Sermão da Quarta Dominga depois da Páscoa

SERMÃO DA QUARTA DOMINGA DEPOIS DA PÁSCOA,

Com comemoração do Santíssimo Sacramento, em S. Luís do Maranhão.


Vado ad eum qui me misit, et nemo ex vobis inierrogat me: Quo vadis? Sed quia haec locutus sum vobis, tristitia implevit cor vestrum[1]

I – A mesa e a sobremesa do Santíssimo Sacramento. Assunto do sermão: a arte de não estar triste.

Nos outros dias em que celebramos a memória do sagrado mistério da Eucaristia, temos sempre a mesa do Santíssimo Sacramento; hoje temos a mesa e mais a sobremesa. Instituiu Cristo, Senhor nosso, o Sacramento de seu corpo e sangue na última Ceia que celebrou com seus discípulos: veio a usual primeiro, depois a legal, e por fim, com pasmo dos homens e assombro dos anjos, a sobrenatural e divina, e a esta se seguiu a sobremesa, não menos soberana e admirável, que foi uma prática paternal e amorosa, cheia de documentos e segredos altíssimos, com que o divino Mestre ilustrou, mais que nunca, os entendimentos de toda a sua escola, e lhes animou e fortaleceu os corações, para que perseverassem firmes em sua doutrina e amor.

Desta prática é parte o Evangelho que acabamos de ouvir, e deste Evangelho são também parte as palavras que propus; poucas, mas muito notáveis. Entre as coisas que o Senhor declarou e revelou aos discípulos, foi que era chegada a hora em que se havia de apartar deles, e partir deste mundo. Já se vê quais seriam os efeitos que causaria nos ânimos de todos uma novidade tão grande, e não esperada. Ficaram como atônitos e fora de si, e penetrados de uma tristeza tão profunda, que juntamente os emudeceu a todos, sem haver quem dissesse uma palavra. As saudades, o próprio desamparo, e, em suma, a força da tristeza, parece que eram causa daquele silêncio; mas o Senhor, pelo contrário, lhes declarou que o silêncio era a causa da tristeza: Quia haec locutus sum vobis, tristitia implevit cor vestrum (Jo. 16, 6): Porque vos disse que me hei de apartar de vós, se encheram de tristeza os vossos corações. — E a verdadeira causa dessa mesma tristeza, que parece sem remédio, não é a minha ausência, senão o vosso silêncio: Nemo ex vobis interrogat me: Quo vadis? Nenhum de vós me pergunta para onde vou, e por isso estais tristes: que se vós me fizéreis esta pergunta, e eu vos respondera a ela, nenhum de vós se havia de entristecer.

Esta conseqüência verdadeiramente admirável, que parece enigmática e dificultosa de entender, entenderam os discípulos com a luz que infundiu em suas almas o Mestre divino. E nós, que faremos? Deixando os discípulos já consolados e animados, e aplicando a mesma conseqüência a nós, ela será a matéria do meu discurso. Determino ensinar hoje a todo o homem em qualquer fortuna, uma arte muito certa, muito útil, muito agradável e muito breve, que é a arte de não estar triste. Se houvesse uma arte ou remédio universal que totalmente nos livrasse de tristezas, e que em nenhum caso houvéssemos ou pudéssemos estar tristes, não seria muito para desejar, e para todos a quererem aprender? Pois isto é o que hoje pretendo ensinar com a divina graça. Peçamo-la por intercessão da cheia de graça. Ave Maria.

II – A tristeza, mal e enfermidade universal de que ninguém escapa.

A enfermidade mais universal que padece neste mundo a fraqueza humana, e não só a mais contrária à saúde dos corpos, senão também a mais perigosa para a salvação das almas, qual cuidais que será? É a tristeza.

Primeiramente é enfermidade universal de todos os homens, e universal igualmente de todas as terras, porque nenhuma há tão sadia, e de ares tão benignos e puros que esteja isenta deste contágio, e nenhum homem há tão bem acomplexionado de todos os humores que quase habitualmente não esteja sujeito aos tristes acidentes da melancolia[2]. O primeiro e infalível prognóstico, e também universal, desta doença, quando ainda não sabemos dearticular vozes, é entrarmos neste mundo chorando. Entramos todos chorando, diz Salomão — metendo-se também ele na conta — porque assim confessamos esta miséria natural, e começamos nos primeiros passos da vida a pagar este tributo à tristeza, a que havemos de estar sujeitos em toda ela. A tristeza — se buscarmos a razão deste tributo — não é filha da natureza, senão da culpa. Do primeiro pecado do gênero humano nasceu um tão negro e feiíssimo monstro, e como todos somos filhos de Adão, todos herdamos dele este triste patrimônio. Nenhum filho daquele pai foi tão privilegiado da natureza, nem tão mimoso da fortuna, nem tão lisonjeado da vida, nem tão esquecido da morte, que antes dela não padecesse muitas tristezas que lhe fizessem desagradáveis essas mesmas felicidades. Este mundo em que vivemos, todo é vale de lágrimas, nome com que o batizou Davi, ainda para depois de cristão: In valle lacrymarum, in loco quem posuit[3]. — Em todo este vale ninguém pode melhorar ou altear de lugar, ainda que o ponha onde quiser: In loco quem posuit — e ninguém se pode isentar de tristezas, porque todo o mundo é vale, e todo o vale é de lágrimas: In valle lacrymarum. — Só este vale é vale sem montes, e, posto que alguns quiseram levantar montes neste vale, e parece que o conseguiram, todos esses montes, por altos e altíssimos que sejam, não escapam do dilúvio da tristeza. Os reis, os príncipes, os monarcas, os imperadores, os papas, por mais que o seu estado os tenha levantado tanto sobre os outros homens, nem por isso deixam de chegar lá os nublados e chuveiros contínuos das tristezas. É verdade que as tristezas dos príncipes andam sobredoiradas com os resplendores dos cetros e das coroas, mas por isso mesmo são maiores e mais pesadas, porque são mais interiores. As tristezas que correm pelos olhos não são as mais tristes; as que se afogam no coração, e as que o afogam, essas são as mais sensíveis e penetrantes. Aqueles mesmos resplendores, que cá se admiram por fora, são os relâmpagos das grandes tempestades que lá se ocultam e devoram por dentro. Assim que a tristeza é um mal e enfermidade universal, de que ninguém escapa.

III – A tristeza, a doença mais contrária à saúde dos corpos, porque, mais ou menos aguda, sempre é mortal.

É também, como dizia, a doença mais contrária à saúde dos corpos, porque, mais ou menos aguda, sempre é mortal. Não o hei de provar com aforismos de Hipócrates ou Galeno, mas com textos expressos todos do Espírito Santo. No capítulo dezessete dos Provérbios, diz o Espírito Santo por boca de Salomão que a tristeza seca os ossos: Spiritus tristis exsiccat ossa (Prov. 17, 22). — Se dissera que murcha e seca a cor, a pele, as veias, a carne, muito dizia; mas os ossos, que são as partes mais interiores, mais sólidas, mais duras, mais fortes, com que se sustenta esta fábrica do edifício humano? Assim o diz a sabedoria daqueles olhos que penetram dentro em nós, o que nós não podemos ver. De sorte que é a tristeza um gusano negro — à diferença dos brancos, que roem o bronze — o qual nos está sempre comendo e carcomendo por dentro, e bebendo e secando o úmido daquelas raízes, em que se sustenta o calor da vida, até que ele se apaga, e ela morre.

Mas este até que quanto tardará? Não muito tempo, nem com passos vagarosos, porque aquele cavaleiro do Apocalipse, que, montado sobre um cavalo pálido, tinha por nome Morte, esporeado da tristeza corre a toda a pressa. O mesmo Espírito Santo o diz no capítulo trinta e oito do Eclesiástico: A tristitia festinat mors[4]. — Para uns homens parece que vem a morte a pé, para outros a cavalo; para uns andando, para outros correndo, porque uns morrem devagar, outros depressa; mas a Parca que sempre antes do tempo corta os fios à vida é a tristeza. Vereis a um destes, quando ainda se conta no número dos vivos, descorado, pálido, macilento, mirrado; as faces sumidas, os olhos encovados, as sobrancelhas caídas, a cabeça derrubada para a terra, e a estatura toda do corpo encurvada, acanhada, diminuída. E se ele se deixasse ver dentro da casa ou sepultura, onde vive como encantado, vê-lo-íeis fugindo da gente, e escondendo-se à luz, fechando as portas aos amigos e as janelas ao sol, com tédio e fastio universal a tudo o que visto, ouvido ou imaginado pode dar gosto. E estes efeitos tão desumanos, cujos são, e de que procedem? Sem dúvida da melancolia venenosa e oculta, que a passos apressados leva o triste à morte: A tristitia festinat mors.

Para prova desta funesta verdade, bastava um só, e sobejavam os dois textos referidos do Espírito Santo; mas sobre eles acrescentou a mesma sabedoria o terceiro, tão admirável e encarecido, que, se não fora da boca divina, pudera parecer incrível: Omnis plaga tristitia cordis est (Ecl. 25, 17): A tristeza do coração não é uma só chaga ou uma só ferida, senão todas. — Sendo chaga e ferida do coração, bastaria ser uma só para ser mortal; mas, como no coração depositou a natureza todo o tesouro da vida, assim no mesmo coração descarregou a tristeza toda a aljava das suas setas. Dali saem todos os espíritos vitais, que se repartem pelos membros do corpo, e dali, se o coração é triste, todos os venenos mortais que os lastimam e ferem. Ferem a cabeça, e, perturbando o cérebro, lhe confundem o juízo; ferem os ouvidos, e lhe fazem dissonante a harmonia das vozes; ferem o gosto, e lhe tornam amargosa a doçura dos sabores; ferem os olhos, e lhe escurecem a vista; ferem a língua, e lhe emudecem a fala; ferem os braços; e os quebrantam; ferem as mãos e os pés, e os entorpecem; e, ferindo um por um todos os membros do corpo, nenhum há que não adoeça daquele mal, que maior moléstia lhe pode causar, e maior pena. Considerai-me um cadáver vivo, morto e insensível para o gosto, vivo e sensitivo para a dor, ferido e lastimado, chagado e lastimoso, cercado por todas as partes de penas, de moléstias, de aflições, de angústias, imaginando todo o mal, e não admitindo pensamento de bem, aborrecido de tudo, e muito mais de si mesmo, sem alívio, sem consolação sem remédio e sem esperança de o ter nem ânimo ainda para o desejar: isto é um triste de coração. Os outros venenos, em chegando ao coração, matam; mas este[5], como nasce e se cria no mesmo coração, vai mais devagar em matar, mas não pode tardar muito.

IV – A tristeza, perigosa e nociva à salvação das almas. Se só o pecado é morte da alma, como pode a tristeza matar as almas? A melancolia é a nona praga do Egito. Como concorre a tristeza com o demônio para o pecado? Os exemplos da Escritura.

