que a oração, e de muitos? Que orações mais aprovadas que as de que se compõe o Ofício Divino, ditadas pelo Espírito Santo? Que compostura, que modéstia, que harmonia do canto, que pausas do silêncio, que retrato de um coro dos anjos no céu, como este na terra? E bastará toda esta união de pessoas, de vozes, de corações para fazer consonância aos ouvidos de Deus? Se os olhos não estiverem postos no fim para que ele nos criou, não bastará. Ouvi a prova, que não pode ser mais autêntica nem mais admirável. O Saltério de Davi, de que principalmente se compõe a reza eclesiástica, contém cento e cinqüenta salmos, e a terceira parte deles alternadamente tem por título: In finem, in finem, in finem: Ao fim, ao fim, ao fim. E por que se lembra tantas vezes o fim, e no título e princípio dos salmos, como antífona universal de todos? Porventura para que se chegue depressa ao fim das horas, rezando tumultuariamente, como se faz em alguns coros com tanta indecência? Só o interesse e a indevoção dirá que sim. Pois, por que se lembra e repete tantas vezes nos salmos: In finem, in finem, in finem? Porque, sendo as nossas orações um dos principais atos de religião, e nas religiões o mais freqüente, não só de dia, mas de noite, se nelas faltar a consideração do fim para que nascemos, será o mesmo que se à música faltasse o compasso, com que as vozes; em lugar de fazerem harmonia, ofenderiam os ouvidos, e seriam dissonância, confusão e tumulto.

Este fim tão necessário, falando destas grades para dentro, porventura é o mesmo que eu preguei delas para fora, que foi a observância dos mandamentos? Não. É outro fim muito mais alto, muito mais sublime, muito mais santo. Também tem duas partes como o outro, e esse é o fim de que fala Davi. In finem dirigens nos in praesenti ad justitiam, in futuro ad gloriam — diz Hugo Cardeal, e antes e depois dele todos os intérpretes: É o fim que de presente nos encaminha às obras da graça, e de futuro aos prêmios da glória. — Mas, assim de presente como de futuro o fim das almas que professam religião é muito mais alto. Na mesma história do mancebo que veio perguntar a Cristo como se salvaria, temos a diferença. Respondeu-lhe o Senhor que, se queria ir ao céu, guardasse os mandamentos: Si vis ad vitam ingredi; serva mandata. — E como ele respondesse que desde menino os tinha guardado, então lhe revelou o divino Mestre, e lhe abriu outro caminho menos rasteiro e muito mais sublime: Si vis perfectus esse, vade, vende omnia quae habes, et da pauperibus, et veni, sequere me (Mt. 19, 21): Se queres ser perfeito, vai, e vende quanto tens, e dá-o aos pobres, e vem, e segue-me. — Estas palavras, diz nosso padre S. Bernardo, são as que encheram os claustros de religiosos e religiosas, e os desertos e as covas de anacoretas: Haec sunt quae monachis claustra replent, deserta anachoritis[40]. Em suma, que para ir ao céu há dois caminhos, um da salvação, outro da perfeição: da salvação: Quid faciam ut habeam vitam aeternam[41] — da perfeição: Si vis perfectus esse[42]. — O caminho da salvação é o dos mandamentos, o da perfeição o dos conselhos: o dos mandamentos é forçoso e necessário, o dos conselhos é voluntário e livre; no dos mandamentos obriga-nos Deus a nós, no dos conselhos obrigamo-nos nós a Deus, e isto é o que fazem todos os que professam religião. Deus a ninguém obriga a guardar pobreza, castidade e obediência, e estas três virtudes são os três votos essenciais da religião, a que todos os religiosos se obrigam, sacrificando a Deus e oferecendo-lhe em perfeitíssimo holocausto tudo o que são e o que têm: o que têm, são os bens temporais, e desses se despojam pelo voto da pobreza; o que são, é o corpo e alma de que somos compostos; o corpo dão-no a Deus pela castidade, e a alma pela obediência. E como o fim com que os religiosos e religiosas servem a Deus nesta vida é tanto mais alto, assim também o é na outra o fim do que hão de gozar no céu. Vede-o nas palavras da primeira resposta que Cristo deu ao mancebo que perguntava como se poderia salvar: Si vis ad vitam ingredi, serva mandata (Mt. 19, 17): Se queres entrar no céu, guarda os mandamentos. — Notai muito aquele ingredi. Para entrar no céu, e para ir ao céu, basta guardar os mandamentos; mas uma coisa é poder entrar no céu, outra ter e gozar no céu um lugar e um trono muito alto e altíssimo, e este é o fim dos que na terra guardam os conselhos de Cristo. Lastimosa e lastimosíssima coisa é que neste mundo todos queiramos ser dos maiores, e só para o céu nos contentemos com ter lá um cantinho: Si vis ad vitam ingredi.

