Sermão da Segunda Oitava da Páscoa

SERMÃO DA SEGUNDA OITAVA DA PÁSCOA

Em Roma, na Igreja da Casa Professa da Companhia de Jesus, dia em que é obrigação e costume de toda Itália pregar da paz.


Stetit Jesus in medio discipulorum suorum, et dixit eis: Pax vobis. Et cum hoc dixisset, ostendit eis manus et pedes[1].

I – Concordância entre o Evangelho do dia e as palavras de Moisés no Gênesis: Veio a pomba sobre a tarde, trazendo no seu bico um ramo de oliveira. — Definição da paz segundo Santo Agostinho. Os dois pontos do sermão: A igualdade dos que mandam e a paciência dos que são mandados, duas coisas necessárias para que se consiga e conserve a paz.

Depois da tempestade do dilúvio, ainda navegava na arca o mundo já salvo, quando na última hora de uma tarde a pomba, embaixadora de Noe. lhe trouxe a primeira nova da paz em um ramo verde de oliveira: Venit columba ad vesperam, portans ramum olivae in ore suo[2]. — Falou Moisés em todas e cada uma destas palavras como profeta do passado e como evangelista do futuro. Vede parte por parte como se conforma a figura com o figurado, e aquele texto com o do Evangelho: Venit columba: stetit Jesus; ad vesperam: cum sero esset; portans in ore suo: et dixit eis; ramum olivae: pax vobis. Esta é a primeira parte do Evangelho, e esta será a primeira e a segunda do meu discurso. Todo ele se empregará em concordar estas duas palavras Pax vobis: Paz a vós (Lc. 24, 36). — A vós, que dentro da vossa cidade estais cercados de inimigos, como estavam os apóstolos nesta hora; a vós, que nem dentro da vossa casa, e com as portas cerradas, estais seguros; a vós, que dentro dos muros padeceis guerras civis, e dentro das vossas paredes discórdias domésticas; a vós, e a todos como vós, paz: Pax vobis.

Santo Agostinho, no livro dezenove da Cidade de Deus, definindo a paz diz assim: Pax hominum est ordinata concordia: A paz entre os homens não é outra coisa que uma concórdia ordenada. Se não é ordenada, e bem ordenada, ainda que seja concórdia, e grande concórdia, não é paz. Por isso entre maus não pode haver paz: Non est pax impiis[3]. — E a ordem desta concórdia, ou a concórdia desta ordem, em que consiste? Em duas coisas, diz Agostinho: uma da parte do superior para com os súditos, outra da parte dos súditos para com o superior: Pax domas ordinata imperandi, atque obediendi concordia cohabitantium: pax civitatis ordinata imperandi, atque obediendi concordia civium. De maneira que na casa ou família que é uma república pequena, e na república, que é uma casa ou família grande, toda a paz consiste em que o império do que manda e a sujeição dos que obedecem, ele ordenando, e eles subordinados, estejam concordes. Até aqui a doutrina fundamental de Santo Agostinho, de Santo Tomás e de todos os teólogos.

Agora pergunto eu: e que será necessário de uma e da outra parte para que a ordem desta concórdia se conserve, e com a ordem e a concórdia se consiga a paz? Respondo, com a mesma proporção, que são necessárias outras duas coisas. Da parte do superior e do que manda, igualdade; da parte dos inferiores e dos que são mandados, paciência. Sem igualdade de uma parte e sem paciência da outra não se poderá conseguir nem conservar a paz. Vós que na família ou na república tendes o mando, se quereis paz, igualdade; vós que na família ou na república sois mandados e sujeitos, se quereis paz, paciência. eis manus et pedes, et dixiteis: Pax vobis[4]. — Cristo posto no meio, Cristo mostrando as suas chagas. Cristo anunciando a paz: Stetit in medio: eis ai a igualdade; — Ostendit eis manus et pedes: eis aí a paciência; — Dixit eis: Pax vobis: eis aí a paz. — Esta, assim declarada, será a primeira e segunda parte do meu argumento. Comecemos pela igualdade, e demos o primeiro lugar, como é obrigação, aos que mandam. Tudo isto ensinou Cristo hoje a seus discípulos, que haviam de ser superiores, e eram súditos: Stetit in medio discipulorum, ostendit.

II – A igualdade. Cristo, com cis palavras, ensinou a paz, e, com o lugar e sítio que tomou, ensinou o meio de cr conseguir; que é a igualdade. Guardar o meio no meio da ofensa de Pedro e do amor de João, o grande excesso da igualdade de Cristo. A igualdade de lugar e a igualdade das ações.

Stetit in medio discipulorum, et dixit eis: Pax vobis. — Apareceu Cristo como Mestre à sua escola, como Pai à sua família, como Príncipe ao seu reino; mas como era Príncipe da paz e Mediador da paz, apareceu no meio: Stetit in medio. — Com as palavras ensinou a paz, e com o lugar e sítio que tomou ensinou o meio de a conseguir, que é a igualdade. Notai a maravilhosa e suma igualdade de Cristo, posto em meio dos discípulos: Stetit in medio discipulorum. — De uma parte estava Pedro, que o tinha negado, e não se retirou. nem afastou de Pedro; da outra parte estava João, que o tinha assistido, e não se chegou ou pôs mais perto de João, senão igualmente no meio: in medio. Guardar o meio no meio da ofensa e do amor, grande excesso de igualdade! Nem a ofensa o obrigou ao retiro, nem o obséquio ao favor; mas amado e ofendido, sempre igual e em meio de um e outro: In medio discipulorum. — Esta foi a igualdade quanto ao lugar. E quanto às ações? A mesma. No rosto, na alegria. nas palavras, na benevolência, no esquecimento do passado, igual com todos e a todos. A todos oferece a paz: Pax vobis; a todos tira o temor: Nolite timere[5]

a todos anima e consola: Quid turbati estis [6]? — A todos se convida: Habetis aliquid quod i anducetur[7]? — A todos regala: Dedit eis reliquias[8]. — A todos se entrega e franqueia todo: Palpate, et videte[9] — mas parcialidade, ou particularidade a nenhum. Pois, Senhor meu, ao menos para João, que intrepidamente vos acompanhou na cruz, ao menos para João, que morto vos levou ã sepultura, ao menos para João. que é o herdeiro de vosso amor, e o filho segundo de vossa Mãe, não haverá um pequeno sinal de maior afeto? Não. Porque o que Cristo levava em si e consigo, e anunciava a todos os discípulos, era a paz: Pai vobis — e sem igualdade, e igualdade com todos, não há paz.

III – A paz dos reinos e a paz das repúblicas. Com que arte e com que indústria adquiriu e conservou Salomão para si, para sua corte e para o seu reino uma tão notável e nunca vista paz? A igualdade da justiça que Davi pediu para seu filho. O engano dos que pretendem a paz com a guerra. A espada e os escudos da balança da justiça na primeira sentença de Salomão, o rei, a corte e o reino mais pacífico que nunca viu o mundo foi o de Salomão.