Fosse embora tão contrária à vida e saúde dos corpos a enfermidade da tristeza, mas o pior mal deste mal é ser igualmente perigosa e nociva à salvação das almas. Este é o terceiro ponto deste primeiro discurso, e uma verdade pouco sabida, sendo a de maior importância.

Tristitai animarum crudele tormentum est, et vermi similis venenato, non sol um carnem, sed animam ipsam perimens: A tristeza — diz S. João Crisóstomo — é um cruel tormento da alma, e semelhante a um bicho venenoso, que dentro em nós, não só mata os corpos, senão também as mesmas almas. — Grande dizer, mas difícil, ao que parece! A morte do corpo consiste na separação, com que a alma, que é a vida do corpo, se aparta do corpo, a morte da alma consiste na separação com que Deus, que é a vida da alma, se aparta da alma: a separação da alma, com que morre o corpo, fá-la a febre, ou a espada; a separação de Deus, com que morre a alma, fá-la só o pecado. Pois, se só o pecado é morte da alma, como pode a tristeza matar as almas? Por isso mesmo, porque sendo a morte da alma só o pecado, a disposição para o pecado mais aparelhada, mais pronta, mais eficaz e mais próxima é a tristeza. Neste sentido se hão de entender umas palavras do grande doutor da Igreja, S. Basílio, as quais parece que dizem mais: Nimia tristitia auctor peccati esse solet, cum moeror mentem submergat, et consilii inopia vertiginem alterar: A grande tristeza — diz S. Basílio — costuma ser a autora e causa dos pecados, porque esta fortíssima e escuríssima paixão afoga a alma, e assim como os que padecem vertigens na cabeça caem, assim ela, por falta de juízo e conselho, faz que caiam os homens no pecado.

Pouco era para induzir a pecar que a tristeza escurecera só o entendimento, se a mesma escuridade não prendera e atara também a vontade. Das trevas, que foram a nona praga do Egito, diz o texto sagrado que não só cegavam à vista dos homens, mas que os prendiam e atavam de maneira que, enquanto elas duraram, nenhum se pôde mover nem bulir do lugar onde estava: Nemo vidit fratrem suum, nec movit se de loca in quo erat (Êx. 10, 23). — Caso verdadeiramente admirável, e exemplo prodigioso e horrendo do que pode a escuridade das trevas! Que fossem as trevas tão espessas que eclipsassem totalmente e escurecessem a luz do sol, bem se entende; mas, se lhes faltava o sol, por que se não valiam do fogo, como os que vivem debaixo do pólo, nos seis meses que o não vêem? Porque nem eles tinham movimento para acender o fogo, nem o fogo tinha vigor para vencer as trevas: Et ignis quidem nulla vis poterat illis lumen praebere (Sab. 17, 5). — Assim o afirma a mesma Escritura Sagrada no Livro da Sabedoria, onde com esquisita elegância pondera que das trevas lhes formou Deus ou forjou uma cadeia, com que os atar: Una enim catena tenebrarum omnes erant colligati (ibid. 17). — E diz mais o mesmo texto que, sendo tão insuportável o tormento das trevas, ainda os egípcios padeciam outro naquela miséria, mais pesado e intolerável, que era sofrer-se cada um a si mesmo: Ipsi ergo sibi erunt graviores tenebris (ibid. 20).

Tal é o estado de um triste, quando a força da sua mesma melancolia o mete no profundo e escuríssimo abismo da desconsolação. Assim como ao egípcio não lhe valia contra as suas trevas nem a luz do sol nem a do fogo, assim não lhe basta a um triste nem o lume da fé nem o lume da razão para vencer as suas, que só lhe são palpáveis. E assim como o egípcio com aquela cadeia sem ferro, mais dura porém que o mesmo ferro, estava atado de pés e mãos, assim o triste, preso sem grilhões nem algemas à cadeia da sua própria tristeza — contando-lhe sempre os fuzis, a que não acha número — nem tem pés para fugir, nem mãos para resistir às tentações do demônio, e por isso está sempre exposto, e quase rendido ao pecado. Disse quase rendido, e disse muito menos do que devera, porque se o demônio é o que tenta e vence, a força ou fraqueza, que dá a vitória, é a da tristeza. Ouçamos outra vez a mais eloqüente voz da Igreja Católica, e feche-nos o discurso Crisóstomo, com a mesma chave de ouro com que o abriu: Ovni diabólica accione poceiro ad nocenduv esc voeroris spiricus, daevon eniv quoscumque fere superat, per voerorem superat: Eum si auferas, nemo a daemone laedi pocerit: A tristeza humana é mais poderosa que toda a ação diabólica, porque todos aqueles a quem comumente vence o demônio, por meio da tristeza os vence, tanto assim que, se no mundo não houvera a tristeza, a ninguém pudera vencer nem ofender o demônio. — E por que este testemunho tão notável não pareça singular, o mesmo diz São Bernardo, afirmando que entre todos os espíritos malignos, o péssimo e mais nocivo de todos é a tristeza: Cerce tristitia saecularis omnium malorum spiricuum est pessimus. — De sorte que o demônio, ajudado da tristeza, não é um só demônio, senão dois, e a tristeza, pior e mais diabólica que o mesmo demônio.

E se me perguntardes como concorre a tristeza com o demônio para o pecado, posto que bem creio que o terá cada um experimentado em si, eu o direi facilmente. É muito natural aos tristes desejar o alívio, e procurar o remédio à sua tristeza; e quando a triste alma chega a estes pontos, então entra a tentação e o demônio, e os alívios e remédios que lhe oferece são tais como ele. Se a tristeza é por ambição e desejo de ser mais, persuade-lhe que não faça caso da lei de Deus, como a Adão e Eva, que por serem como Deus a quebraram[6]. Se a tristeza é por pobreza, persuade-lhe que furte, como a Acã, soldado ilustre, mas pobre, que furtou sacrilegamente a púrpura e regra de ouro nos despojos de Jericó[7]. Se a tristeza é por amor, persuade-lhe a que vença por força e violência o que não pode por vontade, como Amnon a Tamar, sem reparar na dobrada infâmia em ambos igualmente sua[8]. Se a tristeza é por apetite do supérfluo, como a del-rei Acab, persuade-lhe que ao domínio universal da coroa acrescente a vinha de Nabot, e com testemunho falso jurado, se não houver outra causa[9]: Se a tristeza é por afronta, persuade-lhe a que a vingue, ainda que seja por traição, como a Absalão, que contra as obrigações do sangue e leis da hospitalidade, matou aleivosamente a Amnon[10]. Se a tristeza é por inveja, persuade-lhe que derrube o invejado, posto que inocente e benemérito, como Amã, valido de el-rei Assuero, ao fidelíssimo Mardoqueu[11].

Se a tristeza é por saudades, persuade-lhe a que dos retratos do ausente faça ídolos, como deram princípio à idolatria de todo o mundo as saudades de Belo[12]. Se a tristeza é por falta de filhos e sucessão, como a da outra Tamar mais antiga, persuade-lhe que, se lhos não há de dar Sela, seu esposo, os busque em quem lhos pode dar, como ela fez em Judá, posto que adúltera e incestuosamente[13]. Se a tristeza é por ódio, como a de Saul a Davi, persuade-lhe que, ingrato às cordas da sua harpa, com o ferro da própria lança o pregue a uma parede[14]. Se a tristeza é por falta de saúde, persuadelhe que troque as receitas da medicina pelos feitiços da arte mágica, como depois de Jeroboão fizeram todos os reis de Israel[15], aos quais e ao mesmo reino sepultou Deus vivos, e esses são os ossos, já então secos e mirrados, que viu Ezequiel há mais de dois mil anos[16]. Infinita matéria fora se houvéramos de discorrer por todos os pecados com que o demônio, ajudado da tristeza, mata as almas. A Caim, triste por se ver menos favorecido, persuadiu-lhe o demônio que matasse a seu irmão, e matou-o[17]. A Aquitofel, triste porque Absalão não seguira o seu voto, persuadiu-lhe que se matasse a si mesmo, e matou-se[18]. A Judas, triste pelo que tinha feito contra seu Mestre, persuadiu-lhe que se enforcasse, mas antes que lhe impedisse a respiração o aperto do laço, a mesma tristeza, que não cabia dentro, lhe fez estalar o coração, e por isso rebentou pelo meio: Crepuit medius (At. 1, 18).

V – O antídoto invencível que o corpo e a alma têm contra o veneno da tristeza, e a arte fácil e breve com que o homem se livrará infalivelmente de toda a tristeza: perguntar ao mesmo corpo e à mesma alma para onde vão: Quo vadis?

Estes hão os efeitos da tristeza — doença de que ninguém escapa nesta vida, e muito mais os mais entendidos — e este, que ultimamente declarei, é o modo com que a mesma tristeza, não só chega a matar os corpos, senão também as almas. Resta agora, neste segundo discurso, menos melancólico, tratar do remédio desta peste do gênero humano, e ensinar, como prometi, a arte de nunca estar triste.

Nas breves palavras que propus temos uma e outra coisa, isto é, a tristezae mais o remédio: a tristeza: Quia haec locutus sum vobis, tristitia implevit cor vestrum; — o remédio: Nemo ex vobis interrogat me, quo vadis: Porque vos disse que me ausento, encheu a tristeza os vossos corações, e nenhum de vós me pergunta para onde vou. — Como se dissera o Senhor a seus discípulos pela frase das nossas escolas: — A vossa tristeza tem duas causas: uma positiva, outra negativa; uma que entendeis, outra não. Da minha parte, dizer que me hei de apartar de vós; da vossa, não me perguntardes para onde vou. Deu a tempestade com o navio à costa, e dizemos que se perdeu, porque lhe faltaram as amarras. Assim é neste mesmo sentido, porque, ainda que a força dos ventos foi a causa do naufrágio, se as amarras não faltaram, nelas teria o remédio, e não se perdera. Da mesma sorte a causa ou motivo da tristeza dos discípulos era a ausência do divino e tão amado Mestre; mas, se eles tiveram feito a pergunta em que não advertiram, nela teriam os seus corações o remédio da mesma tristeza: Tristitia implevit cor vestrum, et nemo ex vobis interrogat me: Quo vadis[19]?

Nestas duas palavras quo vadis — acomodando-as a nós — nesta pergunta tão breve, e nesta única máxima ou preceito, consiste toda a arte, que prometi, de nunca estar triste. Homem triste, se a tristeza te não tirou ainda o uso da razão, pergunta-te a ti mesmo para onde vais: Quo vadis? — e esta consideração, em qualquer caso ou estado da vida, por triste que seja, não só te servirá de consolação, de alívio e de remédio, mas te livrará para sempre de toda a tristeza.

