Corpus Christi – Sermão do Santíssimo Sacramento (1669)

PREGADO NO REAL CONVENTO DA ESPERANÇA, EM LISBOA, ANO DE 1669


Hic est panis, qui de caelo descendit[1].

I – No Sacramento está satisfeita a Fé, está satisfeita a Caridade, só a Esperança parece que não está satisfeita, A satisfação da Esperança será a matéria do presente discurso.

Que satisfeita está hoje a fé, e que satisfeita a caridade! Só a esperança parece que não está, nem pode estar satisfeita. Está satisfeita a fé, porque se vê sublimada a crer a verdade do mais alto, do mais profundo e do mais escondido mistério: Caro mea vere est cibus[2]. Está satisfeita a caridade, porque se vê abraçada intimamente com Deus no laço da mais estreita e da mais amorosa união, e da mais recíproca: In me manet, et ego in illo[3]. Só a esperança parece que não está nem pode estar satisfeita no diviníssimo Sacramento, porque se lhe nega o que o deseja, porque se lhe encobre o que suspira, porque se lhe retira o que segue, e porque, na mesma presença, se lhe ausenta o que espera. Está Deus ali para a fé, está Deus ali para a caridade, e só para a esperança não está ali. Está ali para a fé, porque o objeto da fé é Deus crido, está ali para a caridade, porque o objeto da caridade é Deus amado, e não está ali para a esperança, porque o objeto da esperança, como ensina S. Paulo, é Deus visto. A Deus invisível pode-o crer a fé, a Deus invisível pode-o abraçar a caridade, a Deus invisível não o pode lograr a esperança. Se o objeto da esperança é Deus visto, e a essência do Sacramento é Deus não visto, nem visível, que por isso se chama Sacramento, como estará a esperança satisfeita neste desvio, contente neste desengano e sossegada neste impossível? Firme sim, constante sim, animosa e ansiosa sim, mas satisfeita, contente e sossegada, não fora a esperança esperança, se assim estivera. Pois por certo, Senhor, que não é a vossa condição tão esquiva, nem o vosso coração tão pouco humano, que o não obriguem desejos, que o não solicitem ânsias, que o não penetrem suspiros, que o não enterneçam saudades. E se este é o ser e o exercício contínuo da esperança, como se esqueceu tanto dela a vossa Providência neste mistério, que parece vos sacramentastes somente para acrescentar novos pesares a seus desejos, e um perpétuo martírio a suas ânsias.

A satisfação destas queixas será hoje a matéria do nosso discurso, para que o nome e circunstância do lugar dê novidade à celebridade do dia. Verá a esperança queixosa dos extremos da fineza que deve a Cristo sacramentado, e nós veremos sem queixa do mesmo Sacramento que, posto que se chame Mistério da Fé, encerra maiores mistérios da esperança. Ave Maria.

II – Por que desceu do céu este pão? Como a esperança não podia entrar no céu, Deus para contentá-la saiu do céu em disfarces de pão. A visão de Ezequiel em Jerusalém. O convite de Davi no Salmo XXXIII.

Hic est panis, qui de caelo descendit.

Este é o pão que desceu do céu. E por que desceu do céu este pão? Só para exercício da fé? Só para aumento da caridade? Não. Digo que desceu do céu o pão do céu para satisfação da esperança. Ora vede. Perguntam os teólogos se há esperança no céu, e resolvem todos com Santo Tomás que nem no céu nem no inferno há esperança. A razão é porque o bem que for objeto da esperança, há de ter estas duas condições: ser possível e ser futuro; possível porque o impossível não se deseja; futuro, porque o presente não se espera. E como o sumo bem, que é o objeto da esperança sobrenatural, no inferno já não é possível, e no céu já não é futuro, por isso nem no céu nem no inferno pode haver esperança. A alma, se vai ao céu, salva-se, se vai ao inferno, perde-se; mas a esperança, ou no céu ou no inferno sempre se perde: no céu pela vista de Deus, no inferno pela desesperação da mesma vista. Sucede-lhe à alma com a esperança, o que a Moisés com a Terra de Promissão, e às virgens prudentes com as companheiras. Moisés levou à Terra de Promissão os israelitas, mas não entrou lá: as virgens prudentes entraram no céu, mas as companheiras, ainda que chegaram à porta, ficaram de fora. A mais fiel companheira da alma é a esperança; porém, é tal a ventura da alma, e tal a sorte da esperança, que quando à alma se lhe abrem as portas do céu, à esperança fecham-se: a alma entra, e a esperança fica de fora. E como a esperança não podia subir nem entrar no céu, que fez Deus para satisfazer a esperança? Desceu e saiu do céu em disfarces de pão: Hic est panis qui de caelo descendit, para que a esperança, que o não podia gozar da parte de dentro, o gozasse da parte de fora.

Levado o profeta Ezequiel em espírito desde Babilônia, onde estava cativo, à cidade e templo de Jerusalém mostrou-lhe um anjo o santuário com a porta fechada, e disse-lhe que fora daquela porta assim fechada, se assentaria o príncipe à mesa, para comer o pão na presença do Senhor: Et convertit me ad viam portae sanctuarii, et erat clausa. Ex dixit Dominus ad me: Porta haec clausa erit. Princeps ipse sedebit in ea, ut comedat panem coram Domino[4]. Entram agora os expositores sagrados a declarar este enigma, e dizem que o santuário é o céu, o príncipe Cristo, e, por conseguinte, a mesa, o altar, e o pão o Santíssimo Sacramento, em que não há dificuldade. Mas se o santuário é o céu, e o príncipe o Príncipe do céu, e o pão o Pão do Céu, por que está a porta do céu fechada, e se diz que há de estar fechada sempre, e o Príncipe e a mesa, não dentro, senão fora da porta? Verdadeiramente, que se não pudera pintar com maior propriedade de circunstâncias tudo o que queremos provar. A mesa do Diviníssimo Sacramento, em que assiste realmente o Príncipe da glória, foi instituída para os homens, não no estado da pátria, senão no estado da esperança, e como a esperança não pode entrar das portas do céu para dentro, por isso se pôs a mesa das portas a fora. Andou Cristo tão fino com a esperança, que por ela não podia entrar no céu para se assentar à mesa da bem-aventurança: pôs outra mesa e fez outra bem-aventurança fora do céu, só para que a esperança a lograsse. Ouçamos a Davi.

