Sermão de Santo Agostinho (1648)

PREGADO NA SUA IGREJA E CONVENTO DE S. VICENTE DE FORA,

EM LISBOA, ANO DE 1648


Sic luceat lux vestra coram hominibus, ut videant opera vestra bona, et glorificente Patrem vestrum, qui in caelis est[1].

I – Temos hoje o Evangelho aplicado a Santo Agostinho, explicado por Santo Agostinho, e implicado com Santo Agostinho, enquanto doutor e enquanto santo. No Evangelho, a perfeita idéia de um prelado eclesiástico. Os livros de Santo Agostinho contrariam a admoestação do Evangelho.

Ao maior santo entre os doutores e ao maior doutor entre os santos celebra neste grande teatro, como a pai, a primogênita de suas famílias. O Evangelho que nesta solenidade canta a Igreja, não só no-lo propõe aplicado a Santo Agostinho, senão também explicado por Santo Agostinho. Eu, porém, venerando uma e outra coisa quanto devo, assim na aplicação como na explicação, acho uma implicação não pequena. De sorte que temos hoje o Evangelho aplicado a Agostinho, explicado por Agostinho, e implicado com Agostinho. Mas de que modo, ou em que parte implicado? Não menos que nas partes essenciais do mesmo Evangelho e nas duas excelências maiores do mesmo Santo Agostinho, que são as duas com que dei princípio ao sermão. Implicado o Evangelho com Agostinho enquanto doutor, e implicado com Agostinho enquanto santo. Estai comigo.

O intento de Cristo, Senhor nosso, em todo este Evangelho, é formar a perfeita idéia de um prelado eclesiástico e apostólico. Esta idéia se compõe indistintamente de duas partes ou qualidades essenciais: de ciência, porque deve ser douto, e de virtude, porque deve ser santo. Se tem virtude sem ciência, será santo; se tem ciência sem virtude, será douto, mas em falta de qualquer delas, não será verdadeiro prelado. E que seria se acaso lhe faltassem ambas? Bastará, porém, que seja douto só pela ciência, e santo só pela virtude? Não. Bem pode o prelado ser douto e santo, e não ser bom prelado, porque pode ser douto e santo para si e não para os outros. Há de ser de tal maneira douto, que seja douto e doutor, e de tal maneira santo, que seja santo e santificador. Isso quer dizer: Qui fecerit et docueri[2]: doutor ensinando, e santificador fazendo. Para ensinar lhe é necessária a ciência, com que seja a doutrina sã; para fazer, é-lhe necessária a virtude, com que sejam boas as obras. Mas essas obras e essa ciência não hão de ser ocultas e que se não vejam, senão públicas e não manifestas a todos: Neque accendunt lucernam, et ponunt eam sub modio, sed super candelabrum, ut luceat omnibus qui in domo sunt[3]. Pública e manifesta a ciência, para que alumie com a luz de doutrina: Sic luceat lux vestra coram omnibus; e públicas e manifestas as obras, para que edifique com exemplo da vida: Ut videant opera vestra bona[4]. Finalmente uma e outra, assim a vida como a doutrina, não hão de ser para crédito ou estimação própria, que seria vaidade e terra, mas para honra e glória do Padre que está no céu: Et glorificent Patrem vestrum, qui in caelis est[5].

Este é o sentido natural das palavras que propus, e este em suma o intento e discurso de todo o Evangelho, explicado em várias partes por Santo Agostinho, tão sólida e tão propriamente como ele costuma. Mas, se aplicarmos o mesmo Evangelho ao mesmo Santo Agostinho, achá-lo-emos, como dizia, totalmente implicado com ele. Se abrirdes os livros de Santo Agostinho, achareis que o primeiro tem por título: Livro das Retratações de Agostinho, nas quais o mesmo santo declara muito miudamente todos os erros e ignorâncias — como ele lhes chama — que com menos acerto tinha escrito. Se passarmos ao segundo livro, achareis que da mesma maneira tem por título: Livro das Confissões de Agostinho, nas quais o santo, com a mesma miudeza, declara e manifesta todos os pecados de sua vida. Pois, se o Evangelho manda a todos os prelados que publiquem e manifestem a sua ciência e doutrina, a sua virtude e as suas boas obras, como publica e manifesta Agostinho, em lugar da sua ciência, as suas ignorâncias, e em lugar das suas boas obras, os seus pecados? Logo, ou este Evangelho se não aplica bem a Agostinho, ou temos Agostinho implicado com o Evangelho. Para desfazer estas duas implicações, tenho necessidade hoje de dobrada graça. Ave Maria.

II – No Livro das Confissões, as erratas da vida, e no Livro das Retratações, as erratas da doutrina. O verdadeiro retrato de Agostinho. O pecado e a ignorância, duas misérias de que foi isenta a humanidade de Cristo. Se o Evangelho manda a Agostinho resplandecer com ciência e doutrina, como põe em público erros e ignorâncias?

Sic luceat lux vestra coram hominibus, ut videant opera vestra bona, et glorificent Patrem vestrum, qui in caelis est.

Faz Santo Agostinho os dois livros de suas retratações e de suas confissões, e estes foram os que pôs no rosto de todas suas obras. Na primeira folha dos livros, se costumam pôr as erratas do impressor, e Agostinho, com nova e não imitada invenção, pôs as erratas do autor: no Livro das Confissões, as erratas da vida; no das Retratações, as da doutrina. Eu chamara-lhe o Index rerum notabilium[6], porque, sendo as coisas que se lêem em todos os livros de Santo Agostinho tão altas, tão sublimes, tão divinas, estas duas são as mais notáveis de todas. Muitos há que, não contentes com pôr o seu nome ainda nos livros que escrevem do desprezo da fama, como notou Cícero, querendo não só ser lidos, mas vistos, põem na primeira estampa o seu retrato. E isto, que faz a vaidade em tantos que não merecem nome de autores, fez no mais celebrado autor da Igreja a modéstia e a humanidade. Os corpos retratam-se com o pincel, as almas com a pena, e estes dois livros, na minha opinião, são a vera effigies da alma de Agostinho. Pediram a S. Paulino que se deixasse retratar, e ele, que também tinha dado a primeira parte da vida ao mundo, como a segunda a Cristo, respondeu: Vel cupitis depingere meum veterem hominem, vel novum: si veterem, ille deformis est, nec pictura, sed latebris dignum; si novum, ille nondum perfectus est: Ou me quereis retratar na primeira idade, ou na segunda: se na primeira, é muito feia, e mais digna de se esconder que de se pintar; se na segunda, ainda está muito imperfeita, e não quero que me retrateis. — Porém, Agostinho, posto que grande amigo de Paulino, tomou tão diferente conselho, que tudo o que achou na sua vida mais feio e mais disforme, e na sua doutrina menos proporcionado, isto é o que pintou por sua própria mão não só com as cores mais certas, senão também com as mais vivas.

No livro de suas Confissões publicou Santo Agostinho os seus pecados, e no Livro de suas Retratações as suas ignorâncias, e só quem compreender quão feia coisa é o pecado, e quão indecente a ignorância, poderá avaliar, como merece, estas duas ações de Agostinho. A maior ação de Deus, fazer-se homem, e a maior fineza desta ação não consistiu tanto em tomar a nossa natureza, quanto em tomar a nossa semelhança: In similitudinem hominum factus, et habitu inventus ut homo[7]. Não tomou Deus a natureza humana como a tinha dado a Adão, senão como a achou depois dele, caída de seu primeiro estado, e sujeita a tantas e tão pesadas misérias. Sujeitou-se a nascer, a morrer e a viver — que não é menos — a trabalhar, a cansar, a suar, a dores, a tristezas, a lágrimas, a ser perseguido, a ser afrontado, a ser crucificado. Mas com se sujeitar a todo este abismo de misérias e baixezas — porque, como diz S. Paulo: Debuit per omnia fratribus similari[8] — excetuam-se contudo duas de que foi totalmente isenta e privilegiada a humanidade de Cristo. E quais foram? O pecado e a ignorância, porque é tão feia coisa o pecado, e a ignorância tão indecente que, ainda no caso que fosse possível, de nenhum modo era tolerável que em uma humanidade unida a Deus houvesse pecado ou ignorância. Sendo pois tal fealdade a do pecado, e tal indecência a da ignorância, que Agostinho, por sua vontade e eleição, tome estes dois assuntos e se ponha a escrever muito de propósito dois livros, um de seus pecados, outro de suas ignorâncias, e que, depois de escritos, os divulgue e faça públicos a todo o mundo? Para defender culpas ou ignorâncias se têm escrito muitas apologias e manifestos, mas para as confessar e publicar, só Agostinho o fez. Comecei a ponderar estas duas ações por louvor, e já me parece que hão mister desculpa, e não fácil.

Dir-me-ão — como eu dizia — por parte de Agostinho, que foram efeitos de humildade; mas esta resposta se impugna facilmente do que acabamos de dizer. A virtude própria e por antonomásia de Cristo é a humildade: Ut inhabitet in me virtus Christi[9]. A virtude que particularmente veio Cristo ensinar ao mundo, e de que professou ser mestre, é a humildade: Discite a me, quia mitis sum et humilis corde[10]. E a humildade de Cristo não só foi a maior, senão a suma humildade. E, contudo, não teve pecado nem ignorância. Logo, calando Agostinho seus pecados e suas ignorâncias, ainda que as tivesse, podia ser perfeitamente humilde. Quanto mais que contra preceito não há virtude, e contra estes dois atos ou excessos de humildade estavam os dois preceitos do Evangelho que ouvimos: contra a publicação dos pecados, o do exemplo, e contra a publicação das ignorâncias, o da doutrina. Pois, se o Evangelho manda a Agostinho resplandecer com ciência e doutrina, como põe em público erros e ignorâncias? Se lhe manda que alumie com exemplo e boas obras, como publica vícios e pecados? Encubra os erros, para que não eclipsem a doutrina, esconda os pecados, para que não escureçam o exemplo. E pois uma das admiráveis obras de Santo Agostinho foi a concórdia e explicação do Evangelho, não seja o mesmo Agostinho a discórdia e implicação dele.

III – Tudo o que em Agostinho parece implicação do Evangelho, não foi implicação, foi amplificação. Agostinho amplificou o Evangelho, porque não só luziu com a luz, senão também com as trevas, aprendendo a maravilhosa filosofia do céu. O testemunho da luz e o testemunho das trevas no nascimento e morte de Cristo. Ainda como o céu, Agostinho não só glorifica a Deus com obras não boas, como as trevas, senão também com obras más.

Ora, senhores, para que acabemos de ter suspenso o juízo, tudo isto que em Santo Agostinho parece implicação do Evangelho não foi implicação, foi amplificação. Assim que não temos o Evangelho implicado com Agostinho, senão amplificado por Agostinho. O Evangelho manda que os que são luz da Igreja alumiem com a ciência e com a virtude, com a doutrina e com o exemplo; e Agostinho, amplificando este mesmo preceito, e excedendo os limites dele, não só alumiou o mundo com as suas ciências, senão também com suas ignorâncias; não só com as suas virtudes, senão também com os seus pecados. Com as suas ignorâncias, porque das mesmas ignorâncias fez doutrina; com seus pecados, porque dos mesmos pecados fez exemplo. E sendo as ignorâncias e os pecados trevas, das mesmas trevas fez luz: Sic luceat lux vestra coram hominibus.

