Sermão para o dia de S. Bartolomeu, em Roma

SERMÃO PARA O DIA DE S. BARTOLOMEU EM ROMA

NA OCASIÃO DE PROMOÇÃO DE CARDEAIS


Elegit duodecim ex ipsis, quos et apostolos nominavit[1].

I – Por que se desvela Cristo na eleição dos ministros, e por que dorme na barca dos apóstolos? Assunto do sermão: como eleger os grandes ministros?

Temos hoje desvelado a Cristo: Erat pernoctans (Lc. 6, 12), e com razão desvelado. Havia de eleger os pastores de sua Igreja, havia de eleger os maiores ministros de sua monarquia: justa e exemplarmente se desvela. Nenhum negócio mais deve tirar o sono a um príncipe, nenhum o deve desvelar mais que a eleição dos grandes ministros, porque desta eleição dependem todas as eleições, todas as resoluções, todas as execuções, e todo o bom governo e felicidade da república. Aqui se faz, ou se desfaz tudo. Justamente, logo, se desvela o supremo rei, justa e exemplarmente o supremo pastor: Fugiet somnus ab oculis meis[2], dizia Jacó, quando pastor de Labão. Se o cuidado das ovelhas tanto desvelava ao pastor, quanto mais deve desvelar ao dono a eleição dos pastores? Lembra-me — vamos do monte ao mar — lembra-me que no Mar de Tiberíades corria fortuna a barca do apostolado, e no maior rigor da tempestade se diz de Cristo que dormia: Ipse vero dormiebat. (Mt. 8, 24). No mar, Senhor meu, dormindo, e no monte desvelado? Não vos tira o sono a tempestade, e a eleição dos que vão na barca vos desvela tanto? Sim, que quem se desvela nas eleições não periga nas tempestades. Pedro estava ao leme, André, João e Diogo, e os demais aos remos, e quando está a barca tão bem provida, bem pode dormir o patrão. A tempestade estava no mar, a segurança no monte. Onde se fez a eleição, ali se venceu o perigo, e onde estava o perigo, ali houve de ser o desvelar: Erat pernoctans.

Este é o ponto sobre que havemos de falar hoje, matéria não só grande, mas entre as maiores a maior. Como se devem eleger os grandes ministros? Cristo nos ensinará, e sua Mãe Santíssima nos alcançará a graça. Ave Maria.

II – As três regras das eleições: Com quem se há de fazei; quais devem ser os eleitos, quantos se hão de eleger? Primeira regra: Com quem? Com os parentes, os amigos, os interessados? Com o mais parente, com o mais amigo, com o mais interessado: com Deus. A eleição do substituto de Judas, e a eleição dos sacerdotes na lei antiga.

Elegit duodecim ex ipsis, quos et apostolos nominavit.

Elegeu Cristo hoje os maiores ministros de sua Igreja, e no modo e circunstâncias admiráveis desta eleição, deixou canonicamente prescrito a seus sucessores como eles também os haviam de eleger. Todo o exemplar se reduz a três regras. Primeira: com quem se há de fazer a eleição? Segunda: quais devem ser os eleitos? Terceira: quantos se hão de eleger? Em três palavras: Com quem? Quais? E quantos? Comecemos.

A primeira pergunta destas é: com quem se hão de fazer as eleições? Com os parentes? Com os amigos? Com os interessados? Não, e sim. Não com os parentes, mas com o mais parente; não com os amigos, mas com o mais amigo; não com os interessados, mas com o mais interessado: com Deus: In oratione Dei. No Sagrado Colégio tinha Cristo parentes, tinha amigos, tinha interessados. Tinha parentes, porque tinha a João e os dois Jacobos, primos seus; porém, não consultou estes parentes, senão a Deus, que é o mais parente, porque é pai. Tinha amigos, e muito do seu seio, Pedro, João e Diogo, dos quais fiava tudo, porém não consultou estes amigos, senão a Deus, que é o mais amigo, porque só seu amor é fiel, e sua vontade reta. Tinha interessados, e estes — como costuma ser — eram todos: Quis eorum videretur esse major[3]. E não consultou estes interessados, senão a Deus, que nesta eleição era o mais interessado, porque nos ministros idôneos de sua Igreja vai empenhado seu serviço, sua honra, sua glória, e o bem e salvação do mundo. Por isso o humaníssimo Senhor, que em outras ocasiões chamou a conselho a seus discípulos, nesta nem lhes quis perguntar, nem os quis ouvir, antes, como bem advertiu o grande arcebispo de Bulgária, Teofilato, para exemplo e doutrina dos que agora haviam de ser eleitos, e depois eleitores, tratou tudo com Deus, só por só, em larga oração: Post orationem — diz ele — elegit discipulos, ut doceat etiam nos, quando quempiam in spirituale ministerium sumus ordinaturi, cum precibus hoc faciamus, ut doctis a Deo, et ab illo petentibus, revelet quis idoneus sit[4].

Todas as circunstâncias do caso pregam e confirmam esta verdade. Primeiramente: Exiit in montem: subiu-se Cristo a um monte. — Os políticos dirão aqui que, para fazer eleições semelhantes, importa subir a um monte, e muito alto, donde se descubra e veja todo o mundo, os reinos, os estados, os príncipes, as dependências, o poder de uns, a declinação de outros, o de perto, o de longe, o que é, o que pode ser. Mas este modo de subir ao monte, mais tem de tentação que de eleição: Assumpsit eum diabolus in montem excelsum, et ostendit ei omnia regna mundi, et gloriam eorum[5]. E a que fim? Si cadens adoraveris me[6]. Subir ao monte para descobrir desde o alto os reinos do mundo e ver sua grandeza, e onde se acham menos ou mais gloriosas as suas coroas, é mais a propósito para adorar ao diabo, que para eleger instrumentos que o destruam. Cristo subiu ao monte nesta ocasião, não para ver o mundo, mas para se apartar mais dele e para pôr os olhos mais de perto no céu. Por isso subiu de noite, e não de dia: Erat pernoctans. Notou Filo Hebreu discretamente que o dia descobre a terra e encobre o céu; a noite descobre o céu e encobre a terra. Esta é a melhor hora de eleger, quando a terra se fecha aos olhos, e o céu se abre. Por isso vai o Senhor de noite, e ao monte. De noite, para não ver a terra, senão o céu; ao monte, para ver mais livremente e mais de perto: Exiit in montem, et erat pernoctans.

