Sermão de N. S. do Carmo (1659)

SERMÃO DE N. S. DO CARMO

PREGADO NA FESTA DA SUA RELIGIÃO,

COM O SANTÍSSIMO SACRAMENTO EXPOSTO,

NA IGREJA E CONVENTO DA MESMA SENHORA,

NA CIDADE DE S. LUÍS DO MARANHÃO, ANO DE 1659


Beatus venter qui te portavit et ubera quae suxisti: Quinimmo beati, qui audiunt verbum Dei et custodiunt illud[1].

I – Todas as vezes que a Cristo lhe falaram no nascimento de sua Mãe, sempre o Senhor respondeu com o nascimento de seu Pai, para introduzir nos ânimos dos homens a fé de sua divindade. Os dois nascimentos de Cristo, e os dois nascimentos da Sagrada Religião Carmelitana.

Notável coisa é, e não sei se notada, na História Evangélica, que todas as vezes que a Cristo lhe falaram no nascimento de sua Mãe, sempre o Senhor respondeu com o nascimento de seu Pai. Pediu a mãe dos Zebedeus as duas cadeiras para os filhos, pelo parentesco que tinham com Cristo por parte de sua Mãe, e logo o Senhor respondeu com o nascimento de seu Pai: Non est meum dare vobis, sed quibus paratum est a Patre meo (Mt. 20, 23): Não está em mim dar-vos o que pedis, porque já esse despacho está decretado por meu Pai. — Pregando Cristo outra hora no Templo de Jerusalém, disseram-lhe ao Senhor que estava fora sua Mãe, e que o buscava, e logo respondeu da mesma maneira com o nascimento de seu Pai: Quicumque fecerit voluntatem Patris mei, qui in caelis est, ipse meus frater, et soror, et mater est (Mt. 12, 50): Quem fizer a vontade de meu Pai que está no céu, esse é minha Mãe, e todos os meus parentes. — Quando a mesma Senhora achou a seu Filho perdido de três dias entre os doutores, declarou-lhe o amor e a dor com que o buscava, dizendo: fili, quid fecisti nobis sic (Lc. 2,48)? Filho, por que nos tratastes assim? — E até nesta ocasião respondeu também o Senhor com o nascimento de seu Pai: nesciebatis quia in his quae Patris mei sunt, oportet me esse (Ibid. 49)? Não sabeis que me importava assistir ao serviço de meu Pai? Deste estilo, ou desta razão de estado de Cristo se entenderá em não vulgar sentido a conseqüência da resposta do mesmo Senhor sobre as vozes da mulher do Evangelho. Acabava Cristo de convencer com razões as calúnias de seus êmulos, os escribas e fariseus; achou-se no auditório uma mulher de qualidade ordinária, mas de grande entendimento e coração grande; levantou a voz no meio de todos, e disse: Beatus venter qui te portavit et ubera quae suxisti (Lc. 11, 2): Bem-aventurada a Mãe que trouxe em suas entranhas e sustentou a seus peitos tal Filho. — Não parece que o pregador, e em público, devia responder a semelhantes palavras e a semelhante pessoa? Mas como lhe falaram no nascimento de sua Mãe, respondeu o Senhor, e respondeu como costumava, com o nascimento de seu Pai: Quinimmo beati qui audiunt Verbum Dei et custodiunt illud (Ibid. 28): Antes te digo que bem-aventurados são os que ouvem o Verbo de Deus, e guardam o que ouvem. — Notai o Verbum Dei. Como lhe falaram a Cristo no nascimento da Mãe, acudiu ao nascimento do Pai, advertindo que, se por uma parte era parto de Maria, por outra era Verbo do Padre. Assim declara altamente esta resposta o Venerável Beda, não entendendo no Verbum Dei a palavra de Cristo, senão o mesmo Cristo, que, segundo a divindade, é o Verbo e a Palavra do Padre: Non autem tantummodo eam, quae Verbum Dei corporaliter generare meruerat, sed omnes qui idem Verbum spiritualiter audire, fide concipere, et bonis operas custodia, vel in suo, vel in proximorum corde parere, et quasi alere studuerint, asserit esse beatos[2].

Ó sagrada religião do Monte Carmelo, como vos fez semelhante a si quem vos fez só para si e para que levásseis tantos a ele! Tudo isto fazia Cristo para introduzir nos ânimos dos homens a fé de sua divindade, e ensinar ao mundo que assim como havia nele duas naturezas, assim tinha dois nascimentos: um nascimento antiquíssimo e eterno, em que era Filho de seu Pai, e outro nascimento novo e em tempo, em que era Filho de sua Mãe. E assim como Cristo teve dois nascimentos, e ambos virginais, como lhes chamou S. Gregório Nazianzeno, um antiquíssimo e eterno, em que nasceu de Pai sem mãe, outro novo e em tempo, em que nasceu de Mãe sem pai, assim a sagrada religião carmelitana teve dois nascimentos também virginais: um antiquíssimo na lei escrita, em que nasceu de Elias virgem, que foi nascimento de pai sem mãe; outro menos antigo, na lei da graça, em que nasceu da Virgem Maria, que foi nascimento de Mãe sem pai. As duas cores e as duas peças do hábito carmelitano são a prova e a herança destes dois nascimentos. A prova e herança do nascimento do pai sem mãe é o manto branco, dado por Elias nas mãos de Eliseu carmelita; a prova e herança do nascimento de Mãe sem pai é o escapulário pardo, dado pela Virgem Maria nas mãos de Simão, também carmelita e geral santo dos carmelitas. Só parece diferença entre os dois nascimentos de Cristo e desta sagrada religião, que no nascimento de Cristo, o Pai era do céu e a Mãe da terra; no nascimento dos carmelitas, o pai era da terra e a Mãe do céu. Mas nesta troca do céu e terra tinham tanto de celestiais estes nascimentos, e tanto de celestiais estas duas peças ou divisas do hábito carmelitano, que a Mãe trouxe o escapulário descendo do céu à terra, e o pai lançou o manto subindo da terra ao céu.

Não há religião posto que todas sejam santíssimas que tivesse tais princípios, nem se possa gloriar de tais progenitores. E como estes benditos filhos foram duas vezes nascidos, e por duas gerações, ambas miraculosas, ambas singulares, ambas celestiais e divinas, não será excesso de devoção nem encarecimento de louvor, que com as mesmas vozes do Evangelho os aclamemos neste dia duas vezes bem-aventurados: bem-aventurados por filhos de tal Mãe: Beatus venter qui te portavit, e bem-aventurados por filhos de tal pai: Beati qui audiunt Verbum Dei et custodiunt illud. Estas duas cláusulas do texto, e estes dois nascimentos serão o fundamento e matéria do nosso discurso. Dai-me atenção, e ajudai-me a pedir graça. Ave Maria.

II – A maior excelência da Religião Carmelitana é serem os seus filhos filhos da Mãe de Deus, porque a mesma Mãe que gerou um Filho produziu os outros. As palavras dos Cânticos e do papa Xisto Quarto. O Filho Unigênito da Virgem e os filhos produzidos ou adotivos: os religiosos carmelitas.

Beatus venter qui te portavit.

A maior excelência da Virgem Maria é ser Mãe do Filho de Deus; a maior excelência da sagrada religião Carmelitana é serem os seus filhos, filhos da Mãe de Deus. Para esta gloriosa aplicação não temos necessidade de mudar as palavras do Evangelho, senão de as estender mais um pouco: não de as mudar de mãe a mãe, porque a Mãe é a mesma; somente de as estender de Filho a filhos, porque os filhos são diversos, posto que tão parecidos, como em seu lugar veremos.

Falando o Espírito Santo do mesmo ventre virginal de quem exclamou a voz do Evangelho: Beatus venter, diz assim no capítulo sétimo dos Cânticos: Venter tuus sicut acervus tritici vallatus liliis (Cânt. 7, 2): O vosso bendito ventre, Senhora, é como um monte de trigo cercado de lírios. — Não reparo nos lírios nem no trigo: reparo no monte. Os lírios, diz Santo Ambrósio, denotam a pureza virginal do ventre santíssimo; o trigo é o Filho, que nele e dele nasceu, como disse o mesmo Cristo: Nisi granum frumenti cadens in terram[3]. Mas daqui mesmo nasce a dúvida, porque se o trigo é um só grão: granum frumenti, como é um monte de trigo: acervus tritici? O ventre bem-aventurado e o ventre cercado de lírios, de que fala um e outro Testamento, é o mesmo ventre virginal. Pois, se o trigo, que nele e dele nasceu, é um só grão, como é um monte? E se o grão é Cristo, o monte, que monte é? É o Monte do Carmo, porque o grão de trigo e o monte de trigo, ambos são partos do mesmo ventre, ambos são filhos da mesma Mãe. Assim o definiu e declarou o supremo oráculo da Igreja, o Papa Xisto Quarto. Ouvi as palavras, que são notáveis: Venustissima Virgo Maria, quae Dominum nostrum Jesum Christum, admirabili cooperante virtude Spiritus Sancti genuit, ipsa produxit Ordinem Beatae Mariae de Monte Carmelo: A formosíssima Virgem Maria, que por virtude admirável do Espírito Santo gerou a Nosso Senhor Jesus Cristo, essa mesma Virgem produziu a Ordem de Nossa Senhora do Monte do Carmo. — De sorte que o grão de trigo e o monte, ambos são parto do mesmo ventre, porque a mesma e única Mãe que gerou um Filho, produziu os outros. Quando gerou a Cristo: Beatus venter qui te portavit; quando produziu a Religião do Carmo: Venter tuus, sicut acervus tritici. Ali um só Filho, aqui muitos filhos, mas no Filho que gerou e nos filhos que produziu, sempre a mesma Mãe: ipsa, ipsa produxit Ordinem Beatae Mariae de Monte Carmelo.

