Sermão da Visitação de N. S. a Santa Isabel (1638)

SERMÃO DA VISITAÇÃO DE N. S. A SANTA ISABEL NA MISERICÓRDIA DA BAHIA,

Em ação de graças pela vitória da mesma cidade, sitiada e defendida, ano 1638.


Et unde hoc mihi[1]?

I – A famosa história da visitação da Mãe de Deus à Mãe do Batista. O que, nas grandes mercês do céu, deve festejar e reconhecer a fé e agradecimento humano. Como Isabel, a Bahia pergunta a si mesma, depois da ilustre vitória, com que Deus lhe fez mercê de se defender tão gloriosamente do poder do inimigo comum: E donde me vem a mim tão extraordinário favor?

Festejar as mercês do céu, reconhecê-las como recebidas da mão de Deus, e dar-lhe infinitas graças por elas, é a primeira obrigação da fé, é a primeira confissão do agradecimento, e são os primeiros impulsos da alegria cristã e bem ordenada. Assim o cantou hoje a Virgem Maria, já Mãe de Deus, entrando em casa de Zacarias, e visitando a Santa Isabel. Reconhecida a Senhora à dignidade infinita do mistério inefável, que a mesma Isabel, por revelação do céu, também reconhecia e celebrava, que fez e disse? Louvou e magnificou a Deus: Magnificat anima mea Dominum[2] — alegrou-se no interior do seu espírito, com demonstrações semelhantes às do Batista no ventre da mãe: Exultavit spiritus meus in Deo salutari meo[3] — e declarou e confessou que as grandezas, que já começavam a sair à luz, nascidas do que dentro em si trazia, eram obra do braço todo-poderoso do Senhor, e seu santo nome: Quia fecit mihi magna qui potens est, et sanctum nomen ejus[4].

Isto é o que nas grandes mercês do céu deve festejar e reconhecer a fé e agradecimento humano; mas não basta. E que mais é necessário? É necessário que, voltando os homens os olhos para a terra, os ponham em si com verdadeiro conhecimento da própria indignidade, e — porque a providência divina sempre requer disposição ou cooperação de suas criaturas, para repartir com elas os tesouros de suas misericórdias — que considerem todos, e se pergunte cada um à si mesmo, e diga com Santa Isabel: Et unde hoc mihi? E donde a mim tão extraordinária mercê? — Assim o fez também a mesma Virgem Maria, no meio dos mesmos louvores com que magnificou a Deus, e com que se via magnificada, olhando para si mesma — como diz — e não achando nem reconhecendo em si outro motivo, outra razão, ou outro porquê das mesmas grandezas, senão o da sua humildade: Quia respexit humilitatem ancillae suae[5]. — Quer dizer: Vós, ó Isabel, cheia do Espírito Santo, me apregoais por Mãe de Deus: Ut veniat Mater Domini mei ad me[6]. — Vós me chamais bendita entre todas as mulheres: Benedicta tu inter mulieres[7]; — e vós me canonizais por bem-aventurada nesta vida, porque no resto dela se cumprirão em mim todas as promessas do anjo: Et beata, quae credidisti, quoniam perficientur in te quae dicta sunt tibi a Domino[8]. E eu não acho nem vejo em mim senão o que só viu o mesmo Senhor, pondo os olhos na sua menor escrava: Respexit humilitatem ancillae suae[9].

Até aqui a famosa história da Visitação da Mãe de Deus à mãe do Batista, na qual, como em parábola, falei até agora de nós e conosco, posto que o não parecesse. Duas coisas ponderei nela. A primeira, e que naturalmente move a todo o homem, é festejar os seus bens, e se é homem cristão, e com fé, louvar á Deus por eles, e dar-lhe as devidas graças. A segunda, não parar neste exterior da felicidade humana, como se fora fortuna ou caso, mas fazer reflexão sobre si mesmo, e considerar se acha em si algum fundamento de boas obras, pelo qual Deus se inclinasse ou se deixasse obrigar a lha conceder. Já cuido que me tenho explicado. Muitos dias há que esta nossa cidade festeja a ilustre vitória com que Deus lhe fez mercê de se defender tão gloriosamente do poder do inimigo comum, com que se viu sitiada. E não há na mesma cidade templo em que, com universal concurso e aplausos da piedade cristã e portuguesa, se não tenham rendido as devidas graças ao soberano autor da liberdade que gozamos. Eu hoje nesta matéria, tão repetida e tão batida como a mesma cidade, já a pudera passar em silêncio, e emudecer com Zacarias; mas escolhi antes — porque a Deus não o cansam os agradecimentos — falar com Isabel.

Das suas palavras escolhi por tema somente as da admiração, com que se pergunta a si mesma: Unde hoc mihi? Não falarei em meu nome, mas a Bahia será a que se admire da vitória, a que tão pouco costumados estávamos, e a que se pergunte a si mesma donde lhe veio esta ventura tão extraordinária e tão nova. A Bahia perguntará o donde, e ouvirá as opiniões dos que cuidam que a eles se lhes deve a vitória. Eu, depois de responder a cada um por si; concluirei com a que tenho por mais certa e verdadeira. Isto é o que ouviremos no discurso do sermão, e desde logo o que só posso dizer é que, para descobrir e achar o donde, não será necessário ir buscá-lo à campanha, nem sair à rua, porque o acharemos dentro nesta mesma casa, como se fora a de Zacarias. Lá e cá temos derramando graças a fonte da graça. Ave Maria.

II – As causas da vitória. Como responde a milícia triunfante à pergunta da Bahia?

Et unde hoc mihi? Esta mercê, este favor, este benefício do céu tão grande, esta felicidade, de que estive tão duvidosa e agora estou tão segura, esta vitória tão honrada e tão festejada, e de que tão desacostumado está o Brasil há tantos anos, donde a mim? Unde mihi? Assim pergunta falando consigo a Bahia, e, admirada da sua própria fortuna, busca dentro em si a causa dela. Mas vejo que desta mesma pergunta, que sempre supõe dúvida, se dá ou pode dar por muito ofendido o valor dos nossos soldados, e por igualmente agravada a reputação das nossas armas. Unde, donde? E quem há tão cego que o não visse nos relâmpagos do fogo, quem tão surdo que o não ouvisse nos trovões da artilharia, quem tão seguro e sem receio, que o não temesse em mil e seiscentos raios contados, que as batarias furiosas do inimigo choveram sobre a Bahia em quarenta dias e quarenta noites de sítio? Em outros tantos dias e noites se formou o dilúvio universal que alagou o mundo, e, assim como então diz o texto sagrado que, não só da parte combatente se abriram as cataratas do céu, mas também da parte combatida se romperam as fontes do abismo, assim nesta inundarão, verdadeiramente de monte a monte, se foi apertada e pertinaz a força dos combates, não foi menor, antes mais forte e poderosa, a das resistências, de que enfim se confessou por vencida a soberba e presunção dos mesmos combatentes, quando a sua, não retirada, mas manifesta fugida, debaixo da capa da noite, mal lhe cobriu as espaldas.

A artilharia deixada e carregada nas plataformas, sem retirar o inimigo uma peça; o pão cozendo-se nos fornos, as olhas dos soldados ao fogo; as tendas, as barracas, as armas, a pólvora, tudo desamparado, sem ordem, no precipício da desesperação, não só temerosa, mas atônita; sobretudo, o silêncio das caixas e das trombetas, com que tão confiados se tinham aquartelado, mudo e insensível às nossas sentinelas; isto, assim junto como por partes, é o que está respondendo e dizendo a brados a Bahia a quem deve, e donde lhe veio o donde por que pergunta. Unde, donde? Da prudência dos nossos ilustríssimos generais, e da bem aconselhada dissimulação — mal entendida do vulgo — com que deixaram marchar sem oposição o inimigo, até o lugar onde estava antevista a sua ruína. Unde, donde? Da bizarra resolução dos nossos mestres de campo, posto que de três nações diferentes, unidos em tomar o governo das armas, em que só o império e obediência delas entre os dois generais esteve duvidoso. Unde, donde? Do valor dos nossos famosíssimos capitães e soldados, que antes de haver trincheiras, eles o foram a peito descoberto, e, depois de as haver, dentro, com as próprias granadas e bombas do inimigo, e fora, com a espada na mão, semearam a campanha de, tantos corpos mortos, para cuja sepultura pediram tréguas, sementeira de que eles logo colheram o desengano, e nós, pouco depois, o fruto da vitória.

Assim responde a nossa triunfante milícia à pergunta da Bahia, a qual, posto que testemunha das suas façanhas, ainda duvidosa, inquire e quer saber qual fosse verdadeiramente o motivo que Deus da nossa parte tivesse, e qual mais propriamente o onde donde lhe veio o favor do céu, que tão repetidamente celebra e festeja, querendo dar a glória a aquela parte de si mesma, à qual mais própria e mais verdadeiramente se deva.

