Sermão de São Roque (1644)

SERMÃO DE SÃO ROQUE

Panegírico e apologético, no aniversário do nascimento do Príncipe D. Afonso, na Capela Real, ano de 1644.


Sint lumbi vestri praecincti, et lucernae ardentes in manibus vestris[1].

I – O dia de S. Roque e o nascimento do príncipe D. Afonso.

Fora de seu dia S. Roque! E não em outro dia senão hoje! — Mui altos e poderosos reis e senhores nossos. — Tomo a admirar-me. Fora de seu dia S. Roque! E não em outro dia senão hoje! Grandes suspeitas me dá este santo que vem ajudar-nos a celebrar a nossa festa, mais que desejoso de celebrarmos a sua. Um ano faz neste dia e nesta hora, pouco menos, que em cumprimento da expectação, em desassombro do temor, em satisfação do desejo, em alvoroço dos corações, em aplausos de Lisboa, em glória de Portugal, e em alegria de todos, amanheceu à luz comum, e nasceu ao mundo o sexto planeta do nosso hemisfério, a quarta estrela dos nossos dois sois, o primeiro fruto da geração atenuada, restituída, o desempenho profetizado dos olhos de Deus, a união dos dois primeiros Afonsos de Portugal e Bragança, o perfeitíssimo retrato dos soberanos originais, que no-lo deram; enfim o nosso belo infante D. Afonso, que Deus nos crie, que Deus nos guarde, e que Deus nos faça o quarto, como hoje é o último.

Não sou de fazer mistérios dos acasos, mas folgo de fazer doutrina da ocasião. E já que S. Roque veio a cair neste dia tão particular, em que Deus desempenhou suas promessas, e lançou novas raízes a seus benefícios, quisera eu que S. Roque hoje nos ensinara a os conservar. Roques a reis, peças são que se ajudam. A este intento procurarei encaminhar todo o sermão. O Evangelho nos dará documentos, o santo nos dará exemplos, queira Deus que não resistam aos ouvidos os corações.

II – Por que manda Cristo a seus discípulos que estejam com as roupas tomadas no cinto, e as tochas acesas nas mãos? Razões por que cuidam os portugueses que se acabaram as luzes de Portugal. Por que fundou Deus a lei escrita em dois irmãos, e a lei da graça em quatro? As duas irmandades, masculina e feminina, sobre que se funda o Reino de Portugal. Os príncipes de Portugal e a liberalidade com que reparou Deus a esterilidade de Ana. Se a Escritura Sagrada, no vulgar latino, diz que visitou Deus a Ana, e pariu três filhos e duas filhas, que são cinco, como diz Ana em seu cântico que pariu sete? Isac, filho gêmeo de Sara, e o nascimento de D. Afonso. Qual foi o termo com que Deus declarou que restauraria Portugal? A esterilidade de Castela e a fecundidade de Portugal.

Sint lumbi vestri praecincti, et lucernae ardentes in manibus vestris (Lc. 12, 35).

Manda Cristo a seus discípulos que estejam com as roupas tomadas no cinto, e com tochas acesas nas mãos bem assim como os criados vigilantes, que esperam por seu senhor no dia das bodas. Este exemplo me faz dificultosa esta doutrina. Se o Esposo há de vir, e não vem ainda, para que hão de estar todas as tochas acesas? Que esteja acesa uma, para que com ela se acendam as outras, parece-me muito bem. Mas acesas todas: Lucernae ardentes in manibus vestris? — O que Cristo, Senhor nosso, pretendia, como se vê de todo o Evangelho, era vigilância e luz: para a vigilância bastava um criado, para a luz bastava uma tocha. Provo com o exemplo da milícia, porque nos olhos de uma sentinela vigia todo o exército, e na brasa de um murrão, estão acesas todas as armas. Pois, se parece que bastava uma só tocha, para que manda Cristo acender tantas? Manda Cristo acender muitas tochas, por que quer segurar as luzes. Uma só luz basta para acender, mas uma só luz não basta para assegurar; por isso manda Cristo que estejam muitas tochas acesas, para em cada uma deixar o remédio, e em todas juntas assegurar o perigo. Luz que se pode apagar com um assopro, não está segura sem fiador; pois, multipliquem-se as luzes, diz Cristo, para que umas sejam fiadoras das outras: na primeira luz nos deu o remédio, nas outras luzes nos tirou o cuidado.

Por que cuidamos, portugueses, que se acabaram as luzes de Portugal? Que causa cuidamos que houve para padecermos aquela noite eterna de sessenta anos tão cumpridos? A causa foi porque, como Deus queria eclipsar as glórias de Portugal, permitiu que ficasse a luz pendente de uma só tocha: um rei, D. Sebastião, outro rei, D. Henrique, ambos sem sucessão, ambos sem herdeiros. Porém hoje, quando Deus foi servido de nos restaurar e restituir, engrossa a linha da geração atenuada com dobrados sucessores, assegura o lume das tochas com multiplicadas luzes, para que assim como se interrompeu o cetro de Portugal por dois reis sem sucessor, se perpetue em durações eternas por um rei já com dois sucessores. Dois sucessores temos, e quatro herdeiros. Ditoso o dia, e ditoso o nascimento, em que se cerrou e aperfeiçoou este bem estreado número.

Notou S. João Crisóstomo que a lei escrita foi fundada em dois irmãos, e a lei da graça em quatro: Primum populum aedificavit super unam fraternitatem, hunc autem super duas. — Os dois irmãos, em que se fundou a lei escrita, foi Moisés e Arão; os quatro irmãos, em que se fundou a Lei da graça, foram S. Pedro e Santo André, S. João e São Tiago, Pois saibamos: por que fundou Deus a lei escrita em dois, e a lei da graça em quatro? Que se fundasse uma e outra em irmandade, com grande providência está feito, porque os fundamentos da união são os mais sólidos alicerces do edifício espiritual ou político. Mas por que a primeira lei em dois irmãos, e a segunda em quatro? A razão foi porque quis lançar os fundamentos a cada lei conforme a duração que lhe determinava dar. A lei escrita, que finalmente se havia de acabar, fundou-a em dois irmãos; a lei da graça, que havia de ser eterna, e durar sem fim, fundou-a em quatro. Império fundado em dois irmãos dura muito, mas poderá ter fim; porém, império fundado em quatro irmãos, assentado sobre quatro colunas, alumiado com quatro tochas, será perpétuo, será perdurável, igualará a duração com a do mundo, medirá os anos com as eternidades: Hunc autem super duas fraternitates.

Mas noto eu nas palavras de S. Crisóstomo, que aos fundamentos da lei perpétua da graça não lhes chamou quatro irmãos, senão irmandades: Super duas fraternitates. — Tais são os fundamentos do nosso reino. Está firmíssimo Portugal, não só porque está fundado em dois irmãos, senão porque está fundado em duas irmandades: uma irmandade masculina do nosso príncipe e do nosso Infante, outra irmandade feminina das nossas infantas, que Deus nos guarde. De maneira que não só consiste a nossa firmeza na multiplicação do número, senão na repartição do sexo; não só em serem quatro irmãos, senão em serem duas irmandades, uma de irmãos, outra de irmãs: Super duas fraternitates.