Daqui se entenderá aquele texto de São Lucas, em que tropeçou Elvídio, não só como mau teólogo, senão também como ruim gramático. Descrevendo S. Lucas o admirável parto da Virgem Maria em Belém, diz que pariu a Senhora a seu Filho primogênito: Peperit Filium suum primogenitum (Lc. 2, 7). Primogênito? Logo a Virgem Maria teve outros filhos? Elvídio dizia blasfema e hereticamente que sim, e eu também digo que sim catolicamente. A Virgem Maria tem Filho primogênito e filhos segundos: o Filho primogênito é Cristo; os filhos segundos são os seus carmelitas. Onde Deus é o primeiro, bem se pode ser segundo. Neste sentido refutaram a Elvídio, S. Anselmo, Ruperto e Guerrico Abade. Mas porque a aplicação destes autores é mais universal, tomemos as palavras de Xisto, que não só nos deram o fundamento desta soberana prerrogativa, mas também nos darão a razão dela. A Cristo, diz o Pontífice que o gerou a Virgem Maria: genuit; à Ordem e família carmelitana, diz que a produziu: produxit. E esta é a diferença de Filho a filhos, e do Primogênito aos segundos. O primogênito é o Filho gerado; os segundos são filhos produzidos. Subamos um ponto mais acima, para melhor entender este. O Eterno Padre, depois que gerou o Verbo, não pode gerar outro Filho; mas ainda que não pode gerar, pode produzir: ad intra, pode produzir e produz o Espírito Santo, igual ao Filho; ad extra, pode produzir filhos, mas não iguais, que são os filhos adotivos, a quem faz participantes do mesmo Espírito: ut adoptionem filiorum reciperemus, misit Deus Spiritum Filii sui in corda vestra[4]. O mesmo passa na Virgem Santíssima, a quem Santo Agostinho por isso chamou idéia de Deus: Si formam Dei te appelem, digna existis. Filho propriamente gerado e natural, não tem nem pode ter a Virgem Maria mais que um, aquele que juntamente é Filho unigênito do Padre; filhos, porém, produzidos e adotivos, pode a mesma soberana Mãe ter muitos, e estes são, por especial prerrogativa e filiação, os religiosos carmelitas, aos quais produziu ad extra, dando-lhes o nome e adoção de filhos, e ad intra, que assim se pode dizer, comunicando-lhes e produzindo neles seu próprio espírito, como veremos: Ipsa produxit.

III – Qual é maior prerrogativa e maior excelência: ser filho natural ou filho adotivo? Nem Deus podia fazer mais a Maria, que dar-lhe a seu Filho por Filho, nem Maria podia fazer mais aos carmelitas, que dar-lhes a seu Filho por irmão.

Eu bem sei que entre o Filho natural e os filhos adotivos da Virgem há distância infinita; mas nestes mesmos termos se me transluz uma certa excelência, que ainda na comparação de filhos a Filho quase parece vantajosa. Pergunto: qual é maior prerrogativa e maior excelência: ser filho natural ou filho adotivo? A adoção é suplemento da natureza; logo parece que maior coisa e mais excelente é ser filho por natureza que por adoção. Contudo, absoluta e precisamente falando, digo que alguma coisa tem de maior prerrogativa ser filho adotivo que filho natural. No filho natural, funda-se a preferência na filiação; no adotivo, funda-se a filiação na preferência. O filho natural, ama-se porque é filho; o filho adotivo é filho porque se ama. Ser natural é fortuna; ser adotivo é merecimento. A razão de toda esta diferença é porque os filhos naturais são partos da natureza; os adotivos são filhos da eleição. Nos primeiros não tem parte a vontade nem o juízo; nos segundos tudo é juízo, e tudo vontade. Assim o notou advertidamente Santo Ambrósio na epístola ad Fisinium: Aut natura filios suscipimus, aut electione: in natura, casus est, in electione, judicium: Os filhos, ou são por natureza ou por eleição: se por natureza, é caso; se por eleição, é juízo. — Quanto vai da sorte à escolha, tanto vai de uns filhos a outros. Se os pais escolheram os filhos, muitos haviam de trocar os seus pelos alheios, e talvez antes não quereriam ter filhos que tais filhos. Parece-vos que escolheria Adão a Caim, Noé a Cam, Isac a Ismael, Jacó a Rubens, Davi a Absalão? Claro está que não. Mas contenta-se cada um com aqueles filhos que lhe couberam em sorte, porque nesta parte também os filhos entram em conta de bens de fortuna. Nos filhos adotivos é pelo contrário, porque como o escolher este ou aquele depende da nossa eleição, da nossa vontade, do nosso juízo, muito errado será o juízo e a vontade de quem não escolher o melhor de todos, o mais excelente e o mais digno: Non est dignus adoptari, nisi qui fortissimus meretur agnosci, disse Cassiodoro. E a razão que logo dá é a mesma diferença que dizíamos: In sobole frequenter fallimur, ignavi autem esse nesciunt quos judicia pepererunt: Nos filhos naturais não se satisfaz muitas vezes o desejo, porque, ainda que são partos da natureza, dá-os a fortuna; nos adotivos sempre o acerto e a satisfação é segura, porque são filhos da eleição e partos do juízo: Quos judicia pepererunt.

Tal é, ou quase tal — com ser infinita a distância das pessoas — a diferença que se acha gloriosamente entre o Filho natural e estes filhos adotivos da Virgem Maria. O natural e os adotivos, um e outros são filhos da mesma mãe; mas Cristo, Filho das entranhas de seu corpo: Beatus venter qui te portavit; os carmelitas, filhos das entranhas do seu Filho: Quos judicia pepererunt. A maior excelência da Virgem Maria, e como lhe chama Santo Anselmo, estupenda, é que Maria e Deus sejam pais do mesmo Filho; e a maior que se pode dizer desta sagrada religião é que os carmelitas e Cristo sejam filhos da mesma Mãe. Nem Deus podia fazer mais a Maria, que dar-lhe a seu Filho por Filho, nem Maria podia fazer mais aos carmelitas, que dar-lhes a seu Filho por irmão. E ainda que Cristo é filho natural da mesma Mãe, e eles filhos adotivos, a filiação natural é parto do corpo: Beatus venter; a filiação adotiva, parto do juízo: Quos judicia pepererunt. Não sei se me atreva a dizer nesta diferença: Quinimmo beati. Mas vede, benditos Padres, de que juízo sois filhos. Não filhos do juízo de Jacó, como Manassés e Efraim, nem do juízo de Augusto ou Trajano, como seus filhos adotivos, mas filhos do juízo de Mãe de Deus. Vós e os pensamentos da Mãe de Deus sois filhos do mesmo juízo. Vede se vos pode faltar a sua memória, sendo irmãos legítimos de seus pensamentos. Só o Verbo eterno é filho de melhor juízo que vós, porque ele é gerado pelo entendimento de seu Pai, e vós pelo juízo de sua Mãe.

IV – A geração necessária do Verbo e a geração voluntária dos filhos adotivos, segundo S. Tiago. Cristo, Filho natural de Deus por natureza e por eleição. Segundo as mesmas palavras de Cristo, são mais bem-aventurados os filhos que se concebem no coração e na alma, como os carmelitas, gerados na alma de Maria.

Mas passemos do juízo à vontade, que é outra parte da alma que concorre para a adoção ou geração dos filhos adotivos. Falando São Tiago na adoção e dignidade de filhos de Deus, a que somos levantados pelos merecimentos de Cristo, nota muito o Apóstolo e pondera como coisa particular, que neste modo de geração nos gera Deus voluntariamente: Voluntarie genuit nos verbo veritatis[5]. A circunstância de voluntária é transcendente e universal em todas as obras de Deus, e em todos os benefícios naturais e sobrenaturais que de sua liberalidade recebem os homens. Voluntariamente nos criou, voluntariamente nos remiu, voluntariamente nos conserva, sustenta e governa, e tudo quanto faz ou não faz é voluntariamente. Pois se a vontade e o voluntário de Deus é tão inseparável de todas suas ações, como nesta, da geração dos filhos adotivos, faz tanta reflexão São Tiago, e carrega com tanto peso em ser voluntária: Voluntarie genuit nos? Das mesmas palavras do Apóstolo tirou S. Fulgêncio a razão da diferença. Já antes, a tinha tocado S. Atanásio, e é digna de ambos. De três coisas fez menção o Apóstolo naquelas palavras: do voluntário, da geração e do verbo: Voluntarie genuit nos verbo veritatis. Diz agora São Fulgêncio: Nos Deus voluntarie genuit, quia voluntas generationem praecessit: in Unigeniti autem generatione, nulla generantis praecessit voluntas, ubi sine initio naturali permanet aeterna nativitas: A geração eterna, com que o Padre gera o Verbo, não é nem pode ser voluntária, porque o Filho é gerado pelo ato de entendimento com que o Padre se conhece e compreende a si mesmo, antecedente a todo ato da vontade. E como a geração do Filho natural não é voluntária nem livre, senão necessária, por isso o Apóstolo, quando falou na geração dos filhos adotivos, carregou tanto na circunstância de ser voluntária: Voluntarie genuit nos, mostrando a diferença e contrapesando a desigualdade, como se dissera: Ainda que Deus não pode gerar mais que um Filho natural, pode, contudo, gerar, e gera, muitos filhos adotivos; e posto que estes não tenham o mesmo ser, os mesmos atributos e a mesma igualdade com Deus, têm porém uma circunstância com que muito se contrapesa essa desigualdade, porque, se a geração adotiva tem de menos o ser natural, tem de mais o ser voluntária. E esta circunstância de ser voluntária é de tanto peso e tanto preço, que quase se supre o excesso da primeira geração com o voluntário da segunda. Na primeira dá o Padre ao Filho natural todo o ser divino, mas sem concurso da vontade; na segunda dá o mesmo Padre aos filhos adotivos só a participação desse ser, mas voluntariamente: Voluntarie genuit nos. Não me detenho em aplicar à Mãe o que tenho dito do Pai, porque vou por diante.

Perguntam os teólogos se Cristo é Filho natural de Deus ou Filho adotivo? Enquanto Deus e enquanto Verbo, não há dúvida que é Filho natural. Enquanto homem, Scoto e muitos outros disseram que era Filho adotivo. Mas a conclusão mais comum, mais recebida e mais certa com Santo Tomás, é que também enquanto homem é Filho natural, Daqui se segue que Cristo é duas vezes e por dois modos Filho natural de Deus: uma pela geração eterna, outra pela geração temporal. Mas por que razão quis Deus que o seu Filho Unigênito e natural fosse duas vezes seu Filho, e como, não contente com o ter gerado uma vez, o quis gerar outra? Porque ainda que na primeira geração estava satisfeita a natureza, parece que não estava satisfeito o amor, e para satisfação do mesmo amor, não só quis que fosse Filho seu por natureza, senão Filho por natureza e por eleição: uma vez Filho natural, com todas as propriedades de natural, e outra vez Filho natural, mas com alguma propriedade de adotivo. Na primeira geração do Filho de Deus, como vimos, não teve parte alguma a vontade, porque foi geração necessária, e não livre. Pois, para que a vontade e o amor tenha também parte na geração do Filho, torne-se o Filho a gerar outra vez, e assim como é Filho natural por natureza, seja também Filho natural por eleição. Foi pensamento altíssimo de S. Hipólito em umas dificultosas palavras, em que parece que ainda diz mais, mas só isto é o que disse e quis dizer: Qualem igitur Fillium suum Deus per carnem misit, nisi Verbum, quod a principio scilicet Filium vocavit, quia futurum erat, ut ortum caperet. Et cum Filius vocatur, commune nomen amoris erga homines sumit. Nec enim Verbum per se, et sine carne perfectus Fillius erat, cum tamen perfectum esset Verbum Unigenitus: O Filho Unigênito de Deus — diz Hipólito — antes de encarnar e ab aeterno sempre foi perfeito Filho quanto à perfeição e inteireza infinita da natureza; mas quanto à satisfação e nome do amor, faltava-lhe o concurso da vontade, porque era gerado necessária, e não livremente, por natureza, e não por eleição. E por isso, desde a mesma eternidade lhe decretou, e como adotou Deus outra geração em tempo, para que se suprisse, e como aperfeiçoasse na segunda o que sem imperfeição — antes com suma perfeição — não pôde ter na primeira. Na primeira foi o Verbo filho da natureza fecundíssima do Padre, mas sem afeto, como diz S. Gregório Niceno: Padre Filium genuit sine affectu. Na segunda, uniu-se o afeto à natureza, e não contente o Padre com amar o Filho depois que o gerou, qui-lo gerar outra vez amando-o e porque o amava; e que assim como de antes se chamava Filho do seu entendimento, se chamasse também Filho do seu amor: filii dilectionis suae (Col. 1, 13), diz S. Paulo.

