Sermão da Ascensão de Cristo Senhor Nosso

SERMÃO DA ASCENSÃO DE CRISTO SENHOR NOSSO,

Em Lisboa, na Paróquia de S. Julião, com o Santíssimo exposto.


Et Dominus quidem Jesus, postquam locutus est eis, assumptus est in caelum, et sedet a dextris Dei[1].

I – Assunto do sermão: a admiração da Igreja, por ver tornar ao céu a seu Senhor, e a nossa admiração por vermos as galas e festas com que a Igreja celebra uma despedida tão custosa e uma tão saudosa ausência. A admiração, definida pelos filósofos.

Admirada e admirável vejo hoje a Igreja Católica. Admirada do que ela admira em Cristo, e admirável no que nós devemos admirar nela. Admira-se a Igreja neste dia de ver tornar para o céu aquele mesmo Senhor, que, por amor dos que cá ficamos, veio à terra. E devemos nós admirar na mesma Igreja que ela no dia deste apartamento celebre com galas e festas uma despedida tão custosa e uma tão saudosa ausência. Estas duas admirações, uma sua e outra nossa, serão as duas partes do presente discurso. Primeiro admirará, em uma e outra consideração, o muito que tem que admirar, e depois responderá às mesmas admirações com a satisfação de tudo o que tiver admirado.

Dizem os filósofos que a admiração é filha da ignorância e mãe da ciência. Filha da ignorância, porque ninguém se admira senão das coisas que ignora, principalmente se são grandes; e mãe da ciência, porque, admirados os homens das mesmas coisas que ignoram, inquirem e investigam as causas delas até as alcançar, e isto é o que se chama ciência. Como filha da ignorância, me ensinará a mesma admiração a perguntar; e como mãe da ciência, a responder, posto que tão alta seja a segunda parte, como profunda a primeira. Mas, como o céu hoje com o Autor da graça nos levou todos os tesouros dela, bem podemos esperar que nos não falte com o muito que havemos mister propor e satisfazer dignamente a duas tão grandes admirações. Ave Maria.

II – Que pode reconhecer a Igreja no mistério da Ascensão de Cristo, para só a ele singularmente chamar admirável? Resposta de Deus a Jacó e a Manué, pai de Sansão, quando estes lhe perguntaram o nome.

Coisa é muito digna de ponderação que entre todos os mistérios sagrados da vida, da morte e da ressurreição de Cristo a Igreja Católica, alumiada pelo Espírito Santo, só ao mistério da Ascensão dê nome de admirável: Per admirabilem Ascensionem tuam. Em todos os atributos do Verbo divino encarnado e em todas as suas ações sempre a admiração vai diante, publicando com a trombeta da fama e do espanto o conceito incompreensível de admirável. Assim o notou S. Agostinho, sobre aquele pregão do profeta Isaías: Vocabitur nomen ejus admirabilis, consiliarius, Deus fortis, Pater futuri saeculi, Princeps pacis[2]. — O texto só na primeira palavra pôs admirabilis, mas este encômio de admirável, diz a maior luz da Igreja, não só se há de ajuntar e construir com o primeiro título, senão com todos os que apregoa o profeta. De sorte que em cada um deles se há de repetir o admirabilis: Admirabilis consiliarius, admirabilis Deus fortis, admirabilis Pater futuri saeculi, admirabilis Princeps pacis. E por quê? Porque o mesmo Cristo, não só em sua soberana Pessoa divina e humana, mas em todas suas prerrogativas, em todos seus atributos, e em todas suas ações e mistérios, sempre foi, sempre é e sempre em tudo e por tudo se há de chamar admirável. Os nomes de Cristo na Escritura Sagrada são muitos, uns próprios, outros apelativos; uns naturais, outros metafóricos; uns místicos, outros literais; mas este de admirável, fundado em suas ações, é tão literal, tão natural e tão próprio, que muitos séculos antes de se chamar Jesus já se chamava o admirável.

Depois que Jacó, na luta que teve com o mesmo Verbo fugitivamente encarnado, se viu por uma parte vencedor, e por outra vencido, antes de o soltar dos braços pediu-lhe que lhe dissesse seu nome: Dic mihi, quo appellaris nomine (Gên. 32, 29)? A mesma petição lhe fez muito depois Manué, pai de Sansão. E que respondeu o Senhor a um e a outro? Cur quaeris nomen meum, quod est mira bile (Jz. 13, 18): Por que perguntas o meu nome, que é admirável? — Como se dissera pelos mesmos termos com que depois falou Davi: Se o meu nome em todo o mundo é admirável — Domine Dominus foster, quam admirabile est nomen tuum in universa terra[3], — se isto sabem até os meninos de peito — Ex ore infantium et lactentium perfecisti laudem[4] — por que perguntas o meu nome? Se ignoras que é admirável, ignoras o que todos sabem; e se sabes que é admirável, já sabes o meu nome por que perguntas. Admiras-te, Jacó, que eu, podendo-te vencer, me deixasse vencer de ti? Pois essa tua admiração é o meu nome; admiras-te, Manué, que te prometa um filho, e tal filho como Sansão, que até agora te neguei? Pois essa admiração tua é o nome meu: Cur quaeris nomem meum, quod est mirabile? E sendo Cristo em tudo o que faz, e também no que deixa de fazer, admirável, por que tudo nele são mistérios, que reconheceu, ou que pôde reconhecer a Igreja no mistério de sua Ascensão, para só a este singularmente chamar admirável: Per admirabilem Ascensionem tuam?

III – Que comparação tem, não só com cada um dos mistérios da vida de Cristo, senão com todos juntos, o de ver subir a Cristo ao céu, para só esta subida merecer o nome de admirável? Que diferença vai de admirável a admirável no mistério da Eucaristia e no mistério da Ascensão.

Verdadeiramente que contra a singularidade deste elogio parece que se poderão opor, e ainda queixar eficazmente, os outros mistérios do mesmo Senhor. O último foi o de sua gloriosa Ascensão, e os demais poderão formar a oposição, ou a queixa, começando desde o primeiro. Se a Igreja chamara admirável ao mistério da Encarnação, quem haveria, crendo que desceu Deus do céu à terra, crendo que a natureza divina se uniu à humana, crendo que concebeu uma Virgem, e coube em suas entranhas o que não cabe no mundo, nem em mil mundos, quem haveria, digo, que mudo e assombrado inefavelmente não adorasse a fé de tão estupenda novidade com a mais profunda admiração? Se a Igreja chamara admirável o mistério do nascimento, também era não só crível, mas evidente a demonstração deste título, porque era ver com os olhos o sem princípio nascido, o eterno determinado a tempo, o imenso reduzido a lugar, e o lugar um presépio; e logo tanta majestade em um trono de palhas, que diante dele se tributem tesouros, se arrastem púrpuras, se abatam coroas, e não só o sirvam reis, mas estrelas e anjos. Deixo os dois mistérios do Templo, já presentado e resgatado, já ensinando os doutores; deixo as glórias do Tabor, deixo as ressurreições dos mortos, deixo o pisar os mares, e imperar os ventos; deixo aquele excesso de profunda admiração, em que a minha se esmorece, de estar serrando com José, ou acepilhando um madeiro com sujeição de tantos anos aquele mesmo artífice que com uma só palavra fabricou este mundo. Finalmente, se a Igreja chamasse admirável o mistério da Paixão e Morte de Cristo, que admiração desde o Horto até o Calvário se não converteria em pasmo, vendo entre eclipses do sol e tremores da terra a alegria triste, a riqueza despida, a formosura afeiada, a onipotência presa, a justiça condenada, a vida morta, Deus vencido, e só o amor, com que nos veio resgatar, triunfante? E que comparação tem, não só com cada um destes mistérios, senão com todos juntos, o de ver subir a Cristo ao céu, para só esta subida merecer o nome de admirável?

Perdoai-me, Senhor, que não foi esquecimento, senão respeito, não trazer à composição esse sacrossanto mistério, em que descestes do céu, mas não subis. Descestes por amor de nós: Hic est panis qui de caelo descendit[5] — e não subis, para estar sempre conosco: Ecce ego vobiscum sum[6]. — Tudo o que soube inventar a vossa sabedoria, tudo o que pôde executar a vossa onipotência, e tudo o que soube e pôde afinar vosso amor, nesse círculo breve e imenso está compendiado. Que comparação tem logo o mistério da vossa subida ao céu, em que nos deixais, com o mistério deste Sacramento, em que vos deixastes? Uma só semelhança teve o mistério da Ascensão com o do Sacramento. Quando Cristo começou a subir, viram-no os apóstolos levantar-se pelo ar: Videntibus iliis, elevatus est (At. 1, 9) — e diz o texto sagrado que entre eles e o Senhor se atravessou uma nuvem, que lho tirou dos olhos: Et nubes suscepit eum ad oculis eorum. — Assim, pois, como aos apóstolos, no mistério da Ascensão, lhes tirou a Cristo dos olhos uma nuvem, assim a nós, no mistério do Sacramento, no-lo tira também dos olhos outra nuvem, que é a dos acidentes que o encobrem. Mas, se a fé rasgar essa nuvem, e o lume da mesma fé nos mostrar o que passa lá dentro — ou não passa, porque não tem nem pode ter mudança — claramente veremos quanta diferença vai de admirável a admirável em um e outro mistério. No mistério do Sacramento tudo é admirável, porque tudo ali são milagres. Milagre o encerrar-se ali todo Cristo enquanto Deus e enquanto homem, e maior milagre enquanto homem, em razão do corpo, que foi o que primeiramente se consagrou: Hoc est corpus meum[7]. — Milagre em estar todo em todo, e todo em qualquer parte; milagre em estar o mesmo em diversos lugares, tão inumeráveis como distantes; milagre em se conservarem os acidentes, contra sua própria natureza, sem sujeito que os sustente; milagre em as duas quantidades do corpo e do pão se admitirem e abraçarem juntas, sem uma lançar fora a outra; milagre, enfim, em todos estes infinitos milagres se obrarem em um instante, por virtude de quatro palavras somente. E, sendo tantos os milagres que no mistério do Sacramento estão encerrados, se pelo contrário considerarmos o mistério da Ascensão acharemos que não interveio nele milagre algum. Se Cristo subira ao céu enquanto esteve em carne mortal e passível, então fora milagre que contra o peso natural que inclinava o corpo para a terra, voasse o mesmo corpo ao céu, porém, depois de ressuscitado, com os quatro dotes dos corpos gloriosos, assim como com o dote da sutileza penetrou a pedra da sepultura, assim com o da agilidade se levantou naturalmente no ar e subiu tão facilmente ao céu, como nós o podemos fazer com o pensamento. Pois, se no mistério do Sacramento há tantos milagres, e no da Ascensão nenhum milagre, como a Igreja, quase esquecida deste e de todos os outros mistérios tão maravilhosos do mesmo Cristo, só ao de sua Ascensão dá o nome e antonomásia de admirável: Per admirabilem Ascensionem tuam?

