Sermão da Rainha Santa Isabel (1674)

SERMÃO DA RAINHA SANTA ISABEL,

PREGADO EM ROMA, NA IGREJA DOS PORTUGUESES, NO ANO DE 1674.


Simile est regnum caelorum homini negotiatori quaerentibus bonas margaritas; inventa autem una pretiosa, abiit, et vendidit omnia quae habuit, et emit eam.[1]

I – Rainha e santa, os dois pólos do discurso. As três qualidades do negociante da parábola: cabedal, diligência e ventura, encontradas em Santa Isabel. A mulher forte de que fala Salomão é uma mulher negociante. No Livro dos Provérbios, a descrição da Rainha de Portugal e Aragão.

A uma rainha duas vezes coroada, coroada na terra e coroada no céu, coroada com uma das coroas que dá a fortuna, e coroada com aquela coroa que é sobre todas as fortunas, se dedica a solenidade deste dia. O mundo a conhece com o nome de Isabel; a nossa pátria, que lhe não sabe outro nome, a venera com a antonomásia de Rainha Santa. Com este título que excede todos os títulos, a canonizou em vida o pregão de suas obras; a este pregão se seguiram as vozes de seus vassalos, a estas vozes a adoração, os altares, os aplausos do mundo, rainha e santa. Este será o argumento, e estes os dois pólos do meu discurso.

No texto do Evangelho que propus, temos a parábola de um negociante, em que concorreram todas aquelas três qualidades, ou boas partes, que poucas vezes se concordam: cabedal, diligência e ventura. Cabedal: Omnia quae habuit; diligência: Quaerenti bonas margaritas; ventura: Inventa una pretiosa. Rico, diligente, venturoso. E que negociante é este? É todo aquele, que com os bens da terra sabe negociar o reino do céu: Simile est regnum caelorum homini negotiatori.

Este mundo, senhores, composto de tanta variedade de estados, ofícios e exercícios públicos e particulares, políticos e econômicos, sagrados e profanos, nenhuma outra coisa é senão uma praça, ou feira universal, instituída e franqueada por Deus a todos os homens, para negociarmos nela o reino do céu. Assim o ensinou Cristo na parábola daquele rei que repartiu diferentes talentos, ou cabedais a seus criados, para que negociassem com eles até sua vinda: Negotiamini dum venio (Lc. 19, 13). Para as negociações da terra, a muitos falta o cabedal; outros têm cabedal, mas falta-lhes a diligência; outros têm cabedal e diligência, mas falta-lhes a ventura. Na negociação do céu não é assim. A todos dá Deus o cabedal, a todos oferece a ventura, e a todos pede a diligência. O cabedal são os talentos da natureza, a ventura são os auxílios da graça, a diligência é a cooperação das obras. Quando o rei disse: Negotiamini dum venio, os criados a quem entregou a sua fazenda, para que negociassem com ela, eram três: todos três tiveram cabedal, dois tiveram diligência, um não teve ventura. E por que não teve ventura este último? Porque não teve diligência: enterrou o talento. Bem o conhecia o rei, pois fiou dele o menos. E que sucedeu aos outros dois? O que tinha cinco talentos negociou, e granjeou outros cinco. O que tinha dois talentos negociou, e granjeou outros dois. Ambos tiveram igual ventura, porque fizeram igual diligência, mas o que entrou com maior cabedal, saiu com maior ganância.

Ninguém entrou na praça deste mundo com maior cabedal que a nossa Rainha Santa: uma coroa, e outra coroa: a de Aragão e a de Portugal. O mercante do Evangelho tratava em pérolas; Santa Isabel em coroas. Grande cabedal! De uma grande rainha de Lacedemônia disse Plínio no livro De Summa Felicitate este elogio: Una faeminarum in omni aevo Lacedemonia reperitur, quae regis filia, regis uxot; regis mater fuit.[2] Isabel não só foi filha de rei, mulher de rei e mãe de rei, mas que filha! que mulher! que mãe! Filha de um rei em quem estavam unidos os brasões de todos os reis da Europa, Pedro Segundo de Aragão; mulher de um rei que foi árbitro dos reis em todos os pleitos que tiveram em seu tempo as coroas de Espanha, Dionísio de Portugal; mãe de um rei, Afonso Quarto, de quem descendem todos os monarcas e príncipes da cristandade, não vivendo hoje nenhum, que o melhor sangue que tem nas veias não seja de Isabel. Grande fortuna de mulher, grande cabedal! Mas parece que não havia de ser mulher, porque o negociar é ofício de homem: Homini negotiatori. O reparo é do Evangelho, a solução será da epístola.

Mulierem fortem, quis inveniet (Prov. 31, 10. 11. 15. 18 etc.)? Quem achará no mundo uma mulher forte, uma mulher varonil, uma mulher como homem? — Tudo isso quer dizer o texto: Fortem, virilem, viraginem. Quando eu li as bravezas desta proposta e pergunta de Salomão, estava esperando, ou por uma Judite, com a espada na mão direita e a cabeça de Olofernes na esquerda, ou por uma Jael, com o cravo e com o martelo atravessando as fontes de Sisara; por uma Débora, plantada na testa de um exército, capitaneando esquadrões e vencendo batalhas. Mas não é isto o que responde Salomão. Diz que a mulher forte, a mulher varonil, a mulher mais que mulher, era uma mulher negociante: Agrum emit, syndonem vendit, et vidit quia bona est negotiatio ejus.[3] E como negociava esta mulher? Como o homem do Evangelho: com cabedal, com diligência, com ventura. Com cabedal: Dedit praedam domesticis suis;[4] com diligência: Non extinguetur in nocte lucerna ejus;[5] com ventura, e ventura sobre todas: Multae filiae congregaverunt divitias; tu supergressa es universas.[6] Já temos uma mulher negociante como homem. Só nos faltava para Santa Isabel, que nos dissesse Salomão o nascimento, a pátria, e o estado desta notável mulher. Também isso disse. Disse que era rainha, e espanhola, e aragonesa. Rainha: Purpura et byssus indumentum ejus,[7] porque naquele tempo só às pessoas reais era lícito vestir púrpura. Espanhola: Procul, et de ultimis finibus pretium ejus,[8] porque na antiga cosmografia, e na frase da Escritura, o fim da terra é Espanha. Finalmente aragonesa, e tal aragonesa, que é mais: Et spoliis non indigebit,[9] porque os aragoneses, entre todas as nações de Espanha, foram os primeiros que enobreceram e enriqueceram com despojos a sua coroa, conquistando novas terras, novos mares e novas gentes. E Santa Isabel em particular foi nascida e criada nos braços de el-rei Dom Jaime de Aragão, por sobrenome, o Conquistador, o qual, e seu filho el-rei Dom Pedro, pai de Isabel, foram os que conquistaram em Espanha o Reino de Valença, em Itália o Reino de Sicília, no Mediterrâneo as Ilhas de Evisa e Malhorca. E não pararam aqui os despojos. A estes se seguiram sucessivamente, primeiro os reinos de Córsega e Sardenha, depois o florentíssimo e belicosíssimo reino de Nápoles, e ultimamente, quê? A mesma Jerusalém, onde Salomão escrevia, e onde estava vendo a mulher forte de que falava, entre despojos nascida, entre despojos criada, e de tão gloriosos despojos herdeira: Et spoliis non indigebit.