Estas são as vossas prerrogativas, filhos da Virgem do Carmo, que parece competiu a Mãe com o Pai, como Rebeca com Jacó: ele no amor do filho primeiro, e ela no amor dos segundos. Sois filhos da Virgem Maria, mas que Filhos? Filho do seu entendimento, da sua vontade, do seu juízo e do seu amor. O seu juízo vos preferiu, e o seu amor vos elegeu; o seu juízo vos concebeu, e o seu amor vos gerou. Não sois filhos do ventre virginal de Maria, porque este é privilégio singular do Filho de Deus e seu: Beatus venter qui te portavit. Mas com prerrogativa que não parece menor, antes em certo modo mais sublime, sois filhos das entranhas da sua alma: na sua alma concebidos, na sua alma gerados e da sua alma nascidos. E quem negará, precisamente considerado, que é mais nobre e mais excelente modo de geração, ser concebido e gerado na alma, que concebido e gerado no corpo? O mesmo Cristo fez a comparação neste mesmo caso, e o mesmo Cristo o decidiu e resolveu assim. Beatificou Marcela o ventre santíssimo da Virgem, por haver concebido e gerado o Cristo: Beatus venter qui te portavit. E que respondeu o Divino Mestre? Quinimmo beati qui audiunt verbum Dei et custodiunt illud. Antes te digo que mais bem-aventurados são os que me concebem e geram no coração e na alma, ou seja a minha mesma Mãe, ou qualquer outro. — Este é o natural sentido daquelas palavras, como expõem S. Agostinho e todos os intérpretes. De sorte que de dois modos concebeu e gerou a Virgem Maria a Cristo: concebeu-o no ventre, e concebeu-o no coração; gerou-o no corpo, e gerou-o na alma, e este segundo modo de conceber e gerar foi muito mais nobre e muito mais excelente que o primeiro: felicius Christum corde, quam ventre gestavit, diz S. Agostinho. Licença nos dá logo o mesmo Cristo para dizermos destes segundos filhos de sua Mãe, ainda em comparação do beatus venter, quinimmo beati, porque sendo Cristo e os carmelitas filhos da mesma Senhora, ele nesta consideração é Filho natural, e eles filhos adotivos; ele concebido no ventre de Maria, e eles no coração; ele no corpo, e eles na alma, porque são filhos do seu juízo e do seu amor.

V – Se todos os cristãos e todos os dedicados ao serviço da Virgem são e se chamam verdadeiramente seus filhos, que prerrogativa é esta da Religião Carmelitana? João, o discípulo amado, o filho de Maria por antonomásia. A esposa predileta dos Cânticos. As três jerarquias dos filhos da Virgem. José, o filho de Jacó.

Muito parece que tínhamos dito, se a universalidade deste grande privilégio lhe não tirara o preço de raro e a estimação de singular, Vejo que me estão dizendo os doutos, e muito mais os interessados, que ser filhos adotivos da Virgem Maria não é prerrogativa particular desta só religião, senão de muitas outras congregações e comunidades aprovadas também pela Sé Apostólica, que debaixo do mesmo nome servem e veneram a Mãe de Deus. Estes são os primeiros e maiores opositores. Os segundos são todos os devotos da mesma Senhora, que com particular afeto e obséquio se lhe têm dedicado, por que ninguém a quis receber por Mãe que ela o não aceitasse por filho. Quando Cristo na cruz disse a S. João: Ecce Mater tua, acrescenta logo o mesmo evangelista: Et ex illa hora accepit eam discipulus in sua, ou, como outros lêem: in suam (Jo. 19, 27): Que desde aquela hora a recebeu o discípulo por sua. — Onde é muito de notar que da parte de S. João diz o texto que recebeu a Senhora por Mãe, mas da parte da Senhora não diz que o aceitou por filho. Pois se diz que ele a recebeu, por que não diz que ela o aceitou? Porque não era necessário dizer-se. Tanto que recebemos a Virgem Maria por Mãe, logo ela nos aceita por filhos, sem ser necessária outra declaração: Expressit, quod magis dubium esse poterat; tacuit quod minus erat dubium[6], comenta Salmeirão. A dúvida está em nós a querermos por Mãe; em a benigníssima Senhora nos aceitar por filhos, não há dúvida. Oh! que grande consolação para todo o pecador! Mas ainda temos mais opositores, que são todos os fiéis, quaisquer que sejam, porque todos os cristãos são filhos da Mãe de Cristo. Assim o dizem Santo Agostinho,. Orígenes, Santo Anselmo, Ruperto e outros muitos Padres. A razão é porque pela união da fé, e pela regeneração do Batismo, todos os fiéis somos membros de Cristo, que é a cabeça deste corpo místico, e a Mãe de Cristo é Mãe de todos seus membros: Ipsa unica Virgo Mater, quae se Patris unicum genuisse gloriatur, eumdem unicum suum in omnibus membris ejus amplectitur, omniumque in quibus Christum suum formatum, vel formari cognoscit, Matrem se vocari non confunditur[7], diz Guerrico. E Geliberto Abade, ainda com palavras mais breves e mais vivas: Mater Christi, Mater est membrorum Christi: unde etiam ab omnibus Mater appellatur, et ab omnibus cultu debito ut Mater honoratur[8]. Pois, se todos os cristãos, se todos os devotos da Virgem, se todos os que por instituto se dedicam a seu serviço, debaixo do nome e patrocínio de Maria Santíssima, são e se chamam verdadeiramente filhos desta Senhora, que prerrogativa é esta da religião carmelitana, que tanto até agora encarecemos? Se eles só foram filhos da Mãe de Deus, era uma soberania singularíssima, e serem a exceção de todos os homens; porém, sendo esta mesma graça de tantos, é grande, é excelente, é gloriosa, sim, mas parece que não tem nada de singular. Antes, por isso mesmo digo que é singular, e singularíssima. Porque serem eles os filhos da Senhora, quando a Senhora é Mãe de tantos e tão ilustres filhos, essa é a prerrogativa que não tem par.

Não há coisa que mais me admire na História Evangélica, que ver a pompa amorosa e estilo singular com que S. João Evangelista, calando o nome próprio com que nomeia aos outros apóstolos, quando fala de si, se chama sempre o Discípulo amado: Discipulum quem diligebat Jesus (Jo. 13, 23). Tende mão, águia divina. E Pedro, e André, e os demais não são discípulos de Jesus? Sim, são, e primeiro discípulos que vós. E Pedro, e André, não são também amados? Sim, são, e primeiro amados, primeiro escolhidos, primeiro chamados. Pois se os outros apóstolos também são discípulos, e discípulos amados, que exceção ou que prerrogativa é esta, de que tanto vos prezais? É a maior e a mais singular que podia ser. Se não houvera outros discípulos e outros amados, não era tão excessivo louvor; mas havendo tantos discípulos e tantos amados, que João seja o discípulo amado, essa é a glória singularíssima de João. Não está a singularidade em ser só, nem a grandeza em ser grande; entre muitos ser o só, e entre grandes ser o grande, essa é a singularidade. O mesmo digo dos filhos de Maria, mas quero primeiro no-lo diga o mesmo S. João. A última cláusula do testamento de Cristo na morte foi deixar sua Mãe a S. João e S. João a sua Mãe: ela por Mãe, e ele por filho: Ecce filius tuus, ecce mater tua (Jo. 19, 27). Pergunto: e por esta cláusula, ficaram excluídos os outros apóstolos? Não. E assim o declarou o mesmo testador, Cristo, depois de sua ressurreição, quando mandou as Marias aos apóstolos, dizendo: Ite, nuntiate fratribus meis (Mt. 28, 19). Ide, levai as novas a meus irmãos. — Pois se os apóstolos, depois desta nomeação de filhos em S. João, ficaram também irmãos de Cristo e filhos de sua Mãe, que mais lhe deu Cristo a ele que aos outros? E se em João foi privilégio especial, por que o estendeu aos demais? Para que fosse mais seu e mais excelente a especialidade. Deu-lhe a companhia, para o fazer singular, e a comparação, para o fazer incomparável. Os outros apóstolos, também irmãos de Cristo, os outros apóstolos, também filhos de Maria, mas João, entre todos esses filhos, o filho: Ecce filius tuus. Assim como João, em respeito de Cristo, entre os discípulos é o discípulo, e entre os amados o amado, assim em respeito da Virgem, entre os filhos é o filho. Aos outros deu Cristo o nome, a João a antonomásia; aos outros a filiação, a João a especialidade de filho: Ecce filius tuus, ecce Mater tua.