O rei se chamava Salomão, que quer dizer Pacificus; a corte se chamava Jerusalém, que quer dizer Visio pacis[10]: — o reino tinha por confins a mesma paz: Qui posuit fines tuos pacem[11]. — E com que arte, com que indústria adquiriu e conservou Salomão para si, para sua corte e para o seu reino uma tão notável e nunca vista paz? Com a igualdade somente: Virgo aequitatis, virga regni tui[12]. — O cetro de Salomão era a vará da igualdade, e porque com esta vara de igualdade media igualmente a todos, por isso foi o seu reino entre todos os reinos, e a sua corte entre todas cortes, e ele entre todos os reis, o que gozou de mais alta e firme paz. Não havemos mister outro comentador, nem mais claro, nem de maior autoridade que o mesmo texto. Depois de dizer: Dilexisti justitiam, et odisti iniquitatem[13]. — Amava e aborrecia Salomão, mas não tinha mais que um só amor e um só ódio. E a quem o amor? À justiça: Dilexisti justitiam. — E a quem o ódio? À desigualdade: Et odisti iniquitatem. — E um rei tão amante da justiça e tão aborrecedor da desigualdade, necessariamente havia de ser o que foi: ele só, e ele por antonomásia o Pacífico.

Grandes outros dotes de rei e de reinar, teve Salomão; mas vede como só este foi o que o fez rei da paz. Renunciou Davi em Salomão o seu reino, e para que ele reinasse como filho de tal pai e sucessor de tal rei, apareceu-lhe Deus, e disse-lhe que pedisse o que quisesse. Pediu Salomão sabedoria. e não só lhe den Deus maior sabedoria que a de todos os homens, senão também maiores riquezas e maior potência que a de todos os reis. É, porém, coisa digna de grande admiração que, não contente Davi com tudo isto, ainda fez novo memorial a Deus, e pediu mais para o rei, seu filho. E que pediu? Que lhe desse Deus justiça, e não outra, senão tal que fosse semelhante à do mesmo Deus: Deus, judicium tuum regi da, et justitiam loam filio regis[14]. — Pois, Davi. vedes o vosso filho tão sábio, tão rico, tão poderoso, e com tantas prendas juntas e tantas qualidades verdadeiramente reais, e ainda vos parece que não lhe bastam para dar boa conta do seu reinado? Sim. Porque, Salomão, segundo o significado do seu nome, e segundo o que dele está profetizado, não só tem obrigação de ser bom rei senão rei pacífico; e para ser pacífico não basta a sabedoria, nem a riqueza, nem a potência, se lhe faltar a igualdade com todos: por isso peço a Deus que, sobre estes dons lhe acrescente o de uma tal justiça que seja semelhante à sua: Et justitiam loam filio reais. — E qual é a justiça de Deus no governo universal do mundo? Uma igualdade suma, sem exceção de pessoa nem diferença de estado: Qui solem snow oriri facit super bonus et malos, et pluit super justos et injustos[15]. — Esta é a igualdade da justiça que Davi pediu para seu filho, acrescentando que o fim da sua petição era a paz que lhe estava prometida: Suscipiant montes pacem populo, et colles justitiam[16] — E porque Deus lhe concedeu o que pedia, logo profetizou que tal seria a paz de Salomão em todo o tempo do seu reinado: Orietur in diebus ejus justitia et abundantia pacis[17].

Aqui vereis, senhores, o engano deste mundo. Todas as guerras deste mundo se fazem a fim de conseguir a paz. Omnis pomo — diz Santo Agostinho — etiam belligerando, pacem requirit: pacis intentione geruntur et bella. — À guerra se aplica a sabedoria, na guerra se emprega a potência, com a guerra se despendem as riquezas, e com a guerra se retendo a paz: mas é engano: Viam pacis non cognoverunt[18]. — A paz não se conquista com exércitos armados: conquista-se com uma só espada e com dois escudos: com uma só espada, que é a da justiça, e com dois escudos, que são os das suas balanças. Divida a espada igualmente pelo meio o que partir, e ponham-se as partes ou ametades iguais uma em uma balança e outra na outra, e debaixo desta igualdade se achará a justiça, e neste equilíbrio a paz. Tal foi o primeiro juízo de Salomão e a primeira sentença do rei pacífico. Assentado Salomão no trono real, a primeira causa ou caso que lhe foi proposto foi a contenda de duas mulheres sobre um menino, o qual cada uma delas protestava que era seu filho. Não havia testemunhas, nem outra prova. E que faria o rei? O que eu acabo de dizer. Manda que o menino se parta pelo meio: Dividite infantem — e esta foi a igualdade da espada da justiça; manda mais que as duas ametades uma se dê a uma mulher, e outra a outra: Date dimidiam partem uni, et dimidiam partem alteri (3 Rs. 3, 25) e esta foi a igualdade das balanças. Oh! admirável jeroglífico da justiça igual, e digno de o tomar por empresa o rei pacífico! Mas não parou aqui a decisão da causa. Descoberta com esta indústria a verdade, não se partiu o menino, mas vivo e inteiro se deu à que era sua mãe, e nestas duas partes da sentença de Salomão se manifestaram os dois efeitos da justiça particular ou universal que devem observar os reis. A justiça particular tem obrigação de dar a cada um o seu, e nesta ordinariamente, se uma parte fica satisfeita, a outra fica queixosa; porém, a justiça universal e comum tem obrigação de ser igual com todos, e desta igualdade, que a todos satisfaz e abraça, nasce a verdadeira e constante paz. Em uma igual, em outra desigual Salomão, e em ambas justo, mas só na da igualdade rei pacífico: Virga aequitatis virga regni tui[19].

IV – A paz das famílias. A casa de Jacó, a maior casa que houve no mundo. Qual foi a desigualdade que perturbou e arruinou a paz dessa grande família. A contenda de Esaú e Jacó, e os frutos que produz a desigualdade dos pais quando, sendo iguais em lhes haver dado o seer; o não são em os favorecer e amar.

Do exemplo do rei e da república, que são as casas grandes, passemos ao do pai e da família, que são os reinos pequenos. A maior casa que houve no mundo foi a de Jacó, e Jacó o maior pai de família. Nesta casa e deste pai nasceram doze filhos, em que se criaram e cresceram os doze patriarcas, cabeças e fundadores das doze tribos de Israel. Mas qual foi o estado desta grande família, enquanto os filhos, sendo tantos e de tão diferentes idades, viveram na sujeição do mesmo pai? Ele era santo, mas nem por isso ele, e toda a família deixaram de correr vária fortuna, já em bonança, já em tempestade, sendo a causa — que é mais o mesmo piloto. Enquanto Jacó observou igualdade coam todos, gozavam uma felicíssima paz. O pai amava igualmente os filhos, os filhos amavam igualmente o pai, e os irmãos entre si se amavam igualmente como irmãos. Ditoso pai! Ditosos filhos! Ditosos irmãos! E ditosa e bem-aventurada família, se este amor e esta paz durara! Mas não durou. E por quê? Foi crescendo José, que era o filho da velhice, começou o pai a amá-lo e favorecê-lo mais que aos outros irmãos, e no mesmo ponto se mudou a cena. A paz se converteu em discórdia, o amor em ódio, a irmandade em inveja, e o mesmo sangue da natureza em sangue de crueldade e vingança: Videntes fratres ejus quo a paire plus cunctis filiis amaretur; oderant eum, nec poterant ei pacifice loqui[20]. — Notai o plus amaretur e o nec poterant pacifice. — Faltou a paz na família, porque faltou a igualdade no pai. A igualdade conservava o amor, e o amor conciliava a paz; a desigualdade excitou a inveja, e a inveja causou a discórdia.