Triste e desconsolada Ana por se ver estéril, e muito mais desconsolada e triste por se ver afrontada de Fenena, mulheres ambas do príncipe Helcana, e fecunda Fenena, e mãe de muitos filhos, diz a História Sagrada que foi ao Templo, e com muitas lágrimas fez oração e voto a Deus desta maneira: Domine, si respiciens videris afflictionem famulae tuae, dederisque servae tuae sexum virilem: dabo eum Domino omnibus diebus vitae ejus (1 Rs. 1. 11): Se puserdes, Senhor, os olhos na minha aflição e dor, e derdes à vossa serva um filho varão, eu prometo de o dedicar a este mesmo templo, para que nele vos sirva todos os dias de sua vida. — Assim orou Ana, e foi ouvida de Deus muito mais que assim, porque, depois de lhe dar por filho ao profeta Samuel, lhe deu mais outros dois filhos e duas filhas. De todos diz juntamente o texto: Visitavit ergo Dominus Annam, et concepit, et peperit tres filios et duas filias[2]. — Não admiro neste famoso caso a liberalidade de Deus, que sempre é mais largo em dar do que nós em pedir; é, porém, muito digno de reparo que, dando cinco filhos a Ana, quando lhe pediu um só, e esse varão, não fossem só varões e filhos os que lhe deu de mais, senão filhos e filhas, e em número igual de um e outro sexo: os filhos dois, e as filhas duas, que vêm a ser, como S. João Crisóstomo ponderava, não só quatro irmãos, senão duas irmandades, e uma de irmãos outra de irmãs, como nós particularmente notávamos na presente diferença dá sucessão dos novos príncipes. De sorte que não consiste a nossa firmeza só na multiplicação do número, senão também na repartição do sexo. Isto é, não só em serem quatro irmãos e duas irmandades, senão uma de filhos, outra de filhas. E por quê? Porque os reinos e os impérios conservam-se e sustentam-se em duas raízes: das portas adentro, na sucessão dos reis naturais; das portas afora, com a confederação dos reis estrangeiros. E por isso nos acabou Deus de dar, em tal dia como hoje, tantos filhos como filhas: os filhos, para que não faltassem reis ao reino próprio; e as filhas, para que possamos dar rainhas aos estranhos.

O mesmo S. Crisóstomo, que nos quatro apóstolos notou as duas irmandades, nos quatro filhos, que depois de Samuel acrescentou Deus a Ana, nota ser uma irmandade de filhos outra de filhas, dizendo que nesta segunda lhe dera Deus, para última satisfação do gosto e do desejo, todo o lucro e aumento que da sucessão dos filhos pode ter uma venturosa família: Ex utroque sexu lucrum illius cumulavit, ut illi jam plenum ac perfectum contigerit gaudium, — Mas porque o santo não individuou qual fosse ou haja de ser esse lucro, eu o direi e provarei com admirável propriedade do mesmo texto, e é que a segunda irmandade das duas filhas, por benefício e extensão dos casamentos, acrescentaram outros tantos filhos à mesma geração. Assim o disse a mesma Ana, no cântico da ação de graças que deu a Deus, pela mercê que de sua liberal mão tinha recebido, declarando expressamente na língua original hebréia, ou caldaica, em que falava, que ela, sendo estéril, parira sete filhos: Donec sterilis peperit septem[3]. — Pois, se a mesma Escritura Sagrada, no vulgar latino, diz: Visitavit Dominus Annam, et concepit, et peperit tres filios et duas filias (1 Rs. 2, 21): que visitou Deus a Ana, e pariu três filhos e duas filhas, que são cinco por todos, como agora diz que pariu sete? Aqui está a propriedade e maravilha que eu dizia. Porque, como a segunda e última irmandade foi de filhas, casando estas em família estranha, acrescentavam cada uma delas um filho à sua própria, e ambas dois, com que vinham a fazer o número de sete: Donec sterilis peperit septem. — Desta maneira descreve Isaías o aumento e propagação de Jerusalém, dizendo: Filii tui de longe venient, et filiae tuae de latere surgent[4]: que as filhas, nascendo a seu lado como próprias, lhe trariam de longe, pelo vínculo da sucessão, outros tantos filhos; e se ela fosse de príncipes, como a de que fala Isaías, e a nossa, outros tantos reis.

Vede agora se está bem fundado Portugal nestas duas irmandades. Vede se está bem seguro nestas quatro luzes, e se deve festejar muito este dia, em que nos amanheceu a quarta. Quero-me apaixonar por este dia. Digo que o dia de hoje é o mais alegre que nunca teve Portugal, mais ainda que o dia felicíssimo da aclamação. Razão: porque então deu-nos Deus o reino, hoje mostrou que ele no-lo dera; então cumpriram-se as profecias, hoje provou-se que foi verdadeiro o cumprimento delas.

Quando ao patriarca Abraão lhe nasceu Isac de sua mulher Sara, diz S. Basílio de Selêucia que foi gêmeo este parto. Gêmeo? Pois, como assim? Leiam-se as Escrituras, e achar-se-á que deste parto de Sara não nasceu mais que Isac. Pois, se só Isac nasceu, como foi o parto gêmeo? Foi gêmeo, diz S. Basílio, porque deste parto de Sara estéril, se bem se nota, nasceram dois filhos: nasceu Isac, e mais nasceu a fé das promessas, que Deus tinha feito a Abraão: Sara sterilis in partu suo fidem divinae promissionis peperit[5]. — Tinha Deus prometido a Abraão que lhe daria um filho, e que em sua geração seria temido o mundo; e como Isac foi este filho prometido, por isso veio a ser e poder-se chamar gêmeo o parto de Isac, porque nasceu dele juntamente o filho das esperanças, e mais a fé das promessas: In parto suo fidem divinae promissionis peperit. — O mesmo passa no nascimento do nosso infante D. Afonso. Nasceu hoje à geração real portuguesa esterilizada o primeiro filho, e nasceu juntamente com ele a fé das promessas divinas feitas ao primeiro rei. Estava estéril, pelos pecados de Portugal, a geração de seus reis, como outra Sara; mas, como Deus tinha prometido que nessa geração esterilizada e atenuada poria seus olhos, quando a geração real portuguesa outra vez se vê fecunda, não há dúvida que com o primeiro fruto desta fecundidade nos nasceu juntamente a fé daquelas promessas: In partu suo fidem peperit. — Neste nascimento acabou o sinal do castigo. Com este nascimento nasceu a fé do remédio. Porque, assim como foi sinal evidente de Deus querer acabar Portugal fazer a geração real estéril, assim é confirmação evidente de Deus querer estabelecer Portugal fazer a geração real fecunda.

E se não pergunto: qual foi o termo com que Deus declarou que restauraria Portugal? O termo foi: Ego respiciam, et videbo: Eu olharei, e verei. — Pois no dia de hoje, e neste felicíssimo nascimento se cumpriu o respiciam et videbo. — E por que razão? Por que dar Deus a uma geração estéril um filho varão, é o olhar e o ver de Deus. Texto expresso e continuado. Quando Ana, como vimos, e ainda não ponderamos, disse: Si respiciens videris afflictionem famulae tuae, dederisque servae tuae sexum virilem (1 Rs. 1, 11): — Se olhardes, Senhor, e virdes a aflição da vossa serva, e lhe derdes um filho varão. — De maneira que dar Deus um filho varão a uma geração estéril, é o olhar e o ver de Deus: Si respiciens videris: Ego respiciam, et videbo. — A décima-sexta geração real portuguesa estava, como Ana, estéril: Usque ad decimam sextam generationem, in qua attenuabitur proles. — Tinha-nos prometido Deus que, nessa mesma geração atenuada, olharia e veria: In ipsa, sic attenuata, ego respiciam et videbo. — E quando olhou e viu? Olhou e viu quando deu a essa geração estéril um filho varão: Si respiciens videris, dederisque sexum virilem: Ego respiciam et videbo.