Já agora me havereis entendido, e quão próprio e particular é desta bendita religião o privilégio singular de filhos de Maria. Filhos com os demais, mas não filhos como os demais; com especial eleição, com especial amor, com especial nome, com especial prerrogativa, enfim, com especial filiação, como entre os demais filhos, eles os filhos. Em três jerarquias particulares dividimos os filhos desta Senhora, cada um de maior a maior excelência. Na primeira e ínfima, entram todos os cristãos; na segunda e meia, todos os devotos da Virgem; na terceira e suprema, todos os dedicados a seu serviço com particular instituto. Mas sobre todas estas jerarquias verdadeiramente angélicas, a especialmente escolhida, e, como escolhida, amada da Rainha dos Anjos, é a sua família carmelitana. O mesmo Cristo, autor desta graça, como de todas, nos há de dar a confirmação dela. Por boca e em figura de Salomão, no capítulo sexto dos Cânticos, diz assim: Sexaginta sunt reginae, et octoginta concubinae, et adolescentularum non est numerus: una est columba mea, perfecta mea, una est Matri suae, electa genitrici suae[9]. Todos os Padres e expositores concordam em que nas três diferenças desta divisão: rainhas, mulheres segundas e damas, se compreendem três estados ou ordens de almas, as quais em maior ou menor grau de perfeição e união com Cristo, todas são esposas suas e filhas de sua Mãe. E até aqui temos bem distintas e expressas as três jerarquias, que dizíamos, de filhos adotivos da Senhora. O que mais acrescenta Salomão é que entre estas três jerarquias ou ordens, e sobre todas elas, há uma que é a única e singularmente escolhida de sua Mãe: Una est Matri suae, electa genitrici suae. Mas qual é esta única e singularmente escolhida? Ponderai bem as palavras, e vereis como não é nem pode ser outra que a religião carmelitana: Una est Matri suae, electa genitrici suae. Não diz só que é única e escolhida de sua Mãe: Matri suae, senão nomeadamente de sua Mãe que a gerou: Genitrici suae, distinguindo na mesma maternidade dois nomes e dois modos de ser mãe. De todas as outras ordens de filhos seus, é Mãe a Virgem Santíssima; mas da Ordem Carmelitana é Mãe e genetriz, porque a gerou e produziu, como dissemos: Ipsa produxit Ordinem Beatae Mariae de Monte Carmelo. E porque o modo de produzir e gerar estes filhos foi a eleição especial que deles fez, por isso ajuntou logo e declarou a mesma eleição: Electa genitrici suae. Dos outros é Mãe, porque eles por sua devoção e afeto elegeram a Senhora; dos carmelitas é Mãe, porque ela por especial eleição os elegeu: Electa genitrici suae. E por isso únicos filhos entre tantos filhos, e única Ordem entre tantos institutos: Una est Matri suae, electa genitrici suae.

Houve-se a Senhora na eleição da Ordem Carmelitana, houve-se esta Mãe na eleição destes filhos, como se houve Deus na eleição de sua Mãe. Para Deus eleger por Mãe a Virgem Maria, fez primeiro três eleições e três separações de melhor que havia no mundo. De todos os povos elegeu e separou primeiro um povo, que foi o povo hebreu em Abraão; de todas as tribos desse povo elegeu e separou logo uma tribo, que foi a de Judá; de todas as famílias dessa tribo elegeu e separou depois uma família, que foi a família de Davi; ultimamente dessa família elegeu uma pessoa, a mais digna, que foi a Virgem Maria: Ad Virginem desponsatam viro, de domo David[10]. O mesmo fez a Mãe de Deus na eleição destes filhos, para que entre todos os seus filhos, eles fossem os únicos, e o escolhido dos escolhidos: Una est Matri suae, electa genitrici suae. De todos os povos e gentes do mundo escolheu o povo cristão, que são os seus filhos por fé; de todos os cristãos escolheu os seus devotos, que são os seus filhos por afeto; de todos os seus devotos escolheu as congregações que a servem debaixo de seu nome e patrocínio, que são os seus filhos por instituto; e, finalmente, de todos os institutos passados, presentes e futuros, escolheu a Ordem do Monte Carmelo, para que ela fosse a única e escolhida entre todos os outros filhos, e, sobre todos eles, sua: Matri suae, electa genitrici suae. Todos os outros com mais ou menos prerrogativa, e sempre com grande dignidade, são filhos da Virgem Maria; mas os carmelitas são os seus filhos, os seus: Matri suae, genitrici suae.

Em respeito dos mesmos pais, uma coisa é ser filho seu, e outra muito diferente ser o seu filho. Jacó tinha tantos filhos, como sabemos, mas o seu filho era José. Entre os outros filhos também havia três distinções: uns eram de Bala, outros de Zefa, outros de Lia, mas José, que era o primogênito de Raquel, esse era o seu filho. Esta foi a alusão desumana com que os invejosos irmãos acompanharam o recado da túnica ensangüentada: Vide utrum tunica filii tui sit, an non[11]? E esta foi a energia da dor com que Jacó, reconhecendo-a, respondeu: Tunica filii mei est[12]. Os filhos chamaram-lhe o vosso filho: filii tui; e o pai chamou-lhe o meu filho: filii mei, porque, ainda que todos eram filhos de Jacó, José era o seu filho. E para maior expressão do que nenhum deles duvidava, ajuntando-se, diz o texto, todos os filhos para consolar o pai: congregatis cunctis liberis ejus, ut lenirent dolorem patris, — o que lhes disse foi: Descendam ad filium meum lugens in infernum: Não quero outra consolação senão a morte, para ir buscar e ver a meu filho (Ibid. 35). Pois todos estes que aqui tendes presentes não são também filhos vossos? Sim, são: são meus filhos, mas não são o meu filho. Os outros também eram filhos, não o negava Jacó, mas o seu filho era José. Vai muito de ser filho a ser o seu filho, Esta é a diferença com que na eleição da Virgem Maria, sendo tantos os seus filhos, e todos queridos, se distinguem muito uns dos outros. Os demais são filhos da Senhora, mas os carmelitas são os seus filhos: Una est Matri suae, electa genitrici suae.

VI – Os carmelitas são os Josés da Virgem Maria. A túnica de José e o escapulário dos carmelitas. Eliseu e Elias, figuras proféticas da Ordem Carmelitana. As invejas bem-nascidas. O hábito dos carmelitas e os cordeiros de duas cores de Jacó.

Sem nos apartarmos da história de José, mostrarei o instrumento autêntico e o padrão firmíssimo desta diferença. Diz o texto sagrado que Jacó amava a José sobre todos os outros filhos: Israel diligebat Joseph super omnes filios suos (Gên. 37, 3). É este excesso e diferença do amor do pai, diz o mesmo texto que o viam muito bem os outros irmãos de José: Videntes autem fratres ejus, quod a patre plus cunctis filiis amaretur (Ibid. 4). O amor é um afeto tão invisível como a mesma alma onde nasce e onde vive. E se o amor não se vê, como viam os outros filhos o amor de Jacó, e o viam tão distintamente, que conheciam sem nenhuma dúvida ser José o mais amado: Videntes quod a patre pluscunctis amaretur? Viram-no pelos efeitos, e distinguiram-no pelas cores: Fecit ei tunicam polymitam (Ibid. 3): Fez Jacó a José uma túnica variada de cores — mais nobre que aos outros, e este foi o sinal manifesto por onde conheceram a diferença. Quereis ver como os carmelitas são os Josés da Virgem Maria? Olhai para aquele escapulário que têm nas mãos, que a mesma Senhora lhes deu e fez só para eles: Fecit ei tunicam polymitam, quer dizer, variada de cores. Aquelas duas faixas tiradas dos guarda-roupas do céu, com que a Senhora variou o hábito branco de Elias, são o caráter do seu amor e o sinal visível de serem estes filhos, entre todos os outros, os seus.

Bem sei que não foi só José o invejado pela singularidade do vestido, Muitas línguas e penas houve que quiseram escurecer e impugnar esta glória, e despir dela aos religiosos carmelitas, como os invejosos irmãos despiram a túnica a José. Mas já não podem ladrar estes Cérberos, porque lhes tapou a boca a Igreja com tantas bulas dos Sumos Pontífices. Declararam e confirmaram esta verdade Alexandre Quinto, Clemente Sétimo, Paulo Terceiro, Paulo Quinto, Gregório Decimo tércio, e outros, e primeiro que todos João Vigésimo segundo, ao qual apareceu a mesma Senhora, e lhe revelou que seria promovido ao pontificado com condição e promessa que confirmaria a certeza e privilégios do seu escapulário, a que o mesmo Pontífice chama: Habitus sancti signum, Quis a Virgem, depois de dar esta prenda aos carmelitas, torná-la a reconhecer por sua, e dizer como Jacó: Haec est tunica filii mei: Esta é a túnica dos meus filhos. — Que muito logo, que haja invejosos? Deixai-os, que têm muita razão. Eu estou muito bem com as invejas bem nascidas, ainda entre os filhos dos mesmos pais. Invejou Caim a Abel, e por que o não havia de invejar? Invejou-lhe o ser mais bem visto de Deus, e teve tanta razão, como não tem nenhuma os que invejam outras coisas. Só a graça de Deus se há de invejar, e depois dela, que sempre andam juntas, a graça da Mãe de Deus. Por que não havia de invejar ao filho segundo o outro irmão, se viu que o pai o vestia com a primeira estola: Proferte stolam primam[13]? Se aquela é a primeira estola da Mãe de Deus, por que não hão de ser invejados estes filhos? Eles são os filhos segundos da Virgem em respeito de Cristo, e a sua estola é a primeira em respeito de todos os outros filhos. Vestiu ao Primogênito natural, e vestiu aos primogênitos adotivos, e a um e outros assinalou e distinguiu com a divisa das cores. Quando lhe perguntaram à Senhora qual era o seu amado sobre todos: Qualis est dilectus tuus ex dilecto? — respondeu que era branco e encarnado, escolhido entre milhares: Dilectus meus candidus est rubicundus, electus ex millibus (Cânt. 5, 9 s). Ao Filho amado sobre todos vestiu do encarnado da humanidade, sobre o branco da divindade; aos filhos amados sobre todos, vestiu-os do pardo seu, sobre o branco de Elias.

No capítulo dezenove do Terceiro Livro dos Reis, lançou Elias o manto sobre Eliseu, que foi deitar-lhe o hábito da sua religião, como dizem grandes expositores daquele lugar, e se provou logo com a renunciação que Eliseu fez de seus bens e da casa de seu pai, seguindo sempre e obedecendo a Elias. (3 Rs. 19, 19). Dali a tempos, como se conta no quarto livro, capítulo segundo, despediu-se Elias de Eliseu, dizendo-lhe que pedisse o que queria, e pediu que se dobrasse nele o seu espírito: Fiat in me spiritus tuus duplex (4 Rs. 2, 9). Respondeu Elias que era coisa difícil a que pedira, mas que lhe seria concedida, com condição que o visse quando se ausentasse dele: Si videris me, quando tollar a te (Ibid. 10). Apareceu nisto o carro de fogo, voa Elias pelos ares, rasga Eliseu as suas vestiduras: Scidit vestimenta sua (Ibid.12). E depois levantou e tomou para si a capa de Elias, que lhe tinha caído lá de cima quando ia voando: Levavit palium Eliae, quod ceciderat ei (Ibid. 13). Infinitas coisas havia que ponderar neste famoso sucesso. Primeiramente parece demasiado desejo, e ainda atrevimento, pedir Eliseu o espírito de Elias dobrado, quanto mais que nem ele lhe podia dar o seu espírito, e muito menos o que não tinha. E se Deus lhe havia de dar esse espírito, que importava que Eliseu visse ou não visse a Elias depois de arrebatado e partido? E se Eliseu já tinha o hábito de Elias, para que lho deita segunda vez? E se lho queria dar, por que lho não deu na terra, enquanto estava com ele? E finalmente, por que rasga o seu vestido Eliseu, ficando com um e outro, com o seu rasgado e com o outro caído do céu inteiro?