No Salmo trinta e três convida Davi a todos os fiéis para a mesa dos pães da proposição da lei da graça, como notam no mesmo lugar os Padres gregos, e diz assim: Gustate, et videte, quoniam suavis est Dominus (Sl. 33, 9): Comei e vede quão suave é o Senhor. — Não diz: comei e vede quão suave é o pão, senão: comei e vede quão suave é o Senhor, porque o Senhor é o pão que ali se come. E, ditas estas palavras, exclama o profeta: Beatus vir, qui sperat in eo: Oh! bem-aventurados homens que esperam nele! — Nesta exclamação e nesta conseqüência reparo. Suposto que Davi nos convida a comer a Deus no Sacramento, e gozar nele a suavidade do mesmo Deus: Gustate, et videte, quoniam suavis est Dominus, parece que havia de inferir e exclamar: Oh! bem-aventurados os que o comem, e não: bem-aventurados os que esperam nele: Beatus vir qui sperat in eo! Na bem-aventurança do céu, que consiste em ver a Deus, são bem-aventurados os que o vêem; logo, também na bem-aventurança da terra, que consiste em comer a Deus, são bem-aventurados os que o comem. Assim é. Pois, por que não diz Davi aqui: bem-aventurados os que comem, senão bem-aventurados os que esperam? Porque não só quis o profeta revelar o mistério, senão também declarar o motivo. Nas primeiras palavras: Gustate, et videte, quoniam suavis est Dominus, revelou o mistério, que é o Sacramento; nas segundas palavras: Beatus vir, qui sperat in eo, declarou o motivo que é a esperança. E com razão exclamou Davi, admirado mais ainda do motivo que do mistério, porque não pode haver fineza digna de maior admiração que, tendo Deus feito uma bem-aventurança universal para prêmio e satisfação de todas as outras virtudes, para prêmio e satisfação da esperança fizesse outra bem-aventurança particular. Para todas as outras virtudes uma bem-aventurança no céu; para a esperança, outra bem-aventurança na terra. Para todas, uma bem-aventurança futura; para a esperança, outra bem-aventurança presente. Para todas, uma bem-aventurança que consiste em Deus visto; para a esperança, outra bem-aventurança que consiste em Deus comido. Para todas, uma bem-aventurança que se goza sem esperança; para a esperança, outra bem-aventurança que só a gozam os que esperam: Beatus vir qui sperat in eo.

III – A mesa e a bem-aventurança prometidas no capítulo doze de São Lucas e a exposição de Santo Agostinho. A quem se fez esta promessa, e por que merecimentos.

Mas para que me detenho eu em referir profecias de Davi e visões de Ezequiel, se tenho o testemunho do mesmo Autor e instituidor do Sacramento, o Senhor que está presente? No capítulo doze de São Lucas, chama Cristo bem-aventurados a certos servos seus: Beati sunt servi illi[5]. E como se a bem-aventurança que lhes promete fosse incrível, confirma a mesma promessa com juramento, dizendo: Amen dico vobis, quod praecinget se, et faciet illos discumbere, et transiens ministrabit illis (Lc. 12, 37): De verdade vos digo que o Senhor se cingirá, e os fará assentar à mesa, e ele em pessoa os servirá a ela. Saibamos agora que mesa e que bem-aventurança é esta. A comum exposição dos intérpretes é que falou Cristo aqui da mesa e bem-aventurança do céu. Mas esta sentença se impugna fortemente com as mesmas palavras do texto: Praecinget, et transiens ministrabit illis. Deus no banquete da glória comunica-se aos bem-aventurados em toda a largueza de sua imensidade; logo, não se pode dizer daquele banquete que Deus se cinge e se estreita nele: Praecinget se. De mais, o banquete da glória é permanente, porque dura e há de durar por toda a eternidade; logo, não se pode dizer que é transeunte e de passagem: Et transiens ministrabit illis. Que banquete é logo este em que Deus se comunica não permanentemente, senão de passagem, e com a imensidade de sua grandeza não dilatada, senão abreviada e cingida? Santo Agostinho, como águia de mais aguda vista, diz que é o banquete do Santíssimo Sacramento: Quid nobis ministravit, nisi quod hodie manducamus et bibimus[6]?

Bastava que esta exposição fosse de Agostinho, para nós a venerarmos e recebermos; mas porque é singular, e o santo a não provou, eu a provo, E não só a demonstrarei com a propriedade do mistério, senão também com a mesma instituição dele. Que diz o texto? Praecinget se: que Cristo se cingirá? Isso fez Cristo antes da instituição do Sacramento: Praecinxit se[7], Que mais diz? Que ele o administrará por sua própria pessoa: Ministrabit illis? Isso fez Cristo na Ceia: Fregit, deditque discipulis suis[8]. Que mais? Que o fará em trânsito: Transiens? Assim foi: Sciens quia venit hora ejus, ut transeat ex hoc mundo ad Patrem[9]. E a mesma festa, que então celebrou Cristo, se chamava Phase, id est, transitus Domini[10]. E se confirma tudo com o texto da mesma parábola: Quando revertatur a nuptiis[11], porque se institui o Sacramento quando Cristo, depois de ter vindo a celebrar as bodas com a natureza humana, tornava outra vez para o céu. Isto quanto à história, e no modo, e tempo, e circunstâncias da instituição. E quanto ao mistério, não pode haver propriedade mais natural, porque Cristo ao Sacramento tem abreviada e estreitada sua grandeza, e reduzida não só ao círculo de uma hóstia, senão a qualquer parte dela: Praecinget se. E porque o Sacramento é viático de caminhantes, em que somente se nos dá Cristo enquanto dura a peregrinação e passagem desta vida: Et transiens. E, finalmente, porque ainda que o sacerdote pronuncia as palavras da consagração, Cristo é o principal ministro do sacrifício e do Sacramento como dizem todos os Padres e concílios: Ministrabit illis. Bem se prova logo a sentença de Santo Agostinho, e bem se demonstra que a mesa e bem-aventurança que o Senhor prometeu neste lugar, é a mesa e bem-aventurança, não do céu, senão de fora do céu, não da glória, senão do Sacramento.