Agora entra a maior admiração. E qual foi esta desigualdade usada com José, e qual a demonstração deste maior amor? Porventura Jacó tirou aos outros filhos a sua bênção, para a dar a José? Não. Porventura deserdou aos outros, para que José fosse o único herdeiro da sua casa? Não. Porventura tratava aos outros como escravos, ou criados, e só a José como filho? Não. Qual foi logo a desigualdade que tanto perturbou e arruinou urna tão natural e tão fundada paz? Caso quase incrível! Fecit ei tunicam polymitam (Gên. 37, 3): Porque fez Jacó a José uma túnica de melhor cor que aos outros irmãos. Não despojava o pai, nem despia aos outros para vestir a José: a todos provia, a todos vestia, e a todos com a decência e nobreza devida ao seu estado. Mas porque a túnica de José era de cor mais vistosa, bastou a desigualdade daquela cor, ou aquela cor de desigualdade, para que a inveja espedaçasse a concórdia, para que a paz se convertesse em guerra, a irmandade em hostilidade, o amor em rancor, a benevolência em vingança, a humanidade em fereza, e para que toda a casa se cobrisse de lutos, e o triste e infeliz pai, desfeito em lágrimas, visse pouco depois nas suas mãos aquela mesma túnica tinta de sangue, só porque a tingira de melhor cor. Tão perigosa e subitamente, ainda dentro das mesmas paredes, depende da igualdade a paz.

E se quando a desigualdade topa em matéria tão leve, como no vaqueiro mais loução. de um menino, tantos homens em uma conjuração tão escandalosa rompem os maiores respeitos da piedade, da razão e da natureza, que será ou poderá ser onde as desigualdades, por levantar a uns e abater a outros, não reparam na ruína da opinião, da honra, da nobreza, da fazenda, do remédio, e não só da esperança, que é a última âncora da vida, senão da mesma vida? Diga o mesmo Jacó o que experimentou na casa de seu pai, quando ele era filho e ametade de toda a família. Contendiam ele e o seu irmão Esaú, desde o ventre da mãe, sobre o morgado daquela casa, que era o de Abraão, e o maior que houve e havia de haver no mundo; e sendo a matéria de tanto peso e de tanto preço, Isac, que era pai, inclinava para Esaú, e Rebeca, que era a mãe, para Jacó. Enfim, prevaleceu a indústria da mãe contra a vontade do pai; e que resultou desta desigualdade? Não só que a paz da família se converteu em guerra, mas em guerra tão perigosa, que a mesma mãe, que tinha favorecido mais a um filho que a outro, se viu reduzida às angústias de perder em um dia a ambos: Cur utroque orbabor filio in uno die (Gên. 27, 45)? É possível que em um dia me hei de ver órfã de ambos os filhos, um por morto e outro por homicida? — Sim, senhora, que estes são os frutos que produz a desigualdade dos pais quando, sendo iguais em lhes haver dado o ser, o não são em os favorecer e amar. Vós mesmo tirareis de vossos olhos esse Jacó que preferistes, e para lhe salvar a vida o condenareis ao desterro. E não só nas saudades, mas nos perigos da sua ausência, chegareis a tal estado que aborreçais a própria vida: Taedet me vitae meae[21].

V – O príncipe é senhor da república, o pai é senhor da casa, mas nem o príncipe nem o pai é senhor da sua inclinação. Por que razão, entre todas as coisas da terra, só o centro, que está no meio de todas, não inclina para parte alguma? Se a terra não tem nem pode ter mais que um centro, como diz a Escritura que Deus pôs e estabeleceu o mundo sobre os centros da terra? O centro do mundo natural e os centros do mundo político. Melhor é não inclinar, que inclinar ao melhor. Resposta do mestre Laines a Santo Inácio. O que se seguiu à inclinação da cabeça de Cristo coroada de espinhos?

Senhores meus, vós que na família ou na república tendes o ofício e a obrigação de as conservar em paz, igualdade: Aequet amor quos aequavit natura[22] — diz Santo Ambrósio. — E se acaso com os exemplos de Jacó, de Isace de Rebeca me replicardes que inclinar mais a uns que a outros, ainda entre pais e filhos, é afeto natural, com os mesmos exemplos vos respondo que também é natural seguir-se à desigualdade destas inclinações a rotura da paz e as discórdias domésticas e civis. O verdadeiro e único exemplo é só o de Cristo hoje, como Mestre Rei, e como Mestre Pai: Stetit in media discipulortun. Ouvi uma grande máxima política e econômica tirada do mesmo texto. O príncipe é senhor da república, o pai é senhor da casa, mas nem o príncipe nem o pai é senhor da sua inclinação: In medio.

Todas as coisas deste mundo têm a sua inclinação natural: só uma há que não tem inclinação. E qual é? O centro. Todas as partes do universo propendem, carregam e inclinam para o centro; só o centro, que está no meio de todas, não inclina para parte alguma. E por que razão? Porque, se o centro inclinasse a uma ou a outra parte, no mesmo ponto se arruinaria toda a máquina do mundo: Fundasti terram super stabilitatem suam, non inclinabitur in saeculum saeculi (SI. 103, 5): Fundou Deus a terra — diz o profeta — sobre a sua própria estabilidade, a qual nunca se inclinou, nem inclinará jamais. — E que fundamento da terra é este tão estável e firme, que nem se inclina nem se há de inclinar? Não há dúvida que é o centro: Super stabilitatem suam, videlicet supra centrum ipsius, quoniam omnes partes terrae naturaliter tendunt in centrum[23] — comenta, com Aristóteles, Dionísio Cartusiano. — De maneira que todas as partes do universo se inclinam ao centro, e o centro a nenhuma delas se inclina, porque está no meio: In medio. Grande documento da natureza para as inclinações das vontades superiores. Quereis levar após vós as inclinações de todos? Não vos inclineis a nenhum. Porque o centro posto no meio não tem inclinação a nenhuma das partes, por isso todas as partes do universo se inclinam concordemente ao centro, e com a mesma inclinação e com a mesma concórdia se unem entre si e se conservam em paz.

Agora entendereis o próprio sentimento de um texto muito comum, mas não pouco difícil: Domini sunt cardines terrae, et posuit super eos orbem[24]. — Quer dizer que Deus assentou e estabeleceu o mundo sobre os centros da terra. — Essa é a significação da palavra cardines, como se lê no original hebreu. e aqui está a dificuldade. A terra não tem nem pode ter mais que um centro, e em ser um só consiste toda a sua firmeza: como diz logo a Escritura que Deus pôs e estabeleceu o mundo sobre os centros da terra? Porque fala do mundo político com alusão ao mundo natural. O mundo natural tem um só centro, o mundo político tem muitos centros. O centro do mundo natural é o meio da terra; os centros do mundo político, são todos os que têm o mando e governo do mesmo mundo, ou de suas partes, diz S. Jerônimo. Dentro deste orbe político há muitos círculos, maiores ou menores, e cada um tem o seu centro. Os círculos maiores são os reinos, e o centro do reino é o príncipe; os círculos menores são as cidades, e o centro da cidade é o magistrado; os círculos mínimos são as famílias, e o centro da família é o pai. Estes são, pois, os centros muitos e vários, sobre os quais Deus estabeleceu este orbe racional do mundopolítico: Domini sunt cardines terrae, et posuit super eos orbem. — E que se segue daqui? Segue-se que para cada um destes centros se conservar dentro da sua esfera, e para a conservar a ela em paz e concórdia, é necessário que se ponha como verdadeiro centro no meio, e se mantenha e sustente na indiferença deste equilíbrio, sem inclinação a uma nem a outra parte: In médio.