Cristo, Senhor nosso, neste preceito, quando mandou aos varões apostólicos que luzissem, nomeadamente lhes disse com que haviam de luzir e como: quanto ao primeiro, que o instrumento de luzir fosse a luz: Luceat lux vestra; quanto ao segundo, que o modo de luzir fosse tal que dele se seguisse a glória de Deus: Sic, ut glorificent Patrem vestrum. E Agostinho, que fez? Guardou o modo e amplificou o instrumento. Amplificou o instrumento, porque não só luziu com a luz, senão também com as trevas, e guardou em um e outro luzir o modo, porque assim com a luz, como com as trevas conseguiu a glória de Deus. Não acho coisa semelhante na terra, mas no céu, donde Agostinho tomou esta maravilhosa filosofia, sim: Caeli enarrant gloriam Dei, et opera manuum ejus annuntiat firmamentum (Sl. 18, 2): Os céus, diz Davi, estão sempre apregoando as glórias de Deus, e o firmamento publicando as obras de suas mãos. — E que obras de Deus são estas, que o céu publica e toma por instrumento de sua glória? Admiravelmente ao nosso intento o texto: Dies diei eructat verbuni, et nox nocti indicat scientiam[11]. As obras com que o céu publica e apregoa a glória de Deus são o dia e a noite. Pois, a noite escura e feia, também entra em coro com o dia claro e formoso para glorificar a Deus? Sim, porque o dia glorifica a Deus com a luz, e a noite com as trevas, e tanta glória se pode dar a Deus com as trevas como com a luz. Assim o cantaram a três vozes na fornalha de Babilônia os três meninos: Benedicite noctes et dies Domino: benedicite lux et tenebrae Domino[12]. Assim o fez com ação singular Agostinho, que não só com a luz de suas ciências e virtudes, senão também com as trevas de suas ignorâncias e pecados glorificou e ensinou a glorificar a Deus: ut glorificent Patrem vestrum, qui in caelis est.

Mais diz e mais quer o Evangelho. Declarando como há de ser esta luz: Sic luceat lux vestra, diz que há de ser como a tocha acesa, que não se acende para se esconder, senão para alumiar a todos: Neque accendunt lucernam, et ponant eam sub modio, sed super candelabrum, ut luceat omnibus qui in domo sunt[13]. Porém Agostinho, amplificando o Evangelho, também nesta semelhança, não só luziu e alumiou o mundo com a tocha acesa, senão com a tocha apagada. Tornemos ao céu. No dia do nascimento de Cristo acendeu o céu uma tocha, e no dia de sua morte apagou outra. A tocha que acendeu no dia do nascimento foi a estrela nova que apareceu e guiou os magos; a tocha que apagou no dia da morte foi o sol que se eclipsou e escureceu o mundo, desde que o Senhor foi levantado na cruz, até que expirou nela. E que mistério teve o céu para sair em dois dias tão notáveis com dois prodígios tão encontrados? O reparo foi do nosso Santo Agostinho, no sermão trinta De tempore; a resposta — para que não seja em causa própria — é de S. Pedro Damião, por estas palavras: Habuit testimonium lucis, quia claritas stellae ilustravit Magos; et habuit testimonium tenebrarum, quia in morte ejus tenebrae factae sunt super universam terram[14]. Acendeu o céu uma tocha e apagou outra, quando Cristo entrou e saiu salvo deste mundo, para que o Senhor, em glória e abono de sua divindade, não só tivesse o testemunho da luz, senão também o testemunho das trevas: Testimonium lucis et testimonium tenebrarum. Pois as trevas, cujo efeito é escurecer, também podem alumiar e dar testemunho? Também, e tanto mais qualificado, quando o sujeito que se escurece for mais luminoso, como é o sol. A estrela testemunhou luzindo, o sol testemunhou escurecendo-se, e foi tanto mais eficaz o testemunho do sol que o da estrela, que a estrela, luzindo, alumiou três homens, e o sol, escurecendo-se, alumiou o mundo. No caso e questão em que estamos, a uma vista parece Agostinho tocha acesa, a outra, tocha apagada; na sua ciência e doutrina, nas suas virtudes e no seu exemplo, tocha acesa; no manifesto de suas ignorâncias, e na publicação de seus pecados, tocha apagada; mas assim havia de ser para que glorificasse a Deus com o testemunho de sua luz e com o testemunho de suas trevas: Habuit testimonium lucis et testimonium tenebrarum. Adverti, porém, que no testemunho da luz, luzindo com as ciências e virtudes, alumiou Agostinho como estrela, porque isso fizeram outros santos; porém, no testemunho das trevas, escurecendo-se com as ignorâncias e pecados, alumiou como sol, porque foi ação singular só de Agostinho. Os outros estreitaram-se com o Evangelho, Agostinho amplificou-o.

Resta a maior e mais apertada oposição do mesmo Evangelho, mas também dela sairá Agostinho com maior amplificação. Determinando mais apertada e individualmente o Evangelho quais devem ser os raios ou os resplendores da luz que encomenda, diz que hão de ser boas obras de tal modo manifestas aos homens, que todos as vejam, e glorifiquem a Deus por elas: Sic luceat lux vestra coram hominibus, ut videant opera vestra bona, et glorificent Patrem vestrum qui in caelis est (Mt. 5, 16). Ainda nos é necessário tornar ao céu, e seja sobre o texto já alegado de Davi, em que nos ficou por ponderar um grande e oculto mistério. Se o céu, para glorificar a Deus, publica suas obras: Caeli enarrant gloriam Dei, et opera manuum ejus annuntiat firmamentum (Sl. 18, 2), como conta entre as obras de Deus a noite e as trevas, que ainda que sejam obras de Deus impropriamente, propriissimamente não são boas. As trevas são negação de luz, e as negações não têm nem podem ter bondade, porque não têm ser. A mesma Escritura o significou claramente na criação de uma e outras. Quando fala da luz, diz que viu Deus a luz que era boa: Facta est lux, et vidit Deus lucem quod esset bona (Gên. 1, 35). Pelo contrário, quando fala das trevas, que já eram antes da luz: Et tenebrae erant super faciem abyssi[15], não diz que visse Deus as trevas ou dissesse, que eram boas. E por quê? Porque a luz, como tem ser, e tão excelente ser, tem bondade e é boa; porém as trevas, como são negação e não têm ser, não podem ter bondade nem são boas. Pois, se as trevas não são boas, por que as publica o céu entre as obras que glorificam a Deus? Também o céu, para amplificar a glória de Deus, parece que quis amplificar o Evangelho, mas não tão heroicamente como Agostinho. O Evangelho diz aos prelados que façam boas obras, para que por elas seja glorificado Deus: Ut videant opera vestra bona, et glorificent Patrem vestrum. O céu deu um passo mais adiante, e querendo glorificar a Deus com obras: Et opera manuum ejus annuntiat firmamentum, acrescentou obras que propriamente não são boas, quais são as trevas e a noite: Et nox indicat scientiam. Porém Agostinho, lançando a barra além de tudo o que parecia impossível, achou modo com que glorificar a Deus até com obras verdadeira e propriamente más, quais são erros e pecados. De sorte que o Evangelho mandou glorificar a Deus com obras boas, o céu passou a glorificar a Deus com obras não boas, e Agostinho chegou a glorificar a Deus, não só com obras não boas, senão também com obras más. E isto é o que conseguiu por modo novo e inaudito, saindo à luz com os dois livros de suas Confissões e Retratações não contra, mas sobre o mesmo preceito, que falando com ele dizia: Sic luceat lux vestra coram hominibus, et glorificent Patrem vestrum, qui in caelis est.

IV – No Livro das Confissões S. Agostinho, exceção do Evangelho, dos pecados fez exemplos, e no Livro das Retratações, das ignorâncias fez doutrina. Jó e Tamar e a vergonha do pecado. Tertuliano e o artificio de se encobrir. Santo Agostinho prova que o que se deve aborrecer é o mal, e não a luz.

Temos visto ou dito em comum como Santo Agostinho, amplificando o Evangelho, não só alumiou com a luz, senão também com as trevas, podendo-se-lhe aplicar gloriosamente o que só se diz de Deus, que as suas trevas são como a sua luz: Sicut tenebrae ejus, ita et lumen ejus[16]. Temos visto que não só alumiou com a tocha acesa, senão com a tocha apagada, excedendo também o Evangelho, no qual as virgens que tinham as alâmpadas acesas entraram às bodas, e as que as tiveram apagadas ficaram de fora. Temos visto como, não só alumiou com as boas obras, senão também com as más, saindo com elas à luz, e sendo exceção do Evangelho, que diz: Omnis qui male agit odit lucem, ut non arguantur opera ejus (Jo. 3, 20): Todos os que obram mal aborrecem a luz, por que não sejam argüidas suas obras. — Segue-se que vejamos agora como isso foi ou pôde ser, porque não parece fácil. Se o Livro das Confissões contém vícios e pecados, como pode Agostinho, com vícios e pecados, alumiar viciosos e pecadores? Se o Livro das Retratações contém erros e ignorâncias, como pode Agostinho, com erros e ignorâncias, alumiar errados e ignorantes? Tudo isto pôde fazer e fez Agostinho, e não só de qualquer modo, senão pelo mesmo modo com que Cristo no Evangelho lhe mandou que alumiasse os homens: Sic luceat lux vestra coram hominibus. O modo com que Cristo e o Evangelho lhe mandou que alumiasse os homens foi com exemplo e doutrina, e este mesmo foi o modo com que Agostinho alumiou, porque no Livro das Confissões, dos pecados fez exemplos, e no Livro das Retratações, das ignorâncias fez doutrina. Isto é o que agora havemos de ver; e porque Agostinho dividiu estes dois assuntos em dois livros, nós também, para maior distinção e clareza, os dividiremos em duas partes.

Começando pela primeira, não há coisa mais natural ao homem, que esconder e encobrir seus pecados. Naquela famosa disputa que os três amigos de Jó tiveram com ele, todo o seu intento ou teima foi que todos os trabalhos que padecia Jó eram em pena de seus pecados, defendendo-se pelo contrário Jó que padecia inocente. A este fim fez um grande aranzel de todas suas virtudes e boas obras, concluindo que, se tivera pecados, haviam de ser públicos e sabidos, porque ele nunca encobrira pecados: Si abscondi, quasi homo, peccatum meum[17]. Nestas palavras tem grande mistério e é digna de grande reparo aquela exclusiva: quasi homo; não só diz que não escondeu seus pecados, senão que os não escondeu como homem. Para qualificar Jó sua inocência, bastava dizer que não tinha pecados; para provar que os não tinha com o testemunho público, bastava dizer que nunca os escondera; pois, por que acrescenta que os não escondeu como homem: Si abscondi quasi homo, peccatum meum? Porque não há coisa mais natural ao homem que esconder e encobrir seus pecados. O pecado é malícia ou fragilidade; o esconder o pecado é natureza. O primeiro homem que pecou foi Adão. E qual foi o primeiro efeito do primeiro pecado? Esconder-se e encobrir-se. Não havia então no mundo outros olhos de que Adão se houvesse de esconder e encobrir, senão os olhos de Deus, e até dos olhos de Deus se quis esconder e encobrir, tanto que pecou. Quando Tamar se foi encontrar com Judas, primeiro fundador e cabeça da tribo real, do qual concebeu a Farés e Zarã, diz o texto sagrado, que vendo-a Judas, suspeitou que era mulher de mau trato: Suspicatus est esse meretricem (Gên. 38, 15). E por quê, ou donde o coligiu? Operuerat enim vultum suum, ne agnosceretur: porque levava coberto o rosto para não ser conhecida. — Vejam lá as tapadas as conseqüências que descobrem, quando assim se cobrem.

A razão de ser tão natural ao homem o encobrir e esconder o pecado deu Quintiliano, e é porque ninguém é tão mau que o queira parecer: Non quisquam tam malus, ut malus videri velit. E deste princípio formou Tertuliano um valente argumento em defesa dos cristãos contra os tiranos[18]. Ide aos vossos cárceres, diz ele, onde tendes presos ladrões, homicidas, adúlteros e cristãos, e inquiri de uns e outros os seus delitos: ao cristão, se lhe perguntais se é cristão, responde logo que sim; o ladrão, o homicida, o adúltero, ainda nos tormentos, nega. E qual é a causa por que estes negam e aqueles não? Porque o que é mal e pecado, ninguém quer que seja seu: Nolunt enim suum esse, quod malum est. Segue-se, logo, que o ser cristão não é mal, nem pecado, porque se o fora eles o encobriram e o negaram. E assim conclui: Quid hoc mali est, quod naturalia mali non habet? Timorem, pudorem, tergiversationem? Que mal ou que pecado é logo este, em que se não acha o natural de todo o pecado, que é o cuidado e artifício de se encobrir, e o temor e vergonha de se confessar? — E como é tão natural ao homem o encobrir e esconder seus pecados, por isso Agostinho escreveu o Livro das suas Confissões, em que descobriu, publicou e manifestou a todo o mundo os seus pecados, para tirar do mesmo mundo este impedimento da salvação, e persuadir com seu exemplo aos homens a confessar e não encobrir os seus. Pouco há, que dizia Cristo: Omnis qui male agit odit lucem: Todo o homem que faz mal aborrece a luz — e Agostinho, como exceção de todos os homens, tirou à luz todo o mal que tinha feito, para que nele tomassem exemplo do que devem fazer os que fazem mal. Vede a diferença de Agostinho, e a sem-razão dos outros homens. Os outros homens, quando fazem mal, aborrecem a luz, sendo que haviam de aborrecer o mal, e aborrecer também a quem o faz; mas, em vez de aborrecerem o mal, aborrecem a luz, porque ela descobre o mal, e eles, sendo maus, querem parecer bons, Para emendar pois esta sem-razão, e para pôr em seu lugar este mal aplicado aborrecimento, sai Agostinho à luz com quantos males tinha feito em sua vida, para que entendessem os homens que o que se há de aborrecer é o mal, e não a luz, e que o mal encoberto é a enfermidade, e a luz que o descobre, o remédio.

