Sermão de São Pedro (1644)

SERMÃO DE S. PEDRO

À Venerável Congregação dos Sacerdotes. Lisboa, em S. Julião. Ano de 1644.


Vos autem quem me esse dicitis[1]?

I – Se pergunta a Sabedoria divina que diziam dela os homens, por que não perguntará o mesmo a ignorância humana? A boa opinião, de que tanto depende o bom governo, não se forma do que é, senão do que se cuida. A resposta dos discípulos à questão do Senhor Os idólatras da antigüidade. A confissão de Pedro e a promessa de Cristo. Qual há de ser o ofício ou exercício das chaves de Pedro?

Mui seguro está de seu valor quem tira a sua opinião ao campo. E se é temeridade tomar-se com muitos, com todo o mundo se tomou quem desafiou sua fama. Na ocasião de que fala S. Mateus — cujo é o Evangelho que hoje nos propõe a Igreja — diz que perguntou Cristo, Senhor nosso, que diziam dele os homens: Quem dicunt homines esse Filium hominis (Mt. 16, 13)?

Perguntou o Senhor, para que os senhores que mandam o mundo se não desprezem de perguntar. Se pergunta a Sabedoria divina, por que não perguntará a ignorância humana? Mas esse é o maior argumento de ser ignorância. Quem não pergunta não quer saber, quem não quer saber quer errar. Há, porém, ignorantes tão altivos que se desprezam de perguntar, ou porque presumem que tudo sabem, ou porque se não presuma que lhes falta alguma coisa por saber. Deus guie a nau onde estes forem os pilotos.

Não perguntou o Senhor o que era, senão o que se dizia: Quem dicunt? Antes de se fazerem as coisas há-se de temer o que dirão; depois de feitas há-se de examinar o que dizem. Uma coisa é o acerto, outra o aplauso. A boa opinião, de que tanto depende o bom governo, não se forma do que é, senão do que se cuida; e tanto se devem observar as obras próprias como respeitar os pensamentos e línguas alheias. A providência com que Deus permite a murmuração é porque talvez de tão má raiz se colhe o fruto da emenda. E se eu de murmurado me posso fazer aplaudido, por que me não informarei do que se diz?

Respondendo os discípulos à questão, referiram os pareceres ou ditos do povo a respeito da pessoa de Cristo. Eram do povo, claro está que haviam de ser errados. Alii Joannem Baptistam, alii autem Eliam, alii vero Jeremiam, aut unum ex prophetis (Mt. 16, 14): Uns diziam que era o Batista, outros que era Elias, outros que era Jeremias, ou algum dos profetas antigos. — Antigos não disse S. Mateus, mas advertiu-o São Lucas: Unus propheta de prioribus surrexit[2]. — Grande é o ódio que os homens têm à idade em que nasceram. Não diziam que era um profeta como os antigos, senão um deles: Unus de prioribus. — Pois, assim como antigamente houve tantos profetas, não poderia também agora haver um? Cuidam que não. Por menos milagre tinham ressuscitar um dos profetas passados que nascer em seu tempo outro como eles. Tudo o moderno desprezam, só o antigo veneram e acreditam. E porque a Cristo não lhe podiam negar a sabedoria, fingiam-lhe a antigüidade. Ora, desenganem-se os idólatras do tempo passado, que também no presente pode haver homens tão grandes como os que já foram, e ainda maiores: Cristo passava pouco dos trinta anos, e tudo o que souberam os antigos e antiquíssimos era aprendido dele.

E vós, discípulos meus — continua o Senhor — vós que não sois povo, e estudais na minha escola, quem dizeis que sou eu? Vos autem quem me esse dicitis? — Estas são as palavras que tomei por tema, e ficam para o discurso. Respondeu a elas por todos S. Pedro: Tu es Christus, Filius Dei vivi (Mt. 16, 16): Vós, Senhor, sois Cristo, Filho de Deus vivo. — Aludiu primeiramente aos deuses dos gentios, que eram estátuas mortas. Queira Deus que entre os cristãos não haja também estes ídolos. Não sendo mais que umas estátuas, querem que os adoremos como deuses. Mas, além desta alusão, ainda subiu mais alto o pensamento de S. Pedro. Cristo é Filho de Deus, e nós também somos filhos de Deus: Dedit eis potestatem filhos Dei fieri[3]. — Em que se distingue logo Cristo de nós? Em que Cristo é Filho de Deus vivo, nós somos filhos de Deus morto. Cristo Filho de Deus vivo, porque Deus, que é imortal, o gerou ab eterno; nós filhos de Deus morto, porque o mesmo Cristo morto nos braços da cruz foi o que nos gerou de novo, e nos deu este segundo e mais sublime nascimento.

Não tinha S. Pedro bem acabado a confissão da sua fé, quando o Senhor lha premiou com a certa esperança da maior dignidade. Ele disse a Cristo o que era, e Cristo disse-lhe o que havia de ser: Et ego dico tibi, quia tu es Petrus, et super hanc petram aedificabo Ecclesiam meam (Mt. 16, 18): E eu te digo, Pedro, que tu és Pedro, e sobre esta pedra hei de fundar a minha Igreja. — De tal maneira obra Deus com a sua e suma sabedoria, que parece se emenda com a experiência. Arruinou-se-lhe o primeiro edifício, porque o fundou em um homem de barro; para que se lhe não arruíne o segundo, funda-o em um homem de pedra. Retrata-se do que tem feito Deus, que não pode errar, e os homens estão tão namorados de seus erros, que antes os vereis obstinados que arrependidos. Dirão que é timbre este de entendimentos angélicos, porque nenhum anjo errou que se retratasse. Eu digo que não é senão contumácia de entendimentos diabólicos, porque nenhum anjo errou que não fosse demônio.

Todos os demônios do inferno, diz Cristo que não prevalecerão contra sua Igreja: Portae inferi non praevalebunt adversus eam[4]. — E porque não basta estarem as portas inimigas defendidas, se as próprias não estiverem seguras, à fidelidade de Pedro cometeu o Senhor as chaves do seu reino: Tibi dabo claves regni caelorum[5]. — Primeiro lhe chamou homem de pedra, e depois lhe entregou as chaves, porque as chaves do reino só em homens de pedra estão seguras. Os homens de barro quebram, os de pau corrompem-se, os de vidro estalam, os de cera derretem-se, tão duro e tão constante há de ser como uma pedra quem houver de ter nas mãos as chaves do reino: Tu es Petrus, tibi dabo claves.

E qual há de ser o ofício ou o exercício destas chaves? Fechar e abrir? Não diz isso o Senhor. As chaves que abrem e fecham podem abrir para dentro e fechar para fora. Por isso vemos os tesouros tão estreitos e tão fechados para os outros, e tão largos e tão abertos para os que têm as chaves. Que havia logo de fazer com elas São Pedro? Atar e desatar, diz Cristo: Quodcumque ligaveris, erit ligatum, quodcumque solveris, erit solutum[6]. — A peste do governo é a irresolução. Está parado o que havia de correr, está suspenso o que havia de voar, porque não atamos nem desatamos. Não debalde escolhe Cristo para o governo da sua casa um homem tão resoluto como Pedro. Se Cristo lhe não mandara embainhar a espada, bem necessárias lhe eram as ataduras para as feridas. Assim há de ser quem há de obrar, e não homens que nem atam nem desatam. Aqui pára a história do Evangelho: para passarmos ao discurso, peçamos a graça. Ave Maria.

II – Assunto do sermão: Ou as grandezas de São Pedro se não podem declarar por metáfora, ou, se há ou pode haver alguma metáfora de S. Pedro, é só Deus. Por que em sua pergunta distinguiu Cristo os apóstolos dos outros homens? A qualidade de deuses, que S. Bernardo estende a todos os apóstolos, parece não ser prerrogativa de S. Pedro, como afirma o autor.

Vos autem quem me esse dicitis?

Suposto andarem tão validas no púlpito e tão bem recebidas do auditório as metáforas, mais por satisfazer ao uso e gosto alheio, que por seguir o gênio e ditame próprio, determinei, na parte que me toca desta solenidade, servir ao Príncipe dos Apóstolos também com uma metáfora. Busquei-a primeiramente entre as pedras, por ser Pedro pedra, e ocorreu-me o diamante; busquei-a o que ligares será ligado, tudo o que desatares será desatado (ibidem). entre as árvores, e ofereceu-se-me o cedro; busquei-a entre as aves, e levou-me os olhos a águia: busquei-a entre os animais terrestres, e pôs-se-me diante o leão; busquei-a entre os planetas, e todos me apontaram para o sol; busquei-a entre os homens, e convidou-me Abraão; busquei-a entre os anjos, e parei em Miguel. No diamante agradou-me o forte, no cedro o incorruptível, na água o sublime, no leão o generoso, no sol o excesso de luz, em Abraão o patrimônio da fé, em Miguel o zelo da honra de Deus. E, posto que em cada um desses indivíduos, que são os mais nobres do céu e da terra, e em cada uma de suas prerrogativas achei alguma parte de S. Pedro, todo S. Pedro em nenhuma delas o pude descobrir. Desenganado, pois, de não achar em todos os tesouros da natureza alguma tão perfeita, de cujas propriedades pudesse formar as partes do meu panegírico — que esta é a obrigação da metáfora — despedindo-me dela, e deste pensamento, recorri ao Evangelho para mudar de assunto, e que me sucedeu? Como se o mesmo Evangelho me repreendera . de buscar fora dele o que só nele se podia achar, as mesmas palavras do tema me descobriram e ensinaram a mais própria, a mais alta, a mais elegante e a mais nova metáfora que eu nem podia imaginar de S. Pedro. E qual é? Quase tenho medo de o dizer. Não é coisa alguma criada, senão o mesmo Autor e Criador de todas. Ou as grandezas de S. Pedro se não podem declarar por metáfora, como eu cuidava, ou, se há ou pode haver alguma metáfora de S. Pedro, é só Deus. Isto é o que hei de pregar, e esta a nova e altíssima metáfora que hei de prosseguir. Vamos ao Evangelho.