Aos reis de Israel dizia Deus falando com cada um: Nec declinabis ad dexteram, neque ad sinistram[25]. — Eu vos fiz rei, eu vos fiz governador, eu vos fiz pai do meu povo: pelo que adverti que o inclinar em vós é declinar, e assim vos deveis portar de maneira que nem inclineis para uma parte nem para outra, nem para a esquerda, nem para a direita. Nesta última palavra está a minha dúvida: Neque ad dexteram. Que o príncipe não incline para a parte esquerda, que é a pior parte, bem está; mas, para a direita, por que não? A parte direita não é a melhor? Sim. Pois, por que não quer Deus que o príncipe se incline nem à melhor parte? Porque melhor é não inclinar que inclinar ao melhor. Declarar-me-ei coam um exemplo doméstico. Um dos companheiros de nosso padre Santo Inácio, e que depois lhe sucedeu no generalato, foi o mestre Laines; e querendo o santo empregar este grande talento, que era o mais eminente de todos — como bem se viu, sendo teólogo do Papa no Concílio Tridentino — naquele exercício que fosse mais conforme à sua inclinação, perguntou-lhe a que se inclinava? E que responderia Laines? — Inclino-me a não me inclinar. — Este é o verdadeiro ditame de um perfeito superior. Inclinar-se a não te inclinação: Non declinabis ad de.xteram, neque ad sinistram. — Porque inclinar-se a uma parte, qualquer que seja, é faltar ao equilíbrio da igualdade, e, com a desigualdade, perder a união, perder a paz, perder a concórdia perder e perturbar tudo. E assim seria na família ou na república, se se movesse o centro, se se deixasse o meio e se se inclinasse a cabeça: Stetit in medio — não só no meio — in medio — mas no meio sem inclinação — stetit.

No corpo natural bem se pode inclinar a cabeça sem movimento nem mudança do corpo; no corpo político não pede. Vede uma grande figura no meio do mundo, que foi o monte Calvário: Operatus est saltitem in medio ter — O mesmo Cristo que, ressuscitado, stetit in medio, morrendo, inclinou a cabeça: Inclinato capite (Jo. 19, 30)[26]. — E que aconteceu no mesmo ponto? Et ecce velum templiscissum est in duas partes; et terra mota est, et petrae scissae sunt, et monumenta aperta sunt; et multa torpora sanctorum, qui dormierant, surrexerunt[27]. — Inclinou-se urna cabeça coroada, inclinou-se uma cabeça que tinha escrito em cima o título de rei: Inclinato capite? Et ecce: e o que no mesmo ponto se seguiu a esta inclinação foram terremotos, divisões, inquietações, tumultos; tudo perturbado, tudo descomposto, tudo alterado e desunido.Até as pedras insensíveis se quebraram de dor: Petrae scissae sun!; até no mais sagrado houve divisões e roturas: Velum templi scissum est; até as sepulturas se abriram: monumenta aperta sunt — porque em semelhantes casos muitas coisas que estavam sepultadas no esquecimento se desenterram, e, em despeito dos vivos, saem outra vez à luz do mundo, e ressuscitam os mortos: et multa corpora, quae dormierant, surrexerunt. — E para que se veja que este é o mistério da figura, ouçamos a Davi, que maravilhosamente o reduz à prática: Deus stetit insynagoga deorum, in medio autem deos dijudicat[28]. dos que governam o mundo, para os julgar. E que lhes disse? O que eu acabo de dizer: Usquequo judicatis iniquitatem, et faties peccatorum sumitis[29]? — Até quando haveis de julgar com desigualdade? Até quando haveis de fazer exceção de pessoa, inclinando-vos mais a uma que a outra? Nescierunt, neque intellexerunt; movebuntur omnia fundamenta terrae[30]. — Ora, para que vejais quão ignorante e erradamente procedeis, olhai para as conseqüências e efeitos desta vossa desigualdade. Seguir-se-ão delas inquietações, seguir-se-ão discórdias, seguir-se-ão ruínas, e toda a terra, perdida a firmeza do centro, se revolverá de baixo para cima: Movebuntur omnia fundamenta terrae.

VI – A igualdade de Cristo, e a igualdade e justiça do sol. Razões e fundamentos da pergunta dos discípulos sobre quem deles seria o maior Se Cristo pôde dar doze cadeiras a seus apóstolos, por que não pode dar duas cadeiras aos filhos de Zebedeu. A maior potência do poder de Cristo: Ser impotente para fazer qualquer desigualdade. O gomor, medida certa de igualdade.

Pelo que, senhores meus, se quereis quietação, se quereis paz, igualdade, e igualdade reta, sem inclinação a nenhuma das partes, como a de Cristo hoje posto em meio dos discípulos: Stetit in medio discipulorum. Os discípulos faziam a circunferência, Cristo estava no centro, e as linhas do amor e do favor corriam com a mesma proporção, com a mesma medida e com a mesma igualdade, tanto para cada um como para todos, e tanto para todos como para cada um. Por isso profetizou Malaquias que a justiça e igualdade de Cristo havia de ser como a igualdade e justiça do sol: Orietur vobis sol justitiae [31]. — Em todo o criado se não podia achar melhor nem mais apropriada semelhança. Santo Ambrósio: Sol a nullo distat, nulli praesentior; nulli absentior est. — Se S. Pedro, como grande piloto, tomasse os dois instrumentos da sua arte, em uma mão o compasso e na outra o astrolábio, com o compasso medindo as distancias de Cristo aos discípulos, havia de achar que de nenhum distava mais nem menos: Sol a nullo distat — e com o astrolábio tomando as alturas, havia de achar igualmente que de nenhum estava mais perto com a presença nem mais longe com a ausência: Nulli praesentior, nulli absentior est. — Notou com aguda advertência Teofilato que, quando a lua está no zênite, se olhamos para ela, cada um cuida que está sobre a sua casa: Tu supra domum tuam vides lunam, ego eamdem video supra domum meam, et unicuique videtur stare non nisi supra domum suam. — Muito melhor e mais claramente podem fazer esta mesma experiência no sol todos os que me ouvem quando daqui saírem. Se sois um grão-senhor, e olhardes para o sol, haveis de cuidar que está sobre o vosso palácio; se sois um religioso, que está sobre o vosso convento; se sois um artífice, que está sobre a vossa oficina; se sois um pastor, que está sobre a vossa choupana; e nenhum há, ou tão grande ou tão pequeno, que não haja de ter para si que o sol olha particularmente para a sua casa: Unicuique videtur stare non nisi supra domum suam.

Esta é a igualdade com que o sol nos alumia e aquenta. E vede como a mesma observou Cristo com seus discípulos, e como cada um deles cuidava que era o que melhor lugar tinha na sua estimação e no seu agrado. Pouco antes do dia da Paixão declarou o Senhor a seus discípulos que ia a Jerusalém a morrer. E no mesmo ponto: Facto est contentio inter eos, quis eorum videretur esse major: (Lc. 22, 24): o nosso Mestre vai morrer: e qual de nós é o maior, qual de nós lhe sucederá no messiado? — Não me admira a questão e ambição dela, porque ainda o Espírito Santo não tinha descido sobre os apóstolos, o que me assombra e faz pasmar é que cada um cuidasse e se persuadisse que era ou podia ser ele o maior. Ao menos a promessa feita a S. Pedro em presença de todos, a todos era manifesta: como, logo, estava ainda a maioria em opiniões, e cada um cuidava que fosse sua? Pedro ainda não tinha negado, que podia ser um bom motivo da exclusiva; que fundamento, pois, e que razão podia ter cada um para se opor a esta demanda: Quis eorum videretur esse major? — A razão foi, diz S. Fulgêncio, porque era tal a igualdade com que Cristo tratava a todos os discípulos, era tão exata e circunspecta a medida com que o Senhor repartia entre eles e temperava as demonstrações do seu afeto, que cada um se persuadia ser ele o que tinha o primeiro lugar no conceito e estimação de seu Mestre. E bem se viu que esta confiança era igual em todos e em cada um, porque todos concordaram em que a demanda se levasse ao tribunal do mesmo Cristo: Quis putas major est in regno caelorum[32]? — Mas o Senhor não quis sentenciar nem decidir a dúvida, e deixou ficar a cada um na sua opinião, para não faltar ao respeito da sua inalterável igualdade, e para que a preferência declarada de um não rompesse a paz e concórdia de todos: Hoc autem semper agebat Dominas, non impotens potestate, sed sapiens aequitate, ut nulli animum discipulorum humanun incitares ad zelum.

