Sermão de Nossa Senhora da Graça (no dia da Assunção)

ORAGO DA IGREJA MATRIZ DA CIDADE DO PARÁ,

CUJA FESTA SE CELEBRA NO DIA DA ASSUNÇÃO DA MESMA SENHORA


Maria optimam partem elegit[1]

I – A grandeza do dia, a grandeza da festa e a grandeza do Evangelho. A dificuldade de concordar com propriedade e verdade o concurso dessas três obrigações. Três grandes propriedades dos que, levantando o templo debaixo do título da Senhora da Graça, uniram a celebridade do mesmo título ao dia da gloriosa Assunção da mesma Senhora. Em nenhum outro dia, senão no último da mesma vida, que foi o mesmo dia da Assunção da Senhora, se podia e devia celebrar própria e cabalmente a sua graça.

Grande dia, grande festa, grande Evangelho, e grande dificuldade também a de concordar com propriedade e verdade o concurso destas três obrigações. O dia é grande, porque é aquele formoso dia em que a Virgem Maria, depois de pagar o tributo à morte, como verdadeira filha de Adão, ressuscitando logo como verdadeira Mãe de Deus, subiu ao céu a gozar para sempre a glória de sua vista. A festa é grande, porque é da Senhora da Graça, título desta igreja matriz, a primeira e maior de uma tão dilatada província e cabeça de todas. O Evangelho é grande, porque nele, debaixo dos misteriosos nomes de Marta e Maria, se representam as duas vidas, ativa e contemplativa, em cujo complexo se contém e compreende toda a perfeição evangélica. E é, finalmente, grande a dificuldade de concordar o concurso destas três obrigações, porque sendo a gloria o fim, e a graça o meio de a conseguir, antepor a graça à glória, e o meio ao fim, não só parece dissonância, senão desordem manifesta, e porque, aplicando o Evangelho a melhor eleição a melhor parte à glória da Senhora, em vez de celebrar a mesma glória no dia de sua Assunção, trocá-la pelo título da Graça, também parece impropriedade, por lhe não dar o nome de injustiça.

O motivo que tiveram os antigos fundadores para que, havendo levantado este templo debaixo do título da Senhora da Graça, unissem a celebridade do mesmo título ao dia da gloriosa Assunção dá mesma Senhora, não consta nem ficou em memória. Mas nesta que parece sem-razão e impropriedade acho eu três grandes propriedades e adequadas rações. A primeira, porque a graça é o direito por onde se deve aos justos a glória; a segunda; porque a glória se distribui a cada medida da graça; a terceira, porque quando acaba de se aperfeiçoar a graça, então se começa a possuir a glória. E como o dia em que se cerrou o direito, em que se igualou a medida e em que se consumou a perfeição da graça imensa da Mãe de Deus foi o mesmo dia da sua gloriosa Assunção, e não em diferentes horas ou momentos daquele dia, senão na mesma hora e no mesmo momento em que acabou de consumar a imensidade da graça, começou a Senhora a gozar a imensidade da glória, não só foi piedade e devoção particular, senão justiça que neste dia fosse celebrada, como é, com título de Senhora da Graça. Tanto assim que em nenhum outro dia ou festa da Virgem Senhora nossa, se lhe pode dar própria e cabalmente o título da Graça, senão neste. E por quê? Porque em todos os outros dias sempre a sua graça ia crescendo; neste só chegou ao sumo grau de sua grandeza, e se viu toda junta e consumada. No dia da conceição foi a Senhora concebida em graça, mas essa graça cresceu desde a conceição até o nascimento, desde o nascimento até à apresentação no Templo, e desde a apresentação no Templo até à encarnação. No dia da Encarnação esteve a Senhora cheia de graça, mas essa graça foi crescendo até à visitação, da visitação até o parto, do parto até à purificação, da purificação até à morte e ressurreição e ascensão de seu Filho, e por tantos anos depois, em que viveu neste mundo, sempre cresceu mais e mais até o último instante da vida. Logo, em nenhum outro dia, senão no último da mesma vida, que foi o mesmo dia da Assunção da Senhora, se podia e devia celebrar própria e cabalmente a sua graça, porque só naquele dia se acabou de consumar a mesma Graça em toda sua perfeição e grandeza. E isto é o que faz esta nossa igreja.

Mas porque a graça da Virgem Maria foi consumada no dia em que acabou a vida temporal e a glória da mesma Senhora, também foi consumada no dia em que começou a eterna, para entrar na altíssima questão, que se não pode evitar nestes termos e neste dia, entre a graça e glória da mesma Senhora, ambas consumadas, e para resolver a qual pertence, conforme o nosso tema, a eleição da melhor parte: Maria optimam partem elegit — peçamos à mesma Senhora da Glória e da Graça nos assista de tal modo com sua graça que a mereçamos ver na sua glória. Ave Maria.

II – Razões do Evangelho da festa. Como concordar o Evangelho do dia com a glória e graça de Maria. Assunto do sermão: a qual destes dois títulos havemos de dar a preferência, e de qual havemos de dizer: Maria escolheu a melhor parte: de Maria enquanto Senhora da Graça, ou de Maria enquanto Senhora da Glória. Maria optimam partem elegit.

Ocupada Maria com toda a sua atenção em ouvir as palavras de seu e nosso divino Mestre, assentada a seus sagrados pés, e ocupada também Marta, com todo o seu cuidado, nas prevenções e polícias da mesa em que havia de servir e regalar a tão soberano hóspede, Maria, entendendo que ainda em lei de cortesia era maior obrigação a da sua assistência, e Marta, queixosa de que sua irmã a deixasse só, respondeu o Senhor à queixa de uma, e acudiu pelo silêncio de outra, pronunciando, como oráculo divino, que Maria escolhera a melhor parte: Maria optimam partem elegit. — Esta história tomada em alegoria, por não ter Evangelho próprio, aplica a Igreja Católica à presente solenidade da gloriosa Assunção da Virgem Senhora nossa. Não comparando Maria — a Madalena — a Marta, mas preferindo Maria — a Mãe de Deus — a toda a corte celestial, anjos e homens, divide a glória do céu em duas partes, uma que compreende todos os bem-aventurados, outra que unicamente pertence a Maria, e esta canta e apregoa que não só é melhor de qualquer modo, senão em grau superlativo ótima: Optimam partem elegit.

Por este modo se concorda muito acomodadamente o Evangelho com a glória da Virgem, Senhora nossa, mas a segunda dificuldade, que reservamos para este lugar, não consiste em concordar o Evangelho com a sua glória, senão com a sua graça. E que seria se eu dissesse que muito mais propriamente se concordam o mesmo Evangelho e as mesmas palavras com o título da Graça que com o da Glória da mesma Senhora? Assim o digo, e assim o provo. Porque tudo o que Maria adquiriu aos pés de Cristo, e as melhoras em que foi preferida à sua irmã, historial, literal e propriamente eram da graça, e não da glória. Confirma-se do mesmo texto, o qual diz que Maria estava ouvindo ao Senhor: Audiebat verbum illius[2]. — Não diz que via, senão que ouvia, e ouvir que é o sentido da fé, pertence a esta vida, onde a alma se melhora pela graça, e não à outra, em que se beatifica pela vista. Logo, quanto à concórdia do Evangelho com o título, muito melhor concordado o temos com o título da graça que com o da glória. Porque à glória só se atribui em parábola e por acomodação, e da graça fala historial, própria e naturalmente.

Só resta a comparação de uma parte boa e outra melhor, e a vantagem de quem conseguiu a ótima: Optimam partem elegit. — Na comparação literal, Maria Madalena foi preferida a Marta na melhoria da graça: na comparação alegórica, Maria, Mãe de Deus, foi preferida a todos os bem-aventurados na melhoria da glória. Porém, na comparação nossa, e desta igreja particular, em que a festejamos debaixo do título da Graça, no mesmo dia em que a Igreja universal a celebra debaixo do título da Glória, quando a comparada não pode ser senão a mesma Senhora consigo, nem a comparação pode ser outra, senão entre a mesma graça e a mesma glória, a qual destes dois títulos havemos de dar a preferência, e de qual havemos de dizer Maria optimam partem elegit: de Maria enquanto Senhora da graça, ou de Maria enquanto Senhora da glória? Este será o altíssimo ponto do nosso discurso. E, posto que ambos os títulos na Mãe de Deus sejam imensos, para maior glória da mesma Senhora daremos a preferência ao título da sua Graça. Ó se a mestra Senhora da Graça nos assistisse com a sua, para penetrarmos ou nos deixarmos bem penetrar desta verdade!

III – De quanto os bens sobrenaturais, quais são a graça e a glória, excedem incomparavelmente os bens naturais. Primeira razão por que mais se deve escolher a graça que a glória: a graça envolve consigo a glória. As preciosas promessas de Deus à graça, com que nos faz participantes da natureza divina. A esperança e a glória na epístola de S. Paulo a Tito.

Para demonstração e inteligência dela — que não é fácil, ainda aos maiores entendimentos — havemos de supor que, assim a graça como a glória, são bens sobrenaturais. E se me perguntardes — como deveis perguntar, ou todos, ou quase todos — que coisa é bem sobrenatural, haveis de saber que é um bem o qual na nobreza, no preço e na dignidade, excede a todos os bens da natureza, assim visíveis, como invisíveis. E para que declaremos este excesso com algum exemplo, será como um diamante comparado com as pedras da rua? Será como o sol comparado com a sombra? Será como um homem comparado com uma formiga? Será como um serafim comparado com uma borboleta? Não. Porque a pedra e o diamante, o sol e a sombra, o homem e a formiga, o serafim e a borboleta, tudo são coisas naturais e criadas por Deus enquanto autor da natureza, e como são naturais, nenhuma delas tem comparação com o que é sobrenatural. Tanto assim que, se Deus criasse, como pode, outros mil mundos mais perfeitos que este, e povoados de criaturas muito mais nobres e excelentes, sempre o sobrenatural as excederia incomparavelmente, porque é grau muito superior a tudo o que compreende em si a esfera da natureza. E tais são a graça e a glória, que só se podem comparar entre si, como nós as comparamos nesta nossa questão.

