Sermão da Ressurreição de Cristo Senhor Nosso

SERMÃO DA RESSURREIÇÃO DE CRISTO S. N.


Valde mane una sabbatorum, veniunt ad monumentum, orto jam sole[1],

I – Quem mais ama mais madruga.

Quem mais ama, mais madruga. Assim o fez nesta manhã o divino Amante, Cristo, continuando os desvelos do seu amor: e assim o devemos nós fazer todos os dias, para não faltar às correspondências do nosso. Nestas duas palavras tenho proposto tudo o que hei de dizer. E porque não hei de dizer graças, peçamos a graça. Ave Maria.

II – O amor, grande madrugador A natureza do amor e o sono. Qual das Marias madrugou mais na manhã da Ressurreição? Razões por que antecipou-se Cristo a buscar primeiro que todos a Madalena?

Quem mais ama, mais madruga. O amor nasce nos olhos, e quem o pintou com os olhos tapados devia de ser cego. Esse amor, quando muito, será o pintado; o amor vivo e o verdadeiro sempre está com os olhos abertos, porque sempre vela. Quem tirou o véu ao amor, esse lhe descobriu a cara, porque o mostrou desvelado. Não me estranheis o equívoco, que em manhã tão alegre e tão festiva, até os evangelistas o usaram, como logo vereis. Torno a dizer que é grande madrugador o amor, porque quem tem cuidados não dorme. A filosofia deste porquê não é menos que de Platão, a quem chamaram o divino: Inquieta res est amor; parum diligis, si multum quiesces: O amor é um espírito sempre inquieto, e quem aquieta muito, sinal é que ama pouco. — Vistes alguma hora quieta ou ardendo na cera, ou em outra matéria menos branda, uma labareda de fogo? Jamais. Sempre está inquieta, sempre sem sossegar, sempre tremendo, e não de frio. E porque o amor não sabe aquietar, por isso não pode dormir. Talvez adormecerão os sentidos; mas o amor sempre vela, porque sempre lhe faz sentinela o coração: Ego dormio, et cor meum vigilat[2]. — Um dos mais insignes amadores do mundo foi Jacó, E que dizia este famoso amador? Fugiebat somnus ab oculis meis (Gên, 31, Diz que fugia dos seus olhos o sono. — A campanha em que o amor e o sono se dão as batalhas são os olhos, e nos olhos de Jacó estava tão costumado o amor a ser vencedor, e o sono a ser vencido, que não se atrevia o sono a lhe acometer os olhos, antes fugia deles: Fugiebat somnus ab oculis meis. — E como o maior despertador dos sentidos e dos cuidados é o amor, cujas asas, e as do desejo, voam mais que as do tempo, daqui vem que para quem espera pela manhã as estrelas são vagarosas, os galos mudos, as horas eternas, a noite não acaba de acabar, e, por isso, como dizia, quem mais ama mais madruga.

Madrugaram hoje todas as Marias a ungir na sepultura o sagrado corpo: e qual madrugou mais? Para mim é conseqüência certa que a Madalena. A Madalena amava mais que todas: logo a Madalena madrugou mais que todas. E donde tiraremos a prova? Porventura por que todos os evangelistas nomeiam a Madalena em primeiro lugar, e S. João só a ela? Seja embora conjectura provável. Porventura por que só da Madalena se diz que chorou: Stabat ad monumentum foris, plorans[3]? — Melhor razão, porque o madrugar e o chorar é próprio da aurora, e nem o nome de aurora perderia na Madalena a formosura, nem as suas pérolas o preço. Porventura por que tornando-se as outras Marias, quando não acharam no sepulcro o corpo que iam ungir, só a Madalena, sem se apartar daquele sagrado lugar, perseverou nele? Muito melhor argumento: porque quem só perseverou depois de todos, é sinal que antes desejou e se desvelou mais que todos. Mas a prova para mim mais evidente é ser a Madalena a primeira a quem o Senhor apareceu: Apparuit primo Mariae Magdalene (Mc. 16, 9). — Passemos das Marias aos apóstolos. Aos outros apóstolos apareceu o Senhor no mesmo dia de hoje, e só a S. Tomé daqui a oito dias: Post dies octo. — E por quê? Porque S. Tomé tardou oito dias em vir; e assim como Cristo tarda mais para quem mais tarda, assim madruga mais para quem mais madruga. Antecipou-se Cristo a buscar primeiro que todos a Madalena, porque a Madalena se antecipou e madrugou mais que todos em buscar a Cristo: ela foi a primeira em amar, porque só dela faz menção o amado, e porque só ela chorou sem lhe enxugar as lágrimas a vista dos anjos; e porque só ela perseverou firme, sem se apartar do Sepulcro, e porque foi a primeira em amar, também foi a primeira em madrugar, provando, como aurora do Sol de justiça, que quem mais ama mais madruga. Mas vamos ao nosso tema, onde os embargos que tem o mesmo Sol nos darão a melhor prova.

III – Se era o sol saído, como diz o evangelista que as Marias foram ao sepulcro de Cristo muito de madrugada? O equívoco do evangelista e os equívocos do alegre dia da Ressurreição. As duas madrugadas e os dois sóis do dia de Páscoa. O Senhor, despertador da aurora.

Valde mane una sabbatorum, veniunt ad monumentum, orto iam sole. Diz o texto que as Marias foram ao sepulcro muito de madrugada, sendo já o sol saído. Pois, se era o sol saído — orto jam sole — como era muito de madrugada — valde mane? Se a Madalena, e as outras donas da sua companhia, foram como as senhoras da nossa corte, que, atroando com as rodas das carroças as ruas, desempedrando as calçadas e acordando a vizinhança, se recolhem a casa à meia-noite, não é muito que ao outro dia, quando o sol já anda pelos vales, e os maridos menos diligentes estão despachando nos tribunais, seja ainda para as horas do seu descanso muito de madrugada: valde mane. Os outros evangelistas ainda apertam mais a dúvida do texto, porque dizem expressamente: Cum adhuc tenebrae essent (Jo. 20,1): que ainda duravam as trevas e escuridade da noite. Pois, se a noite estava ainda em seu ser, e o escuro tão cerrado, que não só merecia nome de sombras, senão de trevas, como era já nascido o sol: orto jam sole? Aqui jogou do vocábulo o evangelista, e usou o equívoco que eu dizia. O sol a que aludiu, não era o que ainda não tinha aparecido no oriente, mas o que já tinha ressuscitado do sepulcro. Como se dissera: vieram as Marias ao sepulcro tão de madrugada, que ainda perseveravam ou prevaleciam as trevas, se bem o sol já era nascido: orto jam sole — porque Cristo já era ressuscitado. O pensamento não é meu, mas nosso. Assim entendeu que se podia entender o texto literalmente o doutíssimo comentador da Concórdia Evangélica, o venerável Padre Barradas, Mas antes que eu o confirme, quero tirar aos críticos o escrúpulo do equívoco, e não em outra ocasião, nem em outro dia, senão no mesmo da Ressurreição de Cristo.

Aquelas famosas palavras do salmo terceiro: Ego dormivi, et soporatus sum, et exsurrexi[4] — todos os santos e expositores as entendem, sem discrepância, da morte e Ressurreição de Cristo. O dormir foi o morrer, o acordar foi o ressuscitar, e diz o Senhor que ele dormiu e ele acordou porque o morrer e o ressuscitar tudo foi por sua vontade, e tudo estava na sua mão, como em vida e muito antes o tinha já dito: Ego potestatem habeo ponendi animam meam, et interum sumendi eam[5]. — Até aqui não houve equívoco, senão metáfora mui usada na Escritura, em que o dormir significa a morte, e o acordar a ressurreição. Vai por diante o mesmo Senhor, e diz assim falando com Deus: Quoniam tu percussisti omnes adversantes mihi sine causa, dentes peccatorum contrivisti (SI, 3, 8): Enfim venci e triunfei de meus inimigos, porque a todos os que me perseguiam sem causa, vós lhes quebrastes os dentes. — Notável e extraordinária frase! E por que não diz: vós castigastes, vós confundistes, vós destruístes — senão: vós quebrastes os dentes a todos os que me perseguiam sem causa? Aqui está o jogo do vocábulo e o equívoco discretíssimo. A palavra sine causa na língua hebréia, em que falou o profeta, tem duas significações: quer dizer sem causa, e quer dizer com a queixada: Adversantes mihi sine causa, adversantes mihi maxilla. E como os inimigos de Cristo na sua Paixão, gritando: Crucifige, crucifige[6] — o perseguiram sem causa, como inocente, e o morderam com as queixadas, como cães: Circumdederunt me canes multi[7] — por isso, usando o profeta galantemente do equívoco, diz aos mesmos inimigos: — Se vós o mordestes com as queixadas, ele vos quebrou os dentes: Dentes peccatorum contrivisti. — E se a frase parecer menos autorizada, e o equívoco menos grave para a harpa de Davi, como era dia da Ressurreição, tudo o galante e festivo cabia nela. Mas não está aqui o reparo. Todas estas palavras, não as pronunciou ou cantou Davi como suas, senão que as pôs na boca do mesmo Cristo: Ego dormivi, et soporatus sum, et exsurrexi — notai o ego. — percussisti omnes adversantes mihi sine causa — notai o mihidentes peccatorum contrivisti. — Pois, o mesmo Cristo com toda a sua sinceridade e majestade usa daquele equívoco? Sim, e outra vez sim. Porque era o dia e a festa da sua Ressurreição. Tudo naquele alegre dia foram equívocos. No caminho de Emaús, para alegrar a tristeza dos dois discípulos, equivocou-se o Senhor em peregrino; junto ao seu mesmo Sepulcro, para enxugar as lágrimas da Madalena, equivocou-se em hortelão; e quem nos disfarces daquele formoso dia equivocou duas vezes a pessoa, que muito é que na profecia de Davi equivocasse uma vez as palavras? Equivocou o profeta, equivocou o mesmo Cristo, e o nosso evangelista também equivocou, e porventura mais altamente que o mesmo Senhor, porque o equivocou com o sol: Orto iam sole.