Assim o diz S. Fulgêncio, e confirma o seu dito com uma excelente reflexão. Pediram os dois filhos do Zebedeu as duas cadeiras, e respondeu Cristo: Non est meum dare vobis[33]. — Perguntou Pedro ao mesmo Senhor: Quid ergo erit nobis[34]? — E respondeu: Sedebitis super sedes duodecim, judicantes duodecim tribus Israel [35] — E como assim? — replica argutamente o mesmo santo padre: Qui promisit duodecim thronos, duos thronos in suam non habet potestatem? Cristo diz que não pode dar duas cadeiras, e dá doze cadeiras? Se pode dar doze, por que não pode dar duas? — Por isso mesmo. Porque, sendo doze os seus discípulos, dar a dois, e não a dez, não era igualdade. Posso dar a todos, a dois não posso dar. E esta é a maior potência do meu poder: ser impotente para fazer qualquer desigualdade. E por quê? Por manter a concórdia e a paz entre os discípulos, conclui admiravelmente Fulgêncio: Respondet aequaliter, et non separanter; sedebitis super sedes duodecim, qui vult discípulos semper esse concordes. Dando doze cadeiras, contentava e concordava a todos doze: dando somente duas, contentava a dois, e descontentava e desconcordava a dez; e quis observar inviolavelmente a igualdade, para conservar inalteravelmente a paz e a concórdia: Qui vult discipulos semper esse concordes.

Esta é a igualdade que Cristo observava para conservar a paz, a qual devem imitar todos aqueles que ou política ou economicamente têm obrigação de procurar uma e outra. E se quereis uma medida certa da mesma igualdade, eu vo-la darei, para que cada um a possa levar para casa. E que medida é esta? O gomor.

Quando antigamente caía o maná do céu, saíam todos ao campo a recolher cada um a sua porção. Eram mais de dois milhões de pessoas, grandes e pequenos: e que fez Deus para evitar o tumulto da cobiça, da inveja e da violência, e conservar em paz e concórdia aquela imensa multidão? Fez uma medida chamada gomor, a qual maravilhosamente tinha tal propriedade, que os que colhiam muito e os que colhiam pouco tanto levava um como o outro. E como nem a cobiça, nem a diligência, nem o afeto, nem o favor podia desigualar a medida nem avantajar uns aos outros, todos saíam e tornavam concordes, e todos viviam e se sustentavam em paz. Esta, pois, senhores, seja por último documento a certa e inviolável medida, ou da vossa política para a república, ou da vossa economia para a família. Não o amor, não o favor, não o terror, mas o gomor. O amor causa ciúmes, o favor invejas, o terror ódio e aborrecimentos, e só o gomor, porque é igual para todos — como Cristo em meio dos discípulos — nos pode dar paz: Stetit in mediu discipulorum, et dixit eis: Pax vobis.

VII – Se acaso faltar a igualdade, que remédio há da parte dos súditos, para não perderem e se conservarem em paz? As duas coisas que tomou sobre si Cristo quando quis ser cravado na cruz: a nossa saúde e a nossa paz. A paciência, verdadeira doutrina da paz. A verdadeira etimologia da paciência.

Temos visto que para se conseguir e conservar a paz, ou pública ou doméstica, o meio mais fácil e eficaz da parte dos superiores é a igualdade com todos, como a de Cristo posto em meio dos discípulos: Stetit Jesus in mediu discipulorum suorum. — Mas se acaso faltar esta igualdade, — como talvez pode faltar, não só injusta e desordenadamente, senão por causas muito justas e justificadas que remédio da parte dos súditos para não perderem, e se conservarem em paz? O remédio, não menos provado, posto que não tão fácil, é a paciência. Assim o ensinou e demonstrou o divino Mestre aos mesmos discípulos, quando, anunciando-lhes a paz, lhes mostrou as suas chagas: Dixit eis: Pax vobis — et ostendit eis manus et pedes[36].

Com as mesmas mãos e com os mesmos pés pregados na cruz viu Isaías a Cristo quando exclamou, dizendo: Disciplina pacis nostrae supor eum, et livore ejus sanati sumus[37]. — Nestas palavras descobriu e manifestou o profeta um novo e segundo mistério da Paixão e chagas do Redentor, até agora oculto, e ignorado de muitos. Cuidamos que padeceu o Filho de Deus pregado em uma cruz só para nos salvar, e não foi um só o fim, nem um só o efeito de sua Paixão, senão dois: um para nos salvar, e outro para nos ensinar. Para nos sarar, porque o preço das suas chagas foi o remédio da nossa saúde: Livore ejus sanati sumus. — E para nos ensinar, por quê? Aqui está o nosso ponto. Porque o exemplo da sua paciência foi a doutrina da nossa paz: Disciplina pacis nostrac super eum. Notai o super eum. — De sorte que, duas coisas tomou sobre si Cristo quando quis ser cravado na cruz: a nossa saúde e a nossa paz. A nossa saúde, porque com as suas chagas sarou as nossas: Livore ejus sanati sumus — e a nossa paz, porque com o sofrimento das mesmas chagas nos ensinou que a paciência é a verdadeira doutrina da paz, se a quisermos fazer nossa: Disciplina pacis nostrae. — Um e outro efeito resumiu no seu cântico Zacarias, depois de Cristo estar já no mundo. O da saúde: Ad dandam scientiam salutis plebi ejus[38], que é: Livore ejus sanati sumus; e o da paz: Ad dirigendos pedes nostros in viam pacis [39], que é: Disciplina pacis nostrae super eum. — Quereis ouvir a verdadeira etimologia ou breve definição da paciência? Patentia, pacis scientia[40]. Por isso o profeta lhe chamou disciplina, isto é, doctrina pacis, e por isso o divino Mestre, quando disse aos discípulos pax vobis, lhes mostrou esta mesma ciência, não só escrita e rubricada com o sangue das suas chagas, mas as mesmas chagas impressas e entalhadas nas mãos e nos pés: Ostendit eis manus et pedes.

VIII – Que efeitos causa ou pode causar na paz dos súditos a desigualdade tomada impacientemente. As causas da rebelião dos anjos, e da impaciência e Raiva de Caim. O que não desfaz a desigualdade se aceita com paciência. A maior desigualdade que obrou Deus, e a maior que cometeram os homens.

Saia agora a desigualdade dos superiores, ou justa ou injusta, e vejamos efeitos causa e pode causar na paz dos súditos. Se a desigualdade os achar desardos da paciência, não há dúvida que causará guerra, e cruel guerra; mas, se a paciência os armar e fortalecer contra os golpes da mesma desigualdade, nenhuma será tão forte que possa alterar e descompor neles a firme e segura paz.