Que resta, logo, senão darmos hoje infinitas graças a Deus, e infinitos parabéns a Portugal, dizendo com o profeta Isaías: Lauda, sterilis, quae non paris; decanta laudem, et hinni, quae non pariebas[6]: Dá graças a Deus, Lusitânia, alegra-te, e triunfa, pois, sendo nestes anos passados tão estéril de príncipes, hoje te vês tão fecunda! E se queres alegrar-te com mais admiração, olha para a vizinhança: Quoniam filii desertae magis quam ejus quae habet virum[7]: porque a que era estéril, se vê fecunda, e a que era fecunda, estéril. — Coisa é muito digna de reparar que, tendo Castela há poucos anos dois infantes varões, hoje não tem nenhum; e, não tendo Portugal há poucos anos nenhum infante, hoje se vê com dois. Parece que Castela enterrava os seus infantes para que os nossos nascessem, porque, se bem advertimos, acharemos que nas mesmas terras onde ela enterrou os seus infantes, nos nasceram a nós os nossos. Enterrou Castela um infante em Alemanha, o infante Fernando; e nasceu-lhe a Portugal outro infante em Alemanha, o senhor Dom Duarte, que Deus guarde e livre, que nasceu infante no dia felicíssimo da aclamação. Enterrou Castela outro infante em Espanha, o infante Carlos, e nasceu-lhe a Portugal outro infante em Espanha, o Senhor infante D. Afonso, que nasceu já filho de rei, no dia felicíssimo de hoje, faz um ano. Que é isto? É que quando Deus quer eclipsar, como vimos em nós, vai apagando as tochas; e como quer que resplandeça outra vez Portugal, vai-nos dando as luzes às mãos cheias: Et lucernae ardentes in manibus vestris[8].

III – Que remédio para sustentar as luzes postas por Deus nas mãos de Portugal? Portugal e a loucura das virgens néscias, O que acontece na terra quando anda prodigioso o céu. Zeloso que não sabe dar a capa não tem bom zelo. A capa de Elias. Por que se compara Cristo a esposo e a ladrão juntamente. As capas dos vassalos de Cristo e as capas dos vassalos de Jeú. Qual é a causa por que o reinado de Cristo durou tão poucos dias, e o reinado de Jeú durou tantos anos? O fogo da sarça ardente e a moderação dos príncipes de Portugal. A Eucaristia, instrumento da restauração e conquista do mundo.

Mas, suposto que Deus nos deu tantas luzes: Lucernae ardentes — e, suposto que as pôs nas nossas mãos: In manibus vestris — que havemos de fazer para sustentar estas luzes? Luzes acesas gastam e consomem; pois, que remédio para as sustentar e para as conservar? O remédio, como tão importante e necessário, já está prevenido e declarado nas palavras antecedentes do Evangelho: Sint lumbi vestri praecincti (Lc. 12, 35): — Cingi-vos, apertai-vos, estreitai-vos. — Remédio para sustentar as tochas, apertar os cintos: Sint lumbi vestri praecincti, et lucernae ardentes in manibus vestris (ibid.). — E que conseqüência tem apertar os cintos para luzirem todas as tochas? Muito grande. Porque para luzir é necessário arder, para arder é necessário gastar, para gastar é necessário cingir. Cingi-vos primeiro, podereis luzir depois.

Muitas vezes tenho buscado em que consistiu a loucura das virgens néscias, porque à primeira vista eu não vejo mais milagres nas prudentes. Se as prudentes ornaram as alâmpadas, também as néscias as ornaram; se as prudentes saíram a receber o Esposo, também as néscias saíram; e, se as néscias adormeceram, também as prudentes não vigiaram: Dormitaverunt omnes et dormierunt[9]. — Pois, em que esteve a loucura tão canonizada? Esteve em que as néscias, tendo menos cabedal de azeite que as companheiras, não souberam poupar com a indústria o que as outras gastavam na abundância. Quiseram luzir quando haviam de poupar, e vieram a mendigar quando haviam de luzir: Date nobis de oleo vestro: quia lampades nostrae extinguuntur[10]. — Apagaram-se-lhes as luzes, porque não souberam estreitar os cintos; não souberam poupar antes, não puderam luzir depois. Que bem emendou esta ignorância das virgens néscias a prudência e a providência de S. Roque! Contentou-se com satisfazer à necessidade, e não ao apetite; à natureza, e não à vaidade; por isso pôde resplandecer em obras de caridade tão excelentes, e servir ao Rei do céu com tanta liberalidade e grandeza, quanto eu agora quisera, mas não tenho tempo para ponderar.

Só não posso deixar de dizer e de estranhar muito que se alarguem agora os cintos, quando era tempo de os estreitar; e que os tragam e queiram trazer muito largos os mesmos que noutro tempo os traziam assaz estreitos. No outro tempo tão estreitos e tão delgados, como todos sabem; e agora tão largos, e não sei se tão inchados, que em nenhuma parte cabem, nem há quem caiba com eles. Cabe-lhes, porém, e vem-lhes muito ao justo a frase do soberbo Jeroboão, que são hoje mais grossos pelo dedo meminho do que eram antigamente pela cintura: Minimus digitus meus grossior est dorso patris mei[11]. — Levam hoje mais roda em um anel, do que levavam antigamente no cinto. E o pior é que no cabo queixosos e mal contentes. Ora medi, medi os cintos, e vereis quanto mais largos andais agora do que andáveis no outro tempo. Antigamente — se vos lembra — cabíeis nos vossos sapatos, e hoje não cabeis em um coche. E sobre tanta diferença, queixas ainda? Estranho isto, mas não me espanto, que quando anda prodigioso o céu, vêem-se semelhantes maravilhas na terra.

Ia S. Paulo caminhando para Damasco, desce do céu um raio de luz, que o derrubou do cavalo e o deitou em terra. Estava Elias no Jordão, desce do céu um coche de quatro cavalos, que o levou por esses ares. Eis aqui o que acontece na terra quando anda prodigioso o céu. A uns apeia, a outros levanta. Paulo, que andava a cavalo, ficou a pé; Elias, que andava a pé, ficou em coche. Contudo, a mim me parece muito bem que Elias tenha coche, porque vejo a capa de Elias nos ombros de Eliseu. Que ande em coche Elias zeloso, que cobre a Eliseu com a sua capa, é muito justo; mas que ande em coche Elias zelote, que cobre o coche com a capa de Eliseu, não é bom zelo este. Zeloso que não sabe dar a capa, não tem bom zelo. Pois, desenganemo-nos, que quem quiser sustentar as tochas nas mãos, não há de ter a capa nos ombros. Por isso Cristo nos manda ser semelhantes a criados, cujo estilo e obrigação é largar a capa para tomar atocha. Estava Jeú em uma conversação de fidalgos, veio subitamente um profeta ungi-lo por rei: e que fizeram os circunstantes? No mesmo ponto diz o texto que tiraram todos as capas dos ombros, fizeram delas um trono, assentaram nele a Jeú, e disseram: viva el-rei: Regnavit Jehu (4 Rs. 9, 13). — Então vive o rei, quando se lhe faz o trono das capas dos maiores vassalos. Entrou Cristo em Jerusalém triunfando, começaram todos a aclamá-lo por rei de Israel; e que fizeram os que estavam pelas ruas? No mesmo ponto diz o Evangelho que tiraram também as capas, e as lançavam por terra, para que o Senhor passasse por cima. Então triunfa o rei, quando tem postas a seus pés as capas dos seus vassalos. Em nada me aparto do nosso texto.