Este tempo e este lugar escolheu Cristo para fazer a eleição em seu lugar e a seu tempo. E para que fosse acertada, consultou só por só com Deus: In oratione Dei. Com Deus propunha os fins, sendo o único fim o mesmo Deus; com Deus consultava os meios, não havendo coisa em meio entre ele e Deus; com Deus media os talentos, com Deus pesava os merecimentos, e onde estes eram maiores, ele era o que intercedia, ele era o orador: In montem orare. Orava como homem para eleger como Deus: orador, e não orado. Vede a diferença maior desta eleição. Nas cortes do mundo os interessados oram, o príncipe elege. No consistório de Cristo os interessados calam, o príncipe ora. Os eleitos não se hão de pedir ao príncipe; há de pedi-los o príncipe a Deus. Estavam duas cadeiras vagas no apostolado, pediu-as ambas a viúva do Zebedeu. E que respondeu Cristo? Que pelo menos lhe daria uma, para satisfazer com outra a outros respeitos iguais? Não. O que respondeu foi: Non est meum dare vobis, sed quibus paratum est a patre meo[7]. Divino modo de negar sem ofender. Eleja Deus, e não se ofenderão os homens; seja Deus o que eleja, e Deus o que nomeie. A nomeação e a eleição, tudo há de ser de Deus: Elegit duodecim, quos et apostolos nominavit[8]. Depois que Cristo orou ao Eterno Padre, então saiu a nomeação e a eleição, e primeiro a eleição que a nomeação: Elegit, et nominavit. Se um nomeia quando outro elege, não elege quem elege, elege quem nomeia.

Bastava só esta razão para ser Deus, e só Deus, o consultado nas eleições; mas há outra mais interior e mais forçosa: o acerto. Não há coisa mais difícil que eleger um homem a outro homem, porque, ou o conhece, ou não. Se o não conhece, elege às cegas; e se o conhece, também: porque, se o conhece, ou o ama ou o aborrece, e tão cego é o amor como o ódio. Mas é certo que, com a paixão, ou ainda sem ela, nenhum homem conhece a outro. O conhecimento do homem é reservado somente a Deus, e ainda nele admirável: Mirabilis facta est scientia tua ex me[9]. Necessário é logo que se peça a Deus orando, o que o homem, nem por si, nem por outrem pode alcançar conhecendo. Assim o fizeram os mesmos que hoje foram eleitos, quando quiseram substituir o lugar que vagou de Judas.

Propôs S. Pedro, e ele e os demais apóstolos escolheram, de todos os discípulos, os mais eminentes em santidade e os mais experimentados nos exercícios e ministérios do apostolado, que foram Matias e José, chamado o justo. Isto feito, se pôs o colégio em oração. E que pediram a Deus? Orantes dixerunt: Tu Domine, qui corda nosti omnium, ostende quem elegeris ex his duobus (At. 1, 24): Vós, Senhor, vós que só conheceis os corações e o interior dos homens, vede qual destes dois elegeis, — e assim se fez a eleição. Eles propuseram e oraram: Deus elegeu. E para ensinar Deus quão errados — ainda sem paixão — são os juízos humanos, não elegeu para apóstolo aquele a quem os homens tinham dado o nome ou a antonomásia de justo. Assim sucedeu Matias no lugar em que hoje foi eleito Judas. Torno a dizer: em que hoje foi eleito Judas. Se em doze eleitos por Cristo, e com Deus, se achou um Judas, em doze eleitos sem Deus e sem Cristo, quantos se acharão? Queira o mesmo Deus que não sejam mais de onze. Por isso só se deverão fazer as eleições com Deus. Corra por conta de Deus o acerto. Como faça o eleitor sua obrigação, não importa que o eleito não faça a sua. Judas não fez o que devera, mas Cristo fez o que devia, porque orou antes de eleger, e o consultou primeiro e mui devagar com Deus: Erat pernoctans in oratione Dei.

Em uma noite se fizeram e acabaram de fazer as eleições, e ao amanhecer do outro dia se nomearam os apóstolos: Et cum dies factus esset (Lc. 6, 13). Que brevemente se conclui o que se consulta só com Deus! Onde não entram razões temporais, não se gasta tempo. Toda a noite parece que gastou Cristo, como significa o termo: Erat pernoctans. Mas é assaz, que doze eleições se façam em doze horas. Quantos dias, quantos meses, quantos anos se gastam muitas vezes em eleger um homem? É porque não se fazem as eleições com Deus. Direis que é necessário fazê-las com grande consideração. Também assim o digo. Com consideração sim, com considerações não, e as considerações são as que levam e as que gastam o tempo. Não quero para isso outro autor que o grande pontífice S. Gregório, mui costumado a fazer grandes eleições. Elegeu Samuel a Saul, e fez-se a eleição com toda esta cerimônia. No primeiro escrutínio saiu a tribo de Benjamin, no segundo a família de Métri, no terceiro a casa de Cis, no quarto a pessoa de Saul: Quid in hoc significatur — diz S. Gregório — nisi quia Sanctae Ecclesiae principes multa consideratione elegendi sunt? Quis com isto significar Deus que os príncipes de sua Igreja se hão de eleger com muita e mui larga consideração. — Assim foi, mas tudo se fez em quatro escrutínios, e tudo em um dia, porque se fez somente com Deus, sem outras considerações nem dependências. Sobre a eleição do sacerdócio concorreram as doze tribos com outras tantas varas, que foram levadas ao tabernáculo e se puseram na presença de Deus, e em uma noite a vara de Arão se cobriu de folhas, se esmaltou de flores e se encheu de frutos, com que ele foi o eleito e declarado Sumo Sacerdote. Para fazer outro tanto a natureza com as raízes na terra, fora necessário um ano, mas como as varas desarraigadas da terra se puseram na presença de Deus, bastou uma noite. Nesta noite em que orou Cristo, doze vezes se multiplicou este milagre. Floresceram doze varas, e amanheceram ao mundo, para a reforma dele, eleitos doze apóstolos: Erat pernoctans in oratione Dei, et cum dies factus esset, elegit duodecim ex ipsis.

III – Segunda regra. Quais hão de ser os eleitos? Nem os maus nem os bons, senão os melhores dos melhores. Nas eleições divinas, os excluídos qualificam os eleitos. Os escolhidos dos escolhidos. As eleições de Saul e Davi. As seis eleições dos apóstolos. Baltasar e Ciro e a balança da justiça. As atenções do sangue e do temor.