Para prova da primeira parte destes efeitos, tremenda e funestíssima, ponhamo-nos dentro do céu, e às portas de paraíso, e vê-los-emos com horror. Revelou Deus aos anjos que se havia de fazer homem. E que movimentos vos parece que excitaria no conceito e estimação dos espíritos angélicos esta inopinada notícia? Porventura romperam todos em louvores da bondade divina, cantando-lhe hinos, e celebrando com panegíricos um tão admirável excesso de sua misericórdia? Nada menos: antes, parecendo-lhes excessiva desigualdade a muitos, logo começaram a revolver no pensamento o que depois ponderou S. Paulo, quando disse: Nusquam angelos apprehendit, sed semen Abrahae apprehendit[41]. — É possível que em nenhuma parte das nossas jerarquias — que isso quer dizer nusquam — achou Deus outra natureza a que unir sua divindade, senão à humana? É possível que há de deixar os anjos, os arcanjos, as virtudes, as potestades, as dominações, os principados, os tronos, os querubins e os serafins, e que o homem feito de barro há de ser Deus? Aqui foi a ira, o furor, a raiva. E como não tiveram paciência para sofrer esta desigualdade, posto que a preferência lhes não era devida, ela foi a que descompôs a quieta e inocente paz em que foram criados, ela a que meteu no empíreo e introduziu no mundo a primeira guerra: Factum est praeliuun magnum in caelo[42] — ela a que desacordou a harmonia de’ todos os coros angélicos, e ela a que, com ruína da terceira parte de todas as jerarquias, deu princípio ao inferno dentro no mesmo céu.

Mas passemos do céu à terra. Não havia na terra mais que dois homens, filhos ambos, e os primeiros filhos do mesmo pai e da mesma mãe, Caim raiva de Caim. O que não desfaz a desigualdade se aceita com paciência. A maior desigualdade que obrou Deus, e a maior que cometeram os homens.

Saia agora a desigualdade dos superiores, ou justa ou injusta, e vejamos que efeitos causa e pode causar na paz dos súditos. Se a desigualdade os achar desarmados da paciência, não há dúvida que causará guerra, e cruel guerra; mas, se a paciência os armar e fortalecer contra os golpes da mesma desigualdade, nenhuma haverá tão forte que possa alterar e descompor neles a firme e segura paz.

Isto é o que faz a desigualdade tomada impacientemente: vejamos agora o que não desfaz, se se aceita com paciência. Tomada sem paciência, faz e é causa de guerras, e tão cruéis como as que vimos; aceitada com paciência, não desfaz, nem altera, nem descompõe a paz, antes a conserva mais gloriosa. E se aqueles exemplos foram de anjos e homens, este será de mais que homens e mais que anjos, e na maior desigualdade que nunca viu nem verá o mundo. Qual foi a maior desigualdade que jamais obrou Deus; e qual a maior que cometeram os homens? A maior desigualdade que obrou nem podia obrar Deus foi dar seu Filho pela redenção do homem. Vender o Filho para resgatar o escravo! Condenar a inocência para absolver a culpa! Morrer o imortal para ressuscitar o morto! Deixar quebrar e perder os diamantes para reparar o barro! Enfim, padecer o Criador para que a criatura vil não padeça! Esta foi a maior desigualdade que obrou nem podia obrar Deus. E a maior que cometeram os homens, qual foi? Venderem esse mesmo Filho, tirarem a vida a esse mesmo Filho, e pregarem esse mesmo Filho com quatro cravos e uma cruz. Ainda teve outra circunstância de maior desigualdade este mesmo excesso. Concorre Cristo com Barrabás para ser, um condenado, outro absolto: Barrabás o ladrão, o sedicioso, o homicida, o mais insigne malfeitor de todos os que as enxovias de Jerusalém tinham em ferros e sai por aclamação absolto Barrabás, e condenado Cristo. Ó bárbara, á desumana, ó horrenda, ó sacrílega, ó infernal desigualdade! A de Deus mais que admirável por excesso de misericórdia, e a dos homens mais que abominável por último extremo de injustiça e crueldade! E sujeito ou oprimido destas duas desigualdades, e levando-as ambas aos ombros debaixo de um madeiro infame, porventura perdeu aquele homem, Deus e homem, o título de Príncipe da paz, que lhe deram os profetas: Princeps pacis (Is. 9, 6)? Porventura descompôs a harmonia daquela paz que lhe cantaram os anjos no nascimento: Et in terra pax hominibus[43]? — Porventura revogou ou fez litigiosa a paz que deixou em testamento a seus discípulos: Parem relinquo vobis, parem meam do vobis[44]? — Tão fora esteve de se alterar no seu ânimo pela desigualdade do decreto de Deus a paz com Deus, ou pela desigualdade da sentença dos homens a paz com os homens, que antes ele mesmo com os cravos, que lhe romperam as mãos e pés, rasgou os assinados da guerra, e os pregou na sua cruz, como diz S. Paulo: Detens quod adversus nos erat chirographum derreti, ipsum tulit de mediu, affigens illud cruci[45] — e com o sangue que manou de suas chagas firmou as escrituras da paz, pacificando-nos com os homens na terra e com Deus no céu, como também, diz o mesmo apóstolo: Pacificans per sanguinem crucis ejus, sive quae in terris, sive quae in caelis sunt[46]. — E por isso, quando hoje anunciou a paz aos discípulos, dizendo pax vobis, lhes mostrou juntamente as chagas, com cuja paciência a tinha merecido e ganhado: Ostencdit eis manus et pedes.

IX – Se o divino Mestre, nos pés, nas mãos e nas chagas abertas a ferro tocava a arma e publicava guerra a seus discípulos, como nas palavras brandas e amorosas lhes anuncia juntamente a paz? A paz na filosofia de Aristóteles e na filosofia de Cristo. De que modo conservava Davi a paz com aqueles que não queriam paz? Por que chamou Davi a Absalão paz de seu pai? A paz direita e reflexa, e a paz simples e recíproca. A paz de Cristo e a paz do mundo. Oração.

Já a segunda parte do meu argumento se dera por satisfeita com o que tem demonstrado até aqui, se contra esta mesma que chamei demonstração se não opusera uma tal dificuldade, que mais parece implicância que dúvida. Quando Cristo disse aos discípulos pax vobis, é certo que não só lhes anunciou a paz, mas também lha deu com efeito. Assim mesmo, quando lhes mostrou as chagas, não só foi para que as vissem, senão também para que as imitassem, e soubessem que o meio de conseguirem a paz era a paciência de semelhantes injúrias. Finalmente, de uma e outra coisa se concluía que também eles haviam de ter os seus Anases, os seus Caifases e os seus Pilatos na sua inocência, que mandassem executar aquelas injustiças e crueldades. Tudo isto era o que dizia de palavra aquela paz, e o que mostravam por obra aquelas chagas: e assim foi. Porque S. Pedro teve contra si a Nero, S. Tiago a Herodes, S. João a Domiciano, e todos tiveram os seus tiranos, que a uns pregaram na cruz, a outros cortaram a cabeça, a outros despiram a pele, e a todos derramaram cruelmente o sangue, e com esquisitos tormentos tiraram a vida. Pois, se o divino Mestre, nos pés, nas mãos, e nas chagas abertas a ferro tocava a arma e publicava guerra a seus discípulos, como nas palavras brandas e amorosas lhes anuncia juntamente a paz: Pax vobis?