Isto é o que digo. E isto suposto, saibamos agora para onde imos todos, e cada um de nós? Sendo coisa muito sabida, posto que em parte a vemos, e em parte não, o Espírito Santo no-la mandou advertir por boca de Salomão, no capítulo doze do Eclesiastes: Revert atur pulvis in terram suam unde erat, et spiritus redeat ad Deum, qui dedit illum[20]. — O homem, posto que sejaum, é composto de duas partes muito diversas, alma e corpo; e o caminho que fazem estas duas partes, é tornar cada uma para donde veio. O corpo, que veio da terra, torna para a terra, e para a sepultura: Revertatur pulvis in terram suam unde erat; — a alma, que veio de Deus, torna para Deus, e para o céu: Et spiritus redeat ad Deum, qui dedit illum. — Por esta razão disse S. Cipriano, alegado porSanto Agostinho: Cum corpus e terra, spiritum e caelo possideamus, ipsi terra et caelum sumus: Sendo certo — dizem estes dois grandes lumes da África — que as duas partes de que somos compostos, uma a recebemos da terra, outra do céu, daqui se segue que, pelo princípio donde viemos, e pelo fim para onde caminhamos, também nós somos céu e terra. — Até os gentios menos bárbaros conheceram estes dois caminhos, que todos fazemos. Assim o disse, como refere Plutarco, o famoso poeta Epicarmo, naqueles versos:

Concretus est, ac discretus, et rursus abut unde venerat, Terra quidem in terram, spiritus ad superos.

Quer dizer: Nesta vida andam unidas no homem aquelas duas partes que depois se hão de dividir, e tornar cada uma para donde veio: a terra para a terra, a alma para o céu.

Pergunte agora o homem a seu corpo: Corpo meu, para onde vais? Quo vadis? Pergunte o homem à sua alma: Alma minha, para onde vais? Quo vadis? E como o corpo, com a evidência dos olhos, há de responder que vai para a sepultura, e a alma, com a certeza da fé, há de confessar que vai para o céu, à luz deste conhecimento, tão claro e tão forte, não haverá nuvem de tristeza tão espessa e tão escura que totalmente se não desfaça e desvaneça. Não dissemos pouco há, no primeiro discurso, que a tristeza não só atormenta e mata o corpo, senão também a alma? Pois este é o antídoto invencível que o corpo e alma têm contra aquele veneno duas vezes mortal, e esta a arte fácil e breve, com que o homem se livrará infalivelmente de toda a tristeza, só com perguntar ao mesmo corpo e à mesma alma para onde vão: Quo vadis?

VI – Que razão teria Deus, cujas razões são altíssimas, para, depois de morta Sara, nunca mais aparecer a Abraão? A causa dá notável desatenção com que os egípcios entregaram a seus escravos hebreus tudo o que possuíam de mais precioso.

Não só tenho proposto, senão também dividido este segundo discurso, como o primeiro, em duas partes: uma pertencente ao corpo, outra à alma. E, começando pelo corpo, se o homem lhe perguntar para onde vai: quo vadis — e ele responder que vai para a sepultura, que homem haverá tão cego, que havendo de cair o mesmo corpo naquela cova, não caia ele em si, e não caia na razão que tem para não estar triste?

Morta Sara, comprou Abraão duas sepulturas — covas lhes chama a Escritura: Speluncam duplicem (Gên. 23, 9) — uma para ela, outra para si. E notam aqui os versados na mesma Escritura, que desde então Deus, que muito freqüentemente aparecia e falava com Abraão, nunca mais lhe apareceu. Assim o podem ver todos os que lerem os capítulos 23 e 24 do Gênesis. E verdadeiramente que nunca parece teve Abraão maior necessidade destas aparições e visitas de Deus, que na falta daquela tão fiel companhia de suas peregrinações, para consolação da sua soledade e saudades, e para alívio das tristezas, que, padecidas só por só, são dobradas. Que razão teria logo Deus, cujas razões são altíssimas, para sobre aquele primeiro golpe acrescentar este segundo a um varão tão benemérito da sua casa, e tão favorecido seu? Na vida de Sara tinha Abraão com quem partir os cuidados e os desgostos; nas aparições de Deus tinha com que desterrar do coração e dissipar as tristezas, assim como ao aparecer dos raios do sol se dissipam e fogem as trevas. Diremos, pois, que escondida Sara debaixo da terra, e escondido também Deus no seu retiro, ficou menos assistido Abraão do amor e providência divina, sem estes dois socorros?

Não, respondem os mesmos observadores do caso. Porque Abraão, no mesmo tempo em que fechou a sepultura a Sara, abriu e aparelhou a sua, e um homem com juízo, e com a sepultura à vista, é tão superior a tudo o que neste mundo faz tristes aos outros, que para vencer as tristezas, nem necessita de alívios da terra, nem de visões do céu. Um homem que se pergunta a si mesmo para onde vai: quo vadis? — e vê que com os passos do tempo, que nunca para, vai sempre caminhando para a sepultura, ou já deixa detrás das costas, ou mete debaixo dos pés tudo o que costuma entristecer aos que isto não consideram. Na sepultura, para onde caminhamos, o que depois se há de enterrar é o próprio corpo, e o que desde logo fica sepultado é tudo o que neste mundo pode causar, tristeza.

Oh! quantas lágrimas se choram, e quantas lamentações se ouvem, porque não há quem ponha os olhos neste caminho inevitável, e se pergunte: Quo vadis? A uns come por dentro a tristeza, porque se vêem pobres; a outros rói a inveja, porque põem ou lhes leva os olhos a abundância dos ricos; e se uns e outros tiveram juízo, e se perguntaram para onde vão, tão pouco haviam de chorar uns o que lhes falta, como estimar os outros o que lhes sobeja. Vede quão poderosas são contra estes dois afetos as sepulturas alheias, quanto mais a própria. Na última praga do Egito disse Deus a Moisés que ele daria tal graça ao seu povo com os mesmos egípcios, que toda a prata e ouro, e jóias e vestidos preciosos que tivessem lhes fiariam, e desta sorte sairiam daquele cativeiro ricos, com os despojos dos mesmos de que eram escravos: Daboque gratiam populo huic coram Aegyptiis, et cum egrediemini, non exibíeis vacai: Ser postalabit mulier a vicina sua et ab hospita sua, vasa argentea et aarea, ac vestes: ponetisqae eas super filios et filias vestras, et spoliabitis Aegyptam[21]. — Esta foi a promessa divina, a qual se cumpriu com tanta pontualidade e largueza, que não houve em todo o Egito quem repugnasse a entregar aos seus escravos e escravas quanto possuíam de preço, sem reparar no que tão facilmente se podia presumir de uma gente de que eles tanto se temiam.

Não eram estes egípcios os que, para mais oprimir e dominar os hebreus ontem, lhes negavam as palhas que lhe pediam para seu serviço? Pois, como agora não duvidam em lhes meter nas mãos a sua prata, o seu ouro, e quanto têm de rico e precioso? Notai, diz excelentemente Lirano, o tempo e ocasião em que isto sucedeu, e achareis a causa de uma tão notável desatenção. Quia Aegyptii erant intenti ad sepeliendos mortuos suos, quia nulla erat doma Aegypti in qua non jaceret mortui: — Naquela ocasião não havia casa em todo o Egito em que não houvesse algum morto, e, como todos estavam atentos a sepultar os seus defuntos: Intenti ad sepeliendos mortuos suos — esta atenção das sepulturas lhes tirou de tal maneira a das próprias riquezas, que ninguém reparou no ouro, na prata, e no demais, deixando levar tudo sem cautela aos domésticos inimigos, que lho não haviam de restituir.

Este mesmo pensamento se confirma com grande energia, não passando, como vejo passar sem reparo uma palavra do mesmo texto, digna para comigo de muito particular ponderação. Mandou dizer Deus ao povo que lhe daria graça com os egípcios: Dabo populo haic gratiam coram Aegyptiis. — E que graça foi esta, ou em que consistiu? Explicando-a teologicamente se entenderá bem. A graça, e seus auxílios, ou são suficientes somente, ou eficazes: os suficientes bastam, mas não têm efeito; os eficazes têm o seu efeito certo e infalível, ‘e por meio deles se consegue o fim para que foram dados. Em que consiste, porém, e de que depende esta eficácia? Consiste e depende de a mesma graça e seus auxílios se darem em tal oportunidade de tempo, e suas circunstâncias, e em tal disposição do sujeito, que o seu livre alvedrio os aceite, e use deles. Por isso S. Paulo chamou a esta graça, e seus auxílios, auxílios oportunos: Ut gratiam inveniamus in auxilio opportuno[22]. — E da mesma oportunidade, que é a do tempo, tinha falado Davi, quando disse: Orabit ad te omnis sanctis in tempore opportuno[23]. — De sorte que antevê Deus o tempo oportuno ou não oportuno, acomodado ou não acomodado, em que o sujeito, segundo as suas disposições, ou há de rejeitar ou aceitar os auxílios da graça; e quando eles são dados na oportunidade desta disposição antevista por Deus, então são eficazes, e têm infalível efeito, como o teve a graça prometida e dada aos hebreus: Dabo populo huic gratiam. — E qual foi a oportunidade de que dependia a eficácia e efeito da mesma graça? Foi a oportunidade do tempo, em que eles tinham posta toda a sua atenção e cuidado nas sepulturas dos seus defuntos: Attenti ad sepelienros mortuos suos — e por isso não atenderam nem fizeram caso, de entregar o ouro, a prata, e tudo o precioso do Egito aos hebreus. Se fora antes deste tempo e desta ocasião ainda que fossem palhas as que pedissem a seus senhores, mandá-los-iam castigar como escravos, e assim o fez Faraó; mas como estavam com as mortalhas dos defuntos nas mãos, e as sepulturas diante dos olhos, por isso os olhos foram tão desatentos, e as mãos tão liberais, que de tudo o que mais prezavam se esqueceram, e não fizeram caso: Dabo populo huic gratiam, et spoliabitis Aegyptum[24].

VII – As causas por que os queixosos da sua fortuna vivem tristes, e se lhes faz triste a vira? Os dois excessos em que a parte irracional do homem, que é o corpo, ou regala o apetite próprio nor dentro, ou se ostenta aos olhos alheios por fora. O voto de Jacó perseguido a Deus, e a advertência de S. Paulo a Timóteo.

Se bem considerarmos as causas — que lhes não quero chamar razões — por que os queixosos da sua fortuna vivem tristes, e se lhes faz triste a vida, acharemos que principalmente são não poderem gozar os dois mais saborosos frutos das mesmas riquezas de que os egípcios ficaram despojados. E quais foram estas? As suas baixelas, e as suas jóias e galas: Vasa aurea, et argentea, et vestes. — As baixelas pertenciam à mesa, as galas aos vestidos, e estes são os dois excessos em que a parte irracional do homem, que é corpo, ou regala o apetite próprio por dentro, ou se ostenta aos olhos alheios por fora. O comer e o vestir são duas coisas sem as quais se não pode viver, em que, têm grande batalha no homem a moderação do necessário, e a intemperança do supérfluo. Desta intemperança em um e outro apetite foi famoso exemplo — ou escândalo — neste mundo, aquele rico, a quem se não sabe o nome, por ser indigno de o ter, do qual diz o Evangelho que o seu trajo eram púrpuras e holandas, e a sua mesa perpétuas e esplêndidos banquetes: Induebatur purpura et bysso, et epulabatur quotidie splendide (Lc. 16, 19). — O mesmo Evangelho diz que depois desta vida tão regalada nas delícias do tato, como do gosto; foi sepultado no inferno o mesmo rico: Sepultus est dives in inferno (ibid. 22). — Mas, se ele tivera juízo, não lhe era necessário para se moderar em um e outro apetite, ir buscar a sepultura ao centro da terra: bastam as dos que ela recebe em sete pés de comprimento, e cobre com quatro de alto.