A duas coisas se compara Cristo, Senhor nosso, neste Evangelho: compara-se a esposo, e compara-se a ladrão. A esposo: Expectantibus Dominum suum quando revertatur a nuptiis[12]. — A ladrão: Si sciret paterfamilias qua hora fur veniret[13]. — Que se compare Cristo a esposo, está muito bem, que o é de nossas almas; mas comparar-se a ladrão? A ladrão e a esposo juntamente? Sim. Compara-se Cristo a ladrão e mais a esposo, para que entendamos que há de ser seu o nosso amor, e que há de ser sua a nossa capa. Ao esposo deveis-lhe o amor; o ladrão pede-vos a capa. E como Cristo é nosso legítimo Rei e Senhor, por isso se compara juntamente a ladrão e mais a esposo: porque ao senhor natural, ao rei verdadeiro, há-se-lhe de dar o amor, e há-se-lhe de dar a capa por amor. Oh! como fica airoso quem o faz!

Mas advirto-vos de caminho que, se derdes a capa, dai-a dada, porque alguns dão a capa no exterior, e por debaixo da capa tornarão a tomá-la. Capas dadas, são as que estabelecem o trono ao rei; capas dadas e tornadas a tomar, não. Pouco há que dissemos que os vassalos de el-rei Jeú lhe fizeram o trono com as suas capas. Também dissemos que os vassalos de Cristo lhe puseram as capas debaixo dos pés, quando o aclamaram por rei. Porém eu noto uma grande diferença: que o reinado de Jeú — como consta do texto — durou vinte e oito anos; e o reinado de Jesus, temporalmente, não durou mais que cinco dias. Pois, qual é a causa por que o reinado de Jesus dura tão poucos dias, e o reinado de Jeú dura tantos anos? A causa Deus a sabe, a conjectura eu a direi. Aqueles vassalos que fizeram o trono de Jeú, com as suas capas, não as tornaram a tomar; pelo contrário, os que puseram as suas capas aos pés de Cristo, tanto que passou o triunfo, tornaram a pô-las aos ombros. E reinado como o de Cristo, em que os vassalos dão as capas e as tornam a tomar, não é muito que dure pouco; porém, reinado como o de Jeú, em que os vassalos dão as capas dadas, durará por muitos anos, e perpetuar-se-á em muitos sucessores.

Pois, por certo que merecia Cristo aos seus vassalos que lhe dessem as capas dadas. Tanto que Cristo tomou o título de rei na cruz, deu os seus vestidos aos soldados, e não só os vestidos exteriores, senão a túnica interior: Milites ergo acceperunt vestimenta ejus, et tunicam[14]. — E que fizeram logo os soldados? Tomaram os dados, e puseram-se a jogar, Grandes dois documentos. Se o verdadeiro rei se despe para que os soldados tenham que jogar, quanto mais se deve despir para que tenham que comer? E se o rei tira a túnica para sustentar os soldados, por que não tirarão os vassalos a capa para sustentar o rei? Quereis poder dar as capas? Sabei apertar as roupas: Sint lumbi vestri praecincti. — E, se não basta a doutrina, basta o exemplo. Amen dico vobis, quod praecinget se[15]. — Por que não fará o vassalo pelo rei o que o rei faz pelo vassalo? Notai a correspondência do Evangelho entre o criado e o senhor. Diz o senhor aos criados que se cinjam e tomem as tochas nas mãos: Sint lumbi vestri praecincti, et lucernae ardentes in manibus vestris (Lc. 12, 35). — E logo abaixo diz que o senhor se cingirá também, e porá os criados à mesa: Praecinget se, et faciet illos discumbere (ibid. 37). — Pois, se o rei se cinge e se estreita para sustentar a mesa dos criados: Praecinget se, et faciet illos discumbere — por que se não cingirão e estreitarão os criados para sustentar as tochas do Senhor: Sint lumbi vestri praecincti, et lucernae ardentes in manibus vestris? — Não vemos a moderação verdadeiramente de pai da pátria, com que El-Rei, que Deus guarde, estreita os gastos de sua real pessoa e casa? Não vemos a liberalidade verdadeiramente real, com que a Rainha nossa Senhora, se priva de suas rendas, e as aplica aos exércitos e fronteiras? Pois, se assim se estreita a grandeza dos reis, por que não aprenderá a se estreitar a vaidade dos vassalos? Façamos como libertados, pois eles fazem como libertadores.

Ora ouvi-me uma ponderação, em que vereis que neste mesmo estreitar-se mostra ser Sua Majestade o nosso verdadeiro libertador. Quando estavam cativos os filhos de Israel no Egito, desceu Deus em figura de fogo, assentou-se em uma sarça: Quod rubus arderet, et non combureretur (Êx. 3, 2) — e a sarça ardia, e não se queimava. Pois, se o fogo é um elemento tão ativo, tão consumidor, tão voraz, por que não queimava a sarça? Portava-se a si o fogo, não pelo que era, senão pelo a que vinha. Vinha Deus naquele fogo a libertar os filhos de Israel, como ele mesmo disse: Descendi ut liberem eum[16]. — E o fogo libertador sustenta-se de si mesmo, não gasta. Fogo em que Deus vem abrasar, como o do sacrifício de Abel, consome; mas fogo em que Deus vem a libertar, como da sarça de Moisés, não gasta, sustenta-se de si mesmo. Bem o vemos no nosso libertador, que se sustenta do seu, que era, e não do nosso, sendo que o seu e o nosso tudo é seu. E para que mais estimemos e agradeçamos esta moderação, notemos que os reis da terra são como o rei dos elementos, o fogo. Todos os outros elementos, temo-los em casa, sem nos fazerem gasto: a terra, a água, e o ar não nos gastam nada; o fogo, ninguém o teve em sua casa senão custando-lhe. Assim são os reis da terra. E se não bastam os exemplos passados dos que tão abrasado deixaram Portugal, leia-se na Escritura o que Deus disse por Samuel ao povo, quando teimaram em pedir rei. E que sendo esta a qualidade e condição de um e outro fogo, que não tome para si nada o milagroso que vemos! Que não toque em uma folha da sarça! Que se sustente de si mesmo! É sem dúvida, porque está Deus naquele fogo, e porque está nele como libertador: Descendi ut liberem eum.