V – O preceito da Confissão, remédio do pecado e o Livro das Confissões. Pecados perdoados e pecados cobertos. Davi, arrependido, pedia remédio para si; Agostinho escrevia para remédio de todos. A escritura de Cristo e o livro de Agostinho. Jó e a afronta do Juízo universal. Paralelo entre o Juízo universal e as Confissões de Agostinho.

Para remédio do pecado, instituiu Cristo, Senhor nosso, o Sacramento da Confissão, e este é o maior argumento ou maior encarecimento da grande repugnância natural que o homem tem a descobrir seus pecados, porque, castigando-os Deus justamente com pena eterna, por serem ofensas de majestade infinita, o mesmo Deus achou que ficavam bem comutadas todas estas penas em um homem confessar seus pecados a outro homem. Mas daqui mesmo se vê quão admirável e verdadeiramente estupenda foi a resolução de Agostinho no livro que escreveu de suas Confissões, e quão eficaz e superabundante foi o exemplo que deu com seus pecados, para vencer a repugnância, para animar o temor e para facilitar o pejo natural que a fraqueza humana tem de confessar os seus. Que um homem confesse e descubra seus pecados para alcançar o perdão deles, é comprar a graça de Deus por seu justo preço. Porém, Agostinho que, depois de ter sido pecador, se batizou sendo de idade de trinta e três anos, não confessou publicamente seus pecados para se pôr em graça de Deus, porque já a tinha, nem para alcançar o perdão deles, porque já estavam perdoados. Falando São Paulo deste perdão e desta graça, diz com Davi: Beati quorum remissae sunt iniquitates, et quorum tecta sunt peccata (Sl. 31, 1): bem-aventurados aqueles a quem estão perdoadas suas maldades, e que têm cobertos seus pecados. — A inteligência deste texto, já em tempo de Santo Agostinho, foi mui controversa entre católicos e hereges, pela distinção que o Apóstolo faz entre pecados perdoados e cobertos. Se pecados perdoados e cobertos são duas coisas distintas, em que consiste o estarem perdoados: Quorum remissae sunt iniquitates? Em que consiste o estarem cobertos: Quorum tecta sunt peccata? Deixadas muitas questões que aqui se envolvem, falou o Apóstolo como divino teólogo, porque no perdão e absolvição dos pecados concorrem duas coisas: a remissão das culpas — que por outros termos se chama condonação — e a infusão da graça; pela remissão da culpa, ficam os pecados perdoados: Remissae sunt iniquitates; pela infusão da graça ficam cobertos: Tecta sunt peccata. E que Agostinho, tendo os seus pecados perdoados e cobertos, os torne a descobrir, sem obrigação nem necessidade, só para que os outros os não encubram, julgai se foi grande exemplo o que deu com seus pecados.

Mais. O preceito com que Deus manda ao cristão que confesse todos seus pecados, sobre ser debaixo de inviolável sigilo, é com tal cautela e com tanta atenção ao crédito do mesmo que os confessa, que a ninguém obriga que escreva seus pecados, ainda que por falta ou fraqueza de memória os não houvesse de confessar todos. E o motivo desta limitação é o perigo que tem um papel de se perder casualmente e passar a outras mãos. Porém Agostinho, acrescentando exemplo sobre exemplo, não só sem temor, mas com desejo de que seus pecados andassem nas mãos e nos olhos de todos, por isso mesmo os escreveu. E como os escreveu? Na língua mais vulgar e geral do mundo, e não por cifras ou metáforas, mas estendida e declaradamente, e com a ponderação de todas as circunstâncias deles, mais viva ainda que do seu entendimento, porque era maior que o seu entendimento a sua dor, e igual à sua dor o seu zelo dos pecados alheios. Considerai-me a Davi chorando e orando, e a Agostinho chorando e escrevendo, e vede no mesmo caso que diferentes foram os afetos destas duas grandes almas. Davi, vendo os seus pecados escritos nos livros de Deus, pedia a Deus que os riscasse: Dele iniquitatem meam[19]; e Agostinho, sabendo que os seus pecados estavam já riscados nos livros de Deus, pelo Batismo, escrevia-os de novo. Mas Davi pedia remédio para si, e Agostinho escrevia para remédio de todos. Cristo, para livrar uma pecadora, escreveu os pecados dos que a acusavam; e Agostinho, para entender pecadores, acusou e escreveu, não os pecados de outros, senão os seus próprios. Cristo escreveu-os na terra, onde facilmente se podiam apagar; Agostinho escreveu-os nos seus livros, que foi mais que se os entalhara em bronze. Cristo escreveu-os sem o nome dos que repreendia, e Agostinho debaixo do seu nome: Confissões dos pecados de Agostinho.

Mais ainda. O preceito da Confissão obriga a que nos confessemos a outro homem, mas a um só. De sorte que, se o confessor não entende a língua do confessado, não é obrigado o confessado a se confessar por intérprete, por que não passem seus pecados à notícia de dois homens. E quem pudera na consideração deste ponto, não digo exagerar ou encarecer, mas explicar de algum modo suficientemente aquela façanha mais que heróica e aquela resolução superior a toda a capacidade humana, com que Agostinho confessou e manifestou seus pecados, não só a todos os homens da sua idade, mas a todos os que hoje somos, a todos os que foram de mil e duzentos anos a esta parte, e a todos os que serão até o fim do mundo? Só no dia do Juízo acho alguma semelhança a este ato, mas com grande diferença. No dia do Juízo a todos os homens hão de ser manifestos os pecados de cada um; será, porém, tal o horror que fará a cada um dos homens esta manifestação de seus pecados naquele imenso teatro, onde se achará junto todo o mundo, que escolherão por partido antes o inferno, que aquela afronta tão pública. Assim o declarou Jó quando disse: Quis mihi hoc tribuat, ut in inferno, protegas me, et abscondas me, donec pertranseat furor tuus[20]? E dá logo a razão, dizendo: Tu quidem gressus meos dinumerasti: signasti quasi in sacculo delicta mea[21]. Agora estão os processos cerrados e os pecados ocultos; depois, hão-se de abrir e manifestar todos. E esta manifestação pública — diz Jó — será tão afrontosa, que cada um tomará antes e pedirá por partido, que o escondam e amparem no inferno: Ut in inferno protegas me et abscondas me. Notai muito a palavra protegas, que significa proteção, amparo, refúgio, porque será tal a confusão e vergonha desta afronta, e tal a apreensão e verdadeiro conhecimento dela, que, comparada com o mesmo inferno, a afronta será o rigor, e o inferno o refúgio; a afronta o tormento, e o inferno o amparo; a afronta o castigo, e o inferno a proteção: Ut in inferno protegas me. E se me perguntardes a razão deste, que mais parece encarecimento que verdade, a razão digo que é porque no inferno padece cada um as suas penas, e no Juízo hão de ver todas as suas culpas. Tanto excede o mal da culpa, que hoje não conhecemos, a todo o mal da pena, ainda que seja eterno. E se ainda vos parece esta resposta encarecida e não adequada, perguntai ao mesmo inferno quantas almas estão ardendo nele, só por não se atreverem a descobrir seus pecados ao confessor. Pois, se há homens que escolhem antes o inferno, que manifestar seus pecados a um homem, que muito é que queiram padecer eles as suas penas no inferno que conhecerem todos os seus pecados no dia do Juízo.

Ah! Agostinho, que só a luz de vossos pecados, saindo vós à luz com eles, alumiou invencivelmente esta cegueira, e só o livro das vossas Confissões a refutou e aniquilou mais, que quanto se tem dito até hoje nem se pode dizer ou imaginar. O mais forte argumento com que se desfaz a repugnância de um homem se confessar a outro, é saber que estes mesmos pecados, de que agora se peja que os ouça um homem, no dia do Juízo os hão de ver todos os homens; mas porque o dia do Juízo está longe e a confissão perto, a grande força que tem conosco o presente é a que pode mais que este desengano. Sai pois Agostinho em sua vida com o livro de suas Confissões, e antecipando, para si somente, o dia do Juízo, não só fez presente o Juízo universal futuro, mas sendo esse juízo, pela manifestação pública dos pecados, de maior horror e rigor que o mesmo inferno, ele fez outro juízo em si, mais rigoroso que este mesmo Juízo. Dai-me atenção neste paralelo, e vede como o juízo que fez de seus pecados Agostinho no livro de suas Confissões é muito mais rigoroso do que há de ser o Juízo universal de Deus, e não por uma, senão sete circunstâncias. Contai-as, se quiserdes.

O Juízo universal há de ser um só; e Agostinho fez que para si houvesse dois juízos universais, um agora entre os vivos, e outro depois entre os ressuscitados. O Juízo universal há de ser no fim do mundo, quando tudo se há de acabar; e Agostinho fez o seu juízo no meio da duração do mundo, tantos séculos antes quantos já tem durado, e para quantos houvesse de durar dali em diante. O Juízo universal há-se de fazer em um só dia, no qual se hão de ler as culpas de todos; e Agostinho fez que o juízo das suas fosse de todos os dias, porque todos os dias se estão lendo e hão de ler as culpas de Agostinho. No Juízo universal, hão-se de manifestar as más obras de cada um, mas também hão de aparecer igualmente as boas, para que as virtudes de uma parte se contrapesem com os pecados da outra; e Agostinho no seu juízo, de tal maneira manifestou seus pecados, que sepultou em silêncio as suas virtudes. No Juízo universal, se se publicam os pecados de uns, também se hão de publicar juntamente os pecados dos outros; e como cada um tem assaz que estranhar em si, nos excessos alheios ficarão mais desculpados os próprios; porém, os pecados de Agostinho, no seu juízo, padecem a afronta da publicidade sem o alívio da companhia, porque são culpas publicadas em tempo em que as dos outros estão escondidas. No Juízo universal hão de ser julgados por Deus; porém, Agostinho no seu juízo expôs os seus pecados a ser julgados, não por Deus, senão pelos homens, cujo juízo, como tão temerário, é muito mais temeroso juízo. Finalmente, no Juízo universal hão de aparecer as culpas escritas fidelissimamente, sem passar por pecado o que não foi pecado, ou por grave o que foi leve; mas no juízo de Agostinho aparecem as suas culpas conforme o encarecimento da sua dor, e talvez maiores e mais feias do que verdadeiramente foram, porque Deus nos seus livros escreve os pecados dos homens como justo, e Agostinho no seu livro escreveu os seus como escrupuloso. Tão rigoroso foi o juízo que Agostinho fez de si na publicação de seus pecados, e tantas e tão notáveis as circunstâncias com que excedeu os rigores do mesmo juízo de Deus quando há de julgar o mundo, para que a repugnância natural dos homens em descobrir seus pecados, à vista de um tal exemplo, mais se envergonhe de os encobrir que de os confessar, e mais de escusar ou diminuir suas culpas, que se acusar inteiramente delas. E este foi o modo altíssimo digno só de seu inventor, com que Agostinho, das suas mesmas trevas, como dizia, fez luz, e dos seus mesmos pecados, exemplo.

VI – Pode o pecado deixar de ser pecado? Os acidentes do pecado e Isaías. O livro das virtudes de Jó e o livro dos pecados de Agostinho.