Digo, pois, ou tomo a dizer que, havendo de fazer escolha entre a glória e a graça, conforme o nosso tema: Maria optimam partem elegit — antes devemos escolher a graça que a glória. E isto não por uma razão, senão por muitas. Seja a primeira, porque a graça envolve consigo a glória, e ainda que possa haver graça sem glória, não pode haver glória sem graça. A graça é fundamento da glória, e a glória é conseqüência da graça; a graça a ninguém é devida, e a glória é devida a todo o que está em graça. Diz o apóstolo S. Pedro que na graça, que é a forma com que Deus nos faz participantes da natureza divina, nos deu as maiores e mais preciosas promessas. Este é o sentido daquelas palavras: Per quem maxima et pretiosa nobis promissa donavit, ut per haec efficiamini divinae consortes naturae[3]. — De sorte que na dádiva nos deu Deus a dádiva e mais as promessas. Mas, se as promessas são de futuro, e a dádiva de presente, como nos deu as promessas na dádiva? Porque as promessas futuras são a glória e bem-aventurança, que havemos de gozar no céu; a dádiva presente é a graça de que já gozamos na terra; e porque na graça se envolve a glória e bem-aventurança que lhe é devida, por isso quando nos deu a dádiva, nos deu juntamente as promessas: Maxima et pretiosa nobis promissa donavit.

Assim declaram este famoso lugar de S. Pedro os mais doutos e mais literais expositores, mas eu tenho outro melhor expositor que todos eles, o real profeta: Quia misericordiam et veritatem diligit Deus, gratiam et gloriam dabit Dominus (Sl. 83, 12). Porque Deus ama a misericórdia e a verdade, por isso dará a graça e mais a glória. — Reparemos muito naquele quia: porque. Pois, por que Deus ama a misericórdia e a verdade, por que Deus é misericordioso e verdadeiro, essa é a razão, ou essas são as razões por que há de dar a graça e mais a glória? Sim. A graça porque é misericordioso, e a glória porque é verdadeiro. Como a graça com que Deus nos perdoa os pecados, e nos reconcilia consigo, a ninguém é devida, toda é liberalidade e dádiva de sua misericórdia; porém, a glória, como Deus a tem prometido a todo o que estiver em graça pertence à sua verdade, porque, como verdadeiro, não pode faltar ao que tem prometido. Excelentemente Santo Agostinho: Ille qui tribuit misericordiam, servat veritatem, indulgentiam donavit, coronam reddet. Donator est indulgentiae, debitor coronae: O mesmo Deus — diz Agostinho — que na graça nos mostrou a sua misericórdia, na glória nos mostrará a sua verdade. Na graça a sua misericórdia, porque nos deu a indulgência, que não devia; e na glória a sua verdade, porque nos dará a coroa de que se fez devedor: Donator indulgentiae, debitor coronae — e o modo com que se fez devedor não é porque recebesse de nós alguma coisa que nos haja de pagar, mas porque ele nos prometeu o que não pode deixar de cumprir: Debitorem Dominus ipse fecit se, non accipiendo, sed promittendo. Non ei dicitur, rede quod accepisti, sed redde quod promisisti. — E como nos arquivos da graça estão depositados os créditos da glória, vede se se deve antes escolher a graça que a glória, pois a graça e a glória tudo pertence à graça.

Por esta conexão infalível da graça com a glória chamou S. Paulo bem-aventurada à esperança com que nesta vida esperamos a mesma glória: Expectantes beatam spem, et adventum gloriae magni Dei[4] — Mas, para que nos não enganemos com esta esperança, como com as demais que tanto costumam enganar, é necessário advertir que há uma grande diferença entre os fundamentos dela. O lugar da esperança é entre a fé e a caridade: se a esperança se funda somente na fé, não é verdadeiramente bem-aventurada, porque tem a bem-aventurança duvidosa; mas se se funda na caridade, que é a graça, então é certamente bem-aventurada, e sem nenhuma dúvida, porque lhe não pode Deus negar a bem-aventurança e glória que espera: Expectantes beatam spem, et adventum gloriae magni Dei.

IV – Segunda razão por que mais se deve escolher a graça que a glória: a graça consiste em amar e ser amado de Deus, a glória em ver ao mesmo Deus. Vantagens do amar vendo sobre o amar sem ver Se os serafins no céu, assim como têm o supremo lugar na suprema jerarquia, assim são os que mais lêem e mais amam a Deus, como se mostraram a Isaías com os olhos cobertos para não ver, e só com o peito aberto para amar? As finezas do amar sem ver. Diferença verdadeiramente seráfica com que amam na terra os bem-aventurados da graça, e, no céu, os da glória. A recíproca correspondência de amor entre Deus e o homem que está em graça nas palavras insolentes da Alma dos Cantares.

A segunda razão por que mais se deve escolher a graça que a glória, é tirada da definição e essência de uma e outra. A graça consiste em amar e ser amado de Deus, a glória em ver ao mesmo Deus; e, posto que o ver a Deus seja a maior felicidade, quem negará a vantagem à correspondência do amor infinitamente desigual, mas recíproca, do homem para com Deus, e de Deus para com o homem? A verdade desta soberaníssima correspondência o mesmo Deus a fez de fé quando disse: Ego diligentes me diligo[5]. — Mas, ainda compreendo o ver a Deus só com o amar a Deus de nossa parte, nenhum entendimento haverá justo e desinteressado que não escolhe antes o amar, E se não, tomemos por juízes aos que mais vêem e mais amam a Deus, que são os serafins. Ao lado do trono de Deus no céu viu o profeta Isaías dois serafins, os quais com duas asas cobriam os olhos, e com outras duas cobriam o peito: Duabus alis velabant fatiem ejus, et duabus volabant[6]. Todos os anjos vêem e amam a Deus, e quanto mais vêem mais amam; e quanto mais vêem, e mais amam, mais alto e mais eminente lugar tem cada um na sua jerarquia. Pois, se os serafins, segundo esta ordem, assim como têm o supremo lugar na suprema jerarquia, assim são os que mais vêem e mais amam a Deus, como se mostraram ao profeta com os olhos cobertos para não ver, e só com o peito aberto para saber? Para amar, digo, e para mais amar, porque o movimento das asas — não sendo para voar, porque estavam firmes — mais era para tolerar o incêndio do amor, como dizem uns intérpretes, ou para mais o excitar e acender, como dizem outros[7]. Pois, se tanto amam, e tanto e tão ardentemente estão amando, como parece que apagam com umas asas o mesmo que acendem com outras, e como negam ao mesmo amor a vista do objeto amado?

Duas respostas tem esta bem fundada dúvida. À primeira, que cobriam os olhos para não ver quando abriam o peito para amar, sendo o objeto da vista e do amor o mesmo Deus, porque mais se prezam os serafins, e mais estimam na felicidade suprema do seu estado e singularidade do amor que a preeminência do ver. Por isso, como nota S. Dionísio Areopagita, a denominação do entendimento, que são os olhos com que se vê a Deus, a deixaram aos querubins, que estão um grau mais abaixo, e tomaram para si a antonomásia do incêndio com que se abrasam no amor do mesmo Deus, chamando-se serafins, que quer dizer os ardentes. A segunda razão, e muito mais alta, é que fecham os olhos quando abrem o peito, porque têm por maior fineza e mais digna do mais perfeito amor o amar sem ver do que amar vendo. É o que encareceu S. Pedro nos primeiros professores do Cristianismo, dizendo que, sem ver a Deus, o amavam: Quem cum non videritis, diligitis[8]. — E é a diferença verdadeiramente seráfica com que amam na terra os bem-aventurados da graça, e no céu, os da glória. Os da glória amam a Deus, mas vendo-o; os da graça também o amam, mas sem o ver.

E se esta vantagem têm enquanto somente amam a Deus, que é uma parte da graça, que será enquanto amam a Deus e são amados de Deus, em que consiste toda? Esta recíproca correspondência de amor entre Deus e o homem que está em graça declarou a alma dos Cantares, quando disse: Dilectus meus mihi, et ego illi (Cânt. 2, 16): Deus é o meu amado, e eu sou a amada de Deus. — E sendo Deus quem é por sua infinita grandeza e soberana, e sendo o homem quem é — ou quem não é — por sua vileza e baixeza, em respeito de Deus também infinita, quem haverá que não estranhe e se assombre desta confiança e igualdade de falar: Ille mihi, et ego illi: Ele o meu amado, e eu a sua amada? — S. Bernardo, comentando estas duas palavras, não duvidou de chamar a cada uma delas insolente, e a ambas insolentíssimas: Insolens verbum et ego illi, nec minus insolens dilectus meus mihi, nisi quod utroque insolentius utrumque simul[9]. — Mas a alma que isto disse era uma alma que estava em graça, e é tanta a alteza a que a mesma graça levanta a alma, não só enquanto ama, senão enquanto ama e juntamente é amada de Deus, que o que podia parecer insolência da parte do homem, da parte de Deus é justa condescendência, tratando-se com tal familiaridade Deus com o homem, e o homem com Deus, como se foram iguais: Quasi ex aequo morem gerere, et rependere vicem — como nota o mesmo S. Bernardo. Comparai-me agora o amar a Deus no céu por razão da vista, com este ser amado de Deus na terra por razão da graça. Os bem-aventurados no céu dirão que, porque vêem a Deus, amam necessariamente a Deus; e nós diremos na terra que, porque estamos em graça de Deus, somos amados necessariamente de Deus. Sobre esta minha proposição cabia melhor ainda a censura de insolente, se não fora de fé, como é. Se a vista de Deus necessita aos bem-aventurados a amar a Deus, também a graça necessita a Deus a amar ao homem. A vista necessita aos bem-aventurados a amar a Deus, por que não podem deixar nem cessar de amara Deus; e a graça necessita a Deus a amar ao homem, porque não pode Deus deixar, nem cessar de amar ao homem que está em graça

V – Terceira razão por que se deve antes escolher a graça que a glória: a graça faz ao homem filho de Deus, a glória herdeiro. A estimação que merece o altíssimo nascimento de filhos de Deus. O que diz S. João Evangelista: o mundo não nos estima, por que não conhece a Deus, de quem sorvos filhos. A herança de Deus e a herança dos servos. O erro do Filho Pródigo em estimar mais o ser herdeiro que filho.