E não só como libertador, senão como restaurador e conquistador, que assim o pede a nossa necessidade, e prometem as nossas profecias. E por quê? Pela mesma razão que temos dito. Porque o príncipe que, quanto pede aos vassalos, nada toma para si, tudo despende com eles, será restaurador e conquistador do mundo. Diz S. Agostinho, e é autoridade recebida de toda a Igreja: Sacramento Eucharistiae totus mundus subjugatus est: que com o Sacramento da Eucaristia rendeu e sujeitou Cristo todo o mundo. — Na cruz alcançou a principal vitória, mas com o Sacramento de seu corpo e sangue foi restaurando e restituindo a seu império quanto o demônio lhe tinha tiranizado. Ora, examinemos e saibamos por que mais com o Sacramento da Eucaristia que com outro mistério. Cristo nascido, Cristo morto, Cristo ressuscitado, não pudera restaurar o mundo? Pois, por que mais Cristo sacramentado? Por que se tomou por instrumento da restauração e conquista do mundo o mistério sagrado da Eucaristia? Lavremos um diamante com outro diamante, e expliquemos um santo com outro santo. Santo Tomás, falando do Santíssimo Sacramento do altar, nota uma coisa digna de ponderação, e é que neste soberano mistério, quanto Cristo recebeu de nós, tudo despende conosco: Et hoc insuper quod de nostro assumpsit, totum nobis contulit ad salutem. — Que recebeu Cristo de nós na Encarnação? Recebeu carne e recebeu sangue. E que nos dá Cristo na Eucaristia? Dá-nos essa mesma carne na hóstia, e dá-nos esse mesmo sangue no cálix. E este soberano Príncipe é tão justo e tão desinteressado, que quanto recebe de nós, tudo despende conosco, e quanto toma dos homens, tudo despende com os homens, para sua sustentação e proveito: Quod de nostro assumpsit, totum nobis contulit ad salutem. — Logo, com muito fundamento ao mistério em que se exercita esta grande ação, mais que a nenhum outro, se deve atribuir a restauração e conquista do mundo: Sacramento Eucharistiae totus mundus subjugatus est — porque príncipe que gasta com seus vassalos tudo o que recebe deles, não lhe compete menos conquista que a do mundo, menos monarquia que a do universo. Assim o prometem as nossas profecias, o confessam as nossas esperanças, fundadas no exemplo de tal rei e na liberalidade de tais vassalos, para grande aumento da fé, para grande glória da Igreja, para grande honra da nação portuguesa, e ainda para grande opulência dos bens da fortuna, com maior abundância dos bens da graça.

IV – As esperanças, temores e remédios do Evangelho do dia. A vigilância dos criados e a vigilância dos pais de famílias. Os dois pólos da doutrina de Cristo: os perigos e os remédios.

Bem acabava aqui o sermão, e certamente aqui acabou a parte panegírica dele. Mas porque o dia e a festa propriamente é de S. Roque, o santo, e o que resta do Evangelho, tomarão e satisfarão por sua conta a parte apologética. Não declaro a matéria da questão porque é vulgar, sabida, e praticada de todos nesta corte, como segunda e mui necessária parte da mesma panegírica, em que até agora falamos, supondo só o útil e glorioso dela, sem reparar no duvidoso e perigoso da sua conservação. Baste por único fundamento, na suposição e circunstâncias do tempo presente, que em todo o passado, Castela e Portugal juntos não puderam prevalecer, assim no mar, como na terra, contra Holanda; e como poderá agora Portugal só permanecer e conservar-se contra Holanda e contra Castela? Em defensa do zelo, que isto duvida e teme, se deterá um pouco a nossa apologia contra os juízos portugueses — se é que verdadeiramente o são — tão confiados e bizarros, que impugnam como descrédito os que supõem a necessidade e representam o remédio.

Os remédios, dizem, supõem perigos, os perigos causam temores, os temores argúem desconfianças, e ânimos desconfiados nem são bens nem são ânimos. Ora o nosso Evangelho, quando menos, não discorre assim; dos mesmos princípios tira mais honradas conseqüências. Todo o Evangelho que hoje nos propõe a Igreja está fundado em temores e em esperanças, porque, como trata da salvação, que é incerta, a esperança anima, o temor acautela. Mas, ainda que estes dois afetos, ambos são necessários para obrar ao futuro, eu, contudo, sem ser muito apaixonado do medo, acho melhores raízes ao temor que à esperança. Vamos ao texto.

Exorta Cristo neste Evangelho a todos os homens a que vigiem sobre sua salvação, e num lugar compara-os aos criados, noutro lugar compara-os ao pai de famílias. Mas noto eu que, quando os manda vigiar como criados, diz que esperem: Similes hominibus expectantibus[17] — quando os manda vigiar como pai, diz que temam: Si sciret paterfamilias qua hora fur veniret, vigilaret[18]. — Pois, se o criado, e mais o pai, ambos vigiam, qual é a razão por que o criado, quando vigia, espera, e o pai, quando vigia, teme? Porque o pai é pai, e o criado é criado. O criado, quando vigia, espera, porque no criado vigia o interesse; o pai, quando vigia, teme, porque no pai vigia o amor: espera quem serve, teme quem ama. Grande confirmação no mesmo Evangelho. Quando Cristo manda vigiar como criados, promete a sua mesa: Faciet illos discumbere[19] — quando manda vigiar como pai, não promete nada. Pois, por que se promete prêmio ao criado, e não se promete prêmio ao pai? Por quê? Porque o criado serve, o pai ama. Quem serve, tem por prêmio a vossa mesa, quem ama tem por prêmio o seu cuidado. E quem tem os olhos na vossa mesa, claro está que há de esperar; quem tem o coração no seu cuidado, claro está que há de temer.

Ainda mais apertadamente no mesmo texto. Quando Cristo fala nas esperanças dos criados, diz que esperam por seu senhor: Exspectantibus dominum suum (Lc. 12, 36): — quando fala nos temores do pai, diz que teme ao ladrão: Si sciret paterfamilias qua hora fur veniret (ibid. 39). — É certo e averiguado entre todos os doutores, que assim o senhor como o ladrão, nesta parábola, significam a Cristo na hora da morte. Pois, se é a mesma pessoa, e no mesmo tempo, como em respeito do criado se chama senhor, e em respeito do pai se chama ladrão? Porque donde o criado tira razões de confiança, o pai, que ama, tira razões de temor. No mesmo tempo, e nas mesmas circunstâncias, o mesmo que para o criado é senhor, para o pai é ladrão. Ora, queira Deus que não haja algum criado que espere como a senhor, o mesmo que o pai que ama teme como a ladrão! E se quem ama teme, por que não há de imaginar perigos? E se quem teme ama, por que não há de solicitar remédios? Quem estranhar este zelo, perto está de condenar o de Cristo.

Leia-se o nosso Evangelho, e em todo ele não se achará outra coisa senão perigos e mais perigos, remédios e mais remédios. Virá o ladrão; Qua hora fur veniret[20] — poderá roubar a casa: Perfodi domum suam[21] — buscar-nos-á na hora em que estivermos mais descuidados: Qua hora non putatis, Filius hominis veniet[22]. — Eis aí os perigos. Por outra parte, roupas na cinta, tochas acesas, portas fechadas, olhos abertos: eis aí os remédios. Pois, Senhor, estes são os pólos da vossa doutrina e, do vosso cuidado? Não imaginais noutra coisa senão em perigos? Não falais noutra coisa senão em remédios? Sim, sim. O mais verdadeiro e fiel amigo que há nem pode haver no mundo é Cristo; e o fiel e verdadeiro amigo, em matérias que não importam menos que a salvação, não sabe imaginar senão em perigos, não sabe falar senão em remédios. Este é o zelo de Cristo: e por que não será este o zelo cristão?

Mas vejo que me diz, ou que me dirá alguém, que há perigos que são impossíveis, e há remédios que são perigosos. Perigos impossíveis não se hão de aceitar. Admito no perigo o impossível, admito no remédio o perigoso, e respondo com tudo.

V – Os perigos impossíveis. Se o perigo nos predestinados é impossível, por que chega Cristo a recear perigos aos predestinados? O perigo impossível da Torre de Babel, e o melhor modo de conservar a segurança.