Mas a quem se fez esta promessa, a quem se prometeu este prêmio, e por que merecimentos? Grão caso! Não se prometeu a outros, senão aos que esperam, nem por outros merecimentos, senão os da esperança. O mesmo texto o diz: Et vos similes hominibus expectantibus Dominum suam (Lc.12, 36): Sede semelhante, diz Cristo, aos servos que esperam por seu Senhor. — E, se assim o fizerdes, o mesmo Senhor vos porá à sua mesa, e vos servirá a ela, dando-se a si mesmo: Amen dico vobis, quod praecinget se, et faciet illos discumbere, et transiens ministrabit illis[12]. Oh! admirável fineza de Cristo! Oh! singular privilégio da virtude da esperança! Porque não podia dar à esperança o que ela espera no céu, deu aos que esperam na terra o que eles não esperavam nem podiam esperar. Esperavam os servos ou podiam esperar que seu Senhor lhes pusesse e os pusesse à mesa? Não, e isso é o que ele faz: Faciet illos discumbere. Esperavam ou podiam esperar que ele, por sua própria pessoa os servisse? Não, e ele é o que os serve: Et transiens ministrabit illis. Esperavam ou podiam esperar que se lhes desse a comer a si mesmo? Muito menos. Só esperavam e podiam esperar que se lhes desse a ver no céu; mas ele, antecipando o tempo, e satisfazendo o desejo da esperança sobre a mesma esperança, para que o pudessem comer na terra, desce do céu transubstanciado no pão: Hic est panis, qui de caelo descendit.

IV – O exemplo da experiência. A aparição aos dois discípulos de Emaús, que esperavam. O Sacramento, remédio da esperança.

Provado assim o que digo com a visão de Ezequiel, com a profecia de Davi e com a parábola do mesmo Cristo, se alguém ainda deseja o exemplo da experiência, também este nos não falta, Aparece Cristo em trajos de peregrino aos dois discípulos que na manhã da ressurreição caminhavam para Emaús, e assentado à mesa, para que o conhecessem, parte o pão e consagra-se nele: Et cognoverunt eum in fractione panis[13]. Não sei se reparais não só no admirável, senão muito mais no singular deste caso. A outros muitos apareceu o Senhor e se deu a conhecer neste mesmo dia, mas a nenhum com semelhante favor nem com tão extraordinário modo. Apareceu à Madalena, apareceu às outras Marias, apareceu a São Pedro, apareceu a todos os discípulos juntos, e comeu com eles; e, tendo aqui a mesma ocasião o Senhor de consagrar o pão e repetir o mistério do Sacramento, não o fez, parecendo supérflua a presença sacramental onde a natural estava com eles. Depois que todos passaram à Galiléia, também apareceu e comeu o Senhor com os discípulos muitas vezes, e sendo a mesa, como muitos querem, a de sua Mãe Santíssima, também ali não consagrou seu corpo. Pois, que merecimento concorreu nos dois discípulos de Emaús, ou que maior razão teve Cristo para se lhes dar a eles sacramentado, e não aos demais? Lembrai-vos do que diziam, e logo vereis que foi obrigação, e não favor; necessidade, e não excesso. O que diziam estes discípulos, dando a causa da sua tristeza, é que esperavam desconfiados: Nos autem sperabamus[14]. E como a sua esperança ia tão enfraquecida e quase desmaiada, com que lhe havia de acudir o Senhor, senão com o alimento da esperança, que é o Sacramento? Remédio foi logo, e não favor; necessidade, e não excesso. E notai que esta foi a primeira vez que o pão natural se consagrou em corpo do Cristo, depois de instituído o Sacramento na Ceia, para que desde logo se desse princípio ao fim por que se instituíra. Como o fim particular da instituição do Sacramento foi alentar e alimentar nesta vida a nossa esperança, por isso o mesmo Senhor que tinha instituído o remédio, quis também ser o primeiro que nos mostrasse a sua eficácia na primeira enfermidade que necessitava dele.

E para que se não duvide que o remédio da esperança foi a maior razão desta diferença, diz o evangelista que, no mesmo ponto em que o Senhor partiu e consagrou o pão, se fez juntamente invisível, e se escondeu aos olhos dos dois discípulos: Et ipse evanuit ab oculis eorum[15]. Mas se o fim desta consagração foi para que os dois discípulos o conhecessem, por que desaparece no mesmo ponto, e se esconde a seus olhos? Encobrir-se para se manifestar? Esconder-se para se dar a conhecer? Sim. E não podia ser de outro modo, porque, sendo mistério do Sacramento e remédio da esperança, nem a esperança remediada podia ver, nem o Senhor sacramentado podia ser visto. Se o sacramento fosse visto, deixava de ser sacramento, se a esperança o visse, deixava de ser esperança, e, porque verdadeiramente era sacramento, e sacramento para remédio da esperança, por isso foi não só conveniente, mas necessário que o Senhor se escondesse a seus olhos: Et ipse evanuit ab oculis eorum. Isto é o que sucedeu naquele grande dia, e isto o que todos estes oito dias tivemos presente: Cristo alentando e alimentando, não desmaios, mas saudades da esperança, escondido porém o Senhor e encoberto a nossos olhos: Et ipse evanuit ab oculis eorum, porque nem a esperança fora esperança, nem o Sacramento sacramento, se assim não fora. Goza pois a esperança por meio do Sacramento na terra o que não podia gozar no céu, e Deus, por meio do sacramento, desce do céu: Hic est panis, qui de caelo descendit, para que a esperança o possa gozar na terra.