Apertemos mais a dúvida, para que, reduzida a todo o rigor da filosofia, fique mais clara. A paz é uma concórdia recíproca e relativa; e tudo aquilo que é recíproco e relativo, em faltando e se perdendo de uma parte, necessariamente falta e se perde também da outra. Assim o ensina Aristóteles, e se demonstra facilmente com dois exemplos vulgares: o da amizade e o do parentesco. A amizade é amor mútuo e recíproco entre dois amigos, e se um só deixa de ser amigo, acabou-se a amizade. No parentesco, o pai é reciprocamente relativo ao filho. e o filho ao pai; e basta que falte só o pai, ou só o filho, para que a relação daquele parentesco se acabe. Do mesmo modo a paz é concórdia mútua, recíproca e relativa: logo, se de uma parte está a guerra, parece que da outra não pode estar nem conservar-se a paz? Respondo que assim é na filosofia de Aristóteles; mas na de Cristo não. Na filosofia de Cristo pode estar e conservar-se a relação de uma parte, ainda que falte e se perca da outra. Provo com os mesmos exemplos. Entre Cristo e Judas havia amizade, como entre o mesmo Senhor e os outros apóstolos. Da parte de Judas faltou a amizade; e da parte de Cristo? Não faltou. Amice, ad quid venisti[47]? — Amigo lhe chama, quando já era inimigo; amigo, quando era traidor; amigo, quando lhe fazia tão cruel guerra. Não porque judas naquele tempo fosse amigo, mas porque Cristo ainda o era. Interioris amicitiae non immemor, diz S. Bernardo. Vamos ao pai e ao filho. O Filho Pródigo, depois de perdido, estudando consigo o que havia de alegar, ao pai dizia: Pater, peccavi in caelum et coram te: jam non sum dignus vocari filius tuus[48]. — Pois, se o Pródigo conhecia e confessava que já não era filho, como chama contudo pai ao pai: pater? Porque da parte do filho se tinha perdido a relação e denominação de filho, mas da parte do pai não se perdeu contudo a relação e denominação de pai. S. Pedro Crisólogo: Ego perdidi quod filii est, tu quod patris est non amisisti.

Do mesmo modo digo que se pode conservar a paz de uma parte posto que falte e se perca da outra. E no caso ainda mais apertado, em que da parte oposta esteja a guerra, da nossa lhe pode responder a paz. Quereis a prova evidente? Em duas palavras Cum his qui oderunt pacem eram pacificas (SI. 119, 7): Eu — diz Davi, já em profecia cristã — eu tinha paz com aqueles que não queriam paz. — E de que modo, rei santo? De que modo conservam Davi a paz com aqueles que não queriam paz, senão guerra? Por meio da paciência, como Sagradas sabem que os patriarcas e profetas antigas os nomes que punham a seus filhos eram profecias do que eles haviam de ser, e uma como breve história das ações e sucessos de sua vida. Vejamos agora qual foi a de Absalão. Absalão se rebelou contra seu pai; Absalão conjurou contra ele todos seus vassalos; Absalão lhe tirou a coroa da cabeça; Absalão, com todo o poder de Israel posto em campanha, lhe fez cruelíssima guerra. Chame-se logo Absalão guerra, e não paz de seu pai. Pois, se Davi era profeta, e o maior de todos os profetas, como trocou a significação ao nome e os futuros à profecia, e em vez de chamar a um tal filho guerra de seu pai lhe chamou paz de seu pai: Paz patris? Porque, se da parte do filho estava a guerra, da parte do pai se conservava contudo a paz; e tanto mais admirável era a paz do bom pai quanto mais abominável a guerra do mal filho. A guerra do filho dizia aos seus soldados: Matai-me a Davi — e a paz de Davi dizia aos seus: Guardai-me a Absalão: Serrote mihi puerum Absalom (2 Rs. 18, 5). — A guerra de Absalão dizia: Para que reine Absalão, morra Davi — e a paz de Davi dizia: Morra antes Davi, para que viva Absalão: Fili mi Absalom, quis mihi tribuat ut ego moriar pro te[49]?

Esta é a filosofia de Cristo, e desta sorte, por excesso de paciência, se conserva maravilhosamente de uma só parte a relação da paz, faltando da outra: Cum his qui oderunt pacem eram pacificus[50]. – Oh! grande maravilha! Oh milagre estupendo da virtude cristã sobre todas as leis e forças da natureza! Uma concórdia discorde e uma discórdia concordante: de uma parte olhando a guerra torvamente para a paz, e da outra vendo e revendo-se a paz placidamente na guerra? E que seria se eu dissesse que é tal o poder da paz paciente, que ainda neste caso, em que não é correspondida, conserva contudo o seu natural ser recíproco e relativo? Assim o digo, e o provo. Dêem-me atenção os filósofos. Quando a paz se acha só de uma parte, e se vê da outra sem correspondência, ela mesma se corresponde de uma e da outra parte. Mas de que modo? Própria ejustamente como as outras relações recíprocas. De uma parte vai a paz diretamente do princípio ao termo, e da outra torna reflexamente do termo ao princípio. Não é proposição ou invento meu, mas teorema e advertência sutilíssima do mesmo Cristo a seus discípulos: In quamcumque domum intraveritis dicite: pax huic domui; et si ibi fuerit filius pacis, requiescet super ilium pax vestra: sin autem, ad vos revertetur[51]: Quando entrardes em qualquer casa, dizei: paz seja nesta casa; e se o morador dela não for filho da paz, e a não quiser receber, a vossa paz tornará outra vez para vós. Vede agora em uma só paz a paz direita e reflexa, e a paz simples e juntamente recíproca: Dicite: pax huic domui: eis aqui a paz direita, que vai de vós para os outros; e se eles a não quiserem aceitar: Pox vestra ad vos revertetur: eis aqui a paz reflexa, que torna deles para vós outra vez. E pára aqui a maravilha? Não. Porque a mesma paz com esta tendência e com esta reflexão, reciprocando-se dentro em si mesma, se multiplica e se dobra. Assim como o raio do sol, se topa com um corpo opaco, reflete outra vez para o sol, e se dobra e estende mais, assim a paz, se encontra um peito duro e obstinado, não se acaba por isso, mas reflete e não pára, mas se dobra, fazendo-se mais intensa ria mesma reflexão: Pax vestra ad vos revertetur:

Ouçamos o comento de S. Bruno sobre as mesmas palavras, que agudissimamente descobre nelas nova elegância e mistério: Pax vestra — diz revertetur ad vos, guia foeta et duplicata revertetur. — Já consideramos que a paz, que na primeira tendência vai uma e singela, torna na reflexão multiplicada e dobrada. Mas por que nota o santo que não só torna dobrada, mas prenhe e fecunda: Foeta et multiplicata? Porque alude à frase de que usou Cristo: Si ibi non fuerit filius pacis: se o morador da casa não for filho da paz. — A correspondência recíproca de quem oferece a paz é filha da mesma paz, porque dela nasce. Diz, pois, Cristo aos discípulos, que se oferecerem a paz a quem não for filho da paz, nem por isso se desconsolem, entendendo que a sua paz foi estéril e infecunda, porque quando a sua paz não achar filhos da paz que lhe correspondam, a mesma paz os conceberá e parirá: Foeta et multiplicata — multiplicando-se na reflexão dentro em e correspondendo-se a si mesma. É esta paz como a fênix, mãe e filha de si mesma, mas mãe e filha que ambas vivem e perseveram: a mãe como paz, a filha como correspondência. E para que não fique mistério algum por advertir neste grande texto, notai que quando Cristo diz que a paz encontrada e não admitida, oferecida e repudiada, tornará outra vez para eles: revert etur ad vos — então, e não antes, lhe chama paz sua: pax vestra — por que só neste caso é a paz verdadeiramente nossa, e toda nossa. Quando a paz é correspondida, divide-se a paz e divide-se o merecimento, porque a paz de uma parte é nossa, e de outra parte é alheia. Mas quando a paz não tem correspondência, toda a paz é nossa, porque é nossa de uma e de outra parte, quando direita e quando reflexa, quando oferecida e quando rejeitada, quando vai e quando torna: Pax vestra revertetur ad vos.