Tudo isto não foi mais que uma figura profética do que depois havia de suceder à religião carmelitana, que em Eliseu, como em cabeça, se representava. Pediu profeticamente Eliseu que se lhe dobrasse o espírito, porque o espírito que tinha recebido na lei escrita se lhe havia de dobrar e aperfeiçoar na lei da graça, mas não por meio de Elias. Prova-se do mesmo texto, por que quando Elias a primeira vez lançou o manto sobre Eliseu, disse-lhe que ele tinha feito de sua parte quanto podia: Quod enim meum erat, feci tibi (3 Rs. 19, 20). Logo não era Elias o que lhe havia de dar segunda vez o hábito, nem o que lhe havia de dobrar o espírito, e por isso Eliseu não disse: Da mihi, senão: Fiat in me, e Elias, quando respondeu à petição não disse: Dabo, senão Erit tibi. Era pois o mistério representado profeticamente nesta figura, que os sucessores de Elias haviam de receber outra vestidura, e que com ela se lhes havia de dobrar o espírito, como sucedeu com o sagrado escapulário. Por isso, esta segunda vez não foi dada a vestidura na terra, senão caída do céu. E por isso Elias pediu a condição de que o vissem depois de partido, porque se os carmelitas se não conservassem no mesmo instituto, tendo sempre a Elias diante dos olhos, não mereceriam este favor da Mãe de Deus, nem a mesma Senhora os visitaria no Monte Carmelo, como visitava freqüentemente, nem eles no mesmo lugar edificariam, ainda antes da sua Assunção, o primeiro templo. E por isso, com admirável propriedade, Eliseu rasgou o hábito que tinha recebido de Elias, e levantou e tomou o que caiu do céu, porque assim o fizeram os carmelitas, abrindo a vestidura antiga de Elias, e fazendo dela o manto branco, e tomando o escapulário pardo e a túnica da mesma cor, com que ficaram inteiramente vestidos e sinalados por filhos da Santíssima Mãe.

Sucedeu-lhe à Senhora com Elias o mesmo que a Jacó com Labão. Concertou-se Labão com Jacó que todos os cordeiros que nascessem de duas cores seriam de Jacó, e os que saíssem brancos seriam seus, e a este fim deu-lhe só as ovelhas brancas, para que os cordeiros saíssem também brancos. Porém, Jacó, pondo diante dos olhos às ovelhas certas varas, nasciam os cordeiros de duas cores: Factum est ut parent maculosa et diverso colore respersa[14]. Assim no Monte Carmelo, enquanto a religião carmelitana teve diante dos olhos só a Elias: Si vederis me quando tollar a te[15] — eram os seus cordeiros brancos da cor do hábito de Elias, como refere Santo Epifânio, que o viu vestido sua Mãe quando o concebeu; porém, depois que se lhe variou este objeto e se lhe pôs diante dos olhos a vara da raiz de Jessé, a Virgem Santíssima com o escapulário pardo, saíram dali por diante todos os cordeiros vestidos de lã de duas cores: Diverso colore respersa, e por isso sinalados com o caráter e divisa de sua Mãe, como filhos especiais, singulares, e mais seus e distintos de todos os outros.

VII – Razão e fundamentos desta gloriosa especialidade: semelhanças que os carmelitas, desde seus antiquíssimos princípios tiveram com Cristo. Os decretos divinos da filiação adotiva, segundo S. Paulo. Os carmelitas nomeados por Salomão, nos Cânticos. A Religião Carmelitana, congregação de profetas.

Parece-me que temos satisfeito à evidência desta gloriosa especialidade e diferença, e só nos resta mostrar a razão e fundamento dela, que não serão menos gloriosos. A filiação adotiva, como se funda não em caso ou fortuna da natureza, senão em eleição do juízo e da vontade, necessariamente supõe merecimento, e quanto o juízo é mais sublime e a vontade mais reta, tanto maior merecimento supõe. Qual é logo, ou quais são os merecimentos por cuja singularidade e grandeza mereceram os filhos da Religião Carmelitana ser preferidos e antepostos a todos os outros na eleição da Mãe de Deus? Confesso que em matéria tão grave, e em que todas as sagradas religiões podem alegar tantos e tão ilustres títulos de merecimentos, de obséquio, de devoção e de serviços tão particulares feitos à Virgem Santíssima, não me soube por muito tempo resolver, até que o mesmo Evangelho, por caminho tão extraordinário, como logo vereis, me guiou a acertar com a verdadeira razão, ou a que eu tenho por tal.

Digo que foram preferidos os carmelitas pela grande semelhança que esta sagrada religião, desde seus antiquíssimos princípios, teve com Cristo. E era razão que aqueles fossem preferidos na eleição de filhos adotivos, que mais semelhantes e mais conformes eram ao Filho natural. Governou-se a Mãe de Deus neste decreto da sua eleição pelas mesmas idéias das eleições e decretos divinos. Como decretou Deus ab aeterno os seus filhos adotivos? Disse-o S. Paulo no capítulo oitavo da Epístola ad Romanos: Quos praescivit et praedestinavit, conformes fieri imaginis Filii sui, ut sit ipse Primogenitus in multis fratribus[16], Os que Deus predestinou para filhos adotivos, predestinou-os também para serem semelhantes e conformes a seu Filho natural, para que o Filho natural seja o primogênito, e os adotivos segundos. De maneira que, como filhos do mesmo Pai todos são irmãos, é bem que sejam parecidos e semelhantes; e como Cristo, que é o primogênito, é também o exemplar dos demais, para que os adotivos, que são os segundos, lhe sejam semelhantes, é necessário que se retratem por ele e se conformem com ele, porque de outro modo seriam irmãos, e não seriam parecidos. Esta é a forma dos decretos de Deus nas suas eleições, e tal foi o da Virgem Maria nesta sua, só com uma diferença: que Deus faz semelhantes aos que quer adotar por filhos, e a Senhora adotou por filhos aos que achou semelhantes. Elias lhes deu a semelhança, e a Senhora a adoção, mas a adoção fundada na semelhança: Conformes imaginis Filii sui, ut sit ipse primogenitus in multis fratribus.

Quanta fosse desde seu princípio a semelhança dos carmelitas com Cristo, isto é, dos primogênitos adotivos da Senhora com o seu primogênito natural, testificou-o Salomão não menos que nomeando aos carmelitas por seu próprio nome. Descreve o Esposo a Esposa no capítulo sétimo dos Cânticos, retratando suas perfeições uma por uma, e, chegando à cabeça, faz esta notável comparação: Caput tuum ut Carmelus (Cânt. 7, 5): A vossa cabeça, Esposa minha, é como o Monte Carmelo. — Não me espanto que Salomão compare a cabeça da Esposa a um monte, porque as suas comparações são tão extraordinárias como a sua sabedoria; mas por que mais ao Monte Carmelo que a outro? Saibamos qual é a cabeça comparada, e logo veremos a propriedade da comparação. A Esposa de que se trata nos Cânticos é a Igreja; a cabeça desta Esposa e do corpo místico da Igreja é Cristo: Et ipsum dedit caput supra omnem Ecclesiam, quae est corpus ipsius[17], diz São Paulo. E querendo comparar Salomão a Cristo com alguma coisa da terra, não achou outra que fosse mais semelhante a ele que o Monte Carmelo, porque era habitado dos carmelitas. Justo Orgelitano: In Carmelo monte Sanctus Elias et Eliseus saepe receptaculum habuerunt, qua propter in capite Ecclesiae Domino nostro Jesu Christo, quo sublimius nihil est, justi habitaculum recipiunt. Muitos varões justos e santos fizeram célebres e famosos outros montes de Israel e fora dele; mas não compara Salomão a Cristo nem ao Monte Sinai, venerado pela lei de Moisés, nem ao Monte Mória, santificado com o sacrifício de Abraão, nem ao Monte Olivete, regado com as lágrimas de Davi, nem ao Monte Líbano, freqüentado de Josias e Ezequias, mas só singularmente ao Monte Carmelo, porque era o solar nobilíssimo dos carmelitas, consagrado com a santidade de sua vida e instituto. E não houve naqueles tempos nem outra vida, nem outro instituto tão semelhante a Cristo. E se não, apareça Cristo no mundo, e vejamos a quem o comparam os homens, e a quem dizem que é semelhante.

Perguntou Cristo aos apóstolos: Quem dicunt homines esse Filium hominis[18]? Que opinião havia dele no povo, quem diziam que era? E responderam: Alii Joannem Baptistam, alii autem Eliam, alii vero Jeremiam, aut unum ex prophetis! Uns dizem, Senhor, que sois o Batista, outros Elias, outros Jeremias ou algum dos profetas. — Bravos inimigos são os homens da idade em que nasceram. Mais depressa crêem que podem ressuscitar os grandes homens passados, que nascer de novo outros tão grandes como eles. Sempre a inveja foi vício de vivos e dos presentes, e até Deus, depois que se sujeitou a nascer, não ficou isento desta injúria do seu povo. Mas, suposto que cuidavam e diziam que era um dos antigos, parecia-me a mim que o haviam de comparar com os reis, e não com os profetas, porque o Messias era esperado como rei, e Cristo como rei foi aclamado e adorado dos Magos, título que tanto sangue custou aos inocentes, e as turbas o quiseram levantar por rei no deserto, e finalmente em Jerusalém o receberam com triunfo e aplausos públicos de rei: Benedictus qui venit in nomine Domini, Rex Israel[19]. Contudo era tanta a semelhança que Cristo tinha com os carmelitas, e os carmelitas com Cristo, que a ninguém lhe parecia senão carmelita. Elias era carmelita, e o primeiro pai e fundador dos carmelitas, como consta de toda a Escritura. O Batista era carmelita, como dizem São Gregório Nazianzeno, S. Macário, Santo Antonino. Jeremias era carmelita, senão no lugar, ao menos no instituto da vida, como se colhe de S. Jerônimo na prefação do mesmo profeta. Os outros profetas também muitos eram carmelitas, tanto assim que a Religião Carmelitana, pelo nome mais comum se chamava Coetus Prophetarum: Congregação dos profetas. E como os carmelitas desde seu nascimento foram tão semelhantes e tão parecidos a Cristo, havendo a Mãe de Deus de dar irmãos adotivos ao Filho natural, e ao seu primogênito filhos segundos, claro está que estes não haviam nem deviam ser outros, senão aqueles que eram mais semelhantes e mais conformes a ele: Conformes imaginis Filii sui, ut sit ipse primogenitus in multis fratribus.