Caminhando Jacó da sua pátria para Mesopotâmia, no meio desta peregrinação fez um voto particular a Deus, para que sua providência se dignasse de o assistir, dando-lhe nomeadamente pão para comer e pano para vestir: Panem ad vescendum, et vestimentum ad induendum (Gên. 28, 20). — Por certo que nem da parte de Deus nem da sua parece se devera contentar Jacó com tão pouco. Da parte de Deus não, porque era tão favorecedor daquela família, que se chamava Deus de seu avô, Deus de seu pai, e Deus seu: Deus Abraham, Deus Isaac et Deus Jacob (Êx. 3, 6) — e da parte do mesmo Jacó também não, porque a mesa e guarda-roupa da casa de seu pai era muito nobre, e bem lembrado estava ele que as peles de que sua mãe lhe cortou as luvas eram de duas crias, as mais mimosas do monte, para um só guisado, e as roupas, com que fez a figura de seu irmão, não pouco preciosas: Vestibus Esau valde bonis[25].

Pois, se Jacó estava costumado a viver com tão diferente largueza em uma e outra comunidade, e tinha a Deus com as mãos abertas, por que se contenta com tão pouco? Porque naquela peregrinação caminhava com a sepultura diante dos olhos. Ofendido Esaú de lhe ter Jacó furtado a bênção, resolveu-se a lhe tirar a vida: Occidam Jacob fratrem meum[26]. — Por isso lhe aconselhou a mãe que fugisse, e esta sua peregrinação verdadeiramente era fugida, porque Esaú o não matasse. Suposto, pois, que fugia, parecerá que deixava a morte e a sepultura detrás das costas, mas o certo é que ninguém a levou nunca mais diante dos olhos; e um homem com a morte e sepultura diante das olhos, não é muito que nem a pedir nem a desejar se atrevesse mais que o necessário e preciso para viver, ou para não morrer. A fome e o frio, com o medo e apreensão dos passos que levava, se lhe moderaram, compuseram e acomodaram de tal sorte, que a fome para comer se contentava com pão seco, e o frio para se cobrir com pano de qualquer estofa: Panem ad vescendum et vestimentum ad induendum.

Parece-me que ou Jacó neste passo se revestiu profeticamente do espírito de S. Paulo, ou S. Paulo tantos séculos depois histórica e exemplarmente do de Jacó: Habentes alimenta, et quibus tegamur, bis contenti sumus (1 Tim. 6, 8): Com que tenhamos o que baste para sustentar e cobrir o corpo, teremos também o que basta para estar contentes — escreve o apóstolo a Timóteo. E S. Jerônimo, comentando este texto, e contrapondo a largueza e abundância dos ricos à estreiteza e moderação dos pobres no mesmo vestir e comer, filosofa assim elegantemente: Grandis exultatio, cum parvo contentus fueris, mundum habere sub pedibus, et, propter quae divitiae comparantur, vilibus mutare cibis, et crassiore tunica compensare[27]: Não cuidem as galas e guias dos ricos — diz o Doutor Máximo — que carecem os pobres do que eles gozam, porque tudo o que eles alardeiam com largueza no seu muito,logram compensado os pobres, e abreviado no seu pouco: os ricos e vãos nas galas, eles no vestido grosseiro: crassiore tunica — os ricos e vãos nos regalos, eles no mantimento vil: vilibus cibis. — E que se segue daqui? Seguese que o contentamento e alegria que a riqueza e vaidade pretende, só a pobreza sisuda o alcança, e muito maior: Grandis exultatio, cum parvo contentus fueris, mundum habere sub pedibus. — Deixo de ponderar estas últimas palavras; só digo que para quem caminha para a sepultura, levar o mundo debaixo dos pés, mais é triunfo que enterro, posto que mal banqueteado e mal vestido.

VIII – A consideração da sepultura, meio eficaz para persuadir sem tristeza a forçosa pobreza das roupas. A sábia resolução de Jó ao perder todos os bens da fortuna.

E porque até agora falamos com estes dois apetites juntos, persuadindo-os a que se contentem com o seu pouco, ouçamos também cada um de por si, pois são de tão diferente natureza, que se não podem sujeitar à mesma razão, nem domar com o mesmo freio. Ao que pode entristecer o corpo, por se ver menos nobremente trajado, que diremos? De novo nada, porque nos não havemos de divertir do nosso caminho. Mas que se lembre bem do quo vadis — e seja pela boca de Já. Quando a Jó, tão liberalmente herdado dos bens da fortuna, lhe chegaram uma sobre outra as novas de os ter perdido todos em um só dia, que é o que fez, e o que disse? O que fez foi rasgar as vestiduras: Scidit vestimenta sua (Jó 1, 20) — e o que disse foram estas palavras: Nudu egressus sum de utero matris meae, et nudus revertar illuc (ibid. 21): Nu saí do ventre da minha primeira mãe, e nu tomarei para o ventre da segunda, que é a terra. — Aquele revertar illuc responde ao nosso quo vadis. Apelou Jó da fortuna para a natureza, como se dissera, rasgando as vestiduras: Já que a fortuna me tirou hoje tudo o que me tinha dado ou emprestado, como se eu neste jogo, tão propriamente seu, não perdera, mas ganhara, até isto, que só me deixou para me cobrir, lhe quero dar de barato. E quem quando vai para a sepultura se contenta com a pele: Et nudus revertar illuc — vede se o podem fazer triste a falta das galas. Mas não vamos buscar este desengano à terra de Hus.

Adoeceram na nossa terra ou um mancebo tão prezado da gentileza, como Absalão, ou uma dama de tão celebrada formosura, como Raquel, e tão requestada por ela como Helena, e, chegados ambos à última desconfiança da vida, na primeira cláusula do testamento, depois da protestação da fé, diz cada um que seu corpo seja sepultado no hábito de S. Francisco. Isto que pelo costume se não estranha, verdadeiramente é digno de grande admiração. Não éreis vós — um e outra — os que tanto vos prezáveis das galas, os que gastáveis as telas, os que inventáveis os bordados, os que empregáveis em uma jóia quanto tínheis, e talvez o que não tínheis? Pois, como agora vos mandais, vestir com tanta diferença, e vos contentais com um hábito de burel, e esse remendado? — Porque agora imos para a sepultura. — Agora, dizem, e dizem o que cuidavam, porque dantes não sabiam para onde iam. Oh! miséria! Oh! cegueiral Oh! engano da vaidade e ignorância humana! Cuidamos que só imos para a sepultura quando em ombros alheios somos levados a ela, e não acabamos de entender que desde a hora em que nascemos começamos este mesmo caminho. Se a um recém-nascido, quando sai do ventre da mãe, lhe perguntássemos quo vadis: Menino, que agora entraste no mundo, para onde ides? É sem dúvida, que se ele tivesse já uso da razão, e fala para responder, responderia com as palavras de Jó: De utero ad tumulum (Jó 10, 19). — Desde a hora de meu nascimento vou caminhando para a sepultura, e estas faixas são a minha primeira mortalha. Desenganemo-nos os mortais, que todo este, que chamamos curso da vida, não é outra coisa senão o enterro de cada um, por sinal que quanto mais pompa mais cruzes.

Pois, se estas hão de ser as galas da última Jornada da vida, por que não nos contentaremos que sejam menos vãs as de toda ela? Gloriam-se tanto das galas os perdidos por esta vaidade, que até o mesmo Cristo, falando das de Salomão, lhes chamou a sua glória: Nec Salomon in omni gloria sua[28]. — E esta glória há de descer com eles à sepultura? Não: Quoniam, cum interierit erit, non sumet omnia, neque descendet cum eo gloria ejus[29]. — Pois, por que nos há de levar tanto após si o que cá há de ficar e não nos acomodaremos desde logo ao que só havemos de levar conosco? Aquele grande soldão do Egito, o famoso Saladino, estando para morrer, mandou levar por todo o seu exército a mortalha em que havia de ser sepultado, na ponta de uma lança, com um pregão que dizia: — “De tudo quanto adquiriu Saladino, isto é o que só há de levar deste mundo.” — Ditosos os soldados que então se resolvessem a despir a cota, e militar debaixo daquela bandeira! O imperador Carlos V, antecipando o mesmo desengano, trazia sempre consigo a sua mortalha. Por isso tomou aquela valente resolução, maior que todas suas vitórias, de se sepultar em Juste, e acabar a vida antes da morte. Melhor o fazem ainda os que todos os dias, quando se vestem, de tal modo se compõem do pé até a cabeça, com o espelho da sepultura diante dos olhos, como se o vestido fora a mortalha com que hão de ser levados a ela. Este é o trajo dos desertos e claustros religiosos, em que todos os que professamos servir a Deus, o mesmo hábito que vestimos é a mortalha em que havemos de ser sepultados. O mundo, errado, julga este trajo por triste; mas nós, em confiança dele, nunca tristes, e sempre contentes: Quasi tristes, semper autem gaudentes[30]

IX – A estreiteza da mesa e a tristeza do pobre. O pobre e o pão de Santo Antão. As demasias da gula e a brevidade da vida. Qual é a razão por que a vida e a via dos poderosos e ricos é breve, e faz Deus esta diferença entre os ricos e os pobres? O paradeiro da superfluidade dos ricos.

Se a consideração da sepultura, e a nossa pergunta quo vadis, é tão eficaz para persuadir sem tristeza a forçosa pobreza das roupas para a fazer tolerável na mais sensível, da mesa, não é menor a sua eficácia. Queixa-se da sua fortuna o pobre, porque sendo tão liberal com os ricos, com ele seja tão avara, que apenas para comer lhe conceda, com o suor do seu rosto, um pedaço de pão. E eu, antes de passar ao nosso remédio, não só quero reparar no pão, senão no mesmo pedaço, que o faz queixoso e triste. Perto de cem anos havia que o primeiro ermitão, São Paulo, vivia em uma cova, quando nela o visitou o grande Antônio, a quem nós, para significar a sua grandeza, chamamos Antão. Depois de se saudarem sós, chegou um corvo com um pão no bico, e o pôs entre os dois. Admirou-se o hóspede, e o habitador da cova lhe disse: — Hás de saber, irmão Antônio, que de muitos anos a esta parte, depois que me foram desfalecendo as primeiras forças, por este corvo me manda Deus todos os dias meio pão; e agora, porque somos dois, dobrou o Senhor a ração a seus servos, e por isso nos mandou o pão inteiro: — Quem não pasmará que este jantar, para os dois maiores homens que Deus tinha no mundo, fosse mandado da sua mesa? É possível que a proveniência, a grandeza, a magnificência de Deus a Paulo sustenta cada dia com meio pão, e a Paulo e Antônio com um pão? E é possível que um homem com fé não estime e se glorie muito de que às duas ametades de pão de Paulo e Antônio, se ajunte também o pedaço do seu, sendo ele em tal companhia o terceiro convidado de Deus? Não há dúvida que, se és cristão, nunca a tua ambição e cobiça podia aspirar a maior fortuna que esta e que te tem levantado a tua própria pobreza, igualando-te, não aos príncipes das cento e dezessete províncias no banquete de Assuero, mas aos dois maiores amigos e favorecidos que tem no mundo o supremo Senhor de todo ele. Vê agora quão enganosa é a tua tristeza, e tu quão enganadamente queixoso da tua fortuna.