III – Que diz a fé, por boca de Davi? Na guerra e nas batalhas nem aos reis os salva o poder dos seus exércitos, nem aos gigantes os salvam as desmedidas forças dos seus braços. A vitória de Davi sobre Golias. Resposta do profeta Amós a el-rei Amasias, quando este se negou a dispensar cem mil homens de seu exército.

Primeiramente, respondendo à resposta de nossos soldados, não direi, bom licença sua, que é muito própria da arrogância militar, mas não posso deixar de dizer que igualmente é alheia da fé e piedade cristã. Que diz a fé? Que Deus é o Senhor dos exércitos, e que dá ou tira a Vitória a quem é servido, por meio das armas sim, mas sem dependência delas. Em próprios termos a Sagrada Escritura, como se falara nomeadamente do nosso caso: Non salvatur rex per multam virtutem, et gigas non salvabitur in multitudine virtutis suae (Sl. 32, 16): Salvou-se a cidade do Salvador do perigo em que se viu tão apertada, mas não foi o numeroso dos seus presídios, nem o valoroso dos seus soldados o que a salvou, porque na guerra e nas batalhas nem aos reis os salva o poder dos seus exércitos: Non salvatur rex per multam virtutem — nem aos gigantes os salvam as desmedidas forças dos seus braços: Et gigas non salvabitur in multitudine virtutis suae.

Ouçam os soldados uma e outra coisa da boca de um também soldado, e soldado que foi rei, meo sperabo, et gladius meus non salvabit me (Sl. 43, 7): Eu, diz Davi, nunca pus nem porei a esperança da vitória no meu arco, nem confiarei que me salvará das mãos de meus inimigos a minha espada. — No arco entendem-se as armas de longe, na espada as de perto e em umas e outras parece que experimentou o mesmo Davi o contrário do que diz, porque no desafio do gigante de longe, com o tiro da funda lhe meteu a pedra na testa, e de perto, com a espada do mesmo inimigo já prostrado, lhe cortou a cabeça. Pois, se Davi venceu o gigante com o tiro da funda e com o talho da espada, como diz que não há de pôr a sua esperança nem nas armas de longe, nem nas de perto? Porque uma coisa é vencer por meio das armas, outra é pôr a esperança nelas. Pôr a esperança nas armas é presunção e vaidade gentílica; pô-la só em Deus, que é o Senhor das vitórias, é fé e piedade cristã.

Assim sucedeu no mesmo caso, e o disse o mesmo Davi, respondendo às arrogâncias do gigante: Tu venis ad me in gladio, et hasta, et clypeo: ego autem venio ad te in nomine Domini exercituum (1 Rs. 17, 45): Tu, ó gigante, vens contra mim coberto de ferro, com a espada cingida, com a lança em uma mão e o escudo na outra; eu venho contra ti desarmado, mas em nome dos exércitos. E que se seguirá desta batalha tão desigual? Et dabit te Dominus in manu mea, et percutiam te, et auferam caput tuum a te (1 Rs. 17, 46): Seguir-se-á que Deus com todas essas armas te entregará nas minhas mãos, e eu, como me vês, desarmado, te cortarei a cabeça. — E que mais? Et noverit universa ecclesia haec, quia non in gladio et hasta salvat Dominus: ipsius enim est bellum (1 Rs. 17, 47): E conhecerá todo este imenso teatro dos dois grandes exércitos postos à vista, que para Deus dar a vitória a uns, e pôr em fugida a outros, não há mister nem faz caso de armas, porque é Senhor da guerra.

Não sei se teve Davi pensamento particular em chamar à multidão dos que o viam e ouviam nomeadamente igreja: Et noverit universa ecclesia haec — porque a fé daquela doutrina nem pertencia ao gentio, quais eram os filisteus, nem a reconhece o herege, quais são os de Holanda — e foram os que lá e cá, desenganados da sua fraqueza, fugiram — mas só e própria dos filhos da verdadeira Igreja, quais somos nós os católicos. Por isso Davi não só disse igreja, mas universa, que quer dizer católica: Et noverit universa ecclesia. — E para que esta fé e este conhecimento? Para que a fortuna das nossas armas, posto que vitoriosas, nos não desvaneça, antes temamos as nossas mesmas vitórias, se, ingratos e infiéis a Deus, as atribuirmos às nossas armas e ao nosso valor. Detrás da carroça dos triunfadores romanos era costume ouvir-se um pregão, que dizia: Memento te esse mortalem: Lembra-te, ó triunfador, que és mortal. — E eu neste mesmo ponto quero fazer outro memento, e publicar outro pregão aos nossos capitães e soldados, pregão não decretado no capitólio de Roma, mas no consistório do Triunvirato divino, e não para nos diminuir a alegria do presente triunfo, mas para que a moderemos com a razão, e a seguremos com o temor.

Anunciou o profeta Amós a el-rei Amasias que de seu exército, que constava de quatrocentos mil homens, licenciasse e despedisse cem mil, porque eram de gente que estava fora da graça de Deus — notem as consciências militares quanto importa estarem em graça de Deus ou fora dela — e como Amasias reparasse nesta diminuição do seu exército, e no soldo de cem talentos de prata, com que já os tinha pago, respondeu o profeta, e declarou ao rei da parte de Deus um segredo, que nem ele então entendia, professando a verdadeira fé, nem hoje acabam de o entender os que a professam. Ouvi o segredo e o pregão: Quod si putas in robore exercitus bella consistere, superari te faciet Deus ab hostibus. Dei quippe est adjuvare, et in fugam convertere[10]. — Porque hás de saber, ó rei, que se imaginares que os felizes sucessos da guerra, e as vitórias, consistem no número e fortaleza dos exércitos, pelo mesmo caso e por esta só imaginação fará Deus que seja vencido de teus inimigos, para que entenda e se desengane o mundo, que dar a vitória a uns, ainda que sejam poucos e fracos, e pôr em fugida a outros, ainda que sejam muitos e fortes, não é conseqüência das armas e do valor, mas regalia própria do Senhor dos exércitos. Logo, não foi o esforço nem a ciência militar dos nossos defensores o onde donde a Bahia pergunta que lhe veio o bem da vitória que festeja: Unde hoc mihi?

IV – As armas de Josué e as armas de Moisés, na batalha contra os amalecitas. Os holandeses e a bataria das mãos desarmadas levantadas ao céu. Como o profeta rei anteviu e descreveu pontualmente a vitória da Bahia.

A esta primeira resposta, e mais palpável à vista, se segue a segunda, menos visível, mas muito mais poderosa ainda, que é de mãos desarmadas. Desarmadas estavam as mãos de Moisés quando ele orava no monte, e o exército de Josué pelejava na campanha. E foi maravilha então notada de todos, e cuja memória quis Deus ficasse estampada, não em lâminas de bronze ou diamante, mas nos caracteres imortais dos seus livros, que quando Moisés levantava as mãos ao céu, vencia Josué, e quando elas, como de braços cansados já com a velhice, descaíam um pouco, prevalecia o inimigo: Cumque levaret Moyses manus vincebat Israel: sin autem paululum remisisset, superabat Amalec[11]. — Moisés no monte, Josué no campo raso, ambos assestavam as suas batarias contra o exército de Amalec; mas as máquinas militares e a pontaria dos tiros eram muito diversas. Josué batia o inimigo, Moisés batia o céu; Josué com ferro e fogo, Moisés com as mãos desarmadas; Josué ferindo, Moisés orando: e a vitória estava tão dependente da oração de um, e tão pouco sujeita às armas do outro, que estas, sem o socorro da oração, eram vencidas, e só pela força e perseverança da oração vencedoras.

Lembremo-nos agora de nós. Quem visse interiormente a Bahia naqueles quarenta dias e quarenta noites em que esteve sitiada, mais a julgaria, na contínua oração, por uma Tebaida de anacoretas que por um povo e comunidade civil, divertida em tantos outros ofícios e exercícios. Nos conventos religiosos, nas igrejas públicas, nas casas e famílias particulares, todos oravam. Os pais, os filhos, e quantos podiam menear as armas, assistiam com Josué na campanha; e as mães, as filhas, e todo o outro sexo ou idade imbele, orando continuamente pelas vidas daqueles que por instantes temiam lhes entrassem pelas portas ou mal feridos ou mortos. O estrondo das batarias inimigas e nossas, espertando com a evidência e temor do perigo os ânimos, não lhes permitia quietação nem sossego; e então a Bahia, como propriamente Bahia de Todos os Santos, invocando a intercessão e auxílio de todos, não por intervalos, como Moisés, mas perpetuamente e sem cessar, batia as muralhas do céu.