V – Tanto que acabar a esperança, também o Sacramento se há de acabar O fim do maná e o fim do Sacramento. A natureza da esperança e a natureza do Sacramento. Por que instituiu Cristo o divino Sacramento de noite?

É tanto assim verdade que só enquanto durar a esperança há de durar o Sacramento, e tanto que acabar a esperança também o Sacramento se há de acabar. O Sacramento do Altar há de durar somente até o fim do mundo, conforme a promessa de Cristo: Ecce ego vobiscum sum usque ad consummationem saeculi[16]. E depois do mundo, por que não? Cristo não é sacerdote eterno? Sim, é, e Sacerdote eterno não segundo a ordem de Arão, que sacrificava cordeiros, senão segundo a ordem de Melquisedeque, que sacrificou em pão e vinho: Tu es Sacerdos in aeternum secundum ordinem Melchisedech. Melchisedech, proferens panem et vinum[17]. Pois, se o sacerdote é eterno, por que não será também eterno o sacrifício e o Sacramento? Porque o sacrifício foi instituído para propiciação do pecado, e o Sacramento para satisfação da esperança. E assim como no fim do mundo há de cessar o sacrifício, porque há de ter fim o pecado, assim no fim do mundo há de cessar o Sacramento, porque há de ter fim a esperança. Agora entendereis o mistério do maná quando se acabou, e por quê.

Enquanto os filhos de Israel caminhavam para a Terra de Promissão, chovia-lhes o maná todos os dias. Chegaram finalmente à terra desejada, começaram a comer os frutos dela, e diz o texto sagrado que no mesmo ponto cessou o maná: Defecit manna postquam comederunt de frugibus terrae, nec usi sunt ultra cibo illo filii Israel[18]. De maneira que, enquanto os filhos de Israel iam peregrinando pelo deserto, com os desejos e esperanças de chegar à pátria prometida, sustentavam-se do maná; porém, depois que chegaram ao fim de suas esperanças, aonde teve fim a esperança, teve também fim o maná: Defecit manna. E que maná é este, senão o Diviníssimo Sacramento? Ouçamos a Ruperto: Nunc pascimur ore manducando panem vitae aeternae; at ubi venerimus in terram viventium, ubi in sua specie videbitur Deus, jam in istis speciebus, sed in propria substantia videndo, manducabimus panem angelorum. Igitur postquam manducaverunt terrae fruges, defecit manna[19]. Sabeis porque cessou o maná quando os filhos de Israel entraram na Terra de Promissão? Foi porque também há de cessar o Sacramento, quando nós entrarmos na bem-aventurança da glória. Todos nesta vida somos peregrinos daquela pátria bem-aventurada: os que foram diante, já chegaram; nós imos caminhando agora, e assim caminharão depois os que nos sucederem, todos com esperança de a gozar. No fim do mundo estarão recolhidos à pátria todos os predestinados, e quando todos chegarem ao fim da sua esperança, e a mesma esperança tiver fim, também terá fim o maná, também terá fim o Sacramento. Se a esperança houvera de durar eternamente, também o Sacramento seria eterno; mas, como a esperança há de parar com a roda do tempo e do mundo, também o Sacramento há de durar somente até o fim do mundo: Usque ad consummationem saeculi. Tão vinculado deixou Cristo o pão do céu ao morgado da esperança.

E se alguém me perguntar a razão natural desta mútua correspondência e conexão, como necessária do Sacramento com a esperança e da esperança com o Sacramento, assim na duração como no fim, na natureza da mesma esperança e do mesmo Sacramento a acharemos. A esperança é um afeto que, suspirando sempre por ver, vive de não ver e morre com a vista. É teologia de São Paulo, falando da mesma esperança de que nós tratamos: Spes quae videtur, non est spes: nam quod videt quis, quid sperat (Rom. 8, 24)? A esperança que chegou a ver o sumo bem esperado, já não é a esperança, porque quem espera ainda não vê, e quem vê já não espera. — Esta é a natureza da esperança. E a do Sacramento, qual é? É a presença da humanidade e divindade de Cristo, encoberta debaixo daquele véu, o qual de tal maneira a faz invisível que, se se pudesse ou deixasse ver, já não seria sacramento. E como a esperança, sendo desejo de ver a Deus, já não seria esperança se o visse, e o Sacramento, tendo dentro de si a Deus, já não seria sacramento se o deixasse ver, daqui vem ser tal a conexão que há entre a esperança e o Sacramento, e a duração de um e outro, que quando Deus franquear a sua vista a todos os que a esperam, o que será no fim do mundo, necessariamente se hão de acabar a esperança e mais o Sacramento: a esperança, porque já veremos a Deus; o Sacramento porque já Deus não será invisível.