Passemos à segunda questão. Quais hão de ser os eleitos? Os maus? Claro está que não. Logo os bons? Não digo isso. Nem os maus, nem os bons, senão os melhores. Ainda disse mal, e ainda pouco. Os melhores dos melhores digo, quais eram os que hoje elegeu Cristo. Os melhores do povo de Israel, eram os que criam em Cristo; os melhores que criam nele, eram seus discípulos, e os melhores de seus discípulos foram os doze, que hoje elegeu e nomeou por apóstolos: Elegit duodecim ex ipsis, quos et apostolos nominavit. Note-se muito, não só a quem, e a quais, mas de quem, e de quais escolheu: ex ipsis. Entre os discípulos estava Lucas, estava Marcos, estava Estêvão, e tantos outros eminentemente bons, e melhores que bons. Mas o Senhor, como elegia os apóstolos para eminentíssimos, não elegeu os melhores dos bons, senão os melhores dos melhores. Esta foi a razão por que Cristo chamou diante de si a todos os discípulos, quando escolheu aos apóstolos: Vocavit discipulos suos, et elegit duodecim ex ipsis — para que, à vista dos que deixava, se conhecessem melhor os que escolhia. Quis que se lhe conhecesse o jogo pelo descarte. Quando Samuel houve de ungir a Davi, ordenou Deus que viessem primeiro diante dele todos os filhos de Jessé. Veio o morgado Eliab: não é este, diz Deus. Veio Aminadad: nem este. Veio Sama, e outros sete irmãos, e nenhum escolheu Deus, até que veio do campo Davi. Pois, se Davi era o escolhido, para que vêm primeiro à presença de Samuel todos os filhos de Jessé? Para que, vendo Samuel e o pai, quais eram os que Deus deixava, conhecessem melhor qual era o que escolhia: Vocavit discipulos suos. Venham todos os discípulos diante de Cristo: exclua-se um Marcos, exclua-se um Lucas, exclua-se um Estêvão, para que, à vista da grandeza dos excluídos, se conheça melhor a eminência dos doze eleitos: Et elegit duodecim ex ipsis. Nas promoções humanas os excluídos condenam as eleições; nas divinas os excluídos qualificam os eleitos.

Duodecim ex ipsis. Não se fez aqui a eleição entre escolhidos e reprovados, senão entre escolhidos e escolhidos, porque, quando se elegem príncipes da igreja, não se há de eleger o escolhido do reprovado, senão o escolhido do escolhido. Ouvi um grande lugar do Evangelho, que ainda entre grandes expositores anda mal-entendido. Chamou o pai de famílias os operários que haviam de trabalhar na sua vinha, uns mais cedo, outros mais tarde, a diferentes horas do dia, e no fim do mesmo dia receberam todos o seu jornal, começando não dos primeiros, senão dos últimos. Daqui tirou e inferiu o Senhor aquela tão celebrada conclusão: Multi enim sunt vocati, pauci vero electi (Mt. 20, 16): Porque muitos são chamados, e poucos os escolhidos. — A exposição comum destas palavras é que, sendo os chamados todos, os escolhidos são poucos e os reprovados muitos. Mas neste lugar é certo que essa mesma sentença, repetida em outros, não quer dizer tal coisa, nem esse era o intento de Cristo. Prova-se evidentemente, porque todos os que foram à vinha, e entraram nesta comparação, foram escolhidos, porque todos receberam o jornal ou denário, que é o prêmio dos que guardam os dez Mandamentos. Pois se todos eram escolhidos, como infere e conclui Cristo que os chamados são muitos e os escolhidos poucos? Porque a eleição, de que o Senhor falava nesta parábola, é a eleição da preferência aos primeiros lugares: Erunt novissimi primi[10]. E esta eleição não se faz entre escolhidos e reprovados, senão entre escolhidos e escolhidos, quais eram todos os que receberam o denário. E daqui se infere e conclui, com toda a propriedade, que os chamados são muitos e os escolhidos poucos, porque os chamados para esta eleição são todos os escolhidos entre os demais, e os escolhidos para ela são só os escolhidos entre os escolhidos. Assim se viu na eleição de hoje: os chamados foram muitos, porque foram todos os discípulos: Vocavit discipulos suos — os quais discípulos eram todos escolhidos, porém os escolhidos destes escolhidos foram só os doze apóstolos: Elegit duodecim ex ipsis. Ex ipsis, que eram os escolhidos, ex ipsis, que eram os melhores, porque os príncipes da Igreja hão de ser o escolhido do escolhido, e o melhor do melhor.

Duas eleições temos de Deus no Testamento Velho, em que não se requeria nem se professava tanta perfeição, e sendo não eclesiásticas, senão seculares — e bem significativas da nossa Igreja, como notou S. Agostinho — vede quais foram os escolhidos. O primeiro foi Saul, o segundo Davi. E por que foi Saul o primeiro? Porque era o melhor, diz o texto sagrado! Non erat vir de filiis Israel melior illo (1 Rs. 9, 2); nenhum em todo Israel era melhor que ele. E por que ninguém cuide que havia algum tão bom, acrescenta a mesma Escritura que ninguém lhe era igual: Quoniam non sit similis illi in omni populo[11]. Nenhum era melhor, porque dos melhores ele era um; e nenhum era tão bom, porque dos melhores ele era o melhor. Davi também vivia em tempo de Saul, donde se infere coisa muito digna de se notar, que, quando Saul foi eleito, era melhor que Davi. Assim o afirma o bispo Abulense e acrescento a Abulense a pregação de bispo, porque nenhuma autoridade citei, nem citarei neste sermão, que não seja de autor constituído na primeira dignidade eclesiástica: Respondendum, diz ele, quod David erat melior Saule, postquam peccavit: Saul tamen, antequam peccaret, erat melior quam David. Elegeu pois Deus a Saul, porque ainda que David era tão singular entre os melhores, contudo Saul naquele tempo era melhor que Davi. Não respeitou Deus em Davi o que haveria de ser seu pai; antepôs-lhe o melhor. Quando elegeu Deus a Davi? Quando foi melhor que Saul. Expressamente o texto: Scidit Dominus regnum Israel a te hodie, et tradidit illud proximo tuo meliori te (1 Rs. 15, 28); Tirou-te Deus hoje a coroa — diz Samuel a Saul — porque a tem dado a outro homem melhor do que tu és. — Não há outro porquê nas eleições de Deus, senão o ser ou o não ser melhor. Quando Saul era melhor que Davi, elegeu a Saul; quando Davi foi melhor que Saul, elegeu a Davi: sempre o melhor do melhor.