E ninguém me diga que os pecados não podem ser exemplo, argumentando que, em qualquer modo que se considerem, sempre são pecados, porque os mesmos pecados, conservando a substância, podem mudar os acidentes, e como sacramentando-se, debaixo deles causar efeitos contrários: Si fuerint peccata vestra ut coccinum, quasi nix dealbabuntur (Is. 1, 18), diz Deus pelo profeta Isaías: se os vossos pecados forem vermelhos como a grã, fazei o que vos eu mando, e serão brancos como a neve. — Este texto tem dado grande trabalho aos expositores, e todos concordam em que falou aqui o profeta pela figura que os retóricos chamam metonímia, tomando a qualidade pela pessoa e o pecado pelo pecador, porque o pecador pode deixar de ser pecador, e ser justo, e o pecado nunca pode deixar de ser pecado. Mas deverão advertir que o profeta não fala da substância do pecado, senão dos acidentes, quais são as cores. Não diz que os pecados hão de deixar de ser pecados, senão que hão de mudar a cor, e que sendo, ou tendo sido vermelhos como a grã, serão brancos como a neve: Si fuerint peccata vestra ut coccinum, quasi nix dealbabuntur. E mudando os mesmos pecados a cor, e vestindo-se de outros acidentes, bem podem ter debaixo deles contrários efeitos, e necessariamente os hão de causar quando forem vistos. Tais foram os pecados de Agostinho. Enquanto cometidos tinham uma cor, e enquanto confessados tiveram outra, e por isso, enquanto cometidos, como ele mesmo disse, causavam escândalo, e enquanto confessados, causam exemplo. Fez Agostinho exemplo dos seus pecados publicando-os, sendo que o efeito natural dos pecados públicos é causar escândalo; mas assim como o hipócrita escandaliza o mundo com a ostentação de virtudes, assim Agostinho edificou a Igreja com a publicação de pecados.

Dê-me logo licença S. Gregório para que eu diga com a mesma e maior razão de Agostinho o que ele disse de Jó: Videatur vir iste cuilibet magnus in virtutibus suis, mihi certe sublimis apparet in peccatis suis: Pareça embora a outros Agostinho grande nas suas virtudes, que a mim me parece maior nos seus pecados. — Nas virtudes que exercitou e que retratou nos outros seus livros, foi Agostinho grande; mas no livro de suas Confissões, em que manifestou os seus pecados a todo o mundo, sem dúvida foi muito maior. E se este livro se comparar com os outros seus, este foi a coroa de todos. O mesmo Jó, que mereceu o elogio de S. Gregório só por não encobrir pecados, tendo feito um largo relatório de suas virtudes, rematou-o confiadamente com esta conclusão: Librum scribat ipse qui judicat, ut in humero meo portem illum, et circundem illum quasi coronam mihi. Per singulos gradus meos pronuntiabo illum, et quasi principi offeram eum (Jó 31, 35 ss): Escreva o justo juiz todas as minhas ações em um livro, e eu o levarei ao ombro, e o porei na cabeça como coroa, e lendo todos os seus capítulos, o oferecerei a Deus como a príncipe, para que me despache por ele.

Muito dizeis, santo Jó, e muito confiado falais, pois quereis que Deus, como juiz, e não vós, escreva o livro de vossas virtudes; e pois credes que será tão grande o livro, que o não podereis levar na mão, senão ao ombro, e pois o haveis de oferecer para ser despachado por ele, e antes do mesmo despacho, já vos prometeis a coroa. Mas tudo isto que vós dizeis do livro de vossas virtudes, quem haverá que o não diga com maior razão do livro dos pecados de Agostinho? Ele o escreveu, e nele seus pecados, quando já Deus os tinha riscado nos seus livros, ele o formou, e de matéria tanto mais pesada quanto vai de pecados que afrontam e humilham, a virtudes que honram, engrandecem e exaltam; e ele o ofereceu a Deus e aos olhos do mundo, não para despacho, senão para castigo, e como merecedor de inferno, e não de coroa; mas por isso, e por tudo, digníssimo dela. Muitas coroas tem no céu Agostinho, mas esta a mais preciosa e resplandecente de todas. Jó com as suas virtudes foi maravilhoso, porque nelas guardou o Evangelho antes de haver Evangelho; mas Agostinho, com os seus pecados, foi mais maravilhoso, porque neles, depois de haver Evangelho, para mais e melhor o guardar, o amplificou. Só era obrigado pelo Evangelho a resplandecer com obras boas, e ele resplandeceu e alumiou o mundo, até com pecados, o que não disse nem manda o Evangelho: Sic luceat lux vestra coram hominibus, ut videant opera vestra bona.

VII – O Livro das Retratações. Lúcifer e a contumácia do muito saber. A sabedoria de Orígenes, de Tertuliano e de Apolinar mestres insignes da Igreja, da mesma Igreja anatematizados. Resposta de Pilatos aos acusadores de Jesus: o que escrevi, escrevi, — e as Retratações de Santo Agostinho.

Do Livro das Confissões de Agostinho passemos ao de suas Retratações, nada menos, antes mais admirável, quanto excede em nobreza o entendimento a vontade. Assim como é natural a todo o homem encobrir o seu pecado, assim é natural a todo o sábio sustentar e não se desdizer do seu erro, e tanto mais quanto for mais sábio. O mais sábio espírito que Deus criou foi Lúcifer, e é caso verdadeiramente estupendo que uma criatura dotada de tão sublime entendimento, e alumiada de tão alta sabedoria, caísse em um erro tão crasso, tão manifesto e tão néscio, como cuidar que podia ser semelhante a Deus, e dizer que o havia de ser: Similis ero Altissimo[22]. Mas ainda esta não é a maior admiração. O que mais admira e faz pasmar é que nem no céu, onde errou, se quis descer de tão errado pensamento, nem no inferno, onde o está pagando, se quer desdizer ou arrepender dele. No céu, entre o pecado e condenação de Lúcifer, é sentença muito conforme à piedade divina, que lhe deu Deus bastante espaço para se converter; e no inferno, é também teologia certa, que ainda tem liberdade para o fazer, se quiser. Pois, como é possível que coubesse e caiba em um entendimento tão sábio querer antes cair do céu e arder no inferno, que desdizer-se do que uma vez disse, e persistir no mesmo erro por toda a eternidade? Se Lúcifer soubera menos, ele reconhecera o seu erro; mas a grande ciência que tanto o inchou para errar, essa mesma o obstinou para se não desdizer. E ponderação não menos que do profeta Ezequiel.

Fala deste caso de Lúcifer o profeta, considera-o no céu antes de cair, e no inferno depois de caído, e em um e outro lugar lhe chama querubim: Et tu Cherub, posui te in monte sancto Dei; perdidi te, o Cherub, projeci te in terram[23]. Lúcifer é certo que não era querubim, senão serafim, porque entre os anjos da primeira e suprema jerarquia, e entre os do primeiro e supremo coro, ele era o primeiro e o maior. Pois, se era serafim, por que lhe chama o profeta, assim no céu, como no inferno, não serafim, senão querubim? Porque querubim quer dizer sábio, e entre todos os espíritos angélicos, os mais eminentes na sabedoria são os querubins. E como a sabedoria foi a que inchou a Lúcifer para que rebentasse em um erro tão ignorante, e a mesma sabedoria a que o cegou e obstinou, para que se não retratasse dele, por isso lhe chama querubim e sábio, e não serafim. No céu querubim, porque, sendo tão sábio, errou no céu; e no inferno querubim, porque, por ser tão sábio, se não quer desdizer de seu erro nem no inferno.

Quando Lúcifer disse: Similis ero Altíssimo; Serei semelhante a Deus, — também disse: In caelum conscendam (Is. 14,13): Subirei ao céu. Donde argúi excelentemente São Jerônimo: Vel antequam de caelo corruerit ista dicebat, vel postquam corruit: Se isto disse Lúcifer no céu, como diz: subirei ao céu: In caelum conscendam? E se diz subirei ao céu, sinal é que já estava caído e fora dele? Tudo foi. No céu disse: Similis ero Altissimo, e por isso caiu; depois de caído, também disse: Similis ero Altissimo, e o mesmo está dizendo e o dirá por toda a eternidade, porque esta é a pertinácia e soberba de sua ciência, dizer no céu e fora do céu, dizer no céu e no inferno, o mesmo que uma vez disse, e não se desdizer nem se retratar jamais. De sorte que é tal a contumácia do muito saber, uma vez que se chega a usar mal dele, que antes quererá um sábio presumido cair do céu, que descer-se da sua opinião, e antes arder no inferno, que desdizer-se do que já tem dito. Se fora verdadeira aquela imaginação de Orígenes, o qual teve para si que as nossas almas eram anjos que andavam penando dentro nos nossos corpos, e pagando algumas culpas que tinham cometido, de muitos homens sábios que erraram e nunca se quiseram retratar, dissera eu que eram os anjos sequazes de Lúcifer.

Tal foi o mesmo Orígenes, tal Tertuliano, tal Apolinar, e outros famosíssimos doutores em todo gênero de erudição divina e humana, os quais, tendo sido insignes mestres da Igreja, e ainda hoje alegados, por se não quererem retratar de alguns erros, em que como homens caíram, com perpétua dor da mesma Igreja foram anatematizados e apartados dela, podendo-se dizer com verdade de cada um, o que Félix imputava a São Paulo: Multae te litterae ad inaniam convertunt[24]. Era Orígenes tão zelador da religião e doutrina cristã, que, para a poder ensinar com maior liberdade a um e outro sexo, tomando materialmente aquela sentença de Cristo: Sunt eunuchi qui se ipsos castraverunt propter regnum caelorum[25], se martirizou a si mesmo, e se desfez de homem. Era Tertuliano tão austero na vida e nos costumes, e tão propugnador das heróicas virtudes, como mostram seus mesmos erros, porque negou serem lícitas aos cristãos as segundas bodas, nem o fugir no tempo da perseguição, senão oferecer-se ao martírio constantemente, nem serem outra vez admitidos à Igreja os pecadores conhecidos, posto que penitentes. Era Apolinar não só tão eminente na sabedoria, que foi mestre nas Escrituras Sagradas do Doutor Máximo na exposição delas, São Jerônimo, mas de tão honestos e louváveis procedimentos, que mereceu ser venerado, amado e ainda defendido dos dois grandes lumes da Igreja, Nazianzeno e Basílio, enquanto não foram manifestos seus erros. Mas sendo estes e outros insignes varões tão fortes domadores de outras paixões humanas, chegados ao ponto de se haver de retratar do que tinham ensinado, aqui fraqueou todo seu valor, aqui perdeu o passo toda a sua sabedoria, e aqui se cegaram e escureceram de tal sorte aqueles grandes entendimentos, que antes quiseram perder a união da Igreja, e com ela o único fundamento da própria salvação, que desdizer-se do que tinham dito.

E como é tão natural aos homens doutos e sábios a pertinácia de persistir em seus erros, e o orgulho de os sustentar e defender a todo o risco, para alumiar esta segunda e maior cegueira, que não só perde a seus autores, senão a muitos com eles, saiu Agostinho à luz com o Livro de suas Retratações, em que confessou seus erros e emendou suas ignorâncias, dando confiança a todos os sábios e doutos — como mais sábio e douto que todos — a que nenhum se envergonhasse de ter errado, nem de confessar que errou, pois Agostinho o fazia tão declaradamente. Ou em seus sermões, que eram contínuos, ou em várias disputas públicas — em alguma das quais concorreram em Cartago duzentos e oitenta e seis bispos hereges — convenceu Agostinho com força e evidência de seus argumentos, muitos donatistas, muitos maniqueus, muitos pelagianos, que publicamente reconheceram e abjuraram seus erros; mas o argumento mais irrefragável e sem resposta, que confundiu a presunção de todos, ainda dos mesmos que teimaram a se não desdizer, foi o Livro de suas Retratações, escrito e divulgado. Bem pudera Agostinho retratar verbalmente, desde a mesma cadeira em que ensinava e pregava, e não com pequena edificação de todos os doutores e mestres, mas qui-lo fazer e publicar por escrito, porque a retratação do que se escreveu e saiu a público, em homens de opinião é muito mais difícil.