Vos autem quem me esse dicitis? E vós, quem dizeis que sou eu? — Aquele vos autem refere esta segunda pergunta à primeira. Na primeira tinha dito o Senhor: quem dizem os homens; nesta segunda diz: e vós quem dizeis? — De sorte que a pergunta e a questão era a mesma, e só as pessoas diferentes. Mas também esta segunda diferença parece dificultosa de entender. Os apóstolos não eram homens? Sim. Pois, se Cristo na primeira pergunta tinha dito: quem dizem os homens? — parece que já ficavam incluídos nela os mesmos apóstolos. Por que os distingue logo o Senhor dos outros homens com uma exclusiva tão manifesta como a daquele vos autem? O reparo não é menos que de S. Jerônimo, a quem a mesma cadeira de S. Pedro tem canonizado, não só pelo maior Doutor, senão o Máximo na exposição das Escrituras Sagradas. E que responde S. Jerônimo? Diz que distinguiu Cristo aos apóstolos dos outros homens, porque os apóstolos não são homens. E se não são homens, que são? São anjos? São arcanjos? São querubins? São serafins? Muito mais: são deuses. Palavras expressas do Doutor Máximo: Prudens lector, attende quod ex consequentibus, textuque sermonis Domini: apostoli nequaquam homines, sed dii appellantur: Advirta o prudente leitor que segundo este texto e a conseqüência destas palavras de Cristo, os apóstolos não são homens, nem se chamam homens, senão deuses: Nequaquam homines, sedi dii.

Grande dizer, e tão grande que não só diz tudo o que eu queria, e o meu assunto há mister, senão muito mais. Diz tudo, porque afirma expressamente a metáfora e semelhança de Deus quanto ao nome, quanto à dignidade e quanto à diferença e soberania desta divindade superior absolutamente a todo o ser humano: Nequaquam homines. Mas diz muito mais do que o meu assunto prometeu e há mister, porque ele supõe a excelência desta prerrogativa como própria de S. Pedro, e singularmente sua, e de nenhum outro, e S. Jerônimo parece que a estende a todos os apóstolos: Apostoli nequaquam homines, sed dii appellantur. — Donde se segue que esta extensão, posto que em pessoas de tão alta dignidade, desfaz muito a singularidade de S. Pedro, da minha metáfora e do meu intento, porque fica sendo uma prerrogativa, senão de todos, ao menos de muitos.

III – A singularidade da metáfora do autor, que compara Pedro a Deus, provada pela singularidade da resposta do Príncipe dos apóstolos. Um extremado exemplo com que a extensão das palavras dirigidas por Cristo aos apóstolos se limitam só a ele.

Vamos devagar, que o ponto o pede. Primeiramente não nego, nem se pode negar que o texto parece que fala com todos os discípulos e apóstolos, a quem o divino Mestre fazia a pergunta. Mas eu pergunto também quem foi o que única e singularmente respondeu a ela? Claro está que foi São Pedro: respondit Petrus. — E por que respondeu só ele, e nenhum outro? Excelentemente Santo Ambrósio: Cum interrogasset Dominus quid homines de Filio homines aestimarent, Petrus tacebat: Ideo — inquit — non respondeo, quia non interrogo; interrogator et ipse quid sentiam tum demum respondebo, quod meum est: Enquanto Cristo perguntou o que diziam os homens, Pedro esteve calado sem dizer palavra: tacebat. — E por que esteve calado Pedro, e não respondeu palavra? Porque aquela pergunta, diz ele, não fala comigo: Ideo non respondeo, quia non interrogor; porém, quando eu for perguntado, então responderei e direi o que sinto, porque a mim me pertence: Cum interrogabor et ipse quid sentiam respondebo, quod meum est. — Note-se muito esta última palavra: quod meum est — na qual exclui o mesmo S. Pedro a todos os outros apóstolos, e confiadamente diz que a resposta daquela altíssima pergunta só era sua, e só a ele pertencia. É verdade que a palavra da pergunta — vos autem — parece que compreendia a todos, mas a resposta excluiu os demais, como encaminhada a ele por quem sabia o que só Pedro sabia, e os demais ignoravam.

Em um famoso milagre do mesmo S. Pedro temos um extremado exemplo com que a extensão do vos autem se limita só à ele. Entrando S. Pedro com S. João por uma das portas do Templo de Jerusalém a orar, estava ali um pobre tolhido dos pés desde seu nascimento, o qual lhes pediu uma esmola: disse-lhe S. Pedro: Respice in nos (At. 3, 4): Olha para nós — e, respondendo ao que pedia o pobre: Eu — diz — não tenho ouro nem prata, mas o que tenho isso te dou — e, tomando-o pela mão, o pôs em pé inteiramente são: Et protinus consolidatae sunt bases ejus[7]. — Pois, se S. Pedro só havia de fazer, como fez, o milagre sem ter parte nele o companheiro, por que não disse também: olha para mim — senão: olha para nós: respice in nos? — A razão fique para outro dia; o exemplo nos serve agora, e é, quanto se pode desejar, adequado. De sorte que o respice in nos referiu-se a Pedro e mais a João, mas o milagre não o obraram Pedro e João senão só Pedro. Pois, assim como então o respice in nos se referiu a ambos, e o obrador do milagre foi só um, assim no caso presente o vos autem referia-se a todos: respiciebat omnes — e a milagrosa confissão foi só de Pedro. Só de Pedro, sem que o número ou multidão, a que foi dirigida a pergunta impedisse a glória única e singular de quem deu a resposta. E senão, combinemos o vos com o tu e o tibi. O vos autem foi de todos, e o tu só de Pedro: Tu es Petrus; o vos autem de todos, e o dico só de Pedro: dito tibi; o vos autem de todos, e o revelavit só de Pedro: revelavit tibi; o vos autem de todos, e o dabo só de Pedro: tibi dabo.

IV – A singularidade da divindade de Pedro sobre a divindade dos demais apóstolos. O último e formal constitutivo da essência divina e o constitutivo da deidade de Pedro. S. Pedro, elevado à divindade pela revelação do Padre.

Assentada esta singularidade de S. Pedro, dentro na mesma diferença que distinguia a todos os apóstolos dos outros homens, segue-se que vejamos também singular nele a divindade, com que a mesma diferença lhe dava por conseqüência o nome de deuses: Nequaquam homines, sed dii appellantur. — Em confirmação da sua conseqüência excita questão S. Jerônimo por que os outros homens, por mais que quiseram encarecer as grandezas de Cristo, comparando-o às maiores personagens do mundo, sempre contudo o fizeram homem; pelo contrário, um só dos apóstolos, que respondeu à pergunta sem comparações nem rodeios, disse direitamente que era Filho de Deus? E a razão de tão notável diferença — sendo o soberano sujeito o mesmo — diz o mesmo S. Jerônimo que foi porque cada um fala como entende, e entende como quem é. Os homens, porque falavam e entendiam como homens, chamaram a Cristo homem; S. Pedro, porque falava e entendia como Deus, chamou-lhe Filho de Deus: Qui de Filio hominis loquuntur homines sunt: qui vero divinitatem ejus intelligunt, non homines, sed dii. — Note-se muito a palavra intelligunt. Eutímio diz o mesmo: Solus Petrus vere Christum, et natura, et proprie Filium Dei intellexi[8]. — São Pascácio o mesmo: Beatus Petrus plusquam homo erat, quia ultra hominem sapiebat: cum que Dei Filium in homine videret, ultra humanos oculos vidit et intellexit[9]. — E outra vez aqui se deve notar esta última palavra.

Em suma, que toda a divindade de São Pedro se atribui ao entendimento com que penetrou e conheceu a do Verbo, oculta de baixo da humanidade de Cristo. E por que mais ao entendimento que a outra qualidade ou excelência de quantas resplandeciam em um sujeito tão sublime? Porque assim havia de ser para se poder chamar Deus com toda a propriedade. É grave questão entre os teólogos qual seja em Deus o último e formal constitutivo da essência divina: e a sentença hoje mais recebida nas escolas, e mais comum, é que a essência divina se constitui e consiste no intelectivo radical e na mesma intelecção, por ser este, como eles chamam, o primeiro predicado de Deus. E como o intelectivo radical e intelecção divina é a que última e formalmente constitui a divindade e essência de Deus, para que nem esta correspondência faltasse à divindade de Pedro, e a metáfora, com que é chamado Deus, se ornasse também com os esmaltes de tão semelhante origem, foi conveniente à glória de tão soberana participação e semelhança que a deidade do mesmo Pedro se fundasse nas raízes do seu intelectivo, e que a intelecção, com que entendeu e conheceu a divindade de Cristo, fosse pelo mesmo modo o constitutivo da sua. Já não havemos mister as autoridades dos santos padres, porque temos a do Eterno Padre, e a do mesmo Cristo: Quia caro et sanguis non revelavit tibi, sed Pater meus, qui in caelis est[10] — A intelecção de Pedro não teve nada de humano, o qual se compõe de carne e sangue; mas, elevado o seu intelectivo e o seu entendimento, pela revelação do Padre, a uma altíssima participação e semelhança do divino, ali se constitui a última formalidade da sua essência, e se conseguiu, do modo que era possível, o nome e dignidade de Deus: Qui divinitatem ejus intelligunt, non homines, sed dii.