Isto suposto, e suposto que eu não sei dizer o que me diz o Evangelho, o tema será o sermão, e o assunto dele, a melhor negociante do reino do céu: Simile est regnum caelorum homini negotiatori. Negociou Isabel de um reino para outro reino, e de uma coroa para outra coroa, não do reino e coroa de Aragão para o reino e coroa de Portugal, senão do reine coroa da terra, para o reino e coroado céu, que vem a ser, em menos palavras, Rainha e Santa. Estes dois nomes somente havemos de complicar um com o outro, e veremos a nossa rainha tão industriosa negociante no manejo destas duas coroas, que com a coroa de rainha negociou ser maior santa, e com a coroa de santa negociou ser maior rainha Maior rainha, porque santa, e maior santa, porque rainha A rainha de todos os santos nos alcançará a graça Ave Maria.

II – Rainha e santa, e porque santa, maior rainha. As coroas não são mercadoria de lei. Os reis nas parábolas de Cristo. Os três reis santos das Escrituras. Por que não há rainhas santas nas Escrituras?

Simile est regnum caelorum homini negotiatori. Rainha e santa, e porque santa, maior rainha. Esta é a primeira parte do nosso discurso, e este foi o primeiro lanço da melhor negociante do reino do céu.

O maior cabedal que pode dar o mundo, é uma coroa. Mas, ainda que as coroas são as que dão as leis, não são mercadoria de lei. Ao menos eu não havia de assegurar esta mercadoria de fogo, mar e corsário, porque as mesmas coroas, muitas vezes, elas são o roubo, elas o incêndio, elas o naufrágio. Para conquistar reinos da terra, o melhor cabedal é uma coroa, mas para negociar o reino do céu, é gênero que quase não tem valor. Ponde uma coroa na cabeça de Ciro; conquistará os reinos de Baltasar; ponde uma coroa na cabeça de Alexandre: conquistará os reinos de Dario; ponde uma coroa, não na cabeça, senão no pensamento de César, e oprimirá a liberdade da pátria, e da mais florente república fará o mais soberbo e violento império. Mas para negociar o reino do céu, nem a Baltasar, nem a Dario, nem a Alexandre, nem a César, nem ao mesmo Ciro, a quem Deus chamava o seu rei e o seu ungido, Christo meo Cyro (Is. 45, 1) valeram nada as coroas.

Ora, eu andei buscando no nosso Evangelho alguma coroa, e ainda que Cristo nunca multiplicou tantas semelhanças e tantos modos de adquirir o reino do céu em diversos estados e ofícios, ode rei não se acha ali. Achareis um lavrador, um mercante, um pescador, um letrado, mas rei não. E por quê? Não são personagens os reis, que pudessem entrar também em uma parábola, e autorizar muito a cena com a pompa e majestade da púrpura? Claro está que sim. E assim o fez Cristo muitas vezes. Mas vede o que dizem as parábolas dos reis: Regi, qui fecit nuptias filio suo;[10] Intravit rex ut videret discumbentes;[11] Quis rex iturus committere bellum adversus alium regem;[12] Abiit in regionem longinquam accipere sibi regnum,[13] Reis que fazem bodas, que fazem banquetes, que fazem guerras, que mandam exércitos, que conquistam reinos da terra, isso achareis no Evangelho; mas reis que se empreguem em adquirir o reino do céu, parece que não é ocupação de personagens tão grandes. Ao menos Cristo disse que o reino do céu era dos pequenos: Sinite parvulos ad me venire, talium est enim regnum caelorum[14] Tais são o lavrador no campo, o mercador na praça, o pescador no mar, o letrado na banca e sobre o livro. Mas nas cortes, nos palácios, nos tronos, e debaixo dos dosséis, que achareis? Bodas, banquetes, festas, comédias, e por cobiça, ou ambição, exércitos, guerras, conquistas. Eis aqui por que as coroas não são boa mercadoria, ao menos muito arriscada para negociar o reino do céu. Reis e belicosos, reis e políticos, reis e deliciosos, quantos quiserdes; mas reis e santos, muito poucos. Vede-o nas letras divinas, onde só se pode ver com certeza. De tantos reis quantos houve no povo de Deus, só três achareis santos: Davi, Ezequias, Josias. Houve naquele tempo grande quantidade de santos, grande sucessão de reis, mas reis e santos, santidade e coroa? Três.

E se é coisa tão dificultosa ser rei e santo, muito mais dificultoso é ser rainha e santa. No mesmo exemplo o temos. De todos os reis de Israel e Judá, três santos; de todas as rainhas, nenhuma. Ainda não está ponderado. O número das rainhas naquele tempo era muito maior, sem comparação, que o dos reis, porque era permitida e usada a poligamia; e assim como hoje é grandeza e majestade terem os reis muitos criados e muitos ministros, assim então era parte da mesma majestade e da mesma grandeza terem muitas rainhas. Das rainhas que teve Davi, além de outras muitas, sabemos o nome a sete; Jeroboão teve dezoito, e só Salomão, setecentas: Fueruntque ei uxores quase reginae septigentae.[15] E sendo tão inumerável o número das rainhas, santa nenhuma. Finalmente, desde o princípio do mundo até Cristo, em que passaram quando menos quatro mil anos, em todos os reinos e todas as nações não achareis rainha santa mais que unicamente Ester.

E qual é a razão disto? Porque é mais dificultoso ser rainha santa que rei santo, porque, ainda que no rei e na rainha é igual a fortuna, na mulher é maior a vaidade. Os fumos da coroa não sobem para o céu: descem para a cabeça. Ponde a mesma coroa na cabeça de Davi e na cabeça de Micol; na de Micol, tantas fumaradas, na de Davi, nenhum fumo. E se me disserdes que Davi era humilde e santo, tomemos outras parelhas. O mais vão rei que houve no mundo foi el-rei Assuero; mas a rainha Vasti, muito mais fumosa que Assuero. O mais soberbo rei que houve em Israel foi el-rei Acab; mas a rainha Jezabel, muito mais fumosa que Acab. Lembrai-vos de Atália, que foi a segunda Medéia, ou a segunda Semíramis do povo hebreu. Era mãe e avó — que é mais — e por muito vã, e muito fumosa, não duvidou tirar a vida a todos os filhos de seu filho, el-rei Ocosias. De nenhum homem se lê semelhante resolução. E buscando a causa os padres e expositores, não acham outra, nem dão outra, senão o ser mulher: Quia faemina erat, diz com todos Abulense. Mulher Atália, mulher Jezabel, mulher Vasti, mulher Micol, mulher Bersabé, mulher finalmente Eva. E em todas estas sempre pôde mais a vaidade que a virtude.