Oh! quão bem recebidas seriam as eleições e quão aplaudidos os eleitos e os eleitores, se observassem os homens esta regra de Deus! Eleito que foi Saul, e achado — porque se escondera — trouxe-o o profeta Samuel a público, e mostrou-o ao povo. E que tal era? Stetit in medio populi, et altior fuit universo populo ab humero, et sursum (1 Rs. 10, 23). Apareceu Saul em meio do povo, grandes e pequenos, e viram todos que, dos ombros para cima, era mais alto que todos. — Não grande entre os pequenos, não maior entre os grandes, mas sobre todos os maiores maior: Ab humero, et sursum. Com toda a cabeça excedia aos demais. Não era maior na idade, nem maior na riqueza, nem maior na potência, nem maior nos amigos e parentes, senão maior na cabeça, e por isso o fez Deus cabeça de todos. Então levantou o profeta a voz, e disse: Certe videtis, quem elegit Dominus: quoniam non sit similis illi (1 Rs. 10, 24): Vossos olhos são testemunhas que este, a quem elegeu Deus, é o maior e mais digno, e nenhum a ele igual. — E a esta voz e a esta vista, que se seguiu? Seguiram-se os vivas e aclamações de todos: Vivat Rex. Eleja-se o maior e o melhor, e os mesmos excluídos dirão: Viva!

Portou-se Cristo tão e exato na observância ou no exemplar desta regra, que não só a observou com os apóstolos eleitos, a respeito dos excluídos, senão também a respeito dos mesmos eleitos uns com os outros, elegendo e nomeando primeiro os maiores e melhores. Não sei se tendes reparado que, sendo os eleitos doze, as eleições foram seis. Assim se colhe dos evangelistas, que com modo particular e nunca outra vez usado, os vão contando a pares e nomeando de dois em dois: Elegit duodecim, quos et apostolos nominavit: Petrum et Andraeam: Jacobum et Joannem: Philippum et Bartholomeum, etc. Elegeu Cristo os doze apóstolos, não juntos, senão por partes, e a pares: primeiro dois, Pedro e André, depois outros dois: Diogo e João, e assim os demais, preferindo sempre os melhores e mais dignos, começando por Pedro, e acabando em Judas. Porque não só devem eleger-se os melhores, mas ainda entre os melhores que se elegem, os melhores dos melhores devem sair primeiro. De sorte que as eleições que se fazem com Deus, e por Deus, olham sempre tanto para o melhor, que se há muitos melhores, os melhores dos melhores hão de ser os primeiros eleitos e depois sucessivamente os outros. De doze, Pedro e André; de dez, João e Diogo; de oito, Filipe e Bartolomeu, e assim dos demais, dando-se sempre o primeiro lugar e a primeira nomeação aos primeiros, isto é, aos que mais o merecem, não por outro respeito, que por melhores.

Mas porque esta doutrina parece miúda e apertada, é necessário darmos a razão dela. Que razão há para se elegerem não só os bons, senão os melhores, e ainda dos melhores, os que forem ou o que for melhor? A razão é porque o que elege não só é obrigado a procurar o bem público, senão o maior bem. Por isso não deve eleger nem o mau, nem o bom, senão o melhor. O mau não, porque este fará mal; o bom também não, porque este fará menos bem; o melhor, e só o melhor sim, porque este fará melhor. Entre o bom e o melhor há a mesma diferença que entre o menos e o mais; e deste mais de bem, que acresce sobre o menos de bem, não deve privar a república ou a Igreja àquele que é obrigado a lhe procurar o seu maior bem. Há-se de pôr em balança o menos e o mais, e assim se hão de fazer as eleições. O melhor, que pode servir mais à Igreja, eleito; o que a pode servir menos, ainda que bom, excluído. Que escreveu a mão de Deus, quando foi excluído do governo e da coroa el-rei Baltasar? Appensus es in statera, et inventus est minus habens (Dan. 5, 27): Foste pesado na balança, e achou-se que tinhas menos. — Menos é correlativo de mais, e quem foi achado com mais em comparação de Baltasar, que foi achado com menos? Era o rei Ciro, que lhe sucedeu. Pôs Deus em balança de uma parte a Ciro, e da outra a Baltasar, e porque Ciro havia de ser mais útil à Igreja e ao seu povo, que então estava desterrado e cativo em Babilônia, como verdadeiramente foi, mandando-lhe restituir a liberdade, a pátria e o tempo; porque Ciro, digo, havia de ser mais útil, e Baltasar menos, este menos lhe tirou a púrpura e a coroa a Baltasar, e este mais a deu a Ciro.

Há de fazer a balança da justiça neste caso o que a balança da cobiça nos seus. Digamo-lo mais claro. Há de fazer a cobiça do bem público o que faz a cobiça do bem particular. A quem dá a cobiça as dignidades, e a quem as tira? Dá-as a quem vê que tem mais, porque recebe, ou espera mais: tira-as a quem vê que tem menos, porque, ou não recebe, ou espera menos. Sabeis, sacerdote virtuoso, sabeis, religioso exemplar, sabeis, ministro zeloso e incorrupto, sabeis doutor grão-letrado, por que fostes excluído? Porque inventus es minus habens. O eleito não tinha mais virtude, nem mais letras, nem mais zelo, nem mais talento que vós; mas tinha mais. Quando se busca o que tem mais, pobre do que tem menos! Assim há de atender ao mais e ao menos a cobiça do eleitor, somente ambicioso do bem público. Exclua aqueles de quem se espera menos, ainda que bons, e eleja os que prometem de si mais, que são os melhores. Este é o único respeito que faz as eleições justas, e não respectivas. Todos os outros respeitos e atenções que respeitam ao bem e útil particular, são peste da república, e tanto mais venenosa, quanto mais chegada às veias.

Dois respeitos ou duas atenções podiam ocorrer na eleição de hoje, uma do sangue, outra do temor: a do sangue em João, a do temor em Judas. João era parente, e parente mui querido, mas nem por isto João foi anteposto a Pedro, senão Pedro a João. Judas não havia de seguir as partes de Cristo, antes se havia de unir com a parcialidade de seus inimigos; mas nem por esse temor foi excluído Judas. E por quê? Porque Cristo tratava de eleger apóstolos, e não de multiplicar criaturas: Et Judam Scariotem, qui fuit proditor[12]. Até Judas foi eleito, porque era ao presente dos melhores, ainda que depois fosse, ou havia de ser, inimigo. Seja Judas traidor a quem o elege, mas quem elege não seja traidor à eleição. Tão fiel, tão generoso e tão magnânimo se mostrou Cristo no eleger, ainda ao duodécimo dos doze: Elegit duodecim ex ipsis.