Ora, senhoras, para que o fim que vos espera no céu seja não só alto, mas altíssimo — sendo certo que o grau em que lá havemos de ver e gozar a Deus se há de medir com a mesma vantagem e excesso com que o servirmos e amarmos na terra — que exemplo vos proporei eu para imitar nesta primeira parte do mesmo fim? Estou quase certo que nunca ouvistes deste lugar uma lisonja que agora vos direi. E qual é? Que para agradecerdes a Deus o terdes nascido neste mundo, imiteis a mesma Virgem Maria, que hoje nasceu. E em quê? Naquele mesmo fim com que provamos ser digno das maiores demonstrações de festa, aplauso e alegria, o dia do seu nascimento. O fim com que provamos esta verdade não foi nascer Maria para dela nascer Jesus: Maria, de qua natus est Jesus? Pois, este mesmo fim, e em próprios termos, é a lisonja que vos prometi dizer. Vede se pode ser maior. Vem a ser que nenhuma filha de S. Bernardo, pois é filha de tal pai, se contente com menos que com ser Mãe de Jesus. Nosso padre S. Bernardo, falando nesta matéria mais altamente que todos, disse com a eminência de seu espírito e juízo, que havendo Deus de ter Mãe, não era decente que fosse senão virgem, e que havendo uma virgem de ter filho não era também decente que fosse senão Deus: Porro Deum hujusmodi decerta nativitas, qua nonisi de Virgine nasceretur, talis et congruebat Virgini partus, ut non pareret nisi Deum[43]. — Não é coisa logo alheia do estado virginal, ó virgens consagradas a Deus, que cada uma de vós imite a Virgem das Virgens em ser Mãe de Jesus. E para que nenhuma humildade religiosa se assombre com a grandeza deste nome, saiba toda esta venerável comunidade que eu me não atrevera a dizer tanto, se o mesmo Jesus e o mesmo Filho, que nasceu de Maria, o não dissera.

Estava Cristo pregando, ou a primeira vez, ou uma das primeiras vezes que ensinou em público, quando lhe disseram que sua Mãe e seus parentes o buscavam. E o Senhor, levantando mais a voz, respondeu: Quae est Mater mea, et qui sunt fratres mei (Mt. 12, 48)? Quem é minha mãe, e quem são os meus parentes? — Quicumque fecerit voluntatem Patris mei, ipse meus frater, et soror, et mater est: Quem fizer a vontade de meu Pai, esse é meu irmão e minha irmã, e minha mãe. — Destes três parentescos já sabeis que vos tocava o soror; eu acrescento que não só o soror, senão o soror e mater. Os parentescos do espírito têm muito maior largueza que os da carne e sangue. Vulnerasti cor meum, soror mea, sponsa[44]. — Ser irmã e ser esposa, fora do parentesco espiritual não pode ser; é, contudo, toda a virgem consagrada a Deus sabe que não só é soror, senão soror e esposa de Cristo. O ser soror e mater parece união mais dificultosa; mas basta que o mesmo Filho da Virgem Maria, sem fazer agravo a sua Santíssima Mãe, afirme e conceda que o podem ser outras. O modo só resta saber, perguntando a nossa admiração como perguntou a da Virgem das Virgens ao anjo: Quomodo fiet istud (Lc. 1, 34 s)? Como pode ser uma coisa tão alta e tão divina? — Respondeu o anjo à Senhora: Spiritus Sanctus superveniet in te (ibid. 35): O Espírito Santo sobrevirá em vós. — Para entendimento desta resposta, temos aqui um discreto e sutil reparo: e de quem havia de ser, senão de S. Bernardo? Por que não diz o anjo que virá o Espírito Santo, senão que sobrevirá? Sobrevir é vir sobre ter já vindo; e quando o Espírito Santo veio no dia da Encarnação, para que a Virgem concebesse o Verbo corporalmente, e fosse Mãe de Jesus no corpo, já tinha vindo para que o concebesse espiritualmente, e fosse Mãe de Jesus no espírito: Ideo non dixit venit in te, sed addidit super, quia jam prius quidem in ea fuit. De sorte que foi a Virgem duas vezes Mãe de Jesus: uma no corpo depois, e outra na alma primeiro.