A terceira razão ou vantagem por que, prescindindo a graça da glória — que é o sentido em que falamos — se deve antes escolher a graça, é porque a graça faz ao homem filho de Deus, a glória herdeiro. Se os homens conheceram o que encerra este nome, filho de Deus, e como a graça não só nos dá o nome, senão o ser do que o nome significa, que diferentemente estimariam em si e reverenciariam nos outros este nascimento infinitamente mais que real! Se nascer de Filipe em Espanha, ou de Luís em França, ou de Ferdinando em Alemanha se tem com razão pela maior fortuna, qual será a daqueles, dos quais se diz com verdade: Non ex sanguinibus, sed ex Deo nati sunt[10]? — Os outros nascimentos estimam-se pelo sangue: o dos filhos de Deus por não sangue. Mas a causa de os homens não fazerem deste altíssimo nascimento a estimação que merece é porque não conhecem a Deus. Se não conhecem o pai, como hão de estimar os filhos? Assim o ponderou com profundíssimo pensamento o evangelista S. João: Videte qualem charitatem dedit nobis Pater, ut filii Dei nominemur et simus. Propter hoc mundus non novit nos: quia non novit eum: (1 Jo. 3, 1): Vede o que chegou a nos dar a imensa caridade do Eterno Padre, um dom tão excelente e sobre-humano, e um foro tão chegado à sua própria divindade, que não só nos chamemos filhos de Deus, mas que verdadeiramente o sejamos. — E se o mundo não estima como devia aos que somos filhos deste Pai, é porque o não conhece a ele: Propter hoc mundus non novit nos: quia non novit eum. — Como se dissera a Águia dos evangelistas: — Eu sou desprezado, porque o mundo conhece o Zebedeu de quem sou filho por natureza, e não me estima como devera, porque não conhece a Deus, de quem sou filho por graça.

Notai o que diz e não diz S. João. Parece que havia de dizer que o mundo não nos estima, porque não conhece que somos filhos de Deus; mas não diz assim, senão que o mundo não nos estima, porque não conhece a Deus, de quem somos filhos: Propter hoc mundus non novit nos: quia non novit eum. — De sorte que, porque o mundo nos não conhece por filhos de Deus se segue que não conhece a Deus? Sim. E a razão é por que presume e faz conceito de Deus não como de Deus, senão como de homem. O homem só perfilha e faz herdeiro ao servo quando não tem filho próprio. Assim disse Abraão a Deus que, suposto não ter filho, seria seu herdeiro Eliezer, seu servo: Ego vadam absque liberis, et Eliezer, vernaculus meus, haeres meus erit[11]. — E depois que Deus deu a Abraão um filho, que foi Isac, disse Sara, sua mulher, que lançasse fora a Ismael, filho da escrava, porque não havia de ser herdeiro com seu filho: Ejice ancillam, et filium ejus, non enim erit haeres filius ancillae cum filio meo Isaac[12]. — Isto é o que fazem os homens, e o mesmo presume e cuida de Deus quem o não conhece: Quia non novit eum. — Como Deus tem filho próprio e natural, igual em tudo a si mesmo, e nós os homens somos servos, cuida o mundo ignorante que não havia de fazer Deus aos servos herdeiros com o filho. Mas é tanto pelo contrário que, para que os servos fossem herdeiros com o filho, sendo servos por natureza os fez primeiro filhos por graça. Expressamente S. Paulo: Ipse enim spiritus testimonium reddit spiritui nostro quod sumus filii Dei. Si autem filii, et haeredes: haeredes quidem Dei, cohaeredes autem Christi: si tamen compatimur ut et conglorificemur[13].

Nesta última palavra conglorificemur, e na palavra cohaeredes declara o apóstolo que, assim como a graça nos faz filhos, assim a glória nos faz herdeiros, para que nos agora vejamos se nos havemos de prezar mais de herdeiros que de filhos, e se havemos de estimar mais a herança ou o nascimento. Cá, onde os pais são homens, pode suceder, e sucede muitas vezes, ser o nascimento tão baixo e tão vil, e a herança tão copiosa e tão rica, que se despreze o nascimento e se estime a herança; mas onde o pai é Deus, tão infinito na nobreza como na essência, ainda que seja a glória a que nos faz herdeiros, claro está que sempre havemos de estimar, não só mais, senão infinitamente mais a graça que nos faz filhos. Esse foi o erro e o acerto daqueles dois filhos do pai que representava a Deus, um louco, outro sisudo. O louco, que era o Pródigo, em vida do pai pediu que lhe desse a sua herança, porque estimava mais o ser herdeiro que filho; porém o sisudo, que era o irmão mais velho, deixou-se ficar sempre na casa do pai, sem falar, nem se lembrar da herança, porque tanto menos estimava a herança que o nascimento, como se fora só filho, e não herdeiro. E isto é o que deve fazer todo aquele que, com juízo maduro e inteiro, comparar a graça e a glória.

VI – Quarta razão desta preferência: melhor é a graça que a glória, porque pior é não amar a Deus que não ver a Deus, Os dois mais famosos exemplos desta teologia, Moisés e S. Paulo. Os riscos a que se expõem os ministros do Evangelho em terras do Brasil. Quanto fosse agradável a Deus o excesso de caridade de S. Paulo e Moisés, renunciando a vista de Deus pelo amor do próximo.

A quarta razão desta preferência, é tão sutil e bem argüida como seu autor. — Aquilo é melhor — diz Scoto — cujo oposto é pior: o oposto da glória, que consiste em ver a Deus, é não ver a Deus; o oposto da graça, que consiste em amar a Deus, é não amar a Deus: logo, melhor é a graça que a glória, por que pior é não amar a Deus, que é o oposto da graça, que não ver a Deus, que é o oposto da glória. E que seja pior não amar a Deus que não ver a Deus, é manifesto, porque não querer ver a Deus, não só pode ser lícito, senão meritório, e querer não amar a Deus, não só é sempre pecado, e gravíssimo pecado, mas não é possível motivo que o faça tolerável ou lícito.

No Testamento Velho e Novo temos dois famosos exemplos desta teologia nos dois maiores heróis da caridade, Moisés e Paulo. Determinado Deus a acabar de uma vez com o povo de Israel, pela idolatria do bezerro, opôs-se Moisés a esta determinação que Deus lhe revelara, dizendo: Aut dimitte eis hanc noxam, aut si non facis, dele me de libro tuo quem scripsisti (Êx. 32, 31 s): Ou vós, Senhor, haveis de perdoar ao povo este pecado, ou se não fazei o que vos peço: riscai-me do vosso livro. — Este livro, como consta de muitos lugares da Escritura, é o livro em que estão escritos os que são predestinados para a glória. Mas paremos aqui, e vamos a S. Paulo. S. Paulo declarando o grande sentimento que tinha de ver como os da sua nação não queriam crer em Cristo, e se precipitavam obstinadamente à perpétua condenação, diz que por eles desejava fazer um tal sacrifício de si mesmo a Deus, que Deus o privasse eternamente da glória, que consiste na sua vista, contanto que a mesma glória de que ele se privava, a houvessem eles de gozar, crendo em Cristo. Isto é o que querem dizer aquelas animosas palavras: Optabam ego ipse anathema esse a Christo pro fratribus meis, qui sunt cognati mei secundum carnem[14]. — E assim entendem este texto, e o de Moisés, S. João Crisóstomo, Teofilato, Ecumênio, Ruperto, Cassiano, Orígenes, S. Bernardo, entre teólogos e intérpretes é a sentença mais literal e comum.

Antes porém que cerremos este ponto, não quero passar em silêncio uma advertência muito necessária a esta nossa terra. Os que só estimam o que se vê com os olhos, quando vêem que se embarcam para estas partes, ou outras, povoadas de gentios, os ministros evangélicos, não se podem persuadir, senão que os traz ou leva a elas algum motivo ele interesses temporais. E certo que para desfazer este engano bastava a consideração que fazia um homem muito bem entendido, quando se embarcava de Roma para os desterros do ponto Euxino: Vel quo festinas ire, vel unde, vide: Olha donde vás, e para onde. — Esses cujos intentos tão grosseiramente julgais, vede donde vêm e para onde, e considerai — ainda temporalmente — o que lá deixam e o que cá acham. Mas a razão porque avaliais tão baixamente os riscos dos mares, as incomodidades das terras, e a estranheza dos climas a que expõem a vida, é porque não conheceis, como eles, o valor das almas. Parece-vos que fazia bem Moisés, e que fazia bem S. Paulo em quererem trocar a glória e bem-aventurança do céu pela salvação das almas de seus próximos? Não creio que seja tão rude a vossa fé, que digais que faziam mal. Pois, muito menos é trocar Portugal que o céu, e querer salvar as almas próprias e mais as alheias, que levar a ver a Deus as alheias, à custa de o não ver por toda a eternidade. E isto é o que fazia, não só depois de Cristo S. Paulo, senão antes de Cristo Moisés.