Presentado Cristo ante Platos, ouviu ele as acusações, examinou as testemunhas, reconheceu o ódio e inveja de inimigos, e pronunciou ao Senhor por inocente. Instando porém os acusadores: Si hunc dimittis, non es amicus Caesaris: omnis enim qui se regem facit, contradicit Caesari[26], que se absolvia aquele réu, incorria em crime de lesa-majestade contra o César, pois era contra a soberania do império consentir dentro nele um homem que se chamava rei. Pôde tanto com Pilatos o temor deste requerimento, e o respeito do nome e amizade do César, que condenou em Cristo a inocência, e crucificou com Cristo a justiça. Crucificado, enfim, o Senhor, mandou fixar na cruz, como era costume, a causa por que padecia, escrita com aquelas palavras: Jesus Nazareno, Rei dos Judeus, das quais novamente escandalizados os acusadores, tornaram a replicar que as mandasse emendar, e que, em lugar de rei dos judeus, dissesse: por se fazer rei dos judeus. Porém Pilatos respondeu: Quod scripsi, scripsi (Jo. 19, 22): O que escrevi, escrevi — e de nenhum modo o puderam persuadir a que mudasse o que tinha escrito. O grande reparo que tem esta resposta, todos o estão vendo. Muito mais ofendia a Pilatos ao César em dar a Cristo o título de rei, que em lhe não dar a morte, e muito mais se condenava em lhe dar a morte, que se o livrasse dela. Pois, se Pilatos não repara em se condenar a si e a Cristo por respeito de César, por que não lhe tira o título de rei por respeito do mesmo César? Porque assim o tinha escrito e publicado: Quod scripsi, scripsi. O que um homem de ciência ou presunção uma vez escreveu e publicou, não o toma a retratar por nenhum respeito. Condenar a mesma inocência, fá-lo-á, senão por reto, por um respeito humano; mas riscar o que uma vez escreveu e está público em seu nome, não o fará um sábio presumido por nenhum respeito deste mundo, nem ainda do outro.

Ela é intolerável cegueira do entendimento, intolerável abuso da razão e intolerável injúria da justiça e da verdade, que aquilo que se não devia escrever se haja de sustentar só porque se escreveu, e que o ser escrito uma vez seja conseqüência de estar escrito sempre: Quod scripsi, scripsi. Mas esta sentença, como se fora de melhor autor, é a comumente de todos os que escrevem e publicam seus escritos. Querem que os seus livros sejam como o Livro da Predestinação, em que o que está escrito não pode ser riscado; querem que os seus caracteres sejam como os dos sacramentos, que, uma vez impressos, não se podem apagar; querem, enfim, que o seu escrever seja prescrever: Quod scripsi, scripsi. Cento e dezoito livros temos de Santo Agostinho, exceto os que não chegaram a nós, e quando ele pudera assentar a pena e consagrá-la ao tempo da sabedoria como troféu de todas as ciências, entre os aplausos do mundo e celebridade da fama maior que a de todos os que escreveram, toma a tomar e aparar de novo a pena. Para quê? Para emendar em um livro todos os seus livros, para se retratar e desdizer de muitas coisas que neles tinha dito, e para desenganar com o seu exemplo a todos os que tanto se enganam com os seus escritos.

VIII – Os escritos, parto do entendimento, como os filhos, posto que sejam feios, agradam sempre a seus pais. Elifaz, amigo de Jó, e a perspicácia dos olhos divinos. Agostinho, águia da visão de Ezequiel. O perdão do pai do filho pródigo, e o perdão de Davi a Absalão. O Sacrifício de Abraão e do Eterno Padre, não perdoando a seus filhos, e o sacrifício de Agostinho, não perdoando aos filhos de seu entendimento.

A razão deste engano deu excelentemente Santo Ambrósio, a quem deve a Igreja mais que a todos os Doutores, porque lhe deve a Agostinho: Ununquemque fallunt sua scripta, et authorem praetereunt: atque ut filii etiam deformes delectant parentes, sic etiani scriptores indecores quoque sermones palpant: A todos os autores, diz Ambrósio, enganam os seus escritos, e, ainda que tenham erros, só eles os não vêem. E a razão desta cegueira é porque são partos do seu entendimento. E assim como os filhos, posto que sejam feios, agradam a seus pais, e lhes parecem formosos, assim os escritos de cada um, por imperfeitos, errados e mal compostos que sejam, naturalmente lisonjeiam a seus autores e lhes parecem bem, porque se parecem com eles. Isto disse e ensinou Santo Ambrósio, digníssimo mestre de Agostinho, e sendo tão verdadeira esta doutrina, e tão universal a razão ou sem-razão dela em todos os homens, só em Agostinho se não verificou. Lá disse Elifaz, o mais sábio dos três amigos de Jó, que a justiça de Deus e a perspicácia dos olhos divinos é tão pura, que até nos seus anjos achou imperfeição: In angelis suis repent parvitatem (Jó 4, 18). E não está o encarecimento em dizer que achou imperfeição nos anjos, sendo anjos, senão em que achou imperfeição nos anjos sendo seus: In angelis suis. Se os olhos de Deus fossem como os dos homens, ainda que os anjos o não foram, bastava que fossem seus para que lhe parecessem anjos. Angelicais são todas as obras e escritos de Agostinho, mas os seus olhos tiveram tanto da perspicácia divina, que, com serem angélicos e seus, achou neles imperfeição e erros: In angelis suis repent parvitatem. Não o lisonjeou serem partos da sua alma e filhos do seu entendimento, para que se enganasse com eles.

Agora se entenderá o próprio e cabal fundamento por que entre os quatro animais enigmáticos do carro de Ezequiel, em que foram significados os quatro Doutores da Igreja, Agostinho é a águia. Porventura, por que tendo todos asas e penas, Agostinho com a sua voou mais alto que todos? Seja embora; mas outro mais profundo mistério se encerra na semelhança. A águia, como diz Aristóteles, e se sabe vulgarmente, depois que lhe nascem os filhos e lhes dá a primeira criação indistintamente, tira-os do ninho, suspende-os nas unhas, e examina-os um por um aos raios do sol: se olham de fito em fito para o sol, sem pestanear, reconhece-os e conserva-os como filhos próprios; mas se fecham ou afastam os olhos, e não sofrem toda a luz, repudia-os e lança-os de si como adulterinos. Assim fez a nossa águia com todos os seus livros, com todas as suas resoluções, e com todos os seus ditos e pensamentos. Examinou-os aos raios do sol da verdade severissimamente: dos que achou conformes, firmes e constantes, reconheceu-os por próprios; aqueles, porém, em que descobriu alguma fraqueza ou menos conformidades, retratou-os e condenou-os como não seus. O dito bastava para a propriedade deste segundo e maior mistério. Mas eu passo adiante e pergunto: no exame e prova que faz de seus filhos a águia, quais ficam mais examinados e mais qualificados, os olhos da mãe ou os olhos dos filhos? Não há dúvida que os olhos da mãe, porque os olhos dos filhos não se cegaram com o sol, os olhos da mãe não se cegaram com os filhos. Não se cegaram os filhos com o sol, isso é serem águias; mas não se cegar a águia com os filhos, isso é ser mãe sem amor de mãe. Tal Agostinho com os seus livros. Eram partos do seu juízo, eram filhos do seu entendimento, mas examinou-os com tal rigor, e sentenciou-os com tal justiça, como se não foram filhos. Ou os amava Agostinho, ou não os amava: se os não amava, sendo filhos seus, que fineza! E se os amava, e os tratou e retratou assim, que maravilha!

Não há amor que mais facilmente perdoe e mais benignamente interprete e dissimule defeitos que o amor de pai. Grandes defeitos foram os do filho pródigo, e tão grandes que ele mesmo reconhecia que era indigno de ser chamado filho de tal pai: Pater, non sum dignos vocari filius tuus[27]; mas o pai nem por isso o desconheceu de filho ou o lançou de si, antes o abraçou apertadissimamente, e o seu primeiro cuidado foi cobri-lo e vesti-lo, e enfeitá-lo com as melhores e mais vistosas galas: Cito proferte stolam primam[28]. Isto é o que fazem todos os escritores severíssimos com os defeitos alheios, e benigníssimos com os próprios, como pais enfim. Mas não assim Agostinho, posto que o pudera fazer melhor que todos. Ainda que alguns ditos ou escritos seus tivessem tais defeitos que não fossem dignos de se chamar filhos de tal pai, bem pudera ele abraçá-los e não os lançar de si, e cobri-los com tais interpretações, e vesti-los com tais cores e figuras de sua divina retórica, que não só parecessem seus, mas tivessem muito que invejar, como logo foi invejado o pródigo. Porém ele, tão fora estava de os cobrir, que os manifestou, tão fora de os enfeitar, que os afeou mais, e tão fora de os vestir, dissimular ou disfarçar com outros trajos, que, despido de todo o afeto e amor de pai, os condenou como severíssimo juiz, e lhes não perdoou como cruel inimigo.

Davi, sendo tão enormes os erros de seu filho Absalão, e ele tão incapaz de perdão ou desculpa, lá lhe buscou e achou na idade um motivo com que o escusar e salvar: Servate mihi puerum Absalon[29]. Pois se Joab lhe não perdoou, e todo o reino então, e hoje todo o mundo o condena, como lhe perdoa só Davi, e o quer salvar? Porque era pai, diz Santo Ambrósio. E esta é a única e verdadeira razão. Não há opinião tão errada, não há proposição tão temerária e tão ímpia, como Absalão, que seus autores, como pais, não queiram salvar, escusar e defender, porque, ainda que partos tão monstruosos, são partos do próprio entendimento. Os de Agostinho não eram deste gênero, mas de tão fácil interpretação e escusa, que muitos, ainda depois de reprovados por ele, por sua natural gentileza, como a de Absalão, são vistos com admiração e recebidos com aplauso. Era, porém, tal o amor da verdade e tal a inteireza do juízo de Agostinho, que, sendo tão dignos de perdão, e ele pai, não lhes perdoou.

A maior coisa que fizeram os homens por Deus, foi o sacrifício de Abraão, e a maior que Deus fez pelos homens foi a Encarnação e morte de Cristo, em que também o sacrificou. E para encarecer a Escritura estas duas ações, os termos de que usou em uma e outra, é que nem Abraão perdoou a seu filho, nem Deus ao seu: Quia fecisti rem hanc, et non pepercisti unigenito filio tuo propter me[30], diz Deus, falando de Abraão. E São Paulo, falando de Deus: Proprio Filio suo non pepercit, sed pro nobis tradidit illum[31]. Tão grande façanha e fineza é chegar um pai a não perdoar a seu filho, como não perdoou Agostinho aos de que era pai. Mas com qual destes dois sacrifícios se pareceu mais o de Agostinho: com o de Abraão, quando não perdoou a seu filho, ou com o do Eterno Padre, quando não perdoou ao seu? No sacrifício de Abraão foi figurado o do Eterno Padre. E se fizermos comparação entre um e outro, não de Deus a homem — que não pode ser — senão precisamente de pai a pai, não há dúvida que ainda assim foi maior sacrifício o do Eterno Padre, que o de Abraão, porque o filho a quem não perdoou Abraão era filho da sua carne, e o Filho a quem não perdoou o Eterno Padre era Filho do seu entendimento; e sacrificar os filhos do entendimento é tanto maior ação, quanto vai do espírito à carne, e da alma ao corpo. Logo, muito mais parecido foi o sacrifício de Agostinho ao do Eterno Padre, e muito mais nobre que o de Abraão, porque os filhos a quem não perdoou Agostinho eram partos da sua alma e filhos do seu entendimento. O Filho de Deus é concebido e gerado por entendimento, e por isso se chama Verbo e Palavra do Padre. E este mesmo é o nome e esta a geração dos filhos a que Agostinho não perdoou: Propriis filiis suis non pepercit.

IX – Por que Salomão não só se aplicou a saber as ciências, senão também os erros e as ignorâncias? Agostinho, o Salomão da Igreja nova. O Livro das Retratações, a maior vitória de Agostinho, porque vitória sobre si mesmo. Os erros de Agostinho e o engano de Jacó na noite das bodas.