IV – Terceira regra. quantos hão de ser eleitos? Hão de ser poucos, porque hão de ser os melhores. Por que são doze os apóstolos? S. Paulo, ministro supernumerário? A grandeza de Judas. Os inconvenientes dos lugares vagos e a eleição de Matias. Não basta só eleger, senão eleger e declarar.

A terceira e última questão é: quantos hão de ser os eleitos? Hão de ser poucos ou muitos? Número certo ou incerto? Arbitrário ou estabelecido? Cheio ou não cheio? A tudo responde Cristo em uma palavra: Duodecim: doze. Vamos por partes. Se hão de ser poucos ou muitos? Responde Cristo que poucos. E por quê? Porque, havendo de ser os eleitos, como dissemos, os melhores, quando não são muitos os bons, não podem ser os melhores muitos. Em poucos há ordem, há união, há conselho; na multidão nem ordem, porque será perturbação, nem união, porque será discórdia, nem conselho, porque será tumulto. Os ministros hão de ser como as leis; as leis hão de ser poucas e bem guardadas, e os ministros poucos e escolhidos: Elegit duodecim.

Governa Deus a universidade deste mundo, e quantos lhe assistem? Sete espíritos: Gratia vobis, et pax ab eo, qui est, et qui erat, et qui venturus est, et a septem spiritibus, qui in conspectu throni ejus sunt[13]. Sete com os olhos no que era, no que é, e no que há de vir, bastam para manter o mundo em graça e em paz: Gratia vobis, et pax. Mas perde-se a graça, e a paz não se acha, porque se põem os olhos, não no que é e há de vir, senão no que não é e querem que seja, e no que não devera vir e querem que venha. Por isso não fazem setenta o que puderam fazer sete. É verdade que os homens não são anjos, ainda que o deviam ser. Assim o diz logo o mesmo S. João, nomeando os bispos de Ásia: Angelo Ecclesiae Ephesii: Angelo Ecclesiae Smyrnae: Angelo Pergami Ecclesiae (Apc. 2, 1, 8. 12). Mas ainda que os homens não sejam anjos, o que fazem sete anjos, bem o podem fazer doze homens, se forem eleitos com Deus, e por Cristo. Tudo tinha dito Davi: Pro patribus tuis nati sunt tibi filii. Pelos doze pais vos nasceram doze filhos. Quer dizer: pelos doze patriarcas fareis doze apóstolos: Constitues eos principes super omnem terram (Sl. 44, 17): A estes doze fareis príncipes de toda a terra. — E que seguirá? Memores erunt nominis tui; propterea populi confitebuntur tibi[14]. Eles se lembrarão de Deus, e Deus porá a seus pés todos os povos do mundo. Doze homens que se lembrem de Deus bastam para sujeitar o mundo a Deus. Mas se estes, ou seus sucessores, se esquecerem de Deus, não só não hão de trazer os povos a Deus, mas Deus perderá os que já tinha. Tanto podem desfazer muitos homens, e tanto podem fazer poucos: Multiplicasti gentem, non magnificasti laetitiam[15]. O muito não o faz a multidão. A multidão faz muitos; os poucos fazem muito. Non in numeri multitudine, sed in virtutis probitate multitudo consistit[16], comenta o que, sendo um, fez o que muitos não fazem, o grande arcebispo de Constantinopla, Crisóstomo.

Mas este número, será bem que seja certo ou incerto? Arbitrário ou estabelecido? Duodecim: doze. Ensina Cristo que há de ser certo e estabelecido, e não incerto nem arbitrário, O número dos doze apóstolos não só estava estabelecido, mas predestinado. Estabelecido nos doze patriarcas, filhos de Jacó, nos doze exploradores da Terra de Promissão, nas doze fontes do deserto, nas doze pedras do racional. Predestinado nos doze fundamentos e nas doze portas da Cidade de Deus, nas doze estrelas da mulher vestida do sol, e nas doze cadeiras do juízo universal. E como era número canonicamente decretado e consagradamente misterioso, sendo Cristo superior a todas as leis e Senhor delas, observou exatamente a religião do mistério, e não quis mudar, nem alterar o número. Ponderou o caso profundamente S. Pascásio, e diz assim: Adeo autem Christus secum voluit esse duodecim, ut ne Judas posset efficere, ut tantum essent undecim: Foi tão observante e tão observador Cristo do número decretado, que teve por melhor meter no número a Judas, que não observar pontualmente o número. Sejam doze, como está decretado, ainda que Judas seja o duodécimo. E se foi muito não diminuir o número por Judas, não foi menos não acrescentar o número, nem por Marcos, nem por Estêvão. Não se altere o número estabelecido, ainda que fiquem fora dele o terceiro evangelista e o primeiro mártir.

Maior ponderação. Pergunta S. Pedro a Cristo: Ecce nos reliquimus omnia, et secuti sumus te; quid ergo erit nobis[17]? Responde Cristo: Sedebitis super sedes duodecim[18]. Vós, os que deixastes por mim tudo e me seguistes, sentar-vos-eis no dia do meu juízo sobre doze cadeiras. — Senhor meu! E se houver também outros que vos sigam e deixem tudo por vós, como os apóstolos, e mais ainda que eles, não haverá cadeiras para eles? Não. Sedes duodecim. O número das cadeiras é de doze: doze são, e não mais, os que se hão de assentar. Não se há de multiplicar o número dos lugares, ainda que cresça o número dos beneméritos. Pague-se o merecimento, sim, mas com outros prêmios: não devem ser as cadeiras mais que doze. Não se hão de multiplicar dignidades, não se hão de multiplicar lugares, não se hão de fazer ministros supernumerários. Se são doze os patriarcas, sejam doze os apóstolos, e não mais de doze. Se são setenta os anciãos do povo, sejam setenta os discípulos, e não mais de setenta. E por quê? Porque, cerrado o número, cerra-se a porta a inconvenientes sem-número.