As estrelas vivem de noite e morrem de dia. O mesmo nos sucederá nesta noite da esperança, quando amanhecer o dia da glória. Não debalde instituiu Cristo o Divino Sacramento de noite, quando, por uma presença que nos levou da vista nos deixou muitas à fé. Mete-se o sol no ocidente, escurece-se o mundo com as sombras da noite, mas se olharmos para o céu, veremos o mesmo sol multiplicado em tantos sóis menores quantas são as estrelas sem-número, em que ele substitui a sua ausência, e não só se retrata, mas vive. Assim se ausentou Cristo de nós sem se ausentar, deixando-se abreviado sim no Sacramento, mas multiplicado em tantas presenças quantas são as hóstias consagradas em que o adoramos e temos realmente conosco. Nesta ausência, pois, e nesta noite escura da esperança, em que não vemos a Deus, que outra coisa é a Igreja com o Divino Sacramento multiplicado em todas as partes do mundo, senão um sol estrelado, esperando nós com Jó a que amanheça: Post tenebras, spero lucem[20]. Mas assim como com o mesmo nascimento do sol a noite acaba e as estrelas desaparecem, assim com a mesma vista clara de Deus, o Sacramento há de desaparecer e a esperança acabar.

Quando Cristo expirou na cruz, rasgou-se o véu do Templo, com que estava coberto o Sancta Sanctorum, em sinal que então se abriram as portas da glória, até ali fechadas, e no mesmo ponto se acabaram em Jerusalém e no limbo duas coisas notáveis: em Jerusalém, os sacrifícios da lei velha; no limbo, as esperanças dos patriarcas. Da mesma maneira, quando este mundo se acabar, entrarão no céu todos os predestinados a gozar a vista clara de Deus, e no mesmo ponto se acabará o Sacrifício e Sacramento da lei da graça, e a esperança de todos os que professamos a mesma lei. E este será o último testemunho, e a prova, então evidente, como agora certa, que para satisfação da mesma esperança tinha descido do céu aquele pão: Hic est panis, qui de caelo descendit.

VI – Como pode Deus invisível no Sacramento ser satisfação da esperança, que sempre anela ver? Onde reside a esperança: no entendimento ou na vontade? O Sacramento, penhor da confiança. A capa de Elias e o Sacramento. Simeão, penhor de Benjamim, e o Sacramento, penhor da esperança. Maior é o bem que se nos dá por alívio do desejo, que o mesmo bem desejado, A exclamação de Santo Epifânio.

Mas se a esperança é um afeto que sempre anela a ver, e está suspirando pela vista, e no Sacramento não vê nem pode ver o sumo bem que deseja, como pode o Sacramento e Deus invisível nele ser satisfação da esperança? Este é o último mistério e o mais escuro ponto do nosso discurso, para cuja inteligência será necessário desentranhar mais interiormente, e fazer uma exata anatomia da esperança. É questão célebre entre os teólogos, se a esperança reside no entendimento ou na vontade: os mais defendem que é ato da vontade, os menos que é ato do entendimento; mas a opinião mais provável, e para mim sem dúvida, é que a esperança compreende ambas as potências, firmando-se com um pé no entendimento e com outro na vontade. Por isso a esperança se chama âncora, nome que lhe deu S. Paulo: Ad tenendam propositam spem, quam sicut anchoram habemus animae tutam ac firmam[21]. E assim como a âncora, para estar segura, há de prender de uma e da outra parte, assim a esperança, para se firmar bem na alma, não só há de estar fundada em uma das potências, senão em ambas juntamente. É a esperança um composto de desejo e confiança: com a vontade deseja, e com o entendimento confia; se desejara sem confiança de alcançar, seria somente desejo; mas como deseja e confia juntamente, por isso é esperança. Daqui se segue que para a esperança estar inteiramente satisfeita, parte da satisfação há de pertencer ao desejo, e parte à confiança: ao desejo para alívio, à confiança para o seguro, e tudo isto tem a esperança no Sacramento. Tem seguro para a confiança, porque o Sacramento é penhor; tem alívio para o desejo, porque o mesmo Sacramento é posse: penhor enquanto o temos fechado naquela custódia; posse enquanto dentro do peito o temos em nós e conosco. Está dito tudo. Vamos à prova por partes.

Tem primeiramente a esperança no Sacramento seguro da confiança, porque é penhor da mesma glória que espera, como nos ensina a Igreja: Et futurae gloriae nobis pignus datur[22]. Mas quem pediu jamais, nem deu, nem ainda imaginou tal sorte de penhor? Quando Elias se houve de partir para o céu, pediu-lhe Eliseu o seu espírito dobrado (4 Rs. 2, 9), e como Elias lho não podia logo dar, prometeu-lho e deixou-lhe em penhor a sua capa. Drogo Hostiense reconheceu nesta capa e neste penhor o mistério do Sacramento, em que Cristo se nos encobre com a capa dos acidentes. Mas quanto vai de capa a capa e de penhor a penhor? Elias deixou a capa e levou a pessoa, e quando se ausenta a pessoa, não é bastante penhor a capa. Cristo deixou-nos em penhor a capa e mais a pessoa: a capa nos acidentes, a pessoa na substância. Pode haver mais seguro penhor? Só um penhor houve no mundo quase semelhante a este, mas muito desigual.

Quando José viu a seus irmãos no Egito, faltava naquele número Benjamim, que era sobre todos o que mais amava, e desejando com grandes ânsias vê-lo, prometeram os irmãos que lho trariam. Não se deu, contudo, por satisfeita a confiança de José com esta promessa; vieram a partido que em penhor de Benjamim ficasse Simeão preso e debaixo da chave: Frater vester unus ligetur in carcere[23], e assim se fez. Agora pergunto: Qual esperança podia estar mais satisfeita, e qual confiança mais segura: a de José ou a nossa? Já me arrependo de o ter perguntado, porque é agravo de tão soberano e nunca imaginado penhor. A confiança de José, muito segura podia estar, porque tinha em custódia e debaixo de chave um irmão em penhor de outro irmão; mas os seguros da nossa confiança são incomparavelmente muito mais firmes, porque o penhor da promessa, de quem temos as chaves, é o mesmo prometido, A esperança de José estava muito confiada, porque o penhor de Benjamim era Simeão; a nossa confiança está muito mais segura, porque em penhor de Benjamim tem o mesmo Benjamim. Que espera a nossa esperança? Ver a Deus? Pois em penhor de ver a Deus temos debaixo da chave ao mesmo Deus, e em forma de pão e sustento nosso, para maior firmeza. Se Deus se dá a comer, não se dará a ver? Se Deus faz de si prato, não fará de si espelho? Segura está a confiança.