V – Pedro confirmado na divindade pela eleição do Filho. Se S. Pedro fora somente homem, não seria digno sucessor de Cristo. Que razão teve o povo de Israel para receber com lágrimas e lutos a nova de o haver de governar um anjo? Por que razão os hebreus pedem a Arão um Deus em substituição de Moisés? Se o demônio era o mais jurado inimigo de Cristo, por que confessa a Cristo pelas mesmas palavras com que Pedro o confessou?

Elevado S. Pedro à divindade pela revelação do Padre, vejamo-lo segunda vez elevado ou confirmado nela pela eleição do Filho: Et ego dico tibi quia tu es Petrus, et super hanc petram aedificabo Ecclesiam meam. — O imperador Nerva, como refere Plínio, elegeu por seu sucessor a Trajano, e Trajano em agradecimento colocou a Nerva entre os deuses, e pagou-lhe a sucessão com a divindade. Muito melhor Pedro que Trajano, e muito melhor Cristo que Nerva. Pedro disse a Cristo: Tu es Christus, Filius Dei vivi — e Cristo disse a Pedro: Tu es Petrus, et super hanc petram aedificabo Ecciesiam meam. Pedro na sua confissão deu a divindade a Cristo, e Cristo na sua sucessão não só deu a Pedro a sucessão, senão também a divindade. Assim foi, e assim havia de ser, porque nem Pedro seria digno sucessor de Cristo, nem seria digna de Cristo a Providência de sua Igreja, se Pedro fora somente homem, e não fora juntamente Deus.

Notificou Moisés ao povo de Israel como tinha Deus resoluto que dali por diante o governasse um anjo; e diz o texto sagrado que, ouvida esta nova, todo o povo se pôs a chorar em pranto desfeito, e todos se cobriram de luto: Luxit populus, et nullus indutus est cultu suo[11]. — Quem imaginara de tal notícia tão encontrados efeitos? Antes parece que todos se haviam de vestir de gala, e dar muitas graças a Deus por tal governador. Que melhor governador se podia desejar que um anjo? Um anjo que não come, nem veste, nem granjeia; um anjo que não tem parentes, nem criados, nem apetites; um anjo tão sábio e tão verdadeiro, que nem pode enganar nem ser enganado; benévolo, afável, e sempre de bom rosto; enfim, um anjo? Pois, se todas as outras nações se contentam ou sofrem de ser governadas por homens, e os trazem sobre a cabeça: Imposuisti homines super capita nostra[12] — que razão teve o povo de Israel para receber com lágrimas e lutos a nova de o haver de governar um anjo? Muito grande razão, porque até ali quem governava aquele povo era Deus por si mesmo, e suceder a Deus um anjo não era favor, senão rigor, não era benefício, senão castigo: eram sinais da majestade divina ofendida e irada, e demonstrações de que antes queria desamparar e destruir aquele povo que conservá-lo. Esta foi ajusta razão daquelas lágrimas, e já temos concluído que, ainda que São Pedro fora um anjo, não seria digno sucessor de Cristo, nem ele deixaria dignamente provida a sua Igreja, e ela por aquela eleição e sucessão não se devia vestir de festa, como hoje a vemos, senão chorar e cobrir-se de lutos.

Vamos agora buscar a segunda conseqüência, e no mesmo povo a acharemos. Vendo o povo de Israel que Moisés, depois de subir ao monte, havia quarenta dias que tardava e não aparecia, cansados de esperar os que agora cansam, vão-se ter com Arão, pedindo-lhe que lhes faça um Deus: Fac nobis deos, qui nos praecedant: Moysi enim huic viro, qui nos eduxit de terra Aegypti, ignoramus quid acciderit (Êx. 32, 1): Porque não sabemos — dizem — o que é feito deste homem que nos tirou do Egito. — Deste homem, disseram, palavra em que manifestamente implicavam e desfaziam a sua mesma petição. Pois, se Moisés é homem: huic viro — por que não pedem outro homem, mas dizem que lhes faça um Deus em seu lugar: Fac nobis deos? — A petição foi ímpia, o intento, não só bárbaro, mas sacrílego e blasfemo, porém a conseqüência não se pode negar que foi muito bem entendida, muito bem deduzida e muito bem fundada. Moisés, ainda que era homem, era juntamente Deus: Constitui te Deum Pharaonis[13] — e para suceder dignamente a um homem-Deus, é necessária conseqüência que o sucessor seja também Deus. Parece-me que, sem mais explicação, estou declarado.

Cristo, Senhor nosso, era verdadeiro homem e verdadeiro Deus, como acabava de confessar S. Pedro; e se Pedro fosse somente homem, e não fosse também Deus, nem ele seria digno sucessor de Cristo, nem Cristo corresponderia àquela altíssima confissão com prêmio e recompensa igual. Esta é a força daquele et ego dico tibi: Tu dizes que eu sou Deus, pois eu te digo que tu também o serás, sucedendo em meu lugar, e tendo as minhas vezes. — S. Ambrósio: Quia tu mihi dixisti tu es Christus Filius Dei vivi, ego dico tibi, non sermone casso, et nullum effectum habente — quia meum dixisse fecisse est — quia tu es Petrus, et super hanc petram aedificabo Ecclesiam meam, et tibi dabo claves regni caelorum.[14] — Assim pagou Cristo a Pedro uma divindade com outra, dando-lhe o poder de Deus no céu, porque ele o tinha confessado por Filho de Deus na terra.

Daqui se entenderá a solução de um grande reparo de S. Agostinho, duas vezes repetido por ele. E é que a mesma confissão que fez S. Pedro fez também o demônio. Ecce modo audistis in Evangelio quod ait Petrus: — Tu es Christus Filius Dei vivi; legite, et invenietis dixisse daemones: Scimus quia sis Filius Dei[15]. — O demônio era o mais jurado inimigo de Cristo que havia, houve, nem haverá. — Pois, por que confessa a Cristo, e pelas mesmas palavras com que S. Pedro o confessou por Filho de Deus? Porque viu quanto lhe montou a Pedro esta confissão, diz agudamente S. Crisóstomo. O intento do demônio foi sempre ser como Deus: Similis ero Altissimo. — Pedro conseguiu ser como Deus pela confissão da divindade de Cristo? Pois eu também o quero confessar, para conseguir o que ele conseguiu. Enganou-se como cego da ambição, mas inferia bem, se não fosse quem era, e com o seu testemunho, posto que do inferno, confirmou o mesmo que tenho dito. De sorte que aquele soberbíssimo espírito, tão ambicioso da divindade, de tal maneira reconheceu a de Pedro, que, porque antigamente não pôde ser como Deus no céu, agora se contenta e procura ser como Pedro na terra.

VI – Quão divina e endeusadamente usa S. Pedro de sua divindade. O tribunal de Pedro e o tribunal de Deus. A última execução da justiça de Cristo e o primeiro ato judicial que exercitou S. Pedro. A virtude da sombra de Deus e as virtudes da sombra de Pedro.

Estabelecida tão amplamente a divindade de S. Pedro, vejamos com igual admiração quão divina e endeusadamente a pratica, e usa dela. Quantos grandes há neste mundo que não sabem ser o que são? Depois de lhes dar o que lhes deu, parece que se arrependeu a Fortuna do que lhes tinha dado. O rico é avarento, e não sabe usar da riqueza; o sábio é imprudente, e não sabe usar da sabedoria; o valente é temerário, e não sabe usar do valor; e até os que têm as coroas na cabeça e os cetros na mão não têm cabeça nem mãos para saber reinar. Não assim Pedro, em tudo igual a si mesmo.

Pondera S. Pedro Damião alta e profundamente quanto pode admirar e apenas compreender o juízo humano aquela imensa e inaudita comissão de Cristo a S. Pedro: Quodcumque ligaveris super terram erit ligatum et in caelis, et quodcumque solveris super terram erit solutum et in caelis[16] — E diz assim elegantemente: Adest Petrus, et ad ejus arbitrium orbis universus solvitur et ligatur. Et praecedit Petri sententia sententiam Redemptoris, quia non quod Christus hoc ligat Petrus, sed quod Petrus hoc ligat Christus. Quid est quod angelorum et hominum agminibus exclusis, solus Petrus in consortium divinae majestatis, et cum Domino residet praesidente? Consilium speciale Petri et Dei, ubi mortalem hominem Deo copulat et counit. — Até aqui o eloqüentíssimo cardeal, depois de renunciar à púrpura. Eu o explico e comento. Aparece Pedro, e ao arbítrio do seu império todo o mundo é ou não é o que ele quer que seja ou não seja: se liberta, todo livre; se ata, todo atado e preso. Deus está no céu e na terra quando manda o céu e a terra; Pedro estando na terra, manda a terra e mais o céu. Se da terra chovesse para cima, como descreve Lactâncio dos antípodas, não seria grande maravilha? Pois, isto é o que passa no governo de Pedro: não descem os decretos do céu para a terra, mas sobem da terra para o céu; Pedro é o que manda, e Deus o que se conforma. Conforma-se com o entendimento, conforma-se com a vontade, conforma-se com o poder. O que entende, o que quer, o que ordena e manda Pedro, isso entende Deus, isso quer Deus, isso ordena e manda Deus. E por que razão, quando Deus despacha no seu tribunal supremo, todos os espíritos angélicos assistem em pé, e só Pedro preside assentado? Porque o tribunal de Deus e o tribunal de Pedro não são dois, senão um só, e o mesmo.