Esta bataria das mãos desarmadas, mas levantadas ao céu, foi mais verdadeiramente a que nos deu a vitória. E porque a proposta, como de quem não professa as armas, não pareça suspeitosa aos professores delas, ouçamos o testemunho de um soldado, e seja o mesmo que já ouvimos na resposta passada, Davi. Este grande soldado, como capitão general das armas católicas daquele tempo, em um salmo que campos estando para sair em campanha, apontando para os esquadrões do exército contrário, que já tinha à vista, diz assim: Hi in curribus, et hi in equis, nos autem in nomine Dei nostri invocabimus[12]: A milícia de nossos inimigos e a nossa — ó companheiros — segue mui diferentes máximas: eles põem o seu poder e toda a sua confiança na multidão da sua cavalaria e nas máquinas dos seus carros. Porém, nós, que temos outra fé e outra experiência, posto que com as armas nas mãos, não pomos a confiança nelas, mas todo o nervo da nossa guerra consiste em outros instrumentos bélicos, muito mais fortes, que são as orações e preces com que invocamos a Deus: Nos autem in nomine Domini invocabimus. — E cuja será a vitória em tanta diferença de uns e outros combatentes? Eu vo-lo direi — diz Davi — antes da batalha, tanto ao certo como se já tivera sucedido, e não só como profeta, mas como capitão: Ipsi obligati sunt, et ceciderunt; nos autem surreximus; et erecti sumus[13]. Eles com as suas armas, estando levantados, caíram vencidos; nós com as nossas orações, estando caídos, levantamo-nos vencedores.

Tudo isto é o que sucedeu na nossa vitória. E se eu me atrevesse a dizer que o mesmo profeta a anteviu é descreveu tão pontualmente, não faltará quem me diga que não apaixone tanto por ela, pois tem a objeção ou réplica muito à flor da terra. 0 profeta fala de inimigos confiados na sua cavalaria e carros militares, que são os que a milícia antiga chamava falcatos, e os nossos inimigos não trouxeram cavalaria nem carros bélicos para nos sitiar. Mas a diferença desta circunstância não desfaz a profecia, porque o mesmo profeta, falando das naus e armadas marítimas, lhes chama cavalos e carros: Viam fecisti in mari equis tuis, et quadrigae tuae salvatio[14] — e tais foram os cavalos e carros militares, com que na sua poderosa armada naval nos sitiou por mar o inimigo: Hi in curribus, et hi in equis. — Eles, porém, posto que tão exercitados nesta cavalaria nadante, tendo entrado tão soberbos e inchados como as suas velas, e tão levantados com os sucessos da passada fortuna como as suas bandeiras no tope, sendo ainda mais altos os seus pensamentos, caíram; e nós, posto que verdadeiramente caídos com a adversidade dos mesmos sucessos, se nos levantamos vencedores e triunfantes é porque a força da oração, e não a das armas, neste levantar a cair trocou as balanças de Marte: Ipsi obligati sunt, et ceciderunt; nos surreximus, et erecti sumus.

V – Filo Hebreu e a vitória de Josué e Moisés. Os milagrosos triunfos da prodigiosa espada de Judas Macabeu, e as causas de sua última derrota.

Naquela famosa batalha dos troianos contra os latinos, diz o Príncipe dos poetas que, enquanto a vitória esteve duvidosa, Júpiter sustentava na mão duas balanças iguais, até que uma caiu vencida, e outra se levantou vencedora: Jupiter ipse duas aequato examine lances Sustinet, etc. E Filo Hebreu, prosseguindo a mesma metáfora, não fabulosa e poeticamente mas fundado na verdade da História Sagrada, diz que as armas de Josué, como postas em balança, sem a oração de Moisés caíam, e com a oração de Moisés se levantavam: Cum igitur aliquantisper manus, bilancis in morem, nunc sursum tollerentur, nunc deorsum vergerent, certaretur marte dubio; tandem repente, velut pennas habentes pro digitis, sublatae volitabant per aerem manentes in sublimi, donec Hebraeis certa victoria contigit, hostibus internectione deletis. — Notem-se muito aquelas palavras: nunc sursum tollerentur, nunc deorsum vergerent bilancis in morem. — De sorte que a vitória estava posta na balança da oração, já descendo, já subindo, não conforme Josué mais ou menos fortemente meneava as armas, mas segundo as mãos de Moisés, ou orando remissamente desfaleciam, ou, instantemente levantadas ao céu, como se os seus dedos fossem asas, voavam: Velut pennas habentes pro digitis, sublatae volitabant.

Daqui se segue que, se a justiça, com as balanças em uma mão e a espada na outra, houver de julgar a nossa vitória a quem mais verdadeiramente se deve, não há de ser a espada dos que, como Josué, pelejavam na campanha, senão as mãos levantadas dos que no mesmo tempo, como Moisés, oravam no monte. E para que os nossos capitães se não ofendam desta proposição, e desafiem a quem a quiser sustentar, lembrem-se que no antigo povo de Deus, em que houve Josué, Sansão, Gedeão e Davi, o mais afamado Capitão de todos foi Judas Macabeu, e lembrem-se também que entre as mais celebradas e fatais espadas — ainda que entrem nesta conta as forjadas na oficina de Vulcano, batidas e limadas por Brontes e Esterope, e caldeadas na lagoa Estígia — nenhuma houve igual à do mesmo Macabeu, a qual, trazida do céu, e dourada nos resplendores líquidos das estrelas, lhe entregou a alma do profeta Jeremias. Mas, quais foram os troféus e triunfos deste Aquiles com tão prodigiosa espada?

É certo, e de fé, que foram tantas as suas vitórias quantas as batalhas, como se trouxesse a soldo a fortuna debaixo das suas bandeiras; contudo, depois de tantas vezes vencedor o famoso Macabeu, e de ter conquistado o glorioso nome de invicto entre todas as nações do mundo, finalmente, na batalha contra Báquides, tendo triunfado de outro muito maiores exércitos, foi vencido e modo. E por quê? Porque este valorosíssimo capitão; ou conquistando, ou defendendo, ou sitiando, ou sendo sitiado, ou guerreando em campanha aberta; sempre às forças do braço e da espada ajuntava as da oração, e só nesta última e infeliz batalha — como em muitos lugares nota o A Lápide — não se lê na Escritura que orasse. Tão fortes e invencíveis são as armas acompanhadas da oração, e tão fracas e sujeitas a ser vencidas se as não assiste este divino e todo-poderoso socorro. Assim que, se a Bahia ainda duvida, e pergunta donde lhe veio a felicidade da vitória, com que se vê segura e triunfante; Unde hoc mihi? — saiba que mais a deve às mãos levantadas que às mãos armadas, mais aos que batiam o céu que aos que combatiam o inimigo, mais aos que por ela oravam que aos que pelejavam por ela.

VI – Respondendo terceira vez à pergunta da Bahia, afirma e prova o autor que o donde lhe veio a vitória que celebra é da Casa da Misericórdia. Porque diz o profeta que são ditosos e bem-aventurados todos os que se exercitam e ocupam em servir e remediar os pobres? Como a promessa divina de defender aos que se ocupam no remédio e cura dos pobres, não é só feita a eles, senão a todos os mais.

Temos respondido à Bahia com duas resoluções, ambas certas, e me detive tanto na prova de ambas, porque ainda estamos em tempo de as haver mister. O inimigo, ainda que fraco, nunca se há de desprezar, quanto mais poderoso! E se é poderoso e afrontado, então se deve temer, e esperar com maior cautela. Desenganados, pois, no primeiro discurso, que as vitórias se não devem atribuir só ao valor dos soldados e força das armas, e persuadidos no segundo, que antes se deve esta glória à eficácia e socorro das orações, com que a nossa defesa de dia e de noite, pública e privadamente, foi tão assistida, agora quero eu declarar o meu pensamento, e peço que, antes de ouvido os fundamentos dele, mo não estranhem ou condenem.

Respondendo, pois, terceira vez absoluta e resolutamente à pergunta da Bahia: Unde hoc mihi? — digo que o donde lhe veio a vitória que celebra é desta mesma Casa de Misericórdia em que estamos, e que os soldados, aos quais principalmente se deve, são os que militam debaixo da sua bandeira. Os que militam debaixo da bandeira da misericórdia, por diverso modo, ou são os irmãos, que exercitam as obras da mesma misericórdia com os pobres e enfermos, ou são os mesmos pobres e enfermos, que eles sustentam, remedeiam e curam; e, posto que estes pareçam incapazes de pelejar, a uns e outros se deve igualmente a gloriosa defensa da nossa metrópole. Tudo isto provará em seu lugar o nosso discurso.

