Exortação em véspera do Espírito Santo

EXORTAÇÃO I EM VÉSPERA DO ESPIRITO SANTO,

Na Capela interior do Colégio.

Apparuerunt dispertitae linguae tanquam ignis, seditque supra singulos eorum[1].

I – A traça maravilhosa com que a misericórdia divina, sobre as ruínas de uma fábrica que sua mesma justiça tinha derrubado, levantou e edificou a maior obra que nunca intentaram os homens. A torre de Babel e a torre da Igreja Católica. A grande diferença que há em obrar com ciência das línguas ou com ignorância delas.

Apareceram sobre os apóstolos línguas de fogo partidas, as quais se assentaram sobre cada um deles. Este foi o sinal visível com que o Espírito Santo desceu sobre o Colégio Apostólico, e esta a traca maravilhosa com que a misericórdia divina, sobre as ruínas de uma fábrica que sua mesma justiça tinha derrubado, levantou e edificou a maior obra que nunca intentaram os homens. A maior obra que intentou a ambição e vaidade humana foi aquela que depois se chamou Torre de Babel, tão alta nos seus pensamentos que chegasse ate o céu: Faciamus nobis turrim, cujus culmen pertingat ad caelum[2]. — E Deus, que nunca sofreu altivezas muito menores, que meio tomaria para desfabricar aquela máquina, para desbaratar aqueles intentos, e para fazer que antes de ser torre fosse ruína? Venite, confundamus linguam eorum[3]. — Aqueles homens, que eram quantos então havia no mundo, todos falavam uma só língua, e esta língua confundiu Deus de tal maneira que de repente se começaram a falar e ouvir em toda aquela multidão de trabalhadores tantas línguas quantos eram os mesmos homens. Todos depois disto falavam, e todos ouviam, mas, como bem notou Filo Hebreu, todos no mesmo tempo ficaram surdos e mudos. Surdos, porque falando nenhum percebia o que diziam.

Tal foi o delito e tal o castigo antigamente; mas hoje estamos na véspera de um dia em que, trocada a justiça em misericórdia, querendo Deus edificar outra torre própria sua, do mesmo delito tomou a traça, e do mesmo castigo os instrumentos. O delito daqueles homens foi quererem edificar uma torre que chegasse ate o céu, e Deus, seguindo a mesma traça e o mesmo desenho, não se contentou com menos que com edificar outra torre, que não só chegasse ao céu, mas levasse e metesse no céu os mesmos autores daquele pensamento. Esta torre é a Igreja Católica, a qual desceu a fundar o Espírito Santo por sua mesma pessoa, e na qual se verifica propriissimamente o cujus culmen pertingat ad caelum — porque, sendo militante na terra, a juntamente triunfante no céu. E para que a segunda circunstancia fosse tão maravilhosa como a primeira, assim como do delito tomou Deus a traça da sua obra, assim do castigo tomou os instrumentos dela, fundando e levantando uma torre com os mesmos instrumentos com que tinha abatido a outra. Quais foram os instrumentos com que Deus abateu e confundiu a Torre de Babel? Foram as novas e várias línguas em que dividiu e multiplicou aquela língua universal e única que todos falavam. Pois, por isso desceu o Espírito Santo sobre os apóstolos em forma também de línguas, muitas e repartidas: Apparuerunt dispertitae linguae (At. 2, 3) — para que por este modo, assim como, confundindo as línguas nos edificadores da torre, impediu a obra que eles intentavam, assim, infundindo as línguas nos apóstolos e pregadores da fé, fundasse, estabelecesse e propagasse a sua, que era a Igreja.

Qual fosse o numero das línguas cuja notícia receberam os apóstolos não se pode definir ao certo. Só se sabe que foram tantas, nem mais nem menos, quantas originalmente tiveram seu princípio na Torre de Babel. Na Torre de Babel nasceram, dali se dividiram em várias nações, depois se estenderam por todo o mundo, e ultimamente se tornaram a ajuntar no Cenáculo de Jerusalém, sendo tão milagrosa esta última união como tinha sido milagrosa sua primeira origem. E se alguém perguntar como, sendo estas e aquelas línguas em tudo as mesmas, tiveram tão diversos e contrários efeitos, que umas impediram e fizeram parar a obra, e outras a adiantaram e fizeram crescer tanto, a razão a manifesta. As línguas dos edificadores da torre eram línguas que os homens ignoravam e não entendiam, e essas mesmas línguas no Cenáculo de Jerusalém eram línguas que os apóstolos entendiam, e de que tiveram inteira e perfeita ciência, e essa é a grande diferença que há em obrar com ciência das línguas ou com ignorância delas. Todos os homens quantos havia no mundo, com ignorância das línguas, não puderam acrescentar a torre uma pedra sobre outra pedra; e doze homens no Cenáculo, com ciência das línguas, puderam fundar a Igreja, e estendê-la por todo o mundo: Spiritus Domini replevit orbem terrarum, et hoc quod continet omnia scientiam habet vocis. — Note-se muito o scientiam habet vocis[4].Dá o texto a razão e modo com que o Espírito Santo encheu o mundo. Hoc quod continet omnia — é o mundo, que contém e abraça todas as coisas; e porque o mundo teve a ciência das vozes, que foi quando os apóstolos receberam o dom das línguas, esse foi o modo e o meio com que eles encheram o mundo do Espírito Santo, ou o Espírito Santo por eles encheu o mundo: Spiritus Domini replevit orbem terrarum.