E se por parte da confiança está tão satisfeita a esperança no penhor, por parte do desejo não deve estar menos satisfeita no alívio. Santo Tomás chamou ao Diviníssimo Sacramento: Solatium singulare: alívio singular. E por que é singular este alívio? Discretamente por certo, porque nas outras esperanças e nos outros desejos o alívio sempre é menor que o bem desejado; aqui o mesmo bem desejado é menor que o que se nos dá por alívio. Qual é o bem que a esperança deseja? A vista de Deus no céu. Qual é o alívio que dá Cristo a essa esperança? O Sacramento do altar na terra. Logo, maior é o bem que se nos dá por alívio do desejo, que o mesmo bem desejado, porque mais se dá Deus a quem comunga, do que se comunica no céu a quem o vê. Os bem-aventurados no céu vêem a Deus mas não o compreendem, de maneira que lhes comunica Deus o que vêem, mas o que não compreendem não lho comunica; porém, no mistério do Sacramento o que o bem-aventurado vê e o que o bem-aventurado não compreende, tudo recebe quem comunga. Diremos logo que a comunhão é compreensão de Deus? Por este modo não me cansara muito em o dizer, mas quero que o diga S. Epifânio.

Concebeu a Deus a Virgem Maria — que na maior solenidade do Filho, não era bem que nos faltasse a Mãe, e mais em sua casa — concebeu a Deus a Virgem Maria em suas puríssimas entranhas, e admirado da grandeza e profundidade do mistério, exclamou assim S. Epifânio: O uterum caelo ampliorem, qui incomprehensum Deum vere comprehensum portasti! Oh! ventre virginal maior que o céu, pois verdadeiramente compreendeste em ti o que no céu é incompreensível! — Note-se muito a palavra vere: não só compreendido de qualquer modo, senão verdadeiramente compreendido: Vere comprehensum. Mas saibamos. A Virgem Senhora nossa no céu compreende a Deus? Não, porque ainda que o lume da glória da Senhora e a visão beatífica com que vê a Deus excede em supremíssimo grau à de todos os bem-aventurados, contudo não compreende a Deus, porque Deus, por sua infinita perfeição e essência é incompreensível a todo o conhecimento criado. Pois, se a Mãe de Deus não compreende a Deus no céu quando o vê, como diz Epifânio que o compreendeu quando o concebeu e trouxe em suas entranhas? Falou o grande Padre como tão grande teólogo, Para compreender a Deus é necessário vê-lo todo e totalmente: totum et totaliter. Assim o definem as três maiores escolas da Teologia, Santo Tomás, Scoto, Soares. E como os bem-aventurados, entrando também neste número a Virgem Maria, ainda que vêem a todo Deus, não o vêem totalmente, por isso não o compreendem. Agora pergunto: e quando a Virgem Maria concebeu e trouxe a Deus em suas entranhas, teve-o nelas todo e totalmente? Sim. Pois por isso diz S. Epifânio que o compreendeu verdadeiramente: Vere comprehensum portasti, não por compreensão intelectual, senão por compreensão corporal, ao modo que S. Paulo disse da humanidade de Cristo: In ipso inhabitat omnis plenitudo divinitatis corporaliter[24].

Isto suposto, diga-me agora a nossa fé: Deus no Sacramento está menos inteiramente do que esteve nas entranhas de sua Mãe? Não, por certo. Todo e totalmente nas entranhas de Maria, todo e totalmente no Sacramento. Pois se Maria, porque teve a Deus todo e totalmente no peito, o compreendeu, quem o comunga e o recebe todo e totalmente no Sacramento, por que o não compreende? É verdade que o peito de Maria é sem comparação mais capaz, sem comparação mais puro e sem comparação mais digno; mas como douta e gravemente notou o Padre Soares, a esfera do sol, que é a quarta, tanto a compreende o quinto céu como o oitavo, ainda que o oitavo seja maior e esteja matizado de inumeráveis estrelas, e o quinto não. E se Deus no Sacramento se compreende, e no céu não se compreende, se Deus no Sacramento se dá todo e totalmente ao peito dos que o comungam, e no céu se dá todo, mas não totalmente, aos olhos dos que o vêem, vede se tem a esperança mais no alívio, do que espera no desejo. Satisfeita está logo a esperança, e mais que satisfeita, tanto pela parte da confiança, no seguro, como pela parte do desejo, no alívio, pois para um tem o penhor, e para outro a posse do pão que desceu do céu: Hic est panis, qui de caelo descendit.

VII – O que importa é que Deus esteja também satisfeito da nossa esperança. As esperanças de Davi. Deus desce para nos levantar; os homens derrubam-nos para subir. O sacramento às avessas dos poderosos. A queixa de Jó. Conclusão do profeta Jeremias. A esperança e o advento da glória de Deus.

Estas são — voltemos agora sobre nós — estas são as finezas soberanas com que Deus no Sacramento satisfaz a nossa esperança, mas não sei se esta satisfação é recíproca. A nossa esperança está satisfeita de Deus; o que importa é que Deus esteja também satisfeito da nossa esperança. E como será isto? A única e verdadeira satisfação que a nossa esperança pode dar a Deus é pôr-se toda nele. Se não esperamos só em Deus e de Deus, que esperamos e em quem esperamos? Esperou Davi em Saul como rei, esperou em Jônatas como amigo, esperou em Absalão como filho, e todas estas esperanças, ou lhe mentiram ou lhe faltaram, porque eram esperanças postas em homens. Por isso tomou Davi duas resoluções, ambas dignas de quem ele era, como homem e como profeta. Como homem, de esperar só em Deus: Mihi autem adhaerere Deo bonum est: ponere in Domino Deo spem meam[25]; como profeta, de pregar a todo o homem que ninguém ponha a sua esperança e confiança em homens, por grandes que sejam ou pareçam: Nolite confidere in principibus in fillis hominum, in quibus non est salus[26]. Para prova deste desengano, não quero outra consideração mais que a do nosso texto: Hic est panis, qui de caelo descendit. Quem bem considerar estas palavras pelo direito e pelo avesso, verá que só Deus é merecedor de que se ponham nele todas as esperanças, e que todo o homem é indigno de que outro homem espere nele.