Agora entra a minha confirmação do mesmo equívoco do evangelista. Diz que indo as Marias ao sepulcro era muito de madrugada, e que o sol já era nascido, entendendo por sol nascido a Cristo ressuscitado; e falou não só muito discretamente, mas com grande propriedade, porque o dia de Páscoa teve dois princípios, duas madrugadas, duas manhãs e dois sóis que o fizeram. Provo com as vozes de toda a Igreja hoje: Haec dies quam fecit Dominus (SI. 117, 24): Este é o dia que fez o Senhor. — Os dias todos não os faz o sol natural? Sim. Mas este dia não só o fez o sol natural, senão também o Senhor do mesmo sol. Enquanto fez este dia o sol, começou mais tarde; enquanto fez o Senhor, começou mais cedo. E esta só diferença é a que desata o nó que tanto apertava a dúvida. Como o dia que fez o sol começou mais tarde, quando as Marias vieram ao sepulcro, era muito de madrugada: valde mane — mas como o mesmo dia que fez o Senhor começou mais cedo, quando as mesmas Marias vieram era já o sol nascido: orto jam sole. Orto jam sole, id est, Christo[8], — diz a glossa interlineal. E para que conste quando e quanto começou mais cedo o dia que fez o Senhor, o mesmo autor que disse: Haec dies quam fecit Dominus — seja o comentador do seu texto. Exorta neste mesmo dia o Profeta Rei, ou pede instantemente a Cristo que ressuscite, dizendo: Exsurge, gloria mea, exsurge, psalterium et cithara[9] — e respondeu o Senhor: Exsurgam diluculo: Eu ressuscitarei de madrugada. — De madrugada? Logo, quando o sol saiu no Oriente, já o Senhor tinha saído do seu ocaso, porque o sol nunca madruga: quando sai, já é dia; logo, primeiro fez este dia o Senhor, do que o fizesse o sol. Mas porque não pareça sutileza, e todos vejam quanto primeiro e quanto mais cedo foi, recorramos à letra original. Onde a versão latina diz: Exsurgam diluculo: Ressuscitarei de madrugada — o original hebreu tem: excitabo auroram: despertarei a aurora. — E que quer dizer despertarei a aurora? Não se pudera melhor declarar nem mais profética ou mais poeticamente. Os poetas dizem que a aurora é a despertadora do sol, e Davi diz que o Senhor hoje foi o despertador da aurora. De sorte que madrugou Cristo hoje tanto antes da madrugada que, quando já era ressuscitado, ainda a aurora dormia, e ele foi o que a despertou, para que ela se levantasse e fosse correr as cortinas ao sol: Excitabo auroram.

Ponde-me agora no mesmo dia, ou na mesma madrugada dois sóis, um dormindo outro acordado, um envolto ainda nas sombras da noite: Cum adhuc tenebrae essent — e outro saindo da sepultura, e tirando também dela a sua Mãe — que ele foi o saltério e ela a cítara, e ambos glória de Davi, como pai de ambos: Exsurge gloria mea, exsurge psalterium et cithara — respondendo em tudo a antiga figura: Surge, Domine, in requiem tuam, tu et arca sanctificationis tuae[10]. — E com estes dois sóis, um já descoberto à fé, outro ainda oculto à vista, vereis não só três, senão quatro Marias; três à porta do sepulcro muito de madrugada: valde mane — e uma muito longe do mesmo sepulcro, com o sol que dela nasceu nascido outra vez nos braços: orto jam sole. E se perguntarmos às mesmas Marias por que madrugou o sol mais que elas, claro está que não podem deixar de responder que porque quem mais madruga mais ama. Elas amaram muito, pois, fugindo os apóstolos, não fugiram, antes acompanharam a seu mestre no Calvário, constantes e fiéis até à morte; mas como ele morreu de amor, e elas ainda ficaram vivas, elas, como menos amantes, madrugaram menos, e ele, como mais amoroso, madrugou mais: Orto jam sole.

IV – Quanto madrugou nosso sol e quanto o desvelou seu amor. De que modo se verifica que estivesse Cristo na sepultura três dias e três noites? A promessa de aparecer em Galiléia e a aparição de Jerusalém.

A empresa de Cristo na sua Ressurreição foi uma aurora não coroada já de rosas, mas vestida ainda de sombras, e a letra a mesma com que o evangelista começou a narração do seu amor: ante diem (Jo. 13, 1). — E para que vejamos praticamente com os olhos o que até agora ouvimos ao discurso, façamos também nossa romaria ao sepulcro, e veremos o divino e humano Sol tão madrugador quando sepultado no seu ocaso como quando renascido no seu oriente. O sol, que como coração do céu, ainda quando todos dormem, sempre vigia, naquele mesmo momento em que desaparece a nossos olhos de nenhum modo pára, mas, continuando com a mesma velocidade a sua carreira, vai visitar e alumiar os antípodas; assim, escondido o corpo de Cristo debaixo da terra, desceu a sua alma gloriosa ao limbo dos santos padres, que havia muitos séculos, e ainda milhares de anos, esperavam às escuras aquela ditosa hora, e nela os alumiou e alegrou, não só com sua vista, mas com a da divindade, a que estava unida a mesma alma, os fez bem-aventurados desde aquele instante para toda a eternidade. E da maneira que o mesmo sol natural, depois de dar volta ao hemisfério oposto, torna a renascer neste nosso, claro, resplandecente e coroado de raios, enxugando as lágrimas da aurora, restituindo a cor e formosura aos campos, despertando as músicas das aves, dourando os céus e alegrando a terra, assim também o Senhor neste formoso dia. Anoitecera no ocidente do seu sepulcro, amortalhado em nuvens funestas, deixando todo o mundo às escuras na tristeza de sua Paixão; voltando, porém, a esta hora vivo e formosíssimo, amanheceu outra vez no oriente do seu mesmo ocaso, e enchendo o céu e a terra de nova luz e resplendores de glória, primeiro que tudo enxugou as lágrimas daquela aurora divina, que, trespassada da espada de Simeão, como morta o acompanhava, e como viva o chorava na sepultura; logo, restituiu a cor e a formosura à sua Igreja, mudando os lutos de que estava coberta em cores e galas de festa; trocou as lamentações em músicas alegres, e os heus saudosos e sentidos em aleluias; dourou e esclareceu os céus, que por isso apareceram os anjos vestidos de neve e ouro; renovou e transfigurou a terra, convertendo as endoenças em páscoas, o silêncio mudo em repiques, os rosmaninhos em flores, as trevas e eclipses em luzes, a tristeza, enfim, e melancolia destes dias nos parabéns e alegria desta manhã.

Mas porque a manhã e o dia pudera não ser este, antes parece que tinha obrigação de o não ser, lancemos-lhe bem as contas, e veremos, hora por hora, quanto madrugou o nosso sol, e quanto o desvelou o seu amor. Falando Cristo, Senhor nosso, de sua morte, sepultura e ressurreição, diz que assim como Jonas esteve três dias e três noites no ventre da baleia, assim ele havia de estar três dias e três noites morto debaixo da terra: Sicut enfim fuit Jonas in ventre ceti tribus diebus et tribus noctibus, sic erit Filius hominis in corde terrae tribus diebus et tribus noctibus[11] — Lancemos agora a conta ao tempo em que Cristo esteve na sepultura, e busquemos estes três dias e estas três noites. A hora em que o Senhor foi sepultado foi sexta-feira às cinco da tarde; e para estar três dias e três noites debaixo da terra não havia de ressuscitar nem sair da sepultura nesta manhã nem neste dia de domingo, senão amanhã, segunda-feira, às cinco horas também da tarde. Pois, se não esteve na sepultura o dia de hoje, nem o dia de amanhã, nem a noite entre um e outro dia, como esteve três dias e três noites debaixo da terra: Tribus diebus et tribus noctibus in corde terrae? — Eutímio, padre muito antigo e grave, discípulo de S. João Crisóstomo, diz que esta profecia de Cristo não foi absoluta, senão condicional, e que assim como Deus mandou profetizar a el-rei Ezequias que havia de morrer ao outro dia, e depois lhe alargou o tempo da vida, assim Cristo profetizou que havia de estar três dias e três noites sepultado, e depois estreitou, por amor de si e de nós, o tempo da sepultura; como se dissera o Senhor: — Eu tenho determinado de estar na sepultura três dias e três noites; mas se o meu amor não se atrever a esperar tanto, então abreviarei esse tempo[12]. — E, posto que esta opinião — ou este pensamento — não seja recebido dos teólogos, na mesma história deste dia temos um notável exemplo, que parece a confirmar não pouco. Quando o anjo apareceu às Marfas no sepulcro, disse-lhes que levassem as novas da Ressurreição aos discípulos, e que lhes fizessem saber que o Senhor iria esperar por eles na Galiléia, e que lá o veriam: Dicite discipulis ejus, et Petro, quia surrexit: et ecce praecedet vos in Galilaeam:’ ibi eum videbitis[13]Até aqui são palavras de S. Mateus e S. Marcos, às quais S. Mateus acrescenta: Ecce praedixi vobis[14] — e S. Marcos: Sicut dixit vobis[15]. — De sorte que estas mesmas palavras contêm duas predições ou duas profecias: uma do anjo; do anjo às Marias naquela hora: Ecce praedixi vobis — e outra de Cristo aos apóstolos muito antes: Sicut dixit vobis. — Esta profecia de Cristo foi quando na mesma noite da Paixão lhes declarou o Senhor que todos o haviam de desamparar na morte, mas que depois de ressuscitado iria esperar por eles à Galiléia: Postquam autem ressurrexero, praecedam vos in Galilaem[16]: — Isto é o que então predisse Cristo: Sicut dixit vobis — e isto o que hoje predisse o anjo: Ecce praedixi vobis. — E que é o que neste mesmo dia sucedeu depois destas duas predições? O que sucedeu foi que Cristo não passou à Galiléia, mas ficou na mesma Jerusalém, e ali apareceu ressuscitado aos apóstolos, os quais o viram no Cenáculo, onde estavam escondidos. Pois, se o Senhor por si mesmo e por um anjo tinha dito que iria diante à Galiléia, e que lá o veriam os apóstolos, como não foi a Galiléia, mas ficou em Jerusalém, e em Jerusalém o viram? A razão é, respondem literalmente todos os expositores, porque assim como estava predito e profetizado, assim tinha Cristo determinado que fosse; porém, os apóstolos, pelo mesmo temor com que estavam escondidos, não se atreveram a sair do Cenáculo e passar à Galiléia. E porque este temor não fosse causa de os tristes e temerosos discípulos carecerem da vista de seu Mestre ressuscitado, acomodou-se o benigníssimo Senhor à fraqueza do seu amor, e não foi à Galiléia porque eles não foram, e ficou em Jerusalém porque eles ficaram, e dispensou que o vissem em Jerusalém por que não esperassem para o ver em Galiléia. Logo, se o temor dos apóstolos foi bastante causa para o Senhor se deter em Jerusalém e antecipar o tempo da sua vista; por que não seria causa também bastante o seu amor para se não deter na sepultura, e antecipar o tempo da sua Ressurreição? Assim como tinha predito que estaria na sepultura três dias e três noites, assim tinha predito que iria diante à Galiléia, e que lá o veriam Pedro e os demais: logo, se foi suficiente motivo para antecipar o tempo e lugar da sua vista o acudir à frieza do temor dos discípulos, muito maior razão, e muito mais urgente, parece que era para antecipar os dias e noites de sua sepultura, acudir às ânsias do seu amor. Digamos, pois, que madrugou o nosso Sol, não só antes do princípio do dia, senão também antes do fim: antes do fim do dia, antecipando os crepúsculos da tarde, para entrar, como entrou, pelo Cenáculo com as portas cerradas; e antes do princípio do dia para sair, como saiu, da sepultura, também não esperando que as portas se abrissem em uma e outra madrugada: Cum fores essent clausae[17].