IV – O amor admirável de Jacó por Raquel, e as razões da admiração da Igreja pelo mistério da Ascensão do Senhor

Já me parece que vos considero cansados de esperar a solução deste tão notável como dificultoso elogio, em que, se é muito admirável o que se diz, não é menos admirável a razão por que se pode dizer. A primeira que a mim me ocorre, é que chama a Igreja singularmente admirável o mistério da Ascensão de Cristo, como mais admirável que todos os outros, porque, sendo tão grandes e admiráveis as coisas que o mesmo Senhor obrou por amor de nós na terra, muito mais admirável caso é, e muito mais digno de admiração, que no fim nos deixasse a nós, e a mesma terra, e se fosse para o céu. Declaro-me com um exemplo. O amor e as finezas de Jacó por Raquel foram as mais encarecidas e admiráveis que lemos, não nas fábulas ou histórias humanas, senão na Escritura Sagrada. Admirável Jacó nos extremos com que a desejou e procurou por esposa; admirável no que serviu e tornou a servir por ela; admirável nos enganos e injúrias que padeceu nesta conquista; admirável nos muitos anos que esperou, e mais admirável nos poucos dias que lhe pareciam; admirável em a comprar, e pagar o que não devia, e em dez vezes se lhe trocar o preço; admirável no contrapeso de Lia, que não foi o menos pesado a que se sujeitou; admirável no que trabalhou, no que vigiou, no que sofreu, no que perseverou; em suma, admirável no que tão constante, tão incansável, tão ardente, tão extremada e tão extremosamente amou. Agora pergunto: E se, depois de todos estes extremos e finezas tão admiráveis, Jacó se apartasse da mesma Raquel, e se tirasse a si e a ela de seus olhos, e se tornasse para sua pátria e para casa de seu pai, deixando-a triste, só, desconsolada, e viúva do seu mesmo Jacó em vida, não seria esta ação e resolução mais admirável, e digna de maior espanto que todas as outras? Claro está que sim.

Pois, isto é o que considera ou pode considerar a Igreja nesta segunda jornada, e não imaginado apartamento de seu divino Esposo. Nesta última ação, que não parece do primeiro e antigo amor, redobra ela sobre todas as de sua vida e vinda ao mundo, e com os olhos na escada de Jacó, por onde desciam e subiam anjos, tanto se lembra daquele descer como se admira deste subir. Desceu o Verbo Eterno pelos nove degraus daquela escada, que são os nove coros dos anjos, deixando em todas suas jerarquias a natureza angélica para tomar a humana. Mas que importa, diz admirada a Esposa, que então por amor de mim descesse do céu até o mais baixo da escada, se agora torna para lá, e voa sem ela? Que importa que deixasse o céu por amor de mim, se agora me deixa a mim por amor do céu? Lembro-me de quanto lhe custei em toda a vida, quantos desterros, quantas peregrinações, quantos trabalhos, quantos desvelos, quantos enganos, quantas ingratidões, quantas injúrias, quantas tristezas, penas e dores padeceu por meu amor; mas, enfim, parece que se cansou de tão trabalhoso amor, pois se vai descansar à sua pátria, assentado ao lado de seu Pai: Assumptus est in caelum, et sedet a dextris Dei[8]. — É verdade que naquele altar tenho guardada uma prenda, em que seu amor me deixou a memória de todas as maravilhas que fez por mim: Memoriam fecit mirabilium suorum[9] — mas, se quando me deixou a memória me levou a presença, que direi? Se não foi arrependimento das mesmas finezas, esquecimento parece de mim e delas. Como diz tudo o que foi com o que hoje vejo, ou não vejo? Do Monte Olivete se partiu, tirando-se de meus olhos com uma nuvem, como se não fora o mesmo que noutro monte deu por mim o sangue e a vida. Oh! Olivete! Oh! Calvário! Mas que importa que então me visse tão amada no Calvário, se agora me vejo deixada no Olivete? Aqui vai a admiração de monte a monte: Per admirabilem Ascensionem tuam.

V – Significação dos dez degraus pelos quais subiu o sol no tempo de el-rei Ezequias. Por que razão os anjos duvidam, e a Esposa não duvida ante o mistério da Ascensão de Cristo?

Se no amor de Cristo para conosco pudera ter jurisdição a roda da fortuna, não há dúvida que nesta volta, com que subiu outra vez para o céu, se pode cuidar que desfez o seu amor quanto tinha feito na primeira, quando desceu do céu a este mundo. Disse que se pode cuidar, e não é pensamento ou imaginação que não esteja altamente retratada na Escritura. Quando o sol ver verdadeiramente tornou atrás no tempo de el-rei Ezequias, diz o texto sagrado que tantos degraus tornou a subir, quantos tinha descido pelo relógio de el-rei Acás. Este relógio de Acás — que foi o primeiro que se inventou no mundo — estava formado nos degraus das escadas do palácio. Oh! escadas assim naquele como em todos, pelas quais ninguém porte subir sem perigo certo de descer, ainda que seja o mesmo sol! Mas notem os reis que, quando por estas escadas desce o sol sobem as sombras, e só quando descerem ou caírem as sombras então subirá o sol. Diz pois o texto que subiu o sol tantos degraus quantos tinha descido, que eram dez: Et reversus est sol decem lineis per gradus quos descenderas (Is. 38, 8). De sorte que este tornar a subir o sol quanto tinha descido, foi tornar a desandar quanto tinha andado e desfazer quanto tinha feito.

Até aqui a história. E qual é a significação? A significação é que os dez degraus daquela escada representavam os nove, como já dissemos, da natureza angélica, e o décimo da humana, pelos quais o Verbo Eterno desceu a se fazer homem: Decem lineis per gradus quos descenderat. — E assim como o sol, tomando a subir pelos mesmos degraus que tinha descido: Reversus est sol retrorsum decem lineis — desandou o que tinha andado e desfez o que tinha feito, que outra coisa se pode imaginar, ou sentir de Cristo e seu amor — a quem neste espelho do sol reconhece Beda, Angelomo, e os outros expositores místicos — primeiro descendo do céu à terra, e hoje tornando a voltar da terra ao céu? A roda, quando dá volta inteira, quanto fez com o meio círculo do primeiro movimento, tanto desfaz com o segundo. Por isso o sol, quando se precipita do zênite ao ocaso, parece que deixa aquele lugar sumo que tem no céu; mas com o segundo meio círculo tudo o que fez no dia de ontem desfez no de hoje, tomando a se repor no mesmo lugar: A summo caelo egressio ejus, et occursus ejus usque ad summum ejus[10]. — Assim o cantou Davi de um e outro sol. E Cristo, que com passos de gigante começou com tanto alvoroço e alegria a mesma carreira: Exultavit ut gigas ad currendam viam[11] — depois que morreu no ocaso ressuscitou no Oriente, subindo outra vez quanto tinha descido — como se não viera mais que a tomar para donde veio — assim o não pôde negar na sua despedida: Exivi a Patre, et veni in mundum; iterum relinquo mundum, et vado ad Patrem (Jo. 16, 18): Saí do Padre e vim ao mundo — diz o mesmo Cristo — e agora deixo outra vez o mundo e vou ao Padre. — Se isto não é desandar pelos mesmos passos o andado, e desfazer pelas mesmas ações o feito, e claramente retratar ou desamar o amado, pouco sensitivo seria o amor da Esposa que assim o não entendesse e lamentasse, comparando as finezas passadas com o retiro presente, e o que foi com o que hoje parece que já não é.

Admirados os anjos neste dia da Ascensão do Senhor, diz o profeta Isaías que perguntavam a si mesmos: Quis est iste, qui venit de Edom, hoc est, de terra (Is. 63, 1)? Quem é este que vem da terra ao céu? — E se a esta pergunta do céu por boca dos anjos respondera a terra por boca da Esposa, diria pelas mesmas palavras: Ecce iste venit, saliens in montibus, transiliens colles[12]: Este, que hoje sobe da terra ao céu, é aquele que noutro dia não menos memorável desceu do céu à terra. Hoje parece que, para fazer mais breve a subida, sobe de um monte; e naquele dia, para crescer com maior pressa, é certo que vinha saltando os montes: Ecce iste venit saliens in montibus. — Mas, por que razão os anjos duvidam e a Esposa não duvida? A esposa não duvida, porque tendo dito: Vox dilecti mei[13] — acrescenta e afirma: Ecce iste venit; e os anjos duvidam, porque pelos mesmos termos perguntam: Quis est iste, qui venit? — A razão da diferença é porque os anjos comparavam o presente com o passado; a Esposa só referia o passado sem antever o presente. Os anjos viam subir ao que tinham visto descer; a Esposa via somente descer ao que ainda não tinha visto subir. Os anjos, antes de o Verbo descer do céu, ouviam-lhe dizer: Deliciae meae esse cum filis hominum (Prov. 8, 31): que as suas delícias eram estar com os homens — e depois que ouviram cantar aos mesmos homens: Qui propter nos homines, et propter nostram salutem descendo de caelis[14] — admirados do desejo, da ânsia, do alvoroço, da pressa e dos outros extremos de amor com que tinha deixado o céu e descido à terra, não acabavam de entender, que o que, deixada a terra e os homens, hoje subia ao céu fosse aquele mesmo: Quis est iste? Pelo contrário a Esposa, antes deste dia, só se gloriava dos extremos e finezas, com que o Esposo tinha descido do céu a buscar nos homens, isto é, na mesma Esposa, as delícias do seu amor. E no modo de vir, e nos passos mais que agigantados, com que, sem tocar os outeiros, transpunha os montes: Ecce iste venit, saliens in montibus, transiliens colles (Cânt. 2, 8) — só ponderava quão excessivo foi o ímpeto e força do mesmo amor, que, arrancando-o do seio do Padre, o trouxe à terra. Porém, hoje que o vê subir e voltar para o céu, como desfazendo na segunda jornada, com sua despedida e ausência, quanto tinha obrado ou encarecido na primeira, com sua vinda, não duvidando, mas crendo, nem perguntando, mas pasmando com as admirações dos anjos, qualifica, e sobre as admirações dos mesmos anjos exagera a sua admiração: Per admirabilem Ascensionem tuam.

VI – Os efeitos do subir e do descer em Cristo, Senhor nosso. Por que não subiu Cristo do Vale de Josafá, senão do Monte Olivete. O non plus ultra de Hércules e o non plus ultra do amor de Cristo. As duas estampas dos pés de Cristo no monte da Ascensão, perpétuo e visível testemunho de seu amor.

Não há coisa que mais mude os homens que o descer ou subir, e o subir muito mais que o descer. Bem se viu em Saul, em Jeroboão e em Jeú, que, sendo eleitos por Deus para o trono, tanto que subiram a ele, logo foram muito outros do que dantes eram. Não assim o que se chamou Filho do homem, e foi a exceção de todos os homens. A Esposa viu-o descer, os anjos viram-no subir, e, sendo os caminhos tão encontrados, assim eles como ela não acertaram a dizer se não iste. A Esposa na terra, quando veio e desceu do céu: Ecce isle venit — os anjos no céu quando foi e subiu da terra: Quis est iste, qui venit? — Este quando sobe, este quando desce, é sempre iste, porque descendo e subindo sempre foi o mesmo. Mas onde acharemos um autor que seja da terra e também do céu, para que nos confirme este dito do céu e da terra? Só pode ser o apóstolo S. Paulo, o qual comentando e concordando um e outro iste, diz assim: Qui ascendit, ipse est et qui descendit[15]: O que subiu, e quando subiu, é o mesmo que desceu, e quando desceu. — Não só o mesmo na natureza e na pessoa, senão o mesmo no coração, no afeto, no amor e nas finezas.

Com este texto, que é de fé, temos desfeito a primeira admiração da Esposa; mas com a demonstração do mesmo texto, a meteremos de novo em outra admiração, não menos, senão muito mais admirável. Parecia-lhe à Igreja, ou podia-lhe parecer, como dizíamos, que tomando Cristo seu Esposo para donde viera, como a mesma Igreja diz: Reversus unde venerat — era desandar o que tinha andado, desfazer o que tinha feito, e quase desamar o que tinha amado; mas é tanto pelo contrário, que não foi desandar, senão adiantar os passos, não foi desfazer, senão aperfeiçoar a obra, nem foi desamar, senão apurar e afinar mais os extremos do seu amor. E para que vejamos os efeitos desta verdade com os olhos, sigamos os mesmos passos da sua despedida, e vejamos como sobe.