Mas por que não cuides que te quero consolar por outro caminho, responde-me: Para onde vais: Quo vadis? Vais para a sepultura? Sim. E todos os mais ricos e abundantes do mundo, para onde vão? Para a sepultura também. Dá, pois, muitas graças à estreiteza da tua mesa, e ao teu pouco pão, porque, sendo certo que todos hão de chegar à sepultura sem nenhum remédio, só tu por comer menos chegarás à sepultura mais tarde, e só tu por comer menos, serás nela menos comido. A natureza fez o comer para o viver, e a gula fez o comer muito para o viver pouco. De certos homens, da casta daqueles de quem dizia Sócrates, que não comiam para viver, mas só viviam para comer, conta a Sagrada Escritura que, exortando-se de comum consentimento mento, diziam: Comedamus et bibamus, cras enim moriemur (Is. 22, 13): Comamos e bebamos, porque amanhã havemos de morrer. — A conseqüência era tão bárbara e brutal como quem a inferia. Mas que fundamento tinham estes homens ou estes brutos, para prognosticar que ao outro dia haviam de morrer? O mesmo que eles diziam: Comedamus et bibamus. Das demasias da sua gula inferiam a brevidade da sua vida. O dia dos banquetes era a véspera do dia da morte. A gula havia de cantar as vésperas hoje, e a morte as havia de chorar amanhã: Cras enim moriemur. — Não alego Hipócrates nem Galenos nos, que assim definem esta brevidade, porque não são necessários os aforismos da sua arte onde temos os da nossa experiência. Das intemperanças do comer, por mais que o tempere a gula, nascem as cruezas, das cruezas a confusão e discórdia dos humores, dos humores discordes e descompostos as doenças, e das doenças a morte. Suposto, pois, que todos havemos de morrer, e todos imos para a sepultura, o maior favor que Deus pode conceder a um mortal é que morra e chegue lá mais tarde. E este é o primeiro privilégio dos pobres, a quem a Providência Divina, quando nega de abundância e regalo, tanto acrescenta de vida.

Ouçam os abundantes e regalados o que sobre isto ensina a verdade daquele Senhor, que o é da vida e da morte: Omnis potentatus vita brevis[31]. — Outra versão, em lugar de vita,via, e tudo é o mesmo, porque a vida que vivemos é a via com que caminhamos para a sepultura, e o termo do nosso quo vadis. Qual é logo a razão por que a vida e a via dos poderosos e ricos é breve, e faz Deus esta diferença entre os ricos e os pobres? Porque os ricos e poderosos dão muita matéria à gula, os pobres, ainda que queiram, não podem. Santo Agostinho dava graças a Deus por lhe haver ensinado que usasse dos alimentos como das medicinas: Hoc me docuisti, ut quemadmodum ad medicamenta, sic ad alimenta sumpturus accederem[32]. — De sorte que aquilo sem que não podemos viver é o mesmo que nos mata, tomado sem medida. E como o alimento tomado sem medida é o veneno da vida, e com medida o medicamento dela, esta é a desgraça não conhecida dos ricos, e a ventura também mal entendida dos pobres. A vida e a via de uns e outros igualmente caminha para o mesmo termo, que é a sepultura, mas os passos não são iguais. Porque, como a abundância e gula dos ricos é o seu veneno, e a estreiteza e abstinência dos pobres o seu medicamento, os, ricos chegam à sepultura como S. João à de Cristo, primeiro e mais depressa, e os pobres como S. Pedro, mais devagar, e mais tarde.

E depois de chegados uns e outros à sepultura, têm também dentro nela alguma diferença? Sim, e muito grande, que é o segundo privilégio dos pobres. A gula, assim como ceva as aves, para que as comam os homens, assim ceva os homens, para que os comam os bichos. Miserável condição da nossa carne, comer para ser comida! Por isso diz um provérbio dos hebreus: Qui multiplicar carnes, multiplicat verme. — Os corpos dos ricos, cheios e anafados, são o banquete dos bichos; os dos pobres, secos e postos nos ossos, são o seu jejum. Que bem se viu isto naquele em que o pobre Lázaro e o rico avarento foram à sepultura! O rico, em sepulcro de mármores, banqueteando esplendidamente os bichos, como ele costumava consigo; e o pobre, que nem as migalhas que lhe caíam da mesa tinha para se sustentar, sepultado na terra nua, mas, não tendo a mesma terra que comer nele. Diz S. Paulo aos coríntios: Esca ventri, et venter escis (1 Cor. 6, 13): O comer para o ventre, e o ventre para o comer. — S. Paulo não dizia trocados. Qual é logo o sentido e comento destas palavras, que o parecem? Esca ventri, id est, hominis; venter escis, id est, vermium:

Os regalos esquisitos trazidos de tão longe com tantos perigos, comprados com tanto preço, guisados com tantos artifícios, são para o ventre do homem; e esse ventre, assim regalado, assim mimoso e assim custoso, para quem é? Para o comerem os bichos. Por isso primeiro diz: Esca ventri, e depois: Venter escis — porque o que na vida é regalo para um, na sepultura é pasto para tantos. Até no maná que caía do céu, o supérfluo que excedia o preciso se convertia em bichos, e este é o paradeiro das superfluidades dos ricos. Considere, pois, o rico e o pobre para onde vai: quo vadis — para que o rico modere a sua abundância, e o pobre se componha com a sua moderação. E porque o pobre e o rico — e o rico mais apressadamente que o pobre — todos imos parar ali, lamentem-se os ricos da sua riqueza, e das suas galas e regalos; sejam os pobres os contentes, e eles os tristes, e paguem com a tristeza a fraqueza dos seus corações: Tristitia implevit cor vestrum.

X – A tristeza da alma. Razão e resolução da notável pergunta de Davi: Por que estás triste, alma minha? Por que ando eu triste, quando me afligem meus inimigos?

Já perguntamos ao corpo; quo vadis? — para onde ia? E nos respondeu por boca do Espírito Santo que para a sepultura. Agora faremos à alma a mesma pergunta, e responderá por boca do mesmo oráculo divino, como também vimos, que vai para o céu. Pois, assim como o corpo achou remédio da sua tristeza no seu quo vadis, assim e muito melhor achará a alma o remédio das suas no seu, quanto vai do céu à terra.Se houve alma triste neste mundo foi a de Davi, à qual ele tantas vezes perguntou pela causa de sua tristeza: Quare tristis es, anima mea[33]? — E como a alma lhe não respondesse, porque as causas deviam pertencer mais à parte sensitiva que à racional, resolveu-se ele a fazer a pergunta ao todo, como composto de ambas, e, falando consigo mesmo, diz assim no Salmo 42: Quare tristis incedo, dum affligit me inimicus (SI. 42, 2)? Por que ando eu triste, quando me afligem meus inimigos? — Notável modo de perguntar! Isto é pergunta ou resposta, ou pergunta e resposta juntamente? Se perguntais por que andais triste, e dizeis que vos afligem vossos inimigos, isto é dar a causa, e pedi-la. Que maior e mais justa causa de andar um homem triste, que ver-se afligir de seus inimigos, e mais quando não merece a inimizade nem a aflição? Davi era um homem de tão bom coração que o comparou Deus com o seu. E tendo tantas outras virtudes, nenhuma era mais eminente nele que a mansidão: Memento, Domine, David, et omnis mansuetudinis ejus[34]. — Contudo, ninguém padeceu maiores ódios e perseguições, e ninguém teve mais e maiores inimigos.

O primeiro e principal era Saul, com que vinha a ter contra si o rei e toda a corte. O mesmo Davi diz que eram tantos os seus inimigos que, com ele não ser fácil de derrubar, com a multidão o tinham metido debaixo dos pés: Conculcaverunt me inimici mei, quoniam multi bellantes adversum me[35]. — Diz que eram tão injustos que, prevalecendo violentamente contra a sua justiça, lhe faziam pagar o que não devia: Confortati sunt qui persecuti sunt me, inimici mei injuste; quae non iapui, tunc exsolvebam[36]. — Que eram tão traidores, que os mesmos que tinham obrigação de o defender, se uniam em conselhos para o destruir: Dixerunt inimici mei mihi, et qui custodiebant animam meam consilium fecerunt in unum[37]. — Que eram tão raivosos que como cães danados, não só o mordiam, mas lhe quebravam os ossos: Dum confringuntur ossa mea, exprobaverunt mihi inimici mei[38]. — Que eram por uma parte tão pertinazes, que de pela manhã até à noite o estavam caluniando: Tota die exprobrabant mihi inimici mei[39] — e por outra tão fingidos, que em presença o louvavam, e, voltando as costas, juravam contra ele: Et qui laudabant me, adversum me jurabant[40]. — Finalmente, tão astutos, tão duros, tão fechados na sua impiedade, e tão soberbos, que chegaram a lhe pôr de cerco a própria alma: Inimici mei animam meam circumdederunt, adipem suum concluserunt; os eorum locutum est supeibiam[41].

Todas estas causas, tantas e tão fortes, tinha Davi para andar triste, nem ele as ignorava, ou eram outras, porque quando disse: tristis incedo — logo acrescentou: dum affligit me inimicus — e quando perguntava: quare? — não era por duvidar das causas da aflição e tristeza, mas porque ignorava e não sabia atinar com o remédio. E que faria, não como rei e como político, senão como profeta e como santo? O que fez imediatamente no verso seguinte, foi recorrer a Deus, pedindo-lhe o socorresse naquela perplexidade com a sua luz e com a sua verdade: Emitte lutem tuam et veritatem tuam[42]: com sua luz, que o alumiasse no profundíssimo e escuríssimo abismo da tristeza em que estava, e com sua verdade, que desfizesse as falsidades e calúnias com que seus inimigos o perseguiram. Assim orou, e assim o socorreu Deus prontissimamente com a luz e verdade que pedia, mas não com remédio que o livrasse das perseguições, senão com outro mais alto e sublime, que o livrou da tristeza que elas lhe causavam. E qual foi? O mesmo Davi o diz também imediatamente no mesmo verso: Ipsa me deduxerunt, et adduxerunt in montem sanctum tuum, et in tabernacula tua[43]: A mesma luz e verdade, Senhor, que vos pedi, me guiaram e levaram a que levantasse os olhos, e os pusesse no vosso monte santo, que é o céu, e nessa corte bem-aventurada, onde tendes as vossas moradas eternas.