Mas, posto que a paridade em um e outro caso pareça ter igual, nem por isso é admitida a conseqüência, porque, como grave e solidamente responde o doutíssimo Maldonado, quem faz mais do que promete não falta à verdade; quem faz menos, sim[18], — Manifestar-se Cristo aos apóstolos em Jerusalém, tendo prometido e profetizado que o faria em Galiléia, como depois fez, não foi faltar à verdade da profecia e da promessa, senão fazer mais do que tinha profetizado e prometido. Porém, tendo profetizado e prometido que havia de estar debaixo da terra três dias e três noites, se não estivesse três dias e três noites na sepultura, faltaria à sua palavra, à verdade da profecia e à verdade da promessa, o que de nenhum modo podia ser. Mas, se de nenhum modo podia ser, de que modo foi? De que modo se verifica que estivesse Cristo na sepultura três dias e três noites? Aqui consiste o ponto da dificuldade, que agora declararei. Dai-me atenção, e vereis como neste caso parece que contenderam no coração de Cristo a verdade e o amor, e a ambos satisfez exatamente na sua vigilantíssima madrugada. Já vimos que Cristo foi sepultado às cinco horas da sexta-feira à tarde, e ressuscitou às quatro, pouco mais ou menos, da manhã do domingo; e, contando-se neste tempo apenas trinta e seis horas, de tal modo e com tal arte as repartiu o amor que couberam nelas verdadeiramente três dias e três noites. Era o equinócio de março, em que o sol se põe às seis horas; e assim como das cinco horas de sexta-feira até se pôr o sol temos o primeiro dia, assim do sol posto até a meia-noite da mesma sexta-feira temos a primeira noite. Seguem-se vinte e quatro horas da meia-noite da sexta-feira até à meia-noite do sábado, e temos um dia inteiro de doze horas, e uma noite também inteira de outras doze, que é o segundo dia e a segunda noite; da meia-noite do sábado até as quatro horas do domingo, enquanto duravam as trevas e o escuro, temos a terceira noite; e, tanto começou a assomar a primeira claridade ou crepúsculo da luz, que já pertencia ao dia seguinte, temos o terceiro dia. Aqui parece que está mais confuso o dia com a noite, mas dividiu-os o Senhor pela sutileza dos seus olhos, e não pela grosseria dos nossos. No princípio do mundo, diz a Escritura Sagrada que tanto que Deus criou a primeira luz a dividiu das trevas, e que à luz chamou dia, e às trevas noites: Divisit lucem a tenebris: appellavitque lucem diem, et tenebras noctem (Gên. 1, 4 s). — E o mesmo estilo guardou Cristo com o primeiro crepúsculo deste dia, andando tão escrupuloso com a sua verdade como liberal com o seu amor. O primeiro crepúsculo de dia é um composto de claro e escuro, mas o escuro muito, e o claro pouco; e a esse muito escuro, enquanto propriamente foram trevas, contou o Senhor por noite, e ao pouco claro, como já era luz, posto que muito escassa, contou-o por dia: Appellavitque lucem diem, et tenebras noctem. — Assim madrugou para abreviar sua ausência o divino e humaníssimo Amante de nossas almas, e, concordando de tal maneira a verdade de sua promessa com as ânsias do seu amor que, para verificar em trinta e seis horas de sepultura três dias e três noites, as três noites fê-las uma de doze horas, outra de seis, outra quatro, e os três dias, um de doze horas, outro de uma hora, e outro de menos de meia, que isso foi nascer o sol no primeiro crepúsculo da manhã: Valde mane, orto jam sole.

E se houver algum incrédulo que se não contente com este modo de contar, e cuide que, para se verificarem os três dias e as três noites da profecia, os dias haviam de ser inteiros e as noites também inteiras, e não parte de dias e parte de noites, aonde remeterei eu esta incredulidade, senão ao Credo? Credes que Cristo foi sepultado? Sim. E, contudo, o sepultado não foi todo Cristo quanto à humanidade, senão uma parte de Cristo, que é o corpo. Credes que Cristo desceu aos infernos? Sim. E, contudo, o que desceu aos infernos do mesmo modo não foi todo Cristo, senão uma parte de Cristo, que é a alma. Logo também, para que o Senhor estivesse três dias e três noites na sepultura não foi necessário que os dias fossem inteiros e as noites inteiras, mas bastou que fossem parte dos três dias e parte das três noites. Esta figura em que se toma a parte pelo todo, chama-se sinédoque, tão freqüente nos autores sagrados como nos profanos. E para que o tempo de Cristo na sepultura responda ao exemplo da humanidade do mesmo Cristo, segundo uma parte no sepulcro, e segundo outra no inferno, assim se verificaram os três dias e as três noites pontualmente em ametade do tempo, como se haviam de verificar em todo; e se os dias e noites foram inteiras, por que três dias inteiros e três noites inteiras fazem setenta e duas horas, e os dias e noites da sepultura do Senhor foram trinta e seis, que é ametade de setenta e duas: A vespere sepulturae usque ad diluculum resurrectionis triginta sex horae sunt[19] — diz com a mesma conta Santo Agostinho. Finalmente, para a conclusão de todo o cômputo, ouçamos a S. Leão Papa e a Santo Anselmo. S. Leão diz assim: Ne turbatos discipulorum animos longa maestitudo cruciaret, denuntiatam, tridui moram tam mira celeritate breviavit, et dum ad integrum secundum diem, pars primi novissima, et pars tertii prima concurrit, et aliquantulum temporis spatio deciderit, et nihil dierum numero deperiret[20]. — E Santo Anselmo, pelos mesmos termos: Primus dies a parte extrema annumeratus est, dies vero tertius a parte prima. Sic ergo diei partem cum parte noctis pro nocte et die accipiens, hakes triduum, et tres noctes[21].

V – Como nós também devemos madrugar, e quando, para não faltar à memória e boa correspondência do amor de Cristo. As Marias, estrelas da madrugada. Cristo, exemplar da nossa ressurreição. Se as finezas do amor de Cristo foram tantas, e tão extremadas ou extremosas, que motivo teve Davi para antepor a da madrugada da ressurreição a todas as outras? O salmo da Ressurreição de Cristo.

Parece-me que tem satisfeito o meu discurso à primeira parte do que prometeu, mostrando quanto o Senhor ressuscitado madrugou nesta manhã por amor de nós. Agora resta satisfazer à segunda, e ver como nós também devemos madrugar, e quando, para não faltar à memória e boa correspondência de tanto amor. Se as Marias madrugaram com tanta diligência, supondo ao mesmo Senhor dormindo no sepulcro, e não sabendo que tinha madrugado, nem crendo que houvesse de acordar, que deve fazer a nossa fé, e qual deve ser o cuidado do nosso agradecimento?

Assim como o evangelista declarou a madrugada de Cristo com o equívoco do Sol: Orto jam sole — assim me parece que o mesmo Senhor muito antes significou a das Marias com o equívoco das estrelas. Falando Deus com Jó, quando ainda dormia ou jazia na sepultura do não ser, e argüindo aos que depois da fé e memória desta madrugada ainda esperam pelos raios do sol que os esperte, diz assim: Ubi eras cum me laudarent simul astra matutina, et jubilarent omnes filii Dei (Jó 37, 4-7)? Quando as estrelas da madrugada me louvavam, e juntamente me festejavam alegres os filhos de Deus, onde estavas tu? — Que os chamados filhos de Deus sejam os anjos, ninguém o duvida; mas não carece de grande dúvida quais sejam as que o mesmo Senhor chama estrelas da madrugada: astra matutina. Só quem pode dormir madruga. As estrelas toda a noite vigiam, e toda a noite estão louvando a Deus, sem poderem dormir jamais, como diz o mesmo Jó: Concentum caeli quis dormire faciet[22] ? — Os anjos também não dormem, que por isso em Daniel se chamam vigias, e não só de dia, mas de noite louvam também a Deus sem cessar. Mais. Os anjos estão no céu empíreo, as estrelas no firmamento, ou no oitavo céu, que é uma distância imensa. Como logo estas estrelas da madrugada louvavam a Deus juntamente com os anjos — simul? Eu bem tomara que tivesse dito outrem o que agora direi; mas também entendo que em toda a Escritura Sagrada se não acharão outras que se possam chamar estrelas da madrugada, e nas quais se concordem todas as dificuldades que acabamos de propor, senão nas Marias, que, como estrelas, e antes do sol, madrugaram hoje ao sepulcro de Cristo. Assim o persuadem a companhia, o tempo, o lugar, o nome e o apelido. A companhia, porque só elas concorreram juntamente com os anjos, os quais só elas viram e só com elas falaram, não aparecendo nem falando aos apóstolos; o tempo, porque, se elas madrugaram, também madrugaram os anjos, que tiraram a grande pedra da sepultura, e se assentaram nela, mostrando bem nas galas e resplendores o júbilo com que festejavam aquela hora; o lugar, porque em nenhum outro apareceram os anjos, senão no sepulcro, onde eles se mostraram e falaram com as Marias, e as mandaram aos discípulos por embaixadores da Ressurreição do Senhor; o nome, porque o de Maria quer dizer estrela, nem desdiz delas a propriedade que se lhes acrescenta, do mar, pois eram moradoras das praias do Tiberíades. E, finalmente, o apelido de matutinas, ou estrelas da madrugada, não só declara a diligência com que nesta hora madrugaram, senão o parentesco que tinham por sangue com a primeira e soberana Maria, que por antonomásia se chama Stella matutina. E quando as Marias, sendo mulheres, sem temor da noite nem dos soldados, madrugaram tão vigilantes e diligentes para adorar e servir a Cristo morto, nós, que o cremos ressuscitado, sem outro impedimento mais que do sono, negligência, ingratidão e esquecimento, que podemos responder ao mesmo Senhor, quando a esta mesma hora nos argüir, dizendo a cada um: Ubi eras, cum me laudarent astra matutina?