Primeiramente subiu o Senhor do Monte Olivete, podendo-o fazer do Vale de Josafá, que jaz entre ele e a cidade de Jerusalém. E porque não quis subir de um vale, senão de um monte? Porque, ainda que ia para o céu, quis fazer o caminho pela terra quanto lhe era possível. Não amava tão pouco o amoroso Senhor aterra, onde desde toda a eternidade tinha o paraíso de suas delícias, que a houvesse de deixar e apartar-se dela, senão a mais não poder. Aonde ela acaba, que é o cume dos montes, só ali pôde acabar consigo de se apartar dela. Depois de Hércules ter andado todo o mundo, quando chegou àquela última parte, que ele entendeu era o fim da terra, porque além dela não se descobria mais que o elemento da água na imensidade do Oceano, fixou ali aquelas duas famosas colunas, com o soberbo título: Non plus ultra: até aqui se pode chegar, mas não passar daqui. O mesmo sucede no mais alto dos montes, a quem olha para cima, onde se não vê mais que a imensidade invisível do elemento doar. Subindo, pois, o soberano Redentor ao Monte Olivete, e pondo no cume dele os sagrados pés, que eram as bases daquelas duas colunas, a que a sua Esposa chamou de mármore: Crura illius columnae marnwreae, quae fundatae sunt super bases aureas[16] — ali pôs ou esculpiu debaixo das mesmas bases o non plus ultra do seu amor. Estas foram as pegadas que ali deixou impressa em uma pedra do mesmo monte, tão branda, que então se deixou penetrar, e tão dura, que ainda hoje persevera e conserva a mesma figura, por mais que a devoção dos peregrinos tire eleve dela as adoradas relíquias: Adorabimus ubi steterunt pedes ejus[17].

Conta Clemente Alexandrino que era fineza naquele tempo usada dos espíritos mais generosos, e que mais se prezavam de amar, trazer entalhadas nas solas do calçado as tenções ou saudações do seu amor, para que em qualquer parte onde fixassem os passos ficasse impresso e estampado, por modo de sinete, o quanto e a quem amavam: Soleis quoque amatorias salutationes imprimunt, ut vel per terram numerosa incidentes amatorios spiritus in incessu insculpant. — E todos os passos de sua vida pudera o soberano Amante dos homens deixar escrito à nossa memória estes caracteres expressos e estampas visíveis de seu amor, mas guardou esta fineza para o último passo, em que se partia e apartava de nós, não formada na terra movediça, senão esculpida em uma pedra dura e firme, e não com a figura do calçado, de que o Batista não era digno de desatar a correia, mas dos mesmos sagrados pés descalços, como os de Moisés à vista da sarça, quando o fogo de seu amor se abrasava mais ao subir do que ardeu ao descer. E para quê? Para que entendêssemos os homens que foi tanta a violência com que a humanidade do Filho de Deus se apartou deles, e tanta a força que se fez a si mesma para se despegar de nós, que a não puderam resistir as mesmas pedras. Que diz o profeta quando desceu Cristo do céu à terra? Utinam dirumperes caelos, et descenderes![18] — Quando desceu rompeu os céus, quando subiu, os mármores. Chegado o amor àquele último passo, que fez? Toda a sua alma e todos seus espíritos esculpiu nele: Amatorios spiritus in incessu insculpsit. — Trocou o amor as setas pelo cinzel, e não em lâminas de chumbo, que podia derreter o fogo, mas na pederneira mais dura — que foi a segunda eleição de Jó: fiel celte sculpatur in silice[19] — ali abriu e esculpiu aquelas duas estampas da sua amorosa partida, em perpétuo e visível testemunho nos olhos e consideração da posteridade, de que não amara menos aos seus no fim do que os tinha amado no princípio. Bem sabia que a pena do discípulo amado o havia de escrever assim depois, mas quis que enquanto o calavam os homens o clamassem as pedras: Si hi tacuerint, lapides clamabunt[20].

VII – Se o corpo glorioso de Cristo, pelo dote da agilidade, não tinha peso, e podia voar e subir direito ao céu, que impedimento ou força contrária era aquela que o abatia e levava aos horizontes da terra, já para o oriente, já para o ocaso como nota Davi? As asas das águias e dos corpos ressuscitados. Os anjos e a suspensão afetuosa de Cristo no Monte Olivete. Por que repreenderam os anjos aos discípulos? A notável implicância do divino Esposo com os olhos da Esposa, no capítulo sexto dos Cânticos.

Escrito assim naquela pedra o epitáfio de sua ausência — que também é sepultura — começou o Senhor a subir. Mas não digo bem. Subir é a ação, e todos os movimentos do nosso amoroso peregrino nesta sua jornada foram passivos. Assim o notaram concordemente os evangelistas, com energia digna de toda a ponderação. S. Marcos: assumptus est[21]; S. Lucas: elevatus est[22]; e noutro lugar: ferebatur[23]. Uma coisa é ir, outra ser levado. Ir significa vontade, ser levado argúi repugnância, violência, força. Isto mesmo declarou admiravelmente Davi, descrevendo, os encontrados caminhos ou diferentes rumos que o Senhor levou, ou com que foi levado nessa viagem do céu. Nos primeiros versos do salmo sessenta e sete, diz que subiu para a parte do ocaso: Qui ascendit super occasum, Dominus nomen illi[24]. — E antes do fim do mesmo salmo diz que subiu para a parte do oriente: Psallite Domino, qui ascendit super caelum caeli, ad orientem[25]. — Em ambos os lugares diz que subiu: ascendit — e em ambos diz que foi o mesmo Senhor: Psallite Domino, Dominus nomen illi. — Pois, se o oriente e o ocaso são dois termos ou dois horizontes totalmente opostos, se subiu para o ocaso, como subiu para o oriente? Por que assim sobe quem sobe por violência mais que por vontade. Que sucede ao baixel, que sai do porto forcejando contra o vento? Um bordo o leva para o levante, outro para o poente, um para o norte, outro para o sul, sem se poder apartar da terra. Assim se não podia apartar o nosso divino amante, porque nos deixava nela. Um vôo o levava para o oriente, outro vôo para o ocaso, sem lhe consentir a força do afeto que seguisse a derrota do céu — posto que do céu — em direitura.

Mas aqui oferece a teologia uma dúvida não leve. Os corpos gloriosos não pesam, posto que sejam estes mesmos que agora são tão pesados, e a razão é porque o dote que chamam de agilidade, não só os aligeira, mas lhes tira todo o peso. Apertam mais a dúvida as palavras de Isaías: Assumem pennas sicut aquilae[26] — as quais se entendem deste dote. Pennigerabunt ut aquilae — diz S. Hilário — naturam evolandi in caelum in resurrectionis demutatione sumpturi: Quer dizer que no ponto da ressurreição, por virtude do dote da agilidade, se mudarão os corpos gloriosos de tal sorte, e ficarão tão ligeiros para subir e voar ao céu como se tiveram asas de águia. E por que razão de águia, e não de outra ave? A razão se pode tirar agudamente daquelas palavras do mesmo santo: Naturam evolandi in caelum. A natureza das asas da águia é tal, como notou Plínio, que só ela pode voar direitamente para cima: Sola aquila directo volatu in sublime fertur. — As outras aves, para voarem para cima, é necessário que façam diferentes ângulos ou giros, como navegando aos bordos; porém a águia, como rainha e senhora do seu elemento, só ela, como a nau com vento em popa, pode subir e navegar pelo ar em direitura. Pois, se o corpo glorioso de Cristo, pelo dote da agilidade, não tinha peso, e podia voar e subir direito ao céu, que impedimento ou força contrária era aquela que o abatia e levava aos horizontes da terra, já para o oriente, onde nasce o sol, já para o ocaso, onde se sepulta? É certo que não era nem podia ser o peso do corpo, mas era o peso do amor: Amor meus pondus meum, illo feror quocumque feror: O meu peso — dizia S. Agostinho — é o meu amor: para qualquer parte que sou levado, este peso é o que me leva. — Comparai agora o ferebatur do evangelista com este feror. Já levado o Senhor para o oriente, já levado para o ocaso, e quem assim o trazia ou levava era o peso do seu amor: Illo ferebatur quocumque ferebatur. — Oh! que indecisa e duvidosa parece que estava a mesma Ascensão neste passo! A agilidade do dote o elevava para o céu, o peso do amor o levava para a terra, e, suspenso nesta afetuosa indiferença, ou indiferente nesta afetuosa suspensão, nem acabava de se apartar, nem continuava a subir.

Tão admirados os anjos desta tardança, quão desejosos estavam de que o Senhor se apressasse a ser recebido no triunfo, que às portas do primeiro céu o estava aguardando, vieram a entender que os olhos dos discípulos que ficavam no monte eram as rêmoras que detinham e não deixavam subir o divino Mestre. Diz o profeta Habacuc que o sol se levantou e a lua estava parada: Elevatus est sol et luna stetit. — E esta maravilha nunca vista se viu no dia e hora da Ascensão. O sol é Cristo, a lua é a Igreja, sua Esposa. O sol levantou-se, porque começou Cristo a subir; a lua esteve parada, porque assim estavam parados no monte os discípulos, de que então se compunha todo o corpo da mesma Igreja. E que fizeram os anjos para desfazer esta suspensão? Inventaram um novo eclipse, não em que a terra eclipsasse a lua, ou a lua eclipsasse o sol, mas em que uma nuvem, atravessada entre o sol e a lua tirasse ao Senhor dos olhos dos discípulos: Et nubes suscepit eum ab oculis eorum[27]. — Mas como a Esposa constante, e os discípulos sem se mover, e não só perseverassem no mesmo lugar, antes seguissem e acompanhassem com os olhos o seu amado Senhor, posto que encoberto com a nuvem: Cum que intuerentur in caelum euntem illum[28] — então, mais empenhados os anjos, desceram dois deles ao monte, estranhando muito aos discípulos que ainda estivessem olhando: Ucri Galilaei, quid statis aspicientes in caelum[29]? — Tudo hoje é digno de admiração, e estas palavras tanto como o demais. Se estes anjos não foram anjos bons, não estranhara eu o que eles tanto estranham. Estes homens, cujos olhos e cujo olhar se estranha e repreende, para onde olham? Para o céu: aspicientes in caelum. — Para quem olham? Para Cristo: cutuque intuerentur euntem illum. — Pois, é possível que os anjos bons e santos estranhem e repreendam estes olhos e este olhar? Na ocasião presente sim, porque tinham experimentado, e estavam vendo que os olhos dos discípulos eram as cadeias que prendiam ao Senhor, e o seu olhar o que o não deixava subir. Agora entendo eu um lugar da Escritura, que há muitos anos não acabava de entender, nem achava em todos os intérpretes quem bastantemente o declarasse. Fala o Esposo divino com sua sagrada Esposa, no capítulo sexto dos Cânticos, e diz assim: Averte oculos tuos a me, quia ipsi me avolare fecerunt (Cânt. 6,4): Esposa minha, apartai de mim os olhos, porque eles me fizeram voar. — Notável implicância, não de uns olhos a outros, senão dos mesmos consigo. Estes olhos não são os da mesma Esposa, que nós dizíamos eram as rêmoras que detinham a Cristo, e as cadeias que o prendiam e não deixavam subir? Pois, como diz agora o mesmo Senhor que esses olhos são os que o fizeram voar: lpsi me avolare fecerunt? — Admiravelmente por certo. Notai o que tinha dito, e a conseqüência. O que tinha dito foi: Averte oculos tuos a me: Apartai os vossos olhos de mim — e aqui esteve a diferença, em a Esposa olhar ou não olhar, em ter os olhos postos em seu Esposo ou em os apartar dele. Enquanto olhava e o via, como os seus olhos eram as rêmoras que o retardavam e as cadeias que o prendiam, não podia voar nem subir; porém, depois que a nuvem e os anjos com dobrada força lho apartaram dos olhos, ou a obrigaram a que os apartasse dele: Averte oculos tuos a me — despegaram as rêmoras, soltaram-se as cadeias, e logo pôde subir e voar. Quia ipsi me avolare fecerunt.