Vós o discorrei, que o sabeis melhor. Porém direis que Cristo, posto que tão observador do número, fez algum ministro supernumerário, que foi S. Paulo. S. Matias não, porque annumeratus est cum undecim[19]. Porém S. Paulo foi verdadeiramente supernumerário, porque nem foi do número da primeira eleição, nem do número da segunda, e foi o apóstolo décimo terceiro. Grande privilégio verdadeiramente de S. Paulo! E todas as vezes que houvesse um S. Paulo, eu admitira facilmente que se alargassem as leis, para acrescer tal companheiro ao Sagrado Colégio. Mas adverti que não foi acrescentado o número por medo das provisões que levava de Jerusalém contra Damasco, senão pela eminência do talento, e por fins altíssimos da maior glória de Deus e de seu nome, e por eleição mui livre, mui soberana, mui de Cristo e para Cristo: Vas electionis est mihi iste, ut portet nomen meum coram gentibus, et regibus[20]. Não por respeito dos reis, senão para os sujeitar.

Mas ainda assim digo que não foi supernumerário Paulo, nem por ele, ou com ele se excedeu o número. Assim o diz a Igreja: Qui meruit thronum duodecimum possidere. A cadeira que ocupou e se deu a S. Paulo não foi supernumerária, senão, do número das doze, a duodécima. Pois a duodécima não se deu a S. Matias? Sim, a Matias, e mais a Paulo: ambos foram providos e nomeados na mesma cadeira, para que se veja quão justificada havia sido a eleição de Judas, e qual foi o seu precipício. Prudência chamou a Judas: Magnum discipulum: o grande dos discípulos. Não fora tão mau se não houvera sido tão grande. A corrupção do melhor é o pior. Escolheu Cristo em Judas um homem tão grande, que a vacância ou o vazio do seu lugar não o encheu só Matias, senão Matias e Paulo. Onde também se deve notar que esta multiplicação de dois sujeitos em lugar de um, não foi contra o número estabelecido, senão mui conforme a ele. O número dos doze apóstolos foi decretado e estabelecido no número dos doze patriarcas. Estes são os vinte e quatro anciãos que viu S. João assistir ao trono do Cordeiro, como observam comumente os Padres: doze patriarcas e doze apóstolos. Porém nos doze patriarcas houve um lugar que se substituiu com dois, que foi o lugar de José, substituído em Manassés e Efraim. E assim como o lugar de José, o vendido, se substituiu com dois, Efraim e Manassés, assim o lugar de Judas, o vendedor, se substituiu com outros dois, Matias e Paulo. Tão observador foi Cristo do número canonicamente decretado, que nem para dar e abrir lugar a S. Paulo quis exceder o número: Elegit duodecim.

Esta é a razão por que não elegeu Cristo mais de doze. Resta saber por que não elegeu menos, e por que encheu o número? Porque não convém que haja lugares vagos. A natureza não admite vácuo, nem o deve admitir a política, ou seja sagrada ou profana. Um lugar vago na república tem os mesmos inconvenientes que teria no mundo o vácuo. Se houvera vácuo no mundo, havia-se de inquietar toda a natureza, havia de correr toda impetuosamente a ocupar aquele lugar. O mesmo sucede nos lugares vagos. Inquietações, perturbações, tumultos, e tanto mais precipitosos e desordenados, quanto correm todos, não ao comum, senão cada um ao seu, não a encher o lugar, mas a encher-se com ele. A todos estes inconvenientes se cerra a porta com cerrar o número. Melhor é cerrar o número que a porta. Na parábola das virgens, cerrou-se a porta: Clausa est janua (Mt. 25,11), mas não se cerrou o número, porque eram dez os lugares: Decem virginibus. E como o número não estava cerrado, posto que estivesse cerrada a porta, que haviam de fazer as néscias, senão clamar, e dar vozes, e inquietar as bodas? Davam vozes as virgens, davam vozes as alâmpadas acesas, e o dinheiro despendido também dava vozes. Para evitar clamores, cerrar o número.

Que bem entendeu esta importância o primeiro Vigário de Cristo! A primeira coisa que fez em seu governo, foi encher o número dos doze. Falando de Judas, reparou no número: Qui connumeratus erat in nobis[21]. E logo encheu o mesmo número com Matias: Et annumeratus est cum undecim (At. 1, 26). E por que tão depressa, e sem mais dilação? Porque entendeu que assim importava, e assim o disse: Oportet ergo (At. 1, 21). Os apóstolos não haviam de repartir entre si o mundo — como o não repartiram — senão dali a doze anos. E, contudo entendeu Pedro, alumiado pelo Espírito Santo — antes de sua vinda — que logo importava encher o lugar e o número: Oportet. Não aguardou memoriais, não aguardou intercessões, não aguardou obséquios, nem pretensões, nem dependências, antes, por fechar a porta a todos esses embaraços, fechou o número. Para vacar ao que mais importa, importa que não haja lugares vagos. Por isso elegeu Cristo, doze, e nomeou e declarou doze: Elegit duodecim, quos et apostolos nominavit.

Não basta só eleger o número, senão elegê-lo e declará-lo. Elegeu Cristo a doze, e declarou a doze. Soube-se que eram doze os eleitos, e no mesmo ponto se soube também, que os eleitos eram Pedro e André, João e Diogo, e os demais. Pudera Cristo eleger as pessoas e encher o número, e calar os nomes, ao menos os de alguns, e deixá-los in pectore. É certo que, se de alguma vez tinha lugar esta suspensão e este segredo, era na presente. Ficavam excluídos do apostolado setenta discípulos, todos dignos e muitos digníssimos. Bem podiam logo ficar eleitos in pectore alguns, pelo menos para que, não se sabendo quais eram, entretivesse esta suspensão a esperança de todos, e não pudesse queixar-se nenhum dos exclusos, podendo ser dos que eram secretamente eleitos. Pois, por que não fez Cristo esta reservação? Por muitas razões. Primeira, porque tinha peito para isso. Reservar in pectore não sei se alguma vez é falta de peito. Em segundo lugar, porque semelhantes reservações não se fazem sem justos respeitos, e é melhor não haver respeitos, ainda que justos. Finalmente elegeu Cristo, e não ocultou algum, mas declarou logo todos os eleitos, porque era tão justificada a eleição, que não temia a queixa. Não quis Cristo afrontar a eleição, nem os eleitos, nem os excluídos. Não quis afrontar a eleição, porque fora grande afronta ser ela tal que temesse sair a público. Não quis afrontar os eleitos, porque ocultá-los seria confessar que não eram os mais dignos. Não quis afrontar os excluídos, porque supô-los descontentes era declará-los ambiciosos. Declarar tudo foi honrar a todos: à eleição com a justiça, aos eleitos com o merecimento, aos excluídos com o desinteresse. Sobretudo ficou honrada toda a escola de Cristo, porque a honra e crédito maior de uma comunidade é que faltem lugares e sobejem beneméritos. A maior grandeza do convite de Cristo no deserto foram as sobras. Elegeu Cristo doze apóstolos, mas sobejaram setenta que o mereciam ser, e provaram todos que o mereciam, porque nenhum se mostrou queixoso. Setenta exclusões, e nenhuma queixa! Oh! século bem-aventurado! Quase que estou para dizer que foram os excluídos maiores que os eleitos. Os eleitos eram grandes, porque todos mereceram ser apóstolos; os excluídos parecem maiores, porque nenhum invejou o apostolado. Com esta dignidade ficaram todos, quando as dignidades se deram só a doze: Elegit duodecim.