E se o exemplo das Marias na madrugada desta manhã basta para nos argüir e envergonhar, quanto mais o da madrugada do Senhor, que elas já não acharam no sepulcro, o qual não só madrugou para nos dar o exemplo, senão também para ser nosso exemplar nesta vigilância? Perguntam os teólogos se Cristo ressuscitando foi exemplar da nossa ressurreição, e respondem com Santo Tomás que sim. Nosso exemplar na vida, nosso exemplar na morte, e também na ressurreição nosso exemplar. Na vida, porque devemos viver para ele; na morte, porque devemos morrer por ele; e na ressurreição, porque havemos de ressuscitar como ele. Este como estendi eu na minha proposta, não só à imortalidade da outra vida, senão à imitação desta. Ele chamou a sua morte dormir, e à sua ressurreição acordar; e nós devemos acordar como ele ressuscitou. Ressuscitou de madrugada: e para quê? Para que o desvelo e fineza do seu amor empenhasse a correspondência e agradecimento do nosso a que, em honra e memória desta madrugada, lhe sacrifiquemos todas. Assim o fazia com espírito profético Davi, muitos séculos antes desta manhã, já então agradecido a ela, porque é propriedade e virtude do exemplar poder causar e influir seus efeitos antes de existir: Praevenerunt oculi mei ad te diluculo, ut meditarer eloquia tua (SI. 118, 148): Os meus olhos — dizia este bom rei a Deus — sempre se preveniam e antecipavam muito de madrugada a meditar em vós e no que me tendes revelado. — Faz menção dos olhos, porque neles consiste o sacrifício de vencer e resistir ao sono naquela hora. E a razão de escolher Davi entre todas as horas, não só do dia, senão da noite, mais esta da madrugada que outra, comenta Hugo Cardeal que era porque esta da madrugada foi a hora em que Cristo ressuscitou: Praevenerunt oculi mei ad te diluculo, qua hora Christus ressurrexit. — Viu o grande profeta, posto que de tão longe, as amorosas impaciências — digamo-lo assim — com que a ausência e saudades dos homens, morto o Senhor e insensível, o não deixavam aquietar na sepultura; viu o artifício admiravelmente engenhoso com que, para concordar a verdade de sua palavra com as ânsias do seu amor, de vinte e duas horas de trevas fez três noites, e de quatorze de luz três dias; e como era aquele generoso coração, que sempre desejava pagar de algum modo a Deus o que dele recebia: Quid retribuam Domino, pro omnibus quae retribuit mihi[23] — para corresponder quanto lhe era possível aos extremos e finezas desta madrugada, dedicou à meditação, à honra e ao agradecimento dela todas as suas. Por isso repetia tantas vezes o mesmo oferecimento. Uma vez: In matutinis meditabor in te[24]; — outra vez: Mane oratio mea praeveniet te[25]; — outra: Mane stabo tibi[26]; — outra: Mane exaudies vocem meam[27] ; — outra: Ad annuntiandum mane misericordiam tuam[28]; — outra, finalmente, e nela todas com repetição do sacrifício dos seus olhos: Anticipaverunt vigilias oculi mei[29].

Mas se as finezas do amor de Cristo, assim na vida como na morte, foram tantas e tão extremadas ou extremosas, com razão me perguntareis que fundamento e motivo teve Davi — e devemos nós ter — para antepor a desta madrugada da Ressurreição a todas as outras? Respondo que obrou o juízo de Davi nesta eleição como tão sábio e tão santo. Porque, comparada esta fineza do amor de Cristo na sua Ressurreição com todas as finezas da sua vida e da sua morte, só esta propriissimamente foi e se deve chamar fineza. Cristo, Redentor nosso, em quanto fez e padeceu na vida e na morte, mereceu para si e para nós: para nós mereceu a graça e a glória — que para si não mereceu, porque era sua — e para si mereceu a honra e a exaltação de seu nome, como diz S. Paulo: Factus obediens usque ad mortem, mortem autem crucis. Propter quod et Deus exaltavit illum, et donavit illi nomen, quod est super omne nomen[30]. — E depois que o mesmo Cristo expirou na cruz mereceu mais alguma coisa? Nem mereceu, nem pôde merecer, nem para si, nem para outrem, porque na morte se acaba o tempo e o prazo que Deus tem definido e determinado para o merecimento. E como amor tanto mais tem de fino quanto menos pretende interesse ou prêmio, por isso o amor de Cristo ressuscitado foi mais fino, e só se pode chamar fineza. No amor da vida e da morte, posto que tão grande, amou o Senhor merecendo: no amor da Ressurreição, ainda que não fosse maior amor, amou sem merecer; e como foi maior a fineza, também pede, sem a pedir, maior correspondência. De sorte que o mesmo Redentor, depois que com a sua morte remiu o mundo, porque ressuscitado não mereceu nada para si, ficou mais merecedor em si; e porque, ressuscitando, não mereceu nada para nós, mereceu muito mais de nós. Reconhecendo, pois, Davi a fineza deste desmerecimento, o desinteresse deste amor, e o desvelo deste ressuscitar, para responder também fino a tanta fineza, amoroso a tão grande amor e desvelado a tão vigilante desvelo, que fez? Sendo a hora da Ressurreição uma só hora, e a madrugada daquela hora uma só madrugada, a esta hora dedicou todas as horas, e a esta madrugada todas as madrugadas de todos os dias de sua vida: In matutinis ineditabor in te, qua hora Christus resurrexit[31].

Verdadeiramente que para responder a um dia parece que bastava outro dia; e se a hora fosse ainda tão escura, que se pudesse chamar noite, também para responder a uma, parece que bastava outra: Dies diei eructat verbum, et nox nocti indicat scientiam[32] — mas responder a uma hora com todas as horas, e a um dia com todos os dias, só a generosidade de quem inventou esta correspondência a pode confirmar. Ouçamos o mesmo Davi neste mesmo dia da Ressurreição, e nesta mesma hora, em que, ressuscitando o Senhor, tanto madrugou a sair da sepultura. O argumento do salmo sessenta e sete é todo da Ressurreição de Cristo. Começa profeticamente: Exsurgat Deus, et dissipentur inimici ejus[33] — as quais palavras comenta Santo Agostinho com estas: Jam factum est: exsurrexit Christus, qui est super omnia Deus benedictus in saecula, et dispersi sunt inimici ejus per omnes gentes: Judaei in eo ipso loco ubi inimicitias exercuerunt debellati, atque inde per cuncta dispersi. Diz o profeta: Ressuscite Deus, e sejam dissipados seus inimigos — e uma e outra coisa está já cumprida, porque Cristo, como Deus que é, ressuscitou, e seus inimigos, que são os judeus, sendo debelados na mesma Jerusalém, onde executaram o seu ódio, daí foram dissipados, como hoje estão, por todo o mundo. — E depois de descrever o profeta como o soberano libertador tirou do cárcere do limbo os santos padres, que lá estavam cativos: Educit vinctos in fortitudine[34] — e o triunfo com que subiu acompanhado de tantos milhares de almas: Currus Dei decem millibus multiplex, millia laetantium[35] — porque os mesmos judeus diziam a Cristo na cruz que, salvando aos outros, não se podia salvar a si: Alios salvos fecit, se ipsum non potest salvum facere (Mt. 27, 42) — chegado, finalmente, ao sepulcro, exclama com admirável energia e alusão: Deus noster, Deus salvos faciendi, et Domini Domini exitus mortis[36] : Agora vereis, ó judeus, se o nosso Deus, que vós não quereis reconhecer por vosso, é Deus que pode fazer salvos não só a outros, senão a si: Deus noster, Deus salvos faciendi. — E se não, vede-o sair vivo da sepultura e do poder da morte, da qual é não só uma senão duas vezes Senhor: Et Domini Domini exitus mortis. — Esta é — diz Hugo — a ênfase daquele Domini Domini duas vezes repetido. Como se dissera: Senhor da morte duas vezes, ambas a vosso pesar: Senhor da morte, porque morreu quando quis, e Senhor da morte, porque ressuscitou quando vós não queríeis. Pusestes guardas na sepultura, porque não queríeis que saísse dela; mas ele, como Senhor das entradas e saídas da morte, para abreviar os três dias da sepultura escolheu a tarde do primeiro para entrar, e a madrugada do terceiro para sair: Et Domini Domini exitus mortis. — Assim canta Davi as maravilhas do poder de Cristo na madrugada deste dia, todas obradas por nosso amor; e a ação de graças que por todas lhe oferece, breve no que diz, mas grandíssima no que promete, é esta: Benedictus Dominus die quotidie (SI. 67, 20): Neste dia seja Deus bendito todos os dias, — Notável dito, e por isso impropriamente interpretado de muitos! Die é um dia; quotidie são todos os dias: pois, como pode Deus ser bendito em um dia todos os dias: Benedictus Dominus die quotidie? Porque o dia — um — é o da Ressurreição de Cristo e os dias — todos — são os da vida de Davi. Tão agradecido o santo profeta às finezas deste dia, às madrugadas deste amor e aos desvelos desta madrugada, que não se contentou com menos a sua devoção e a sua memória que com sacrificar o sono ou vigilância dos seus olhos por todos os dias da sua vida a este dia, e por todas as manhãs dos mesmos dias a esta hora: Hora in qua resurrexit Christus: Benedictus Dominus die quotidie.