II – Quão importante coisa e, e quão totalmente necessária a todos os que imitam o espírito apostólico e se ocupam das almas, a ciência e inteligência das línguas. As línguas de fogo dos apóstolos e o fogo das línguas dos missionários. A nova torre de Santo Inácio e o estudo das línguas.

De todo este discurso se convence quão importante coisa é, e quão totalmente necessária a todos os que imitam o espírito apostólico e se ocupam na conversão das almas, a ciência e inteligência das línguas. Mas se o dom das línguas se acabou com a primitiva Igreja, e passou com os fundadores dela, que faremos nós, empenhados na mesma obrigação, sem esta ajuda de custo, e mandados trabalhar na mesma obra, sem Deus nos dar os mesmos instrumentos? Santo Agostinho dizia a Deus: Da quod potes, et jube quod vis: Dai vós, Senhor, o que podeis, e mandai o que quiserdes. — Mas Deus a nós manda-nos o que quer, e não nos dá o que pode, porque nos não dá o que deu aos apóstolos. Respondo que sim, dá, porque se aos apóstolos deu as línguas de fogo, aos que tem espírito apostólico dá o fogo das línguas. No mesmo texto o temos, coisa muito digna de se advertir: Apparuerunt dispertitae linguae tanquam ignis, seditque supra singulos eorum (At. 2, 3): Apareceram sobre os apóstolos línguas de fogo, o qual fogo se assentou sobre eles. — De maneira que não foram as línguas as que se assentaram, senão o fogo. E por quê? Porque as línguas vieram de passagem, e passaram com a primitiva Igreja; porém o fogo das mesmas línguas esse não passou, mas permaneceu e ficou de assento: Sedit. E que fogo de línguas a este? É o zelo e fervor ardente que tem e sempre tiveram os herdeiros do espírito apostólico de saber, estudar e aprender as línguas estranhas, para com elas pregar o Evangelho, propagar a fé e amplificar a Igreja.

E se não, vejamos quando se acendeu este fogo das línguas naquele grande homem ou gigante do fogo, por isso chamado Inácio. Tinham-se descoberto em seu tempo no mundo dois novos mundos, um oriental, na Ásia, outro ocidental, na América; tinham aparecido novos homens e novas nações, tão diferentes nas línguas como nas cores; tinha-se ouvido a fama de novas gentilidades, não conhecidas nem nomeadas nos tempos dos apóstolos: e que faria o fogo que ardia naquele vastíssimo peito para abraçar e abrasar a todas? O que fez Santo Inácio foi fundar e levantar outra terceira torre, também fornecida e armada de todas as línguas, para que, instruídos repartidamente seus filhos em todas, pudessem ensinar e converter com elas todas as mesmas nações. A primeira torre foi de Nembrot, em que se confundiram as línguas; a segunda torre foi do Espírito Santo, em que se infundiram; a terceira torre é a de S. Inácio, em que não se confundem nem se infundem. Não se confundem, porque se aprendem distinta e ordenadamente; nem se infundem, porque não são graça gratis data, como o dom das línguas, mas adquirida e comprada a preço de muito estudo e grande trabalho, e por isso com muitos e grandes merecimentos.

Ouçamos ao fundador da mesma torre. — Nossa vocação — diz Santo Inácio no princípio de seu instituto — é para discorrer e fazer vida em qualquer parte do mundo onde se espera maior serviço de Deus e ajuda das almas. — E para ajudar essas almas, que meios ou que instrumentos nos deu e nos ensinou a providência do mesmo Santo e sapientíssimo patriarca? A sua regra o diz: — Para maior ajuda dos naturais da terra em que residem, todos aprendam a língua dela. — Reparemos bem naquelas duas cláusulas universais: todos e em qualquer parte. E que parte ou partes do mundo, e que terra ou terras são estas onde residem? O Japão, a China, o Malabar, o Mogor, o México, o Peru, o Brasil, o Maranhão, e, se descobrir a terra incógnita, também essa. E quem são os que hão de aprender as línguas? Todos, diz, sem exceção de pessoa. Pudera dizer que aprendessem a língua alguns, ou a maior parte, mas não diz senão todos. Os estudantes e os professos, os irmãos e os padres, os discípulos e os mestres, os moços e os velhos, os súditos e os superiores, sem que haja ofício ou ocupação alguma tão importante que os excetue desta, porque ela é a maior, a mais importante, e a de que depende o fim de toda a companhia. Olhemos para o Cenáculo dos apóstolos. Havia no Cenáculo dos apóstolos algum o qual, além da língua própria e natural, não estivesse habilitado com a ciência das estranhas? Nenhum. Supra singulos eorum. — Todos e cada um sabiam as línguas, todos e cada um, falando a nosso modo, eram línguas. Língua S. Pedro, que era o prelado, e línguas os outros, que eram os súditos; língua Santo André, que era o mais antigo, e língua S. Matias, que era o mais moderno; língua S. João, que era o maior teólogo, e língua S. Filipe, que era o menos douto; língua S. Mateus, exercitado no telônio, língua S. Bartolomeu — que era Natanael — versado nas escolas; e línguas os demais, tirados da barca a do remo: enfim todos, porque todos haviam de ser pescadores de almas.