Agora pergunto: estes dois homens tão valentes e tão deliberados, que assim se resolviam a não ver a Deus, supunham também com o ímpeto e fervor da mesma resolução que o não haviam de amar? Absit: de nenhum modo. Porque, assim como por um motivo tão pio, e de tanta caridade, seria ação não só lícita, mas heróica, oferecer-se a não ver a Deus, assim seria não só ilícita, mas ímpia, querer-se expor a o não amar. Antes, é certo que quanto mais renunciavam a vista de Deus pelo amor do próximo, tanto mais fortes raízes lançavam no amor do mesmo Deus. Ouçamos a eloqüência de Crisóstomo, argüindo neste caso a S. Paulo: Quid ais, Paule, nonne jam dixisti: Quis nos separabit a charitate Christi (Rom. 8, 35)? E bem, Paulo, não sois vós aquele que já dissestes que nenhuma coisa vos separaria do amor de Cristo? — Não sois aquele que queríeis que a vossa alma se desatasse do vosso corpo, para estar sempre com ele? Pois, como agora quereis carecer de o gozar e ver por toda a eternidade! — Antes, por isso mesmo, responde em nome de S. Paulo o mesmo Crisóstomo. — Porque eu amo muito a Cristo, por isso me quero privar de o ver e gozar, para que em lugar de mim, que sou um só, o vejam e gozem muitos, e, segundo o meu desejo, o amem e louvem todos: Imo quia amo Christum cupio separari a fruitione Christi, ut plures, imo omnes eum aument et laudent. — E quanto fosse agradável a Deus este excesso de caridade, assim em S. Paulo como em Moisés, posto que a nenhum deles aceitou o oferecimento, se viu bem nas mercês com que depois honrou a um e a outro, fazendo geralmente, e para com todos, tal diferença entre a sua graça e a sua glória, que a quem não quer a sua graça, castiga-o com o privar da glória, e a quem por semelhante motivo não quiser a sua glória, premia-o com lhe aumentar a graça.

VII – Outras razões porque a graça deve ser preferida à glória. Pela graça não só é lícito e louvável renunciar à glória do céu, senão também querer antes padecer as penas do inferno, segundo a famosa resolução de S. Anselmo. Se imos ao céu moramos com Deus, mas se estamos em graça, não só mora Deus conosco, senão em nós. Vantagens dos bem-aventurados da graça na terra sobre os bem-aventurados da glória no céu. A glória que havemos de gozar no céu pela vista já a possuímos na terra pela graça. Por que diz S. Pedro que a glória não só está guardada no céu para nós, senão que está em nós?

Mui dilatada coisa seria se houvéssemos de ponderar, como até agora, as outras razões desta diferença; mas porque não é bem que totalmente fiquem em silêncio, de corrida as irei apontando. Seja a quinta, que por conservar a graça, não só é lícito e louvável renunciar à glória do céu, senão também querer antes padecer as penas do inferno. Isto não pretendeu Moisés nem S. Paulo, mas é resolução famosa de Santo Anselmo, e à qual no mesmo caso está obrigado todo o cristão: Si hinc peccati pudorem, et illinc cernerem inferni horrorem, et necessario uni illorum haberem immergi, prius me in infernum immergerem, quam peccatum in me admitterem[15]: Se de uma parte — diz Anselmo — se me pusesse o pecado, e da outra o inferno, com todo o seu horror, e me fosse necessário escolher um dos dois, antes me havia de lançar logo no inferno que admitir em mim o pecado. Mais: e se fosse possível — como de potência absoluta não repugna[16] — ver um homem a Deus no céu, estando em pecado, qual seria no tal caso mais ditoso: este homem ou Anselmo? Não há dúvida que Anselmo, porque Anselmo no inferno conservava a graça, ainda que padecia as penas dos condenados, e o outro no céu, posto que via Deus, em que consiste a glória dos bem-aventurados, não estava em graça.

Mais ainda: e não supondo casos extraordinários, senão o que de fato está sempre obrando Deus no céu e na terra, no céu sempre Deus está comunicando a sua vista aos que depois da morte são dignos da glória, e na terra sempre está comunicando a sua graça aos vivos que se dispõem para ela. E por que modo, ou com que diferença de autoridade e honra comunica Deus a uns e outros a sua vista e a sua graça? Bendita seja a divina bondade, nunca nas demonstrações mais divina! àqueles a quem comunica a sua glória, leva-os ao céu, e dá-lhes lugar na sua corte; porém àqueles a quem comunica a sua graça, vem ele em pessoa a dar-lha, e fá-los morada sua. Se imos ao céu, moramos com Deus, mas se estamos em graça, não só mora Deus conosco, senão em nós. E para que em nada seja menor esta assistência pessoal de Deus em nós que a vista do mesmo Deus nos que estão na glória, concordam os teólogos que, para ser verdadeiramente bem-aventurado o que vê a Deus, não basta só ver ao Padre, ou ao Filho, ou ao Espírito Santo, mas é necessário ver todas as três pessoas divinas, porque só deste modo é ver a Deus como ele é: Tunc videbimus eum sicuti est[17], — Pois, assim como no céu os bem-aventurados da vista não só vêem uma pessoa da Trindade, senão todas três, assim na terra os bem-aventurados da graça, não só têm dentro em si o Padre, ou o Filho, ou o Espírito Santo, senão todo Deus trino e um em todas as pessoas. E isto com tanta diferença e vantagem, quanta vai de objeto a morador. É texto expresso do mesmo Cristo: Si quis diligit me, sermonem meum servabit, et ad eum veniemus, et mansionem apud ipsum faciemus[18]. — Qui diligit me — eis aí a graça; et ad eum veniemus — eis aí as três pessoas divinas; et mansionem apud ipsum faciemus — eis aí a morada perpétua, e assistência permanente.

Mais, outra vez, posto que, depois do que acabamos de dizer, pareça que não pode haver mais. E a razão desta nova diferença ou vantagem é que a glória que havemos de gozar no céu pela vista, já a possuímos na terra pela graça. Escrevendo o apóstolo S. Pedro aos novos cristãos do Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia, onde, sendo Sumo Pontífice e Vigário de Cristo, tinha ido pregar a fé para que vejais outra vez quão alto ministério é o da conversão dos gentios, tão pouco conhecido da gente rude — diz estas notáveis palavras: Benedictus Deus Pater Domini nostri Jesu Christi, qui secundum misericordiam suam magnam regeneravit nos in haereditatem incorruptibilem, et incontaminatam, et immarcescibilem, conservatam in caelis et in vobis (1 Pdr. 1, 3 s). — Quer dizer: Bendito seja Deus, Pai do nosso Senhor Jesus Cristo, o qual pela graça do Batismo nos gerou segunda vez para a glória incorruptível e perpétua, que está guardada no céu e em nós. — Nestas duas últimas palavras — no céu e em vós — in caelis, et in vobis — está o maravilhoso desta sentença. Que a glória esteja guardada no céu, bem se entende, porque o céu é o lugar da glória, e no céu é que a havemos de gozar: mas, se aqueles com quem falava S. Pedro estavam na terra, como nós estamos, por que lhes diz que essa mesma glória não só está guardada no céu, senão neles mesmos, e em nós: Servatam in caelis et in vobis[19]? — Porque acabava de lhes lembrar que estavam gerados segunda vez pela graça do Batismo, como nós estamos, e essa mesma glória, que depois havemos de gozar no céu pela vista, já agora a possuímos na terra pela graça. De sorte que o cristão que está em graça, quando vai ao céu, não só leva o direito para a glória consigo, senão a posse da mesma glória em si. Por isso não diz que está guardada para nós, senão em nós: In caelis et in vobis. — Veja agora cada um se escolheria antes a posse do bem, ou presente ou futura, ou dentro em si ou fora.

VIII – O amor e desejo bem ordenado da glória não há de ser por amor da glória, senão por amor da graça, como diz S. João Crisóstomo. Moisés e o desejo da glória. Última razão de escolher antes a graça que a glória: a esterilidade da glória e a fecundidade da graça. A visão de S. João no Apocalipse, e os quatro animais cheios de olhos que assistiam em roda do trono de Deus. Se todos os animais tinham asas, por que só S. João, representado pela águia, voava?

Mais ainda. Diz S. João Crisóstomo que, assim como não havemos de temer o inferno por horror das penas, senão por ter ofendido a Deus e perdido sua graça, assim não havemos de desejar o céu principalmente por amor da glória, senão por gozar da mesma graça, e amar ao mesmo Deus eternamente: Ut gehennam timere non debemus propter ignem, sed quia offendimus tam bonum Dominum, et ab illius gratia sumus aliem: ita ad regnum nobis festinandum propter amorem in illum, ut ejus gratia fruamur[20]. — De maneira que o amor e desejo bem ordenado da glória, não há de ser por amor da glória, senão por amor da graça. É erro em que caiu Moisés, mas de que logo se emendou no mesmo ato com admirável retratação de palavras. Tinha Deus dito a Moisés que estava em sua graça: invenisti gratiam coram me[21]. — E sobre esta suposição de estar em sua graça instou Moisés, dizendo: Si ergo inveni gratiam in conspectu tuo, ostende mihi faciem tuam, ut sciam te, et inveniam gratiam ante oculos tuos (Ex. 33, 13): — Pois, Senhor, se já estou em vossa graça, concedei-me a vista de vosso rosto, para que esteja em vossa graça. — Quem haverá que não veja e note nestas palavras como Moisés, no mesmo ato de as pronunciar, trocou a ordem com que as começou a dizer, e com que acabou? Quando começou, ordenou a graça de Deus para a vista de Deus: Si inveni gratiam in conspectu tuo, ostende mihi fatiem tuam — e quando acabou, ordenou a mesma vista de Deus para a mesma graça de Deus: Ostende mihi fatiem tuam ut inveniam gratiam ante oculos tuos. — Pois a mesma graça, nas primeiras palavras, é meio para alcançar a vista de Deus, e logo a mesma vista de Deus, nas segundas palavras, é meio para alcançar a mesma graça? Sim, porque assim emendou Moisés, e melhorou o seu desejo. Ordenar a graça para a glória, e fazer a glória fim da graça, bom desejo é; mas ordenar a glória para a graça, e fazer a graça fim da glória, é muito melhor desejo. Por quê? Porque a graça antes da glória está perigosa, e depois da glória está segura. E, posto que é bom desejo querer a graça para gozar a glória, muito melhor desejo, e muito mais alto pensamento, é desejar a glória por segurar a graça. O primeiro fez Moisés, com menos, consideração, quando disse: Si inveni gratiam in conspectu tuo, ostende mihi faciem tuam: — e o segundo, com muito mais fino e prudente juízo, dizendo: Ostende mihi fatiem tuam, ut inveniam gratiam ante oculos tuos.