VI – O que devemos fazer, depois de Cristo ressuscitado, à imitação de Davi, antes de Cristo ressuscitar às primícias do dia. Quando nasceu o sol com asas de que fala o profeta Malaquias. Que mal tem o alto dia, para se temer tanto dele quem tão pouco sabia temer, como Davi? A oração antes do nascer do sol e o mistério do maná, que se não derretia ao fogo, e se desfazia ao primeiro raio do sol.

Isto é o que fazia Davi antes de Cristo ressuscitar, e isto é o que, depois de ressuscitado, deve fazer todo o cristão, se não queremos ser ingratos. Não é novidade ou conselho meu, senão doutrina do maior pregador da Igreja, há mais de mil e duzentos anos: Ab initio diei David dabat Deo primitias: oportet enim ad gratias tibi agendas solem praevenire[37]: Davi, logo ao primeiro romper da alva, dava a Deus as primícias do dia, porque é necessário, para agradecer a Deus os seus benefícios, madrugar antes do sol. — Depois que Deus deu leis aos homens, nenhuma coisa mais vezes lhes encomenda e mais apertadamente lhes encarrega nelas que a obrigação de lhe oferecerem e consagrarem as primícias de tudo quanto recebem de sua liberal mão. Não fazer esta oferta a Deus, não só é ingratidão, mas roubo, porque é reputar as coisas que possuímos, e ele nos dá, como nossas, e não como suas. Por isso, de tudo o que produz a terra manda que lhe ofereçamos os primeiros frutos, de tudo o que nasce dos animais as primeiras crias, e até dos próprios filhos, os primogênitos. E se de tudo devemos dar a Deus as primícias, quanto mais as dos dias da vida, sem os quais tudo o que só com ele se pode gozar é nada? E acrescenta o grande Crisóstomo que, para serem gratas a Deus estas primícias dos dias, não basta oferecer-lhas depois do sol saído, mas é necessário madrugar antes do sol: Oportet enim ad gratias tibi agendas solem praevenire. — Na primeira lei, em que Deus mandou que se lhe oferecessem as primícias, que é no capítulo vinte e dois do Êxbdo, diz assim: Primitias tuas non tardabis reddere (Êx. 22, 29): As vossas primícias não tardeis em as pagar. — E quanto bastará para esta tardança nas primícias do dia? A glosa que acabo de referir o diz: Oportet solem praevenire: Se não madrugastes antes do sol, e esperastes que o sol saísse, tardastes.

A razão desta diligência tão antecipada não parece fácil. Mas no nosso caso da madrugada da Ressurreição é evidente. Porque, se Cristo neste dia madrugou antes do sol por amor de nós, muito tarde seria o agradecimento deste amor, se nós esperássemos depois do sol para lhe dar as graças. É texto expresso de Malaquias, de muitas maneiras trazido a outros intentos, e só feito naturalmente para este: Orietur vobis timentibus nomen meum Sol justitiae, et sanitas in pennis ejus (Mal. 4, 2): Nascerá para vós, os que temeis meu nome, o sol de justiça, o qual trará a saúde nas asas. — Este sol, literalmente e sem controvérsia, é Cristo. Mas quando nasceu este Sol com asas, e asas cujas penas tiveram virtude de sarar enfermos? Muitos dizem que quando nasceu em Belém da Virgem Maria. Mas então não teve braços nem pés, quanto mais asas: Et Dei manus, pedes que, stricta cingit fascia. — Mais ainda: que então como Filho da Mãe de misericórdia foi Sol de misericórdia, e não de justiça, como nasceu aqui: Orietur vobis Sol justitiae — que nascimento do mesmo Sol foi logo este, tão diferente no nome, na figura e nos efeitos? No nome Sol de justiça, na figura Sol com asas, nos efeitos Sol que sara com elas? Santo Agostinho diz que foi Cristo na sua Ressurreição: Qui cum sumpsit pennas suas in resurrectione, jam corpore non gravatur[38] . — Este é logo o nascimento do Sol de que hoje disse o evangelista: orto jam sole. E porque Santo Agostinho não declarou o texto, eu o declararei, e de todas as cláusulas dele se verá manifestamente ser este o seu verdadeiro sentido.

Orietur: diz que nascerá, porque Cristo, assim como teve duas vidas, teve também dois nascimentos: um mortal com que nasceu da Virgem, outro imortal com que nasceu da sepultura. É metáfora e elegância não menos que da Igreja neste mesmo mistério: Qui natus olim e Virgine, nunc e sepulchro nasceris[39]. — E para quem nascerá neste segundo nascimento? Vobis timentibus nomen meum: Para vós que temeis o nome de Deus. — Não diz que nascerá para todos, senão só nomeadamente para os que crêem em Deus e o temem. E assim foi, porque bem pudera o Senhor ressuscitado aparecer vivo e glorioso nas ruas e praças de Jerusalém a Anás, a Caifás, a Pilatos, a Herodes, e aos outros seus inimigos, mas não manifestar, senão aos que o criam e amavam, como foram as Marfas, os apóstolos e os discípulos. E por isso com grande propriedade e energia, lhe chama o profeta Sol justitiae: Sol de justiça, e não de misericórdia. Assim o declarou o mesmo Cristo, com o exemplo deste sol, que nasce para todos, bons e maus: Estote misericordes, sicut et Pater vester misericors est, qui solem suum oriri facit super bonos et malos[40] — e a justiça não mede aos bons e aos maus com a mesma regra; mas por isso é justiça, porque nega aos maus o favor que faz aos bons, como o Senhor fez hoje: Et sanitas in pennis ejus. — E chama-lhe o profeta, ou pinta o sol com asas, pela diligência e velocidade com que neste dia madrugou e se antecipou o seu nascimento ao do sol natural. Ainda o sol natural dormia, e a aurora lhe não tinha corrido as cortinas encarnadas, quando o nosso já era nascido: Valde mane, orto jam sole. — Os poetas, para encarecer a velocidade com que corre o sol, puseram-no em carroça de quatro cavalos — note a nossa corte de caminho, que carroça a seis, nem ao sol a permitem as fábulas: Pyrois, Eous et Aethon solis equi, quartusque Phlegon[41] — e se esse sol corre sobre rodas, q nosso voou com asas: Et sanitas in pennis ejus. — E diz que nas mesmas asas leva a saúde para sarar enfermos, porque assim os sarou hoje, voando a diversos lugares: aos apóstolos sarou-os do temor e da incredulidade; aos discípulos de Emaús sarou-os da cegueira e desesperação; às duas Macias, da tristeza e do assombramento; e à Madalena, que era a mais enferma de todos, sarou-a do amor e das saudades.

Agora pergunto: e que primor seria o nosso, se aos desvelos do amor de Cristo na manhã da sua Ressurreição respondêssemos nós dormindo, e, madrugando do ele tanto antes de sair o sol, nós, para lhe dar as graças, esperamos a que seja alto dia? Vede quanto se acautelava e temia deste desprimor o mesmo Davi, que, à imitação e meditação desta madrugada, dedicou as de todos os dias da sua vida. Ad altitudine liei timebo (SI. 55, 4). — Este é um dos ditos mais notáveis deste grande profeta nos seus salmos, que se temera muito do alto dia. E que mal tem o alto dia para se temer tanto dele, quem tão pouco sabia temer, como Davi? Dionísio Cartesiano, grande mestre da oração e contemplação, diz que se temia Davi do alto dia, não como soldado, mas como contemplativo, porque na madrugada está a nossa alma mais hábil para a oração e devoção, no alto dia mais pesada e inepta: De mane enim est honro ad devotionem habilior, in altitudine diei ineptor. — E como o devotíssimo profeta, em memória da hora em que Cristo saiu da sepultura, neste dia se tinha dedicado a o louvar em todas as dos seus dias: Benedictus Dominus die quotidodie — por isso com razão se temia do alto dia, porque era coisa mui alheia do primor e devoção do seu oferecimento, que, devendo corresponder cada um dos seus dias àquele dia, quando o senhor se tinha desvelado e madrugado tanto, ele, em vez de o contemplar e louvar também de madrugada, o não fizesse senão alto dia.

E para que nós vejamos quanto também nos devemos temer do alto dia: Ab altitudine diei timebo — ouçamos o maior prodígio deste temor e razão dele, não declarado menos que pelo mesmo Deus. O maná não chovia do céu senão de madrugada; e se acaso ao sair do sol estava algum ainda no campo, em lhe tocando o primeiro raio do sol, logo se desfazia. Até aqui podia ser sem milagre; mas nota e pondera muito o texto que o mesmo maná, que, tocado dos raios do sol, se derretia, posto no fogo de nenhum modo se podia desfazer nem derreter, antes ficava sólido e duro: Quod enfim ab igne non poterat exterminari, statim ab exiguo radio solis calefactum tabescebat[42]. — Isto é certo que não podia ser naturalmente, porque tudo o que derrete o sol também o derrete o fogo, e tudo o que endurece o fogo também o endurece o sol. O sol derrete a cera, e o fogo também a derrete; o fogo endurece o barro, e o sol também o endurece. Por que trocava logo Deus no maná estes efeitos naturais do sol e do fogo que, não o podendo derreter o fogo, em o tocando qualquer raio do sol, no mesmo ponto se derretia: Statim ab exiguo radio solis tabescebat? — Se o mistério deste tão notável milagre o deixara Deus à consideração e exposições dos doutores, que coisas diriam tão diversas e tão alheias da mente de Deus? Mas, como só o mesmo Deus, autor do milagre, conhecia o verdadeiro mistério e significação para que o tinha feito, ele mesmo o declarou no capítulo dezesseis da Sapiência, e é, como lhe chamei, tão prodigioso em si, como admirável ao intento. As palavras divinas são estas: Ut notum omnibus esses, quoniam oportet praevenire solem ad benedictionem tuam, et ad ortum lucis te adorare[43].Ordenou Deus, com tão grande milagre, que o maná, que se não derretia ao fogo, se derretesse ao primeiro raio do sol, para que entendessem e soubessem todos os homens que todo aquele que houver de orar, adorar e louvar a Deus — combinai o benedictionem tuam com o benedictus Dominus — se deve antecipar para isso ao nascimento do sol, e, levantando-se de madrugada ao primeiro romper da luz, prostrar-se logo diante do divino acatamento, e então o adorar e orar: Et ad ortum lucis te adorare. — De maneira que o orar, contemplar e louvar a Deus é como o maná, o qual por isso descia do céu, e se chama pão dos anjos, porque o manjar de que se sustentam os anjos no céu não é outro mais que a contemplação e louvores do mesmo Deus; e assim como o maná se derretia em o tocando os raios do sol, assim se desfaz e perde o valor e aceitação diante do acatamento divino a oração dos que não madrugam antes do mesmo sol a lhe dar as devidas graças, porque — conclui a mesma Sabedoria — os que para pagar a Deus este tributo de cada dia esperam a que primeiro nasça e os esperte o sol, é sinal certo de ser ingratos: Ingrati enim spes tanquam hibernalis glacies tabescet, et disperiet[44]

VII – A honrada e generosa competência do homem com o sol sobre qual há de amanhecer primeiro, e a mais bizarra e famosa competência que viu a memória dos homens: o desafio de Davi com o gigante. Advertência de S. Paulo aos efésios. A competência entre S. Pedro e S. João sobre qual havia de chegar antes ao sepulcro de Cristo. Quanto se agrade Deus desta competência. Como madrugou Cristo enquanto Deus e enquanto homem? A parábola dos trabalhadores na vinha e a necessidade de madrugar.