Beatus qui intelligit super egenum et pauperem (Sl. 40, 1): Ditoso e bem-aventurado — diz o profeta rei — todo aquele que entende e se ocupa em servir e remediar os pobres. — Não é este o fim e instituto da santa Irmandade da Misericórdia, como se foram as palavras tresladadas do seu próprio compromisso? Sim. E por que diz o profeta que são ditosos e bem-aventurados todos os que se exercitam e ocupam em obra tão pia? Segue-se o porquê: In die mala liberabit eum Dominus (Sl. 40, 3): Porque no dia mau, isto é, nas ocasiões de aperto e perigo, os livrará Deus; e se o perigo e aperto for de guerra, em que se virem acometidos, sitiados ou assaltados, Deus não permitirá que sejam entregues ao poder de seus inimigos: Et non tradat eum in animam inimicorum ejus (ibid:). Note-se a palavra in animam. O ânimo com que vinha o inimigo era de que a Bahia se lhe entregasse — oferecimento que tantas vezes nos fez pelos seus trombetas — e, por conseqüência, se lhe rendesse o resto do Brasil. Mas Deus lhe desanimou esse ânimo, e lho desmaiou de tal maneira, como mostrou o sucesso.

E por que não pareça que esta promessa divina, de defender aos que se ocupam no remédio é cura dos pobres, é só feita a eles, é digna de se não passar em silêncio uma sutileza de Hugo Cardeal, sobre as palavras: Dominus conservet eum[15]? — que se seguem no mesmo texto: Conservet eum — diz o grande comentador — id est, cum aliis servet. — O verbo simples, servare, significa guardar e defender absolutamente; o composto, conservare, por virtude ou aditamento daquela preposição com, não só significa guardar e defender de qualquer modo, senão guardar e defender-se a si com outros, ou a outros consigo: Conservet eum, id est, cum aliis servet. — Explico e aplico juntamente, por não gastar dois tempos. Assim como uma cidadela muito forte, não só defende aos que estão dentro, senão aos de toda a cidade, assim esta Casa da Misericórdia — por isso, não acaso, senão com grande providência, levantada e colocada no coração da Bahia — não só guardou e defendeu aos da mesma casa, que são os que nela exercitam as obras de misericórdia, senão a todos os mais. É o que já tinha dito com o mesmo pensamento Santo Agostinho: Deus, qui habitat in vobis, custodiet vos ex vobis, id est, si alter solicitus ex altero[16]: Quando vós fordes solícitos, e procurardes o bem e saúde uns dos outros, Deus, que habita em vós, guardará também a uns pelos outros, isto é, vos ex vobis: vós que não tendes essa ocupação nem esse cuidado, pelos que o têm. — Quem tem o cuidado dos pobres: Qui intelligit super egenum et pauperem? — Os que curam deles, e os servem nesta Casa de Misericórdia; pois vós, os que não sois da mesma casa, e não professais ser Irmãos da Misericórdia, também vós sereis guardados e defendidos, não por vós, senão por eles: Vos ex vobis. — Só apontando com o dedo se pode isto declarar. Vós, que não sois Irmãos da Misericórdia, por benefício e merecimento de vós, que o sois: Vos ex vobis.

VII – Por que se ajunta a oliveira, símbolo da paz, com a palma, símbolo da vitória no triunfo de Cristo em Jerusalém? A imagem cristã da Vitória. Cuja foi a misericórdia que coroou a Davi vitorioso? Por que há de ser de oliveira a coroa que na imagem ou estátua da Vitória emendada se lhe há de acrescentar à palma.

Já temos o primeiro e principal fundamento da nossa felicidade, que foi livrar-nos Deus do poder e intentos do inimigo: In die mala liberabit eum Dominus, et non tradet eum in animam inimicorum suorum[17]. — Passemos agora ao glorioso da vitória, sem nos apartar em nada, antes confirmando em tudo a verdadeira causa dele. Entrou Cristo, Redentor nosso, triunfando em Jerusalém, e os que acompanhavam e seguiam o triunfo com aclamações e aplausos: Caedebant ramos de arboribus (Mt. 21, 8): cortavam ramos das árvores — diz o evangelista — e estes ramos, como declara o uso e tradição da Igreja, e refere o antiquíssimo Clemente Alexandrino[18], eram de oliveira e palma. Não pare o triunfo, mas reparemos nós na união destes ramos. Os ramos da palma muito bem diziam com o triunfo, porque cada folha dos ramos das palmas é uma espada; porém a oliveira, que antes significa paz que guerra, misericórdia e piedade, e não violência nem rigor, por que se ajunta neste triunfo com a palma?

Por isso mesmo. Porque a palma significa a vitória, a oliveira significa a misericórdia, e nos triunfos dos cristãos, como no de Cristo, os ramos da palma andam tão unidos, e como enxertados nos da oliveira, que da oliveira dependem as palmas, e da misericórdia as vitórias. Drogo Hostiense: Egredere cum pueris Hebraeis, qui transeunt, simpliciter in occursum Domini, sterne in via ramos olivarum, et opera misericordiae pedibus ejus accommoda: accipe frondes palmarum, ut triumphes[19]: Se quereis vitórias, soldados de Cristo, não vos digo que imiteis os Sansões, nem os Gedeões dos hebreus, senão a simplicidade dos meninos de Jerusalém. E como? Diz à evangelista que os meninos lançavam os ramos no caminho por onde o Senhor triunfante havia de passar: Sternebant in via (Mt. 21, 8) — e vós da mesma maneira os ramos da oliveira, que são as obras de misericórdia, aplicai-as aos pés de Cristo, que são no seu corpo místico os pobres e miseráveis: Et opera misericordiae pedibus ejus accommoda — e logo tomai e levantai os ramos das palmas vitoriosas, porque sem dúvida triunfareis: Accipe frondes palmarum; ut triumphes.

Já veríeis a imagem da vitória armada, e com a espada em uma mão e a palma na outra; eu quero emendar esta imagem, porque mais parece gentílica que cristã. Aceito a palma em uma mão, e por que se não queixem os soldados, também a espada na outra; mas ainda lhe falta a esta pintura a principal insígnia da vitória. E qual é? A Coroa. Non coronabitur nisi qui legitime certaverit (2 Tim. 2, 5): Não será coroado como vencedor, senão o que pelejar legitimamente. — Entre os romanos havia grande multidão e variedade de coroas: cívicas, murais, rostratas, castrenses, etc., e as principais eram formadas de ervas e plantas, como também as dos imperadores, porque naquele tempo coroava-se a honra, e não a cobiça. De que há de ser pois formada ou tecida esta coroa da imagem da vitória emendada? Digo que há de ser tecida de ramos de oliveira, e de oliveira sinaladamente, porque a oliveira é símbolo da misericórdia e das obras dela. Ouvi um grande texto. Davi era tão piedoso e compassivo como valente: virtudes que sempre andam juntas, assim como a crueldade é própria dos covardes e fracos. E falando aquele grande capitão com a sua alma — com a qual os que seguem as armas costumam ter pouca conversação — diz-lhe assim: Benedic, anima mea, Domino, et noli oblivisci omnes retributiones ejus, qui propitiatur omnibus iniquitatibus tuis, qui redimit de interitu vitam tuam, qui coronat te in misericordia et miserationibus (Sl. 102, 2 ss):

Louva, alma minha, a Deus, e não te esqueças das grandes mercês que tens recebido de sua liberal e poderosa mão. Lembra-te que ele é que te tem perdoado os teus pecados, ele o que na guerra te livrou tantas vezes a vida, e ele o que te coroou nas vitórias com a misericórdia e suas obras; isso quer dizer: in misericordia et miseratianibus: misericordia in habitu, miserationibus in effectu. — E cuja foi esta misericórdia que coroou a Davi vitorioso? Foi a misericórdia de Deus, que por sua misericórdia o coroou, ou foi a misericórdia de Davi, o qual nela deu a matéria a Deus para o coroar? Responde Dídimo, antigo padre grego, esquisita e finamente que a misericórdia e obras de misericórdia de Davi foram a matéria de que Deus lhe teceu a coroa com que o coroou: Coronat te in misericordia et miserationibus, quippe coronae materia est misericordia et miseratio; sicut enim alii coronam justitiae percipiunt ex justitia contextam, sic etiam tu — o anima mea — ex misericordia et miserationibus coronaberis[20]. Notem-se muito aquelas grandes palavras: quippe coronae materia est misericordia et miseratio. De sorte que a matéria, de que foi formada e tecida por Deus a coroa de Davi vitorioso, foi a misericórdia e obras de misericórdia do mesmo Davi. E como a misericórdia em divinas e humanas letras é simbolizada na oliveira, de oliveira há de ser a coroa que na imagem ou estátua da Vitória emendada se lhe há de acrescentar à palma.