Finalmente, seja a última razão de escolher antes a graça que a glória, a esterilidade da mesma glória e a fecundidade da mesma graça. A glória no céu é uma felicidade grande, mas felicidade que não cresce, porque uma glória não causa outra glória; porém, a graça na terra é uma felicidade ou uma bem-aventurança que sempre cresce, porque sempre uma graça está produzindo outra graça. Depois que o evangelista S. João declarou a glória de Cristo pela superabundância de graça de que estava cheio: Vidimus gloriam ejus, quasi unigeniti a Patre, plenum gratiae et veritatis[22] — diz que desta enchente, como de fonte perene, recebemos todos a graça, e não uma só graça, senão uma sobre outra, sempre mais e mais, que isso quer dizer: De plenitudine ejus omnes accipimus gratiam pro gratia[23]. — Onde se deve muito notar que, tendo falado na glória e graça de Cristo, só da graça diz que recebemos por graça, e graça sobre graça, e da glória não, porque no céu não dá Deus glória por glória, ou uma glória sobre outra. Este privilégio e esta prerrogativa é só da graça. E quão superior seja por isso mesmo à glória do céu, em nenhum outro dos que muito cresceram na graça o podemos ver melhor, que no mesmo S. João. Viu S. João no seu Apocalipse a Deus assentado em trono de majestade, e que o assistiam em roda do trono quatro animais misteriosos, todos cheios de olhos, o primeiro semelhante a leão, o segundo a bezerro, o terceiro a homem, o quarto a águia. Ninguém ignora que nestes quatro animais eram representados os quatro evangelistas — S. Marcos no leão, S. Lucas no bezerro, S. Mateus no homem, S. João na águia — e todos cheios de olhos — ante, et retro — porque todos na parte posterior tinham as notícias da divindade, e na anterior as da humanidade de Cristo, de quem escreveram. Vindo, pois, a S. João, dá-lhe o texto o quarto lugar, e diz que só ele voava: Et quartum animal simile aquilae volanti[24]. — Pois, se S. João, entre todos os evangelistas, foi o que mais altamente escreveu, por que se lhe dá o último lugar? E se todos os outros animais tinham asas, por que se diz que só ele voava? Primeiramente dá-se a S. João o último lugar, porque ele escreveu depois dos outros evangelistas, e não menos que trinta anos depois, havendo outros tantos que S. Mateus, S. Marcos e S. Lucas eram já mortos. Mas daqui mesmo se acrescenta mais a segunda dúvida, por que, se os outros três Evangelistas estavam já no céu vendo a Deus, como voava ele só estando na terra? Por isso mesmo. Porque os outros estavam gozando na glória, donde se não sobe, e S. João estava merecendo na graça, onde sempre se cresce. — Eu vos prometo, diz S. Bernardo, que se Deus desse licença aos bem-aventurados que o estão vendo no céu para virem à terra a merecer e crescer a maior graça, que todos aceitariam este partido, deixando a glória, para depois voarem à mesma glória mais cheios de graça. Logo, se a escolha se faria no céu, onde se não pode fazer, por que se não fará na terra? Em S. João não foi eleição sua; mas é certo que ele foi o mais amado, e, quando os menos amados viam, ele voava.

IX – Tudo o que até agora se disse, assim como foram prerrogativas da graça, assim foram excelências da Senhora, debaixo do mesmo título, Os três estados de perfeição na graça da Virgem Maria. Se todas as três Pessoas da SS. Trindade desejavam ver a Virgem Maria no trono da glória, por que não só permitiram, mas quiseram que ela ficasse na terra pelo espaço de vinte e quatro anos?

Até aqui temos visto as razões por que, comparada a glória com a graça, se deve escolher antes a graça que a glória. E se alguém cuidar que não falamos até agora no que principalmente devíamos falar, que é a Virgem, Senhora nossa da Graça, cuja festa celebramos, digo que o que até agora disse, assim como foram prerrogativas da graça, assim foram excelências da Senhora debaixo do mesmo título. Santo Tomás, com seu mestre Alberto Magno, distinguem na graça da Virgem Maria três estados de perfeição: o primeiro, desde o princípio de sua conceição, a que chamam de suficiência; o segundo, desde o ponto em que concebeu o Verbo Eterno, a que chamam de abundância; o terceiro, por todo o tempo da vida até a morte, a que chamam de excelência singular. Por todas as razões, pois, que referimos, muito melhor e mais altamente entendidas, comparando-se a Senhora consigo mesma, como aquela singularíssima alma, que, sobre todas as criaturas, amou e foi amada de Deus, também não pode deixar de estimar mais a graça que a glória, pois no mesmo amor recíproco consiste a graça. Estimou mais a graça que a glória, não por assegurar no céu a mesma graça, em que fora confirmada desde o instante de sua conceição, mas por aumentar mais e mais o amor que lá se iguala com a vista por toda a eternidade. Batalhava no coração da Mãe de Deus o mesmo amor, por uma parte com o desejo de mais depressa o ver, e por outra com a razão de mais o amar eternamente, e porque este motivo foi o vencedor, por isso escolheu como melhor parte a da graça: Maria optimam partem elegit.

Naquelas palavras: Indica mihi, quem diligit anima mea, ubi pascas, ubi cubes in meridie[25] — manifestou o amor da Senhora quanto desejava ver a Deus no meio-dia da glória; e a resposta foi que mais convinha por então que, na ausência de seu Filho, ficasse apascentando o seu rebanho: Abi post vestigia gregum tuorum, et pasce haedos tuos juxta tabernacula pastorum[26]. — Assim o fez a Senhora, sendo dali por diante o oráculo de toda a Igreja, e mestra dos mesmos apóstolos, não só em Jerusalém e na Judéia, mas peregrinando a outras partes do mundo. Durou, não digo este desterro da glória, mas esta ausência de seu Filho, não menos que vinte e quatro anos depois que ele tinha subido ao céu, como prova o cardeal Barônio, fundado no testemunho irrefragável de S. Dionísio Areopagita, até que, finalmente, em tal dia como hoje, foi chamada a benditíssima Mãe a receber da mão de seu Filho, e gozar por toda a eternidade a coroa imensa da glória que tinha merecido a sua graça. E digo que foi chamada, por que assim o declaram as vozes de toda a Santíssima Trindade, não em comum, mas distintamente repetidas por cada uma das divinas pessoas: Veni, sponsa mea, veni de Libano, veni, coronaberis[27]. — O Padre disse: veni — chamando-a como Filha; o Filho disse: veni chamando-a como Mãe; o Espírito Santo disse: veni — chamando-a como Esposa. Mas, se toda a Santíssima Trindade, e cada uma das divinas pessoas por si e por tão particulares motivos desejava ver a Virgem Maria no trono da glória, onde também como Filha visse o Padre, como Mãe o Filho, e como Esposa o Espírito Santo, e a mesma Senhora suspirava por este dia com tão ardentes desejos e violentíssimas saudades, que elas e o amor lhe romperam os laços da vida e lhe desataram a alma, como as mesmas pessoas divinas, que podem quanto querem, não só permitiram, mas quiseram que a mesma alma santíssima continuasse neste mundo privada do céu e da glória, e padecesse seu amor este largo martírio por tantos anos? Aqui vereis quão verdadeira é a doutrina de todo o nosso discurso, e as razões dele. Assentou no Consistório da Santíssima Trindade o Padre que a sua Filha, o Filho que a sua Mãe, e o Espírito Santo que a sua Esposa, se lhe dilatasse a vista de Deus e a glória por espaço de vinte e quatro anos, para que em todo este tempo merecesse mais e mais, e crescesse na graça, porque, computados tantos anos de glória com outros tantos de graça, não só por eleição da mesma Senhora, senão por decreto de todas as pessoas divinas lhe convinha e importava mais o crescer na graça que o gozar a glória. — Ut cumulares merita, ejus assumptionem ad gloriam tamdiu distulisti — diz S. Pedro Damião[28].

X – Os aumentos da graça a que a Senhora cresceu nos últimos vinte e quatro anos de sua santíssima vida. A imensidade da graça adquirida pela Virgem, Senhora nossa, nos noventa e seis quartos de hora de um dia. A comparação do antiquíssimo Andrés Cretense. Por que no dia da Assunção da Virgem exclamam os anjos e santos admirados: Quem é esta que sobe do deserto? — se, despovoado o mesmo céu, todo naquele dia estava junto na terra, donde começava a marchar o trunfo?

Mas quem poderá declarar quais foram os aumentos de graça com que a Virgem Maria — em todo este tempo mais propriamente Senhora da Graça — acumulou uma sobre outra as imensidades da sua? S. Epifânio disse: Gratia Sanctae Virginis est immensa[29]; S. Boaventura: Immensa certe fuit gratia qua ipsa fuit plena[30] — e Santo Anselmo: Quid amplius dicere possum, Domina, immensitatem quippe gratiae, et gloriae, et felicitatis tuae considerare incipienti et sensus deficit, et lingua fatiscit[31] — Estes santos, com palavras claras e expressas apregoam por imensa a graça da Virgem Maria, e S. João Damasceno, S. Jerônimo, S. Efrém, S. Bernardo, S. Inácio Mártir, S. Pedro Veronense, e quase todos os santos dizem o mesmo, com termos não de menor expressão, mas de mais profunda inteligência, que por isso não repito. Só quisera que todos os que me ouvis fôsseis teólogos, para a demonstração dos aumentos de graça a que a Senhora cresceu nestes últimos anos de sua santíssima vida. Procurarei, porém, de os reduzir às regras de outra ciência mais vulgar e mais prática, pela qual, já que nenhum entendimento humano pode compreender esta imensidade, ao menos de algum modo a possamos todos conjecturar.