VIII – O dote da impassibilidade e o mistério da Ascensão. Se era mais conveniente ressuscitar Cristo passível, e continuar passível enquanto se deteve neste mundo, por que escolheu antes o estado de impassível? Que semelhança tem a impassibilidade de Cristo na Ascensão com todos os encarecimentos dos outros mistérios de sua vida?

Voar, disse o divino Esposo, e não subir, por que o mesmo espaço brevíssimo que bastou para a Esposa, que estava olhando, divertir os olhos, esse bastou também para o Senhor de um vôo se pôr no céu empíreo. Tanta é a virtude sobrenatural do dote da agilidade. Mas, se bem repararmos em outro dote, do qual estava igualmente revestida a sagrada humanidade de Cristo, e parece que não teve uso nesta ocasião, acharemos que este foi o que mais encareceu e afinou o amor com que se apartou de nós. Os dotes dos corpos gloriosos são quatro: claridade, subtileza, agilidade, impassibilidade. O dote da claridade manifestou-o o Senhor no dia de sua Transfiguração, em que os três apóstolos lhe viram o rosto mais resplandecente que o sol; o dote da sutileza não só usou saindo da sepultura, como dissemos, mas entrando no Cenáculo com as portas cerradas; do dote da agilidade se serviu hoje na segunda parte da subida, que foi das nuvens que o encobriram até o empíreo, em que se assentou à destra do Padre. Só o dote da impassibilidade parece que não teve uso, mas este digo eu que foi o de que mais se aproveitou, e preveniu o amor para a primeira parte desta mesma jornada. Ora notai. Todos os dotes gloriosos, não só eram devidos ao corpo de Cristo em qualquer estado, mas mais devidos a seu corpo do que a visão beatífica à sua alma: por quê? Porque a visão beatífica era devida à alma de Cristo pela união da divindade, e os dotes gloriosos, não só eram devidos a seu corpo pela união da divindade, senão também pela união da alma. E, contudo, exceto o dia da Transfiguração, sempre Cristo, por milagre particular, teve suspensos ou seqüestrados, como diz Santo Ambrósio, todos estes dotes. Logo, assim como fez na vida este seqüestro ou suspensão, também o pudera fazer depois da morte, e ressuscitar passível, como ressuscitou Lázaro.

Acrescento que não só pudera, mas fora muito conveniente para a fé da mesma Ressurreição, para prova de que o seu corpo era verdadeiro, e não fantástico, e para desengano de que viam e ouviam vivo o mesmo que tinham visto crucificado e morto. A este fim se deteve o Senhor quarenta dias na terra; a este fim apareceu tantas vezes aos discípulos; a este fim comeu com eles no mesmo dia da Ressurreição e no mesmo da Ascensão; a este fim permitiu a Tomé que lhe tocasse as mãos e o lado, e a todos disse: Palpate et videte, quia spiritus carnem et ossa non habet[30]. — E todas estas demonstrações em um corpo impassível, filosófica e geologicamente não podiam ser sem novo e grande milagre, como doutamente notou S. Gregório Papa: Nam et corrumpi necesse et quod palpatur, et palpari non potest quod non corrumpitur. — Pois, se era mais conveniente ressuscitar Cristo passível, e continuar passível enquanto se deteve neste mundo, por que escolheu antes o estado de impassível? Porque assim importava ao seu amor para o fim principal da mesma Ressurreição: Cristo não ressuscitou para viver neste mundo, mas para passar logo do mundo ao Padre. Assim o disse no mesmo dia da Ressurreição à Madalena, e o mandou dizer aos apóstolos: Ascendo ad Patrem meum, et Patrem vestrum, Deum meum, et Deum vestruml[31]. — E como o mistério e modo da Ressurreição era ordenado ao dia e ato da Ascensão, não foi conveniente, mas necessário ao mesmo amor o dote da impassibilidade e o estado de impassível naquele dia e naquele ato: por quê? Não porque havia de subir ao Padre, mas porque se havia de apartar dos homens. O dote da impassibilidade, e o seu efeito, é uma isenção total de padecer ou poder padecer; e era coisa tão dura e insofrível para o amor de Cristo haver de se apartar de nós, que lhe foi necessário pôr-se primeiro em estado de não poder padecer, para se reduzir a estado de se poder apartar.

Oh! fineza sobre todas as finezas do amor de Cristo! Dizem que na frágua do padecer se prova e acrisola o amar. Mas há matérias em que o sofrimento é argumento de tibieza, e só a impaciência prova do amor. Este não querer nem poder padecer foi maior prova do amor de Cristo que tudo quanto padeceu por nós, e alegamos ao princípio com tantas admirações. Que semelhança têm com esta simples verdade todos os encarecimentos do mistério da Encarnação? Quando desceu do Padre ao mundo veio passível; mas quando houve de deixar o mundo, e ir ao Padre, porque se ausentava de nós, foi-lhe necessário fazer-se impassível. E se passarmos de Nazaré a Jerusalém, e da Encarnação à morte, grande fineza foi dar a vida por nós. Mas com que diferença? Para subir ao Calvário a morrer, à cruz, aos cravos e à lança, ofereceu as mãos e pés, e o peito desarmado e nu; para subir, porém, ao Olivete a se apartar de nós, não se atreveu a o fazer senão armado da impassibilidade. Assim provou que para o seu amor o morrer era sofrível, o apartar-se intolerável. Lembrame neste caso o que escreveu S. Paulino a Santo Agostinho. Amavam-se muito estes dois santos, e diz assim o que escrevia: Dum aequo animo fero quod te non video, intolerabile est istam appelare tolerantiam: Sofro, amigo Agostinho, com igualdade de ânimo o estar ausente de vós e não vos ver; e não há coisa para mim mais intolerável que esta tolerância, nem mais insofrível que este sofrimento. — Oh! excelente modo e discretíssimo de encarecer o amor na ausência! Se assim era, não podia o amor ser mais fino, e, se não era, não podia ser a fineza mais bem imaginada. O amor em matéria de ausência, se é sofrido não é grande, se não é impaciente não é amor. E como o amor de Cristo, que, para deixar o céu e dar a vida em uma cruz, teve cabedal de paciência, só para se apartar dos homens se reconheceu incapaz de sofrimento, antes o mesmo sofrimento, se lhe fosse possível, era descrédito do seu amor, por isso o divino Amante, prevendo que era forçoso este apartamento, com razão se pôs em estado de não sofrer nem poder. Em estado de não poder, porque verdadeiramente se não atrevia a sofrer a nossa ausência; e em estado de não sofrer, para que se não pudesse dizer dele que sofreu ausentar-se de nós. Poder-se-á dizer de Cristo que se ausentou, mas não se poderá dizer de seu amor que o sofreu: que se ausentou sim, porque se foi; mas que o sofreu não, porque já estava impassível.

IX – Suposto que o amoroso Senhor, para a partida e ausência de sua Ascensão, se preveniu e se armou do estado de impassível, dentro dessa mesma impassibilidade, sentiu o seu coração o apartar-se de nós? O sentimento da divindade por ocasião do dilúvio universal. Ama tanto Deus aos homens, que, quando se priva deles, e os perde, até a sua impassibilidade é sensitiva. O Sacramento do Altar, a maior prova da dor de Cristo no dia da Ascensão. Quem se doeu por ocasião do sacrifício de Abraão? O cordeiro do sacrifício de Isac e a Eucaristia.

Parece que se não pode passar daqui; mas em dia em que Cristo subiu tanto, para que suba também o seu amor, eu quero dar um passo mais adiante. Suposto que o amoroso Senhor, para a partida e ausência da sua Ascensão, se preveniu e armou do estado de impassível, pergunto agora se assim impassível, assim armado, assim defendido, e assim dentro da mesma impassibilidade sentiu o seu coração o apartar-se de nós. A Teologia diz que não, mas os efeitos, que são testemunhas oculares, parece que provam que sim. Ao menos é certo que, se o Senhor sentira muito este apartamento, não pudera fazer a despedida senão como a fez. A jornada dilatou-a quarenta dias, o dia estendeu-o até as doze horas, a despedida — como ponderávamos — fê-la de um monte, que são as últimas raias da terra; finalmente, depois de partido, foi necessário que as nuvens se metessem de permeio para se desprender dos olhos dos homens, e que os anjos descessem a os retirar do monte, para que pudesse ir por diante: tudo vagares, tudo repugnâncias, tudo violências. Pois, se Cristo estava e subia impassível, como antes e depois se viam nele tão extraordinários efeitos, e tão manifestos de sentimento? Porque foi tal o excesso — sobre todo o possível — com que Cristo amou os homens, e tão sensíveis no seu coração as saudades com que se apartou deles, que ainda no impassível teve lugar o sentimento, e na mesma impassibilidade a dor.

Não me atrevera a dizer tanto, senão fora maior a prova que o dito. Pode haver maior impassibilidade que a de Deus enquanto Deus? Não. E, contudo, no caso do dilúvio afirma a Escritura Sagrada que foi tal a dor de Deus que lhe penetrou o mais íntimo do coração: Tactus dolore cordis intrinsecus. — E por quê? Porque eram os homens os que pereciam, e tanto se compadecia Deus da mesma pena com que os castigava: Tactus dolore cordis intrinsecus, delebo, inquit, hominem, quem creavi[32]. — Note-se muito a palavra quem creavi: os homens a quem criei. — Deus naquele dia, obrigado da sua justiça, privava-se dos homens a quem tinha criado — que seria se os tivesse remido! — e ama tanto Deus aos homens que, quando se priva deles e os perde, até a sua impassibilidade é sensitiva: Tactus dolore cordis intrinsecus. — Tiremos a conseqüência. Se a força deste mesmo amor foi tão sensitiva que pôde introduzir dor na impassibilidade de Deus, por que não faria outro tanto no coração de Deushomem, posto que impassível? E se tanto se deixou penetrar do sentimento a divindade, quando choviam do céu os maiores rigores, quão penetrada iria a humanidade e quão ferida quando subia ao céu com as maiores saudades?