III – Menos santa fora Isabel se sua santidade não assentara sobre mulher e coroa. O modo de negociar o reino do céu, diz Cristo que há de ser dando, deixando e renunciando o negociante tudo o que tiver, o que aparentemente não fez Santa Isabel. S. Paulo e a Encarnação do Verbo. Por que Davi precede Abraão na genealogia de Cristo? Santidade assentada sobre coroa, ainda em grau igual, é maior santidade. Em Maria, os contrários da virgindade fazem-na duplamente virgem. A visão do Apocalipse, figura de Isabel Santa e rainha. As duplas vestes da rainha, na visão de Davi.

Perdoai-me, Rainha Santa, este discurso, mas não mo perdoeis, porque todo ele foi ordenado a avaliar o preço, a encarecer a singularidade, e a sublimar a grandeza de vossas glórias. Menos santa fora Isabel, se a sua santidade não assentara sobre mulher e coroa. Destes dois metais, um tão frágil, outro tão precioso, deste vidro e deste ouro se formou, se fabricou a peanha que levantou a estátua de Isabel até as estrelas. Mas antes que mais nos empenhemos na ponderação desta verdade, acudamos às vozes do Evangelho, que parece estão bradando contra ela. O modo de negociar o reino do céu, e a forma ou contrato desta negociação, diz Cristo que há de ser dando, deixando e renunciando o negociante tudo quanto tiver: Dedit omnia sua, et emit eam.[16] Se Isabel renunciara à coroa, e deixara de ser rainha, então disséramos justamente que com a coroa da terra comprou e negociou a coroa do céu; mas ela viveu rainha e morreu rainha, e não renunciou à coroa. Eu bem sei que renunciar uma coroa, assim como é a maior coisa do mundo, assim é também a mais dificultosa, mas não por isso impossível. Exemplo temos no nosso século, posto que o não vissem os passados. Roma o viu, e Roma o vê: Uma das maiores coroas da Europa, renunciada com tanto valor, e deixada com tanta glória, só por seguir a fé do Evangelho, e segurar debaixo das chaves de Pedro aquele reino que só elas podem abrir. Pois, por que não deixou Isabel este tudo, que verdadeiramente é o tudo do mundo: Omnia quae habuit? Por que não renunciou e demitiu de si a coroa, para se conformar com o Evangelho?

Primeiramente digo que sim: deixou Isabel a coroa, mas deixou-a sem a deixar, demitiu-a sem a demitir, e renunciou-a sem a renunciar. Era Isabel rainha; mas que rainha? Uma rainha que debaixo da púrpura trazia perpetuamente o cilício; uma rainha, que assentada à mesa real, jejuava quase todo o ano a pão e água; uma rainha, que quando se representavam as comédias, os saraus, os festins, ela estava arrebatada no céu, orando e contemplando uma rainha, que por dentro da sua coroa lhe estavam atravessando a cabeça e o coração os espinhos da coroa de Cristo; uma rainha, que adorada e servida dos grandes de seu reino, ela servia de joelhos aos pobres, e lhes lavava os pés com suas mãos, e lhes curava e beijava as chagas. Desta maneira usava Isabel da coroa, ajuntando e unindo, na pessoa da rainha, dois extremos tão distantes e dois exercícios tão contrários, e isto digo que foi deixar a coroa sem a deixar. Tenho para prova um texto de S. Paulo, muito vulgar e sabido, mas de tão dificultosa inteligência, que tendo-se empregado variamente nele todos os expositores sagrados, ainda se lhe deseja mais própria e adequada exposição.

Qui cum in forma Dei esset, exinanivit semetipsum formam servi accipiens.[17] Quer dizer: sendo o Verbo Eterno, por essência e igualdade ao Padre, Deus, quando tomou e uniu a si a natureza humana, despiu-se e despojou-se de tudo quanto era e quanto tinha. Ainda o diz com maior energia o apóstolo: Exinanivit semetipsum; assim como quando um vaso, quando se emborca e se esgota, lança de si quanto tem, e fica vazio, assim o fez, e ficou Deus, fazendo-se homem. Já estais vendo a dificuldade, não só os teólogos, mas todos. Deus, fazendo-se homem, não perdeu nada do que tinha, nem deixou nada do que era. Era Deus, e ficou Deus; era infinito, e ficou infinito; era eterno e imenso, e ficou eterno e imenso; era impassível e imortal, e ficou imortal e impassível. Pois se Deus não deixou, nem renunciou, nem demitiu de si nada do que era, nem do que tinha, como diz S. Paulo que se despojou e se esgotou a si mesmo, e de si mesmo: Exinanivit semetipsum? Assim o disse profundamente o Apóstolo e também diz o como isto podia ser, e como foi: Formam servi accipiens, cum in forma Dei esset. É verdade que Deus, fazendo-se homem, não perdeu nada do que era, nem deixou nada do que tinha, porém tomou e uniu ao que era tudo o contrário do que era; tomou e uniu ao que tinha tudo o contrário do que tinha; e tomar e unir na mesma pessoa extremos tão contrários e tão distantes, foi despojar-se de tudo o que era, sem se despojar. Era Deus, e fez-se homem; era eterno, e nasceu em tempo; era imenso, e determinou-se a lugar; era impassível, e padecia; era imortal, e morreu; era supremo senhor, e fez-se servo; e servir o senhor, morrer o imortal, padecer o impassível, limitar-se o imenso, e humanar-se o divino, não só foi tomar o que não era, senão deixar o que era. Não deixar, deixando, que isso não podia ser, mas deixar retendo, deixar conservando, deixar sem deixar: Exinanivit semetipsum formam servi accipiens, cum in forma Dei esset. Isto é o que fez o Verbo, e isto é o que fez Isabel, conformando-se altissimamente com o Evangelho ao modo do mesmo autor do Evangelho. Rainha com majestade e coroa, mas que coroa, que majestade, que rainha! Coroa sim, mas coroa, sem a deixar, deixada, porque deixou toda a pompa e esplendor do mundo, com que se engrandecem as coroas. Majestade sim, mas majestade, sem a renunciar, renunciada, porque renunciou toda a ostentação, toda a altiveza e toda a idolatria com que se adoram as majestades. Rainha sim, mas rainha não-rainha, porque, tirada a soberania do título, nenhuma outra coisa se via em Isabel das que se admiram nas rainhas, sendo por isso mesmo a mais admirável de todas.

Desta maneira deixou a nossa rainha a coroa e o tudo que pedia o Evangelho: Omnia quae habuit. Mas assim como a deixou sem a deixar, por que a não deixou deixando? Por que não abdicou a majestade, por que não deixou de ser rainha, ou não aceitando a coroa, quando se lhe ofereceu, ou renunciando-a, depois de aceitada? Respondo que esta foi a maior indústria de sua negociação: conservar o cabedal de rainha para granjear ser maior santa. O maior bem, ou o único bem que têm as supremas dignidades do mundo, é serem um degrau sobre o qual se levanta mais a virtude, é serem um cunho real, com que sobe a maior valor a santidade. Santo foi Davi, e santo Abraão, e primeiro Abraão que Davi. Contudo, S. Mateus, referindo a genealogia de Cristo, antepõe Davi a Abraão: Filii David, filii Abraham (Mt. 1, 1). Pois se Abraão também era santo, e santo da primeira classe, como Davi, e precedia na antigüidade, por que se lhe antepõe Davi? Dá a razão Santo Tomás angelicamente. Porque ainda que Abraão era santo, e tão santo como Davi, Davi era santo e rei juntamente, o que não concorria em Abraão. A santidade de Abraão, posto que grande, era santidade sem coroa; a santidade de Davi era santidade coroada, e santidade assentada sobre coroa, ainda em grau igual, é maior santidade.