Quanto ao primeiro. Fala Cristo, Redentor nosso, dos tempos temerosos do anticristo, e diz que será tão universal a ruína, que até os mesmos predestinados, em certo modo, não estarão seguros: Ita ut in errorem inducantur, si fieri potest, etiam electi[23]. — Notável dizer! Os predestinados não é impossível perderem-se? Claro está que os decretos divinos são imutáveis, e seus efeitos nada os pode impedir. Pois, se o perigo nos predestinados é impossível, por que chega Cristo a recear perigo aos predestinados: Etiam electi? — Por quê? Porque os ama muito. Cristo, Senhor nosso, ama muito aos seus predestinados. E quem ama muito, até perigos impossíveis teme. O perigo será impossível, mas o amor é muito verdadeiro. Quem chegou a temer impossíveis, chegou a amar quanto é possível, Há-se o amor no temer como no desejar; e assim como não há maior sinal de amor que impossíveis desejados, assim não há maior sinal de amor que impossíveis temidos. Antes, mais verdadeiramente ama quem teme impossíveis que quem deseja impossíveis: porque desejar-me impossíveis sempre é amor meu; mas temer-vos impossíveis não pode ser senão amor vosso.

Porém, dir-me-ão que os impossíveis será amor temê-los, mas não será razão temerem-se. Temê-los-á o amor, que é um cego, mas não os temerá a razão, que tem olhos abertos. Também a razão.

Começaram a edificar os filhos de Membrot aquela soberba torre, chamada depois de Babel, com intento de que chegassem suas ameias a topetar com as estrelas, e diz o texto sagrado que desceu logo Deus a impedir e desfazer esta obra, e que a razão que o moveu foi esta: Non desistent a cogitationibus suis, donec eas opere compleant[24]: que era necessário atalhar em seus princípios a fábrica daquela torre, por que os homens a não acabassem, e chegassem ao céu com ela. — Galante razão por certo. É demonstração geométrica que, ainda que o globo da terra fora vinte vezes maior do que é, não pudera dar bastante matéria para edificar uma torre que chegasse à altura do céu. Quanto mais — deixados outros mil impossíveis — que, chegando à segunda região do ar, por ser extremamente fria, haviam de morrer os homens congelados, e, quando dali escapassem, lá estava a esfera do fogo, onde se haviam de abrasar e consumir todos, antes de chegar ao céu. Pois, se a fábrica da torre e o intento daqueles homens era impossível, como diz Deus que desce à terra a o impedir, por que não acertem de o executar: Non desistent, donec opere compleant? — A razão, é porque quem tem inimigos que possam armar torres contra os seus reinos, como Deus tinha neste caso, há de discursar sobre os perigos impossíveis, como se foram perigos prováveis. A torre era impossível, mas Deus discursava e obrava como se o não fora. Os perigos que são impossíveis para o efeito, hão-se de imaginar possíveis para a cautela. Quem teme os perigos possíveis, estará acautelado; mas quem teme os impossíveis, está seguro. O melhor meio de conservar a segurança é temê-la. Assim a temia, ou obrava Deus, como se a temera dentro das muralhas do céu: Non desistent a cogitationibus suis. — De maneira que recear perigos impossíveis é amor, e acautelar-se de perigos impossíveis é providência. Quem persuade que se temem impossíveis, aconselha como Cristo, que assim o aconselhou aos predestinados; e quem se acautela de impossíveis, obra como Deus, que assim se acautelou da torre. Nem o receio é descrédito do amor, nem a cautela é descrédito do poder. O receio não é descrédito do amor, pois assim receia Cristo, que ama tanto; a cautela não é descrédito do poder, pois assim se acautela Deus, que pode tudo.

VI – Os remédios perigosos. S. Roque, e o zelo da pátria. Se S. Roque era o remédio único da sua pátria, e os franceses eram tão zelosos dela, por que o perseguem e condenam? O perigo dos apóstolos na tempestade, e os remédios que parecem fantasmas. O remédio temido e perigoso de Portugal: as duas companhias mercantis, que tragam seguras contra Holanda as drogas da índia e do Brasil, para sustentar a guerra interior de Castela. O exemplo de S. Roque e de el-rei Davi. A primeira coisa que se fez do dinheiro sacrílego por que Judas vendeu a Cristo. Os trinta dinheiros de Judas e as armas de Portugal. O cão que alimentava S. Roque e o corvo que alimentava Elias. A bondade com que Jó e Nabucodonosor, sendo tão dessemelhantes na vida, ambos eram servos de Deus.

Tenho satisfeito aos perigos impossíveis: respondo agora aos remédios perigosos. Para o primeiro, ponderei o Evangelho; para o segundo, contarei parte da vida de S. Roque.

Depois de S. Roque haver peregrinado por Itália, recolheu-se outra vez à França, e, entrando em Montpellier, pátria sua, como entre a França e Itália havia naquele tempo guerras, prenderam-no por espia. Por espia a S. Roque? Não faltará neste caso quem chame à pátria de S. Roque desgraçada, ou, quando menos, desagradecida. Mas eu chamo-lhe ditosa e bem-aventurada. Bem-aventurada a terra onde os que padecem, e os que fazem padecer, todos são zelosos! S. Roque zeloso, porque o zelo da pátria o trouxe a ela; os franceses também zelosos, porque o zelo da pátria os fez maltratar a S. Roque. Terem todos o mesmo entendimento não é obrigação; mas terem todos o mesmo zelo, ainda que em pareceres encontrados, é grande ventura. Presumo, certo da virtude de S. Roque, que só por conhecer o bom zelo de seus naturais, levaria com muito bom ânimo a sua desautoridade. Mas se S. Roque era o remédio único da sua pátria, e os franceses eram tão zelosos dela, por que o perseguem, por que o acusam, por que o condenam? Isto é zelo da pátria? Sim. O zelo não tem mais obrigações que de ser bem intencionado. Pode ser muito bom, e pode enganar-se. Os franceses cuidavam uma coisa, e era outra: cuidavam que em S. Roque lhes vinha o perigo, e em S. Roque vinha-lhes o remédio, Quantas vezes sucede isto no mundo?

Andavam os apóstolos na barquinha de S. Pedro lutando com as ondas; parte de terra Cristo a socorrê-los: At illi putaverunt phantasma esse (Mc. 6, 49): E eles começaram a tremer, cuidando que era fantasma. — Fantasma? Pois, como assim? Não era Cristo que os ia socorrer? Não era Cristo que os ia remediar? Não era Cristo que os ia livrar do perigo? Pois, como lhes pareceu que era fantasma? Porque assim como há fantasmas que parecem remédios, assim há remédios que parecem fantasmas. Coisa notável, que o mesmo que lhes metia medo como perigo, os livrou da tempestade como remédio. Visto ao longe, entre as trevas, parecia fantasma; metido dentro na barca era Jesus Cristo. Mas é muito de reparar o tempo e a circunstância em que Cristo efetivamente socorreu aos apóstolos. Partiu Cristo de terra, e, ainda que os apóstolos andavam lutando com a tempestade, passou o Senhor de largo: quando eles viram que passava, cuidaram que era fantasma; tanto que cuidaram que era fantasma, então voltou o Senhor a remediá-los. Pois, por que os não remediou Cristo quando eles temiam e lidavam só com a tempestade, senão depois que chegaram a temer o mesmo Cristo, cuidando que era fantasma? Porque Cristo sempre acode nos maiores perigos; e o maior perigo não é quando se teme o perigo, é quando se teme o remédio. Quando os apóstolos temiam a tempestade temiam o perigo; quando temeram a Cristo, temeram o remédio; e como Cristo costuma acudir sempre nos maiores perigos, por isso não acudiu quando temiam o perigo, senão quando temeram o remédio. Não digo que não haja remédios perigosos, mas só mostro que alguns o podem parecer que o não sejam, como o de Cristo e o de S. Roque. Quando S. Roque veio a Montpellier, prenderam-no; quando morreu, os mesmos que o prenderam o canonizaram. E é muito para notar que o não canonizou o Papa, senão o povo. Na vida não lhe bastou vir de Roma para o aceitarem; na morte não teve necessidade de Roma para o canonizarem. E, sendo quase de fé o que canoniza o povo, como há de ser caso contra a fé o que canonizar o Papa?