III – O título da cruz depois da propagação do Evangelho. O desinteresse dos novos membros da Companhia pelo estudo da língua geral do Brasil. O fogo das línguas e o fogo sagrado do Templo de Jerusalém. As cinco novas línguas que substituíram a língua geral do Brasil.

Tal era o Cenáculo dos apóstolos em Jerusalém, e tal quer Santo Inácio que seja em qualquer parte do mundo todo o Colégio da Companhia de Jesus. O título que o mesmo Jesus teve na cruz estava escrito nas três línguas que só então se não chamavam bárbaras: a hebréia, a grega e a latina, e estas três são as que se professam nas universidades da Europa, e nas quais a tão eminente a Companhia, como se vê na estampa de seus escritos. Porém, depois que o Calvário se estendeu a todo o mundo, e nele se arvorou o estandarte do crucificado, o título da cruz já é composto de todas as línguas, por bárbaras e incógnitas que sejam. Quão praticada fosse a do Brasil nesta nossa província bem o testifica a primeira arte ou gramática dela, de que foi autor e inventor o grande Anchieta, e com razão se pode estimar por um dos seus milagres. Bem o testificam as outras que depois saíram, mais abreviadas, e os vocabulários tão copiosos, e o catecismo tão exato em todos os mistérios da fé, e tão singular entre quantos se tem escrito nas línguas políticas, que maro parece ordenado para fazer de cristãos teólogos, que de gentios cristãos. Sobretudo o testifica o mesmo uso, de que nos lembramos os velhos, em que a nativa língua portuguesa não era mais geral entre nós que a brasílica. Isto é o que alcancei, mas não a isto o que vejo hoje, não sei se com maior sentimento ou maior admiração. Deu-nos Deus um rei — que ele guarde — tão herdeiro de seus gloriosos progenitores, e de ânimo tão pio e verdadeiramente apostólico, que entre a grandeza e multidão de seus cuidados, o maior de todos é a propagação da fé, fiando-a toda neste Estado, e muito mais no do Maranhão, ao zelo e doutrina da Companhia. Deu-nos Deus no mesmo tempo por universal pai e geral dela ao mais insigne missionário deste século em Espanha, cujo espírito, não atado a Roma, como o de S. Paulo, se nos faz presente por suas cartas, em todas as quais, com o fogo de Santo Inácio, mais nos acende que exorta as Missões. E que direi eu ao Colégio da Bahia, ou que me dirá ele a mim, quando nesta grande comunidade a já tão pouco geral a língua chamada geral do Brasil, que são muito contados aqueles em que se acha? Direi porventura, ou por grande desgraça, que emudeceram ou se diminuíram as línguas porque se apagou ou esfriou o fogo?

Se assim tivesse sucedido, não seria maravilha, que tão fortes são os poderes do tempo, ainda contra as coisas mais santas. Quando o povo de Israel foi desterrado para a Pérsia, retiraram os sacerdotes o fogo santo que ardia no Templo, e o esconderam na cova de um vale secreto, onde ficasse guardado. E diz o texto que daí a muitos anos — Cum autem praeterissent anni multi[5] — indo os descendentes dos mesmos sacerdotes a buscar aquele sagrado depósito, não acharam fogo, senão uma pouca de água grossa: Non ínvenerunt ignem, sed aquam crassam (2 Mac. 1, 20). — De sorte que o que dantes tinha sido fogo ardente agora era água fria e grossa: fria, porque se tinha apagado o calor, e grossa, porque se tinha perdido a fineza. Eu bem conheço que uma das maiores finezas que se podem oferecer a Deus, abaixo de dar a vida, a aplicá-la ao martírio ou ao dificultosíssimo estudo das línguas bárbaras, que tão trabalhosamente se chegam a entender e falar. Assim o arguiu o mesmo Deus, e quase lançou em rosto ao profeta Ezequiel, quando, porque mostrava temer a missão a que o tinha destinado, lhe disse: Non enim ad populum profundi sermonis et ignotae linguae tu mitteris[6]. — Diremos, pois, que se tem engrossado as antigas finezas, ou se tem apagado, e, quando menos, esfriado este fogo das línguas na nossa Província, por se ver menos cultivada hoje nela a língua geral do Brasil? Não digo, nem se pode dizer tal coisa, pois é certo que a diminuição de uma língua tem sucedido cinco: a portuguesa, com que por tantos meios se insiste na reformação dos portugueses; a etiópica, com que só nesta cidade se doutrinam e catequizam vinte e cinco mil negros, não falando no infinito número dos de fora; as duas de tapuias, com que no mais interior dos sertões ainda remotíssimos se tem levantado as seis novas cristandades dos paiaiás e quiriris, nem, finalmente, a própria brasílica e geral, com que nas doze residências mais vizinhas ao mar, em quatrocentas léguas de costa, doutrina a Companhia, e conserva as relíquias dos índios deste nome, que já estariam acabados, se ela os não conservara.