A confirmação desta dor em Cristo hoje não hei de ir longe a buscá-la, porque a temos presente no Sacramento diviníssimo daquele altar, onde o mesmo Cristo se sacrifica. Argumento assim. Sacrifica-se Cristo naquele altar para descer todos os dias a estar conosco na terra: logo, grande foi a dor do mesmo Cristo no dia da Ascensão, quando se apartou de nós para subir ao céu. Provo. A história mais trágica e o caso de maior dor que viu o mundo enquanto se não desfez, foi o sacrifício de Abraão. As pessoas representadoras desta tragédia foram Deus, o mesmo Abraão e Isac: Deus, mandando a Abraão que lhe sacrificasse o filho; o filho já manietado sobre a lenha, e Abraão com a espada desembainhada descarregando o golpe. A vista deste temeroso e doloroso espetáculo estava pasmada e tremendo a mesma natureza; mas nem Abraão se doeu, porque executava alegre o preceito de Deus; nem Isac se doeu, porque se conformava também alegre com a obediência do pai. E houve, contudo, neste sacrifício alguém que se doesse? Sim. É resposta e resolução admirável de S. Zeno, bispo de Verona. Quem foi, pois, o que se doeu, ou pôde doer, se não foi Abraão nem Isac? Foi Deus, e só Deus, diz com altíssimo pensamento o mesmo santo: In hoc sacrificio solus Deus doluit: Neste sacrifício só Deus se doeu. — De sorte que em um caso tão doloroso, nem se doeu o pai que matava, nem se doeu o filho que morria, e só Deus, que era incapaz de dor, se doeu. Mas donde se colhe que se doeu Deus? Colhe-se — continua o mesmo Zeno, dando a razão do seu dito — colhe-se de ser Deus o que procurou e preveniu outra vítima: In hoc sacrificio solus Deus doluit, qui aliam victimam procuravit. — A outra vítima que Deus preveniu foi o cordeiro milagroso que ali apareceu, e Abraão sacrificou em lugar de Isac, para que no sacrifício do mesmo cordeiro se executasse e suprisse o que em Isac, tomando vivo do monte para casa de seu pai, já não podia ser.

Oh! quanto tem que admirar a Igreja neste tão maravilhoso como antigo exemplar! Três figuras representaram aquela famosa história enquanto tragédia; mas, depois que Deus mudou a cena, ou transfigurou o teatro, eu vejo representado a Cristo em outras três. Em Isac, no cordeiro e no mesmo Deus: em Isac, tornando do monte vivo e glorioso para casa de seu pai; no cordeiro, feito vítima naquele altar, onde verdadeiramente se sacrifica; e em Deus, sendo impassível e incapaz de dor, doendo-se, contudo, pois lhe buscou o remédio: Doluit qui aliam victimam procuravit. — E provou o amorosíssimo Senhor e diviníssimo Amante esta dor na sua mesma impassibilidade, porque naquela sagrada vítima, que preveniu seu amor, substituiu e supriu melhor do que parecia possível todos os motivos de sentimento, com que se despediu de nós e se partiu deste mundo. O primeiro sentimento era apartar-se dos homens, com quem tinha todas as suas delícias; mas naquela pequena e imensa vítima está sempre presente conosco, e não com uma só presença, e em um só lugar, mas em todos os que rodeia o sol, assim quando aparece aos nossos olhos, como quando se esconde a eles. O outro motivo era ir-se, como hoje se foi, para seu Padre; mas por um dia e por uma jornada, em que subiu, desce todos os dias infinitas vezes, quantas são as que é consagrado naquela mesma hóstia. Como se respondera o divino Amante, ou se vingara deste apartamento, dizendo: Se um dia e uma vez subi da terra ao céu, todos os dias e infinitas vezes descerei do céu à terra por amor de vós. Finalmente, os vagares e rodeios com que se ausentou, posto que tanto encareceram o seu amor na repugnância e resistência interior, e na violência manifesta com que se apartava, ou com que se não podia apartar dos homens, muito mais se exageram na pressa com que desce e está sempre descendo a os buscar, e assistir com eles no Sacramento. O modo com que Cristo desce, ou, mais propriamente, com que se põe e faz presente na hóstia, é por reprodução, e não por movimento local. E por quê? Porque o movimento local, posto que brevíssimo, faz-se em tempo, a reprodução em instante; e para quem tanto ama, como Cristo; até os instantes tardam. Quando se partiu de nós, os nossos olhos o prendiam para que se não pudesse despegar, e eram as rêmoras que o detinham; mas, depois que está no céu, nem os olhos dos anjos — in quem desiderant angeli prospicere[33] —, nem os olhos de todos os bemaventurados, nem os seus mesmos olhos com que está vendo a Deus, o retardam, para que nem por um instante possa sofrer, não digo a ausência dos homens, mas nem a menor dilação em multiplicar presenças sobre presenças. Assim lhe doeu o apartar-se de nós, e assim preveniu naquela soberana vítima o remédio da amorosa dor, a que não pôde resistir a sua mesma impassibilidade: Solos doluit qui aliam victimam procuravit.

X – Os motivos por que o nosso divino Amante subiu ao sumo grau de admirável no mistério de sua Ascensão. A conveniência dos homens na morte e Ascensão de Cristo. De que excesso falava Moisés e Elias no Monte Tabor? Por que só no mistério da Ascensão acrescenta o evangelista ao nome de Jesus o sobrenome ou antenome de Senhor?

Já creio que, em seguimento da subida de Cristo, e mais em seguimento do subido de seu amor, podemos ouvir à Igreja sua Esposa, que neste dia lhe cante, e em todos os do ano o rogue, alegando-lhe o admirável de sua Ascensão: Per admirabilem Ascensionem tuam. — Não admirável por, depois de ter feito tantas finezas por nós, hoje as desfazer, deixando-nos, como ao princípio se representava, mas admirável por se despedir da terra no cume de um monte, que é no fim onde ela se despede de si mesma; mas admirável por deixar impressa e esculpida nas pedras a estampa do último passo com que se partia; mas admirável pelos vagares e rodeios, com que, saindo deste único porto das suas saudades, não acabava de tomar a derrota do céu em direitura; mas admirável por se não poder desprender das cadeias de nossos olhos, que como rêmoras o detinham; mas admirável por se reduzir a estado de impassível, para sofrer de algum modo o ausentar-se de nós; mas admirável, e mais admirável, finalmente, por nessa mesma impassibilidade não poder seu coração resistir o sentimento, e nem isentar-se da dor. Por todos estes motivos, que deixamos ponderados, parece que tinha subido o nosso divino Amante ao sumo grau de admirável no mistério de sua Ascensão. Eu, porém, sobre todos eles ainda tenho mais que admirar, e por isso mesmo. Pergunto: se Cristo, Senhor nosso, tanto sentia, e seu amor se doía tanto de se apartar e ausentar de nós, por que se ausentou? No mesmo ato e nesta mesma hora da sua partida o nomeia o evangelista S. Marcos não só e simplesmente com o nome ordinário de Jesus, senão de Senhor Jesus, termo novo e sem exemplo em toda a história do mesmo evangelista: Et Dominus quidem Jesus postquam locutus est eis, assumptus est in caelum[34]. — Pois, se na mesma hora e no mesmo ato em que Cristo partia do mundo, partia como Senhor e era tão Senhor de suas ações como de tudo o mais, por que se não deixou ficar conosco na mesma forma visível, como antes da morte ou como depois da ressurreição, mas totalmente se tirou dos nossos olhos, e a nós dos seus, e se tomou para o céu, donde o tirara e trouxera à terra o mesmo amor com que tanto nos amava?

A razão verdadeira desta que ao princípio parecia mudança, e não foi senão maior amor e maior fineza, só o mesmo Cristo a podia dar e a deu aos mesmos homens, com palavras tão claras como estas: Expedit vobis ut ego vadam (Jo. 16, 7): Aparto-me de vós, e vou-me para o céu, porque a vós vos importa que eu me vá. — De sorte que naquela mesma hora reinavam e se combatiam no coração de Cristo dois poderosíssimos afetos, o seu amor e a nossa conveniência: o seu amor instava que ficasse, a nossa conveniência requeria que se fosse; e, orando por ambas as partes toda a sabedoria divina e toda a eloqüência humana, o mesmo Cristo, como Deus e como homem, sentenciou com tal resolução a controvérsia, que muito apesar do seu amor prevaleceu a nossa conveniência: Expedit vobis ut ego vadam. — Oh! resolução sobre todas as admirações admirável! A soberania incompreensível desta sentença e desta razão só se pode de algum modo entender comparando um expedit vobis com outro expedir vobis. O mesmo Cristo, que antes de sua Ascensão disse por sua sagrada boca: Expedit vobis ut ego vadam — por boca de Caifás — o qual, por ser pontífice, falava profeticamente — tinha também dito antes de sua morte: Expedit vobis ut unus moriatur homo[35]. — Em um expedit vobis se continha a importância de Cristo morrer por nós; em outro expedit vobis se declarava a importância de o mesmo Cristo se apartar de nós. A importância de morrer por nós, como fez na sua Paixão: Expedit vobis ut unus moriatur homo — a importância de se apartar de nós, como fez na sua Ascensão: Expedit vobis ut ego vadam. — E em um e outro caso de tal maneira prevaleceu no coração de Cristo a conveniência dos homens, que, quando a conveniência pedia que morresse, não duvidou padecer a morte, e quando a mesma conveniência importava que se ausentasse, também se sujeitou a sofrer a ausência. No primeiro caso antepôs a nossa conveniência à sua própria vida; no segundo prevaleceu a nossa conveniência contra o seu próprio amor. E qual destes dois foi maior excesso?

A questão pedia mais tempo, mas digo breve e resolutamente que neste segundo excesso, em que o amor ficou vencido, se excedeu e venceu muito o mesmo amor. Mas onde iremos buscar a prova? Não a outra parte, senão ao Monte Tabor, onde Cristo, com um morto, que era Moisés, e com um vivo, que era Elias, tratou deste mesmo excesso. Diz o evangelista S. Lucas que no Monte Tabor apareceram com Cristo Moisés e Elias, e que falavam com o Senhor sobre o excesso a que havia de dar complemento em Jerusalém: Dicebant excessum ejus, quem completurus erat in Jerusalem (Lc. 9, 31). — Assim o Calvário, como o Olivete, ambos eram montes de Jerusalém. E, posto que comumente se cuide que o excesso se entende do Monte Calvário, onde Cristo morreu por nós, três grandes razões persuadem que não foi senão do Monte Olivete, donde se ausentou de nós. Primeira, porque Cristo no Tabor estava glorioso, e era mais conveniente àquele estado a prática do Olivete, donde subiu à glória. Segunda, porque a palavra excessum, no seu próprio e natural sentido, significa partida e apartamento, e dali se apartou o Senhor de nós, e se partiu para o céu. Terceira, porque este excesso havia de ser o complemento de suas ações: quem completurus erat — e o complemento de todas as ações de Cristo não podia ser outra senão a última, que foi a sua Ascensão. Este pensamento concorda com o de todos aqueles autores, que, abstraindo de tempo e ação, e não do lugar — que necessariamente havia de ser o de Jerusalém — entendem o excesso em que falaram os dois profetas: de excessu charitatis. — E verdadeiramente que não podia subir o amor de Cristo para com os homens a maior e mais refinado excesso, que chegar a preferir e amar mais a nossa conveniência que o seu próprio amor.

Muito a seu pesar sofreu este extremado amor o apartar-se de nós, como vimos nas grandes violências com que se apartou. E que mais podia fazer aquele amorosíssimo coração com a nossa conveniência diante dos olhos, que chegar a ser cruel com o seu mesmo amor para ser piedoso conosco? Só um entendimento tão alumiado, como o de S. Paulo, pôde penetrar a profundidade deste segredo: Magnum est pietatis sacramentum, quod manifestatum est in carne, assumptum est in gloria (1 Tim. 3, 16): Grande segredo foi da piedade — diz o apóstolo do terceiro céu — que, tendo Cristo manifestado aos homens tudo o que obrou por eles depois que tomou nossa carne, no fim os deixasse e se fosse para a glória! — Mas qual é a razão por que chama S. Paulo a esta última cláusula da vida de Cristo segredo e sacramento da piedade: Magnum pietatis sacramentum? A razão é porque no mistério da Ascensão esteve encoberta a piedade debaixo de acidentes de crueldade: cruel Cristo com seu amor, para ser piedoso conosco. Na morte foi o amor cruel com Cristo, na Ascensão foi Cristo cruel com seu amor: cortou por ele e por todos seus afetos, sem piedade, só pela ter de nós, de nosso maior bem, de nosso remédio, e do que mais nos convinha: Expedit vobis.