O remédio temido, ou chamado perigoso, são duas companhias mercantis, oriental uma, e outra ocidental, cujas frotas, poderosamente armadas, tragam seguras contra Holanda as drogas da índia e do Brasil, e Portugal, com as mesmas drogas, tenha todos os anos os cabedais necessários para sustentar a guerra interior de Castela, que não pode deixar de durar alguns. Este é o remédio por todas as suas circunstâncias, não só aprovado, mas admirado das nações mais políticas da Europa, exceta somente a portuguesa, na qual a experiência de serem mal reputados na fé alguns de seus comerciantes, não a união das pessoas, mas a mistura do dinheiro menos cristão com o católico, faz suspeitoso todo o mesmo remédio, e por isso perigoso. Mas tornemos ao defensor deste perigo.

Herdou S. Roque por morte de seus pais um grande estado, e muitas riquezas, e quando os outros desejam larga vida, e muitos anos para as lograr, ele as repartiu aos pobres. Oh! que grande política do céu esta! Fazer do perigo remédio, e vencer ao inimigo com suas próprias armas! As armas com que o mundo faz maior guerra aos homens são as riquezas. Pois, que fez S. Roque às suas? Tirou estas armas da mão ao mundo, converteu-as outra vez contra ele, e desta maneira o venceu e meteu debaixo dos pés. Tirar as armas ao inimigo, e convertê-las contra ele, é fazer de um mal dois bens: um bem, porque se diminui o poder contrário; outro bem, porque se acrescenta o poder próprio. E de um mal fazer dois bens, é mal? Não é melhor que essas riquezas sirvam a S. Roque contra o mundo, que servirem ao mundo contra S. Roque? Ao menos assim o entendeu el-rei Davi, um varão santo, tão amigo de Deus, feito enfim pelos moldes de seu coração.

Quando Jó tomou a cidade de Rabá, achou-se ali entre os despojos um ídolo famoso chamado Melcon, cujo ouro tomou el-rei Davi, e mandou que lhe fundissem dele e lhe lavrassem uma coroa. Pois pergunto: um rei tão rico e tão poderoso como Davi, não tinha outro ouro de que mandar lavrar a sua coroa, senão o ouro de Melcon? Sim, tinha muito. Pois, que pensamento teve em querer que do ouro do ídolo se lhe fizesse a coroa? Um rei tão católico, como Davi, há de fazer a coroa da sua cabeça do ouro dos ídolos? Sim. Antes, por isso mesmo, porque não pode haver mais gloriosa indústria em um rei que saber passar à sua coroa o mesmo ouro que enriquece os ídolos. Este ouro está servindo à infidelidade: pois quero eu que sirva à minha coroa — diz el-rei Davi. — Qual é melhor: que o ouro sirva a Davi contra o ídolo, ou que sirva ao ídolo contra Davi? Se este ouro, posto da parte da infidelidade, está conquistando os reinos de Davi, e propagando neles a heresia, por que não passará Davi este ouro à sua coroa, para ajudar a restaurar seus reinos, e dilatar a verdadeira fé? Servir a fé com as armas da infidelidade, oh! que política tão cristã! Alcançar a fé as vitórias, e pagar a infidelidade os soldados, oh! que cristandade tão política!

Não houve no mundo dinheiro mais sacrílego que aqueles trinta dinheiros por que Judas vendeu a Cristo. E que se fez deste dinheiro? Duas coisas notáveis. A primeira foi que daquele dinheiro se comprou um campo para sepultura dos peregrinos: In sepulturam peregrinorum (Mt. 27, 7) — assim o diz o evangelista, e assim o tinha Deus mandado pelo profeta. Houve no mundo maior impiedade que vender a Cristo? Nem a pode haver. Há no mundo maior piedade que sepultar peregrinos? Não a há maior. Pois, eis aqui o que faz Deus quando obra maravilhas: que o dinheiro que foi instrumento de maior impiedade passe a servir às obras da maior piedade. Serviu este dinheiro sacrilegamente à venda de Cristo? Pois sirva piedosamente à sepultura dos peregrinos. Esta foi a primeira coisa que se fez dos trinta dinheiros. A segunda foi que mandou Cristo a el-rei D. Afonso Henriques, que destes trinta dinheiros, e mais das suas cinco chagas, se formassem as armas de Portugal: Ex pretio quo ego genus humanum emi, et ex pretio quo a Judaeis emptus suor, insigne tuum compones: Comporeis o escudo das vossas armas do preço com que eu comprei o gênero humano, que são as minhas cinco chagas, e do preço com que os judeus me compraram a mim, que são os trinta dinheiros de Judas. — Há coisa mais sacrílega que os trinta dinheiros de Judas? Há coisa mais sagrada que as cinco chagas de Cristo? E, contudo, manda Deus ao primeiro rei português que componha as armas de Portugal das chagas de Cristo e mais do dinheiro de Judas, para que entendamos que o dinheiro de Judas cristãmente aplicado, nem descompõe as chagas de Cristo, nem descompõe as armas de Portugal. Antes, compostas juntamente de um e outro preço, podem tremular vitoriosas nossas bandeiras na conquista e restauração da fé, como sempre fizeram em ambos os mundos. E se Deus compôs assim as armas de Portugal, se Deus não achou inconveniente nesta união, que muito é que o imaginasse assim um homem? Ora, perdoai-lhe, quando menos, que tem bom fiador o pensamento.

Mais. Estava S. Roque doente ao pé de uma árvore, e diz a história que vinha ali um cão piedoso, o qual lhe trazia todos os dias um pão da mesa de seu senhor, com que o sustentava. Lembra-me que aos que carecem da verdadeira fé, chama Cristo, Senhor nosso, cães: Non est bonum sumere panem filiorum, et mittere canibus[25]. — E com o mesmo nome de cães afronta justamente a nossa terra os convencidos do mesmo crime da infidelidade, não pelo nascimento da nação, nem pelo exercício do comércio, em que não há culpa. Isto posto pois, e, levando o cão na boca o pão de que se sustentava S. Roque, pergunto: E é mau tirar o pão da boca do cão para sustentar o santo? — Ora eu não reparo em S. Roque comer o pão da boca do cão, que pareceria asqueroso; mas reparo em que o cão lho levasse. Se o cão tirava o pão da mesa a seu senhor, sabia ele a quem o levava; e se o senhor sabia que o levava a S. Roque, por que lho não leva ele, ou manda ao menos por um criado? Há de dar o pão o homem, e há de levar o pão o cão? Sim. Porque aqueles a quem sustenta a providência divina quer Deus que os sirvam os homens, e quer que os sirvam os cães. A quem Deus sustenta com sua mão, quer que o sirvam todas suas criaturas, que o sirvam os racionais, e que o sirvam os animais.