IV – A razão por que novamente ordenou o Geral da Companhia que na Província do Brasil se torne a observar o estilo antigo, e que o estudo da língua preceda a todos os outros. Como se pode fazer um perfeito missionário de um sacerdote acompanhado de um irmão. Moisés e seu irmão Arão.

Tudo isto não se pode negar que a fogo de línguas. E se esta última se diminuiu, também confesso que nessa mesma diminuição se não faltou a regra de Santo Inácio, a qual, onde manda que se aprenda a língua dos naturais, acrescenta: Salvo se lhes servisse mais a sua própria. — E como no Brasil se foi diminuindo o número dos índios, e crescendo o dos portugueses, com prudência não alheia de nosso instituto se limitou o estudo da língua da terra, para que as idades, em que ela mais facilmente se aprende, se aplicassem desde logo ao estudo da Retórica, Filosofia e Teologia, e mais depressa se formassem os operários que necessitam de maiores letras. Porém, na ocasião presente, em que as obrigações desta Província se tem acrescentado a conquista universal do novo mundo do Maranhão e grande mar do Rio das Amazonas, não há dúvida que a língua geral do Brasil, como porta por onde só se pode entrar ao conhecimento das outras, nos faz a grande falta e aperto em que nos vemos. Esta é a razão por que novamente ordenou nosso Reverendo Padre que nesta Província se torne a observar o estilo antigo, e que o estudo da língua preceda a todos os outros, sem que a eles possa passar algum da Companhia, sem primeiro ser rigorosamente examinado e aprovado nela. Mas quando se começarão a lograr os efeitos deste tão acertado decreto? As enfermidades presentes não se curam bem com remédios futuros, e mais em matéria de salvação de almas, em que senão devem perder instantes. Tão de repente no dia de amanhã acudiu as almas S. Pedro, como tinha descido de repente o Espírito Santo. O Espírito Santo desceu a hora de terra, e a mesma hora, como o mesmo S. Pedro advertiu: Cum sit hora diei tertia[7] — já ele estava convertendo almas, e não menos que três mil.

Suposto, pois, que o remédio há de ser proposto, e sem perder momento, onde o acharemos nós para a presente necessidade? Os apóstolos no Cenáculo já estavam ordenados e habilitados de sacerdotes, mas ainda não estavam perfeitos ou inteiros missionários, porque lhes faltavam as línguas, as quais apareceram de repente onde as não havia: Et apparuerunt dispertitae linguae. E que grande mercê seria do Espírito Santo, se neste mesmo lugar sagrado onde estamos aparecessem agora as línguas, e com elas nos achássemos de repente com o socorro de missionários que havemos mister, não dilatado, mas pronto, não futuro, mas presente? Padres reverendos e irmãos caríssimos, se olho para os padres sós, eu não acho este socorro; se olho para os irmãos sós, também o não vejo; mas se considero os padres acompanhados dos irmãos, não me parece impossível, senão muito fácil. Se entre os padres não achamos línguas, entre os irmãos temos as que bastam, e de um padre acompanhado de um irmão bem se pode formar um perfeito missionário, não só por invenção humana, mas por traça divina. Uma das maiores missões e mais dificultosas que houve no mundo foi a de Moisés, quando Deus o mandou libertar o seu povo do cativeiro do Egito. Escusou-se Moisés com a falta da língua: Impeditioris et tardioris linguae sum[8]. — E que lhe respondeu Deus? Aaron frater tuus levites, scio quod eloquens sit: ipse loquetur pro te[9]: Arão vosso irmão tem boa língua: ele falará por vós. — Quem tal resposta esperara da boca do Onipotente, em um negócio em que tão empenhado estava! Não pudera Deus dar a língua a Moisés tão facilmente como a deu aos apóstolos? Claro está: pois, por que lha não deu? Não lhe quis dar a ele a língua para nos dar a nós o exemplo, para que entendêssemos que de um Moisés será língua a de um seu irmão com língua se pode fazer um perfeito missionário. Moisés suprirá o que falta a Arão, e Arão o que falta a Moisés. Quando o Padre Trigáucio andou pela China, viu que uns homens levavam outros aos ombros, e advertiu que os levados aos ombros eram mancos, e os que os levavam cegos. De sorte que o manco, porque tinha olhos, emprestava os olhos, ao cego, e o cego, porque tinha pés, emprestava os pés ao manco; e deste modo inventou a necessidade fazer de dois homens defeituosos um homem inteiro. Assim o devemos nós fazer, obrigados da mesma necessidade. O sacerdote suprirá o que falta ao irmão, e o irmão o que falta ao sacerdote: o sacerdote, será língua, administrando os sacramentos, e o irmão, com língua, instruindo e ensinando os que os hão de receber.