Quando o Verbo Divino, só para nos vir buscar, se vestiu de nossa carne, o amor triunfou de Deus: triumphat de Deo amor — diz S. Bernardo; mas quando o mesmo Verbo, depois de se manifestar na mesma carne, tornou para o céu: Assumptus est in gloria — então triunfou Deus do seu mesmo amor. No primeiro triunfo o amor trouxe a Deus cativo à terra: Formam servi accipiens, in similitudinem hominum factus[36]; mas neste segundo triunfo, com que subiu ao céu, levou o Senhor cativo esse mesmo cativeiro: Ascendens in altum captivam duxit captivitatem[37]. — Este foi o mistério e a energia que ainda não ponderamos, porque só no dia da Ascensão se chama Cristo no nosso Evangelho Senhor. Oitenta e sete vezes nomeia S. Marcos na sua história o nome de Jesus, e só nesta ação lhe acrescenta o sobrenome ou antenome de Senhor: Et Dominus quidem Jesus assumptus est in caelum[38]. — E por que só hoje Senhor, e não antes? Porque até hoje andou Cristo sempre cativo, sempre senhoreado e sujeito ao seu amor; porém, hoje, em que lhe antepôs a nossa conveniência, hoje só o senhoreou e se mostrou Senhor dele, não ficando na terra conosco, porque nos amava, mas indo para o céu, porque nos convinha: Expedit vobis ut ego vadam.

XI – Se a ausência que hoje faz Cristo é tão incapaz de todo alívio, que até os anjos, quando lho quiseram buscar, saíram com uma desesperação, como a Esposa, tão amada e tão amante, que é a Igreja, em vez de se derreter em lágrimas se desfaz em festas?

Todas estas razões, sempre mais e mais maravilhosas, tem a Igreja para chamar admirável a Ascensão de seu divino Esposo: Per admirabilem Ascensionem tuam. — Mas, posto que a mesma Igreja esteja tão justamente admirada, nem por isso está menos admirável e menos digna de admiração neste mesmo dia. Estas são as duas admirações a que reduzi no princípio o meu discurso: uma admiração sua, e outra minha. Uma admiração da Igreja, com que ela se admira da Ascensão de Cristo, e outra admiração minha, com que eu me admiro da mesma Igreja neste mesmo da Ascensão.

Basta, Igreja Santa — dai-me licença para que declare as causas da minha admiração, como ponderei as da vossa. — Basta, Igreja Santa, amante e discreta, que estas são as correspondências do vosso amor, e estas as resoluções do vosso juízo? Tudo o que vejo e ouço em vós hoje, não só me parece alheio, senão contrário às obrigações deste dia. O que vejo são os altares ricamente paramentados, as paredes vestidas de ouro e seda, o pavimento juncado de flores, e até o teto chovendo rosas; o que ouço são contínuos repiques das vossas torres, músicas de vozes, e ruído de instrumentos nos vossos coros, com tanta novidade na harmonia das solfas como nos pensamentos das letras: tudo enfim demonstrações de aplauso, de alegria e festa. E quem poderia crer nem imaginar que assim solenizasse o vosso amor a despedida, a partida, a ausência do seu tão singularmente amante, como unicamente amado? Vai-se Cristo, e vós alegre? Parte-se o vosso Esposo, e vós com galas? Ausenta-se o vosso Deus, e vós cantando? Assim se pagam as finezas de trinta e três anos, e tão depressa se esquecem os desvelos de uma eternidade inteira? Não celebrava assim estas ausências Davi quando vós ainda éreis Sinagoga, e muito menos a Madalena depois que fostes Igreja. Davi chorava, e dizia: Fuerunt mihi lacrymae meae panes, dum dicitur mihi: Ubi est Deus tuus[39]? — A Madalena também chorava quando perguntada: Quid ploras[40]? — respondia: Tulerunt Dominum meum[41]. — Oh! quanto mais devidas eram as lágrimas à ausência de Cristo na Ascensão que na sepultura! A ausência da sepultura era ausência de três dias; a da Ascensão é ausência de toda a vida, e ainda mais. Assim o reconheceram e não puderam negar os mesmos anjos, que nesta ocasião desceram ao Olivete a retirar dele os apóstolos: Viri Galilaei, quid statis aspicientes in caelum? Hic Jesus, qui assumptus esta vobis in caelum, sic veniet, quemadmodum vidistis eum euntem in caelum (At. 1, 11): Não vos desconsole, varões de Galiléia, a ausência de vosso Mestre, porque assim como o vistes agora subir, assim há de tomar outra vez no dia do Juízo. — Extremada consolação por certo para umas saudades! Mais para perder o juízo que para esperar por ele. Pois, se a ausência que hoje faz Cristo é tão incapaz de todo o alívio, que até os anjos, quando lho quiseram buscar, saíram com uma desesperação, e se todas as circunstâncias desta despedida para tão longe e deste remédio para tão tarde, mais agravam todas as causas da dor e do sentimento; se mais magoam os corações, se mais enternecem as saudades, sem consolação nem alivio ao amor, como a Esposa, tão amada e tão amante, triste, deixada e solitária, em vez de se derreter em lágrimas se desfazem festas, e quando se devera meter e enterrar em uma cova do mesmo Monte Olivete, se mostra em público ao mundo todo, convidando-o a que lhe dêem os parabéns, e celebra e soleniza com tantos extremos de alegria o que devera lamentar e chorar com os maiores excessos e demonstrações de tristeza?

Esta é a minha admiração, com que me parece não menos admirável nem menos digna de nós admirarmos a Igreja neste mesmo dia, do que ela se admirou e teve sempre por admirável entre todas e sobre todas as ações de seu divino Esposo esta de sua Ascensão: Per admirabilem Ascensionem tuam. — E, se o amor de Cristo para conosco neste dia, sem embargo de nos deixar, foi admirável pelo modo com que nos deixou, e, sem embargo de se ir para o céu, foi admirável pela razão por que se foi, que seria se eu dissesse que o amor da Igreja para com Cristo neste mesmo dia, sem embargo de não chorar sua ausência, é admirável pelo modo com que a não chora, e sem embargo de a festejar com tantos excessos, é admirável pela razão por que a festeja? Pois isto mesmo é o que digo, e o que desfaz mais admiravelmente a minha mesma admiração. Em que foi admirável Cristo neste dia da sua Ascensão? Foi admirável em se ir para o céu, deixando a Esposa que tanto amava. E em que foi admirável neste mesmo dia a mesma Esposa, que é a Igreja, e somos nós? É admirável em celebrar e celebrarmos com festas esta mesma ida de Cristo, e sua ausência. Por quê? Porque só desta maneira podia corresponder o nosso amor ao seu amor, e pagar a nossa fineza à sua fineza. Notai. A fineza do amor de Cristo hoje consistiu em antepor as nossas conveniências aos seus desejos, e a fineza do nosso amor neste mesmo dia consiste em antepor as suas glórias às nossas saudades. A nossa perda era infinita, porque ele nos deixou; a sua glória era também infinita, porque se foi assentar à destra do Padre: Assumptus est in caelum, et sedet a dextris Dei (Mc. 16, 19) — e, posta a Igreja entre dois extremos, ambos infinitos, que havia ou devia fazer por seu Esposo, senão o que o Esposo fez por ela? Vós antepusestes as minhas conveniências ao vosso amor? Pois o meu amor há de antepor as vossas glórias à sua perda. Por isso vos festeja glorioso, quando vos havia de chorar ausente.

XII – As despedidas de Cristo e as despedidas de S. Paulo. Por que os anjos, quando vieram consolar os apóstolos, não acertaram com os motivos verdadeiros que só podiam ter naquele caso. A lição do divino Mestre quando anunciou aos discípulos a sua ausência. As despedidas de Davi e Jônatas.

Caso notável é, e sobre toda a admiração admirável, que naquele monte, e naquela hora, em que se representou a tragédia da mais lastimosa despedida, se não visse uma lágrima, e que o amor celebrasse as exéquias, à última vista de todo seu bem, com os olhos abertos e enxutos. Não há palavra que mais lastime e magoe o coração na despedida dos que se amam que um nunca mais. Se a despedida é para se tornarem a ver, o apartamento é sofrível; mas apartar-se de mim quem amo mais que a mim, para nunca mais o ver, este não ver mais é a maior dor dos olhos, e a que os desfecha e desfaz em rios de lágrimas. Quando S. Paulo se despediu dos efésios, declarando-lhes que aquela seria a última vez que se veriam, diz o texto sagrado que entre todos se levantou um pranto desfeito: Magnus autem fletus factus est omnium (At. 20, 37) — e que a principal causa da sua dor era porque nunca mais o haviam de ver: Dolentes maxime in verbo, quod dixerat, quoniam amplius faciem ejus non essent visuri (At. 20, 38). Pois, se esta consideração, ou desengano, de que não haviam de ver mais a S. Paulo, era a causa da maior dor de seus discípulos, e de que todos chorassem em pranto desfeito, sem haver nem um só que pudesse reprimir as lágrimas naquela última despedida, como nesta de Cristo se não viu uma só lágrima em todos os seus discípulos, que o amavam sem comparação tanto mais que a S. Paulo os seus? A razão é a que se tira do mesmo texto: Cumque intuerentur in caelum euntem illum[42]. — Não se viu nos discípulos de Cristo uma lágrima, senão todos com os olhos enxutos, porque olhavam para ele e para o céu, aonde subia e não para si, nem para a terra, onde os deixava. A nuvem lho tirou dos olhos, mas aos mesmos olhos, que nela, como em carro triunfal, o viam subir ao céu, para se assentar à destra do Padre no trono da sua glória, esse mesmo céu, esse mesmo trono, e essa mesma glória, lhes suspendia em lágrimas, para que, trocadas em júbilos de alegria, não chorassem o que perdiam, mas só se lembrassem e festejassem o que ele ia lograr. Daqui se segue e vê claramente, que, quando os anjos vieram consolar os apóstolos, não acertaram com os motivos da verdadeira consolação que só podiam ter naquele caso. Que disseram os anjos aos apóstolos? Estranharam-lhes estar olhando para o céu: Quid statis aspicientes in caelum? — E isto que lhes estranharam é o que lhes haviam de persuadir, porque, se o verem que se ia Cristo os podia entristecer, só o olharem para onde ia os podia alegrar.

Assim o confirmou expressamente o mesmo Cristo, que só o seu entendimento podia emendar e ensinar o dos anjos. Tendo anunciado o Senhor depois da última ceia aos discípulos que se havia de partir deste mundo, e vendo-os tão tristes com aquela não esperada nova, como ela merecia, estranhou-lhes a tristeza com estas palavras: Vado ad eum qui misit me, et nemo ex vobis interrogat me: Quo vadis? Sed quia haec locutus sum vobis, tristitia implevit cor vestrum (Jo. 16, 5 s): Por que vos disse, discípulos meus, que me hei de ir, vejo-vos tristes, não só no rosto, senão no coração, e nenhum de vós me pergunta para onde vou: Et nemo ex vobis interrogat me: Quo vadis? — Oh! divinas palavras: Nemo ex vobis: nenhum de vós — diz — porque entre os discípulos uns eram mais entendidos, outros mais rudes, e nem os rudes, nem os entendidos alcançavam a verdadeira razão com que se haviam de consolar e alegrar naquela despedida, porque todos reparavam em quem se ia, e nenhum considerava para onde ia. Se vos entristece o vadam: porque me vou, perguntai-me quo vadis: para onde vou, e logo vos alegrareis. Esta foi a lição do último Mestre quando anunciou aos discípulos a sua ausência, e, porque eles a observaram no dia da partida, por isso hoje se não viram no Olivete lágrimas, nem uma só lágrima: Cum que intuerentur in caelum euntem illum. O euntem illum lhes podia provocar as lágrimas, porque se ia; mas, como olhavam juntamente para onde ia: Cum que intuerentur in caelum — o para onde lhes suspendeu as lágrimas, de maneira que nem uma só se chorou onde eles ficavam.