O primeiro ato judicial que exercitou S. Pedro foi no caso de Ananias. Eram naquele tempo da primitiva Igreja as fazendas e bens temporais dos cristãos comuns a todos, e contra esta lei, ou voto, vendeu Ananias uma herdade, e ocultou parte do preço; manda-o chamar à sua presença S. Pedro, e que é o que fez e o que disse? O que só podia dizer e fazer Deus. O que disse foi: Non es mentitus hominibus, sed Deo (At. 5, 4): Sabe, Ananias, que no que encobriste não mentiste aos homens, senão a Deus. — Vede se se tratava como Deus quem assim falava. O que fez foi ainda mais divino, mais admirável, e de maior terror. Ouvindo aquelas palavras, caiu morto Ananias aos pés de Pedro: Audiens autem haec Ananias, expiravit (ibid. 5). — Descrevendo Isaías a justiça de Cristo, diz que só com o espírito de sua boca matará o ímpio: Et spiritu labiorum suorum interficiet impium (Is. 11, 4). — E nisto mostrou o profeta que o mesmo que havia de ser o Redentor era o Deus que tinha sido o Criador. O modo com que Deus, quando criou o primeiro homem, lhe deu vida, foi inspirar-lhe no rosto com o espírito de sua boca: Inspiravit in faciem ejus spiraculum vitae, et factus est homo in animam viventem[17] . — Pois, assim como só com o espírito de sua boca deu a primeira vida, assim com o mesmo espírito, sem outro instrumento, diz Isaías que Cristo dará a morte ao ímpio. Isto é, nem mais nem menos, o que fez S. Pedro. Nem mandou matar a Ananias, nem lhe disse que morresse, e só com lhe tocar nos ouvidos o espírito de sua boca caiu morto. Mas tal execução como esta, posto que de poder tão divino, nunca a fez Cristo: como diz logo o profeta. que com o espírito de sua boca havia de matar o ímpio? É profecia que ainda está por cumprir, e diz S. Paulo que se cumprirá quando Cristo no fim do mundo, com o espírito só de sua boca, matará o anticristo: Tunc revelabitur file iniquus, quem Dominus Jesus interficiet spiritu oris sui, et destruet illustratione adventus sui[18]. — Esta será a última execução de justiça de Cristo, e tal foi a primeira de Pedro.

Mas, assim como Deus é muito mais largo nas mercês sem comparação que nos rigores, assim mostrou também S. Pedro esta divina condição no poder da sua divindade. Por uma vida que tirou deu infinitas vidas, e, para maior maravilha, com muito menor instrumento. Concorriam os enfermos de toda a parte, punham-se em compridíssimas fileiras nas ruas por onde Pedro havia de passar, e todos a quem tocava a sua sombra se levantavam subitamente sãos. Não é muito menor instrumento a sombra que o espírito da boca? Pois esta só bastava para dar vida, e tantas vidas. Assim parece que se competiram estes dois instrumentos em Pedro, como já se tinham competido em Deus, ficando a sombra com infinita glória vencedora. Que fez Deus com o espírito de sua boca? Deu o ser e a vida ao primeiro Adão: Inspiravit in faciem ejus spiraculum culum vitae[19]. — E que fez o mesmo Deus com a virtude da sua sombra? Deu o ser e a vida ao segundo Adão, que é Cristo: Virtus Altissimi obumbrabit tibi. Ideoque et quod nascetur ex te sanctum, vocabitur Filius Dei[20]. — Ó Deus, ó Pedro! Em tudo quis Deus que a divindade de Pedro fosse semelhante à sua.

VII – A semelhança pessoal de Pedro com as três pessoas da Santíssima Trindade. A semelhança de Deus Padre. O modo de conceição e geração com que o Eterno Padre quis que fosse seu Filho tão filho de Pedro como era seu. A semelhança de Deus Filho. A semelhança de Deus Espírito Santo. Quão iguais e parecidas são a processão da terceira Pessoa da Santíssima Trindade e a promoção de S. Pedro.

Só parece que lhe falta ainda uma semelhança divina, que é a pessoal. Em Deus, e na divina essência, há três pessoas. E foi S. Pedro também semelhante a alguma delas? Também, mas não a alguma somente, senão a todas três: semelhante a Deus Padre, semelhante a Deus Filho, semelhante a Deus Espírito Santo. Quanto à semelhança de Deus Padre, não pode ser maior. Quando Cristo, Senhor nosso, se fez batizar no Jordão, abriram-se os céus, e de lá se ouviu a voz do Eterno Padre, que disse: Hic est Filius meus dilectus, in quo mihi complacui (Mt. 3, 17): Este é o meu Filho muito amado, no qual muito me agradei. — No monte da Transfiguração apareceu sobre ele uma nuvem resplandecente, de dentro da qual se ouviu segunda vez a voz do mesmo Padre, tornando a declarar por filho seu a Cristo não com outras, senão com as mesmas palavras. Isto fez e disse o Eterno Padre; e não é isto o mesmo que fez S. Pedro quando disse: Tu es Christus Filius Dei vivi? — O mesmo. De sorte que este pregão e esta declaração da divindade de seu Filho quis o Eterno Padre que saísse da sua boca e da boca de Pedro. Por isso o mesmo Padre foi o que lhe revelou o mistério rio a todos os outros apóstolos escondido. E em que consistiu aqui o fino e o sublime deste tão singular favor? Consistiu em que assim como o Padre tinha dado a seu Filho a divindade por geração, assim tomasse por companheiro a Pedro, para ambos lha darem por manifestação. No Apocalipse viu S. João a Cristo em forma de cordeiro, e logo ouviu que toda a corte do céu o aclamava a uma voz por digno de receber a divindade: Dignus est Agnus, qui occisus est, accipere virtutem, et divinitatem[21]. — Pois o mesmo cordeiro, Cristo, não tinha recebido de seu Pai a divindade e o ser divino desde o princípio sem princípio da eternidade? Sim, a tinha recebido por geração, mas agora a tornava a receber por manifestação. Por geração foi concebido o Verbo no entendimento e conceito do Padre; por manifestação era de novo concebido no entendimento e conceito de todo o mundo: Non in se, sed in mente et ore hominum[22] — dizem, com Santo Tomás, todos os intérpretes. E neste segundo modo de conceição e de geração quis o Eterno Padre que fosse seu Filho tão Filho de Pedro como era seu: Hic est Filius meus dilectus: Tu es Christus Filius Dei vivi.

A semelhança da pessoa de Deus Filho também o mesmo Filho lha deu. E quando? Quando lhe deu o nome de pedra. Cristo teve o nome de Pedra desde o tempo em que os filhos de Israel bebiam daquela pedra que os seguia, como declarou S. Paulo: Bibebant de consequente eos petra, petra autem erat Christus[23]. — E como Cristo era pedra, e deu o nome de pedra a Pedro, com a semelhança e dignidade do seu nome o admitiu, enquanto segunda pessoa da Santíssima Trindade, ao consórcio e companhia, isto é, a lhe ser companheiro nela. S. Leão Papa: In consortium individuae Trinitatis assumptum id quod ipse erat, nominari voluit. — E S. Máximo acrescenta que não foi só favor e graça, senão merecimento: — Recte consortium meretur nominis, qui consortium meretur et operis. — Disse operis[24], e pudera, com a mesma e maior propriedade, dizer oneris[25] porque, quando Cristo o fez pedra fundamental de sua Igreja, todo o peso dela lhe carregou sobre os ombros. Isto é o que pesa aquele super hanc petram. — Outro peso foi o que o mesmo Cristo tomou sobre si quando se sujeitou a pagar o tributo de César; mas também neste igualou a Pedro consigo, e quis que fossem companheiros e meeiros na paga do mesmo tributo: Da eis pro me et te[26].

Nota aqui Abulense, e os outros expositores literais, que S. Pedro não tinha obrigação de pagar aquele tributo, porque não era cabeça da família. E porque outros sentem o contrário, eu o tiro com evidência do texto, porque os cobradores do mesmo tributo só disseram a São Pedro: Magister vester non solvit didrachma[27]. — Pois, se S. Pedro não tinha obrigação de pagar o tributo, nem a ele lho pediam, por que lhe manda o Senhor que pague? Porque ele o pagava e quis honrar a Pedro com o igualar com sua própria pessoa. O honoris excellentia! — exclama S. Crisóstomo. Desta mesma igualdade, tão familiar e repetida, se pode também admitir sem escrúpulo um pensamento, com que Lirano interpreta o de S. Pedro, quando disse no Tabor: Faciamus hic tria tabernacula, tibi unum, Moysi unum, et Eliae unum[28]. — E por que não tratou também Pedro de tabernáculo para si e para os dois companheiros? Porque supôs que os dois morariam com Moisés e Elias, e ele com Cristo: Non loquitur de tabernaculo faciendo pro se, et sociis suis, quia volebat cum Christo esse in suo tabernaculo, et socii sui cum aliis duobus. — Vede se se pode imaginar maior e mais familiar igualdade entre Pedro e a segunda pessoa da Santíssima Trindade, se se hão de nomear ambos com o mesmo nome, se hão de pagar ambos o mesmo tributo, se hão de morar ambos no mesmo tabernáculo.