E por quê? Porque na majestade, na grandeza, no poder, na adoração, e em todas as outras circunstâncias que acompanham as coroas, concorrem todos os contrários que pode ter a virtude e a santidade; e a virtude conservada entre os seus contrários é dobrada virtude. Ouvi uma das mais notáveis sentenças de Santo Agostinho: Audiat omnis aetas, quod nunquam audivit: Ouçam todas as idades o que nunca ouviram — diz Agostinho. E que hão de ouvir? Fala do parto virginal, e diz assim; Virgo partu suo crevit virginitatem, dum pareret, duplicavit. Nestas últimas palavras reparo. Diz Santo Agostinho, que Maria Santíssima concebendo, parindo, e ficando Virgem, não só conservou, mas dobrou a virgindade: Virginitatem, dum pareret, duplicavit. Se falara de qualquer outra virtude, não tinha dificuldade esta doutrina. Mas da virgindade, parece que não pode ser, porque a virgindade consiste em ser indivisível. É uma inteireza perfeita, incorrupta, intemerata, que não pode crescer, nem minguar, nem admite mais ou menos. Pois se esta virtude soberana e angélica não admite diminuição nem aumento, se quando é, sempre é igual e sempre a mesma, como diz Santo Agostinho que cresceu, que se aumentou, e que se dobrou, e foi dobrada no parto da Virgem? Porque foi virtude que se conservou inteira entre seus contrários. A conceição, o parto, o ter filho, o ser mãe, são os contrários da virgindade; e conservar-se Maria virgem, sendo juntamente mãe, foi ser dobradamente virgem: Virginitatem, dum pareret, duplicavit. Tais foram as virtudes de Isabel. O maior contrário, e o maior inimigo da virtude, é uma grande fortuna; e quanto maior figura, tanto maior inimigo. A humildade, o desprezo do mundo, a moderação, a abstinência, a pobreza voluntária, na outra gente, são simples virtudes; mas estas mesmas, com uma coroa na cabeça, com um cetro na mão, debaixo de um dossel, e assentadas em um trono, são dobradas virtudes, porque são virtudes juntas com seus contrários. A humildade, junta com a majestade, é dobrada humildade; a moderação, junta com o supremo poder, é dobrada moderação; o desprezo do mundo, junto com o mesmo mundo aos pés, é dobrado desprezo do mundo; a pobreza com a riqueza, a abstinência com a abundância, a mortificação como regalo, a modéstia com a lisonja, é dobrada pobreza, é dobrada abstinência, é dobrada mortificação, é dobrada modéstia, porque é cada uma delas, não uma rosa entre os espinhos, mas uma sarça verde entre as chamas. E porque a nossa negociante do céu sabia que debaixo do risco está a ganância, por isso teve por maior conveniência não deixar, senão ajuntar a coroa com a virtude; não deixar, senão ajuntar a majestade com a santidade, para que, sendo rainha e juntamente santa, fosse também maior santa, porque rainha.

E se quereis ver tudo isto com os olhos em uma admirável figura, ponde-os comigo, ou com S. João, no céu. No capítulo doze do Apocalipse, diz S. João que apareceu no céu um grande prodígio: Signum magnum apparuit in caelo, e, declarando logo qual fosse este prodígio e sua grandeza, diz que era uma mulher, que tinha os pés no primeiro céu, que é o céu da lua: Luna sub pedibus ejus, o corpo no quarto céu, que é o céu do sol: Amicta sole, e a cabeça no oitavo céu, que é o céu das estrelas: Et in capite ejus corona stellarum duodecim. [18] Grande mulher, grande prodígio, e grande retrato de Isabel!
Mulher que vivendo na terra, já seus méritos a tinham canonizado e colocado no céu: Signum magnum apparuit in caelo; mulher tão desprezadora das grandezas do mundo, que todas as coisas sublunares as pisou e meteu debaixo dos pés: Luna sub pedibus ejus; mulher tão alumiada e ilustrada das luzes da graça, que, aos olhos de Deus e dos homens resplandecia como um sol: Amicta sole; mulher tão adornada de todas as perfeições e dotes sobrenaturais, que todo o coro das virtudes, como outras tantas estrelas, lhe teciam e esmaltavam a coroa: Et in capite ejus corona stellarum duodecim. Até aqui Isabel santa. E sendo esta prodigiosa mulher tão grande, poderá ser maior? Estando tão alta, poderá subir mais? Estando no céu, poderá ser mais celeste? Sim. E como? Se ao celeste se ajunta o real, e às suposições de santa, as circunstâncias de rainha. Assim foi, e assim o viu o mesmo profeta.

Et datae sunt mulieri alae duae aquilae magnae, ut volaret (Apc. 12, 14): E a esta mulher — diz S. João — foram-lhe dadas duas asas da águia grande, para, que voasse com elas. — A águia é a rainha das aves; e mulher com asas de águia é mulher com prerrogativas reais, é mulher com circunstâncias de rainha. Mas notai que não só diz que se deram à mulher duas asas de águia, senão duas asas de águia grande: Datae sunt mulieri alae duae aquilae magnae. Agora pergunto: Qual é neste mundo a águia grande, e quais são as duas asas desta águia? A águia grande não há dúvida que é Espanha, a mais dilatada monarquia de todo o universo, águia real, coroada de tantas coroas. As duas asas desta águia também não há dúvida que são o Reino de Aragão de uma parte, o Reino de Portugal de outra. Não é divisão ou distinção minha, senão de todos os cosmógrafos, os quais dividem a Espanha em três partes, ou três Espanhas: Hispania Betica, Hispania Tarraconensis, Hispania Lusitanica. O corpo e a cabeça desta grande águia é a Espanha Bética, que compreende as duas Castelas. Uma das asas é a Espanha Tarraconense, isto é, Aragão, que de Tarragona se disse Aragona; a outra asa é a Espanha Lusitânica, isto é Portugal, que de Luso se disse Lusitânia. Ao ponto agora. Tendo o céu engrandecido tanto a Isabel, tendo-a sublimado a um lugar tão alto de perfeição, tendo depositado nela tudo o precioso e lustroso de seus tesouros e graças, que fez Deus? Datae sunt mulieri alae duae aquilae magnae: ajuntou e acrescentou a esta prodigiosa mulher as duas asas reais da grande águia de Espanha: por nascimento, a de Aragão, e por casamento, a de Portugal. E para quê? Ut volaret: para que, levantada sobre estas duas asas a santidade de Isabel, o grande dela crescesse à maior grandeza, o alto subisse à maior altura, o luminoso à maior luz, o celeste à mais celeste, e à mesma santidade a mais santa. Santa Isabel, porque santa, e maior santa, porque rainha. Santa, porque santa: por isso colocada no céu: Signum magnum apparuit in caelo; e maior santa, porque rainha: por isso, depois de colocada no céu, acrescentada com asas de águia e com circunstâncias reais: Datae sunt mulieri alae duae aquilae magnae.