VIII – Mesmo na lei da graça a Religião Carmelitana continua a ser preferida nesta filiação, por ter começado muito antes de Cristo, prerrogativa que a faz única e singular entre as demais. A originalidade de José de Elias. Os religiosos carmelitas, evangélicos, apostólicos e cristãos, antes de haver Evangelho, antes de haver apóstolos, antes de haver Cristo. Como os anjos, fizeram a palavra de Deus para a ouvirem.

Só estou vendo que se me pode instar, e fortemente. Se a semelhança com Cristo foi o merecimento desta prerrogativa, ainda que concedamos liberalmente aos antigos carmelitas tudo o que essencialmente pertence e constitui uma verdadeira religião, não há nem pode haver dúvida que as religiões da lei da graça participam muito maior e mais perfeita semelhança com Cristo. Logo, ou qualquer delas havia de ser a preferida nesta filiação, ou não é este o verdadeiro fundamento e merecimento dela. Torno a dizer que sim. E não me quero valer de um escudo, com que este e semelhantes golpes se podiam rebater facilmente, e é que as leis e regras do amor não são stricti juris. Ainda que as razões do amor padeçam instâncias, nem por isso se faz prova contra a verdade e certeza de suas eleições: antes, por isso são mais suas ainda de pais a filhos. Dá a razão a Escritura, porque Jacó amava mais a José que a todos os outros filhos, e diz que era eo quod in senectute genuisse eum (Gên. 37, 3): porque o havia gerado na velhice. — Contra: que esta mesma razão favorecia muito mais a Benjamim, o qual nasceu depois de José e foi o último filho de Jacó. Contudo a conclusão era certa, e a razão, em que se fundava, verdadeira, e por tal a qualifica o texto sagrado. O mesmo podia eu responder, quando a objeção e a instância subsistira; mas não subsiste. A religião carmelitana, havendo começado mais de mil anos antes das mais antigas, teve dois tempos e duas idades: uma depois e outra antes de Cristo. Depois de Cristo foi tão perfeita religião como qualquer das outras da lei da graça; antes de Cristo teve toda a perfeição que permitia aquele tempo e aquele estado. E esta circunstância de ter começado antes, e tanto antes de Cristo, é uma prerrogativa que a faz única, e singular, e incomparável na mesma semelhança em que se funda a sua preferência. As outras religiões foram semelhantes a Cristo por imitação de Cristo; os carmelitas foram semelhantes a Cristo antes de haver no mundo Cristo a quem imitar. E este modo de ser semelhante excede incomparavelmente a todas as outras semelhanças. De Jó disse Deus que não tinha semelhante na terra: Nunquid considerasti servum meum Job, quod non sit ei similis in terra[20]? E por quê? S. Agostinho: Quis tantum potuit promereri, cui tale testimonium Dominus perhiberet, nisi hic, qui non imitator invenitur, sed author eorum quae gessit: Não teve Jó semelhante no mundo, porque não foi imitador, senão autor. — Os outros imitaram, ele não teve a quem imitar. Ele foi original, os outros cópia; ele mestre, os outros discípulos. E mestre antes de vir ao mundo o Mestre do mundo. Mudai o nome de Jó em Elias, e tem respondido por mim S. Agostinho.

Mas, dê-me licença a vossa devoção, para que eu desenvolva um pouco do muito que está encoberto na diferença desta semelhança. Diz Cristo: Beati qui audiunt verbum Dei et custodiunt illud: bem-aventurados os que ouvem a palavra de Deus e a guardam. Quanto mais bem-aventurados serão os que guardam a palavra de Deus sem a ouvirem? Pois esta é a vantagem que faz a Religião Carmelitana a todas as outras religiões da Igreja. As outras religiões ouviram a palavra de Deus, e guardaram-na: a religião carmelitana guardou a palavra de Deus antes de a ouvir. As outras religiões ouviram a palavra de Deus e guardaram-na, porque primeiro Cristo pregou os conselhos evangélicos, em que consiste a perfeição religiosa, e depois os seguiram e abraçaram os fundadores dessas religiões, e se consagraram ao serviço de Deus debaixo daquele instituto; porém a religião carmelitana e seus antiquíssimos e santíssimos fundadores, ainda Cristo não tinha pregado nem ensinado ao mundo a perfeição e alteza dos conselhos evangélicos, e já eles os guardavam com religiosíssima observância. Ainda Cristo não tinha pregado o desprezo do mundo, e já eles tinham deixado o mundo; ainda não tinha pregado a pobreza, e já eles, por voto, eram pobres; ainda não tinha pregado a castidade e a obediência, e já eles, por voto, eram castos e obedientes. Enfim, Cristo não tinha pregado nem aconselhado o estado de religião, e já eles eram religiosos. Diz S. Paulo que ninguém pode obrar sem crer, nem crer sem ouvir, nem ouvir sem pregador: Quomodo credent ei, quem non audierunt? Quomodo autem audient sine praedicante[21]? E os religiosos carmelitas, vencendo gloriosamente este impossível, antes de se pregar o Evangelho o creram, e antes de o ouvir o obraram: sendo evangélicos antes de haver Evangelho, sendo apostólicos antes de haver apóstolos, sendo cristãos antes de haver Cristo. Não disse bem. Muito mais é ser religioso que ser cristão. E quando no mundo ainda não havia quem fosse cristão, já todos os carmelitas eram religiosos. Marcela levantou a voz, dizendo: Beatus venter qui te portavit; Cristo sobre aquela voz levantou mais e disse: Quinimmo beati qui audiunt verbum Dei et custodiunt illud. E os religiosos carmelitas, com um contraponto altíssimo, podem acrescentar em glória do mesmo Cristo outro quinimmo, e dizer: Quinimmo beati qui non audierunt, et custodierunt[22], porque guardaram a palavra de Cristo antes de a ouvir.

Dos anjos diz Davi uma coisa notável: facientes verbum illius ad audiendam vocem sermonum ejus (Sl. 102, 20): que fazem a palavra de Deus para a ouvirem. — Não entendo, ou os termos estão trocados. Parece que havia de dizer: os anjos ouvem a palavra de Deus para a fazerem, e não, os anjos fazem a palavra de Deus para a ouvirem, porque primeiro é ouvir o que Deus manda, e depois fazê-lo. Pois por que diz que fazem para ouvir, e não ouvem para fazer? Porque é tão grande a prontidão e a diligência com que os anjos executam a palavra de Deus, que parece que primeiro a fazem, do que a ouvem: no mesmo instante ouvem e executam. Assim se entendem estas palavras, nem admitem outro sentido nos anjos do céu; porém nos anjos do Carmelo sim, porque verdadeiramente executaram a palavra de Cristo antes de a ouvirem, e não só antes, e muito antes, senão oitocentos anos antes, que tantos precedeu Elias a Cristo. Oitocentos anos antes de se ouvir no mundo a palavra de Cristo, já no Carmelo se guardava o Evangelho: facientes verbum illius ad audiendam vocem sermonum ejus. Ainda a palavra de Cristo não era ouvida, e já era executada; ainda a palavra de Cristo não tinha voz, e já tinha obediência; ainda a palavra de Cristo não era palavra, e já era obras, A maior sentença que disseram os sete sábios da Grécia, foi: Sequere Deum. Mas o espírito e as obras de Abraão foram tão antecipadas, diz S. Ambrósio, que já ele tinha feito muitos anos antes o que os sábios disseram depois: Quod pro magno inter septem sapientium dicto celebratur (sequere Deum) fecit Abraham, facto que sapientum dicta praevenit. E se fazer e executar antes o que os sábios de Grécia disseram depois é grande louvor de Abraão, qual será o dos carmelitas em haverem antecipado com as suas obras as palavras da sabedoria eterna; em fazerem o que Cristo ensinou antes de Cristo o ensinar; em serem discípulos de Cristo antes de serem ouvintes de Cristo: Qui non audierunt verbum Dei, et custodierunt illud.

IX – Por que diz Cristo que não veio desfazer a lei e os profetas, senão guardá-la e cumpri-la? Os profetas de que fala Cristo eram aqueles que observavam instituto semelhante aos conselhos evangélicos. Cristo pisou por onde os precursores do Carmelo tinham caminhado. Os carmelitas e o cortejo triunfal de Cristo em Jerusalém. A primazia de Cristo e a precedência da Religião Carmelitana.

Mas para que esta semelhança entre o Filho natural da Virgem e os filhos adotivos fosse recíproca, não só eles foram imitadores de Cristo, mas Cristo, enquanto podia ser, os imitou a eles. Não só foram os carmelitas os que fizeram antes o que a palavra de Deus não tinha dito, mas a palavra de Deus foi a que disse e ensinou depois o que os carmelitas tinham feito. Eles guardaram o que Cristo não tinha ensinado, e Cristo guardou o que eles tinham guardado: Custodiunt illud.