Quem chegou a ouvir da boca do mesmo Deus esta tão clara e formidável sentença, nenhuma outra razão ou autoridade o poderá persuadir; contudo, para louvor dos que assim madrugam, e confusão dos ingratos e preguiçosos, que o não fazem, quero referir o que de uns e outros dizem os dois grandes lumes da Igreja grega e latina, Santo Atanásio e Santo Agostinho. Santo Atanásio diz assim: Magnum certaminis decus e lecto ipso Deo sistere se ipsum, et praevenire in gratiarum actione solem. Oh! que honrada e generosa competência competir o homem com o sol a qual há de amanhecer primeiro: ou o sol a dar luz ao mundo, ou o homem a dar graças a Deus! — A mais bizarra e famosa competência que viu a memória dos homens foi o desafio de Davi com o gigante; mas que comparação tem desafiar um gigante da terra ou o gigante do céu? O gigante do céu é o sol, como diz o mesmo Davi: Exultavit ut gigas ad currendam viam; a summo caelo egressio ejus, et occursus ejus usque ad summum ejus[45].A grandeza e estatura de Golias era de seis côvados e um palmo; a estatura e grandeza do sol é cento e sessenta vezes tão vasta como toda a redondeza deste globo inferior, que se compõe de todo o mar e de toda a terra. Os passos com que anda ou corre o sol são tão dilatados, que em cada hora caminha mais de trezentas mil léguas. Vede agora se é grande e admirável competência competir o homem com o sol sobre qual se há de adiantar um ao outro: ou o sol a alumiar o homem, ou o homem a louvar a Deus? In gratiarum actione solem praevenire, magnum certaminis decus,

O sol tem duas balizas, o oriente e o ocaso; e não só na primeira, quando nasce, senão também na segunda, quando se põe, quer S. Paulo que, como nas duas colunas de Hércules, ponha o homem um non plus ultra, antecipando-se sempre, e adiantando-se ao sol: Sol non occidat super iracundiam vestram (Ef. 4, 26): Se acaso tivestes ocasião de ira contra vosso próximo, adverti — diz o apóstolo — que não se ponha o sol, sem que primeiro vos reconcilieis e ponhais em graça com ele: — De sorte que o nosso amor de Deus e do próximo há de competir de tal modo em se adiantar sempre ao sol, que nem o sol amanheça no oriente, antes de nós darmos graças a Deus, nem o mesmo sol se ponha no ocaso, antes de nós nos pormos em graça com o próximo. Na história deste mesmo dia temos duas figuras, que com grande propriedade nos representam dobrada antecipação desta competência. Quando a Madalena não achou a Cristo no sepulcro, veio dar conta a S. Pedro e a S. João, e diz o texto sagrado que ambos correram logo a certificar-se do que ouviam, porém S. João correu mais que S. Pedro, e chegou primeiro: Currebant autem duo simul, et ille alius discipulus, quem amabat Jesus, praecucurrit citius Petro, et venit primus ad monumentum[46]. — São Gregório Papa diz que S. João neste caso fazia a figura da Sinagoga, e S. Pedro a da Igreja. Mas, se nos chegarmos mais ao texto, na palavra discipulus quem amabat Jesus, por que não diremos que S. João fazia a figura do amor, e na competência com que ambos corriam: Currebant duo simul — que S. Pedro fazia a do sol? É S. Pedro figura do sol, porque tem as chaves do céu: Tibi dabo claves regni caelorum[47] — e, assim como S. Pedro tem os poderes de abrir e fechar o céu, assim o sol abre o mesmo céu, quando aparece no oriente, e o fecha, quando desaparece no ocaso. E S. João é figura do amor, assim de Deus como do próximo, porque de Cristo foi o mais amado: Discipulus quem amabat — e dos próximos o maior amante: Filioli, diligite alterutrum[48]. — E que quer dizer que, correndo Pedro, e correndo juntamente João. João corra mais que Pedro, e que chegue João primeiro que ele? Quer dizer o que imos dizendo, que sempre o amor de Deus e do próximo se há de antecipar e adiantar ao curso e carreira do sol, por mais que ele corra. O amor de Deus há de correr mais que o sol, dando graças a Deus antes que o sol apareça no oriente: In gratiarum actione praevenire solem — e o amor do próximo há de correr também mais que o sol, pondo-se em graça com o próximo antes que o sol se esconda no ocaso: Sol non occidat super iracundiam vestram,

E para que entendamos quanto Deus se agrada desta competência, reparemos em uma coisa muito notável, e é que, assim como o homem pode competir com o sol em se antecipar sempre ao sol, assim Deus compete com o homem em se antecipar sempre ao homem. Dizia Davi a Deus: Mane oratio mea praeveniet te (SI. 87, 14): Eu, Senhor, hei de madrugar todas as manhãs, com tanta diligência, que a minha oração se antecipe a vós. — Esta é a mesma devoção que até agora imos louvando. Mas, como lhe sucedeu a Davi com estes seus bons propósitos? Ele mesmo o disse: Misericordia ejus praeveniet me (SI. 58, 11): Eu cuidava, Senhor, que a minha oração vos havia de prevenir a vós: Oratio mea praeveniet te — e o que achei e experimentei é que a vossa misericórdia foi a que me preveniu a mim: Misericordia ejus praeveniet me. — Não há duas coisas mais recíprocas entre Deus e o homem, que a nossa oração e a sua misericórdia. Por isso dizia o mesmo profeta: Benedictus Deus, qui non amovit orationem meam et misericordiam suam a me (SI. 65, 20): Bendito seja Deus, que não apartou de mim nem a minha oração nem a sua misericórdia — porque o meio de alcançar a sua misericórdia é a nossa oração, e à nossa oração não pode faltar a correspondência da sua misericórdia. Mas quando Davi cuidou que se havia de antecipar a Deus com a sua oração: Oratio mea praeveniet te — o que experimentou foi que Deus era o que se havia de antecipar a ele com a sua misericórdia: Deus meus, misericordia ejus praeveniet me. E por quê? A razão teológica é porque sem graça proveniente de Deus não podia Davi executar o que prometia. Se Davi havia de alcançar a misericórdia por meio da oração, primeiro havia de orar; e se a misericórdia se não antecipasse à oração de Davi, prevenindoo com sua graça para que orasse, não poderia ele orar: logo, se a misericórdia se não se antecipara à sua oração, nem ele podia orar nem alcançar a misericórdia: Qui non amovit orationem meam et misericordiam suam a me. — E verdade que a oração de Davi madrugou: Mane oratio praeveniet te — mas Deus tinha madrugado mais que Davi, e a misericórdia divina mais que a sua oração.

Muito madrugaram as Marias, mas Cristo madrugou mais que elas. E isto de madrugar sempre mais é prerrogativa que compete ao benigníssimo Senhor enquanto Deus e enquanto homem: enquanto Deus, porque a trouxe das entranhas do seu Pai por geração; e enquanto homem, porque a trouxe das entranhas de sua Mãe por nascimento. Dizei-me; como foi gerado Cristo enquanto Deus, e como nasceu enquanto homem? Enquanto Deus diz o Eterno Padre: Ex utero ante luciferum genui te (SI. 109, 3): Eu, Filho meu, vos gerei de minhas entranhas antes do luzeiro. — E por que não diz antes do sol, ou antes da aurora, senão antes do luzeiro? Para mostrar que, por natureza e por geração, madrugou Cristo enquanto Deus antes de tudo o que mais madruga no céu. No céu a aurora madruga antes do sol, o luzeiro madruga antes da aurora, e o Verbo madrugou antes do luzeiro: Ante luciferum genui te. — Da sua geração enquanto Deus passemos ao seu nascimento enquanto homem. E quando nasceu Cristo enquanto homem? Dum medium silentium tenerent omnia, et nox in suo cursu medium iter haberet, omnipotens sermo tuus de caelis, a regalibus sedibus, venit[49], — Nasceu enquanto homem pontualmente à meia-noite, para que nos desenganemos os homens que ninguém pode madrugar mais que ele. Se nascesse às cinco horas da manhã, madrugaria mais quem viesse às quatro; se nascesse às quatro, madrugaria mais quem viesse às três; se nascesse às três, ou às duas, madrugaria mais quem viesse à uma; mas como nasceu à meia-noite em ponto, ninguém pode madrugar tanto, que ele não tenha madrugado ou amanhecido primeiro. Excelentemente S. Bernardo: Vigilias tu, vigilat et ille. Consurge in nocte in principio vigiliarum, accelera quantum vis, etiam ipsas anticipa vigilias, invenies eum, non praevenies. Temere in tali negotio, vel prius aliquid tibi tribuis, vel plus, nam ille te magis amat, et ante[50].