E se não, voemos nós também com as mesmas asas, e subamos do céu estrelado, onde a viu S. João, ao céu empíreo, onde a viu Davi: Astitit regina a dextris tuis in vestitu deaurato, circumdata varietate (Sl. 44, 10): Vi — diz Davi — uma rainha colocada à destra de Deus, a qual estava vestida com duas galas diferentes: por dentro, com uma roupa bordada de ouro: In vestitu deaurato; por fora, com outra roupa de cor vária: Circumamicta varietate. — Eis aqui como está a nossa rainha santa no céu, vestida e adornada com duas galas: uma por baixo, e por dentro, que é o vestido de rainha que vestiu primeiro, e por isso bordado de ouro: In vestitu deaurato; outra por cima e por fora, que é o hábito de Santa Clara, que vestiu depois, e por isso de cor vária — pardo e branco: circumamicta varietate. E qual destas duas galas a faz mais majestosa e mais gloriosa no céu: a de dentro, ou a de fora, a de brocado ou a de burel, a de rainha, ou a de religiosa? Digo que ambas, mas porque uma assentou sobre a outra. Porque o hábito de religiosa assentou sobre o de rainha, porque o burel assentou sobre o brocado, porque o vestido de fora assentou sobre o de dentro; daí é que lhe vem toda a graça e toda a formosura. O mesmo Davi o disse: Omnis gloria ejus ab intus, in fimbriis aureis, circumamicta varietate:[19] a graça e a formosura ao vestido de fora toda lhe vem do vestido de dentro. O hábito de S. Francisco e de Santa Clara é uma das mais vistosas e mais bizarras galas que se trajam no céu. Mas esta mesma gala em Isabel, assentada sobre vestiduras reais, é muito mais vistosa, muito mais bizarra e muito mais formosa, porque toda a graça e formosura lhe vem das guarnições e bordaduras de ouro, que por baixo da orla estão reluzindo: Omnis gloria ejus ab intus, in fimbriis aureis.

E se perguntarmos mais curiosamente a Davi qual era o lavor dessas guarnições e dessa bordadura da orla, também o disse milagrosamente: In fimbriis aureis; lê o hebreu: In scutulatis. A guarnição e bordadura que aparecia na orla do vestido real, por baixo do burel de que a rainha estava revestida, era um lavor e recamo de ouro, formado e enlaçado de escudos: In scutulatis. E que escudos são estes? São aqueles dois escudos que vedes pintados ao lado de Isabel: o escudo das armas de Aragão, e o escudo das armas de Portugal. De maneira que a bordadura da orla que faz sair e sobressair a gala com que Isabel se ostenta gloriosa à destra de Deus, é composta admiravelmente e tecida destes dois escudos travados e alternados um com o outro, as barras entre as quinas, e as quinas entre as barras: In scutulatis. E nestes escudos reais, cobertos e sobrevestidos de burel áspero e grosseiro, diz Davi que consiste todo o realce da gala e toda a formosura e glória da filha do rei: Omnis gloria ejus filiae regis ab intus, porque, se Isabel é gloriosa e exaltada no céu por santa, muito mais exaltada é por santa sobre rainha: Astitit regina a dextris tais in vestitu deaurato cirrumdata varietate.

IV – Isabel maior rainha, porque santa, porque senhora da saúde e da vida de seus súditos. Mentem os judeus em dizer que Cristo se fez rei como César: deviam dizer que se fez rei maior que César, pelos milagres que realizava.

Temos vista a Isabel maior santa, porque rainha; segue-se que a vejamos agora maior rainha, porque santa. Este foi o segundo lanço da melhor negociante do reino do céu, e nisso mesmo parecida ao negociante do Evangelho. A fortuna nunca iguala os desejos dos homens; mas se houvesse uma fortuna tão grande, que não só igualasse, mas vencesse e excedesse os desejos, esta seria a maior fortuna que se pode imaginar. Tal foi a fortuna do negociante do Evangelho. Ele desejava e procurava pérolas boas: Quaerenti bonas margaritas. E quando só desejava pérolas boas, e de preço e estimação ordinária, foi tal a sua fortuna, que achou uma pérola tão preciosa que excedia o valor de quanto buscava e de quanto tinha: Inventa una pretiosa margarita, dedit omnia sua, et comparavit eam. Ainda foi maior fortuna a de Isabel: Isabel não buscava coroas, antes as coroas a buscavam a ela; e porque buscada das coroas, ela buscou a santidade, por isso essa mesma santidade lhe acrescentou à coroa, e a fez muito maior rainha. A dignidade de rainha é tão alta e tão soberana, que parece não admite maioria. Mas Isabel, pelos privilégios de santa, foi rainha maior que rainha, porque foi rainha com maior poder, rainha com maior jurisdição, rainha com maior império.

Uma das acusações que se deram contra Cristo, e a que venceu a causa, foi dizerem que se fazia rei, e que tomava a jurisdição de César: Si hunc dimittis, non es amicus Caesaris; omnis enim qui se regem facit, contradicit Caesari.[20] Todos os padres e expositores sagrados impugnam esta calúnia, e a provam com cinco mil testemunhas contestes. Estes foram aqueles cinco mil homens, que, depois de Cristo lhes matar a fome no milagroso banquete do deserto, o reconheceram pelo verdadeiro Messias, e o quiseram aclamar por rei, quando o senhor, para mostrar que não era rei dos que fazem ou podem fazer os homens, os deixou e se retirou para o monte. Grande prova de Cristo se não fazer rei, como era acusado. Mas São Leão Papa, com mais alto pensamento, apresenta-se entre os mesmos acusadores diante de Pilatos, e argumenta assim por parte deles: Ne in totrun videatur inanis judeorum objectio, discute diligenter praeses: Examine Pilatos diligentemente a causa, e achará que não é totalmente falsa a acusação. — Em dizerem os judeus que Cristo se fez rei, falam verdade; em dizerem que se fez rei como César, aqui é que mentiram. Haviam de dizer que se fez rei maior que César, e maior que todos os reis. E por quê? Ouvi a razão do eloqüentíssimo pontífice, que é divina: Caecis visum, surdis auditum, claudis gressum, mutis donavit eloquium; febres abegit, dolores resolvit, mortuus suscitavit: magnum prorsus regem ista demonstrant: Este homem, acusado de se fazer rei, deu olhos a cegos, ouvidos a surdos, pés a mancos, fala a mudos; sarou febres, resolveu dores, ressuscitou mortos, e com todas estas coisas, ainda que não provou que era rei, como César e como os outros reis que não têm tal poder, mostrou, porém, e demonstrou que era maior rei que todos eles.