V – E S. Bartolomeu? S. Bartolomeu ocupa o lugar de maior honra, o lugar do meio, que também é o primeiro. O sárdio, pedra carnerina, símbolo do apóstolo esfolado. A pele, engano dos que elegem. As peles tintas de púrpura do Tabernáculo. Samuel e a beleza de Eliab.

Tenho acabado as três partes do meu discurso. Mas vejo que me perguntam os ouvintes por S. Bartolomeu, como se, em quanto disse até agora, não falara dele. Tudo o que disse do melhor dos melhores se entende deste gloriosíssimo apóstolo. E se por ser no seu dia é lícito dar-lhe alguma preferência aos demais, o mesmo lugar que lhe dá o Evangelho entre os eleitos não favorece pouco este pensamento. O lugar que dá o Evangelho a S. Bartolomeu é o sexto, e se tirardes daquele sagrado número — como se deve tirar — a Judas reprovado, o sexto entre os onze é o lugar do meio, sempre e em todas as nações estimado pelo de maior honra. Do sábio humilde disse o Espírito Santo que se assentaria no meio dos magnatas: Sapientia humiliati exaltabit caput illius, et in medio magnatorum consedere ilium faciet[22]. E quem foi entre os apóstolos o sábio humilde, senão Bartolomeu? S. Bartolomeu, segundo a opinião mais recebida, foi aquele grande doutor da lei, Natanael, de quem disse o mesmo Cristo: Ecce vere Israelita in quo dolus non est[23]. E deste grande sábio metido entre pescadores humildes e idiotas — mas esses os magnatas do reino de Cristo — se verifica, pelo lugar que tem no meio de todos, a promessa do divino oráculo: In medio magnatorum consedere eum faciet.

Daqui se ficará entendendo a solução ou concórdia, de dois textos ao parecer muito encontrados, um do Testamento Velho, outro do Novo. No Testamento Velho foram significados os doze apóstolos nas doze pedras do racional que o Sumo Sacerdote trazia sobre o peito (Ex. 28,17 ), e no Testamento Novo são significados outra vez nas mesmas doze pedras dos fundamentos da cidade nova de Jerusalém, que São João viu descer do céu. A dúvida agora, e o encontro, está na disposição e ordem nas mesmas pedras, porque no racional a primeira pedra era sárdio, e nos fundamentos da Jerusalém celeste a mesma pedra sárdio era a sexta (Apc. 21, 20). Pois se esta pedra em uma parte tem o primeiro lugar, como se lhe dá o sexto na outra? O sexto lugar, como diz S. Lucas, é o de S. Bartolomeu; a pedra sárdio, como diz S. João, é o sexto apóstolo: pois, se o sárdio, e Bartolomeu, em uma parte tem o sexto lugar, como tem na outra o primeiro? Porque o lugar do meio é o primeiro lugar, e quando o sexto lugar é o do meio — como é o de S. Bartolomeu — é sexto e primeiro juntamente. Por isso nas doze pedras dos fundamentos da Jerusalém nova tem o sárdio o sexto lugar, e nas doze pedras do racional, o primeiro. Este é pois o lugar que em um e outro Testamento se deu a São Bartolomeu, porque os primeiros lugares, como até agora mostramos, se devem dar ao melhor do melhor.

Plínio, tratando da pedra sárdio, diz que é tão semelhante à carne viva, que parece carne convertida em pedra preciosa[24]. Por esta semelhança se chama vulgarmente pedra carnerina. E quem não vê retratado nela ao natural o nosso São Bartolomeu, todo em carne viva e sem pele, da qual se deixou esfolar ou ir esfolando por partes, crudelissimamente, com tal valor, fortaleza e constância, como se não fora de carne, mas verdadeiramente de pedra. Os doze artigos da fé que se contêm no Símbolo também foram repartidos pelos doze apóstolos, pronunciando cada um o seu. E o sexto, que coube a S. Bartolomeu, foi o da ressurreição, com a mesma propriedade, porque a carne ressuscitada é viva e impassível. Assim o provou a do fortíssimo apóstolo, com assombro dos tiranos, quando o esfolavam vivo, sendo tal a dureza da sua paciência naquele estranho tormento, que mais parecia impassibilidade que paciência. E desta sorte ficou Bartolomeu entre as doze estátuas dos apóstolos, singular na figura e no exemplo. No exemplo, digo, das virtudes heróicas, de que devem ser dotados os que hão de ser eleitos aos primeiros lugares da Igreja; e na figura com que devem pôr neles os olhos, e formar deles juízo os eleitores.

Não há coisa que mais engane o juízo dos que elegem, e que mais embarace e perturbe o acerto das eleições, que a pele. O merecimento ou capacidade dos homens não se há de considerar pelo que aparece e se vê de fora, senão pelo que têm e pelo que são de dentro. Dispam-se primeiro da pele e de tudo o que neles é exterior, e então se fará verdadeiro juízo do que merecem. No princípio do mundo, assim como Deus ia dando ser e forma às criaturas, assim as ia logo aprovando com aquele testemunho geral: Vidit Deus, quod esset bonum[25]. Criou finalmente o homem, e é coisa mui notada e digna de se notar, que só ao homem não desse aprovação, nem diga dele a Escritura que viu Deus que era bom. Pois, se todas as outras criaturas, sendo menos perfeitas, tiveram esta aprovação dos olhos de Deus, o homem, que era mais perfeito que todas, e formado por suas próprias mãos, por que a não teve? Excelentemente Santo Ambrósio: Ideo homo non ante laudatur; quia non in forensi pelle, sed in interiori homine ante probandus: Não teve o homem a aprovação dos olhos de Deus, como a tiveram as outras criaturas tanto que as via, porque os homens não se hão de julgar pela pele, e pelo que se vê de fora, senão pelo que têm e pelo que são de dentro: Non in forensi pelle, sed in interiori homine. As outras coisas são aquilo que nelas se vê; no homem o que se vê é o menos, o que se não vê é o tudo: Alia in specie sunt, honro in occulto.