V – As escusas de Jeremias, quando Deus o encarregou de uma missão, e as escusas dos jovens missionários da Companhia. S. Francisco Xavier e a caridade, língua que todos entendem.

Nem os irmãos se devem escusar quando assim o ordenar a obediência. Escolheu Deus e avisou Jeremias para uma Missão muito semelhante as nossas, porque era para derrubar e edificar: Ut destruas, et aedifices[10] — assim como nós imos derrubar a gentilidade e edificar a Cristandade — e era para arrancar e plantar: Ut evellas, et plantes[11] — assim como nós imos arrancar a superstição e ignorância, e plantar a fé. Ficou assombrado Jeremias, que ainda não chegava a dezesseis anos, vendo-se escolhido para tamanha empresa, e escusou-se dizendo que era moço, e não tinha língua: A, a, a, Domine nescio loqui, quia puer ego sum[12]. — Fundava-se esta escusa em duas razões, cada uma delas bastante, ao que parece, para ser aceita. Cresça primeiro Jeremias, e aprenda a falar, e como tiver idade e língua, então se lhe encarregará uma missão e comissão de tanta importância. Mas Deus, contudo, de nenhum modo lhe aceitou a escusa, nem julgou por suficientes as razões dela: Noli dicere quia puer ego sum, ad omnia enim quae mittam te ibis[13]. — E se Deus não escusou a Jeremias, nem por moço nem por falta de língua, muito menos se devem escusar os que não podem alegar a falta da língua, e só os pode desconfiar a da idade, que cada dia cresce e se emenda.

Notem agora muito os moços a resposta de Deus, e verso quanto pode a virtude da obediência e a graça de missionário. Mittam te: eis aqui Jeremias feito missionário. Noli dicere quia puer ego sum — ei-lo aqui missionário, e moço. E, posto que moço, prestará para alguma coisa? Para mais que alguma. E prestará para muito? Para mais ainda. E para que? E para quanto? Ad omnia: para tudo. Prestará para tudo, e tudo fará indo a missão: Ad omnia quae mittam to ibis. — Oh! que grande e que divina palavra: Ad omnia! Este ad omnia é e deve ser a empresa e o timbre de todo o verdadeiro missionário, como o foi de S. Paulo: Omnibus omnia factus sum, ut omnes facerem salvos[14]. — Todo para todos, e para todos tudo. Não só para os catequizar gentios, nem só para os batizar catecúmenos, nem só para os doutrinar cristãos, mas para os sustentar famintos, para os vestir nus, para os curar enfermos, para os resgatar cativos, para os sepultar mortos; como mestres, como pais, como pastores, como tutores, como médicos, como enfermeiros, e como servos e escravos seus em tudo, para viver perpetuamente e morrer com eles e por eles, e também as mãos deles, como algumas vezes tem acontecido. Tudo isto significa aquele ad omnia, e tudo isto pode e deve fazer todo o missionário, ainda o que for falto da língua, como tão Santa como discretamente disse S. Francisco Xavier. Estava na ilha de Moro, e, escrevendo a Goa, dizia assim: Acho-me nesta ilha, onde não sei a língua dos naturais, mas nem por isso estou ocioso, porque batizo os inocentes, que não hão mister língua, e aos demais procuro ajudar a servir com obras de caridade, que a língua que todos entendem.

VI – A ciência das letras dos que se dedicam aos estudos e a ciência da salvação que veio ensinar o filho de Deus a humanidade. Sendo o lugar das línguas a boca, por que razão apareceram as línguas do dia de Pentecostes sobre as cabeças dos apóstolos? Em que universidade se dá o grau de doutor do mundo?