O mesmo digo de Isabel. Entrava Isabel nos hospitais que ela e seus antecessores tinham edificado, concorriam a Isabel os enfermos de todas as enfermidades. E que sucedia? Ia Isabel fazendo o sinal da cruz sobre eles: os cegos viam, os mudos falavam, os surdos ouviam, os mancos e aleijados saltavam, os mortos, os que estavam para morrer ressuscitavam: Magnum prorsus reginam ista demonstrant. Dizei às outras rainhas, e aos outros reis, que façam isto com todo seu poder. Fazer mancos, fazer aleijados, fazer cegos, fazer estropiados, isso fazem os reis, e isso podem. E se não, ide a essas campanhas, a estes exércitos, e a essas cortes: uns em muletas, outros arrastando; uns sem pernas, outros sem braços; uns sem olhos, outros sem orelhas, outros pedindo esmola com os dedos, porque não têm língua; outros sem casco na cabeça, meio atontados; outros sem queixadas no rosto, horríveis e disformes. Homens miseráveis, homens que não sois homens, senão parte de homens: quem vos pôs neste estado? Padre, o serviço de el-rei. Fomos à guerra, e dela escapamos desta maneira. Isto é o que podem fazer os reis, e tanto mais quanto mais poderosos. Não assim Isabel. Era rainha que restituía braços e pés, e olhos, e ouvidos. Ver a majestade e pompa com que se diz dos reis que são senhores da vida! Senhores da vida? Leiam à margem destes títulos à glosa de Cristo: Nolite timere eos qui occidunt corpus.[21] São senhores da vida para a tirar; para a dar, não. Se sois delinqüente, podem-vos matar por justiça; se sois inocente, podem-vos matar por tirania; se tendes pouco juízo e pouco coração, podem-vos matar com uma carranca, ou com um voltar de olhos: mas dar vida ou saúde, não é da jurisdição dos reis. Assim o confessou um rei mais verdadeiro que todos: Nolite confidere in principibus, in quibus non est salus.[22] Isabel, sim, que era senhora da saúde e da vida, e por isso maior rainha que todas as rainhas: Magnam prorsus reginam ista demonstrant.

V – A reverência do Tejo a Isabel, e a reverência do Jordão à Arca.

Outra demonstração em maiores corpos. Chega Santa Isabel a Santarém, para atravessar o Tejo. Estava prevenida uma galé real para a pessoa, gôndolas e bargantins toldados para a corte; mas, em aparecendo Isabel na praia, abre-se o rio de repente, levantam-se dois muros de cristal de uma e outra parte, os peixes, como às janelas, em cardumes e atônitos, pasmando da maravilha, e Isabel caminhando sobre o seu bordão por aquela rua nova, juncada de limos verdes, mas sobre areias de ouro. Não é afetação minha, que já o disse o Espírito Santo em caso semelhante: Campus germinans de profundo nimio.[23] Passemos agora de Portugal à Palestina, e do Tejo ao Jordão. Para o Jordão à vista da Arca do Testamento, cabeça também coroada: Faciesque supra coronam aureum per circuitum[24] — Pinta o caso Davi, e exclama: Quid est tibi mare quod fugisti, et tu Jordanis, quia conversus es retrorsum (Sl. 113, 5)? Rio que paras, mar que foges, que é o que viste? — Bizarra e elegante prosopopéia de Davi, mas em pequeno teatro; maior é o nosso. Que rio e que mar eram aqueles com quem falava Davi? O mar era o Mar Morto, chamado por outro nome Vallis Salivarum, porque era uma saliva do oceano. [25] Cuspiu o Oceano, e fez aquele mar. O rio era o Jordão, composto de dois regatos, um o Jor, outro o Dan, que para terem cabedal com que ir morrer no Mar Morto, se ajuntaram e fizeram companhia um com outro. Esta era a grandeza do rio, a quem aquele pequeno lago engolia de um bocado, como diz o profeta: Et fiduciam habet quod influat Jordanis in os ejus.[26]

Comparai-me agora rio com rio, e mar com mar. Assim como a Arca do Testamento passou por aquela parte onde as águas do Jordão se misturam com as do Mar Morto, assim passou Isabel por aquela parte onde as águas do Tejo se confundem com as do Oceano. O Oceano é aquele pego vastíssimo e imenso, que ele só é todo o elemento da água, e, estendendo infinitos braços, está recebendo como nas pontas dos dedos o tributo de todos os rios do universo. Este foi o mar que se retirou e fez pé atrás à vista de Isabel. E o rio, qual era? Aquele soberbíssimo Tejo, primeiro domador do mesmo Oceano, a quem pagaram páreas em pérolas o Indo e o Ganges, não coroados de juncos e espadanas, como o Padre Tibre, mas com grinaldas de rubis e capelas de diamantes. Este soberbo mar, este soberbo rio são os que fizeram praça a Isabel, e lhe descobriram nova terra para que pisasse. Davi, respondendo à sua pergunta, disse: A facie Domini mota est terra, a facie Dei Jacob.[27] E aqui está o maior excesso de maravilha. Lá o Jordão parado, cá o Tejo parado; lá a Arca coroada, cá Isabel coroada; lá a Arca caminhando a pé enxuto, cá Isabel a pé enxuto; mas lá, porque o rio viu a face de Deus: cá, porque viu a face de Isabel; lá, porque viu a face do Senhor de Israel; cá porque viu a face da Rainha de Portugal: A facie Domini, a facie Dei Jacob. Que Deus visto refreie a corrente dos rios, isso é ser Deus; mas que, à presença de Isabel, lhe façam os rios a mesma reverência, vede se é ser rainha mais que rainha? E se não, perguntai ao mesmo Tejo, quantas vezes passaram por ele as outras rainhas, quais eram as suas cortesias. Passavam as Teresas, passavam as Dulces, passavam as Mafaldas, passavam as Urracas, as Leonoras, as Luísas, as Catarinas, e o Tejo, que fazia? Corria como dantes. Porém a Isabel — falemos em frase de Roma — a Isabel firmava-se o Tejo, às outras não se firmava, porque as outras eram rainhas, Isabel era rainha e santa, e por isso maior rainha.

VI – O milagre das rosas e a conversão de uma substância em outra, poder divino, reconhecido pelo demônio na tentação do monte, e provado por Cristo na instituição do Sacramento. Os arremedos dos reis. O mais a que pode chegar um rei é pôr nomes, como Adão aos animais. O corpo incorrupto da santa, e o corpo incorrupto de Cristo.