Será prova não dificultosa desta maravilhosa excelência, um dos mais dificultosos lugares do Evangelho: Nolite putare quoniam veni solvere legem aut prophetas: non vem solvere, sed adimplere (Mt. 5, 17): Ninguém cuide de mim — diz Cristo — que vim desfazer a lei e os profetas, porque a vim guardar e cumprir. — É certo que Cristo veio desfazer a lei, porque em lugar da lei escrita, veio substituir a lei da graça. Pois, se Cristo veio desfazer a lei, como diz que a não veio desfazer, senão que a veio cumprir? Eu o direi: dai-me atenção. A lei de Moisés — não falando na parte judicial, que não pertence aqui — tinha duas partes: a cerimonial e a moral. A cerimonial, essa foi a que Cristo desfez, como se desfaz a sombra com a luz, a figura com o figurado, a promessa com o prometido, e a esperança com a posse. A parte moral, não a desfez Cristo, antes a aperfeiçoou, e de dois modos. O primeiro, declarando e tirando os abusos com que os fariseus a tinham depravado; o segundo, acrescentando-lhe os conselhos evangélicos, não com necessidade de preceito, mas como ornamento e coroa da mesma lei, para os que livremente a quisessem alcançar. E porque a religião dos profetas, isto é, Elias e seus sucessores, tinham dado princípio — ainda que em menor perfeição — aos mesmos conselhos, e Cristo observou e guardou uma e outra coisa, por isso disse: Non veni solvere legem aut prophetas, sed adimplere. E que este seja o verdadeiro sentido do texto, prova-se de todas as circunstâncias e conseqüências dele. Porque primeiramente a matéria de que Cristo atualmente falava, eram os mesmos conselhos evangélicos: Beati pauperes spiritu[23] etc. As pessoas com quem falava eram os apóstolos, chamados para seguir a perfeição dos mesmos conselhos: Acesserunt ad eum discipuli ejus, et aperiens os suum docebat eos[24]. O prêmio que prometia era ser grande no céu: Hic magnus vocabitur in regno caelorum[25], que só se dá aos observadores dos conselhos. O nome com que os significou foi de mandamentos mínimos: De mandatis istis minimis, porque os conselhos não chegam a ser mandamentos, nem têm força de preceito, nem excluem do reino do céu: Minimus vocabitur in regno caelorum[26]. Finalmente, aquela disjuntiva: aut legem aut prophetas, mostra claramente que a doutrina dos profetas, de que Cristo falava, era distinta da lei, porque se tomara os profetas só como intérpretes da lei, havia de dizer: legem et prophetas, como quando disse: Lex et prophetae usque ad Joanne[27].Mas os profetas, de que aqui falava, não eram os intérpretes da lei, senão os que seguiam vida e instituto superior a ela, qual era o que Cristo atualmente estava pregando. E porque Elias, Eliseu e seus sucessores, que comumente eram profetas e se chamavam os profetas, tinham dado princípio, antes de Cristo os pregar, a estes que depois foram conselhos evangélicos, por isso diz Cristo que nem viera a desfazer a lei quanto aos preceitos, nem os profetas quanto à perfeição, senão a observá-la e a cumpri-la: Non veni solvere, sed adimplere.

Conforma-se mais a verdade e propriedade desta explicação com outras palavras notáveis do mesmo texto: donc transeat caelum et terra, jota unam, aut anus apex non praeteribit a lege, donc omnia fiant[28]. É profecia e promessa de Cristo, na qual assegura que a lei de que falava e os ápices dela se hão de observar até o fim do mundo. Até o fim do mundo? Logo não falava Cristo da lei cerimonial, que já acabou, senão da moral, que atualmente estava reformando e aperfeiçoando, acrescentando-lhe os conselhos que são os ápices da mesma lei, isto é, partes e pontos mais miúdos e mais delicados e mais altos, a que por isso chama mandamentos mínimos: Apex est evangelica perfectio[29], diz a glosa. E S. Crisóstomo: Non pro veteribus legibus hoc dicit, sed pro his quae ipse erat praecepturus, quae quidem minima vocat, licet magna sint[30]. Donde se segue claramente que os profetas de que Cristo disse: legem aut prophetas, eram aqueles profetas que observavam instituto semelhante aos conselhos evangélicos. E por isso neste segundo texto não fez distinção da lei dos profetas, nem disse lei e profetas, senão somente lei: Non praeteribit a lege, porque depois que a lei moral e a escrita passou a ser lei evangélica, dentro dela se compreenderam também os conselhos que no tempo da lei escrita andavam na tradição e exemplo dos homens santos, e não no corpo da lei. Esta mesma lei pois, e estes mesmos ápices dela, que agora são conselhos evangélicos, e antigamente eram institutos proféticos em Elias e seus sucessores, não só diz Cristo que hão de durar até o fim do mundo — quando virá o mesmo Elias contra o anticristo — mas que o mesmo Cristo os veio guardar e cumprir: Non veni solvere legem aut prophetas: non veni solvere, sed adimplere.

Oh! grande glória desta religião grande, singular, inefável! Que vindo Deus ao mundo a desfazer uma lei que ele mesmo instituíra, digo que veio não a desfazer, senão a guardar as leis que instituíram os carmelitas. Esta é a diferença que vai desta sagrada religião às nossas. Nós imos pelos passos de Cristo, e Cristo diz que vai pelos seus; nós caminhamos por onde Cristo pisou, e Cristo pisou por onde os precursores do Carmelo tinham caminhado. Entra Cristo triunfando em Jerusalém acompanhado de infinita gente, clamando e aclamado todos: Hosanna Filio David (Mt. 21, 9)! E notam os evangelistas que uns iam diante, outros detrás: Et qui praeibant, et qui sequebantur (Mc. 21, 9). Perguntam agora os doutores quem eram ou quem representavam os que iam diante, e quem os que iam detrás? E respondem com S. Hilário, que os que iam diante eram os santos da lei velha, que vieram antes de Cristo, e os que seguiam detrás eram os santos da lei nova, que vieram depois de Cristo. Os que iam diante eram os Elias, os Eliseus, os Jeremias, os Batistas; os que iam detrás eram os Pedros, os Paulos, os Agostinhos, os Domingos, os Franciscos. E que diferença havia entre uns e outros? A diferença era que os que iam detrás seguiam; os que iam diante eram seguidos. Os que iam detrás caminhavam por onde Cristo pisava; os que iam diante pisava Cristo por onde eles tinham caminhado. E este era o lugar em que iam os carmelitas. Tão adiantados em guardar a palavra e doutrina de Cristo que, em vez de eles seguirem a Cristo, veio Cristo — do modo que se pode entender — a os seguir a eles: Non veni solvere legem aut prophetas, sed adimplere.

Mais mistério há no caso. Os que iam diante, que já dissemos quem eram, lançavam as capas no chão, para que Cristo passasse por cima delas: Eunte autem illo substernebant vestimenta sua[31]. Donde infere advertidamente S. Pascásio que Cristo neste triunfo não deixou pegadas, porque não assentava os passos de seu caminho sobre a terra, senão sobre os mantos. Pois se Cristo veio a este mundo para que seguissem suas pisadas os que viessem depois dele: Ut sequamini vestigia ejus (1 Pdr. 2, 21), por que não deixou pisadas neste caminho? Porque aquelas capas dos que iam diante vinham a ser os mantos e os hábitos dos carmelitas, e onde estavam os hábitos dos carmelitas, eles substituíam as pisadas de Cristo, porque o que Cristo ensinou depois geralmente, com a sua doutrina e com os seus passos, isso é o que os carmelitas tinham exercitado e ensinado antes, com o seu hábito, com o seu exemplo, com a sua profissão. Os que iam detrás, não é muito que o fizessem depois de ouvirem e verem a Cristo; mas que o fizessem os que iam diante, sem verem a Cristo nem o ouvirem, esta foi a maravilha e esta a excelência singular dos carmelitas: Qui non audierunt verbum Dei, et custodierunt illud.

Nem cuide alguém que é ou pode parecer contra a dignidade e suprema primazia de Cristo esta precedência de tempo, porque toda essa virtude, todo esse exemplo, toda essa luz, ainda que antecedente, foi derivada do mesmo Cristo. Na primeira semana do mundo criou Deus o sol, ao quarto dia, e pôs o sol no quarto céu. E por que no quarto céu e ao quarto dia? Com admirável providência e mistério. No quarto dia precederam três dias atrás e seguiram-se outros três dias adiante; no quarto céu ficavam três planetas abaixo e outros três acima, e foi destinado ao sol aquele tempo e aquele lugar, aquele dia e aquele céu, para que, estando no meio, como primeira fonte da luz, tanto pudesse alumiar os planetas debaixo, como os de cima, tanto os dias que ficavam atrás, como os que iam adiante. Nos planetas está claro; nos dias, também é certo, porque aquela luz que precedeu nos primeiros três dias da criação, como diz Santo Tomás com o comum dos teólogos, era parte da mesma luz, posto que menos intensa, da qual depois foi formado o sol. Nem mais nem menos o Sol de Justiça. O tempo em que veio ao mundo foi no meio dos anos: In medio annorum notum facies[32]; o lugar em que nasceu no mundo foi no meio da terra: Operatus est salutem in medio terrae[33], para que entendêssemos, como verdadeiramente era, que a luz, a sabedoria, a virtude, a graça, o exemplo e o instituto de vida de todos os homens santos, ou os que vieram antes, ou os que se seguissem depois, em qualquer tempo e em qualquer lugar, tudo manava daquela primeira fonte, tudo eram raios daquele sol, e tudo efeitos daquela suprema causa. Todas as religiões vieram ao mundo depois de Cristo; a carmelitana abraçou ambos os tempos, porque já era antes, e foi depois: quando imitou e quando não tinha a quem imitar; quando seguiu e quando não tinha a quem seguir; quando ouviu e quando não tinha ouvido, sempre foi inspirada, movida e antecipada de Cristo. Teve planetas abaixo do sol, e planetas acima; teve dias depois do sol, e dias antes, mas todos alumiados do mesmo sol. Oh! com quanta glória, com quanta propriedade se pode dizer desta sagrada família: Permanebit cum sole et ante lunam (Sl. 71, 5): Sempre com o sol, mas antes da lua. — Sempre com o sol, porque em ambos os tempos e em ambos os estados sempre foi alumiada de Cristo; mas antes da lua, porque no primeiro tempo e no primeiro estado, foi antes da Virgem Santíssima. Mas por serem antes da Mãe, nem por isso deixaram de ser sempre seus filhos. Antes, por isso mesmo mais próprios e mais singulares filhos, e mais parecidos ao seu primogênito, porque é prerrogativa única desta soberana Mãe ser Mãe de filhos que já eram antes de ela ser: Et genitrix quando non, quae saeculorum generavit authorem. Foi Mãe destes filhos que já eram em tempo, assim como foi Mãe do filho que era desde a eternidade: Beatus venter qui te portavit.

X – Et ubera quae suxisti: Cristo, como irmão primogênito, devia sustentar os filhos de sua própria Mãe com o mesmo alimento com que sua Mãe o sustentava. Não há outra distinção entre o sangue e o leite, senão que o leite é sangue branco. A comunhão de Elias. Conclusão: O que se diz da sagrada religião do Carmo, sendo prerrogativa só desta religião, é glória de todas.

Tenho acabado o meu discurso, mas direis, e com muita razão, que mal-acabado. Pois tendo honrado esta solenidade com sua presença o Diviníssimo Sacramento, e sendo a primeira e principal parte dela, não teve parte no sermão. Não me tenhais por tão descuidado. A este fim ficaram reservadas e intactas aquelas duas palavras do tema: Et ubera quae suxisti, e não hão de vir desatadas do discurso.