Primeiramente diz o nosso texto que desceu Deus: descendit. E donde desceu? De caelo: desceu do céu, desceu da glória, desceu do trono altíssimo e imenso de sua majestade, e não só desceu uma vez na Encarnação, para nos remir, mas desce infinitas vezes todos os dias no Sacramento, para nos alimentar, para nos remediar, para nos enriquecer, para nos divinizar. Que homem há que desça um degrau de sua autoridade, ou de sua conveniência, ou de sua vaidade, por amor de outro homem? Deus desce para vos levantar, e os homens derrubam-vos para subir. Que homem há que não derrube, se pode, o que está mais acima, para fazer dele degrau à sua fortuna? Se fordes como Abner, tereis um amigo como Joab, que com um abraço vos tire a vida para suceder no vosso ofício; se fordes como Mefiboset, tereis um criado como Ciba, que vos levante um falso testemunho para herdar a vossa fazenda; se fordes como Esaú, tereis um irmão como Jacó, que com engano vos furte a bênção para entrar no vosso morgado; se fordes como Davi, tereis um filho como Absalão, que rebele contra vós os vassalos, para pôr na cabeça a vossa coroa; e se pudésseis ser como Cristo, não vos faltaria um discípulo como Judas, que vos vendesse pelo menor interesse, e vos entregasse nas mãos de vossos inimigos, e vos pusesse em uma cruz. Deste homem disse o mesmo Cristo: Homo pacis meae, in quo speravi. magnificavit super me supplantationem (Sl. 40, 10): O homem em que esperei me fez a maior traição. — Esperai lá, e fiai-vos de homens, com quem não vale a obrigação, nem a amizade, nem o sangue, nem a mesma fé para vo-la guardarem. Só vos não fazem mal, enquanto não esperam algum bem da vossa ruína. O primeiro e o melhor homem deu com todo o gênero humano através, só por subir aonde não podia, e ainda ele e nós estivéramos caídos se Deus, para nos levantar, não descera: descendit.

E como desceu? Em pão: Panis, qui de caelo descendit. Deus faz-se pão para vos sustentar, e os homens fazem de vós pão para vos comer. Não sou eu o que o digo. Quando Josué e Caleb foram por espias à terra dos cananeus, as novas que trouxeram e as alvíssaras que pediram aos seus foi que os podiam comer como pão: sicut panem eos possumus devorare (Núm. 14, 9). Assim o disseram e assim o fizeram os hebreus. Comeram-lhes as fazendas, comeram-lhes as cidades, comeram-lhes as liberdades, comeram-lhes as vidas. Mas enfim, eram diversas nações, e inimigos contra inimigos. O pior é que na mesma nação, no mesmo povo, e talvez na mesma família se comem os homens uns aos outros. Este é o pão usual, e esta a queixa de Deus por Davi: Que devorant plebem meam sicut escam panis (Sl. 13, 4): o meu povo, — a quem eu me dei em pão — vejo que mo comem como pão. — Nota aqui Genebrardo que fala o profeta dos grandes e dos poderosos: loquitur de magnatibus. Os pequenos não comem nem podem comer os grandes; os grandes, porque podem, são os que comem os pequenos. Por isso os povos estão tão despovoados e tão comidos, e os comedores tão cheios e tão fartos.

Parece que competiu a potência e maldade humana coma onipotência e bondade divina a fazer outro Sacramento às avessas do seu. O Todo-poderoso converteu a substância do pão em substância de carne e sangue, para que comêssemos seu corpo; os todo-poderosos convertem a substância da carne e sangue do povo em substância de pão, para o comerem eles. Ouçam os que isto padecem a Jó, para que peçam a Deus semelhante paciência: Quare persequimini me sicut Deus, et carnibus meis saturamini (Jó 19, 22)? Por que me perseguis como Deus, e vos fartais de minha carne? — Reparai-me naquele sicut Deus. Diz Jó que seus perseguidores se fartavam da sua carne, e que nisso se queriam fazer semelhantes a Deus. Pois, semelhantes a Deus em se fartarem da carne de Jó? Onde está aqui o sicut Deus? No milagre da transubstanciação, o qual ainda não tinha nome, e lho deu o mistério do Sacramento. Só Deus pode converter uma substância em outra. E nisto são perversamente como Deus os que da substância alheia fazem substância própria, e da carne dos pobres, pão. Tais eram os perseguidores de Jó. Assim como Deus converte a substância de pão na de sua carne, para que o comamos, assim eles, às avessas, convertiam a substância e carne de Jó em pão para o comerem. E quem eram estes, para que melhor conheçamos o que são homens? Eram os mais obrigados a Jó, eram os de quem ele mais se fiava, eram os da sua família e da sua casa: Dixerunt viri tabernaculi mei: quis det de carnibus ejus, ut saturemur[27]? Eis aqui o que chegam a fazer os homens, para que vejais o que se pode esperar deles, e se está mais bem posta, a esperança em quem se vos dá a comer, ou em quem vos come.