Eu já quisera acabar, mas está-me chamando a nova primavera que vemos, a que repare naquelas rosas. Levava Isabel na aba do vestido grande cópia de moedas de ouro e prata, para repartir aos pobres, e era inverno. Perguntou-lhe el-rei que levava, e respondeu que rosas. — Rosas neste tempo, como pode ser? — diz el-rei. Abriu a santa, e eram rosas. Há rainha, há rei no mundo que tenha tais poderes? Gastar muito dinheiro, e grandes tesouros em flores, em jardins, e ainda em sombras, que é menos, isto podem fazer, e fazem os reis; mas fazer de um dobrão uma rosa, converter uma substância em outra, ainda que seja um grão de ouro em um grão de areia, nem todos os reis do mundo juntos o podem fazer; é outra jurisdição mais alta. Manda Deus a Moisés sobre o Egito, e o título que lhe deu foi de Deus de Faraó: Constitui te Deum Pharaonis.[28] Parece demasiado título, e não necessário. Faraó era rei de Egito: seja Moisés rei de Faraó, e basta. Pois por que lhe não dá Deus título de rei, senão de Deus? Porque era razão que o título se conformasse com os poderes. Moisés havia de converter a vara em serpente, o Nilo em sangue, a água em rãs, o pó em mosquitos, e converter umas substâncias em outras, é poder e jurisdição mais alta que a dos reis. Chama-se logo Moisés, não rei de Faraó, senão Deus. Esta foi a discrição do demônio no formulário das suas tentações. Quando disse a Cristo que convertesse as pedras em pão, acrescentou: Si Filius Dei es;[29] quando lhe ofereceu todos os reinos do mundo, não falou em ser Filho de Deus. Pois se lhe chama Filho de Deus quando lhe diz que converta as pedras em pão, por que lhe não chama também Filho de Deus quando lhe oferece os reinos de todo o mundo? Porque o domínio de um reino, e de muitos reinos, e de todos os reinos, cabe na jurisdição de um homem rei; mas converter uma substância em outra é poder mais que humano, é poder mais que real, é poder divino. Tais foram neste caso os poderes daquela rainha, sobre todos os reis e rainhas do mundo. Mas ainda não está ponderado o fino da maravilha.

Não esteve a maravilha em converter as moedas em rosas, senão em quê? Em dizer: são rosas, e serem rosas. Serem rosas, só porque Isabel lhe chamou rosas, é maravilha só da boca de Deus. Ponderação admirável de São Paulo: Qui vocat ea quae non stint, tanquam ea quae sunt (Rom. 4, 17). Deus chama com tanta verdade as coisas que não são, como aquelas que são. — E esta é a maior glória do seu poder, e o maior poder da sua palavra, porque basta que ele mude os nomes às coisas, para que elas mudem a natureza, e o que era deixe de ser, e o que não era, seja. Mas, quantas vezes fez Deus esta maravilha? Uma só vez, e no maior milagre dos seus milagres, e na maior obra de sua onipotência. Na instituição do Diviníssimo Sacramento quis Cristo que o pão se convertesse e transubstanciasse em seu corpo; e o que fez para isso? Disse que o pão que tinha nas mãos era seu corpo: Hoc est corpus meum: (Lc. 22, 19), e bastou que chamasse seu corpo ao pão, para que o que era pão, deixasse de ser pão, e o que não era seu corpo, fosse seu corpo. Na criação do mundo não fez Deus semelhante maravilha. Mandou que se fizessem as coisas, e fizeram-se: Ipse dixit, et facta stint (51. 32, 9); porém, no Diviníssimo Sacramento, para o qual tinha reservado os maiores poderes do seu poder, fez que fosse seu corpo o que era pão, só com lhe chamar seu corpo: Vocat ea quae non sunt, tanquam ea quae sunt. O mesmo fez Isabel. Não levantou as mãos, não orou, não pediu, não mandou, só disse que eram rosas as moedas, e foram rosas. O chamar foi produzir, e o dizer que eram, foi fazer que fossem o que não eram: Vocat ea quae non sunt, tanquam ea quae sunt. Em Cristo foi poder ordinário; em Isabel poder delegado, mas infinitamente maior que todos os poderes reais.

Os reis também arremedam, ou querem arremedar a Deus na soberania deste poder. Cobri-vos marquês, assentai-vos duque. Só com o rei vos chamar marquês, sois marquês; só com vos chamar duque, sois duque. Mas tudo isso que vem a ser? Um nome; no demais sois o mesmo que dantes éreis. Podem os reis dar nomes, sim, mas dar ser, ou tirar ser, ou mudar ser, não chega lá a sua jurisdição, por mais poderosos que sejam. Depois que Deus criou o mundo, e o povoou, e fez a Adão rei e senhor de todo ele, mandou que todos os animais viessem à presença do mesmo Adão, para que ele lhes pusesse os nomes: Adduxit ea ad Adam, ut videret quid vocaret ea (Gên. 2, 19). E por que não pôs Deus os nomes aos animais, e quis que lhos pusesse Adão? Judiciosamente S. Basílio de Selêucia: Partiamur hujus fictricis solertiae gratiam: me cognoscant arujicem naturae lege; te dominam intelligant apellatione nominis: Quis Deus que Adão pusesse os nomes aos animais, para partir com ele o império, e mostrar a diferença que havia de um a outro: Eu, Deus, e tu, rei do universo; eu Deus, porque dei o ser aos animais; tu rei, porque lhes pusestes os nomes. — De maneira que o mais a que pode chegar um rei, ainda que rei de todo o mundo, é pôr nomes e dar nomes; fazer que vos chamais dali por diante o que ele vos chamou: Omne quod vocavit Adam animae viventis, ipsum est nomen ejus.[30] Porém fazer, com esse nome, que o que não era seja, e que esse mesmo chamar seja dar ser, é jurisdição incomparavelmente mais soberana, por natureza, só de Deus, por delegação, só de Isabel. Enquanto rainha, podia dar nomes, mas nomes que não eram mais que nomes; enquanto santa, deu nomes que davam ser e mudavam ser, e por isso maior rainha que todas as rainhas.

Por fim dos poderes de Isabel, quero acabar com aquele poder que tudo acaba, e que pode mais que os que tudo podem, a morte. A morte pode mais que todas as rainhas e todos os reis, mas também este poder todo-poderoso foi sujeito à nossa rainha. A morte matou a Isabel, mas Isabel pôde mais, porque matou a morte. E como a matou? Não podendo a morte desfazer o corpo em que vivia aquela alma, o qual há trezentos anos se conserva incorrupto. Ameaçava Cristo pelo profeta Oséias a morte, e dizia-lhe: Ero mors tua, o mors (Os. 13, 14): Deixa-te estar morte, que eu te matarei, eu serei a tua morte. — Esta era a profecia, mas o sucesso parece que foi o contrário, porque a morte matou a Cristo. Pois se Cristo morreu, e a morte o matou, como diz o mesmo Cristo que havia de ser morte da morte? Assim foi, em dois sentidos. Foi morte da morte em nós, porque matou a morte da alma, que é o pecado; e foi morte da morte em si, porque matou a morte do corpo, não podendo a morte corromper nem desfazer o corpo morto de Cristo: Quoniam non dabis sanctum tuum videre corruptionem. [31] Quando a morte mata e fica viva depois de matar o homem, desfaz-lhe o corpo; porém quando a morte morre matando, quando a morte mata, e fica morta, não pode desfazer o corpo do mesmo a quem matou, e assim não pôde desfazer o de Cristo, mais poderoso que ela. Tam potentem adversariam nostrum, dum occideres, occidisti, — disse S. Jerônimo, com elegância de palavras que não cabe nas nossas. E isto que se viu no corpo de Cristo em três dias, é o mesmo que está vendo o mundo no corpo de Isabel há trezentos anos. Mas donde lhe veio a Isabel a soberania deste privilégio? Não da coroa, senão da santidade; não por rainha, mas por santa: Non dabis sanctum tuum videre corruptionem.