Todos sabeis aquele modo de conta que vulgarmente se chama ao galarim, em que tudo o que se possui e precede em um número, se dobra no seguinte. Supondo, pois, com a mais assentada teologia — em que ela não está pouco obrigada ao doutíssimo Soares de nossa Companhia[32] — que os atos do amor e caridade da Virgem Santíssima, os quais todos eram perfeitíssimos, condignamente mereciam outro tanto aumento de graça, qual era o que tinham em si, e por isso uns sobre outros sempre mais e mais iam dobrando a mesma graça, façamos agora a conta aos graus de graça que a Senhora podia adquirir em um só dia, e para que a conta proceda com toda a clareza, não pressuponhamos na alma da mesma Virgem mais que um grau de graça, nem consideremos que fazia em cada quarto de hora mais que um ato de caridade. Isto posto, no primeiro quarto de hora, e pelo primeiro ato de caridade, dobrou a Senhora o merecimento, e mereceu dois graus de graça; no segundo quarto mereceu quatro; no terceiro, oito; no quarto, dezesseis; no quinto, trinta e dois; no sexto, sessenta e quatro; no sétimo, cento e vinte oito; no oitavo, duzentos e cinqüenta e seis; no nono, quinhentos e doze; no décimo, mil e vinte e quatro. De sorte que em dez quartos de hora, e com dez atos de caridade, mereceu a Senhora e cresceu a mil e vinte quatro graus de graça. Agora faça cada um devagar em sua casa a conta que resta em todos os quartos de hora de um dia, que são noventa e seis, porque ainda que, segundo a forçosa lei da humanidade, alguns quartos da noite ocupasse o brevíssimo sono os sentidos exteriores da Virgem, esse sono não interrompia as ações da alma, que sempre vigiava, amava e merecia: Ego dormio, et cor meum vigilat. — Mas porque, entretanto, não fique cortado o fio e suspensa a demonstração da nossa conta, eu a resumirei brevissimamente, repetindo só as somas de dez em dez quartos. Nos vinte quartos de hora daquele dia tinham crescido os graus da graça da Senhora a número de quinhentos e vinte e quatro mil e duzentos e oitenta e oito. Em trinta, a quinhentos e trinta e sete contos, quinhentos e setenta e quatro mil novecentos e doze. Em quarenta, a mil e trezentos e setenta e seis milhões, setenta e seis contos, setecentos e trinta e cinco mil quatrocentos e oitenta e oito. Em cinqüenta, a um conto, quatrocentos e nove mil duzentos e vinte milhões, cento e setenta e sete contos, setecentos e setenta e nove mil setecentos e doze. Em sessenta, a três milhões de milhões, cinzentos e onze contos, quarenta e um mil setecentos e trinta e cinco milhões, e quarenta e seis contos quatrocentos e trinta e sete mil e oitocentos e oitenta e oito. Em setenta, a sete mil e duzentos e vinte e quatro milhões de milhões, duzentos e treze contos, quatrocentos e setenta e três mil quinhentos e dezessete milhões e trezentos e quatro contos, setecentos e noventa e quatro mil seiscentos e vinte e quatro. Em oitenta, a seis contos trezentos e oitenta e cinco mil quatrocentos e vinte e dois milhões de milhões, e cento e noventa e seis contos, oitocentos e oitenta e dois mil e cento e oitenta e oito milhões, cento e sete contos, e cento e trinta e quatro mil e novecentos e setenta e seis. Em noventa e seis, finalmente, faz a soma dos quatrocentos e treze mil, quatrocentos e setenta e cinco contos, quarenta e oito mil quatrocentos e quarenta e nove milhões de milhões, seiscentos e setenta e um contos, noventa mil milhões, e trezentos e noventa e sete contos, setecentos e oitenta e sete mil cento e trinta e seis, que é o último quarto de hora de um dia natural.

Demonstrada esta imensidade de graça adquirida pela Virgem, Senhora nossa, em um só dia, cuidareis sem dúvida todos, e estareis esperando que eu tire por conseqüência as imensidades da mesma graça, a que a mesma Senhora cresceria no compridíssimo espaço de tantos dias, meses e anos, quantos se contaram desde a Ascensão de seu Filho até à sua gloriosa Assunção. Mas não digo nem direi tal coisa, porque seria diminuir e apoucar muito, e fazer grande agravo à mesma graça. As duas suposições que fiz na conta deste dia foram só ordenadas à clareza e evidência da mesma conta, e fingidas como por exemplo com dois efeitos contrários à manifesta evidência da verdadeira suposição. Supus que a Senhora no primeiro quarto daquele dia tivesse um só grau de graça e esta suposição foi fingida, porque no dia da Ascensão de Cristo tinha a Senhora tão inumeráveis graus de graça, quanta desde o instante de sua puríssima Conceição tinha adquirido em trinta e quatro anos da vida de seu Filho, e quarenta e oito da sua, Supus, em segundo lugar, que em cada quarto de hora fazia a Senhora somente um ato de caridade e amor de Deus, sendo estes atos tantos, quantas eram as respirações da mesma Senhora, cuja memória, entendimento e vontade, nem por um momento se divertia da atentíssima contemplação do divino objeto, com que sua alma inseparavelmente estava sempre unida, amando-o de dia e de noite sem cessar, com mais intentos e eficazes afetos que os serafins da glória. Isto é o que então não supus para a clareza da conta, e o que agora suponho para a conseqüência e conjectura da graça, na qual, como em um pego ou abismo sem fundo, afogados e perdidos todos os números da aritmética, só resta ao discurso e entendimento humano o pasmo, e à língua o silêncio e confissão de que a graça de Maria é incompreensível.

Quem somente soube achar paralelo à graça da Mãe de Deus, foi o antiquíssimo Andrés Cretense, o qual a comparou com o inefável mistério da humanidade do Filho, a que chama infinitas vezes infinitamente infinito. As suas palavras são estas: Siquid, quod nos superat, in ea divina operata est gratia, nemo miretur intuens ad novum et ineffabile quod in ea peractum est mysterium, ab omni infinitate infinities infinite exemptum[33] — Notem-se muito estes novos e últimos termos: ab omni infinitate infinities infinite. — Foi o mistério de Deus feito homem infinito sobre toda a infinidade — exemptum ab omni infinitate — porque foi infinito infinitas vezes — infinities — e infinito infinitamente — infinite. — E nesta infinidade ou infinidades só se pareceu com ele a graça da Mãe infinitamente infinita — quod in ea divina operata est gratia infinities infinite. — E como a imensa grandeza, do infinito só a pode compreender entendimento infinito, qual é unicamente o de Deus, por isso conclui S. Bernardino, falando da perfeição da graça da Senhora neste mesmo dia, que o conhecimento dela só está reservado para Deus. Ut soli Deo cognoscenda reservetur[34].

No dia da Assunção desceu o mesmo Filho de Deus a honrar o triunfo de sua Mãe, acompanhado de toda a corte do céu, anjos e santos, os quais admirados diziam: Quae est ista quae ascendit de deserto, deliciis affluens, innixa super dilectum suum (Cânt. 8, 5)? Quem é esta, que sobe do deserto, não só cheia, mas inundando delícias, sustentada do seu amado? — O seu amado é o bendito Filho, primeiro motivo daquela admiração, o qual para maior majestade do triunfo, quis ele ser em pessoa o que levasse de braço a sua Mãe. As delícias ou inundação de delícias, que juntamente admiravam, e das quais não só ia cheia, mas como de fonte redundante manavam e enchiam tudo, não podendo ser as da glória para onde começava a subir, eram sem dúvida as da graça, que na terra e na vida tão imensamente tinha adquirido. Assim comenta este lugar o doutíssimo Cardeal Hailgrino: Affluere autem dicitur gratiarum deliciis, et virtutum; et innixa super dilectum, cujus innitebatur gratiae. — Mas o que eu sobre tudo admiro nos mesmos admiradores é que em tal dia e em tal concurso chamem à terra deserto: Quae est ista quae ascendit de deserto (Cânt, 8, 5)? — Se toda a corte do céu tinha descido com o seu Príncipe à terra, se, despovoado o mesmo céu, todo naquele dia estava junto na terra, donde começava a marchar o triunfo, como se chama deserto? Porque tanto que apareceu a gloriosa triunfante revestida das imensidades de sua graça, maiores na grandeza que todas as delícias que até então se tinham gozado da glória, tudo quanto tinha descido do céu à terra desapareceu à sua vista. Excelentemente S. Pedro Damião: In illa inaccessibili lute perlucens, sic utrorumque spirituum hebatabat dignitatem, ut sint quasi non sint, et comparatione illius, nec possint, nec debeant apparere[35]. — Que região mais povoada — é comparação do mesmo santo — que região mais povoada que o céu de noite? Tantos planetas, tantas constelações, tanta multidão de estrelas maiores e menores sem-número, mas em aparecendo o sol, o mesmo céu subitamente ficou um deserto porque tudo à vista dele se sumiu e desapareceu, e só ele aparece. — O mesmo sucedeu a todas as jerarquias do céu neste dia. Por grandes e inumeráveis não cabiam na terra; mas, tanto que abalou o triunfo e apareceram os soberanos resplendores de graça, ou da Senhora da graça, tudo o mais desapareceu e ficou um deserto: Quae est ista quae ascendit de deserto — porque todas essas jerarquias em sua presença eram como se não foram — ut sint tanquam non sint — e porque todas, em sua comparação, nem podiam nem deviam aparecer — et comparatione illius, nec possint, nec debeant apparere — só apareceu e só se fez menção do seu amado — innixa super dilectum suum — que é nova confirmação desta mesma verdade, porque, junta com a graça de Maria, só a de seu Filho avulta e aparece, por ser graça de homem — Deus, abaixo do qual, como diz Santo Anselmo, nenhuma se pode considerar nem entender maior que a de sua Mãe: — Qua major sub Deo nequeat intelligi. — E isto baste, finalmente, para que todos celebremos e confessemos com os aplausos das vozes, com os afetos dos corações, e com os júbilos e parabéns de toda a alma, que Maria, enquanto Senhora da Graça, ainda em comparação da sua mesma glória, escolheu a melhor parte: Maria optimam partem elegit.