Não vos pergunto, Senhor, por que madrugais tanto, mas só me admiro por que assim madrugais e vos desvelais, sendo tão grande Senhor. Com razão notou e nos manda notar a Sabedoria divina, nesta ocasião, que sois Rei todo-poderoso: Omnipotens sermo tuus de caelis a regaligus sedibus venit — porque vós sois aquele soberano e supremo Senhor, que de ninguém nem de coisa alguma tem necessidade: Deus meus es tu, quoniam bonorum meorum non eges[51]. — Se a necessidade é o mais diligente despertador de quem a tem para que madrugue, vós, que de nada necessitais, para que madrugais tanto, e nós, que para tudo necessitamos de vós, por que não madrugaremos? Depois que este mesmo Senhor romper o silêncio, em que agora o consideramos, nos ensinará que só quem necessita madruga, e quem madruga mais é porque necessita mais. Saiu — diz — muito de madrugada um pai de famílias a alugar e concertar com os jornaleiros, para que fossem trabalhar à sua vinha: Qui exiit primo mane conducere operarios in vineam suam (Mt. 20, 1). — O pai de famílias era nobre e senhor, os jornaleiros eram uns homens de baixa condição, que viviam do trabalho das suas mãos e do suor do seu rosto, e, contudo, o pai de famílias madrugou a os chamar e se concertar com eles, porque tinha necessidade deles. Agora o que eu muito noto e reparo é que quando o pai de famílias chegou à praça, já os jornaleiros ali estavam esperando por quem os alugasse. E por que madrugaram mais os jornaleiros que o pai de famílias? Porque necessitavam mais. O pai de famílias necessitava dos jornaleiros para a vinha, os jornaleiros necessitavam do pai de famílias para a vida. Ao pai de famílias despertou-o a providência da sua herdade, aos jornaleiros a força da sua necessidade. E se só quem necessita madruga, e quem necessita mais tem obrigação de madrugar mais, nós, que sempre e em tudo necessitamos de Deus por que não madrugaremos por amor de um Deus, que, sem ter necessidade de nós, madruga tanto por amor de nós?

VIII – Como madrugam as criaturas brutas ou irracionais? As madrugadas mecânicas e as madrugadas dos que professam vida e ações mais nobres. As madrugadas dos que, em lugar de se dedicarem e consagrarem ao verdadeiro Deus, se sacrificam aos ídolos das paixões, como os judeus diante do bezerro no deserto. O que fizeram os judeus, torpe e vergonhosamente ingratos, no triunfo daquela gloriosa madrugada em que Deus afogou os exércitos de Faraó no Mar Vermelho.

Mas ouçamos já a Santo Agostinho, para que nos envergonhemos deste nosso descuido: Turpe est christiano — diz o grande doutor da Igreja. E noutro lugar: Pudor est christiano, si eum radius solis in lecto inveniat: Torpe coisa é e verdadeiramente vergonhosa para um cristão se o primeiro raio do sol o achar na cama, e não prostrado aos pés de Cristo, seu Criador e Redentor. — As primeiras criaturas, que com suas vozes nos injuriam e envergonham, entre aquelas que o mesmo Senhor criou, mas não remiu, são as aves. Que avezinha há, ou tão pintada, como o pintassilgo, ou tão malvestida, como o rouxinol, que não rompa o silêncio da noite, com dar ou cantar as graças a seu Criador, festejando a boa vinda da primeira luz, ou chamando por ela? As flores, que anoiteceram secas e murchas, porque carecem de vozes, posto que lhes não falte melodia para louvar a quem as fez tão formosa, ao descante mudo dos cravos e das violas, como são as madalenas do prado, também declaram os seus afetos com lágrimas. As nuvens, bordadas de encarnado e ouro, os mares, com as ondas crespas em azul e prata, as árvores, com as folhas voltadas ao céu, e com a variedade do seu verde natural então mais vivo, as fontes, com os passos de garganta mais cheios e a cadência mais sonora, as velhinhas, saindo do aprisco, e os outros gados mansos à liberdade do campo, os lobos e as feras silvestres recolhendo-se aos bosques, e as serpentes metendo-se nas suas covas, todos, ou temendo a luz, ou alegrando-se com sua vista, como à primeira obra de Deus, lhe tributam naquela hora os primeiros aplausos. E que maior confusão e afronta do homem, criatura racional, que, quando todas as outras, ou brutas, ou insensíveis, reconhecem do modo que podem a bondade e providência daquele supremo Senhor que lhes deu o ser, antecipando-se ao sol para lhe oferecer as primícias do dia, ele, sem memória, sem entendimento, sem vontade e sem sentido, naquela voluntária sepultura do sono e do descuido, só confesse dormindo e roncando que é o mais ingrato?

Desperta, ó homem indigno, aos brados de todas as criaturas; abre os olhos, e vê a que madrugas e a que não madrugas. Deixadas as madrugas mecânicas, como as do oficial vigilante, que madruga para bater e malhar o ferro, obrigando também a madrugar o ar e o fogo, os que professam vida e ações mais nobres, para que madrugam? Madruga o matemático, para observar as estrelas, antes que lhas esconda o sol; madruga o soldado, para vigiar o seu quarto, ou na muralha, ou na campanha, ou no bordo da nau; madruga o estudante sobre o livro, que tantas madrugadas custou ao seu autor, quantas são as letras, muitas vezes riscadas, de que está composto; madruga o requerente, madruga o caminhante, madruga cercado de galgos o caçador, e, sobre todos, com mais estrondosas madrugadas, os príncipes, devendo madrugar, não para .montear desertos e matar feras, mas, como fazia el-rei Davi, para alimpar os povoados de vícios, e matar os que os cometem: In matutino interficiebam omnes peccatores terrae[52]. — E que apetite menos digno de tão alto e soberano nome que despertarem ao som de trombetas, e muitas horas antes do sol, para correr uma lebre, ou dar uma lançada no javali amalhado, aqueles que sem este despertador depois da quarta parte do dia, tendo tanto que ver e prover, ainda não têm abertos os olhos? Oh! que diferentemente havia de madrugar, para agradecer a Deus este descanso, se advertiram e disseram com o pastor agradecido: Deus nobis haec otia fecit[53]

E se estas madrugadas, por outra parte lícitas e honestas, o descuido de se empregarem na adoração do Senhor: Qui fabricatus est auroram et solem[54] — bastara para as fazer ociosas e menos cristãs, que censura merecem aquelas que, em lugar de se dedicarem e consagrarem ao verdadeiro Deus, se sacrificam aos ídolos? Fundido por Arão o ídolo de ouro, e sinalado para a celebridade e dedicação da infame imagem o dia seguinte: Cras solemnitas Domini est[55] — o que fizeram todos foi levantarem-se muito de manhã a oferecer-lhe sacrifícios: Surgentesque mane, obtulerunt holocausta[56] — e aos sacrifícios se seguiram banquetes, brindes e jogos: Sedit populus manducare, et bibere, et surrexerunt ludere[57]. — Foi boa madrugada esta? E quantas são debaixo do falso nome de cristandade as que se parecem com ela? Os nossos ídolos são as nossas paixões e os nossos apetites, e raro é o cristão de sono e juízo tão repousado que o deixe dormir e não desvele a sua idolatria. Quanto corta pelo sono o adúltero? Quanto corta pelo sono o vingativo? Quanto corta pelo sono o ladrão? Quanto corta pelo sono o taful? Quanto corta pelo sono o invejoso, o ambicioso, e, mais vigilante que todos, o avarento e cobiçoso? Os judeus adoram o bezerro de ouro, os cristãos adoram o ouro, ainda que não pese tanto como o bezerro. Do ouro tomou o nome a aurora, e esta é a despertadora que os não deixa dormir e faz vigiar, maquinando sutilezas, traças, enganos, traições, e sacrificando ao torpe, vergonhoso e brutal ídolo do interesse o descanso, a razão, a vida, a honra, a consciência, a alma. Quão justamente argüiu Cristo o sono e negligência dos que não puderam vigiar uma hora com ele, à vista do contrário exemplo e vigilância infame de Judas! Vel Judam non videtis quomodo non dormit, sed festinat tradere me Judaeis? Basta que a cobiça de Judas, para me vender e me entregar não dorme, e o meu amor e a vossa obrigação não pode acabar convosco a que corteis pelo sono, e vigieis uma hora comigo?

Este é o meu ponto, e esta a hora em que estamos, na qual tanto madrugou Cristo por amor de nós. E para maior confusão dos que, em vez de madrugar nela para o louvar, madrugam para o ofender, tomemos à história do ídolo, e ponhamo-nos dois passos atrás. A hora em que Deus afogou os exércitos de Faraó no Mar Vermelho foi muito de madrugada: Jamque advenerat vigilia matutina, et ecce respiciens Dominus super castra Aegyptiorum per columnam ignis et nubis, interfecit exercitum eorum[58], — De sorte que na madrugada daquele dia se consumou a liberdade dos filhos de Israel, e então acabaram de ficar totalmente livres do cativeiro dos egípcios. E quando aqueles homens, se não foram ingratíssimos, haviam de dedicar as madrugadas de toda a vida à memória e agradecimento de tão estupendo e milagroso benefício, o para que madrugaram tão diligentes foi para negarem a honra e glória dele a Deus, e a darem ao ídolo: Isti sunt dii tui Israel, qui te eduxerunt de terra Aegypti[59], — Bem creio que não haverá quem não pasme e se assombre de uma tão forte e vergonhosa ingratidão. E que seria se eu dissesse que ainda a nossa é mais vergonhosa e mais torpe? Santo Agostinho, falando geralmente da negligência do cristão, a quem o primeiro raio do sol acha dormindo, chamou-lhe torpe e vergonhosa: torpe: Turve est christiano — vergonhosa: Pudor est christiano, Que diria, porém, se falasse da mesma negligência e ingratidão, comparada com a vigilância e amorosos desvelos de Cristo nesta madrugada? Diria com muito maior razão o que eu agora hei de dizer. Aquela madrugada, em que Deus acabou de libertar os hebreus do cativeiro do Egito, afogando seus inimigos no Mar Vermelho, foi figura desta mesma madrugada, em que o Senhor acabou de consumar nossa redenção, Assim o canta a Igreja: Fugitque divisum more, merguntur hostes fluctibus — onde se deve muito notar uma particular e sutilíssima energia do texto sagrado. Não só sinalou o tempo e hora, que foi a da madrugada: Jamque advenerat vigilia matutina — mas nos mesmos olhos e olhar de Deus significou o modo de ver, que é o de quem madruga. Isso quer dizer: Respiciens per columnam ignis et nubis. — Estava o Senhor acordado, e não dormindo, porque via: respiciens — e via por entre o claro do fogo e o escuro da nuvem: per columnam ignis et nubis — que é o modo de ver de quem olha pelos crepúsculos da madrugada. Não é interpretação minha, senão semelhança de que usou o mesmo Deus no Livro de Jó, comparando o afogueado e negro dos olhos de leviatão ao claro e escuro do crepúsculo matutino: Oculi ejus ut palpebrae diluculi[60]. – E quando Deus madruga para me libertar, que não madrugue eu para o louvar! Mais, e pior ainda. Quando Deus não dorme, e se desvela para me defender de meus inimigos, que eu não durma, e me desvele para o ofender! Isto é o que fizeram os judeus, torpe, vergonhosa, e impiamente ingratos no triunfo daquela gloriosa madrugada, em que Deus tanto se empenhou em vigiar por eles. E o mesmo faríamos nós, com circunstâncias de ingratidão tanto maiores quanto maior foi o benefício, o amor, a glória e o triunfo com que Cristo nos acabou de libertar e remir nesta hora: Qui mortem nostram morrendo destruxit, et vitam resurgendo reparavit[61] — se em louvor, honra e veneração da madrugada da sua Ressurreição não lhe oferecermos e consagrarmos todas as da nossa vida, para que veja em nós o sol natural, todas as vezes que nascer, que quando ele nesta manhã nasceu já o nosso sol era nascido: Valde mane, orto jam sole.