Se lermos o Livro das Retratações de Agostinho, acharemos que o que ele chama erros e ignorâncias, algumas eram já impugnadas por outros, e as mais, descobertas e emendadas pelo mesmo Agostinho. É certo que não sei em quais delas se mostrou o seu entendimento e juízo mais admirável, se em não defender as primeiras, ou em estudar, cavar e descobriras segundas. Verdadeiramente era coisa notável e digna de toda a maravilha, depois que Santo Agostinho saiu à luz com suas obras, ver que todo o mundo estudava pelos livros de Agostinho, e o mesmo Agostinho também. Mas o fim de um e outro estudo ainda acrescenta mais a admiração, porque os outros estudavam por Agostinho, para aprender e lograr os tesouros de sua sabedoria, e Agostinho estudava por Agostinho, para aprender os seus erros e os condenar. No capítulo primeiro do Eclesiastes, diz Salomão que foi mais sábio que todos os seus antecessores: Praecessi omnes sapientia, qui fuerunt ante me in Jerusalem[32], e falou muito modestamente, porque do Terceiro Livro dos Reis consta que Salomão não só foi mais sábio que todos os que tinham sido antes, senão que todos os que foram e haviam de ser depois: Dedi tibi cor sapiens, ut nullus ante te similis tui fuerit, nec post te surrecturus sit[33]. E depois de dizer isto, Salomão acrescenta que não só se aplicou a saber as ciências, senão também os erros e as ignorâncias: Dedique cor meum ut scirem prudentiam atque doctrinam, erroresque et stultitiam[34]. Não reparo em que Salomão, tendo as ciências infusas ou infundidas por Deus, se aplicasse ainda a sabê-las, porque isso se há de entender das mesmas ciências, enquanto práticas e experimentais. O que reparo, e parece trabalho escusado e supérfluo, é que um homem tão sábio se aplique a estudar e saber os erros e as ignorâncias: Erroresque et stultitiam. Os erros e as ignorâncias, é certo que são muito mais que as ciências, porque para saber e acertar não há mais que um caminho, e para errar infinitos. Mas esses mesmos caminhos errados e de errar, esses mesmos erros e ignorâncias, para que as estuda e quer saber Salomão? Não lhe bastavam as ciências, e tão consumadas ciências? Não, porque a Salomão fê-lo Deus o maior doutor da Igreja antiga, e não só lhe era necessário saber as ciências, senão também os erros e as ignorâncias: as ciências, para ensinar a saber, os erros, para ensinar a não errar; as ciências, para as provar e estabelecer, os erros, para os refutar e confundir. E isto é o que Salomão faz em todo aquele admirável livro, o qual intitulou Eclesiástico, que quer dizer: O Doutor.

Assim como Deus em Salomão fez um Agostinho da Igreja antiga, assim em Agostinho fez outro Salomão da Igreja nova, e daquele coração, que Agostinho tem na mão, se pode dizer sem encarecimento, depois dos apóstolos: Dedi tibi cor sapiens, ut nullus ante te similis tui fuerit, nec post te surrecturus sit[35]. Ambos estes Salomões, depois de tantos tesouros de profunda sabedoria, estudaram os erros e as ignorâncias, usando das ciências para ensinar a saber, e dos erros e ignorâncias para ensinar a não errar. Mas Salomão estudava os erros e ignorâncias nos livros alheios, para os confundir e emendar nos outros; e Agostinho estudava-os nos livros próprios para os confundir e emendarem si. As ciências dos erros alheios é fácil, se se examinam sem ódio nem interesse; a dos erros próprios é muito difícil, porque sempre os julgamos subornados do próprio amor. Os alheios conhecemo-los com o juízo livre, os próprios com o entendimento cativo; os alheios vemo-los como juízes, os próprios como namorados.

Mais maravilhosa foi logo em Agostinho que em Salomão a ciência que ambos tiveram de erros e ignorâncias, e mais maravilhoso o mesmo Agostinho na luz e conhecimento com que retratou as suas, que nos argumentos invencíveis com que confundiu as alheias. Que ignorâncias, que erros, que heresias houve, não só antes e no tempo de Agostinho, senão ainda nos tempos futuros e nesses nossos, que se não confutem e convençam com a doutrina e livros de Agostinho? Mas o livro de suas Retratações é o que vence e triunfa de todos os mais, posto que sempre vencedores. Nos outros livros, vemos em campo pela fé e pela verdade Agostinho contra Fortunato, Agostinho contra Fausto, Agostinho contra Ario, Agostinho contra Pelágio, Agostinho contra Donato, Agostinho contra Juliano; mas no Livro das Retratações, Agostinho contra Agostinho. Esta foi a mais forte batalha, e esta a maior vitória de Agostinho, porque vencedor e vitorioso de todos, não tendo já a quem vencer, se venceu a si mesmo. Dos quatro animais do carro de Ezequiel, diz o texto sagrado que tendo todos quatro asas, a águia voava sobre todos quatro: Desuper ipsorum quatuor (Ez. 1, 10). Pois, se a águia era um dos quatro, como voava sobre todos quatro? Se dissera que voava sobre os outros três, bem estava; mas sobre todos quatro, sendo um deles? Sim. Porque a águia — como já dissemos — era Agostinho, e Agostinho nos outros seus livros voou sobre os três doutores da Igreja, mas no Livro das suas Retratações, voou sobre todos quatro, porque voou sobre si mesmo.

E se me perguntardes como se enganou Agostinho com os que ele chama erros e ignorâncias, quando os escreveu, e como se desenganou depois, quando os retratou, respondo que se enganou antes, porque as suas ignorâncias eram tais que pareciam ciência, e os seus erros tais que pareciam verdade; e desenganou-se depois, porque a luz com que os tornou a ver era muito maior e mais clara que a luz com que os tinha escrito. Um só lugar da Escritura nos dirá uma e outra coisa. Caso foi notável, e digno de toda a admiração, que na noite das bodas, em que Labão introduziu a Lia em lugar de Raquel, Jacó se enganasse de maneira que cuidasse e se persuadisse que verdadeiramente era Raquel, e não se desenganasse nem conhecesse que era Lia, senão quando amanheceu. Jacó não viu Lia quando a recebeu? Sim. Pois como não conheceu então que era Raquel, assim como o conheceu depois quando amanheceu? Porque de noite viu-a à luz da candeia, de dia viu-a à luz do sol. Lia e Raquel, como eram irmãs, eram muito parecidas uma com a outra, tanto assim que só nos olhos, como nota a Escritura, tinham a diferença, e para distinguir coisas muito parecidas — e mais onde entra amor — se a luz não é muito grande, facilmente se padece engano. O mesmo aconteceu a Agostinho. A verdade, e a semelhança dela, são duas irmãs tão parecidas como Raquel e Lia; por isso o verossímil facilmente parece verdadeiro, e o verdadeiro, se não é verossímil, parece falso. E como as ignorâncias de Agostinho eram tão verossímeis que pareciam ciência, e os erros tão verossímeis que pareciam verdade, não é muito que Agostinho, com menos luz, se enganasse com os seus erros e ignorâncias, e que, depois que chegou ao sumo da luz, então as reconhecesse e retratasse.

X – A magnanimidade do coração de Agostinho e a censura pública. As armas dos varões apostólicos segundo São Paulo. Santo Agostinho, doutor confitente no Livro das Confissões, e doutor revogante no Livro das Retratações. A exortação de Josué ao soldado Acã.

Não é muito, disse, e não disse bem, porque ainda que não foi muito reconhecer Agostinho os erros que ele só descobriu de si para consigo, reconhecer, porém, e retratar aqueles em que era censurado de outros, e não os defender, foi o ponto mais heróico de suas Retratações. No erro secreto em que se não perde a honra, facilmente se sujeita a própria opinião à verdade; mas, no público e censurado, em que a honra se perde, ou ela defende o erro, ou o erro a defende a ela contra a mesma verdade conhecida. O mesmo Santo Agostinho o entendeu e julgou assim em caso não seu. No preceito da correção fraterna manda Cristo que a correção se faça com tal segredo, que fique entre o que repreende e o repreendido somente: Corripe eum inter te et ipsum solum[36]. E por que razão com tanto segredo, que não só não passe a público, mas nem ainda a terceiro? Santo Agostinho: Corripe inter te et ipsum solum, intendens correctioni, parcens pudori: forte enim prae verecundia incipit defendere peccatum suam, et quemvis correctiorem, facit pejorem: Mandar Cristo que a correção se faça com tal segredo, que fique entre o repreendido somente, foi atender na correção à emenda, e no segredo à honra do repreendido, porque, perdida a honra, como seria se o erro se publicasse, em lugar de se conseguir a emenda, se seguiria naturalmente a contumácia, e o repreendido, vendo-se afrontado, tão fora estaria de admitir a correção, que antes se poria em campo para defender o erro. — Isto é o que dita em todos os homens a natureza, e esta foi a maior vitória que dela alcançou Agostinho, como mais que homem. Vendo-se censurado publicamente de seus êmulos, e notados por eles alguns erros em seus escritos, tão longe esteve de tomar as armas contra os censuradores, que em tudo o que tinham razão se pôs da parte deles contra si mesmo, e assim como eles o censuravam, ele se censurou também e se retratou. Se Agostinho neste caso se defendera fortissimamente, não era para mim argumento nem de grande sabedoria, nem de grande entendimento. O animal de Balaão, ofendido, teve língua para responder e razões para impugnar e convencer um profeta. Porém, que ofendido e censurado Agostinho por seus êmulos, lhes ache razão, se ponha da sua parte e se retrate do que tinha escrito, podendo mais com ele o crédito da verdade que o seu, este foi o non plus ultra a que só podia chegar a magnanimidade daquele coração.

Exortando São Paulo a si e a todos os varões apostólicos a que se portem como ministros de Deus: Exhibeamus nosmetipsos sicut Dei ministros[37], — e contando entre as virtudes que devem ter, a verdade, a ciência, e, junto com a ciência, a longanimidade: In scientia, in longanimitate, in verbo veritatis[38], — acrescenta como se hão de haver nas batalhas, com estas palavras: Per arma justitiae ad dextris et a sinistris, per gloriam et ignobilitatem, per infamiam et bonam famam: Haveis de menear — diz — as armas da justiça à mão direita e à esquerda, e tanto haveis de estimar a honra como o descrédito, e a fama como a infâmia (2 Cor. 6, 7 s). — As armas da mão direita e esquerda são a espada e o escudo: o escudo para defender e rebater os golpes do inimigo, a espada para o ofender e ferir. Mas qual é a razão ou mistério com que exorta e ensina São Paulo que esta espada da mão direita e este escudo da esquerda hão de ser armas de justiça: Per arma justitiae a dextris et a sinistris? Bem disse Filo Hebreu que as ações dos patriarcas são os melhores comentários da Escritura. Em nenhum comentador achei este reparo do texto, nem a declaração dele; mas na ação que vou ponderando de Agostinho, sim, e divinamente explicado. A espada e escudo de Agostinho foram as armas mais finas e mais fortes, mas a maior excelência que tiveram foi serem sempre armas de justiça, ainda contra si mesmo. Se os inimigos lhe faziam guerra injusta, de tal sorte se defendia com o escudo, que ninguém o podia penetrar, e com tal força feria e ofendia com a espada, que ninguém a podia resistir. Mas se acaso os mesmos inimigos lhe faziam guerra justa, como no caso em que estamos, era tal a justiça das armas de Agostinho: Per arma justitiae, que não só as abatia e rendia à verdade, mas, passando-se à parte dos contrários, as voltava contra si mesmo, e ele se impugnava, ele se convencia, ele se retratava. E isto é o que fez no livro mais que humano e verdadeiramente miraculoso de suas Retratações.

Quase estou arrependido de ter aplicado ao Livro das Confissões aquele famoso Livro de Jó, com que ele se queria coroar e presentá-lo a Deus, para que por ele o premiasse, porque ao Livro das Retratações de Agostinho, só por esta última circunstância, parece que é devido ser a coroa de todos. Mas a razão e palavras de São Paulo, igualmente se verificam em um e outro livro. Concluamos, pois, que Agostinho, sobre a láurea de Doutor da Igreja, teve duas coroas, ambas primeiras, uma de doutor confitente, pelo Livro de suas Confissões, em que dos seus pecados fez exemplos, e outra de doutor revogante, pelo Livro das suas Retratações, em que dos seus erros fez doutrina.