Com o Espírito Santo, que é a terceira pessoa, não temos menos sublimada ou endeusada a divindade de S. Pedro, tão iguais são ou tão parecidas a processão do Espírito Santo e a promoção de Pedro, a personalidade de um e a dignidade ou majestade do outro, que ambas manam das mesmas fontes, e ambas trazem o ser, em Pedro, das mesmas causas, e no Espírito Santo, que não pode ter causa, dos mesmos princípios. Como procede o Espírito Santo? A fé o diz, e a Igreja o canta: Qui ex Patre, Filioque procedit: — Procede o Espírito Santo do Padre, e procede do Filho. — O Padre é um princípio parcial, o Filho outro princípio, também parcial, e destes dois princípios parciais se compõe o princípio total, do qual, produzido ou espirado, procede o Espírito Santo. E a promoção de S. Pedro à dignidade ou divindade, que temos visto, como procedeu? Com a mesma verdade podemos e havemos de dizer, e com nenhuma se pode negar que procedeu do mesmo Padre e do mesmo Filho: do Padre, revelando: Quia Pater revelavit tibi — e do Filho, dizendo: Et ego dico tibi; — do Padre, que foi o primeiro que o elevou, do Filho, que foi o segundo que o declarou, e de cada um como princípio ou causa parcial, e de ambos como causa total, que o constituiu ou constituíram na dignidade. Não pára aqui a semelhança. Em Pedro concorreram para a mesma dignidade dois atos, um do entendimento, outro da vontade e do amor: o do entendimento quando, perguntados todos, ele só disse: Tu es Christus Filius Dei vivi — o da vontade e do amor quando, perguntado só: Diligis me plus his[29] — ele respondeu: Tu scis Domine, quia amo te[30]. — Vede agora como estes dois atos foram uma admirável representação do ato de entendimento, que precede no Padre quando gera o Filho, e do ato de vontade e amor entre o Padre e o Filho, pelo qual procede o Espírito Santo.

É grave questão entre os teólogos se no ato do entendimento, com que o Padre gera o Filho, se conhece e compreende também o Espírito Santo, e se resolve comumente que sim. Mas esta resolução tem uma grande réplica, porque naquela prioridade, que não é de tempo nem de natureza, senão de origem, ainda não há nem se pode considerar vontade, e, por conseqüência, nem Espírito Santo, que procede por ato da mesma vontade. Como se pode logo compreender o mesmo Espírito Santo no ato precedente do entendimento, que é antes dele ser? Os que respondem mais fácil e inteligivelmente dizem, como refere Soares: Patrem in eo signo non agnoscere Spiritum Sanctum ut productum, sed ut producendum, nec ut existentem, sed ut futurum[31]: Que o Eterno Padre, quando gera o Filho, não conhece o Espírito Santo como pessoa já produzida, senão que se há de produzir, nem como já existente, senão futura. — De sorte que a personalidade do Espírito Santo no ato do entendimento do Padre é ainda futura, e não existente. E essa existência, quando a há de ter? Quando ao ato do entendimento se seguir a vontade, e, pela mesma vontade, o ato do amor. Comparai-me agora a dignidade de Pedro com a personalidade do Espírito Santo. O ato do entendimento em Pedro foi quando disse: Tu es Christus, Filius Dei vivi — e, assim como a personalidade do Espírito Santo no ato do entendimento só era futura, e não existente, assim também a dignidade de Pedro não existente, senão futura: Super hanc petram aedificabo Ecciesiam meam, et tibi dabo claves regni caelorum[32]: não diz aedifico, senão aedificabo, nem diz do senão dabo, tudo de futuro. E a existência deste futuro, quando há de ser? Como a do Espírito Santo, depois do ato da vontade e do amor recíproco. Diligis me plus his? Tu scis, Domine, quia amo te[33]. — Depois deste ato de amor recíproco, e não uma, senão três vezes repetido, então lhe deu e conferiu o Senhor a investidura da dignidade que lhe tinha prometido: Pasce oves meas, pasce agnos meos[34].

Provido assim o governo da Igreja, se partiu Cristo para o céu, donde prometeu mais que viria o Espírito Santo mandado pelo Padre em seu nome, não do Padre, senão do mesmo Cristo: Paraclitus autem, quem mittet Pater in nomine meo[35]. — E que quer dizer in nomine meo? Quer dizer: em meu lugar, e com as minhas vezes. Eutímio: In nomine meo, id est, ut hic me referat, et meis fungatur vicibus[36]. — Eusébio Emisseno: Mea vice et meo nomine magnus consolator et doctor sapien, tissimus dabitur vobis[37] — Aqui tornou Cristo a igualar a Pedro com o Espírito Santo, como o tinha igualado consigo, dando as suas vezes, e fazendo seu Vigário a terceira Pessoa da Trindade, e juntamente a Pedro. Pedro, vigário de Cristo deixado na terra, o Espírito Santo Vigário de Cristo mandado do céu; Pedro vigário visível, o Espírito Santo vigário invisível; o Espírito Santo verdadeiro vigário e verdadeiro Deus, Pedro verdadeiro vigário e verdadeiramente como Deus. Admire-se a igualdade deste poder, e a majestade soberana de Pedro no primeiro seu decreto, e pasmem os que ouvirem o proêmio do primeiro Concílio: Visum est Spiritui Sancto, et nobis[38]. — Pedro foi o que congregou o Concílio; Pedro o que falou em primeiro lugar, calando todos, como diz S. Lucas; Pedro a quem, depois de falar, seguiram os demais apóstolos; e Pedro quem em nome do Espírito Santo e seu assinou e mandou publicar o decreto. Quando S. João, no princípio do seu Apocalipse, escreveu às igrejas da Asia, as epístolas eram de João: Joannes septem Ecclesiis quae sunt in Asia[39] — mas quem no fim as assinava cada uma de por si era o Espírito Santo: Qui habet aurem, audiat quid Spiritus dicat Ecclesiis[40]. — Porém, quando Pedro decreta, não só assina os decretos o Espírito Santo, senão também Pedro: Visum est Spiritui Sancto, et nobis.

VIII – Como subiu a divindade de Pedro a tal singularidade de divina, que em Deus a não há nem pode haver semelhante? Pedro, filho do Espírito Santo, e quarta pessoa da Santíssima Trindade. A fecundidade do Espírito Santo no começo do mundo. Por que razão o Espírito Santo comunica só ao elemento da água a sua fecundidade? A maior prerrogativa da dignidade ou divindade de Pedro. o consórcio ou companhia da Santíssima Trindade.

Já parece que deve estar satisfeita a nossa metáfora e a divindade de Pedro, com ser semelhante a Deus Padre, semelhante a Deus Filho, semelhante a Deus Espírito Santo, e, por conseqüência a toda a Santíssima Trindade, que foi a soberania universal da assunção de S. Pedro, como acima disse S. Leão Papa, e eu deixei passar sem ponderação, porque este era o seu próprio lugar e a chave mais que dourada cem que se havia de fechar este discurso: In consortium individuae Trinitatis assumptum. — Agora pergunto se tem mais para onde subir a nossa metáfora, e a semelhança da divindade de S. Pedro com Deus? Respondo que a semelhança não, mas a divindade sim. Por que, ou como? Porque subiu a divindade de Pedro — não digo a tal alteza, porque a não pode haver mais alta que Deus — mas a tal singularidade de divina, que em Deus a não há nem pode haver semelhante. Em Deus, e na Santíssima Trindade, não pode haver quarta pessoa, e S. Pedro foi a quarta pessoa da Santíssima Trindade. Vede como, e não tenhais medo de alguma heresia.

Quando S. Pedro acabou de fazer a sua confissão, disse-lhe o mesmo Cristo, assim exaltado: Beatus es, Simon Barjona (Mt. 16, 17): Bem-aventurado és, Simão Barjona. — Era este o apelido humilde de Pedro, e que cheirava ainda ao breu da barca; e têm para si alguns expositores quis o Senhor lembrar-lhe nesta ocasião a baixeza do seu nascimento, para que a dignidade, a que logo o havia de levantar, o não desvanecesse. Mas eu me não posso persuadir que, quando S. Pedro acabava de honrar a Cristo por seu Pai, com o nome de Filho de Deus vivo, o Senhor lhe respondesse com o que tanto lhe tocava no vivo, como ouvir em público a indignidade do seu. E o que em tal caso não faria nenhum homem de bem, não havemos de crer que o fizesse o bem dos homens. Qual foi logo a razão daquele nome, ou sobrenome, e em resposta do que Pedro tinha dito? Barjona na língua hebréia ou siríaca, que naquele tempo era a vulgar, significa filius columbae: filho da pomba; e dizem comumente os santos padres que aludiu o Senhor à pomba, em cuja figura desceu o Espírito Santo no batismo sobre o mesmo Cristo, como se dissera o divino Mestre, com resposta muito digna da sua grandeza: — Tu, Pedro, dizes que eu sou Filho do Eterno Padre? Pois eu te digo que tu és filho do Espírito Santo. — Assim o diz S. Jerônimo, Santo Hilário, Eusébio Emisseno, a glosa, e, com palavras mais expressas que todos, o Venerável Beda: Justa laude confessorem suum Dominus remunerat, cum eum Sancti Spiritus filium esse attestatur, a quo ipse filius Dei asseveratur[41].