XI – Ninguém, se é cristão e tem fé, deixará de fazer a mesma eleição que a Virgem, Senhora nossa. O que fazem os que não aceitam a graça de Deus? A insensibilidade das almas destinadas ao inferno ante a graça de Deus. Esaú e a perda do morgado. Quais são as coisas neste mundo pelas quais os homens costumam perder ou vender a graça de Deus? Os dois preços que despreza todo aquele que peca e vende ou troca pelo pecado a graça de Deus: o preço da graça, e o preço do sangue com que Cristo nos comprou a graça. O que devem fazer todos para adquirir e conservar a graça com o patrocínio da Senhora da graça. Oração.

Isto posto — para que não falte o fim de tão largo discurso, quando o temos acabado — perguntara eu a todos os que me ouviram, se fariam esta mesma eleição, se a tem feito até agora, ou se a determinam fazer? De ninguém creio, se é cristão e tem fé, que não faria a mesma eleição, estimando mais a graça de Deus que a mesma glória, como fez, com a maior luz de todas as luzes do Espírito Santo, sua soberana Esposa, Maria, Senhora nossa, bastando para isso, quando não houvera tantas razões, como vimos, ser eleição e resolução sua. E digo, se é cristão, e tem fé, porque o contrário seria não dar crédito às Escrituras Sagradas que alegamos, não imitar nem venerar os exemplos dos maiores santos de um e outro testamento, Moisés e S. Paulo, e cerrar as portas da própria casa a toda a Santíssima Trindade, que em todas as três Pessoas, como ouvistes da boca do mesmo Cristo, vem fazer morada na alma que está em graça. Se quando três anjos, em figura das três pessoas divinas, foram ser hóspedes de Abraão, ele os não recebera e agasalhara com tantas demonstrações de cortesia e amor, antes os lançara de sua casa, quem se não assombraria de tal descomedimento? Pois, o mesmo e muito maior é o que fazem a Deus os que não aceitam a sua graça ou se despedem dela, não dando com as portas na cara a três anjos, senão verdadeiramente às três Pessoas da Santíssima Trindade, ao Padre, ao Filho e ao Espírito Santo. Só quem não tem fé, como dizia, não tremerá de ouvir e imaginar um tão horrendo sacrilégio. Então prezem-se os que isto fazem de ser devotos da Senhora da Graça, e de ter dedicado a sua igreja, e posto a sua pátria debaixo do título e proteção da mesma graça, Como a graça consiste em amar e ser amado de Deus só quem de todo o coração estima mais a sua amizade que a sua mesma vista, pode afirmar com verdade que faria a mesma eleição que fez a Senhora da Graça.

Mas, passando à segunda pergunta, respondei-me se fizestes esta eleição até agora? Oh! valha-me Deus, que confusão e que angústias serão as vossas, quando no dia do Juízo se vos fizer esta mesma pergunta! O lume da razão natural, sem chegar aos preceitos da lei de Deus, está ditando a todo homem que, entre o bem e o mal, deve eleger o bem, e entre o bom e o melhor, eleger o melhor. Vejamos agora nos vossos pensamentos, nas vossas palavras e nas vossas obras, que todas ali hão de aparecer publicamente, que é o que escolhestes: — a graça ou o pecado? Nos pensamentos o pecado, nas palavras o pecado, nas obras o pecado, e sempre e em tudo, ou quase tudo, o pecado, com perpétuo esquecimento, e não só esquecimento, mas desprezo da graça. E por quê? Nas obras, por um apetite irracional, ou por um vilíssimo interesse; nas palavras, por uma murmuração da vida alheia, ou por um ímpeto da ira; nos pensamentos, por uma representação do desejo vão, e, talvez, por uma quimera, não só fingida, mas impossível. E é possível que por isso se troque, se venda e se perca a graça de Deus, e sobretudo que, sentindo-se tanto outras, que não merecem nome de perdas, só as da graça se não sintam! Verdadeiramente que não sei onde está a nossa fé nem o nosso entendimento! O que só sei é que semelhante insensibilidade só se acha em almas que estão destinadas para o inferno, e já nesta vida merecem o ódio de Deus, como Esaú: Esau autem odio habui[36]. — Vendeu Esaú o seu morgado a Jacó por um apetite tão vil, e um gosto tão grosseiro e tão breve, como sabemos, e pondera a Escritura Sagrada que, depois de fazer esta venda se apartou dali: Parvi pendens, quod primogenita vendidisset[37] — sem fazer caso do que tinha feito, nem pesar o que tinha vendido. Assim acontece aos que perdem a graça de Deus, e muito mais se a vendem por alguma coisa de seu gosto. Por qualquer outra perda se entristecem, e por esta e com esta tão fora estão de se entristecer, que antes se alegram: Laetantur cum malefecerint[38].

Aos que até agora fizeram tão má e tão errada eleição como esta, só peço que tomem a balança na mão, e pesem o que Esaú não pesou. Dizei-me: quais são as coisas neste mundo pelas quais os homens costumam perder ou vender a graça de Deus? Geralmente — diz S. João Evangelista — são, ou desejo de riquezas, ou desejo de honras, ou desejo de gostos e deleites dos sentidos, Ponde-me agora tudo isto em uma parte da balança, e da outra um só grau de graça, e vede qual pesa mais. Ponde todo o ouro, toda a prata, todas as pérolas e pedras preciosas, que geram o mar e a terra, e um grau de graça, não só pesa mais sem nenhuma comparação, mas o mesmo seria se toda a terra fosse ouro, e todas as pedras, diamantes. Acrescentai mais à balança todas as honras, todas as dignidades, todos os cetros e coroas, todas as mitras e tiaras, e tudo quanto estima a ambição humana, e nenhum pendor faz em respeito de um só grau de graça, como também o rifão faria, ainda que Deus levantasse um novo império, no qual um homem dominasse a todos os homens e a todos os anjos. Finalmente, sobre as riquezas e honras acumulem-se todos os gostos, todas as delícias, todos os prazeres, não só quantos se gozaram e podem gozar neste mundo, senão também os que se perderam no paraíso terreal, e para que vos não admireis de que pese muito mais um grau de graça, sabei que ainda é mais digno de se apetecer que tudo quanto gozam e quanto hão de gozar por toda a eternidade, com a vista clara de Deus, todos os bem-aventurados do céu; e, sendo isto assim, pode haver maior loucura que, por uma onça de interesse, por um pontinho de honra, e por um instante de gosto, perder, perder, não um só grau de graça de Deus, senão toda a sua graça?

Mas, para que acabemos de pesar o que ainda não está pesado, tornemos ao morgado de Esaú. O morgado que Esaú vendeu era o temporal, que ele herdou de seu pai Isac, o qual, indo a ser sacrificado, não chegou a derramar o sangue; o morgado que nós vendemos é o sobrenatural e da graça, do o Filho de Deus nos fez herdeiros, tendo-o comprado com todo o sangue que derramou na cruz. E este preço infinito é o que nós tão vil, tão ímpia e tão sacrilegamente desprezamos. Dizei-me, se quando na Missa se levantou o sangue de Cristo no cálix, houvesse alguém que, em vez de o adorar e bater nos peitos, lhe voltasse o rosto, lhe fechasse os olhos, e com o gesto de ambas as mãos o rejeitasse e lançasse de si, quem haveria que não abandonasse tal homem, e, se pudesse, o queimas se logo? Pois isto é o que fazeis, sem o entender, todas as vezes que desprezais a graça de Deus. Ouvi ao mesmo Cristo como já se queixava deste desprezo por boca do profeta: Pretium meum cogitaverunt repelle (Sl. 61, 5): Chegaram os homens a tal extremo de cegueira e maldade — diz Cristo — que entraram em pensamento de rejeitar e desprezar o meu preço. — Ah! Senhor, que os mesmos que crêem em vós, e se chamam cristãos, não só chegaram a entrar em tão abominável pensamento, mas com os pensamentos, com as palavras, com as obras, e com tudo o que cuidam e fazem, desprezam e dão por nada este vosso preço! Nota aqui Hugo Cardeal que em tudo o que se vende ou compra não há um só preço, senão dois. Um o preço da coisa comprada, outro o preço daquilo com que se compra: Quod emitur, et quo emitur. — Estes são os dois preços que despreza todo aquele que peca, e vende ou troca pelo pecado a graça de Deus. Um o preço da graça, que Cristo nos comprou com seu sangue, e outro o preço do mesmo sangue, com que nos comprou a graça. E se me perguntais até onde chega este desprezo, tremo de o dizer, mas é bem que o ouçais e saibais. Chega este desprezo não só a desprezar de qualquer modo a graça de Deus e o sangue de Cristo, mas a meter debaixo dos pés, e pisar a mesma graça, e o mesmo sangue, e o mesmo Filho de Deus. São palavras expressas e tremendas do apóstolo S. Paulo. Qui filium Dei conculcaverit, et sanguinem testamenti, pollutum duxerit, in quo sanctificatus est, et spiritui gratiae contumeliam fecerit[39]. — vede se fala nomeadamente da graça, nomeadamente do sangue, e nomeadamente de Cristo. Da graça, a que faz tão grande injúria: Spiritui gratiae contumeliam fecerit; — do sangue, que reputa por digno de ser abominado: Et sanguinem testamenti pollutum duxerit; — e do mesmo Cristo, com expressão e reflexão de ser Filho de Deus, o qual pisa e mete debaixo dos pés: Qui Filium Dei conculcaverit.