A razão e palavras de São Paulo, que ainda não ponderamos, são aquelas: Per gloriam et ignobilitatem, per infamiam et bonam famam. Quer o Apóstolo que os ministros de Cristo procurem a glória de seu Senhor, sem respeito nem atenção à sua própria, ou seja com honra, ou com descrédito, ou seja com fama, ou com infâmia. E em ser de um modo ou de outro, não só há grande diferença, mas grande excesso de perfeição. Procurar a glória e honra de Deus, quando a sua glória e honra se ajunta com a nossa: Per gloriam et bonam famam, é coisa muito fácil; porém, procurar a glória de Deus quando a sua glória se ajunta com o nosso descrédito: Per ignobilitatem, e procurar a honra de Deus, quando a sua honra se ajunta com a nossa afronta: Per infamiam, aqui está o ponto da dificuldade invencível às forças da natureza, e aqui se apuraram as duas façanhas, ambas prodigiosas, com que Agostinho em um e outro seu livro amplificou gloriosamente o Evangelho de Cristo. O que Cristo manda no Evangelho, como vimos, é que os prelados da sua Igreja alumiem com luz de doutrina, e resplandeçam com exemplo de boas obras: Sic luceat lux vestra coram hominibus, ut videant opera vestra bona; e posto que o mesmo Senhor juntamente ensina que o fim da doutrina e do exemplo há de ser a glória de Deus e não a própria: Ut glorificent Patrem vestrum qui in caelis est, essas duas operações são de si mesmas tão luzidas e gloriosas, que, ainda que sejam feitas só pela glória de Deus, sempre vai junta com elas a glória humana. Nos pecados e nos erros é o contrário, porque os pecados, posto que publicados para exemplo, sempre afrontam, e os erros, posto que confessados para doutrina, sempre desacreditam. E comprar a glória e honra de Deus à custa da própria afronta e do próprio descrédito: Per ignobilitatem et infamiam, só o inventou o entendimento de Agostinho, e só o coração de Agostinho teve valor para o executar.

Se ele não pudera conquistar a glória de Deus senão por dois meios tão encontrados com a própria, ainda era muito heróica fineza; mas o que mais a afina e sobe do ponto é que, tendo justíssimas razões Agostinho, como prelado, para encobrir os pecados, e, como doutor, para dissimular os erros, quis antes publicar uns e outros com tão custosa resolução, só para assim e de todos os modos amplificar mais a mesma glória de Deus. Convencido diante de Josué um soldado nobre, chamado Acã, de que tinha escondido uma capa de grã e uma língua de ouro nos despojos de Jericó, consagrados todos a Deus, e exortando-o o mesmo Josué a que confessasse o grande erro e culpa que tinha cometido, disse-lhe assim: Fili mi, da gloriam Domino, et confitere (Jos. 7, 19): filho meu, dá glória a Deus, e confessa. — Não só lhe disse que confessasse, senão que desse glória a Deus, porque entre os atos de virtude e valor que um homem pode fazer, nenhum há por sua natural dificuldade que tanto glorifique a Deus como a confissão dos próprios erros e pecados, e mais se é pública, com esta era. A Agostinho disse-lhe Cristo: Da gloriam Domino; mas não lhe disse: Confitere. Disse-lhe que desse glória a Deus: Ut glorificent Patrem vestrum qui in caelis est, mas não lhe disse que confessasse publicamente seus erros e seus pecados, senão, pelo contrário, que publicamente resplandecesse com luz de doutrina e boas obras: Sic luceat lux vestra coram hominibus, ut videant opera vestra bona. E tendo Agostinho este dobrado motivo, enquanto prelado, para não confessar pecados, e, enquanto doutor, para não confessar erros, quis contudo confessar publicamente uns e outros, para com uns e outros dar dobrada glória a Deus: Da gloriam Domino, et confitere. Considero eu a Agostinho neste caso com os mesmos despojos do soldado de Josué, capa de grã e língua de ouro: tinha muito boa capa, e de muito boa cor, para cobrir com ela seus pecados, considerando que era prelado; e tinha muito boa língua, e de muito bom metal, para dourar com ela seus erros, considerando que era doutor; mas, enquanto prelado, não só quis dar exemplo com suas virtudes, senão também com seus pecados, confessando-os; e, enquanto doutor, não só quis dar doutrina com a sua ciência, senão também com os seus erros e ignorâncias, retratando-as, para de todos os modos amplificar mais e mais a glória de Deus: Ut glorificent Patrem vestrum qui in caelis est.

XI – Em ambos os livros se mostrou grande Agostinho, mas em qual maior? A oração de Davi e a diferença entre ignorâncias e pecados. A murmuração do fariseu contra Cristo e o conceito de virtude e de ciência que dele tinha. Enquanto santo muito mais fez Agostinho publicando suas Confissões, mas enquanto homem muito mais fez publicando suas ignorâncias. A tentação do primeiro homem e o atributo da sabedoria divina. A injúria do pecado e a injúria da ignorância no Testamento Novo.

Temos desfeita, se me não engano, a implicação de Agostinho com o Evangelho, e mostrado o mesmo Evangelho alta e grandiosamente amplificado por Agostinho, assim no Livro de suas Confissões, como no de suas Retratações. Resta só, para complemento da matéria, combinar um livro com outro, e, postos ambos em balança, ver qual pesa mais. Em ambos se mostrou grande Agostinho; mas em qual maior? Respondo que maior em ambos, diversamente considerado. Considerado Agostinho como santo, é maior no livro de suas Confissões, porque publicou nele seus pecados; e considerado o mesmo Agostinho como homem, é maior no Livro de suas Retratações, porque publicou nele suas ignorâncias.

Pedindo Davi perdão a Deus dos pecados de sua mocidade — quais foram também os de Agostinho — compôs a sua oração nesta forma: Delicta juventutis meae, et ignorantias meas ne memineris Domine (Sl. 24, 7): esquecei-vos, Senhor, dos meus pecados, e não vos lembreis de minhas ignorâncias. — Estas que no segundo lugar chama Davi ignorâncias são as mesmas que no primeiro chama pecados. E a razão de chamar ignorâncias aos pecados, é porque queria livrar e desculpar os pecados com o nome de ignorâncias; mas parece que não havia de ser, nem dizer assim. As ignorâncias são defeitos do entendimento, os pecados defeitos da vontade, e havendo de desculpar um defeito com outro defeito, parece que o havia de carregar antes sobre a potência menos nobre, que é a vontade, e não sobre a mais nobre, que é o entendimento. Assim o havia de fazer Davi, se falara e entendera como homem; mas falava e entendia como santo. Os santos, como conhecem a graveza e malícia do pecado, e quanto mais feios são os defeitos da vontade que os do entendimento, mais se pejam de ser maus que de ser mal-entendidos, e antes querem parecer ignorantes que pecadores. Por isso Davi, como santo, confessando os pecados por delitos, alega as ignorâncias por desculpas: Delicta juventutis meae, et ignorantias meas.

A razão desta diferença é porque a ignorância opõe-se à ciência, e o pecado à virtude, e quem é verdadeiramente santo, muito mais estima a virtude, do que se preza da ciência. Veio a Madalena buscar a Cristo, em casa do fariseu, e para demonstração de quão trocado estava o seu amor, quebrou o alabastro, derramou os ungüentos, beijou os pés ao Senhor, regou-os com lágrimas e enxugou-os com seus cabelos. Estranhando, porém, o fariseu que Cristo admitisse semelhantes obséquios de uma tal mulher, disse assim consigo: Hic, si esset propheta, sciret quae et qualis est mulier quae tangit eum (Lc. 7, 39): Este, se fosse profeta, havia de saber quem e qual é a mulher, cujas mãos, cujos olhos, cuja boca e cabelos consente que lhe toquem os pés. — Supostos os obséquios da Madalena, a permissão de Cristo e a malícia do fariseu, parece que mais à mão estava duvidar ele da virtude do Senhor que da sua ciência; pois, por que lhe duvida a ciência e não a virtude: Hic, si esset propheta, sciret? Porque desta vez os pensamentos do murmurador estavam no arbítrio do murmurado. O mesmo Cristo, que admitiu os obséquios da Madalena, permitiu os pensamentos do fariseu. Mas permitiu-lhe que julgasse mal de sua sabedoria, e não que tivesse mau conceito de sua virtude. Da minha sabedoria cuide o fariseu o que quiser, e diga embora que há em mim ignorância: Si esset propheta, sciret; mas, duvidar da minha virtude e da minha pureza, e cuidar ele, ou alguém, que em mim há ou pode haver pecado, isso não o permite o Santo dos Santos. E como é próprio da santidade estimar mais o conceito da virtude que o da ciência, e sofrer antes contra si a opinião da ignorância que a do pecado, muito mais fez Agostinho enquanto santo no Livro de suas Confissões em publicar seus pecados, que no Livro de suas Retratações em confessar suas ignorâncias.

Enquanto homem, não foi assim. Muito mais fez Agostinho enquanto homem na confissão de suas ignorâncias, que na publicação de seus pecados. Pecou o primeiro homem, porque quis ser como Deus, e é muito de reparar, que, sendo os atributos de Deus tantos e tão excelentes, entre todos escolhesse o demônio, para tentar o homem, o atributo da sabedoria: Eritis sicut dii, scientes bonum et malum[39]. Eu bem sei que tem Deus muitos atributos que não são acomodados para fazer tentação. Deus é infinita bondade, e ninguém se tenta de ser bom; Deus é eterno, e os homens de nada tratam menos que da eternidade; Deus é invisível, e o que todos apetecem é aparecer e ser vistos. Contudo, outros atributos tem Deus que podiam fazer grande tentação ao homem. Todo o homem deseja ser, deseja ter, deseja poder. Se deseja ser, por que o não tentou o demônio com o atributo da imensidade e grandeza? Se deseja ter, por que o não tentou com o domínio e senhorio universal de todas as coisas? Se deseja poder, por que o não tentou com a onipotência? Mas que, deixados todos esses atributos, só com o da sabedoria tentasse o demônio ao homem? Sim, porque o demônio, como discreto, armou a tentação ao homem, conforme o conhecimento que tinha de sua natureza, e para onde o viu mais inclinado, para ali entendeu que cairia. Fez o demônio este argumento: o homem, não o hei de render eu, senão o seu desejo, e desejo mais natural ao homem é o de saber; logo se lhe prometo sabedoria, rendido o tenho, e assim foi. Porém, o homem, naquele estado, é certo que tinha ciência infusa; pois se tinha tanta ciência, como pecou e se tentou por saber? Porque, ainda que tinha muita ciência, não tinha toda, e esta é a que o demônio lhe prometeu: Eritis sicut dii, scientes bonum et malum: Tereis a ciência de tudo, como Deus. E como o homem, com a ciência que tinha, ignorava tudo o mais que Deus sabe, antes quis cometer o pecado que padecer esta ignorância. Não teve paciência nem confiança Adão para saber menos, e por isso quis antes saber mais com pecado, que saber menos sem pecado.

Já aqui ficava bem provado o que queremos dizer de Agostinho, mas ainda temos outro lugar do Testamento Novo, menos sabido, e pode ser que não ponderado, com que mais se encarece esta verdade. Condena Cristo as injúrias com que os homens se afrontam de palavra, assinalando também o castigo que cada uma merece, e como soberano legislador manda assim: Qui dixerit fratri suo raca, reus erit concilio; qui autem dixerit fatue, reus erit gehennae ignis (Mt. 5, 22): O homem que chamar a outro raca, tenha pena arbitrária; porém o que lhe chamar fatue, seja queimado em uma fornalha. — A palavra fatue todos sabem que significa néscio e ignorante; a outra, que é arábica, quer dizer ímpio, ou mais propriamente, blasfemo. Quem haverá pois que não julgue, ou ao menos lhe não venha ao pensamento, que nestes dois casos tão diversos se não mede bem a pena com a culpa? O ser néscio e ignorante é um defeito natural; o ser ímpio e blasfemo é pecado gravíssimo. Como logo se dá pena arbitrária ao que chama ímpio, e ao que chama ignorante pena de fogo? Porque, ainda que o ser ímpio, para com Deus é maior pecado, o ser ignorante, para com os homens é maior injúria. A injúria ou contumélia mede-se neste caso pelo sentimento e afronta que o homem recebe, e nenhum há que não sinta e se afronte mais de ser motejado de ignorante que de ser notado de mau. E como este é o comum conceito e estimação dos homens, ter por menor injúria o pecado que a ignorância, muito mais fez Agostinho enquanto homem no livro de suas Retratações, em confessar suas ignorâncias, que no livro de suas Confissões, em publicar seus pecados.