VIII – Por que se deve a vitória da Bahia aos Irmãos da Misericórdia ativa? Como socorreu a alma santa dos Cânticos aos soldados da guarda, cuja pobreza lhe feriu o coração? O soldado, sinônimo de pobre. Por que diz Salomão que os cabelos do Senhor são como os ramos da palma, e negros como um corvo. O corvo e os Irmãos da Misericórdia ativa.

Agora se segue o que parece mais dificultoso na minha proposta, e é dever-se a nossa vitória a todos os que militam debaixo da bandeira da misericórdia, e não só misericórdia ativa, que são os ministros da irmandade, que a exercitam, senão também os pobres enfermos da passiva, que a recebem. Outra alma, tão piedosa e compassiva como a de Davi, que é a que vulgarmente se chama alma santa, nos dará a prova. Saiu ela de casa em seguimento do sagrado Esposo, e como o não encontrasse nas ruas nem nas praças, chegou até os muros da cidade, e ali diz que os soldados, que estavam de guarda nos mesmos muros, a feriram, e lhe tomaram a capa. Capa diz, e não manto, porque já então os trajas e vestidos dos homens começavam a se ir afeminando, e passando às mulheres: Percusserunt et vulneraverunt me, et tulerunt pallium meum mihi custodes murorum[21]. — Quem fossem ou representassem estes soldados que guardavam os muros da cidade, interpretam variamente os expositores daquele livro, que todo é alegórico, e a alegoria que com mais propriedade e doçura se acomoda às circunstâncias do texto, é dos que têm para si que aqueles soldados da guarda significavam os pobres. Assim como o pobre é epíteto do soldado, assim não é muito que o soldado seja sinônimo do pobre. Diz pois a alma, que aqueles pobres a feriram, porque a vista deles e da sua miséria a trespassou toda, e lhe feriu o coração de lástima e dor. E acrescenta que lhe levaram a capa, porque, como estava fora de casa, e não tinha outra coisa com que os socorrer, lha largou e deu de esmola. Já temos a alma em corpo, que é o hábito do soldado. E como ela, na piedade com que se compadeceu dos pobres, e na liberalidade com que os socorreu, mostrou bem ser da irmandade desta casa, e dos que militam debaixo da bandeira da misericórdia, não hão mister eles maior prova do seu valor, e do muito que podem e obram na guerra: Tulerunt pallium meum: Levaram-me — dizem — os pobres a capa. — E se quem dá ametade da capa aos pobres é Marte.

Acrescento em confirmação que, se quando os Irmãos da Misericórdia tiram a capa para tomar a veste da irmandade, se soubesse o mistério que debaixo dela se encerra, ninguém lhes poderia duvidar a grande parte que tiveram na nossa vitória. Louva Salomão no seu epitalâmio os cabelos do divino Esposo, Cristo, e como as comparações deste grande sábio são tão profundas como a sua mesma sabedoria, diz que os cabelos do mesmo Senhor são como os ramos da palma, e negros como um corvo: Comae capitis sui sicut elatae palmarum, nigrae quasi corvus (Cânt. 5, 11). — Enigma temos, e não fácil de adivinhar. Santo Agostinho, S. Jerônimo, Santo Ambrósio e S. Gregório, todos os quatro doutores da Igreja, dizem que Sansão foi figura de Cristo, e eu dissera que aludiu Salomão aos cabelos do mesmo Sansão, e por isso com muita propriedade os compara às palmas, porque os troféus de Sansão, e as suas famosas vitórias, sempre ele as trouxe pendentes nos seus cabelos. E esses cabelos, em que consistia a fortaleza de Sansão, quantos eram? Outros tantos quantas são as obras de misericórdia: sete. Digamos logo que se comparam os sete cabelos de Sansão às palmas, porque às obras de misericórdia quis Cristo que andassem vinculadas as vitórias dos cristãos. Parece que não estava mau o sentido do enigma nem o empenho do pensamento, se tivesse fiador. Eu tenho, e muito abonado: S. Paulino, e sobre o mesmo passo. Repara o Santo no que nós ainda não ponderamos, e é que Salomão, depois de comparar os cabelos de Cristo ou de Sansão — que ambos são nazarenos — às palmas, diga que são negros como um corvo: Comae eius sicut elatae palmarum, nigrae sicut corvus. — E que resolve o engenho doutíssimo de Paulino?

Não toma o corvo em comum, senão em particular, e não só diz qual era, senão também qual não era: Bonus iste corvus non ille ad arcam revertendi immemor, sed ille pascendi prophetae memor. — Na Escritura Sagrada temos dois corvos muito célebres: o de Noé e o de Elias. E a este diz o santo que se comparam os cabelos de um ou outro Sansão, depois de comparados às palmas. E por quê? Porque a este corvo o escolheu Deus para se servir dele como de seu Irmão da Misericórdia. Muitos neste mundo alcançam os cargos só pelo merecimento do seu vestido: e este merecimento não lhe faltava também ao corvo de Elias, pela cor das penas, e semelhança da veste preta: nigrae quasi corvus; mas Deus, posto que tão amigo das proporções, não o elegeu só por esta para ministro e irmão da sua misericórdia, senão porque o era nas obras dela: ille pascendi prophetae memor. — Andava Elias no tempo daquela grande fome pobre, fugitivo e desterrado, e o corvo, com admirável pontualidade e perpétua assistência, todos os dias, pela manhã e à tarde, lhe levava, não só o necessário, senão também com muita abundância: Panem et carnes mane, similiter panem et carnes vespere[22]. — E como este corvo era também irmão da misericórdia — irmão da mesa — por isso Salomão à comparação das palmas ajuntou a do corvo, para que se veja quão devidas são, e quanto se devem aos Irmãos da Misericórdia as vitórias. A propósito da nossa, e deste corvo, me lembra a diligência e valor do outro, tão famoso e conhecido, que foi o primogenitor daqueles, cuja memória e descendência se conserva na nossa Sé de Lisboa. Saiu às praias de Portugal o corpo defunto do nosso padroeiro S. Vicente, voou logo o corvo como Irmão da Misericórdia aos ofícios da sepultura, e porque um lobo naquela ocasião lhe quis dar outra bem diferente na sua voracidade, o valente e animoso corvo, ferindo-o com o bico, e sacudindo-o com as asas, lhe fez tal guerra que, com mais sangue que a fome que trazia dele, deixou a presa e a empresa, e com tanto medo, como se fora de um leão, se retirou fugindo. Isto quanto aos Irmãos da Misericórdia ativa.

IX – Os Irmãos da Misericórdia passiva. Os arraiais e a guerra dos pobres.

Quanto aos pobres da passiva, que dissemos militar debaixo da mesma bandeira, e que guardaram a nossa cidade: Custodes murorum — aqui entra o que elegantemente diz S. João Crisóstomo: Sunt et hic castra pauperum, et bellum, in que pro te pauperes pugnant: Também os pobres têm os seus arraiais, e outro gênero de guerra, no qual pelejam por nós, e nos defendem. — Quem quiser ver estes arraiais, e a ordem, repartição e arquitetura militar deles, entre por essas enfermarias. Mas de homens enfermos, feridos, estropiados, e alguns deles sem mãos e sem braços, que defensa se pode esperar? Já houve quem o dissesse, e em sítio mais apertado que o nosso. Quando Davi, novamente recebido por todo Israel, quis mudar a corte de Hebron para Jerusalém, defendiam a fortaleza de Sião os jebuseus, os quais cercados, não por uma, como nós, senão por todas as partes, aparecendo em cima das muralhas diziam por mofa aos conquistadores que, se queriam lá entrar, haviam de tirar primeiro de dentro os mancos, cegos, aleijados: Non ingredieris huc, nisi abstuleris caecos et claudos dicentes; Non ingredietur David huc[23]. — As feridas são a gala e glória dos soldados como dos mártires: quanto mais feridos, mais retalhados e mais despedaçados, tanto mais valentes, mais honrados, mais famosos. A isto aludiam as barbatas dos jebuseus, como escreve Josefo, querendo dizer que os que defendiam aquela fortaleza eram soldados velhos, não só curtidos, mas cortados nas batalhas, tanto melhor vistos e inteligentes da guerra quanto nela tinham perdido os olhos, e tanto de melhores mãos e maior firmeza a pé quedo, quarto mancos e aleijados[24].