Chegada a verdade e evidência do nosso discurso a este extremo de impiedade e horror, que se não pudera crer nem imaginar, se não fora de fé, bem creio que não haverá alma tão perdida, nem consciência tão desesperada que, conhecendo o erro e cegueira em que até agora a sofreu a paciência e misericórdia divina, sem a deitar mil vezes no inferno, como pondera o mesmo S. Paulo, e como um tal desprezo do sangue de Cristo e do preço do mesmo sangue merecia, bem creio, digo, que ninguém haverá que não tenha mudado de resolução, e, com verdadeiro arrependimento e dor do passado, a não tenha feito muito firme de antepor a graça de Deus a tudo quanto pode ter ou desejar neste mundo, enquanto no mesmo mundo, exceto só a sua graça, lhe pode dar o mesmo Deus. E para que isto não fique só em bons propósitos, que podem esquecer e tornar a ser vencidos do mau costume, acabo com declarar a todos, e lhes protestar da parte do mesmo Deus, sob pena de salvar ou não salvar, o que devem fazer.

Tudo se reduz a três pontos, e muito breves, para que vos fiquem na memória. O primeiro, que logo e sem dilação o que estiver em pecado se ponha em graça de Deus por meio do sacramento da Penitência, fazendo tão exato e tão fiel exame e confissão de toda a vida passada, como se aquela fosse a última para ir dar conta à divina justiça. O segundo, um total e firmíssimo propósito de conservar a mesma graça e perseverar nela, sem fazer caso de fazenda, honra, ou qualquer outro interesse e conveniência humana, e com resolução de antes padecer mil mortes, que cometer um pecado mortal. Terceiro, não só conservar a mesma graça, mas procurar com todo o cuidado de a aumentar com o exercício contrário de virtudes e obras cristãs, com a observância dos preceitos divinos, com a freqüência dos Sacramentos, com a oração, com a esmola; com o jejum e mortificação de todas as paixões da carne, com o amor dos inimigos, com o perdão das injúrias, com a paciência dos trabalhos, e conformidade com a vontade de Deus em todas as coisas que nesta miserável vida ordinariamente são adversas; e como dantes com os pensamentos, palavras e obras ofendia ao mesmo Deus, assim daqui por diante as ordene todas com reta intenção a seu divino serviço e aumento de sua graça, na qual, tão brevemente, como vimos, pode adquirir e multiplicar muito grandes tesouros, e recuperar em poucos dias de verdadeira contrição e amor de Deus tudo o que esperdiçou e perdeu em toda a vida passada.

E porque, deliberada e reduzida a alma a este segundo e felicíssimo estado, é certo que não se descuidará o demônio em procurar de a derrubar dele com tentações, aqui entra o patrocínio e amparo da Senhora da Graça, e seu santíssimo nome, terrível sobre todos ao mesmo demônio, nomeando-a e invocando-a muitas vezes no mesmo conflito, e dizendo: Maria Mater gratiae, Mater misericordiae, tu nos ab haste protege: Maria Mãe da graça, Maria Mãe da misericórdia, vós, que só podeis fortalecer a nossa fraqueza, nos defendei deste cruel inimigo.

Assim prostrados diante de vosso soberano acatamento, como trono da graça, vos pedimos unicamente esta, que vos estimastes sobre todas. E confiadamente, Senhora, vos fazemos esta petição, debaixo da promessa do vosso apóstolo: Adeamus ergo cum fiducia ad thronum gratiae: ut misericordiam consequamur, et gratiam inveniamus in auxilio opportuno[40]. — Graça e misericórdia nos promete debaixo do vosso amparo. E como nos pode faltar a graça ou a misericórdia, sendo vós, Maria, Mãe da graça, e Mãe da misericórdia: Maria Mater gratia e, Mater misericordiae? Como Mãe da graça não só tendes abundantíssima graça para vós, senão para vossos filhos, que somos os pecadores. O mesmo anjo que vos saudou dizendo: Gratia plena — acrescentou logo: — Spiritus Sanctus superveniet in te[41] — porque não só fostes cheia de graça, senão sobre-cheia: Plena sibi, superplena nobis — como diz vosso devoto S. Bernardo: Cheia para vós, e para nós sobre-cheia — com que destas superabundâncias de graça não podeis deixar de partir liberalmente conosco como Mãe da graça: Mater gratiae. — E muito menos o devemos desconfiar de vossa misericórdia, como Mãe de misericórdia, pois temos razão de vos pedir ou demandar a mesma graça, não só de misericórdia, senão de justiça. O mesmo anjo vos disse: Invenisti gratiam apud Deum (Lc. 1, 30) — que vós achastes a graça. — Quem acha o perdido tem obrigação de o restituir a quem o perdeu; e se Eva nos perdeu a graça, vós, como reparadora de todas as suas perdas, a deveis não só por misericórdia, senão por justiça e por restituição a seus filhos. O mesmo inimigo, que a ela tentou e venceu, nos tenta também a nós e nos pretende vencer: pelo que, Senhora da Graça, a vós vos pertence defender-nos de suas tentações e astúcias: Tu nos ab hoste protege. — E não só vos dizemos, Tu nos ab hoste protege — mas, para que esta proteção: Et hora mortis suscipe. — Este ditoso dia, Senhora, foi aquele em que, pagando, como filha de Adão, o tributo à morte, na mesma hora em que começou a vossa glória se consumou a vossa graça; pelo que, Senhora da Glória e da Graça, por vossa santíssima morte nos concedei para a nossa uma tal hora em que, acabando esta miserável vida em graça, na eterna e felicíssima possamos acompanhar vossa glória.

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[1] Maria escolheu a melhor parte (Lc. 10, 42).
[2] Ouvia a sua palavra (Lc. 10, 39).
[3] Pelo qual nos comunicou as mui grandes e preciosas graças que tinha prometido, para que por elas sejais feitos participantes da natureza divina (2 Pdr. l, 4).
[4] Aguardando a esperança bem-aventurada, e a vinda gloriosa do grande Deus (Ti. 2,13).
[5] Eu amo aos que me amam (Prov. 8, 17).
[6] Com duas asas cobriam a sua face, e com duas voavam (Is. 6, 2).
[7] Sanches, Cornel. hic.
[8] Ao qual vós amais. posto que o não vistes (I Pdr. I, 8).
[9] D. Bernard. Serro. 88.
[10] Não nasceram do sangue, mas de Deus (Jo. I, 13).
[11] Eu morrerei sem filhos, e Eliezer, meu escravo, virá a ser meu herdeiro (Gên. 15, 2s).
[12]Deita fora esta escrava com seu filho, porque o filho da escrava não será herdeiro com meu filho Isac (Gên. 21,10).
[13] Porque o mesmo Espírito dá testemunho ao nosso espírito de que somos filhos de Deus. E se somos filhos, também herdeiros; herdeiros verdadeiramente de Deus, e co-herdeiros de Cristo, se é que todavia nos padecemos com ele, para que sejamos também com ele glorificados (Rom. 8, 16).
[14] Porque eu mesmo desejara ser anátema por Cristo, por amor de meus irmãos, que são do mesmo sangue que eu segundo a carne (Rom. 9, 3).
[15] Anselin. lib. de Similit. cap. 190.
[16] Salas. Taner Lorca. Ovied. Arriag.
[17] Então nós outros o veremos bem como ele é (1 Jo. 3, 2).
[18] Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e nós viremos a ele, e faremos nele morada (Jo. 14, 23).
[19] Na Vulgata: Conservatam in caelis vobis: Reservada no céu para vós — e não: Reservada no céu e em vós — como diz Vieira.
[20] Chrysost. homil. 23 in Genes.
[21] Tu achaste graça diante de mim (Êx. 33, 12).
[22] E nós vimos a sua glória, como de Filho unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade (Jo. 1, 14).
[23] E todos nós participamos da sua plenitude, e recebemos graça por graça (ibid. 16).
[24] E o quarto animal era semelhante a uma águia voando (Apc. 4, 7).
[25] Amado da minha alma, aponta-me onde é que tu apascentas o teu gado, onde te encostas pelo meio-dia (Cânt. 1, 6).
[26] Vai em seguimento das pisadas dos teus rebanhos, e apascenta os teus cabritos ao pé das cabanas dos pastores (ibid. 7).
[27] Vem. esposa minha. vem do Líbano. vem: serás coroada (Cânt. 4, 8).
[28] Pet. Damian. Serm de Assumpt. Virg.
[29] Epiphi. Orat. De Laudib. Virg.
[30] Bonav. in speculo cap. 5.
[31] Anselm. de Excellent. Virg. cap. 3.
[32] Suar. tom. 2 in 3. p. disp. 18, sect. 4.
[33] Andreas Cretens. Serrar. de Dormitione virg.
[34] D. Bernard. Sem 4, de Assumpt. Virg.
[35] Pet. Dam. Serm. de Assumpt. Virg.
[36] E aborreci a Esaú (Mal. 1, 3).
[37] Dando-se-lhe pouco de ter vendido o seu direito de primogenitura (Gên. 25, 34).
[38] Alegram-se depois de terem feito o mal (Prov. 2, 14).
[39] O que pisa aos pés o Filho de Deus, e tiver em conta de profano o sangue do testamento em que foi santificado, e que ultrajar o espírito da graça (Hebr. 10, 29).
[40] Cheguemo-nos, pois, confiadamente ao trono da graça, a fim de alcançar misericórdia e de achar graça. para sermos socorridos em tempo oportuno (Hebr. 4, 16).
[41]O Espírito Santo descerá sobre ti (Lc. 1, 35).

Fonte: https://www.literaturabrasileira.ufsc.br/documentos/?action=download&id=49838