Oh! luz e verdade divina! A causa de andarmos tristes nos trabalhos, nas perseguições, e nas outras misérias, ou naturais ou violentas desta vida, é porque somos cegos, e não vemos esta luz, é porque somos ignorantes, e não conhecemos esta verdade. Como se dissera Deus a Davi: Dizes que andas triste: Tristis incedo (SI. 42, 2)? — Pois olha para esses mesmos teus passos — que tu dizes observam teus inimigos para te caluniarem: Dum commoventur pedes mei, super me magna locuti sunt[44] — olha para esses mesmos teus passos, conhece que com eles vais caminhando para o céu — e a tanto mais largas jornadas quanto os trabalhos e perseguições forem maiores — e logo pisarás as mesmas tristezas que te molestam e afligem, e as meterás debaixo dos pés. Assim o conheceu e experimentou o já não triste Davi, mas animado e contente; e com as mesmas palavras que dantes, mas com muito diferente energia, tornou logo no mesmo Salmo a perguntar à sua alma: Quare tristis es anima mea? — E bem, alma minha, depois desta nova luz, e desta nova verdade, estarás ainda triste? Não sabes que as tempestades em popa levam mais depressa ao porto? Se o teu porto é o céu, caminhando para lá, que te pode entristecer na terra? Porventura o tempo, que lá se chama eternidade? Os trabalhos, que lá se medem com o descanso? As penas, que lá se convertem em glórias? As perseguições, que lá são palmas? As calúnias, que lá são coroas? As línguas maldizentes dos homens, que lá são louvores da boca de Deus? Quare, quare tristis es, anima mea?

XI – Por que há tantas almas desconsoladas e tristes? O remédio milagroso que teve a tristeza de Cristo no Horto. Que razões e motivos podia excogitar o entendimento de um anjo para confortar e consolar a tristeza de um homem-Deus?

As almas tristes, a umas perturba-as a sua tristeza por dentro: Quare tristis es, anima mea? Et quare conturbas me[45]? — a outras aflige-as a mesma tristeza por fora: Quare tristis incedo, dum affligit me inimicus[46])? — E toda a causa do que padecem, é porque são mudas e cegas. Uma alma muda não se pergunta a si mesma para onde vai: quo vadis? E cega não olha para o norte sempre seguro e firme, que desde o céu lhe guia os passos na terra. Eis aqui por que há tantas almas desconsoladas e tristes; eis aqui porque andam tantos corações rebentando de melancolia: Tristitia implevit cor vestrum[47]. — Entendam essas almas que são almas, e que o fim para que foram criadas, e para onde caminham, é o céu, e logo as não poderá entristecer qualquer fortuna da terra, por mais adversa e temerosa que seja, e mais triste que pareça. A maior e mais penetrante tristeza que padeceu alguma alma jamais, foi a de Cristo, Redentor nosso, no Horto, tão penetrante e tão terrível que lhe fez suar sangue, e bastaria a lhe tirar a vida: Tristis est anima mea usque ad mortem[48]. — O remédio milagroso que teve esta tristeza foi mandar Deus do céu um anjo, que viesse consolar e confortar a seu Filho, que para nosso exemplo permitiu que os afetos naturais obrassem ou executassem em sua humanidade santíssima tudo o que podem nas outras. Desceu o anjo, prostrou-se de joelhos ante o acatamento do seu quanto mais angustiado mais venerável monarca, ressuscitou-lhe o ânimo, confortou-lhe o desmaio, desterrou-lhe do coração a tristeza: mas com que razões ou motivos? Estava o Senhor inclinado sobre a terra: Procidit in faciem[49] — rogou-lhe humildemente quisesse levantar os olhos ao céu, e detê-los um pouco na mesma vista.

Sobre aquele pavimento de estrelas, ó príncipe do firmamento — disse então o anjo — se levanta o imenso palácio de vosso Pai; no lugar mais eminente dele vos está já aparelhado o trono em que haveis de estar sentado à sua destra; dos tormentos que agora vos causam tanto horror, a cada momento de pena sucederá uma eternidade de glórias; a cruz será o famoso troféu com que no dia do Juízo saireis triunfante a julgar o mundo; dos espinhos da cabeça se vos tecerá a nova coroa imperial de Redentor dos homens, e monarca universal de homens e anjos; os dois cravos que vos abrirem as mãos serão duas trombetas de bronze imortal, que publiquem, sem jamais cessar, as vossas façanhas; dos que vos rasgarão os pés se formarão as cadeias, que renderão e trarão a eles a adoração de todas as gentes; na grande brecha com que o golpe da lança vos penetrará o peito, se desafogará o imenso amor de vosso coração. — Mais ia a dizer o anjo, quando o Senhor já em pé, não só com passos animosos, mas com semblante alegre e forte, ia a receber o encontro das coortes armadas de seus inimigos. E não é menos que Santo Tomás quem assim o afirma, glosando a palavra confortans com estas: Proposito sibi gaudio aeternae vitae pro praemio[50] — o que se há de entender, não da glória essencial, mas dos muitos títulos gloriosos a que pela morte de cruz foi exaltado Cristo, e goza eternamente no céu.

As palavras de Santo Tomás foram transladadas da pena de S. Paulo, e as de S. Paulo, por revelação particular, resumidas da boca do anjo. Onde se deve muito notar a propriedade teológica daquele termo proposito sibi — porque, como doutamente comenta Caetano, o anjo só podia confortar a Cristo propondo[51]. E verdadeiramente a revelação deste segredo, não só era necessária, mas de suma consolação e remédio para todos os que com grandes causas, ou se vêem tentados da tristeza, ou já vencidos. Aquele homem, cuja alma estava com tal excesso triste, que bastaria para lhe tirar a vida, com o temor e apreensão terrível dos tormentos, dores e afrontas que do Horto ao Calvário lhe estavam aparelhadas, não só era Homem, mas Deus; e que razões e motivos podia excogitar o entendimento de um anjo para confortar, e consolar a tristeza de um homem-Deus, e para esse Homem, com a sabedoria e entendimento de Deus, se persuadir e deixar convencer delas? Foram, ou foi só, diz S. Paulo, a consideração dos prêmios do céu tão vivamente representada, como só podia fazer quem descia dele. Com nenhum outro encarecimento se viu nunca o céu tão acreditado, nem a força do argumento quo vadis tão encarecida. O caminho do Horto até o Calvário era o mais repugnante à natureza humana, posto que unida à divina; o mais áspero, o mais cruel, o mais horrendo, o mais intolerável: o mais áspero, pela delicadeza do sujeito; o mais cruel, pela fereza dos inimigos; o mais horrendo, pelo rigor dos tormentos; o mais intolerável, pela infâmia das injúrias e afrontas. Mas com o céu à vista tudo facilitou a consideração somente do glorioso fim do mesmo caminho. Ponderemos as palavras do apóstolo: Qui proposito sibi gaudio sustinuit crucem, confusione contempta[52]. — O que o anjo representou à sagrada humanidade agonizante e tristíssima, foram os gostos, que em lugar dos tormentos, e a exaltação e honras, que em lugar das afrontas no céu lhe estavam aparelhadas por prêmio; e este foi todo o aparato da pompa da paixão, e os pressupostos valentes e animosos, com que o Senhor, de noite e de dia, por passos e estâncias tão lastimosas e trágicas, desde o Horto chegou ao Calvário, até expirar nele. Olhemos mas para o Filho de Deus caminhando com a cruz às costas, e não só o veja o nosso espanto e a nossa piedade por fora, mas muito mais a nossa fé por dentro.

Diante dos olhos levava o prêmio do céu: proposito sibi gaudio — debaixo dos pés pisava os desprezos e as afrontas: confusione contempta — e sobre os ombros sustentava o peso e tormentos da cruz: sustinuit crucem.

Os tormentos e as afrontas eram os dois ingredientes terríveis de que se compunha a bebida do cálix, que tanto o mesmo Senhor repugnava no Horto: Transeat a me calix iste[53] — e, sendo a mesma bebida dantes tão amarga, não duvida dizer e cantar a Igreja, que depois lhe foi ao Senhor muito suave e doce: Dulce lignum, dulces clavos, dulcia, ferens pondera. — A mesma doçura reconhece também a Igreja nas pedras de Santo Estêvão: Lapides torrentis illi dulces fuerunt. — De que modo, pois, e por que arte ao primeiro mártir, e muito mais ao Rei dos mártires, se lhe trocou o fel em mel, e a amargura em doçura? Porque ambos padeceram com o céu à vista: Cristo: proposito sibi gaudio; Estêvão: Ecce video caelos apertos[54].

XII – O único caminho que fez Deus para se chegar ao céu.

Este é o modo, e esta a arte, ó almas, com que no meio dos maiores desgostos e trabalhos da vida podeis viver sem tristeza. Pergunte-se cada uma: quo vadis? — e respondendo que vai para o céu, logo, como encantada destas duas palavras, fugirá e desaparecerá a tristeza, e se houver alguma alma tão mimosa, que diga ou cuide que também se pode ir ao céu sem padecer, respondo que se engana. E por quê? Porque quem fez o céu fez também o caminho para ele. E qual é o caminho que ele fez? O do padecer, o dos trabalhos, o das adversidades, o das moléstias, o das tribulações. Assim o mandou o mesmo Deus publicar a todo o mundo pelos seus apóstolos, com um pregão universal que diz assim: Per multas tribulationes oportet nos intrare in regnum Dei (At. 14, 21): Quem quiser ir ao céu e ao reino de Deus, saiba que não pode entrar lá senão por muitas tribulações. — Aquele nos é cláusula universal, que a ninguém excetua.

Viu S. João no Apocalipse os que já tinham chegado ao céu, vestidos todos de glória, e com palmas nas mãos. E como um dos bem-aventurados lhe perguntasse, se sabia quem eram aqueles, e donde tinham vindo: Hi qui sunt? Et unde venerunt[55]? — Respondeu o santo que não sabia. Então o que lhe tinha feito a pergunta, só para lhe ensinar a resposta: Pois hás de saber — lhe disse — que estes são os que vieram da grande tribulação: Hi sunt, qui venerunt de tribulatione magna (Apc. 7, 14). — Isto só disse, e parece que havia de dizer mais, porque a pergunta tinha duas partes: quais são, e donde vieram? Pois, se lhe diz donde vieram, por que lhe não diz também quem são? Sim, diz e na primeira palavra: Hi sunt, qui venerunt de tributarione magna: Estes são os que vieram da grande tribulação — e os que vieram da grande tribulação, estes são os que só viu S. João no céu. Lá no céu não se pergunta se vêm dos Godos, como em Espanha, ou dos Borbões, como em França, ou dos Austríacos, como em Alemanha, mas se vêm ou não vêm da grande tribulação. Se não vêm da grande tribulação, ainda que sejam reis ou imperadores, não lhes abre S. Pedro as portas do céu; mas se vêm da grande tribulação, ainda que sejam vis, ainda que sejam escravos, ainda que sejam os mais pobres e miseráveis do mundo, ainda que se lhes não saiba o apelido nem o nome, todos têm as portas e entradas do céu francas e abertas, porque assim o diz a lei universal, que a todos compreende e a ninguém excetua: Per multas tribalationes opartet nos intrare in regnum Dei.