Até aqui a história, de que eu não quero mais que a semelhança. Entrai neste hospital, ou nessas casas fortes da caridade, e vê-las-eis cheias ou alastradas de pobres todos, ou enfermos, ou feridos, e uns sem pés, outros sem braços, e algum sem olhos; mas esses mesmos, no tempo em que nos sitiava o inimigo, pelas bocas das suas mesmas feridas lhe estavam dizendo: Non ingredieris huc: Não hás de entrar cá. — Sucedeu então na Bahia uma troca, ou metamorfose admirável, e foi que os mesmos soldados, que, por feridos e mal feridos, eram trazidos em ombros ou braços alheios da campanha a esta Casa da Misericórdia, nem por isso deixavam de pelejar, antes agora o faziam, não só com maior valor e maiores forças, senão também em muito maior número. Os nossos olhos não viam esta maravilha, mas os olhos de Deus a estavam vendo. E todo este aumento de forças, e multiplicação de número donde lhe vinha? De entrarem neste segundo corpo da guarda, e segregarem aos custodes murorum, que são — como já vimos — os pobres que a Casa da Misericórdia sustenta e cura. A prova desta maravilha ainda diz mais do que eu tenho dito. No salmo décimo e undécimo diz o texto sagrado repetidamente que os olhos de Deus estão olhando para o pobre: Oculi ejus in pauperem respiciunt (Sl, 10, 5); e, nomeando-se dez vezes os pobres nestes mesmos salmos, nota Genebrardo que em todos estes lugares é com tal palavra na língua hebraica que juntamente quer dizer pobre e quer dizer exército: Oculi ejus in pauperem respiciunt, oculi ejus in exercitum respiciunt. — De sorte que os nossos olhos, em cada um daqueles soldados retirados da campanha, por mal feridos se estava vendo um pobre homem fraco, desfalecido, estropiado, e os olhos de Deus o estavam vendo, não só forte, valente, são e inteiro, senão multiplicado em muitos. Cada um na campanha entre os soldados era um só homem, no hospital entre os pobres era um exército: In pauperem, in exercitum.

Isto viam ou se via nos olhos de Deus. E nos ouvidos do mesmo Deus sucedia outra não menor maravilha. Os ais desse mesmo soldado desvaído de sangue, e quase desmaiado, e os gemidos das curas, cujas dores são muito maiores que as das feridas, estes ais e estes gemidos chegavam aos ouvidos divinos, e como se fossem caixas ou trombetas que tocassem arma ao mesmo Deus. — Agora, diz o mesmo Onipotente, me levantarei eu, e me porei em campo a socorrer-vos: Propter miseriam inopum, et gemitum pauperum, nunc exsurgam, dicit Dominus[25]. — Note-se muito aquele nunc: agora; agora, e não antes; não quando os nossos soldados saíram a impedir o passo ao inimigo, que tão arrogante marchava em demanda da cidade; não quando as nossas batarias começaram a responder furiosamente às suas: não quando a nossa mosquetaria chovia sobre eles balas; não quando as suas mesmas alcanzias, rechaçadas como pélas, lhes tornavam a rebentar na cara; mas quando os ais e os gemidos dos lastimosos feridos chegavam aos ouvidos de Deus. Agora, agora — disse Deus — me levantarei: Nunc exsurgam, dicit Dominus. — E que havia de suceder levantando-se Deus? Levantou-se Deus, levantou-se o sítio, levantou-se o inimigo, lá vai fugindo. A nossa artilharia alegre despediu-se das suas popas com três salvas, mudos e tristes, sem trombeta nem bandeira.

X – Que razão houve para que a primeira parte do Cântico da Senhora, que foi a ação de graças, e a segunda, que foram as vitórias de seu Filho, se não cantassem em Nazaré, onde tinha a sua mesma casa, senão nas montanhas, e em casa de Zacarias? A primeira Irmandade da Misericórdia que houve no mundo.

Parece-me que tenho bastantemente provado o meu pensamento, sem sair, como dizia, desta casa. Agora sigamos a Virgem, Senhora nossa, até à de Zacarias, que não é outra senão esta mesma, e nela verá a Irmandade da Misericórdia a sua bandeira, a sua milícia e as suas vitórias, e, dentro do mistério da Visitação, veremos todos o que até agora temos ouvido. Exurgens Maria abiit in montana cum festinatione, et intravit in domum Zachariae[26]. — Concluída a embaixada do anjo, partiu-se ele de Nazaré, onde, se tinha obrado o altíssimo mistério da Encarnação do Filho de Deus, e a Virgem já Mãe do mesmo Filho, não se deteve na mesma cidade um momento, mas logo a toda diligência partiu para as montanhas, onde Zacarias tinha a sua casa. O que lá fez e disse a Senhora, sem falar outra palavra, foi o seu famoso cântico da Magnificat, o qual se divide em duas partes. A primeira contém a ação de graças, tão devota e tão humilde da mesma Virgem por tão soberana mercê: Quia respexit humilitatem ancillae suae, quia fecit mihi magna qui potens est, et sanctum nomen ejus[27]. — A segunda canta as vitórias do braço de Deus, então encarnado, contra os soberbos e poderosos do mundo: Fecit potentiam in brachio suo, dispersit superbos mente cordis sul, deposuit potentes de sede[28]. — É o que do mesmo dia e do mesmo lugar se refere nos livros da Sabedoria: Omnipotens sermo tuus de caelo a regalibus sedibus, durus bellator in mediam exterminii terram prosilivit[29].

Mas, se todo este mistério se obrou na cidade de Nazaré, a celebridade dele por que se não fez na mesma cidade, e o Te Deum, e as festas se foram cantar às montanhas? Nem é menos digno de notar que esta mudança de lugares não só a fez a Virgem Maria: abiit in montana — senão também o mesmo Espírito Santo. Em Nazaré: Spiritus Sanctus superueniet in te[30] — nas montanhas: Repleta est Spiritu Sancto Elisabeth[31]. — Que razão houve logo — que não podia ser sem novos e grandes motivos — para que a primeira parte do Cântico da Senhora, que foi a ação de graças, e a segunda, que foram as vitórias de seu Filho, se não cantassem em Nazaré, onde tinha a sua mesma casa, senão nas montanhas, e em casa de Zacarias? A razão manifesta foi porque em casa de Zacarias exercitou a Senhora as primeiras obras de misericórdia, e em Nazaré não havia matéria para isso. Ora vede. O que o anjo em Nazaré disse à Virgem foi: Et ecce Elisabeth cognata tua, et ipsa concepit filium in senectute sua (Lc. 1, 36): que sua parenta Isabel, naquela sua velhice, tinha concebido um filho. — As obras de misericórdia dividem-se em dois gêneros: obras de misericórdia espirituais, e obras de misericórdia corporais. Ao filho, que era o Batista, livrou e santificou a Senhora do pecado original, que foi obra de misericórdia espiritual; à mãe assistiu-a nas moléstias da prenhez, as quais naquela idade são maiores, que foi obra de misericórdia corporal; — por isso tendo dito o anjo que já estava no sexto mês: Et hic mensis sextus est illi (ibid. 36) — a assistência da Senhora foi dos três meses que faltavam para o parto: Mansit autem cum illa quasi mensibus tribus[32] — e como na casa de Zacarias se exercitaram as obras de misericórdia, o que não podia ser na de Nazaré, por isso naquela casa da misericórdia se fez a ação de graças, como nós a fazemos nesta, e naquela casa da misericórdia se cantaram as vitórias do braço de Deus, como nós cantamos nesta a nossa vitória, confessando que foi sua.

Agora vede como na mesma casa da misericórdia, onde as primeiras obras de misericórdia se exercitaram, e a Virgem com seu Filho as exercitou, ali levantou a Senhora a primeira Irmandade da Misericórdia, e ali levantou a bandeira desta piedosa e sempre vitoriosa milícia. Fala a Virgem Maria de si mesma nos Cantares de Salomão, e assim como dela diz hoje o Evangelista: Intravit in domum Zachariae[33] — assim diz de si a Senhora: Introduxit me in ceifam — ou, como está no hebreu: in domum vinariam — et ordinavit in me charitatem[34]. — Que casa fosse esta, a que o texto chama vinaria, entendem comumente os intérpretes que era uma casa particular, onde naquele ameno retiro, que el-rei Salomão chamou saltus Libani, bosque do Líbano, se guardavam os mais preciosos licores das vinhas do mesmo monte. Eu, com licença de todos, que não têm na Escritura mais fundamento que o mesmo nome, sem o mudar nem me apartar dele, entendo que era uma casa onde o mesmo Salomão tinha depositado todos os segredos e extratos da sua física e arte médica, a qual professava e ensinava publicamente em uma grande sala do mesmo retiro, como tão necessários à prática da mesma ciência, depois de tantos e tão excelentes livros que tinha escrito dela, e foram às fontes derivadas pelo Egito, donde depois a beberam os Hipócrates e Galenos. Tanto assim que um Salomão alegado por Avicena[35], entendem muitos que foi o rei de Israel. Esta casa podia ser aquela, da qual escreve S. Jerônimo nas tradições hebraicas, que se chamavam: Domus Nechota[36], a qual, e semelhantes boticas, diz expressamente Isaías se conservavam no mesmo palácio que tinha sido de Salomão, em tempo de el-rei Ezequias, quando as mostrou, que não devera, aos embaixadores de Babilônia: Et ostendit eis ceifam aromatum, et odoramentorum, et unguenti oprimi, et omnes apothecas supellectilis suar[37]. — E quanto ao nome de vinaria, cellam vinariam, tão longe está de desfazer ou encontrar esta minha exposição, que antes a confirma, porque a palavra vinaria debaixo de um só nome significa toda a medicina e todos os medicamentos. Ovídio, poeta latino:

Temporibus medicina juvas,
data tempore prosunt,
Et data non apto tempor
vina nocent
[38].