Só nos resta falar com os que não estudaram a língua da terra, por se aplicarem as ciências, que parecem maiores. A maior gula da natureza racional e o desejo de saber. Esta foi a que matou a Eva, e a tantos mata e entisica na Companhia, lançando pela boca aquele sangue, que fora mais bem empregado nas postilas ou memoriais de que estão cheios os arquivos de Roma. E que memoriais são estes? São os contínuos requerimentos e as cartas, não escritas com tinta, senão com o próprio sangue, em que de todas as províncias da Europa se pedem de joelhos ao supremo governo da Companhia as missões ultramarinas mais arriscadas e perigosas. De melhor cor são estas borlas que as azuis de mestres em artes, e as brancas de doutores em Teologia, e os graus a que por estes tão duros degraus, dentro e fora da Religião se costuma subir. Desejoso, contudo, nosso Reverendo Padre de favorecer muito as letras e muito mais as missões — podendo dizer com S. Paulo em um e outro favor: Ministerium meum honorificabo[15] — para ganhar instantes e evitar dilações, em que se perdem muitas almas, tem novamente concedido aos que não acabaram seus estudos que os possam ir acabar ao Maranhão, ainda com dispenção cotidiana de lições, e anual de tempo. Assim que os nossos teólogos do primeiro, do segundo e do terceiro ano, sem dispêndio do curso das ciências, nem da diferença do grau, podem logo partir para aquela gloriosa conquista. A viagem a de poucos dias, sem calmas de Guiné nem tormentas do Cabo de Boa Esperança, a cujos trabalhos e perigos não deixam por isso de se expor todos os anos — e hoje vão navegando pelos mares fronteiros a estes nossos — tantos filhos da Companhia, estudantes e alunos daqueles dois famosos seminários de apóstolos e mártires, os dois colégios reais de Coimbra e Évora.

E espero eu dos que saírem deste nosso, também real, teólogos, filósofos e humanistas, que, quando chegarem ao Grão-Pará e Rio das Amazonas, e se virem naquela imensa universidade de almas, espero, digo, do seu espírito, e ainda do seu juízo, que, esquecidos das ciências, que cá deixam, se apliquem todos a da conversão. Quando o Filho de Deus fez a sua missão a este mundo, a que ciência entre todas e sobre todas aplicou a sua sabedoria infinita? Ad dandam scientiam salutis plebi ejus[16]: a ciência somente da salvação, e essa ensinada, não aos grandes do mundo, senão a plebe, aos mais baixos, aos mais desprezados, aos mais pobres, aos mais miseráveis, quais são aquelas desamparadas gentes. E a vista deste exemplo verdadeiramente formidável, quem haverá que queira ser graduado em outra ciência? Sendo o lugar das línguas a boca, não pode carecer de grande mistério que as línguas de amanha aparecessem sobre as cabeças dos apóstolos. E por que razão sobre as cabeças? Ut eos authoraret in orbis doctores — diz Amonio Alexandrino: Pôs o Espírito Santo as línguas nas cabeças dos apóstolos, para com aquelas como borlas os graduar de doutores do mundo. E grau não menos que de S. Paulo: doctor gentium[17]. — E este grau e esta borla não se da na Bahia, nem em Coimbra, nem em Salamanca, senão nas aldeias de palha, nos desertos dos sertões, nos bosques da gentilidade.

VII – Os idólatras das letras. O grau que deixou e o grau que escolheu el-rei Davi. O mundo do mundo e o mundo da Religião? O descanso e admiração de humanistas, filósofos e teólogos no trabalho da conversão dos gentios.

Dirá porventura, ou por desgraça, algum daqueles que mais enfeitiça o desejo imoderado das ciências — ou da opinião delas, que é o maior feitiço: — O servo do Evangelho que enterrou o talento foi condenado; e eu, por que hei de enterrar os talentos que Deus me deu entre bárbaros, se posso seguir os estudos, continuar as cadeiras, e ser um grande letrado? Primeiramente, ou sim ou não, que muitos correm no estádio, e ao cabo acham-se cansados, e não coroados. Mas ouçam estes idólatras das letras a Davi, em quem a habilidade, o engenho e os talentos não só igualavam, mas excediam os mais presumidos, e vejamos o grau que deixou e o que escolheu: Quoniam non cognovi litteraturam, introibo in potentias Domini[18]. — Não diz porque me não apliquei às letras, senão porque não fiz caso das letras ou das letradices: Quoniam non cognovi litteraturam. — E que alcançou Davi com esta desatenção ou desprezo de não querer ser letrado? Introibo in potentias Domini. — Sem os cadilhos da borla, serei admitido a entrar nas potências de Deus. — E quais são por antonomásia as potências de Deus? Criar mundos? Não. Ressuscitar mortos? Não. Obedecer a seus acenos, e tremerem deles as jerarquias? Não. Pois quais são? Converter e salvar almas. Por isso S. Dionísio Areopagita, dando um superlativo a divindade, lhe chama: Opus Dei divinissimum: obra de Deus, não só divina, mas diviníssima. — E que maior honra — já que tão pegados estamos a essas honrinhas — que maior honra que entrar eu com Deus à parte na maior obra de sua onipotência? Quem converteu este gentio? Deus e eu: Deus com a sua graça, e eu com a minha doutrina; Deus nesta obra entrou com a sua parte, e eu com a minha: Introibo in potentias Domini. — Aqui não há senão cruzar as mãos, por o dedo na boca, e confessar ou a nossa ignorância ou a nossa pouca fé.