Estava Elias em um deserto, quando foi a perseguição de Jesabel, e veio um anjo que lhe deu pão, com que se sustentou quarenta dias. Estava outra vez Elias em outro deserto, quando foi a fome do tempo de Acás, e vinha todos os dias um corvo, que lhe trazia também de comer. Pois, valha-me vossa providência, Senhor: que mudança é esta? Já se acabaram as jerarquias do céu? Já se variou o ministério dos anjos? Pois, se uma vez sustentais a Elias com anjos, por que outra vez sustentais a Elias com corvos? Porque Deus quando sustenta os seus mimosos, quer que os sirvam todas suas criaturas. Sirvam uma vez a Elias os anjos, sirvam outra vez a Elias os corvos. Sustentar Deus a Elias por meio dos corvos, nem era contra a providência de Deus, nem contra a santidade de Elias. Tão Deus era Deus quando sustentava a Elias por ministério de corvos, como quando o sustentava por ministério de anjos; e tão santo era Elias quando recebia o pão da mão dos anjos, como quando tomava o pão das unhas dos corvos.

E a razão disto, qual é? A razão é porque a bondade das obras está nos fins, não está nos instrumentos. As obras de Deus todas são boas; os instrumentos de que se serve podem ser bons e maus.

A Jó chama-lhe Deus na Escritura servo seu: Numquid considerasti servum meum Job?[26] — E a Nabucodonosor chama-lhe Deus também servo: Nabuchodonosor, quia servivit mihi[27]. — Todo o mundo sabe quão diferentes eram os procedimentos destes dois homens. Jó muito santo, muito justo, muito piedoso; Nabucodonosor muito mau, muito cruel, muito idólatra. Pois, se isto é assim, como se chama servo de Deus Nabucodonosor? Que se chame servo de Deus Jó, está muito bem, era santo; mas que se chame servo de Deus Nabuco, que era tão mau homem? Também, Porque entre os servos de Deus há esta diferença: uns são servos de Deus porque servem a Deus; outros são servos de Deus porque Deus se serve deles. Os que são servos de Deus porque servem a Deus, necessariamente hão de ser bons; os que são servos de Deus porque Deus se serve deles, bem podem ser maus. Eis aqui a diferença com que Jó e Nabucodonosor, sendo tão dessemelhantes na vida, ambos eram servos de Deus nas obras. Jó, como santo, era servo de Deus, porque, servia a Deus; Nabucodonosor, como mau, era servo de Deus, porque Deus se servia dele. Bons e maus, todos podem servir a Deus. Os bons sirvam a Deus, os maus sirva-se Deus deles. Assim aconteceu a S. Roque no pão com que se sustentava. Servia-o o homem, em que havia piedade, e servia-o o cão, que era incapaz de virtude. Um servia por discurso, outro servia por instinto, mas ambos serviam.

VII – A Companhia Ocidental e a restauração do Brasil. Os fins maravilhosos por que se desfizeram os escrúpulos em aplausos, os impossíveis em milagres, e o imaginado perigo em ações de graças a Deus.

Muito tinha que dizer ainda nesta matéria, mas porque ela se estampa tantos anos depois de se haver pregado, em que se pode confirmar com os mesmos efeitos, baste por prova ser o arbítrio ou remédio, que no princípio se duvidava como perigoso, disposto e ordenado, e porventura inspirado pela providência divina. É conseqüência evidente. Porque, não se executando todo este remédio, senão só ametade, nem se formando a Companhia Oriental — de que depois houve tantos arrependimentos — se não a Ocidental unicamente, foram suficientes os socorros que as suas frotas trouxeram ao reino, não só para sustentar a guerra interior, sempre com maior poder e maiores aumentos, mas para restaurar ametade do mesmo Brasil. Com guerra de vinte e quatro anos estava ocupada e perdida, e já estampada nos mapas com nome de Nova Holanda, esta ametade do que possuímos na América: e que bastou para recuperar tanta terra, tantos mares e portos, tão invencivelmente fortificados, como supunha não só a experiência comum, mas a resistência de tantos e tão grandes generais, não se atrevendo a aceitar uma tal empresa? Aqui se viu o milagre da Providência. Apareceu a frota mercantil do Brasil defronte do Recife, a que por sua fortaleza pudéramos justamente chamar a Rochela da América, e à ostentação somente do número de seus vasos, sem morte de um homem, se renderam dezessete fortes reais, guarnecidos de sobeja infantaria, abastecidos de munições de boca para dois anos, e de guerra para muitos, e em espaço de três dias se recuperou o que se não o podia caminhar pacificamente em muitos meses, e se tinha ganhado a palmos em vinte e quatro anos. Ao princípio não creu tal milagre o mundo; mas estes foram os fins maravilhosos daquela única companhia mercantil, que, havendo mais de quarenta anos cessou a causa por que foi instituída, é tão útil, importante e necessária, que ainda se conserva, e conservará por muitos. Assim se desfizeram os escrúpulos em aplausos, as dúvidas em demonstrações, os impossíveis em milagres, e o imaginado perigo em ações de graças a Deus, dadas na corte, em todo o reino, e repetidas todos os anos naquelas conquistas, triunfando os altíssimos conselhos da providência, sabedoria e onipotência, não só dos vãos temores, interesses e pretextos, mas do mesmo bom, verdadeiro e fiel zelo humano, para última exaltação e glória da bondade divina.

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[1] Estejam cingidos os vossos lombos, e nas vossas mãos tochas acesas (Lc. 12, 35).
[2] Visitou pois o Senhor a Ana, e ela concebeu, e pariu três filhos e duas filhas (1 Rs. 2, 21).
[3] Até que a estéril teve sete filhos (1 Rs. 2, 5 — Vers. Hebr.).
[4] Teus filhos virão de longe, e tuas filhas se levantarão de todos os lados (Is. 60, 4).
[5] D. Basil. de Seleucia.
[6] Alegra-te, estéril, que não pares; entoa cânticos de louvor, e rincha, tu que não parias (Is. 54, 1).
[7] Porque os filhos da desamparada são muitos mais do que os daquela que tem marido (ibid.).
[8] E nas vossas mãos tochas acesas (Lc. 12, 35).
[9] Começaram a tosquenejar todas, e assim vieram a dormir (Mt. 25, 5).
[10] Dai-nos do vosso azeite, porque as nossas lâmpadas se apagam (ibid. 8).
[11] O meu dedo meminho é mais grosso do que o costado de meu pai (3 Rs. 12. 10).
[12] Que esperam ao seu senhor ao voltar das bodas (Lc. 12, 36).
[13] Se o pai de famílias soubesse a hora em que viria o ladrão (ibid. 39).
[14] Porém os soldados tomaram as suas vestiduras e a túnica (Jo. 19, 23).
[15] Na verdade vos digo que ele se cingirá (Lc. 12, 37). Desci para o livrar (Êx. 3, 8).
[16] Desci para o livrar (Ex. 3, 8)
[17] Semelhantes aos homens que esperam (Lc. 12. 36).
[18] Se o pai de famílias soubesse a hora em que viria o ladrão, vigiaria (ibid. 39).
[19] E os fará sentar à mesa (ibid. 37).
[20] A hora em que viria o ladrão (Lc. 12, 39).
[21] Minar a sua casa (ibid.).
[22] A hora que não cuidais, virá o Filho do homem (ibid. 40).
[23] Que, se fosse possível, até os escolhidos se enganariam (Mt. 24, 24).
[24] Não desistirão do seu intento, menos que o não tenham de todo executado (Gên. 11, 6).
[25] Não é bom tomar o pão dos filhos, e lançá-los aos cães (Mc. 7, 27).
[26] Acaso consideraste tu a meu servo Jó (Jó 1, 8)?
[27] Nabucodonosor, porque serviu a mim.

Fonte: https://www.literaturabrasileira.ufsc.br/documentos/?action=download&id=49866