VII – Paralelo entre duas rainhas. Que aprendam os reis com a santa a negociar o reino do céu.

Esta imagem, senhores, de Isabel morta, mas com dotes de imortalidade, é a que eu hoje desejo levemos todos retratados na alma. E para que fique nela mais altamente impressa, ponhamos à vista deste retrato o retrato de outra Isabel, também de Portugal, também coroada, e também morta. Quando S. Francisco de Borja abriu a arca em que ia a depositar o corpo da nossa imperatriz Dona Isabel, mulher de Carlos Quinto, vendo a corrupção daquele cadáver e daquele rosto, que pouco antes era um milagre da natureza, ficou tão penetrado e tão atônito daquela vista, que ela bastou para o fazer santo. Se um só destes retratos obrou tais efeitos em um juízo racional e cristão, que farão ambos os retratos juntos, e um defronte do outro? Acolá Isabel, aqui Isabel; acolá uma coroa, aqui outra coroa; acolá um corpo morto e todo corrupção, aqui outro corpo morto, mas incorruptível e como imortal. Oh! que mudança! Oh! que diferença! Oh! que desengano! Assim se morre, senhores, e assim se pode morrer.

Com razão escreveu Roma sobre aquela imagem e retrato de Isabel: Et nunc reges intelligite; erudimini qui judicatis terram.[32] Até agora parece que tinham alguma desculpa os monarcas da terra em não entender a diferença que há do aparente ao verdadeiro, do real ou imperial, ao santo, de uma coroa a outra coroa, e de reinar a reinar. Porém agora: et nunc, à vista de um prodígio e testemunho do céu tão manifesto e tão constante, à vista do respeito que guardou a morte, ou do poder que não teve sobre os despojos mortais e já mortos de Isabel, e muito mais, se a esta vista ajuntamos o paralelo tão notável de uma e outra majestade, ambas do mesmo nome, ambas do mesmo sangue, e ambas da mesma dignidade soberana e suprema, que rei haverá que não acabe de entender o que tão mal se entende, que príncipe que não queira aprender o que tão pouco se estuda? Intelligite, et erudimini. Não digo — pois nem Deus o manda — que as cabeças, ou testas coroadas façam o que fez Carlos, convencido de uma que só parte deste exemplo, nem que renunciem e se despojem, como ele se despojou, das coroas; o que só digo, e diz Deus a todos os reis, é que aprendam a não as perder, e se perder, mas a negociar com elas, e que, com o exemplo canonizado de Isabel Rainha e Santa, entendam que também podem ser santos sem deixar de ser reis, e que então serão maiores reis, quando forem santos. Não consiste a negociação do reinar em acrescentar o círculo às coroas da terra, que maiores, ou menores, todas acabam, mas em granjear, e assegurar, e amplificar com elas o que há de durar para sempre. Assim negociou com as suas duas coroas a nossa negociante do reino do céu, agora maior, mais poderosa, e mais verdadeira rainha. Assim está reinando, e reinará para sempre; assim goza, e gozará sem fim os lucros incomparáveis da sua prudente e venturosa negociação: na terra, enquanto durar o mundo; sobre os altares, e no céu, por toda a eternidade, em sublime trono de glória.

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[1] O reino dos céus é semelhante a um homem negociante que busca boas pérolas. E tendo achado uma de grande preço, vai vender tudo o que tem, e a compra (Mt. 13, 45 s).
[2] Em toda a história da Lacedemônia encontra-se apenas uma mulher filha de rei, esposa de rei e mãe de rei (Pin. Lib. De Summa Fel.).
[3] Comprou um campo, vendeu lenços, e viu que a sua negociação é boa (Prov. 31, 16, 24, 18).
[4] Repartiu a presa a seus domésticos (Prov. 31, 15).
[5] A sua candeia não se apagará de noite (Prov. 31, 18).
[6] Muitas filhas ajuntaram riquezas; tu excedeste a todas (Prov. 31, 29).
[7] Ela se vestiu de finíssimo linho e de púrpura (Prov. 31, 22).
[8] Seu preço excede a tudo quanto vem de remontadas distâncias, e dos últimos confins da terra (Prov. 31, 10).
[9] Não necessitará de despojos (Prov. 31, 11).
[10] O reino dos céus é semelhante a um homem rei que fez as bodas a seu filho (Mt. 22, 2).
[11] Entrou o rei para ver os que estavam à mesa (Mt. 22, 11).
[12] Que rei há, que estando para ir para a campanha contra outro rei (Lc. 14, 31).
[13] Foi para um país muito distante, tomar posse de um reino (Lc. 19, 12).
[14] Deixai vir a mim os pequeninos, porque dos tais é o reino dos céus (Mc. 10, 14).
[15] E ele teve setecentas mulheres, que eram como rainhas (3 Rs. 11, 3).
[16] Deu tudo o que tinha, e a comprou.
[17] O qual, tendo a natureza de Deus, se aniquilou a si mesmo, tomando a natureza de servo (Flp. 2, 6 s).
[18] Apareceu um grande sinal no céu: uma mulher vestida do sol, que tinha a lua debaixo de seus pés, e uma coroa de doze estrelas sobre a sua cabeça (Apc. 12, 1).
[19] Toda a glória — da que é filha do rei — é de dentro, em franjas de ouro, toda vestida de vários adornos (Sl. 44,14 s).
[20] Se livras a este, não és amigo do César, porque todo o que se faz rei contradiz ao César (Jo. 19, 12).
[21] Não temais aos que matam o corpo (Mt. 10.28).
[22] Não queirais confiar nos príncipes, cm quem não há salvação (Sl. 145, 3).
[23] Um campo viçoso no profundo abismo (Sab. 19, 7).
[24] Farás sobre ela uma coroa de ouro em roda (Êx. 25, 11).
[25] Vallis Salivarum: a respeito desta observação. anotamos aqui outra observação de Vieira sobre o mesmo Mar Morto, no Sermão do Santíssimo Sacramento, neste volume, onde diz: “o que nós hoje chamamos Mar Morto, e naquele tempo se chamava Vallis Salinarum… porque só se tirava dele sal.” No Dictionnaire de la Bible, de Vigouroux. entre os vários nomes por que é designado o Mar Morto, não consta esta denominação de Vallis Salivaram.
[26] Ele se promete que o Jordão entrará pela sua boca (Jó 40, 18).
[27] Comoveu-se a terra na presença do Senhor, perante o Deus de Jacó (Sl. 113, 7).
[28] Eis aí te constituí Deus de Faraó (Ex. 7, 1).
[29] Se és Filho de Deus (Mt. 4, 3).
[30] Todo o nome que Adão pôs de alma vivente, esse é o seu nome (Gên. 2, 19).
[31] Não permitirás que o teu santo veja a corrupção (Sl. 15, 10).
[32] E agora, ó reis, entendei: instruí-vos os que julgais a terra (Sl. 2, 10).

Fonte: https://www.literaturabrasileira.ufsc.br/documentos/?action=download&id=49805