A razão desta filosofia, tirada das entranhas do verdadeiro e fino amor, só podia ser do mesmo Mestre divino, e assim foi. Estranhando-lhes o Senhor aos discípulos a tristeza que acabamos de dizer e eles não acabavam de arrancar do coração, disse-lhes assim: Si diligeretis me, gauderetis utique, quia vado ad Patrem (Jo. 14, 28). Ah! discípulos meus, que vejo que me não amais! Se vós me amáreis, vós vos alegraríeis muito, porque vou para meu Padre. — Antes de chegarmos ao Padre reparemos no quia vado. Se Cristo vira aos discípulos alegres em sua despedida, e lhes dissera: Bem parece que me não amais, pois vos alegrais quando me parto — esta é a conseqüência que dos olhos enxutos em semelhantes ocasiões costuma colher o juízo humano, ainda sem outros sinais de alegria. Mas, vendo os discípulos tristes, dizer-lhes o Senhor: Bem se vê que me não amais, pois vos entristeceis quando me vou? — Sim, porque só consideravam quem se ia, e não para onde: quem se ia — quia vado, e não para onde — ad Patrem. Cristo, Senhor nosso, posto que enquanto Deus era igual ao Padre, enquanto homem era menor, como ele mesmo disse: Quia Pater major me est[43]. — E como o Senhor enquanto homem se ia assentar à destra do Padre, entristecerem-se os discípulos com a sua ausência, considerando a perda e orfandade em que ficavam, era efeito do amor-próprio com que se amavam a si; porém, alegrarem-se na mesma ausência, considerando a nova glória e majestade de seu Mestre e Senhor, era afeto de amor verdadeiro e fino, com que o amavam a ele. Por isso a tristeza e lágrimas que chorassem naquela ocasião eram ofensa do amor, e a alegria e lágrimas que não chorassem, fineza.

Daqui se entenderá uma questão curiosa da Escritura, não sei se bem explicada dos intérpretes. Quando Davi, perseguido de Saul, se despediu do príncipe Jônatas, diz o texto sagrado que ambos choravam, mas que Davi chorou mais: Fleverunt ambo pariter, David autem amplius (1 Rs. 20, 41). — É certo, como consta do mesmo texto em diversos lugares, que Jônatas amava mais a Davi do que Davi a Jônatas. Pois, se ambos se apartavam, e Jônatas amava mais, por que chorou menos? Em Cristo provaram os de Jerusalém na ressurreição de Lázaro que amava, porque chorou; na Madalena provou Cristo que amava muito, porque chorou muito. Pois, se a medida do amor são as lágrimas, e quem mais chora mais ama, por que razão nesta despedida chorou menos quem amava mais? Porque nas circunstâncias daquela despedida era prova do amar mais o chorar menos, e não mostrou Jônatas o excesso com que amava a Davi nas lágrimas que chorou, senão nas que deixou de chorar. Esta ausência, que Davi fazia, não lhe importava menos que o viver e reinar, porque, escapando das mãos de Saul, salvava a vida, e conservando a vida, segurava a coroa. E como a ausência de Davi era para tanto bem a glória sua, por isso Jônatas, amando mais, chorava menos, porque as melhoras do amigo que se ia suspendiam as lágrimas do amigo que ficava. Donde se segue que mais devia Davi a Jônatas pelas lágrimas que deixava de chorar que pelas que chorava, porque as lágrimas que chorava corriam das fontes do amor-próprio, com que se amava a si, e as lágrimas que deixava de chorar secavam-se nas fontes do amor fino, com que o amava a ele. Umas lágrimas corriam tristes, e outras suspendiam-se alegres; mas as primeiras corriam, porque eram grosseiras, as segundas suspendiam-se, porque eram finas. E tais são as lágrimas que hoje suspende e não chora a Igreja, tanto apesar das ocasiões de tristeza que lhe ficam na terra, como a prazer dos motivos de alegria que lhe leva o céu: Assumptus est in caelum.

XIII – As razões que tem a Igreja para publicar a sua alegria com repiques, cantá-la com músicas e solenizá-la com festas, e as palavras de Labão a Jacó, quando este voltava ocultamente para as terras de seus pais.

Satisfeitas assim e tão finamente convencidas as razões que a Igreja tinha para chorar as suas saudades, delas se segue, com igualmente amorosa conseqüência, que as não havia de calar com o silêncio, que sói encobrir ou dissimular a tristeza, mas publicar a sua alegria com repiques, cantá-la com músicas, ostentá-las com galas, e solenizá-la com festas. Saiu Jacó de casa de Labão ocultamente, levando consigo para a sua pátria o prêmio dos seus primeiros catorze anos, que era Raquel e Lia, e tudo o mais que ganhara nos seis seguintes, quando, sabendo o caso Labão, o foi alcançar ao caminho, e lhe falou desta maneira: Cur ignorante me fugere voluisti, nec indicare mihi, ut prose querer te cum gaudio, et canticis, et tympanis, et citharis (Gên. 31, 27): Se vos queríeis ir da minha casa não seria bem, Jacó, que o soubera eu, porque quando vos partíreis, vos despedisse com festas, com músicas, com instrumentos, e com todas as demonstrações públicas de alegria? — Assim disse Labão, que não era néscio. E verdadeiramente que este gênero de cumprimento não é fácil de entender. Se dissera que se queria despedir de Jacó para lhe dar os últimos braços, para desafogar primeiro as saudades, para chorar muito com ele, já que se ia, isto é o que pedia o parentesco, o amor, e ainda a urbanidade; mas para haver músicas, para haver festas, para haver todas as demonstrações de alegria e gosto na sua despedida: Ut prosequerer te cum gaudio, et canticis? — Não é isto o que se costuma, mas esteve muito bem considerado, ou fingido, porque assim o pedia a razão nas circunstâncias presentes. Esta jornada de Jacó era de grande gosto e utilidade sua. Havia vinte anos que vivia peregrino em Mesopotâmia, agora tomava para a sua pátria: viera solitário e pobre com o seu báculo na mão, agora tornava rico e com numerosa família; viera a tomar estado, em que é tão duvidoso o acerto, e levava consigo a Raquel e Lia, suas esposas insignes, uma na formosura, outra na fecundidade; finalmente, tomava para casa de seu pai, para a presença dos seus, e para gozar descansado por toda a vida o fruto de seus compridos trabalhos. E como esta partida era tão conveniente a Jacó, e para tanto bem seu e em Labão concorriam tantas razões de o amar, ou mostrar que o amava, por isso discretamente lhe disse que o havia de acompanhar, e celebrar a sua despedida, não com lágrimas, senão com festas, posto que muito a sentisse, porque o verdadeiro e desinteressado amor entre os que se partem ou ficam, mais atende às felicidades de quem se parte, para alegrar, que às saudades de quem fica, para enternecer.

Isto é o que fez ou dissimulou com fingido amor Labão, pintando com falsas mas proféticas cores aquela formosa figura que hoje se descobriu à realidade. E isto é o que faz com primorosa e verdadeira fineza na despedida do seu divino Jacó a Igreja santa. Havia trinta e três anos que Cristo andava peregrino de sua pátria, e tornava hoje triunfante a ela; descera do céu vestido de nossa humanidade, só, e com o báculo de sua cruz na mão, e agora tornava acompanhado de tão inumerável família quantos eram os padres e santos do limbo, cujas almas eram as suas Lias e as suas Raquéis; tinha feito nos vales deste mundo vida de pastor, e tornava rico e glorioso para casa de seu pai, para gozar eternamente nela o fruto dos imensos trabalhos que padecera; e como a Igreja considerou que as felicidades a que subia seu Esposo eram tão avantajadas, ainda que as causas de sua dor e sentimento não fossem menores, achou que era mais conforme às obrigações de sua fidelidade e amor alegrar-se com ele que entristecer-se consigo. Por isso troca as tristezas em alegrias, as saudades em júbilos, as lágrimas em festas, e as lamentações ou endechas em cânticos: Ut prose querer te cum gaudio, et canticis.

XIV – Admirável correspondência com que os amantes dos Cantares se despediram. Que pensamento podia ter Eva em querer fazer a Adão cúmplice de seu delito. Quando as ausências são para glória de quem se parte, ninguém as sente melhor que quem mais se alegra.

Mas ouçamos em lugar de Labão a mesma Esposa, e em vez de Jacó ao mesmo Cristo. No último capítulo e nos últimos dois versos da amorosa história dos Cantares de Salomão, descreve ele a última despedida do Esposo e da Esposa, isto é, de Cristo e sua Igreja, que são os dois interlocutores ou figuras principais daquele diálogo pastoril. E que se diriam naquela ocasião os dois maiores amantes, ele divino, e ela mais que humana? O Esposo disse-lhe que cantasse de modo a que ele e todos os amigos de ambos — que são os fiéis — a ouvissem: Amici auscultant; fac me audire vocem tuam[44]. Obedeceu a Esposa, cantou, e o que disse foi rogar ao Esposo que se partisse com toda a pressa, e se fosse para os montes de Beter: Heu, foge, dilecte mi, assimilare capreae, hinuloque cervorum super montes Beter[45]. — O Beter, ou Betel, quer dizer casa de Deus, qual é o céu, para onde o Esposo então subia. E haverá alguém que em tal ocasião pudesse esperar nem imaginar tais palavras, tanto da parte do Esposo, que se partia, como da Esposa, que ficava? Basta, Esposo e Amante divino, que vos partis e deixais vossa Esposa, e lhe dizeis que cante? Basta, Esposa santa, cuja santidade consiste no mesmo amor, que quando vosso Esposo se parte, e se ausenta de vós, lhe rogais que acabe de se despedir, e que se vá com toda a pressa? Este é o amor? Estas são as finezas? Estes são os extremos das saudades? E estes os esmorecimentos mortais na despedida, não de uma, senão de duas almas? Agora é que tinham melhor lugar os desmaios da Esposa, e o dizer que o não havia de largar: Tenui eum, nec dimittam[46]. — Mas ele dizer-lhe que cante, quando havia de chorar, e ela dizer-lhe que se apresse, quando lhe havia de pedir os momentos que noutro tempo lhe pareciam eternidades? Sim, sim, sim. Não fora Cristo o que era, nem a Esposa o que devia ser, se falaram doutra sorte. Que tinha Cristo dito aos discípulos antes desta hora? Si diligeretis me, gauderetis utique, quia ad Patrem vado (Jo. 14, 28): Se vós me amásseis, vós vos alegraríeis muito com a minha ida, porque vou para meu Padre. — Assim devia ser e assim foi. Porque a Esposa se devia alegrar com sua ida, por isso lhe diz o Esposo que cante, como hoje faz a Igreja; e porque a Esposa amava muito ao Esposo, por isso lhe diz que se vá e não chora, mas festeja a sua partida.