Mas, deixados estes argumentos tão altos, argumente-se cada um a si consigo mesmo. Quando eu estava no mundo, não deixei o mundo do mundo por salvar a minha alma? Pois, agora que sou religioso, por que não deixarei o mundo da Religião por salvar muitas almas? Qual é o mundo da Religião? São as retóricas, são as filosofias, são as teologias, são as cadeiras, são os graus, que na mesma religião reputa o mundo por mais autorizados. E que é o nada de tudo isto? Quem me dera poder agora chamar por seus nomes as almas de todos aqueles que eu acompanhei, quando fui a missão do Maranhão, e nela trabalharam e morreram gloriosamente! Eram dos melhores engenhos das nossas universidades, humanistas, filósofos, teólogos, e quando se viram naquela grande seara de almas, todos renunciaram uniformemente todos os graus que costuma e pode dar a Companhia as letras, e não quiseram outros estudos, senão aqueles somente que lhes serviam para catequizar um gentio na sua língua. Ali lhes sucedeu diante dos meus olhos, o que no dia do Espírito Santo aos apóstolos: Stupebant autem omnes, et mirabantur, quoniam audiebat unusquisque lingua sua illos loquentes (At. 2, 7): Pasmavam todos, porque todos ouviam falar na sua própria língua. — Aquela gentilidade bárbara, pelo conhecimento confuso que tem de Deus, dá-lhe o nome de Tupã, que significa trovão, assim como a gentilidade política chamava Tonante ao seu Júpiter. Ensinando, pois, os novos mestres da fé e novos discípulos das línguas a cada um na sua própria, que o verdadeiro Deus, criador do céu e da terra, a um só, que faziam? Chegavam a nação dos tupinambaranas, e diziam ao tupinambarana: Tupá oyepéim; chegavam a nação dos juruunas, e diziam ao juruuna: Tupá memé; chegavam à nação dos nhuanas, e diziam ao nhuana: Tupã gemegem; chegavam a nação dos tapajós, e diziam ao tapajó: Tupá catamocêm; chegavam à nação dos mamaianás e dos nheengaíbas, e diziam ao nheengaíba: Tupá amopererimperin.

A vista e na admiração desta novidade pasmavam todos: Stupebant omnes. — Pasmavam os gentios de ver a sua língua na boca dos nossos missionários, e eles também pasmavam de ver os grandes progressos que tinham feito em tão pouco tempo, e davam infinitas graças a Deus pelos ter escolhidos dentre seus condiscípulos, e de os ter passado dos estudos da Europa a esta escola do céu, tão superior, tão alta, tão útil e tão descansada. Torno a dizer tão descansada, porque ali não se quebram os peitos com escrituras, nem se afogam os dias e a vida com o penso das lições de manhã e tarde, nem se embaraçam os entendimentos com o labirinto de opiniões e dificuldades sem saída, nem dão cuidado argumentos, nem disputas, nem conclusões, que se hão de defender ou impugnar, nem se passa por um, e por dois, e por sete exames em sete anos, e sobretudo, depois de tanto tempo e trabalho, não resta ainda o temor ou contingência de ser ou não ser aprovado, porque os examinadores, que são Deus, Santo Inácio e os anjos da guarda daquelas almas, tudo o que se aprende e se ensina aprovam e louvam.

VIII – As queixas das almas dos gentios diante do tribunal de Cristo Jesus contra os religiosos da Companhia. Oração ao Espírito Santo.