Tal e tão maravilhosa é a paz que Cristo hoje deu aos discípulos de sua escola, e esta é a ênfase daquele vobis. Vobis: a vós, e não aos demais; vobis: a vós, que sois meus discípulos e sereis meu imitadores. E por isso, quando lhes prometeu e deixou em testamento a mesma paz, lhes declarou, com repetida expressão de diferença, que era a sua, e como sua, e não como a do mundo: Pacem relinquo vobis, pacem meam do vobis: non quomodo mundus dat, ego do vobis[52]. — E se perguntarmos em que consiste esta diferença de paz a paz, e em que se distingue a paz de Cristo da paz do mundo, S. Agostinho e S. Gregório Papa respondem geralmente que a paz do mundo é vã, a paz de Cristo sólida; a paz do mundo falsa, a paz de Cristo verdadeira; a paz do mundo temporal e breve, a paz de Cristo permanente e eterna. Mais disse o mesmo Cristo. À sua paz chamou duas vezes paz: Pacem relinquo vobis, pacem meam do vobis — e a do mundo nem uma só vez chamou paz: Non quomodo mundus dat, ego do vobis — porque a paz de Cristo é paz, e a do mundo não é paz. É ode que argüiu Deus antigamente aos falsos profetas: Dicentes: pax et non est pax (Ez. 13, 10): Dizem e enchem a boca de paz, e não há tal paz no mundo. — E se não, quem há tão cego que não veja o mesmo hoje em toda a parte? Dizem que há paz nos reinos, e os vassalos não obedecem aos reis; dizem que há paz nas cidades, e os súditos não obedecem aos magistrados; dizem que há paz nas famílias, e os filhos não obedecem aos pais; dizem que há paz nos particulares, e cada um tem dentro em si mesmo a maior e a pior guerra. Havia de mandar a razão, e o racional não lhe obedece, porque nele e sobre ela domina o apetite.

_________
[1] Apresentou-se Jesus no meio de seus discípulos, e disse-lhes: Paz seja convosco. E dizendo mostrou-lhe as mãos e os pés (Lc. 24, 36, 40).
[2] A pomba voltou sobre a tarde trazendo no seu bico um ramo de oliveira (Gên. 8, 11).
[3] Não há paz para os ímpios (Is. 57, 21).
[4] Presentou-se no meio de seus discípulos, mostrou-lhes as mãos e os pés, e disse-lhes: Paz seja convosco (Lc. 24, 36. 40).
[5] Não temais (Lc. 24, 36).
[6] Por que estais vós turbados (ibid. 38)?
[7] Tendes aqui alguma coisa que se coma (ibid. 41)?
[8] Deu a eles os sobejos (Ibid. 43).
[9] Apalpai, e vede (ibid. 39)
[10] Visão de paz.
[11] O que estabeleceu a paz nos teus limites (SI. 14)
[12] Vara de igualdade é a vara teu reino (SI. 44. 7).
[13] Amaste a justiça, e aborreceste a iniqüidade (ibid. 8).
[14] Ó Deus, dá o teu juízo ao rei, e a tua justiça ao filho do rei (SI. 71, 2).
[15] O qual faz nascer o seu sol sobre bons e maus, e vir chuva sobre justos e injustos (Mt. 5, 45).
[16] Recebam os montes paz para o povo, e os outeiros justiça (SI. 71, 3).
[17] Nos dias dele aparecerá justiça e abundância de paz (ibid. 7).
[18] Não conheceram o caminho da paz (SI. 13. 3).
[19] Vara de igualdade é a vara do teu reino (SI. 44, 7).
[20] Vendo seus irmãos que era amado por seu pai mais que todos os filhos, aborreciam-no, e não lhe podiam falar com bom modo (Gen. 37. 4).
[21] A minha vida me é fastidiosa (Gên. 27, 46).
[22] Iguale o amor os que igualou a natureza (S. Ambr.).
[23] Sobre a sua estabilidade, isto é, sobre o seu centro, porque todas as partes da terra tendem naturalmente para o centro (Dion Cart.).
[24] Do Senhor, pois, são os pólos da terra, e sobre eles pôs o mundo (1 Rs. 2, 8).
[25] Sem declinares para a direita nem para a esquerda (Dt. 17, 11).
[26] Apareceu Deus no meio Obrou a salvação no meio da terra (SI. 73, 12).
[27] E eis que se rasgou o véu do templo em duas partes; e tremeu a terra, e partiram-se as pedras, e abriram-se as sepulturas; e muitos corpos de santos, que eram mortos. ressurgiram (Mt. 27, 51 5).
[28] Deus assistiu sempre no conselho dos deuses; no meio deles julga os mesmos deuses (SI. 81, 1).
[29] Até quando julgareis injustamente, e tereis respeito às faces dos pecadores (ibid. 2)?
[30] Não souberam, nem entenderam; serão abalados todos os fundamentos da terra (ibid. 5).
[31] Nascerá para vós o sol da justiça (Mal. 4, 2).
[32] Quem julgas tu que é maior no reino dos céus (Mt. 18, 1)?
[33] Não me pertence a mim o dar-vo-lo (Mt. 20, 23).
[34] Que galardão pois será o nosso (Mt. 19, 27)?
[35] Estareis sentados sobre doze tronos, e julgareis as doze tribos de Israel (ibid. 28).
[36] Disse-lhes: Paz seja convosco — e mostrou-lhes as mãos e os pés (Lc. 24, 36. 40).
[37] O castigo que nos devia trazer a paz caiu sobre ele, e nós fomos sarados pelas suas pisaduras (Is. 53, 5).
[38] Para se dar ao seu povo o conhecimento da salvação (Lc. 1, 77).
[39] Para dirigir os nossos pés no caminho da paz (ibid. 79).
[40] Paciência, ciência da paz.
[41] Porque ele em nenhum lugar tomou aos anjos, mas tomou a descendência de Abraão (Hebr. 2, 16).
[42] Houve no céu uma grande batalha (Apc. 12, 7).
[43] E paz na terra aos homens (Lc. 2, 14).
[44] A paz vos deixo, a minha paz vos dou (Jo. 14, 27).
[45] Cancelando a célula do decreto que havia contra nós. aboliu-a inteiramente, encravando-a na cruz (Col. 2, 14).
[46] Pacificando pelo sangue da sua cruz tanto o que está na terra como o que está no céu (Col. 1, 20).
[47] Amigo, a que vieste (Mt. 26, 50)?
[48] Pai, pequei contra o céu, e diante de ti; já não sou digno de ser chamado teu filho (Lc. 15,18 s).
[49] Absalão, meu filho, quem me dera que eu morrera por ti (2 Rs. 18, 33)?
[50] Com os que aborreciam a paz era pacífico (SI. 119, 7).
[51] Em qualquer casa aonde entrardes, dizei: Paz seja nesta casa; e se ali houver algum filho da paz, repousará sobre ele a vossa paz; e se não, ela tomará para vós (Lc. 10, 5 s).
[52] A paz vos deixo, a minha paz vos dou; eu não vo-la dou como a dá o mundo (Jo. 14, 27).

Fonte: https://www.literaturabrasileira.ufsc.br/documentos/?action=download&id=49812