Esta foi a admirável correspondência com que ambos os Amantes neste dia se competiram e pagaram, sendo a mesma ausência em ambos a pedra de toque, em que um e outro amor, não só qualificou, mas igualou seus quilates. E como? Ele comprando as nossas conveniências com se ausentar de nós, e nós estimando mais as suas glórias, posto que ficássemos ausentes dele. Ele na valentia da sua resolução obrou como quem era Filho de Deus, e nós na nossa, como se não fôramos filhos de Adão. Comeu Eva vede como se prova o que digo por um exemplo contrário — comeu Eva a fruta vedada, e diz o texto que deu também dela a Adão, para que comesse: Deditque viro suo, qui comedit (Gên. 3, 6). — Que comesse Eva, não me admira: era mulher, e o seu apetite, a sua ambição, e, quando não houvera outro motivo, a sua curiosidade — porque ainda não sabia a que sabia o comer — lhe pode servir de alguma desculpa. Mas, sendo a penada proibição tão grave, e cominada a ambos, que fim, ou que pensamento podia ter Eva em querer que também comesse Adão? Descobriu-o profundamente Santo Ambrósio. Diz que quis Eva fazer a Adão cúmplice no delito, para o fazer companheiro no desterro, como verdadeiramente sucedeu: Excludendam se esse cognoscens consortio vin, quem diligebat, noluit defraudari. — Depois que Eva quebrou o preceito, cega do seu pecado e cega também do amor do Esposo, fez este discurso: Suposto que eu comi do fruto vedado no paraíso, quando menos há-me de desterrar Deus do mesmo paraíso, e Adão, suposto que não comeu, não há de ser desterrado: donde se segue que havemos de ficar divididos e ausentes, ele no paraíso e eu no desterro. — Pois, que remédio? — diz Eva. — Também mostrou ser mulher na astúcia. Darei desta mesma maçã a Adão para que coma; comendo, ofender-se-á Deus igualmente; ofendido Deus, desterrá-lo-á também a ele do paraíso; desterrado, iremos juntos para onde nos lançarem, e desta maneira ficará remediada a sua ausência e as minhas saudades, porque antes quero a Adão no desterro comigo que no paraíso sem mim.

Eis aqui como ama Eva, aquela que foi tirada do lado de Adão; mas não ama assim a Igreja, que foi tirada do lado de Cristo. Aqueles ditames são os próprios do amor-próprio, estes os verdadeiros do amor verdadeiro. Bem conheceu a Igreja que indo-se seu Esposo para o céu, fica ela só e peregrina na terra; mas como o ama a ele mais que a si mesma, troca as palavras de Eva, e diz desta maneira: Heu, fuge, dilecte mi: Esposo e amado meu, ide-vos, ide-vos. — Bem vejo que fico ausente e desterrada; mas vivei vós glorioso com vosso Padre no céu, que eu antes vos quero no paraíso sem mim, que no desterro comigo. No desterro era-me alívio a vossa presença; na ausência ser-me-á alívio a vossa glória, e muito maior alívio. Enquanto estáveis comigo na terra, padecia as minhas penas e mais as vossas; agora que estais no céu — posto que sem mim — nem as minhas venho a padecer, porque basta a consideração das vossas glórias, para ser a suspensão das minhas penas. Não temos logo que nos admirar, nem de que os apóstolos na despedida de Cristo nenhuma demonstração fizessem de sentimento, nem de que a Igreja neste dia, em que a mesma despedida se representa, a celebre com festas, porque, quando as ausências são para glória de quem se parte, ninguém as sente melhor que quem mais se alegra.

XV – A Ascensão de Cristo e a nossa ascensão. A terra, vale de lágrimas onde o homem prudente prepara a sua ascensão. Os sagrados vestígios de Cristo e o templo do Monte Olivete. Conclusão.

Alegre-se, pois, todo o fiel cristão, e ponha os olhos no céu, para que foi criado pelo nascimento e chamado pelo batismo. Lembre-se que este mesmo Senhor, que hoje subiu, quando desceu nos veio buscar, e que, se partiu primeiro, não foi para nos deixar, senão para ir adiante. Hoje foi o dia da sua Ascensão, e, por mais que dure esta vida, não tardará muito o dia da nossa. Lembremo-nos deste dia, e preparemo-nos também para a nossa ascensão. Diz Davi que todo o homem que tem fé e prudência prepara e dispõe a sua ascensão neste vale de lágrimas: Ascensiones in corde suo disposuit, in valle lacrymarum, in loco quem posuit[47]. — O vale é muito fundo, o monte é muito alto, e não se pode lá subir sem muita prevenção. Pergunte-se cada um, no caso em que agora se lhe acabasse a vida, se se acha disposto para subir ou para descer? Jacó, tendo uma escada lançada do céu à terra, e olhando para cima, disse: Terribilis est locus iste (Gên. 28, 17): Oh! terrível, oh! que temeroso lugar é este! — E que seria se olhasse também para baixo? Mas deixemos esta tremenda consideração, que não é para dia tão alegre. Se o vale em que se prepara e dispõe a nossa ascensão é vale de lágrimas: In valle lacrymarum in loco quem posuit — não choremos a Ascensão de Cristo, que tanto nos deve alegrar, mas choremos o perigo em que fica a nossa. Ó vícios, ó vaidades, ó invejas, ó ódio, ó vinganças, ó ambições, ó cobiças, ó torpezas, pelas quais se está desprezando na terra, e vendendo publicamente o céu, comprado com o preço infinito do sangue do Filho de Deus, e das chagas que, subindo, nos está mostrando do mesmo céu! Ah! Senhor, quem bem se vira nesses divinos espelhos, e logo voltara os olhos cheios de confusão à terra, e os fixara naqueles sagrados vestígios, que das pedras do Olivete, menos duras que os nossos corações, nos deixastes impressos, para que nos animemos a seguir vossos passos: Ut sequamini vestigia ejus[48]! — No mesmo lugar se edificou depois um precioso templo, cujas abóbadas, por nenhuma arte ou força se puderam jamais cerrar, querendo o sempre amoroso Redentor que aquele caminho ou via láctea, por onde subiu ao céu, nos ficasse perpetuamente aberto. Que nos detém logo, ou que nos prende, para que não subamos todos? Esta é a hora de se romperem as cadeias, que não são mais que umas teias de aranha, com que nos embaraça o mundo, com que nos enreda a carne, e com que nos cativa o demônio. E se a mesma hora foi aquela em que o soberano Triunfador de todos estes inimigos levou o mesmo cativeiro rendido e maniatado no seu triunfo: Christus ascendens in altum, captivam duxit captivitatem[49] — desatados e livres já dos mesmos inimigos, e cada um de si mesmo, que é o maior inimigo, metamos debaixo dos pés a terra, e tudo o que acaba com o tempo, e, com os olhos postos no céu e na eternidade, peçamos ao liberalíssimo Senhor, que entre os dons que então repartiu aos homens: Dedit dona hominibus[50] — os comunique agora os de sua graça e perseverança nela, para que no dia das nossas ascensões, que não pode tardar muito, subamos em seguimento seu a assistir e adorar o trono da glória, em que está assentado à destra do Padre: Ascendit in caelum, et sedes a dextris Dei.

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[1] E na realidade o Senhor Jesus, depois de assim lhes haver falado, foi assumpto ao céu, onde está assentado à mão direita de Deus (Me. 16, 19).
[2] E o nome com que se apelide será Admirável, Conselheiro, Deus forte, Pai do futuro século, Príncipe da paz (Is. 9, 6).
[3] Senhor, nosso dominador soberano, que admirável é o teu nome em toda a terra (SI. 8, 1 s).
[4] Tu fizeste sair da boca dos infantes e dos que mamam um louvor perfeito (ibid. 3).
[5] Aqui está o pão que desceu do céu (Jo. 6, 59).
[6] Estai certos de que eu estou convosco (Mt. 28, 20).
[7] Este é o meu corpo (Mc. 14, 22).
[8] Foi assumpto ao céu, onde está assentado à mão direita de Deus (Mc. 16, 19).
[9] Deixou memória das suas maravilhas (Si. 110, 4).
[10] A sua saída é desde uma extremidade do céu, e corre até à outra extremidade dele (SI. 18, 7).
[11] Deu saltos como gigante para correr o caminho (ibid. 6).
[12] Ei-lo aí, vem saltando sobre os montes, atravessando os outeiros (Cânt. 2, 8).
[13] Aquela é a voz do meu amado (ibid.).
[14] Que por nós homens, e pela nossa salvação, desceu dos céus.
[15] Aquele que subiu, esse mesmo é o que desceu (Ef. 4, 9).
[16] As suas pernas são umas colunas de mármore, que estão sustentadas sobre bases de ouro (Cânt. 5,15).
[17] Adoraremos no lugar onde estiveram os seus pés (SI. 131, 7).
[18] Oxalá romperas tu os céus, e desceras de lá (Is. 64, 1).
[19] Ou que com cinzel se gravassem em pederneira (Jó 19, 24).
[20] Se eles se calarem, clamarão as mesmas pedras (Lc. 19, 40).
[21] Foi assumpto (Mc. 16,19).
[22] Elevou-se (At. 1, 9).
[23] Separou-se deles (Lc. 24, 51).
[24] Aquele que sobe sobre o ocidente, o Senhor é o seu nome (SI. 67, 5).
[25] Dizei salmos ao Senhor, que subiu sobre todos os céus para a parte do oriente (ibid. 33 s).
[26] Tomarão asas como de águia (Is. 40, 31).
[27] E o recebeu uma nuvem, que o ocultou a seus olhos (At. 1, 9).
[28] E como estivessem olhando para o céu quando ele ia subindo (ibid. 10).
[29] Varões galileus, que estais olhando para o céu (ibid. 11)?
[30] Apalpai e vede, que um espírito não tem carne nem ossos (Lc. 24, 39).
[31] Vou para meu Pai, e vosso Pai, para meu Deus, e vosso Deus (Jo. 20, 17).
[32] Tocado interiormente de dor, disse: Eu destruirei o homem que crïei (Gên. 6, 6s).
[33] Ao qual os mesmos anjos desejam ver (1 Pdr. 1, 12).
[34] E na realidade o Senhor Jesus, depois de assim lhes haver falado, foi assumpto ao céu (Mc.16,19).
[35] Convém a vós que morra um homem (Jo. 11, 50).
[36] Tomando a natureza de servo, fazendo-se semelhante aos homens (Flp. 2, 7).
[37] Quando ele subiu ao alto, levou cativo o cativeiro (Ef. 4, 8).
[38] E na realidade o Senhor Jesus foi assumpto ao céu (Mc. 16, 19).
[39] As minhas lágrimas foram o meu pão, enquanto se me diz: Onde está o teu Deus (SI. 41, 4)?
[40] Por que choras (Jo. 20, 13)?
[41] Levaram o meu Senhor (ibid.).
[42] E como estivessem olhando para o céu quando ele ia subindo (At.1,10).
[43] Porque o Pai é maior do que eu (Jo. 14, 28).
[44] Os teus amigos estão atentos; faze-me ouvir a tua voz (Cânt. 8, 13).
[45] Foge, amado meu, e faze-te semelhante a uma cabra montesa, e aos veadinhos sobre os montes de Beter (Cânt. 8, 14 – Text. Hebr.).
[46] Aferrei dele, nem o largarei (Cânt. 3, 4),
[47] Que dispôs elevações no seu coração, neste vale de lágrimas, no lugar que Deus destinou para si (SI. 83, 6 s).
[48] Para que sigais as suas pisadas )1 Pdr. 2, 21).
[49] Cristo, quando subiu ao alto, levou cativo o cativeiro (Ef. 4, 8).
[50] Deu dons aos homens (ibid.)

Fonte: https://www.literaturabrasileira.ufsc.br/documentos/?action=download&id=49774