Os filhos primeiros, já sabeis que têm obrigação de dar alimentos aos filhos segundos, e esses alimentos, conforme a sua qualidade, a sua nobreza, o seu estado. E como os religiosos carmelitas são irmãos segundos de Cristo por parte de sua Mãe, era obrigado Cristo a lhes dar alimentos, e tais alimentos que fossem dignos de filhos da Mãe de Deus. Pois, que alimentos haviam de ser estes, senão o mesmo Deus dado em alimento? É verdade que o Santíssimo Sacramento do altar foi instituído para todos, mas pode ser aplicado com diferença. Dar Cristo este pão do céu aos outros homens foi graça, foi liberalidade; dá-lo aos religiosos do Carmo foi dívida e foi obrigação. Aos outros homens foi graça e foi liberalidade, porque não lhes devia Cristo este Sacramento como Redentor, Aos carmelitas foi dívida e foi obrigação, porque lhes devia estes alimentos como irmão maior. Direis que alimentos sim, mas não estes. Alimentos sim, por irmãos seus e filhos de sua Mãe. Mas que estes alimentos fossem tirados de sua própria substância e debaixo de acidentes diversos, qual é o mistério sagrado da Eucaristia, por que razão? Ora vede. Cristo, como irmão primogênito, devia sustentar os filhos de sua própria Mãe e seus irmãos segundos com tais alimentos quais eram aqueles com que sua Mãe o sustentava. E que alimentos eram estes? Et ubera quae suxisti. O alimento com que a Senhora sustentou a seu Filho foi o leite de seus peitos. E o leite, que alimento e que substância é? Perguntai-o a Aristóteles e a Galeno: o leite é sangue branco, e não há outra distinção entre o sangue e o leite, senão que o leite é sangue branco, e o sangue leite vermelho. A substância é a mesma, os acidentes diversos. De sorte que a Virgem Senhora nossa deu o sangue por duas vezes e por dois modos a Cristo: deu-lhe uma vez o sangue de suas entranhas, de que se formou o corpo sagrado quando o gerou: Beatus venter qui te portavit; e deu-lhe outra vez, e mil vezes o sangue de seus peitos, com que o sustentou e alimentou: Et ubera quae suxisti. E entre um e outro sangue, que todo se convertia em substância de Cristo, não havia mais diferença que a brancura dos acidentes, e como a Virgem alimentava ao seu Filho primogênito com a substância mesma de seu corpo, debaixo de acidentes brancos, corria obrigação a Cristo, como Filho maior, de alimentar os filhos segundos de sua Mãe com a mesma substância do seu corpo, debaixo de acidentes da mesma cor, que é o Sacramento Santíssimo.

O primeiro carmelita foi o primeiro que logrou estes alimentos, e tomou em figura a posse deles. Fugiu Elias para o deserto, lançou-se ao pé de uma árvore, adormeceu, acordou-o um anjo e deu-lhe pão para que comesse. Comeu Elias, tornou a adormecer, e tornou o anjo a acordá-lo e a dar-lhe mais pão, e comeu outra vez. É comum alegoria dos Padres, que este pão representava o Santíssimo Sacramento. E ser o pão dado por modo de alimento, as circunstâncias o mostram, porque o comeu Elias sem lhe custar nenhum trabalho nem cuidado, comendo e dormindo. O irmão maior é o que tem o cuidado e o trabalho dos alimentos; os filhos segundos, põem-lhes ali os seus alimentos limpos e secos: comem e dormem. Mas quando lhe deram a este grande carmelita o Sacramento em alimentos? No deserto e à sombra de uma árvore. O deserto, diz Hugo Cardeal, significava o retiro do mundo; a árvore significava a cruz. O deserto já o havia, porque já Elias o professava; a cruz não a havia ainda, porque Cristo ainda não era nascido. Mas os alimentos do Sacramento não se deram a Elias, senão depois que ele esteve no deserto e à sombra da cruz, porque não haviam de lograr os carmelitas estes alimentos enquanto filhos de Elias, senão enquanto irmãos de Cristo, não pela geração passada de seu Pai, senão pela filiação futura de sua Mãe: Beatus venter qui te portavit et ubera quae suxisti.

Agora tenho acabado. Se disse pouco, quem elegeu o pregador me desculpa. Se fui largo, assaz castigo é dizer pouco e não ser breve. E se acaso alguém das sagradas religiões que me ouvem — e das que me não ouvem também — tem alguns embargos ao que disse, ainda me fica com que responder a quaisquer artigos de nova razão. Mas a melhor e última seja conhecermos todos que o que se diz da sagrada religião do Carmo, sendo particular, é comum, e sendo prerrogativa só desta religião, é glória de todas. Quem hoje para louvar a Cristo disse: Beatus venter, sabia que o louvor da Mãe é louvor dos filhos. Este é o exemplo que segui, supondo — como verdadeiramente é — que todos somos filhos deste instituto, e todos descendemos dele. Assim o diz S. Jerônimo, S. Macário, S. Isidoro, S. Bernardo. Não refiro as palavras de cada um, por não ser mais largo, mas fiquem ao pé do Monte Carmelo as de Batista Mantuano, que com espírito do mesmo Parnaso as ligou e resumiu nestas regras:

Illinc perpetuis, ceu missi e fontibus omnes,
Religio, et sacri fluxit reverentia cultus
Quidquid habent alii montes pietatis, ab isto
Ducitur: hac una plures e vite racemi
Diffusi, late terras, atque aequora complent
Hinc Carthusiacis aeterna silentia claustras:
Hinc varias Benedictus oves collegit: ab isto
Canabe nodosa tunicas arcere fluentes
Lignipedes dedicere viris quique arva colebant
Invia, et assiduo terras ardore colentes,
Et quos Cyriacus de litore vexit Ibero
Hinc orti, sactum, et summo genus ordine dignum,
Hinc nostri venere patres[34].

E como desta sagrada e primitiva religião manaram e se propagaram todas as outras como troncos da mesma raiz, como rios da mesma fonte, ou como raios do mesmo sol, o que só resta é que todos demos o parabém à soberana Mãe de tais filhos e aos benditos filhos de tal Mãe: Beatus venter qui te portavit. E que entendam todas as outras religiões, e se persuadam que tanto maior parte terão nas mesmas glórias, quanto mais e melhor observarem o que eles guardaram e não ouviram: Beati qui audiunt verbum Dei et custodiunt illud.

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[1] Bem-aventurado o ventre que te trouxe e os peitos a que foste criado. Antes, bem-aventurados aqueles que ouvem a palavra de Deus e a põem por obra (Lc. 11, 27 s).
[2] Cristo afirma serem bem-aventurados não só Aquela que mereceu gerar corporalmente o Verbo de Deus, senão todos os que, ouvindo-o espiritualmente, concebendo-o pela fé e guardando-o com as boas obras o geram no próprio coração ou no coração do próximo.
[3] Se o grão de trigo que cai na terra (Jo. 12, 24).
[4] Para que recebêssemos a adoção de filhos, mandou Deus aos vossos corações o Espírito de seu Filho (Gal. 4, 5 s).
[5] De pura vontade sua é que ele nos gerou pela palavra da verdade (Tg. 1, 18).
[6] Calou o que era evidente e declarou o que poderia gerar dúvidas.
[7] A mesma Virgem Maria, que teve a glória de gerar o Unigênito do Padre, reconhecendo-o igualmente em todos os seus membros, é também Mãe de todos aqueles nos quais está Cristo.
[8] A Mãe de Cristo e também Mãe de todos os membros de Cristo, e por isso todos a chamam Mãe, e como tal é honrada com o devido culto.
[9] São sessenta as rainhas, e oitenta as concubinas, e um número sem-número de moças. Uma só é a minha pomba, a minha perfeita; ela é a única para sua mãe, escolhida pela que lhe deu o ser (Cânt. 6, 7 s).
[10] A uma Virgem desposada com um varão da casa de Davi (Lc. 1, 27).
[11] Vê se porventura é a túnica de teu filho ou não (Gên. 37, 32).
[12] A túnica é de meu filho (Gên. 37, 33).
[13] Tirai o vestido mais precioso (Lc. 15, 22).
[14] Pariam as suas crias manchadas e várias, e de diversas cores (Gên. 30, 39).
[15] Se tu me vires quando me arrebatarem de ti (4 Rs. 2, 10).
[16] Os que ele conheceu na sua presciência, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, para que ele seja o primogênito entre muitos irmãos (Rom. 8, 29).
[17] E o constituiu a ele mesmo cabeça de toda a Igreja, que é o seu corpo (Ef. 1, 22).
[18] Quem dizem os homens que é o Filho do homem (Mt. 16, 13)?
[19] Bendito o que vem em nome do Senhor (Mt. 21, 9).
[20] Acaso consideraste tu a meu servo Jó, que não há semelhante a ele na terra (Jó 1, 8)?
[21] Como crerão àquele que não ouviram? E como ouvirão sem pregador (Rom. 10, 14)?
[22] Antes bem-aventurados os que não ouviram e guardaram.
[23] Bem-aventurados os pobres de espírito (Mt. 5, 3).
[24] Chegaram-se para o pé dele os seus discípulos, e ele, abrindo a sua boca, os ensinava (Mt. 5,1 s).
[25] Esse será reputado grande no reino do céu (Mt. 5, 19).
[26] Será chamado mui pequeno no reino dos céus (Mt. 5, 19).
[27] A lei e os profetas até João (Mt. 11, 13).
[28] Enquanto não passar o céu e a terra não passará da lei um só i ou um til, sem que tudo seja cumprido (Mt. 5, 18).
[29] O ápice é a perfeição evangélica.
[30] Não diz isso das leis antigas, senão das que ainda ia ensinar, as quais chama mínimas, embora sejam grandes.
[31] E por onde quer que ele passava, estendiam os seus vestidos no caminho (Lc. 19, 36).
[32] No meio dos anos tu a farás notória (Hab. 3, 2).
[33] Obrou a salvação no meio da terra (Sl. 73, 12).
[34] Dali — do Monte Carmelo — brotaram, como torrentes inesgotáveis, a religião e reverência do culto sagrado; dali como de única videira, provém toda a piedade dos demais montes, derramando cachos por terras e mares; dali o eterno silêncio dos claustros cartusianos; dali Bento agrupa suas ovelhas; ali varões de rústicas sandálias aprenderam a usar amplas túnicas de cânhamo grosseiro; dali vieram nossos pais, ardorosos cultivadores de campos ínvios e terras causticantes, transportados por Ciríaco da costa ibérica, santa e digna descendência de tão excelsa Ordem.
— O Beato Batista Spagnuolo, ou Batista Mantuano (1448-1516), foi prior geral da Ordem Carmelitana e um dos mais fecundos poetas do século XVI. A poesia citada por Vieira é parte do poema Parthenices Mariane.

Fonte: https://www.literaturabrasileira.ufsc.br/documentos/?action=download&id=49835