E Paníasis, poeta grego citado por Ateneu[39]:

…unum mortalibus ipsum
Cujus vis medicina mali.

E, o que mais é, os dois grandes doutores da Igreja, S. João Crisóstomo, e Santo Agostinho, um também latino, e outro grego, ambos pelas mesmas palavras: Vinum omnes animi languores detet[40]

Entrada, pois, ou introduzida a Virgem, Senhora nessa, naquela casa universal de todos os remédios e medicamentos, e por isso figura expressa desta em que estamos, que fez o Senhor que levava dentro em si? Introduxit me rex in ceifam vinariam, et ordinavit in me charitatem: O que fez diz a mesma Senhora que foi instituir nela, e com ela, e por ela, uma ordem chamada da caridade, que é a Irmandade da Misericórdia: Ordinavit in me charitatem. — E que mais? Admiravelmente o texto hebreu: Vexillum posuit in me charitas: Essa mesma Ordem da Caridade e Irmandade da Misericórdia levantou em mim a sua bandeira, sendo eu na mesma bandeira a sua insígnia. — E essa bandeira é de paz ou de guerra? De guerra, e militar, dizem todos os expositores da palavra ordinavit. E entre eles o doutíssimo Del Rio, comentando a mesma, e a que se segue, in me, diz assim: Statuit me sub vexillo charitatis: jussit me in hoc ordine militare. De sorte que não só quis Deus que a Senhora fosse a padroeira desta ordem, e a insígnia de sua bandeira, senão que também com a mesma irmandade militasse debaixo dela.

Enfim, para que a Bahia saiba com toda a certeza donde lhe veio a vitória que festeja, e de que dá graças a Deus: Unde hoc mihi — veja como marchou esta ordem militar contra seus inimigos, e como voltou triunfante deles. Tudo viram e celebraram os anjos com duas admirações. A primeira admiração começou perguntando: Quae est ista quae progreditur quasi aurora consurgens (Cânt. 6, 9): Quem é esta que vai caminhando como a aurora quando se levanta? — Como aurora, dizem, porque a aurora é a mãe do sol, e tanto que a Virgem o teve concebido, então se levantou e caminhou, ou marchou: Exurgens Maria abiit in montana. — Agora se segue o que obrou com a sua milícia ou ordem militar. Terribilis ut castrorum acies ordinata[41]: a palavra ordinata significa a mesma ordem, e a palavra terribilis o efeito. O efeito e fim da nossa vitória consistiu propriissimamente no terror com que o medo e confusão pôs em fugida o inimigo, de noite, em silêncio, precipitadamente, e desamparando tudo. Deste primeiro efeito se seguiu o segundo, e a segunda admiração dos anjos, já depois da vitória, vendo eles e ouvindo o que nós estamos ouvindo e vendo. Quid videbis in Sunamite, nisi choros castrorum (Cânt. 7, 1)? Que vereis em Sunamite — que é a mesma Virgem — senão os arraiais da sua milícia convertidos em coros? — Um coro devoto e pio, outro festivo e triunfante; um coro cujas vozes sobem ao céu, outro que alegra a terra; um coro que canta a ação de graças a Deus, o outro que canta e celebra a sua e a nossa vitória.

XI — Por que deve a Bahia, à imitação dos Macabeus, dar a primeira parte dos despojos da vitória aos pobres e enfermos da Casa da Misericórdia. O soldo dos pobres e a precedência da misericórdia na paga geral do dia do Juízo. Uma admiração sem resposta: por que, segundo diz Santo Ambrósio, a Mãe de Deus põe sua esperança na oração e intercessão dos pobres?

Satisfeita a dúvida, e respondida a pergunta da Bahia: Unde hoc mihi? — agora quero eu falar também com ela, e dizer-lhe duas palavras. Mas quais serão estas? Digo, Bahia, que assim como te mostras tão agradecida a Deus pela tua ou sua vitória, não sejas, nem deves ser ingrata àqueles a quem principalmente a deves. Não pretendo defraudar os nossos capitães e soldados, mas assegurar-lhes pelo meio que direi, as outras vitórias que ainda havemos mister, para debelar inteiramente a potência e orgulho dos nossos inimigos. Na memorável batalha de Judas Macabeu contra Nicanor, posto em fugida, depois de mortos muitos, o exército inimigo, a primeira coisa que fizeram os vencedores foi dar graças a Deus pela vitória: Benedicentes Dominum, qui liberavit eos in isto die, misericordiae initium stillans in eos[42] — e logo, recolhidos os despojos, a — parte também primeira deles dedicaram aos pobres, enfermos, órfãos e viúvas, e depois destas primícias tão piamente empregadas, repartiram o demais entre si: Debilibus, orphanis, et viduis diviserunt spolia: et residua ipsi cum suis habuere[43]. — Agora saibamos que política militar foi a destes soldados, tão pouco usada nos exércitos ainda cristãos e católicos. O que sucede muitas vezes é que depois da vitória, sobre a repartição dos despojos, se dêem batalhas entre si os mesmos soldados vencedores. Que motivo tiveram logo os macabeus para trocarem esta cobiça natural em uma tão piedosa liberalidade, e cederem do seu direito, aplicando, não só parte dos seus despojos, senão a primeira, aos pobres e enfermos? Nas palavras notáveis com que deram as graças a Deus declararam a sua tenção: Misericordiae initium stillans in eos[44]. — Aplicaram de comum consentimento aquela obra de misericórdia aos pobres e enfermos, para que a misericórdia que Deus tinha usado com eles, dando-lhes uma tão insigne vitória, fosse princípio das que esperavam de sua misericordiosa e poderosa mão.

Isto quer dizer aquele misericordiae initium. E isto mesmo é o que eu digo à Bahia, não só enquanto composta da parte política e civil, senão também da militar: que a primeira parte dos despojos da nossa vitória seja dos pobres enfermos e feridos deste hospital, e dos que a mesma guerra, pela morte dos pais, ou maridos, fez órfãos e viúvas: Debilibus, orphanis et viduis diviserunt spolia. — Oh! que bem pareceriam quatro daqueles oito canhões das batarias inimigas na porta desta Casa da Misericórdia, para eterna memória da misericórdia divina, com que ela nos livrou do perigo em que nos vimos: Qui liberavit eos in isto die — e para que esta misericórdia e esta vitória seja princípio das que havemos mister: Misericordiae initium stillans in eos! Não deixemos passar sem ponderação esta última palavra, nunca em toda a Escritura usada nesta matéria e em tal sentido. Que quer dizer stillans in eos? Não diz que lhe deu Deus a vitória, ou que usou com eles de sua misericórdia, senão que a estilou neles: stillans in eos. — De sorte que chamaram àquela vitória o estilado da divina misericórdia, nome que nós também podemos dar à nossa. Se fora o estilado da divina justiça, o qual se faz dos pecados, havia de ser castigo, assolação e cativeiro, que é o que o inimigo pretendia. Assim diz o texto sagrado, que no exército de Nicanor vinham já os mercadores que haviam de comprar por escravos aos hebreus depois de vencidos. E porque o general e soldados vencedores entenderam que o estilado da misericórdia de Deus se fez das obras de misericórdia dos homens, por isso tão sábia como piedosamente aplicaram àquela obra de misericórdia os seus despojos, para que os despojos de uma vitória fossem o princípio das outras: Misericordiae initium stillans in eos.