E se todas estas razões, não só divinas, mas ainda humanas, não bastam para desapegar dos bancos e dos arquibancos aos que tomam por pretexto de não ir logo as missões o acabar seus estudos, quero acabar eu com um argumento, que primeiro me fez tremer, e depois me levou ao Maranhão, para lá viver e morrer, e ainda lhe não sei a resposta. É certo que aquela missão, como tem declarado nosso Reverendo Padre, pertence a esta Província; é certo que, para nela salvar almas, não se requerem mais letras que a doutrina cristã; a certo que, por falta de quem lhes ensine esta doutrina, se estão indo ao inferno todos os dias infinitas almas. E será bom zelo e boa consolação para as mesmas almas dizerem-lhes os humanistas que esperem dois anos, e os filósofos que esperem três, e os teólogos que esperem quatro, e todo este curso de estudo que esperem ou desesperem onze anos inteiros? Onze anos fazem pontualmente quatro mil dias, não havendo dia algum em que muitos daqueles miseráveis não morram sem fé e sem batismo. E quem há de dar conta a Deus de tantas almas? Onde estão as leis da caridade? Onde estão as obrigações da necessidade extrema? Onde estão aquele fim e aquela obrigação de discorrer a qualquer parte do mundo, onde se espera maior fruto e remédio das mesmas almas? Oh! como a certo também, e sem duvida, que naquele ultimo transe, em que se lhes notifica a condenação, levantarão todas gritos ao céu, não contra outros, senão contra nós. — Sujeitos da Companhia de Jesus, que por caridade e instituto tínheis tantas obrigações de nos acudir, não sois filhos de Santo Inácio? Não sois irmãos de São Francisco Xavier? Não sois irmãos também daqueles quarenta, que no mar e a mãos de hereges deram o sangue e a vida, vindo a salvar os avós de que nós somos netos? Como vos não lembrais logo de quem sois, como vos não lastimais de nós, como nos desamparais com tanta crueldade, e como grandes e pequenos — quais eram aqueles — vos não ofereceis a nos acudir e socorrer, a menos por que não fique por vós? Pois nós vos emprazamos para diante do tribunal de Cristo Jesus, onde lhe dareis conta dessas vossas razões, porque não nos fizestes participantes do preço de seu sangue, porque nos deixastes morrer neste desamparo, porque não ouvimos a pregação da fé, porque não recebemos o batismo, e porque, por falta ou culpa vossa, havemos de carecer da vista de Deus para sempre, e agora descemos a penar no fogo e tormentos do inferno, onde estaremos por toda a eternidade. Oh! miseráveis deles, e miseráveis de mim!

Mas que importam, Espírito divino, as palavras fracas e frias de quanto tenho dito, se a vossa soberana virtude as não animar e assistir com os impulsos e eficácias de suas inspirações. Quando aquela água crassa, que tinha sido fogo, apareceu regelada, diz o texto sagrado que, ferindo-a o sol com um raio, logo no mesmo ponto se converteu no fogo que dantes era. Veni, Sancte Spiritus, emitte caelitus lucis tuae radium: Venha, pois, do céu um raio desse fogo divino, que alumie os nossos entendimentos, que inflame as nossas vontades, que penetre, que excite, que anime, que afervore, que acenda os nossos corações, como hoje encheu aos apóstolos do zelo intrépido e ardente de sair de Jerusalém e converter o mundo. Fortalecei e ressuscitai, onde estiverem mortos, aqueles vivos desejos que tantas vezes vos oferecemos na oração, de padecer trabalhos, perseguições, injúrias, e a mesma morte, pela salvação das almas. Abrasai e queimai em nós todo o afeto de honra ou comodidade desta vida. E pois sois aquele soberano Espírito que renova a face da terra, renovai dentro nesta, que tanto nos agrava, o espírito e espíritos de nossa vocação, para que, como verdadeiros soldados da Companhia de Jesus, não sós, mas com muitos outros, por nosso meio — como diz o santo patriarca — consigamos o felicíssimo e bem-aventurado fim adonde chegam seus escolhidos. Amém.

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[1] Apareceram repartidas umas como línguas de fogo, que repousaram sobre cada um deles (At. 2, 3).
[2] Façamos para nós uma torre, cujo cume chegue ate o céu (Gen.11, 4).
[3] Vinde, confundamos a sua língua (ibid. 7).
[4] O Espírito do Senhor encheu o universo, e, como abrange tudo, tem conhecimento de tudo o que se diz (Sab.1, 7).
[5] Ora, tendo-se passado muitos anos (2 Mac. 1, 20).
[6] Porque to não es enviado a nenhum povo de profunda linguagem nem de língua desconhecida (Ez. 3, 5).
[7] Sendo a hora terceira do dia (At. 2,15).
[8] Acho-me mais impedido e mais tardo de língua (Ex. 4, 10).
[9] Eu sei que Arão, teu irmão, filho de Levi, a eloqüente: ele falará por ti (ibid. 14. 16).
[10] Para destrufres, e edificares (Jer.1,10).
[11] Para arrancares, e plantares (ibid.).
[12] Ah! Ah! Ah! Senhor Deus, não sei falar, porque eu sou um menino (ibid. 6).
[13] Não digas: Sou um menino — porquanto a tudo o que to enviar, irás (ibid. 7).
[14] Fiz-me tudo para todos, para salvar a todos (1 Cor. 9, 22).
[15] Honrarei o meu ministério (Rom. 11,13).
[16] Para se dar ao seu povo o conhecimento da salvação (Lc. 1, 77).
[17] Doutor das gentes (1 Tim. 2.7).
[18] Porque não conheci a literatura, me internarei nas obras do poder do Senhor (Sl. 70,15).

Fonte: https://www.literaturabrasileira.ufsc.br/documentos/?action=download&id=49733