A conclusão seja a que tomou o profeta Jeremias em uma e outra consideração: Maledictus homo, qui confidit in homine (Jer. 17, 5): maldito seja o homem que confia em homem; Benedictus vir, qui condifit in Domino (Jer. 17, 7): bem-aventurado o homem que confia em Deus. No dia do último desengano, a uns se dirá: ite, maledicti[28], e estes serão os loucos e mal-aventurados que puseram a sua esperança nos homens: maledictus homo, qui confidit in homine. A outros pelo contrário se dirá: Venite, benedicti[29], e estes serão os sisudos e bem-aventurados, que puseram a sua esperança em Deus: Benedictus vir, qui confidit in Domino.

Não me parece que haverá nenhum homem tão enganado consigo e com os homens que, enquanto pode escolher, não escolha antes a sorte dos que esperam em Deus e só em Deus. Então verão que se Deus fez uma bem-aventurança nesta vida para a esperança, ainda tem guardada outra bem-aventurança na outra vida, para os que nele esperam: expectantes beatam spem, et adventum gloriae magni Dei[30]: Duas coisas diz S. Paulo nestas palavras dignas de grande ponderação: uma presente, outra futura. De presente diz que a nossa esperança já é bem-aventurada: Beatam spem. E que bem-aventurança é esta, senão a que está encerrada, como vimos, no Diviníssimo Sacramento, bem-aventurança própria da esperança, e própria da vida presente? A que o Apóstolo promete de futuro ainda a declarou por termos de maior reparo, porque diz que a bem-aventurança que está por vir é a glória de Deus grande: Et adventum gloriae magni Dei. Deus não é sempre igual, sempre grande, sempre o mesmo? Pois, que glória de Deus grande é esta? Há uma glória de Deus grande, e outra glória de Deus pequeno? Sim. A glória de Deus no Sacramento, é glória de Deus pequeno, porque no Sacramento estreitou, encolheu, abreviou Deus a sua grandeza a tão pequena esfera, como a daquela hóstia; a glória de Deus no céu é glória de Deus grande, porque lá se nos mostrará a grandeza e majestade de Deus em toda a largueza infinita de sua imensidade. Cá encolhida e abreviada para poder caber e entrar em nós, lá dilatada e estendida, para que, não podendo caber em nós, nós entremos nela: intra in gaudium Domini tui[31]. Quem haverá logo,, que podendo ser bem-aventurado nesta vida, e bem-aventurado na outra, só com esperar em Deus, não espere só nele? Esperemos só em Deus, renunciando de uma vez e para sempre as esperanças de todas as criaturas, e enquanto não subirmos ao céu a gozar a bem-aventurança que nos espera, goze a nossa esperança a bem-aventurança que tem presente no pão que desceu do céu: hic est panis, qui de caelo descendit.

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[1] Aqui está o pão que desceu do céu (Jo. 6, 50).
[2] A minha carne verdadeiramente é comida (Jo. 6, 56).
[3] Fica em mim, e eu nele (Jo. 6, 57).
[4] Fez-me voltar depois para o caminho da porta do santuário, que estava fechada. E o Senhor me disse: Esta porta estará fechada. O príncipe mesmo se assentará nela (Ez. 44, 1 ss).
[5] Bem-aventurados são os tais servos (Lc. 12, 38).
[6] Que é o que nos foi ministrado, senão o que hoje comemos e bebemos?
[7] Cingiu-se (Jo. 13, 4).
[8] Partiu-o e deu-o a seus discípulos (Mt. 26, 26).
[9] Sabendo que era chegada a sua hora de passar deste mundo ao Pai (Jo. 13, 1).
[10] Páscoa, isto é, a passagem do Senhor (Êx. 12, 11).
[11] Ao voltar das bodas (Lc. 12, 36).
[12] Na verdade vos digo que ele se cingirá, e os fará sentar à mesa, e, passando por entre eles, os servirá (Lc. 12, 37).
[13] Conheceram a Jesus ao partir do pão (Lc. 24, 36).
[14] Ora, nós esperávamos (Lc. 24, 21).
[15] Ele desapareceu-lhes de diante dos olhos (Lc. 24, 31).
[16] Estai certos de que eu estou convosco até a consumação dos séculos (Mt. 28, 20).
[17] Tu és sacerdote eternamente, segundo a ordem de Melquisedeque (Sl. 109, 4).
— Melquisedeque, oferecendo pão e vinho (Gên.14,18).
[18] E depois que eles comeram do fruto da terra, cessou o maná, nem os filhos de Israel usaram mais deste alimento (Jos. 5, 12).
[19] Agora nos alimentamos comendo o pão da vida eterna, porém, quando chegarmos à terra dos vivos, onde Deus será visto não sob estas espécies, senão em sua própria substância, comeremos o pão dos anjos. Por isso, depois que comeram os frutos da terra, cessou o maná.
[20] Depois das trevas espero a luz (Jó 17, 12).
[21] Em alcançara esperança proposta, a qual temos como uma âncora segura e firme da alma (Hebr. 6, 18 s).
[22] E nos é dado um penhor da glória futura.
[23] Um vosso irmão fique em ferros no cárcere (Gên. 42,19).
[24] Nele habita toda a plenitude da divindade corporalmente (Col. 2, 9).
[25] Mas para mim é bom unir-me a Deus e pôr no Senhor a minha esperança (Sl. 72, 28).
[26] Não queirais confiar nos príncipes e nos filhos dos homens, em que não há salvação (Sl. 145, 2 s).
[27] Na Vulgata: Se não disseram as pessoas da minha casa: Quem nos dará da sua carne, para nos fartarmos dela (Jó 31, 31).
[28] Apartai-vos de mim, malditos (Mt. 25, 41).
[29] Vinde benditos (Mt. 25, 34).
[30] Aguardando a esperança bem-aventurada, e a vinda gloriosa do grande Deus (Tit. 2,13).
[31] Entra no gozo de teu Senhor (Mt. 25, 21).

Fonte: https://www.literaturabrasileira.ufsc.br/documentos/?action=download&id=49886