Dir-me-á a Bahia que está mui carregada de tributos para sustentar os seus presídios. E eu ainda que lhe não inculcarei minas ou tesouros de prata, responder-lhe-ei com duas sentenças ou alvitres de ouro. Uma sentença é de S. João Crisóstomo, cujo sobrenome quer dizer o da boca de ouro; a outra é de S. Pedro Crisólogo, cujo apelido, também não menos precioso, quer dizer o das palavras de ouro. Crisóstomo diz assim: Hos itaque conspiciens milites quotidie pro te pugnantes, a temetipso istud tributum exige eorum alimenta: Suposto que os pobres são os soldados que cotidianamente estão pelejando por vós, e defendendo os vossos muros, assim como os reis põem tributos a toda a cidade, para que sustente os seus presídios, assim cada um de vós voluntariamente deve impor a si mesmo outro tributo, com que sustente estes seus defensores. — Isto é de Crisóstomo. E Crisólogo, que diz? Que entre as pagas de uns e outros soldados, as dos pobres devem ser as primeiras, como fez o grande Macabeu, porque os pobres nos livros ou nas matrículas de Deus são as primeiras planas. Vede-o na paga geral do dia do Juízo: Venite, benedicti: esurivi enim, et dedistis mihi manducare[45] — Pelos pobres se começa a paga geral do dia do Juízo, e pelos que os sustentam, porque uns e outros, como vimos, são os que ativa e passivamente militam debaixo da bandeira da Misericórdia. As palavras do santo são mais que de ouro: Prima stipendia pauperis tractantur in caelo, eroqatio pauperis prima divinis inscribitur in diurnis[46]

Suposto, pois, senhores, que esta precedência têm no céu os pobres e as obras de misericórdia, razão é que a tenham também na terra. Não ponhais os olhos nestes soldados estropiados, muitos deles sem mãos e sem braços, para desconfiar dos seus socorros; mas aplicai os ouvidos, como dizia, aos seus ais e aos seus gemidos, que são os que mais penetram o céu, e movem a misericórdia divina, e, por ela, a sua onipotência para nos ajudar. Nesta eficacíssima intercessão, nesta mais que em nenhuma outra devemos pôr a nossa esperança, para que seja segura. Assim no-la ensina a mesma Virgem Senhora, nossa mestra, com o seu exemplo, e protetora com o seu amparo desta sua casa. Diz Santo Ambrósio, falando da mesma Mãe de Deus — o que ninguém pudera imaginar por este mesmo título: Non in incerto divitiarum, sed in prece pauperis spem reponens[47]. — Notável dizer, e por infinitas razões admirável! A Virgem Maria não é aquela, de quem canta a Igreja que é toda a nossa esperança, saudando-a e invocando-a com este mesmo título: Spes nostra, salve? Pois, como a que é a esperança nossa põe a sua esperança na oração dos pobres? Mais, e agora compreenderei em uma palavra o infinito desta admiração. O mesmo Filho de Deus, fazendo oração a seu Eterno Padre na cruz, pede que o salve por intercessão da Mãe, que, quando o concebeu, se chamou escrava sua: Salvum fac filium ancillae tuae[48]. — Pois, se o mesmo Verbo encarnado não alega a seu Pai ser Filho seu, senão de sua Mãe, e nela põe suas esperanças, como a mesma Mãe, esperança nossa e esperança sua, põe a sua esperança na oração e intercessão dos pobres: In prece pauperis spem reponens? — Não respondo, porque esta admiração não tem outra resposta, senão a mesma admiração. Ficai com ela nos ouvidos e nos corações, para que ninguém duvide que a esta Casa da Misericórdia e aos pobres dela devemos a vitória passada, e que no seu remédio e nas suas orações devemos segurar as futuras. A mesma Mãe da misericórdia, e o mesmo Pai das misericórdias se dignem de no-lo conceder assim, nesta vida com muita graça, penhor da glória, etc.

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[1] E donde a mim esta dita (Lc. 1, 43)?
[2] A minha alma engrandece ao Senhor (Lc. L, 46).
[3] E o meu espírito se alegrou por extremo em Deus meu Salvador (ibid. 47).
[4] Porque me fez grandes coisas o que é poderoso, e santo o seu nome (ibid. 49).
[5] Por ele ter posto os olhos na baixeza de sua escrava (ibid. 48).
[6] Que venha visitar-me a que é Mãe de meu Senhor (ibid. 43).
[7] Benta és tu entre as mulheres (ibid. 42).
[8] E bem-aventurada tu, que creste, porque se hão de cumprir as coisas que da parte do Senhor te foram ditas (ibid. 45).
[9] Pôs os olhos na baixeza de sua escrava (ibid. 48).
[10] Se tu imaginas que o sucesso da guerra depende da força do exército, Deus fará que tu sejas vencido pelo inimigo, porque só Deus pode socorrer, e pôr em fugida (2 Par. 25, 8).
[11] E quando Moisés tinha as mãos levantadas, vencia Israel; mas se as abaixava um pouco, vencia Amalec (Êx. 17, 11).
[12] Estes confiam nas suas carroças, e aqueles nos seus cavalos; mas nós invocaremos o nome de nosso Deus (Sl. 19, 8).
[13] Eles ficaram atados, e caíram, mas nós nos levantamos, e fomos sustidos (ibid. 9).
[14] Tu abriste um caminho aos teus cavalos no mar, e as tuas carroças são a nossa salvação (Hab. 3, 15. 8).
[15] O Senhor o guarde (Sl. 40, 3).
[16] Aug. in Regula Clericorum.
[17] O Senhor o livrará no dia mau, e não o entregará ao poder de seus inimigos (Si. 40, 2 s).
[18] Clemens Lib. I Paedag. Cap. 5.
[19] Drog. de Pass. Sacram.
[20] Coroa-te com a misericórdia e com as obras de misericórdia, pois a matéria de que foi formada a coroa é a misericórdia e obras de misericórdia; assim como outros recebem a coroa da justiça tecida de justiça, assim também tu, ó alma minha, serás coroada pela misericórdia e por suas obras (Didym. ibi in Catena Graecor PP.).
[21] Deram-me e feriram-me, e tiraram-me o manto os guardas da cidade (Cânt. 5, 7).
[22] Pela manhã pão e carne, e de tarde também pão e carne (3 Rs. 17, 6).
[23] Não entrarás cá, menos que não lances fora os cegos e coxos, que dizem: Davi não há de cá entrar (2 Rs. 5, 6).
[24] Lib. 7Antiq. Cap. 2.
[25] Pela miséria dos desvalidos, e o gemido dos pobres, agora me levantarei, diz o Senhor (Sl. 11, 6).
[26] Levantando-se Maria, foi com pressa às montanhas, e entrou em casa de Zacarias (Lc. 1, 39 s).
[27] Por ele ter posto os olhos na baixeza de sua escrava, porque me fez grandes coisas o que é poderoso, e santo o seu nome (Lc. 1, 48 s).
[28] Ele manifesta o poder do seu braço, dissipou os que no fundo do seu coração formavam altivos pensamentos, e depôs do trono os poderosos (ibid. 51s).
[29] A tua palavra onipotente, baixando do céu, do teu trono real, saltou de improviso no meio da terra condenada ao extermínio, como um inflexível guerreiro (Sab. 18, 15).
[30] O Espírito Santo descerá sobre ti (Lc. 1, 35).
[31] Isabel ficou cheia do Espírito Santo (ibid. 41).
[32] E ficou Maria com Isabel perto de três meses (Lc. 1, 56).
[33] Entrou em casa de Zacarias (Lc. 1, 40).
[34] Ele me fez entrar na adega, onde mede o seu vinho, ordenou em mim a caridade (Cânt. 2, 4).
[35] Avicena et Serapion.
[36] Hieron. in tradit.
[37] E lhes mostrou o repositório dos aromas, e dos perfumes, e das melhores confecções, e todos os gabinetes das suas alfaias (Is. 39, 2).
[38] Ovid
[39] Athenens, lib. 2.
[40] O vinho cura todas as doenças da alma (Chrys. homil, de cast. et sobriet; Aug. ad Virgin, cap. 1).
[41] Terrível como um exército bem ordenado, posto em campo (Cânt. 6, 9).
[42] Bendizendo ao Senhor, que os tinha livrado naquele dia, derramando sobre eles como que as primeiras gotas da sua misericórdia (2 Mac. 8, 27).
[43] Com os enfermos, e com os órfãos, e com as viúvas, e reservaram o resto para si e para os seus (ibid. 28).
[44] Derramando sobre eles como que as primeiras gotas da sua misericórdia (ibid. 27).
[45] Vinde, benditos, porque tive fome, e destes-me de comer (Mt. 25, 34).
[46] O soldo do pobre é a primeira preocupação do céu, e o pagamento do pobre está entre os primeiros cuidados diários de Deus.
[47] Não põe sua esperança na incerteza das riquezas, mas na oração dos pobres (S. Ambr.).
[48] Faze salvo ao filho da tua escrava (Sl. 85,16).

Fonte: https://www.literaturabrasileira.ufsc.br/documentos/?action=download&id=49824