Suposto, pois, que S. Pedro é filho do Espírito Santo, já parece que não está muito longe de ser a quarta pessoa da Santíssima Trindade. Porque, se o Verbo, por ser Filho do Padre, é a segunda pessoa, Pedro, por ser Filho do Espírito Santo, por que não será a quarta? Bem se segue a conseqüência, e assim havia de ser, se fosse possível. Mas, porque era impossível na realidade, foi filho do Espírito Santo e quarta pessoa da Trindade por semelhança, e não na realidade, que esse é o meu assunto, e a propriedade da minha metáfora. As pessoas divinas só se podem multiplicar ou por entendimento ou por vontade: por entendimento já estava infinitamente multiplicada a segunda pessoa no Filho; por vontade já estava infinitamente multiplicada a terceira pessoa no Espírito Santo: donde se segue que só as pessoas do Padre e do Filho são fecundas, e a do Espírito Santo não. Mas não se segue daqui que seja menor a perfeição do Espírito Santo que a do Padre e a do Filho, porque tanta perfeição é não poder o impossível como poder o possível, para que entendam os todo-poderosos do mundo que se devem contentar com poder o que podem, e não querer mais. E porque a pessoa do Espírito Santo não era fecunda ab aeterno, por isso se lhe supriu a fecundidade em tempo na pessoa de Pedro, não quanto à realidade, senão quanto à semelhança: Barjona, filius columbae: Barjona, filius Spiritus Sancti.

Vamos ao princípio do mundo, e acharemos esta fecundidade do Espírito Santo admiravelmente retratada. Onde a Vulgata diz: Spiritus Domini ferebatur super aquas[42] — lê o original hebreu: Spiritus Domini faecundabat aquas: que o Espírito Santo fecundava as águas. — E por que razão comunicava o Espírito Santo sua fecundidade mais ao elemento da água que a nenhum dos outros? Não desceu do céu no dia de Pentecostes em forma de ar: Tanquam advenientis spiritus vehementis[43]? — Não apareceu sobre os apóstolos em forma de fogo: Dispertitae linguae tanquam ignis[44]? — E, depois de descer e aparecer, não encheu a terra toda: Spiritus Domini replevit orbem terrarum[45]? — Por que razão, pois as influências da sua fecundidade as comunica só ao elemento da água, que naquela mesma ocasião se chamou mar: Congregationes aquarum appellavit maria[46]? — Porque do mar lhe havia de nascer ao Espírito Santo aquele filho, que já de então estava prevendo que com o nome de Simão Barjona andava navegando e remando no Mar de Tiberíades. Mal cuidei eu que achasse autor ao pensamento, mas assim o tinha escrito há muitos séculos entre os santos padres um de tanta autoridade como sabedoria: Congregentur aquae — diz Anastásio Sinaíta — Petrus enim jam crucem tanquam remum intingit in mari mundano[47] — Fecundou o Espírito Santo as águas do mar, porque no mar havia Pedro de meter primeiro o remo como pescador, e depois, trocado o remo com o lenho da cruz, havia de navegar e sujeitar com ela, como sucessor de Cristo, o oceano do mundo. — Assim imitou o Espírito Santo a fecundidade da primeira e segunda pessoa, assim foi filho da mesma fecundidade S. Pedro: Filius Spiritus Sancti — e assim, do modo que era possível, acresceu à Santíssima Trindade uma quarta pessoa, por semelhança, e não na realidade.

E por que não faltasse a esta quarta pessoa a semelhança divina das outras três, assim como o Padre, e o Filho, e o Espírito Santo entendem com um só entendimento, e querem com uma só vontade, e obram com um só poder, também à pessoa de Pedro, como se fosse a quarta, lhe não faltou esta divina propriedade, por isso chamada indivídua. Assim concedem S. Leão e S. Máximo à dignidade ou divindade de Pedro a prerrogativa que eles chamam Consortium Trinitatis, e assim o declara, comentando os mesmos santos, o doutíssimo Daza, da nossa Companhia, sujeito em quem a antecipada morte roubou à Teologia e à Escritura um dos mais sólidos e excelentes intérpretes. As suas palavras são estas: Nempe suas — Petro — impertiendo vices, et quae Dei sunt communicando, ut eadem sit ipsi cum Trinitate mens ad ea quae definit, eadem voluntas ad illa quae jubet, eadem potentia ad ea quae facit[48]. — Forte e elegantemente. De maneira que, enquanto Pedro tem as vezes de Cristo, no Padre, no Filho, no Espírito Santo e em Pedro há um só e o mesmo entendimento, uma só e a mesma vontade, uma só e a mesma potência. Um só e o mesmo entendimento, porque o que entende Deus entende Pedro nas matérias que define; uma só e a mesma vontade, porque o que quer Deus quer Pedro nos cânones que estabelece; uma só e a mesma potência, porque o que pode Deus pode Pedro nas maravilhas que obra. Tudo isto quer dizer em Pedro, e só em Pedro, aquele vos autem: Vos non homines, sed dii.

IX – As excelências do sacerdócio. O que dizem os homens e o que dizem os anjos. O sacerdócio da lei da graça e o sacerdócio da lei da natureza e da lei escrita, representados por Melquisedec e por Arão. Os anjos, ajudantes dos sacerdotes no Sacrifício da Missa.

Tão alta — muito reverendos senhores — tão alta, tão sublime e tão verdadeiramente divina é a suprema dignidade, debaixo de cujo nome e proteção se uniu, se conserva e floresce esta tão venerável como religiosa Congregação dos Clérigos de S. Pedro. E quando considero a todos os congregados dela segregados, como diz S. Paulo, e distintos dos outros homens pela impressão do caráter sacerdotal, não sei o que mais devo venerar neles, se o que Cristo disse a S. Pedro, se o que S. Pedro disse a Cristo.

E se não, perguntemos de cada um dos sacerdotes da lei da graça o que o mesmo Senhor perguntou de si: Quem dicunt homines? Quem dizem os homens? — Porventura dizem alii Joannem Baptistam? Pouco sabem se isto dizem. O grande serafim da terra, S. Francisco, dizia, como refere S. Boaventura, que se encontrasse em uma rua a S. João Batista e a um pobre sacerdote, o menos autorizado e respeitado nos olhos do mundo, primeiro havia de fazer reverência ao sacerdote que ao mesmo Batista. São Martinho — aquele que, sendo ainda, catecúmeno e soldado, com a metade da capa vestiu a Cristo — estando à mesa com o imperador Máximo, quando o copeiro-mor lhe levou a taça, disse o imperador que a desse a Martinho, esperando recebê-la da sua mão. E que fez o animoso e justo prelado, que bem conhecia a sua dignidade? Sem cumprimento algum ao imperador, bebeu ele, e logo deu a taça a um presbítero que o acompanhava, para que bebesse, antepondo a coroa aberta de um simples sacerdote à cerrada do mesmo imperador[49]. Isto é o que respondem, sem injúria do céu nem da terra, aqueles dois oráculos da lei da graça, Francisco e Martinho.

Passemos aos da lei da natureza e da lei escrita: Quem dicunt homines? Os da lei da natureza o mais que podem dizer é ser o sacerdote cristão como Melquisedec: Sacerdos Dei altissimi[50] — o qual oferecia a Deus pão e vinho: Panem et vinum offerens[51]. — Mas isto é comparar a sombra com a luz, é a semelhança com a verdade. O pão que oferecia Melquisedec era assim como o que se come na eira, e o vinho assim como o que se espreme no lagar; porém, o pão e vinho que os sacerdotes oferecem, posto que debaixo dos mesmos acidentes, é pão transubstanciado no corpo de Cristo, e vinho transubstanciado no seu próprio sangue, frutos que não conheceu a natureza, e palavra que foi necessário à Teologia inventá-la de novo. Os da lei escrita dirão que o nosso sacerdócio é como o de Arão, e cuidarão que o louvam muito; mas eu, quando menos, quisera que olhassem para a pureza e limpeza dos nossos altares, dos quais já disse o mesmo Deus a um dos profetas daquele tempo, dando-lhe em rosto com a perfeição e asseio dos nossos sacrifícios: In omni loco offertur nomini meo oblatio munda[52]. — Os sacerdotes da lei velha, com as mãos tintas em sangue bruto, quando as vítimas eram as mais mimosas, sacrificavam bezerros e cordeiros; e os nossos, com as mãos puras, como diz S. Paulo, sacrificam a Deus o diviníssimo holocausto de seu próprio Filho, tão infinito, tão imenso, tão onipotente, e tão Deus como ele.