E qual destas duas maternidades é mais excelente, mais alta e mais sublime: a corporal com que nasceu dela: Quod nascetur ex te[45] — ou a espiritual, com que nasceu nela: Quod in ea natum est[46]? — Não há dúvida que a maternidade espiritual, quanto vai do espírito à carne e da alma ao corpo. Assim o resolve sem controvérsia a teologia, assim o celebram todos os Santos, e assim o definiu o mesmo Cristo. Quando a mulher do Evangelho lhe disse: Beatus venter qui te portavit — respondeu o Senhor: Quinimmo beati qui audiunt verbum Dei, et custodiunt illud[47] — não porque quisesse diminuir as excelências do sagrado ventre, mas para ensinar que havia outro modo de maternidade mais excelente e mais alto, com que o mesmo Verbo já encarnado podia ser concebido, não corporal, mas espiritualmente. Na primeira maternidade é singular a Virgem Maria, mas na segunda admite companhia, e esta é principalmente das outras virgens consagradas a Deus: Adducentur regi virgines post eam[48]. — E por quê? Porque a dignidade de conceber a Deus, e ser Mãe de Deus, como também disse o nosso S. Bernardo, é privilégio próprio da virgindade: Virginitate concepit. — Este foi o altíssimo fim para que hoje nasceu a Virgem Maria; e este é, não fingida, senão verdadeiramente, o mesmo para que nasceu cada uma das virgens de que se compõe esta santa comunidade, isto é, para ser mãe de Jesus, como foi mãe de Jesus a mesma Virgem Maria: Maria, de qua natus est Jesus[49].

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[1] Maria, da qual nasceu Jesus (Mt. 1, 16)
[2] Descansou no dia sétimo, e o santificou (Gen. 2, 2s).
[3] Porque o louvor do homem não está no fim , mas no começo (Abr. in examer.).
[4] Viu Deus que isso era bom (Gên. 1, 10).
[5] Gen. 3.
[6] Gen. 17.
[7] Gen. 25.
[8] Gen. 29.
[9] Est. 5.
[10] Jz. 4.
[11] Jdt. 13
[12] 1 Rs. 25.
[13] Rut. 4.
[14] Ex. 15.
[15] August. lib. de Assumpt.
[16] Ildeph. de B. Virg. c. 2.
[17] Anselm. De Excel. Virg. c. 2.
[18] Method. Serm. de. Hipapen. Domini.
[19] Sophron. Serm. de. Assumpt.
[20] Gen. 6.
[21] Gen. 28.
[22] Ex. 4.
[23] Ex. 35.
[24] 3 Rs. 10.
[25] Cânt. 4.
[26] Ex. 37.
[27] Ex. 26.
[28] Gên. 2.
[29] Ex. 13.
[30] Is. 11.
[31] A Deus, que a todos dá liberalmente (Tg. 1, 5).
[32] Vem, doador de dons (Sequ. In Festo Spir. Sancti).
[33] Vós, ó deuses inferiores, sede bons para mim.
[34] Vós, ó deuses inferiores, sede bons para mim, porque a vontade dos deuses superiores me é adversa.
[35] No original que lhe não peze nem pêze.
[36] Sou eu porventura, Mestre (Mt. 26, 25)?
[37] Uma mulher pecadora que havia na cidade (Lc. 27, 37).
[38] Jerusalém cometeu um grande pecado (Lam. 1, 8).
[39] E ela se não recordou do seu fim (ibid. 9).
[40] Bern. in Declamat. Sub initium.
[41] Que devo eu fazer para alcançar a vida eterna (Mt. 19, 16)?
[42] Se queres ser perfeito (Ibid. 21).
[43] Bernard. sup. Missus.
[44] Tu feriste o meu coração, irmã minha, esposa (Cânt. 4, 9).
[45] O que há de nascer de ti (Lc. 1, 35).
[46] O que nela se gerou (Mt. 1, 20).
[47] Bem-aventurado o ventre que te trouxe. Antes bem-aventurado aqueles que ouvem a palavra de Deus, e a põem por obra (Lc. 11, 27s).
[48] Serão apresentadas ao rei virgens após ela (Sl. 44, 15)
[49] Maria, da qual nasceu Jesus (Mt. l, 16).

Fonte: https://www.literaturabrasileira.ufsc.br/documentos/?action=download&id=49881