XII – Os julgadores que seguem a seita de Pilatos, e reputam por descrédito o retratar-se. O retratar-se não é argumento de não saber. O exemplo de Moisés, reconhecendo o ditame de Jetro. A disputa entre São Pedro e São Paulo. S. Pedro, no Mar de Tiberíades, nadando foi buscar a verdade onde a não tinha visto. Santo Agostinho, retratando-se, sucede a Lúcifer no céu.

Tenho acabado o meu discurso, e, já que não pude louvar como devera a meu Santo Agostinho — a quem tenho tomado diante de Deus por muito particular patrono — ao menos o não quisera desagradar e não fechar o sermão com um ponto da sua doutrina. Aos que fazem o que fez enquanto santo, não é necessário; aos que não fazem o que fez enquanto homem, sim, e não será pouco útil aos vizinhos do bairro.

Quantos julgadores há, que, ou no voto, ou na tenção, ou na sentença reputam por descrédito o retratar-se, e, seguindo o ditame ou seita de Pilatos, têm por timbre o dizer: Quod scripsi, scripsi. E também pode ser que haja algum, o qual, sem reparar em que se condena não se retratando, ou pela inveja de que outro votou melhor, ou pela soberba de não confessar que errou, não tema acompanhar a Lúcifer no castigo, como o imita na contumácia. O retratar-se não é argumento de não saber mas de saber, que muitas vezes pode acertar o menos douto no que o mais letrado não advertiu. Que comparação tinha na ciência Jetro com Moisés? E, contudo, conheceu Moisés que o ditame de Jetro era mais acertado, e logo retratou o seu e seguiu o alheio. Por isso disse dele Filo Hebreu — o que igualmente se pode dizer de Santo Agostinho: Intactus a contentionibus, veritatem quaerebat: quippe qui nihil praeter eam admittebat, longe aliter quam isti, qui accepta semel qualiacumque dogmata obstinante defendunt. Não era Moisés — nem Agostinho — como aqueles que defendem obstinadamente o que uma vez disseram, só porque o disseram; mas porque só buscavam e amavam a verdade, em qualquer parte que a achavam, e de qualquer boca que a ouviam, a seguiam e abraçavam sem contenda nem controvérsia.

Nenhum homem houve tão amigo de sustentar o crédito do que tinha dito, como São Pedro. Aconselhou a Cristo que não morresse, dependendo da mesma morte a salvação do mundo: Absit a te, Domine, non erit tibi hoc[40]. E por quê? Porque tinha dito que Cristo era Filho de Deus, e quem visse morrer a Cristo podia cuidar que Pedro se enganara no que dissera. Assim o notou e afirma não menos que São Jerônimo: Petrus sic loquitur, quia non vult perire confessionem suam, qua dixerat: Tu es Christus, Filius Dei vivi. E este mesmo homem, que não reparou na salvação do gênero humano, só porque se não desacreditasse o que tinha dito, vede quão facilmente se retratava depois que foi consumado na sabedoria. Naquela grave questão que se disputou e decidiu no primeiro Concilio da Igreja, sobre os ritos cerimoniais da lei velha, tinha sido de parecer São Pedro que quando não obrigava a nova, por não estar suficientemente promulgada, se deviam dissimular os mesmos ritos com os gentios, por não escandalizar os judeus, uns e outros novamente convertidos. Porém, como São Paulo provasse eficazmente que se devia proceder doutro modo, que resolução tomou São Pedro? Sem embargo de ter praticado em Galácia e outras partes a opinião que tivera, como doutor particular, se retratou logo dela, e como Sumo Pontífice definiu no mesmo Concilio a verdade contrária. Tanto pôde com aquela grande cabeça a força da razão, posto que Paulo fosse o mais moderno dos apóstolos, e não discípulo da escola de Cristo neste mundo, como ele e os demais.

Isto fez São Pedro depois de descer sobre ele o Espírito Santo, mas já antes disso, em uma excelente alegoria, nos tinha ensinado com o seu exemplo a mesma docilidade. Andava pescando São Pedro com os outros discípulos no Mar de Tiberíades, quando o divino Mestre ressuscitado lhes apareceu na praia. E ainda que todos o viram, e o Senhor falou a todos, só São João o conheceu. Isto que sucedeu a Cristo, que é a Suma Verdade, sucede a qualquer outra verdade quando não é manifesta. Uns a vêem, outros a não vêem, posto que de ordinário — como aqui — a vê e conhece melhor quem mais a ama. E que se deve fazer em semelhantes casos? O que fez São Pedro. Disse-lhe São João que era o Senhor: Dominus est (Jo. 21, 7); e ele, reconhecendo que dizia bem, se lançou, logo a nado, para se ir deitar a seus pés. Assim deve fazer quem busca a verdade. Se não foi eu, senão outro o que a descobriu, nem por isso a hei de duvidar, ou negar, ou impugnar; mas, em qualquer parte que esteja, e por quem quer que fosse vista, hei de nadar logo a ela. E digo nadar, como fez S. Pedro, porque esta é a metáfora com que melhor se declara o seguir e abraçar a sentença ou parecer de outro. Os antigos, para significar este ato — que muitas vezes é heróico — diziam: In alterius sentenciam pedibus ire, ou: Obviis ulnis eam amplecti. E isto é o que fez São Pedro, o qual, nadando com os pés e com os braços, foi buscar a verdade onde a não tinha visto, porque a vira João, posto que mais moço. Não há ciência tão jubilada que não possa deixar de ver o que vê outra de menos anos e de menor autoridade, qual era a de João em respeito de Pedro. O verdadeiro saber é de saber reconhecer a verdade, ainda que seja filha de outros olhos ou de outro entendimento, e não se cegar com o próprio, como se cegou Lúcifer.

Oh! se Lúcifer seguira a sentença dos anjos, que ele tinha por inferiores, e se soubera retratar do que tinha dito, que qualificada ficaria a sua sabedoria! Mas onde a quis sustentar, e se namorou demasiadamente dela, ali a perdeu: Perdidisti sapientiam tuam in decore tuo[41]. Não é pequena prova da obstinação de Lúcifer, que depois do Livro das Retratações de Santo Agostinho se não arrependesse com tal exemplo, e se não retratasse. Daqui infiro eu por remate ou coroa de quanto tenho dito, que no mesmo lugar de Lúcifer, que ele perdeu no céu, por se não retratar, sucedeu Santo Agostinho, porque se retratou. A lei ou texto em que me fundo é aquela promessa que Deus fez aos filhos de Israel, quando houveram de entrar na Terra de Promissão: Omnem locum quem calcaverit vestigium pedis vestri, vobis tradam (Jos. 1, 3): Todo o lugar que pisardes na Terra de Promissão será vosso. — A Terra de Promissão era figura do céu, e desta promessa de Deus infere Orígenes que quem pisa a soberba de Lúcifer, esse terá no céu o seu lugar: Lucifer sedem habebat in caelis; postea vero quam factus est angelus refuga, si eum vincere potero, et subjicere pedibus meis, consequenter locum Luciferi merebor in caelis. E se é conseqüência fundada na promessa divina, que a cadeira de Lúcifer, perdida por soberba de sabedoria obstinada, só a alcançará aquele que meter debaixo dos pés a mesma soberba pela humildade, a mesma obstinação pelo arrependimento, e a mesma sabedoria errada pela retratação dela, a quem se deve, ou seja por votos, ou por aclamação, a cadeira de Lúcifer, senão a Agostinho? Assim resplandece entre os anjos quem assim alumiou os homens: sic luceat lux vestra coram hominibus; assim exaltam as boas obras a quem soube confessar e retratar as que não eram boas: Ut videant opera vestra bona; e assim glorifica Deus no céu a quem tanto o glorificou e fez glorificar na terra: Ut glorificet Patrem vestrum qui in caelis est.

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[1] Assim luza a vossa luz diante dos homens, para que eles vejam as vossas boas obras, e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus (Mt. 5, 16).
[2] O que os guardar e ensinar a guardá-los (Mt. 5, 19).
[3] Nem os que acendem uma luzerna a metem debaixo do alqueire, mas põem-na sobre o candeeiro, a fim de que ela dê luz a todos os que estão na casa (Mt. 5, 15).
[4] Para que eles vejam as vossas boas obras (Mt. 5, 16).
[5] E glorifiquem a vosso Pai que está nos céus (Mt. 5, 16).
[6] Índice das coisas mais notáveis.
[7] Fazendo-se semelhante aos homens, e sendo reconhecido na condição como homem (Flp. 2, 7).
[8] Foi conveniente que ele se fizesse em tudo semelhante a seus irmãos (Hbr. 2, 17).
[9] Para que habite em mim a virtude de Cristo (2 Cor. 12, 9).
[10] Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração (Mt 11, 29).
[11] Um dia diz uma palavra a outro dia, e uma noite mostra sabedoria a outra noite (Sl. 18, 3).
[12] Noites e dias bendizei o Senhor, luz e trevas bendizei o Senhor (Dan. 3, 71 s).
[13] Nem os que acendem uma luzerna a metem debaixo do alqueire, mas põem-na sobre o candeeiro, a fim de que ela dê luz a todos os que estão na casa (Mt 5, 15).
[14] Petr. Dam. Serm. de Epiph.
[15] E as trevas cobriam a face do abismo (Gên. 1, 2).
[16] As trevas da noite são como a luz do dia (Sl. 138, 12).
[17] Se encobri como homem o meu pecado (Sl. 31, 33).
[18] Tertul. adversas Gent.
[19] Apaga a minha maldade (Sl. 50, 3).
[20] Quem me dera que tu me encobrisses no sepulcro e me escondesses nele até ter passado o teu furor (Jó 14,13)!
[21] Contaste todos os meus passos, e selaste como em um saco os meus delitos (Jó 14, 16 s).
[22] Serei semelhante ao Altíssimo (Is. 14, 14).
[23] Eu te pus sobre o monte santo de Deus; e te exterminei, ó querubim, e te lancei por terra (Ez. 28, 14. 16s).
[24] As muitas letras te tiram de teu sentimento (Ac. 26, 24).
— A Vulgata traz Festo e não Félix.
[25] Há outros castrados que a si mesmos se castraram por amor do reino dos céus (Mt. 19, 12).
[26] Tu, se livras a este, não és amigo do César, porque todo o que se faz rei contradiz ao César (Jo. 19, 12).
[27] Pai, já não sou digno de ser chamado teu filho (Lc. 15, 21).
[28] Tirai depressa o seu primeiro vestido (Lc. 15, 22).
[29] Salvai-me com vida o moço Absalão (2 Rs. 18, 5).
[30] Já que fizeste esta ação e não perdoaste a teu filho único por amor de mim (Gên. 22, 16).
[31] O que ainda a seu próprio Filho não perdoou, mas por nós todos o entregou (Rom. 8, 32).
[32] Excedi em sabedoria a todos os que antes de mim houve em Jerusalém (Ecl. 1, 16).
[33] E te dei um coração tão cheio de sabedoria, que nenhum antes de ti te foi semelhante, nem se levantará tal depois de ti (3 Rs. 3, 12).
[34] E apliquei o meu coração a saber a prudência e a doutrina, e os erros e a estultícia (Ecl. 1, 17).
[35] Ver nota 33.
[36] Corrige-o entre ti e ele só (Mt. 18, 15).
[37] Portemo-nos em nossas mesmas pessoas como ministros de Deus (2 Cor. 6, 4).
[38] Na ciência, na longanimidade, na palavra da verdade (2 Cor. 6, 6 s).
[39] Sereis como uns deuses, conhecendo o bem e o mal. (Gên. 3, 5).
[40] Deus tal não permita, Senhor; não sucederá isto contigo (Mt. 16, 22).
[41] Tu perdeste a tua sabedoria na tua formosura (Ez. 28,17).

Fonte: https://www.literaturabrasileira.ufsc.br/documentos/?action=download&id=49856