Isto é o que dicunt homines. O vos autem seja dos anjos, e respondam eles. Que dirão os anjos? Dirão que os mais altos querubins e serafins do empíreo, se foram capazes de inveja, nenhuma dignidade invejariam, senão a do homem sacerdote. No sacrossanto sacrifício da Missa o sacerdote é o sacrificaste e os anjos os ministros que o assistem, e talvez o servem, como os que nós chamamos ajudantes, e, quando estes se divertem, suprem os seus descuidos. Assim sucedeu a S. Gregório Papa, celebrando na Igreja de Santa Maria Maior em dia de Páscoa[53]. Quando disse Pax Domini sit semper vobiscum — descuidou-se o ajudante de responder, e responderam os anjos que assistiam: Et cum spiritu tuo[54] — Daqui teve origem um uso ou rito notável da Igreja Romana, e é que, quando o Sumo Pontífice, na missa de dia de Páscoa, diz as mesmas palavras: Pax Domini sit semper vobiscum — o coro se cala, e não responde, conservando-se neste silêncio a memória do que supriram as vozes dos anjos em dia semelhante.

Mas nesta mesma vigilância, tão reverente, tão devota e tão obsequiosa, com que os espíritos celestes assistem ao sacerdote celebrante, haverá algum da suprema jerarquia, que se atreva a tocar a Hóstia que ele consagra nas suas mãos, e tantas vezes torna a tomar nelas no mesmo sacrifício? Por nenhum modo. Não se estendem a tanto os privilégios dos anjos. Quando Deus mandou de comer a Daniel ao lago dos leões, o profeta levava o pão, e o anjo levava o profeta pelos cabelos. Pois, não seria mais fácil que o pão o levasse o anjo? Mais fácil sim, mas não lhe era lícito. O pão em profecia era figura do que se havia de consagrar nos nossos altares. O profeta, como diz S. Jerônimo, era da tribo sacerdotal de Levi, e tocar naquele sagrado pão só é lícito aos sacerdotes, e de nenhum modo aos anjos. Mas vejo que os mesmos sacerdotes me estão argüindo com um texto em contrário, e do mais sagrado cânon de todos os da Igreja. Depois da consagração do corpo e sangue santíssimo, todos fazemos a Deus esta oração: Jube haec perferri per manus sancti angeli tui in sublime altare tuum[55]: logo, se o nosso sacrifício se há de levar ao céu per manus sancti angeli tui, bem podem as mãos dos anjos fazer o que fazem as nossas.

Absit — responde Teófilo, o mais diligente escrutador deste mistério — absit ut praecatio illa intelligatur de victimae nostrae reali apportatione, sed intelligenda est methaphorice, ad eum modum quo angelus ait se obtulisse orationem Tobiae Deo (Tob. 12, 5, 8): De sorte que aquela oração não há de, nem pode entender de que os anjos realmente levem o nosso sacrifício ao céu, senão metaforicamente, assim como o anjo de Tobias diz que ofereceu a Deus as suas orações[56]. — E a razão é manifesta, porque, se o anjo levasse a nossa hóstia ao céu, ficaria imperfeito o sacrifício, que não só consiste na consagração e oblação, senão também na consumpção, e então perfeitamente se consuma, quando a vítima consagrada morre ou deixa de existir, que é quando, pela indisposição das espécies, deixa o corpo de Cristo de estar debaixo delas. Assim que isto é o que diz e só pode dizer a confissão dos anjos.

X – O que diz Deus? Suposto que Deus chama aos sacerdotes deuses e filhos de Deus, em qual das duas partes desta proposição disse Deus mais: se quando do chama aos sacerdotes deuses, ou quando lhes chama filhos de Deus? O poder do sacerdote na transubstanciação do Filho de Deus e a potência do Eterno Padre na criação do mundo.

Ouvidos pois os homens e os anjos, quem resta para ouvir, senão unicamente o mesmo Deus? Ouçamos, pois, muito reverendos padres, a Deus, e veremos como diz desta venerável Congregação o que S. Jerônimo disse dos apóstolos, que já então eram a congregação de S. Pedro: Vos autem non homines, sed dii. — Deuses lhes chamou S. Jerônimo, e por mais autêntica boca, que é a de Davi, lhe dá Deus o mesmo nome. E o mesmo Deus, cujo dizer é fazer, afirma que ele é o que o disse: Ego dixi, dii estis, et filii Excelsi omnes[57]. — Deuses chama, e filhos de Deus aos sacerdotes, e não em sentido alegórico, porque literalmente fala o profeta dos ministros da Igreja, segundo a frase daquele tempo: Deus stetit in synagoga deorum[58] — e Cristo, melhor intérprete, literalmente o alega no capítulo décimo de S. João, que todo é dos pastores e suas ovelhas, que são os eclesiásticos, com o poder e poderes do sacerdócio. Suposto, pois, que Deus lhes chama deuses e filhos de Deus: Dii estis, et filii Excelsi — com razão perguntará alguma curiosidade douto em qual das duas partes desta proposição disse Deus mais: se quando chama aos sacerdotes deuses, ou quando lhes chama filhos de Deus? Eu digo que quando lhes chama filhos de Deus, porque na primeira parte alude ao poder da jurisdição, e na segunda ao poder da ordem. Quando Cristo, Senhor nosso, disse ao paralítico: Remittuntur tibi peccata tua[59] — murmuraram todos da proposição, dizendo: Quis potest dimittere peccata, nisi solus Deus[60]? — Negavam mal este poder a Cristo, mas supunham bem em dizer que só Deus pode perdoar pecados. E este é o poder dos sacerdotes enquanto deuses: Quorum remiseritis peccata, remittuntur eis[61]. — E digo enquanto deuses, porque o poder de perdoar pecados, não só é próprio e unicamente de Deus, senão o maior e o máximo em que ele manifesta e ostenta toda a grandeza do seu poder: Deus qui omnipotentiam tuam parcendo maxime, et miserando manifestas[62].

Mas com este poder de Deus merecer o nome e significação de máximo, o de Filho de Deus ainda significa mais. E por quê? Porque mais é no Filho de Deus o poder de consagrar seu corpo que em Deus o de perdoar pecados. Ouvi a razão. O perdoar pecados consiste formalmente em Deus ceder do jus e direito que sua justiça tem para os castigar, que é ato superior da sua misericórdia: parcendo maxime, et miserando — e como neste ato vence a misericórdia divina a justiça divina, também Deus se vence a si mesmo, que é a maior vitória e a maior façanha do seu poder: Omnipotentiam tuam maxime manifestas. — Porém a do Filho de Deus em se consagrar ainda é maior, porque mais é poder-se fazer a si mesmo que poder-se vencer; e isto é o que pode e o que fez o Filho de Deus, sumo e eterno Sacerdote, quando se consagrou no Sacramento, porque realmente se tornou a fazer e reproduzir a si mesmo. Mas não parou aqui sua onipotência e liberalidade, senão que este mesmo poder de o reproduzirem e fazerem a ele comunicou aos sacerdotes, quando lhes disse: Hoc facite in meam commemorationem (1 Cor. 11, 24): Isto mesmo que eu fiz, fazei vós. — Expressamente S. Germano, venerado e alegado neste mesmo ponto pelos padres gregos: Ipse dixit hoc est corpus meum, hic est sanguis meus, ipse et apostolis jussit, et per illos universae. Ecclesiae hoc facere: Hoc enim — ait — facite in meam commemorationem. Non sane id facere jussisset, nisi vim, hoc est, potestatem inducturus fuisset, ut id facere liceret[63]. — O poder quase incompreensível, e que só se pode admirar com o nome de estupendíssimo! Nos seis dias da criação criou Deus com seis palavras este mundo, e o sacerdote com quatro palavras faz mais todos os dias que se criara mil mundos.

Declaremos bem este poder mal-entendido, para que todos o entendam e pasmem. O lume da Igreja, S. Agostinho, exclama assim: O veneranda, sacerdotum dignitas, in quorum manibus Dei Filius velut in utero Virginis incarnatur! O dignidade veneranda dos sacerdotes, em cujas mãos o Filho de Deus, como no ventre sacratíssimo da Virgem Maria, torna outra vez a encarnar! — Em que consistiu a Encarnação do Verbo Eterno? Consistiu na produção do corpo e alma de Cristo, e na produção da união hipostática, com que a sagrada humanidade se uniu à subsistência do Verbo. E tudo isto faz o sacerdote com as palavras da consagração, produzindo outra vez, ou reproduzindo, todo o mesmo Cristo. Na mesma conformidade falam São João Crisostomo, S. Gregório Papa, S. Pedro Damião, e o antiquíssimo Teodoro Ancirano, famoso no Concílio Efesino. Mas porque cuidam, alguns que semelhantes questões são mais debatidas e examinadas pelos teólogos modernos, quero também alegar as palavras de dois bem conhecidos na nossa idade. O padre Teófilo Rainaudo, tão perseguidor de opiniões ou devoções pouco sólidas, como se vê nos seus eruditíssimos livros Contra Anomala Pietatis, diz o que se segue: Sacerdos Christum sub accidentibus ponit, esse sacramentale illi conferendo, per veram Christi productionem substantialem[64]. — E mais abaixo: Christus non producitur absque unione ad Verbum, quia non est purus homo, sed suppositum ejus est persona Filii: itaque in sacrificio Deus in manibus sacerdotum incarnatur. — E noutro lugar: Quin etiam sacerdotis potestas extenditur ad efficiendam unionem hypostaticam, et transubstantiationem panis et vini[65]. — Não romanceio as palavras, porque são expressamente tudo o que tenho dito.