Isso quer dizer aquele oportet: é necessário, é forçoso, é preciso, é infalível e sem remédio. E para que nos não admiremos de uma limitação tão absoluta e indispensável, combinemos este oportet com outro maior. Quando os dois discípulos na manhã da ressurreição iam tristes e desesperados para Emaús, depois de os repreender o Senhor de ignorantes, tardos de coração e incrédulos, fez-lhes esta pergunta: Nonne oportuit — aqui vai a palavra — nonne oportuit Christum pati, et ita intrare in gloriam suam (Lc. 24, 26)? Porventura não foi necessário, não foi forçoso, não foi preciso, que Cristo padecesse, para assim entrar na sua glória? — Foi necessário, porque ele quis; foi forçoso, porque ele o decretou; foi preciso, porque entendeu que assim importava a ele e a nós: a ele para sua maior honra, e a nós para nosso irrefragável exemplo. Pois, se ao Filho de Deus e Senhor da glória, para entrar na glória sua: in gloriam suam — importou e foi preciso o padecer tanto, nós, cuja não é a glória, antes a perdemos tantas vezes, por que queremos ir e entrar a ela sem padecer? Se este é o caminho que Deus fez para seu Filho, por que havemos nós de presumir que poderemos ir ao céu por outro?

Oh! quem me dera saber descrever este caminho, e qual ele é! Primeiramente é muito estreito: Arcta via est, quae ducit ad vitam[56] — diz o mesmo Cristo. É lajeado, ou calçado de pedras muito duras, das quais disse Davi: Propter verba labiorum tuorum, ego custodivi vias duras[57]. — É semeado de abrolhos, e cercado de agudos espinhos, aqueles a que foi condenado Adão: Spinas et tributos germinabit tibi[58]. — É talhado de altíssimas barrocas e precipícios, donde se vai o lume dos olhos, como disse o profeta: Et lumen oculorum meorum, et ipsum non est mecum[59]. — Umas vezes tem descidas medonhas a profundíssimos vales, em que é fácil escorregar sem remédio, por onde diz o apóstolo: Qui stat, videat ne cadat[60]. — Outras vezes se levanta em serranias altíssimas, e de aspereza intratável, onde é necessário subir com os pés, e mais com as mãos, como Naás: Manibus et pedibus reptans[61]. — E que fazem os que se vêem lá em cima, e descobrem o mundo? Vêem nele outra estrada muito larga, e nela muitos homens e mulheres vestidos de galas; muitas carroças douradas, e liteiras de várias cores; muitas festas, muitos banquetes, muitos passatempos; comédias, músicas, danças, enfim, tudo prazer, tudo contentamento, tudo alegria. E muitos com saudades, ou inveja, ou desejos de viver contentes e alegres, se passam também a aquela estrada, não entendendo que os que por ela caminham são os própria e verdadeiramente tristes, porque estão e caminham sem freio pela estrada do inferno e da perdição: Lata via est, quae ducit ad perditionem[62]. — Oh! se cada uma daquelas cegas e miseráveis almas se perguntasse quo vadis? — como lhe responderia a fé e a razão: Cogitavi vias meas, et converti pedes meos in testimonia tua[63]! — Alma desencaminhada, alma perdida, volta, volta.

Torna ao caminho estreito, se o deixaste, e se não, deixa o largo e da perdição enquanto tens tempo, e não tenhas medo ao padecer, pois é muito mais o que lá padeces sem Deus; sendo certo que na hora da morte, que não há de tardar muito, te hás de arrepender sem remédio de não ter padecido com Cristo. Mas como nas entradas do mesmo caminho, não só há ladrões que roubam e ferem, como os do caminho de Jericó, senão feras bravas e leões que andam rondando: Tanquam leo rugiens circuit, quaerens quem deporet[64] — que são os demônios, quem uma vez deixou o caminho do céu, tarde ou dificultosamente torna a ele. Oh! que alegria, que contentamento será o dos venturosos, que, finalmente, chegarem a entrar pelas portas daquele reino bem-aventurado: Introire in regnum Dei! Se é tão grande a alegria dos navegantes, quando, tendo escapado das tempestades e dos corsários, ouvem dizer: Terra! terra! que alegria será a dos que agora padecem, quando ouçam dizer: Céu! Céu!

XIII – O que promete Cristo, Senhor nosso, aos que padecerem por seu amor. Quais são as mercancias dos que negoceiam a terra para o céu? O que a pessoa de Cristo, como mercador, veio granjear do céu à terra?

Predestinados eram para o céu aqueles mesmos discípulos que hoje estavam tristes, quando o divino Mestre lhes disse: Nemo ex vobis interrogat me: Quo vadis? — E para o mesmo Senhor os animar a padecer, e não ter medo aos trabalhos que costumam ser mais sensíveis à natureza ou fraqueza humana, declarou-lhes o grande preço e valor que têm no céu estas mesmas coisas, de que todos tanto fogem na terra, e, por fim daquele famoso sermão, em que tomou por tema beati pauperes[65] — voltando-se particularmente para os mesmos discípulos, lhes disse assim: Beati eritis cum vos oderint homines, et maledixerint vobis, et persecuti vos fuerint, et dixerint omne malum adversum vos mentientes, et cum separaverint vos, et exprobraverint, et ejecerint nomen vestrum tanquam malum propter Filium hominis. Gaudete in illa die, et exsultate: ecce enim merces vestra copiosa est in caelo (Lc. 6, 22 s; Mt. 5, 11 s): Então sereis ditosos e bem-aventurados, discípulos meus, quando os homens vos tiverem ódio e vos perseguirem; quando vos disserem injúrias e afrontas; quando fugirem de vós e vos lançarem de si; quando até o vosso nome for deles aborrecido e abominado. Mas quando tudo isto padecerdes por amor de mim, não vos deveis entristecer, senão alegrar e triunfar de prazer: Gaudete, et exsultate — porque o prêmio que de tudo haveis de receber no céu, é muito copioso: Quoniam merces vestra copiosa est in caelo.

Até aqui, Senhor, são palavras tão divinas como vossas; mas para que eu melhor as saiba entender, e também declarar, dai-me licença para que nestas últimas mude uma só. Vós dizeis: Merces vestra copiosa est — a licença que eu peço, é para dizer: Merces vestrae copiosae sunt. — A mesma palavra merces, se é de merces mercedis, quer dizer prêmio; se é de merces mercium quer dizer mercadorias. E porque o nome do prêmio está quase esquecido nesta era, e o da mercancia tão valido e tão subido, parece-me que por este segundo será melhor entendido o primeiro. Sendo, pois, de tanto preço, como acaba de dizer a Suma Verdade, os trabalhos, as pobrezas, as perseguições, as afrontas, e as outras penalidades desta vida, ou naturais ou violentas, e sendo os homens tão cobiçosos, e diligentes, e industriosos, em granjear e aumentar mais e mais os próprios interesses, qual é a razão de estarem tão mal reputadas entre eles as mercadorias deste gênero, e os avanços delas? A razão não a pode haver, mas a sem-razão e o engano é porque não lhes conhecem o valor, nem lhes sabem dar o preço. Avaliam-nas como gentios, e não como cristãos, ou, para falar mais ao certo, avaliam-nas como quem lhes faz a conta na terra, e não faz conta de que vai para o céu.

A primeira regra, ou A, B, C, da mercancia, é passar as coisas da terra, onde as há, e valem pouco, para onde as não há, e valem muito. Se víssemos que um mercante de Lisboa, embarcando-se a comerciar nas nossas conquistas, para Angola carregasse de marfim, para a índia de canela, e para o Brasil de açúcar, não o teríamos por louco, e lhe perguntaríamos: Quo vadis? Homem néscio, tu sabes para onde vais, ou o que levas? Pois esta mesma ignorância e loucura é a de todos ou quase todos os que se chamam cristãos neste mundo. Se lhes perguntarmos para onde vão, dizem que para o céu. E se olharmos para os seus cuidados, e para os seus empregos, e para as suas carregações, competindo todos em quem mais há de carregar e sobrecarregar, acharemos que todo o seu cabedal empenham naquelas mercadorias que nenhum preço nem valor têm no céu. Cá custam muito, e lá não valem nada. O ouro e a prata não têm lá valor, porque lá é a pátria das riquezas; os gostos e os passatempos lá não têm valor, porque lá é a pátria das delícias; as telas e os brocados lá não têm valor, porque lá todos vestem de glória; os regalos e sabores esquisitos lá não têm valor, porque lá os perpétuos banquetes são a vista de Deus.

Que coisas são logo aquelas que no céu têm grande valor e grande preço? São aquelas que lá não há. Os trabalhos, as pobrezas, as fomes, as sedes, as perseguições, os ódios, as injúrias, as afrontas, as calúnias, os falsos testemunhos, e todas as outras misérias ou violências que neste mundo se padecem, estas são as que no céu só têm valia, porque no céu todos são impassíveis. Cá é á terra do trabalho e da paciência, lá o porto do descanso e a pátria da impassibilidade. Olhai, olhai bem para o interior desse céu, e vede o que lá só aparece e resplandece levado cá da terra. A cruz de Pedro e André, as grelhas de Lourenço, as setas de Sebastião, as pedras de Estêvão, as navalhas de Catarina, as fogueiras de Tecla, as torqueses de Apolônia, os olhos nas mãos de Luzia. E como estas são as mercadorias que só têm valor e preço no céu, vede se os que mais carregados e sobrecarregados se vêem destas felicíssimas drogas, tanto mais preciosas quanto mais pesadas, vede se têm razão de se entristecer, ou de se alegrar, e de saltar da terra ao mesmo céu de prazer: Gaudete et exultate quoniam merces vestra, et merces vestrae copiosae sunt in caelo.

Estas são as mercancias dos que negaceiam da terra para o céu. E do céu para a terra, haverá também algum mercador, e algum comércio? Sim, e muito mais admirável. O mercador não é menos que o mesmo Deus, o qual se fez homem para trazer do céu à terra o que cá não havia, e levar da terra ao céu o que lá não há, e este foi o comércio. Assim o canta a Igreja: O admirabile commercium! Creator generis humani, animatum corpus sumens, largitus est nobis suam deitatem[66]! — Este é o mercador daquela nau, que trouxe de longe o seu pão: Navis institoris, de longe portans panem suum (Prov. 31, 14). — O pão logo veremos qual é, as mercadorias e drogas em que empregou todo o seu cabedal e toda a sua vida, foram as que não havia no céu, nem ele enquanto Deus, e sem carne passível podia granjear na terra. Em Belém granjeou a pobreza, o frio, o desamparo: hóspede dos brutos, e sem agasalho entre homens. Antes do Egito granjeou as perseguições e tiranias de Herodes, e no Egito os desterros. Em Nazaré, e em vida de José, granjeou a sujeição e obediência a um oficial com nome de pai seu, que não era. Depois de sua morte granjeou o suceder-lhe na mesma oficina, ganhando o pão para sua Mãe e para si com o suor do seu rosto. Antes de sair ou fugir da pátria, granjeou o aborrecimento e desprezo dos seus naturais, e dos que eram seu sangue, que devendo-se prezar, se desprezavam dele. Nas peregrinações de Galiléia e Judéia granjeou fazê-las sempre a pé, e muitas vezes descalço, exposto ao sol e às chuvas, sem casa própria nem alheia, podendo invejar dos bichos da terra as covas, e das aves o repouso dos ninhos, sem ter onde reclinar a cabeça.