Não nego que a pele, se o interior do homem ou o homem interior, feita exata anatomia, é qual deve ser, acrescenta decência à pessoa e autoridade ao lugar, e que no tal caso assentará muito bem a púrpura sobre a pele. Por isso no primeiro templo, que foi o Tabernáculo, mandou Deus que estivesse coberto com peles tintas de púrpura: Pelles rubricatas (Êx. 25, 5). Mas estas mesmas peles, que é o que cobriam, e que é o que havia debaixo delas? Arca do Testamento, Tábuas da Lei, Querubins, Propiciatório, Deus. Quando isto é o que cobrem as peles, bem é que elas também se cubram de púrpura. Mas se há muitas peles como verdadeiramente há — que, cobrindo semelhantes tesouros do céu, nem por isso se vêem rubricadas, consolem-se com os discípulos que na eleição de hoje ficaram excluídos. Digam ou cantem com aquela alma escolhida de Deus: Nigra sum, sed formosa: sicut tabernacula Cedar, sicut pelles Salomonis[26]. As riquezas de Cedar, e as jóias de Salomão, e. o que é mais, o mesmo Salomão, bem pode andar debaixo de peles pouco agradáveis à vista. O de dentro e o que se encobre aos olhos, é o que faz o homem: o exterior é o que se vê, assim como é natureza, e não merecimento nem culpa, assim se não deve louvar nem desprezar nele: Non laudes virum in specie sua, neque spernas hominem in visu suo[27], diz o Espírito Santo, falando nomeadamente dos que devem ser exaltados aos lugares maiores.

Quando Samuel foi ungir por rei um dos filhos de Jessé, o primeiro que o pai lhe presentou foi, como dissemos, Eliab, seu primogênito, mancebo de gentil presença e de galharda estatura. E tanto que o profeta o viu, lhe pareceu a pessoa verdadeiramente digna de império. Porém Deus o advertiu logo que se não deixasse levar daqueles exteriores, porque não era ele o escolhido, antes o tinha reprovado, e ainda desprezado: Ne respicias vultum ejus, neque altitudinem staturae ejus, quoniam abjeci eum[28]. E acrescentou o Senhor — sentença que os príncipes deviam trazer sempre diante dos olhos: Nec juxta intuitum hominis ego judico: homo enim videt ea quae parent, Dominus autem intuetur cor: Eu, diz Deus, não julgo pela vista, como os homens, porque eles vêem só o que aparece de fora: eu vejo o coração e o que está dentro (1 Rs. 16, 7). Assim hão de ver e julgar os que elegem, para que sejam acertadas as eleições. Não com os olhos de homens, que param nas aparências exteriores, mas com olhos de Deus, que penetram o interior e o coração, em que consiste o ser, o valor, e a diferença de homem a homem. Hão-se de julgar e avaliar os homens não só despidos das galas, que também subornam e enganam, senão despidos também da pele, que muitas vezes com uma valente pintura se cobre um coração muito fraco, qual era o de Eliab. Eliab na estatura era muito maior que Davi, mas Davi no coração era muito maior que o gigante; e este coração, que não viam os homens, é o que via e escolheu Deus: Dominus autem intuetur cor. Sendo pois os interiores os que fazem e distinguem os homens, e só Deus o que vê e conhece os interiores, por isso se devem consultar as eleições dos homens muito devagar com Deus; como Cristo fez neste dia, ou nesta noite: Erat pernoctans in oratione Dei.

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[1] Escolheu dentre eles doze, que chamou apóstolos (Lc. 6, 13).
[2] O sono fugia dos meus olhos (Gên. 31, 40).
[3] Qual deles se devia reputar o maior (Lc. 22, 24).
[4] Elegeu os discípulos depois da oração, para ensinar a nós, quando estamos para ordenar alguém no sagrado ministério, que o façamos rezando, a fim de que, instruídos por Deus e por nossas preces, ele nos revele os idôneos.
[5] Transportou-o o demônio a um monte muito alto, e lhe mostrou todos os reinos do mundo, e a glória deles (Mt. 4, 8).
[6] Se prostrado me adorares (Mt. 4, 9).
[7] Não me pertence a mim o dar-vo-lo, mas isso é para aqueles para quem está preparado por meu Pai (Mt. 20, 23).
[8] Escolheu doze, que chamou apóstolos (Lc. 6, 13).
[9] Maravilhosa se tem feito a tua ciência em mim (Sl. 138, 6).
[10] Os últimos serão os primeiros (Mt. 20, 16).
[11] Não há em todo o povo quem lhe seja semelhante (1 Rs. 10, 24).
[12] E Judas Iscariotes, que foi o traidor (Lc. 6, 16).
[13] Graça a vós outros, e a paz da parte daquele que é, e que era, e que há de vir, e da dos sete espíritos que estão diante do teu trono (Apc. 1, 4).
[14] Em lugar de teus pais te nasceram filhos; estabelece-los-ás príncipes sobre toda a terra. Lembrar-se-ão do teu nome, e por isso os povos te louvarão (Sl. 44, 17 s).
[15] Multiplicaste a gente, não aumentaste a alegria (Is. 9, 3).
[16] A multidão não está no número, mas na virtude.
[17] Eis aqui estamos nós que deixamos tudo, e te seguimos; que galardão pois será o nosso (Mt. 19, 27)?
[18] Estareis sentados sobre doze tronos (Mt. 19, 28).
[19] Foi contado com os onze (At. 1, 26).
[20] Este é para mim um vaso escolhido, para levar o meu nome diante das gentes e dos reis (At. 9, 15).
[21] O qual estava entre nós alistado no mesmo número (At. 1, 17).
[22] A sabedoria daquele que é de baixa condição o sublimará em honras, e o fará assentar no meio dos grandes (Eclo. 11, 1).
[23] Eis aqui um verdadeiro israelita, em que não há dolo (Jo. 1, 47).
[24] Plitt. Lib. 37, cap. 6.
[25] E viu Deus que era bom (Gên. 1, 10).
[26] Sou trigueira, mas formosa, assim como as tendas de Cedar, como os pavilhões de Salomão (Cant. 1, 4).
[27] Não louves o homem pela sua gentileza, nem o desprezes pelo seu exterior (Eclo. 11, 2).
[28] Não olhes para o seu vulto, nem para a altura da sua estatura, porque eu o rejeitei (1 Rs. 16.7).

Fonte: https://www.literaturabrasileira.ufsc.br/documentos/?action=download&id=49903