E o padre Eusébio Neriemberg, varão de tanto espírito, erudição e letras, cujos livros todos trazem nas mãos, fazendo a mesma comparação, que eu já toquei, entre a criação do mundo e a consagração do corpo de Cristo, discorre e infere desta maneira: Mundum, et ea quae in mundo sunt, produxit potentia Patris; sacerdotis vero potentia producit Filium Dei in Sacramentum et sacrificium, quo admirabilior potestas est sacerdotes transubstantiatione Filium Dei, quam creatione res perituras Dei Patris produceatis[66]. — Quer dizer: A potência do Eterno Padre produziu o mundo, e tudo o que há no mundo; a potência do sacerdote produz o Filho de Deus em sacramento e sacrifício: donde se segue que o poder do Sacerdote na transubstanciação do Filho de Deus é muito mais admirável que a potência do Eterno Padre na criação de todas as coisas do mundo, que hão de acabar com ele.

XI – Advertência da Escritura Sagrada aos sacerdotes: que não se arrependa Deus de ter concedido aos homens o sacerdócio.

Esta é, muito reverendos padres, a dignidade ou divindade do vos autem, participada de seu divino protetor, S. Pedro, a esta sua Congregação, tão digna de ser sua. E que se segue daqui, ou qual é a obrigação dos congregados? Se eu tivera as cãs que me faltam, alguma palavra lhes pudera dizer tão importante à veneração alheia como à decência própria. Mas porque eu, posto que tão indignamente, tenho o mesmo caráter do sacerdócio, a mim e a todos os sacerdotes só apontarei uma advertência da Escritura Sagrada, que todos devemos ouvir temendo e tremendo. A advertência é que correspondamos de tal maneira às obrigações desta altíssima dignidade, que se não arrependa Deus de no-la ter dado. Falando Davi do sacerdócio de Cristo, diz: Juravit Dominus, et non poenitebit eum: Tu es sacerdos in aeternum (Sl. 109, 4): Jurou Deus, e não se arrependerá de dar o eterno sacerdócio a seu Filho. — Reparemos muito naquele et non poenitebit eum. Pois, de dar o sacerdócio a seu Filho, por natureza impecável, e tão santo, e tão Deus como ele, podia Deus arrepender-se? Sim, porque esse sacerdócio não só o havia Cristo de conservar em si, mas também o havia de comunicar, como comunicou, aos homens, e aqui estava o perigo. Por isso o jurou, para que se não arrependesse: Juravit Dominus, et non poenitebit eum. — Oh! que desgraça tão horrenda e tremenda, se Deus se arrependesse! E maior desgraça ainda, se eu, e algum outro tão indigno como eu, desse motivos bastantes a este arrependimento! Neste caso — que Deus não permita — aquele caráter, que é tão imortal como a mesma alma, se iria perpetuar com ela em outra eternidade, que não é a do céu e da glória. Quam mihi, etc.

_________
[1] E vós quem dizeis que eu sou (Mt. 16,15)?
[2] Ressuscitou algum dos antigos profetas (Lc. 9, 19).
[3] Deu-lhes o poder de se fazerem filhos de Deus (Jo. 1, 12).
[4] As portas do inferno não prevalecerão contra ela (Mt. 16, 18).
[5] Eu te darei as chaves do reino dos céus (ibid. 19).
[6] Tudo o que ligares, tudo o que desatares será desatado (ibidem).
[7] E no mesmo ponto foram consolidadas as bases dos seu pés (At. 3, 7).
[8] Somente Pedro entendeu ser Cristo por natureza e propriamente Filho de Deus (S. Eutim.).
[9] São Pedro era mais que homem, porque sabia mais que o homem: embora visse o Filho de Deus como homem, viu e entendeu além dos olhos humanos (S. Pasc.).
[10] Porque não foi a carne e sangue quem to revelou mas sim meu Pai que está nos céus (Mt. 16,17).
[11] E o povo se pôs a chorar, e nenhum vestiu as suas galas costumadas (Êx. 33, 4).
[12] Puseste homens sobre as nossas cabeças (Sl. 65, 12).
[13] Eis que te constituí Deus de Faraó (Ex. 7, 1).
[14] Porque me disseste: Tu és Cristo, Filho de Deus vivo — eu te digo, não com palavras vãs, e sem efeito, que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei minha Igreja, e te darei as chaves do reino dos céus (S. Ambr.).
[15] Acabais de ouvir no Evangelho que Pedro disse: Tu és Cristo, Filho de Deus vivo. Lede mais adiante, e encontrareis que também os demônios disseram: Sabemos que és Filho de Deus (S. Agost.).
[16] Tudo o que ligares sobre a terra será ligado também nos céus, e tudo o que desatares sobre a terra será desatado também nos céus (Mt. 16, 19).
[17] Inspirou no seu rosto um assopro de vida, e foi feito o homem em alma vivente (Gên. 2, 7).
[18] Então aparecerá o tal iníquo, a quem o Senhor Jesus matará com o assopro da sua boca, e o destruirá com o resplendor da sua vinda (2 Tes. 2. 8).
[19] Inspirou no seu rosto um assopro de vida (Gên. 2, 7).
[20] A virtude do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra. E por isso mesmo o santo, que há de nascer de ti, será chamado Filho de Deus (Lc. 1, 35).
[21] Digno é o Cordeiro, que foi morto, de receber a virtude e a divindade (Apc. 5, 12).
[22] Vide Cornel.
[23] Bebiam da pedra que os seguia, e esta pedra era Cristo (1 Cor. 10, 4).
[24] Operes: da obra.
[25] Oneris: do peso.
[26] Dá-lho por mim e por ti (Mt. 17, 26).
[27] Vosso Mestre não paga as duas dracmas (ibid. 23).
[28] Façamos aqui três tabernáculos: um para ti, outro para Moisés e outro para Elias (Mt. 17, 4).
[29] Amas-me mais do que estes (Jo. 21, 15)?
[30] Senhor, tu sabes que eu te amo (ibid..).
[31] Suar Leb. 9, c. 5, n. 9.
[32] Sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e eu te darei as chaves do reino dos céus (Mt. 16, 18 s).
[33] Amas-me mais do que estes? Senhor, tu sabes que eu te amo (Jo. 21, 15).
[34] Apascenta as minhas ovelhas, apascenta os meus cordeiros (Jo. 21, 15 ss).
[35] Mas o consolador, a quem o Pai enviará em meu nome (Jo. 14, 26).
[36] Em meu nome, isto é, para que ele faça as minhas vezes (Eut.).
[37] Em meu lugar, e em meu nome, será dado a vós um grande consolador e um doutor sapientíssimo (Eus. Emis.).
[38] Pareceu bem ao Espírito Santo, e a nós (At. 15, 28).
[39] João, às sete igrejas que há na Ásia (Apc. 1, 4).
[40] Aquele que tem ouvidos ouça o que o Espírito diz às igrejas (Apc. 2, 7).
[41] Com justo louvor o Senhor remunera a Pedro, que o confessara como verdadeiro Filho de Deus, afirmando ser ele filho do Espírito Santo (Beda).
[42] O Espírito de Deus era levado sobre as águas (Gên. 1, 2).
[43] Como do vento que assoprava com ímpeto (At. 2, 2).
[44] Umas como línguas repartidas de fogo (ibid. 3).
[45] O Espírito do Senhor encheu o universo (Sab. 1, 7).
[46] E chamou ao agregado das águas mares (Gên. 1, 10).
[47] Ajuntem-se as águas, pois Pedro já mergulha no mar do mundo o remo da cruz (Anast. Sen.).
[48] Daza en epestola Jacobe c. I, v. l, n. 3.
[49] Sever. Beturecens. in Vita Martene.
[50] Sacerdote do Deus altíssimo (Gên. 14, 18).
[51] Oferecendo pão e vinho (ibid.).
[52] Em todo o lugar se oferece ao meu nome uma oblação pura (Mal. 1, 11).
[53] Guillielm. Durand. leb. 6, c. 88.
[54] A paz do Senhor esteja sempre convosco, e com o teu espírito.
[55] Suplicamos que pelas mãos do vosso santo anjo sejam apresentadas estas ofertas ao vosso altar celestial. (Oração que o sacerdote recita logo após a consagração).
[56] Theophel. en Chrest. Acha resto c. 3.
[57] Eu disse: Sois deuses, e todos filhos do Excelso (Sl. 81, 6).
[58] Deus assistiu sempre no conselho dos deuses (ibid.).
[59] Os teus pecados te são perdoados (Lc. 5, 20).
[60] Quem pode perdoar pecados, senão só Deus (ibid. 21)?
[61] Aos que vós perdoardes os pecados, ser-lhes-ão eles perdoados (Jo. 20, 23).
[62] Deus, que ostentas tua onipotência com o perdão e com a misericórdia.
[63] O mesmo que disse: Isto é o meu corpo, e este é o meu sangue — ordenou aos apóstolos, e por eles a toda a Igreja que fizessem o mesmo, dizendo: Fazei isto em memória de mim. — E não teria dado tal ordem, se juntamente com ela, não tivesse dado a força, isto é, o poder necessário para tanto (S.Germanus sub finem Theoreae allegatus a Casibila)
[64] Theophil. Rayn. In Sacro Christiano Acharisto c. 3.
[65] Idem de Prema Messa, sect. 3, c. I.
[66] Nieremb. Ascetec, leb. 2, doctrin. 4, c. 24.

Fonte: https://www.literaturabrasileira.ufsc.br/documentos/?action=download&id=49847