No povoado granjeou mendigar cotidianamente o comer, e talvez pedindo um púcaro de água, não só a quem lhe negou mas lhe estranhou o pedi-la. No deserto granjeou o contínuo jejum, e, depois da fome de quarenta dias, as tentações do demônio, uma, duas e três vezes combatido. Finalmente,entrado na corte de Jerusalém, e réu da sua própria sabedoria e milagres, granjeou os ódios e invejas dos escribas e fariseus, e o decreto de morte fulminado pelos príncipes dos sacerdotes contra sua inocência. E naquele dia e noite fatal, que foi o da feira geral e franca do seu comércio, no Horto granjeou as agonias e as prisões, no palácio de Anás as bofetadas, no de Caifás as blasfêmias, no de Herodes os desprezos, no pretório de Pilatos as acusações, os falsos testemunhos, os açoites, a coroa de espinhos, e, por remate de tudo, a morte de, cruz entre ladrões no Calvário. Isto é o que a mesma pessoa de Cristo, como mercador, veio granjear do céu à terra, e por isso o que levou da terra para o céu foram somente as chagas. São Paulo diz que deu aos homens: Dedit dona hominibus[67]. — Davi diz que recebeu dos homens: Accepisti dona in hominibus[68] — e como o comércio consiste em dar e receber, tudo foi, porque a nós deu-nos a sua divindade: Largitus est nobis suam deitatem — e de nós recebeu as mesmas chagas: Quid sunt plagae istae in medio manuum tuarum? His plagatus sum in domo eorum qui diligebant me[69].

Em suma, de tudo o que fica dito, esta mesma; e não outra, havia de ser a resposta do divino Mestre, se os discípulos lhe perguntassem: Quo vadis? Mas eles, porque não fizeram a pergunta, ficaram tristes; e nós, pelo contrário, porque ouvimos na resposta os grandes interesses do prêmio que nos espera no céu: Merces vestra copiosa est in caelo — por muitos que sejam os trabalhos e moléstias do caminho, não devemos estar tristes, senão muito alegres: Gaudete, et exultate.

XIV – O Santíssimo Sacramento do Altar e o viático do profeta Elias. Conclusão.

E para que acabemos por onde começamos, e tornemos à mesa donde saímos, se a alma que vai para o céu, e o corpo que vai para a sepultura, me perguntarem pelo viático com que se hão de sustentar em um e outro caminho, este é aquele pão que o mesmo mercador do céu trouxe à terra, e eu reservei para este lugar: De longe portans panem suum[70]. — O Santíssimo Sacramento do Altar, é o pão que desceu do céu: Hic est panis qui de caelo descendit (Jo. 6, 59) — e este pão não só é viático para a alma, senão também para o corpo. Ouvi o que diz o mesmo Senhor: Qui manducat hunc panem viver in aeternum, et ego resuscitabo eum in novissimo due (Jo. 6, 55): Quem come este pão viverá eternamente, e eu o ressuscitarei no último dia. — É viático para o corpo, que caminha para a sepultura, porque na mesma sepultura o há de ressuscitar; e é viático para a alma, que caminha para o céu, porque a alma, em se apartando do corpo, há de viver no céu eternamente.

Quando Elias pediu à sua alma que o deixasse morrer: Petivit animau suae ut moreretur (3 Rs. 19, 4) — apareceu-lhe um anjo que lhe deu a comer um pão, dizendo que ainda tinha muito que caminhar: Grondus tubu restar via (3 Rs. 19, 7). Desta palavra via se deriva o nome de viático, mas o nosso muito melhor que o de Elias. Se Elias houvesse de morrer, como os outros santos daquele tempo, a sua alma não havia de ir logo ao céu, senão ao seio de Abraão; e porque ainda está vivo, não há de ir ao céu senão no fim do mundo. Assim o viático de Elias era como o do nosso corpo, que não há de ir ao céu senão quando ressuscitar; porém, o viático da nossa alma, por virtude do Santíssimo Sacramento, não é como o de Elias, porque logo, em se apartando a alma do corpo, vai gozar de Deus no céu. Oh! bem-aventurados trabalhos, que tão depressa nos hão de levar ao descanso! Oh! bem-aventuradas pobrezas, que tão depressa nos hão de levar à coroa! Oh! bem-aventuradas penas, que tão depressa nos hão de levar à glória!

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[1] Vou eu para aquele que me enviou, e nenhum de vós me pergunta: Para onde vais? Antes, porque eu vos disse estas coisas, se apoderou de vosso coração a tristeza (Jo. 16, 5 s).
[2] Malenconia no original.
[3] Neste vale de lágrimas, no lugar que Deus destinou para si (Si. 83, 7).
[4] A tristeza faz apressar a morte (Eclo. 38, 19).
[5] Esta, no original.
[6] Gên.3.
[7] Jos.7.
[8] 2 Rs.13.
[9] 3 Rs. 21.
[10] 2 Rs. 13.
[11] Est. 6.
[12] Gên. 10.
[13] Gên. 38.
[14] 1 Rs. 18.
[15] 4 Rs. 18.
[16] Ez.37.
[17] Gên.4.
[18] 2 Rs. 17.
[19] A tristeza se apoderou de vosso coração, e nenhum de vós me pergunta: Para onde vais (Jo. 16, 5 s)?
[20] E o pó se torne na sua terra donde era, e o espírito volte para Deus que o deu (Ecl. 12, 7).
[21] Eu farei que este povo ache graça no espírito dos egípcios, e quando vós sairdes, não será com as mãos vazias. Mas cada mulher pedirá à sua vizinha vasos de ouro, e de prata, e vestidos; e pôlos-eis sobre os vossos filhos e vossas filhas, e assim deixareis despojado o Egito (Êx. 3, 21 s).
[22] Para sermos socorridos em tempo oportuno (Hebr. 4, 16).
[23] Orará a ti todo o santo no tempo oportuno (SI. 31, 6).
[24] Eu farei que este povo ache graça, e deixareis despojado o Egito (Êx. 3, 21 s).
[25] Com os melhores vestidos de Esaú (Gên. 27, 15).
[26] Matarei a Jacó, meu irmão (ibid. 41).
[27]Hieron. in hunc locum Pauli.
[28] Nem Salomão em toda a sua glória (Mt. 6, 29).
[29] Porém, em morrendo, nada levará ele consigo, nem a sua glória descerá com ele (SI. 48, 18).
[30] Como tristes, mas sempre alegres (2 Cor. 6, 10).
[31] A vida de todo potentado é breve (Eclo. 10, 11).
[32] August. Confess. c. 31.
[33] Por que estás triste, alma minha (SI. 41, 6)?
[34] Lembra-te, Senhor, de Davi, e de toda a sua mansidão (Sl. 131, 1).
[35] Pisaram-me os meus inimigos, porque são muitos os que pelejam contra mim (SI. 55, 3).
[36] Têm-se fortalecido os meus inimigos, que me perseguiram injustamente; paguei então o que não tinha roubado (SI. 68, 5).
[37] Os meus inimigos falaram contra mim, e os que insidiavam a minha alma tiveram juntos conselho (S1.70,10).
[38] Ao tempo que os meus ossos se quebram, me improperam os meus inimigos que me perseguem (SI. 41, 11).
[39] Todo o dia me improperavam os meus inimigos (SI. 101, 9).
[40] E os que me louvavam se conjuravam contra mim (ibid.).
[41] Os meus inimigos cercaram a minha alma. Cerraram as suas entranhas; a sua boca falou com soberba (SI. 16, 9).
[42] Envia a tua luz e a tua verdade (SI. 42, 3).
[43] Estas me conduziam, e me levaram ao teu santo monte e aos teus tabernáculos (ibid.)
[44] Enquanto meus pés estão vacilantes, falaram com orgulho contra mim (SI. 37, 17). — Montem sanctum, id est, caelum — glosa Hugo.
[45] Por que estás triste, alma minha, e por que me conturbas (Si. 41, 6)?
[46] Por que ando triste, quando me aflige o meu inimigo (SI. 42, 2)?
[47] A tristeza se apoderou do vosso coração (Jô. 16,6)
[48] A minha alma está numa tristeza mortal (Mt. 26, 38).
[49] Prostrou-se com o rosto em terra (ibid. 39).
[50] Havendo-lhe sido proposto como prêmio o gozo da vida eterna (D. Thom. ibi).
[51] Caiet. in Comment. D. Thom. q. 12, art. 14.
[52] O qual, havendo-lhe sido proposto gozo, sofreu a cruz, desprezando a ignomínia (Hebr. 12, 2).
[53] Passe de mim este cálix (Mt. 26, 39).
[54] Eis estou eu vendo os céus abertos (At. 7, 56).
[55] Quem são estes, e donde vieram (Apc. 7, 13)?
[56] Apertado é o caminho que guia para a vida (Mt. 7, 14).
[57] Por amor as palavras de teus lábios, tenho guardado caminhos penosos (SI. 16, 4).
[58] Ela te produzirá espinhos e abrolhos (Gên. 3, 18).
[59] E ainda o mesmo lume dos meus olhos não está já comigo (SI. 37,11).
[60] Aquele que está em pé, veja não caia (1 Cor, 10, 12).
[61] Engatinhando com as mãos e pés (1 Rs. 14, 13).
[62] Largo é o caminho que guia para a perdição (Mt. 7, 13).
[63] Considerei os meus caminhos, e voltei os meus pés para os teus testemunhos (SI. 118, 59).
[64] Como um leão que ruge, buscando a quem possa tragar(1 Pdr. 5,8).
[65] Bem-aventurados vós, os pobres (Lc. 6, 22).
[66] Oh! comércio admirável! O Criador do gênero humano, encarnando-se, prodigalizou-nos sua divindade!
[67] Deu dons aos homens (Ef. 4, 8).
[68] Tomaste dons para distribuíres aos homens (SI. 67, 19).
[69] Que chagas são estas no meio das tuas mãos? Com estas fui eu ferido em casa daqueles que me amavam (Zac. 13, 6).
[70] Que traz de longe o seu pão (Prov. 31,14).

Fonte: https://www.literaturabrasileira.ufsc.br/documentos/?action=download&id=49798