IX – O galo, despertador irracional, perorador do presente sermão. O que dizem as vozes do galo. Por que, sendo tão freqüentes no Velho e Novo Testamento as visões sobrenaturais e aparições in somnis, madrugando o Senhor tanto no dia da Ressurreição, a ninguém aparecesse nem alumiasse quando dormia? O galo, pregador das madrugadas. Os maravilhosos efeitos que obrou a voz do galo em S. Pedro. Conclusão.

Até aqui se tem cansado o meu discurso — e cansado também aos ouvintes, que o não esperavam tão largo nesta hora — em satisfazer ao que prometi. Mas, como aproveita pouco o semear sem colher, assim é inútil o dizer sem persuadir. Por este receio e justa desconfiança que tenho de mim, quisera que me acabara o sermão outro pregador. Considerando, pois, que pregador escolheria para este socorro, resolvi-me a que fosse o que maior e mais declarado fruto fez nesta Semana Santa. E quem é? Aquele que converteu a S. Pedro, e, cantando, o fez chorar: Cantavit gallus, recordatus est Petrus, et flevit ama

re[62]. — Não desprezeis o pregador, porque para perorar e persuadir o que tenho dito nenhum tem melhor talento nem melhor eficácia. É tão douto, que não se preza menos a Sabedoria divina da ciência que pôs no homem que da inteligência que deu ao galo: Quis posuit in visceribus hominis sapientiam? Vel quis dedit gallo intelligentiam[63]? Prega com a voz e com o exemplo, porque faz o que diz. Se desperta e acorda aos outros, primeiro se desperta e acorda a si; e não abre a boca sem bater as asas, que é acompanhar a voz com as ações. O assunto da sua pregação é o próprio do meu discurso, para que aos homens, por desacautelados, quando nasce o sol, os não ache dormindo. Assim o notou Plínio: Nec solis ortum incautis patiuntur obrepere[64]. — E para que não pareça coisa indigna que o sermão de um pregador com fé o acabe um animal sem uso de razão, lembrai-vos que, tendo Deus falado muitas vezes ao profeta Balaão por si mesmo, no fim o convenceu pela língua de um bruto. Do mesmo modo o faz agora aos cristãos por meio das vozes ou brados daquele despertador irracional: Gallus jacentes arguit et somnolentos increpa: Sabeis — diz a Igreja Católica — o que fazem dentro da vossa família as vozes daquela ave tão vigilante? Argúem os que jazem na cama, e não se levantam, e repreendem os que se deixam vencer do sono, e não madrugam. E se me perguntais porque repete o galo a mesma voz uma, duas e três vezes em cada noite, digo que são três admoestações canônicas, com que Deus avisa a todo o homem cristão que o há de excomungar e separar da comunicação dos verdadeiros fiéis, se for tão descuidado e negligente que não faça o que fazem as aves aos primeiros raios ou bocejos da luz, saindo todas dos seus ninhos a louvar e dar a alvorada a seu Criador.

Ouçam, pois, todos os que me ouviram o valente perorador do meu sermão. O que querem dizer aquelas vozes confusas são estas palavras dearticuladas: Surge qui dormis, et illuminabit te Christus (Ef. 5, 14): Tu descuidado, tu negligente, tu preguiçoso, que dormes na hora em que teu Senhor te busca tão desvelado, acorda, desperta, levanta-te, e alumiar-te-á Cristo. — Coisa mui notável é, e grande confirmação do que tenho pregado que, sendo tão freqüentes no Velho e Novo Testamento as visões sobrenaturais e aparições in somnis, e madrugando o Senhor neste dia tanto antemanhã, e manifestando-se a tantos, a ninguém aparecesse nem alumiasse quando dormia. Alumiou a Madalena, quando não só estava com os olhos abertos, mas feitos duas fontes; alumiou as Macias, quando corriam a levar a nova da Ressurreição aos apóstolos; alumiou aos dois discípulos, quando caminhavam para Ematis; alumiou aos demais quando pela tarde estavam juntos no Cenáculo: a todos vigiando, e a nenhum dormindo. Até os santos, que ressuscitaram na mesma madrugada da Ressurreição, primeiro que o Senhor os alumiasse com sua vista, se levantaram eles da sepultura, onde dormiam o sono da morte: Et multa corpora sanctorum, qui dormierant, surrexerunt[65]. Assim foi e assim havia de ser, porque assim o tinha prometido o mesmo Cristo, não só antes de ressuscitar, senão antes de nascer. Qui mane vigilant ad me, invenient me (Prov. 8, 17): Os que vigiam de manhã e me buscam, achar-me-ão. — No dia ou na noite do nascimento os pastores acharam a Cristo, mas vigiavam, e não dormiam: Custodientes vigilias noctis[66]; os reis também o acharam, e também vigiavam, que, se não vigiassem, não veriam a estrela: Vidimus stellam ejus[67]. — No dia da Ressurreição sucedeu o mesmo, mas com diferença, porque a houve no vigiar. Às Manas apareceu-lhes o Senhor, ou às portas do sepulcro, ou no caminho quando tomavam; a S. Pedro e a S. João nem à ida nem à vinda lhes apareceu. Por quê? Porque elas foram muito cedo, eles vieram depois; elas madrugaram e vigiaram, e eles não. O que viram no sepulcro os dois apóstolos foi o lençol e o sudário em que o sagrado corpo fora amortalhado: Vidit João, et vidit Pedro linteamina posita, et sudarium (Jo. 20, 6 s). — A sua vista reservou-a o Senhor para as que vigiaram, o lençol para os que dormiram. E como o vigiar é ação de vida, e o dormir semelhança da morte, com razão às que vigiaram apareceu o Senhor ressuscitado e vivo, e aos que dormiram, deixou as mortalhas, que são os despojos de morto. É o que repete e brada com S. Paulo o meu perorador: Surge qui dormis, et exsurge a mortuis, et illuminabit te Christus: Tu que dormes, acorda; tu que jazes na sepultura do sono, pois estás morto, ressuscita, e verás a diferença dos que vigiam aos que dormem: aos que dormem, alumiá-los-á o sol; a ti, que vigias, alumiar-te-á Cristo, que por isso madrugou este soberano Sol antes do sol: Valde mane, orto jam sole.

E para que acabemos de entender que aos desvelos do amor de Cristo nesta madrugada não satisfará a nossa correspondência com menos que com as madrugadas de toda a vida, ouçamos ao mesmo Senhor. Tinha dito que todos os que madrugassem por seu amor o achariam: Qui mane vigilant ad me, invenient me (Prov. 8, 17) — e logo, explicando-se mais, e declarando quantas hão de ser estas madrugadas diz: Beatos homo qui audit me, et qui vigilat ad fores meas quotidie (Prov. 8, 34): Bem-aventurado o homem que me ouve, e vigia às minhas portas todos os dias. — Notai que não diz um dia, nem muitos dias, senão todos: quotidie. E notai mais que antes de dizer qui vigilat: o que vigia, diz qui audit me: o que me ouve. De sorte que os que madrugam por amor de Cristo todos os dias são os que ouvem ao mesmo Cristo todos os dias. E que vozes são estas que nós ouvimos, e com as quais o Senhor nos acorda e desperta todos os dias, para que madruguemos? Cristo não só fala por si mesmo, senão também pelos seus pregadores: Qui vos audit, me audit[68] — mas estas vozes nós ouvimos, e com que ele nos acorda todos os dias, nem podem ser as minhas, nem as de outro pregador, porque nenhum prega esta doutrina todos os dias, nem ainda nesta mesma manhã, em que eles vêm a dizer e vós a ouvir graças. Que pregador é logo este?

É o que eu escolhi para meu perorador, o qual todos os dias, e não uma só vez, senão três vezes vos desperta para que acordeis e vos recordeis. Na noite da Paixão estava tão esquecido S. Pedro de si mesmo, que nem se lembrava do que tinha prometido a seu Mestre, nem do que ele lhe tinha profetizado: Cantavit gallus: cantou o galo — diz o evangelista — et recordatus est Petrus verbi Jesu, quod dixerat (Mt. 26, 74 s): E nesta voz se recordou e lembrou Pedro do que o Senhor lhe tinha dito. — Assim havemos nós de fazer. Quando ouvirmos cantar o galo, naquela voz havemos de ouvir a Cristo, e lembrarmo-nos de que ele nos disse, que quem o ama, e ele ama, é o que madruga a o buscar, e esse o achará: Ego diligentes me diligo, et qui inane vigilant ad me, invenient me (Prov. 8, 17) — e que é bem-aventurado o que ouve e madruga para o buscar todos os dias: Beatus homo, qui audit me, et qui vigilat ad fores meas quotidie (ibid. 34). — Estes foram os maravilhosos efeitos que obrou aquela voz em S. Pedro, o qual todos os dias de sua vida, quando ouvia a voz do seu e nosso despertador, se levantava e prostrava diante de Cristo, chorando a fraqueza do seu pecado, dando-lhe graças pela vigilância e amor com que, cercado de tantas angústias, lhe pusera os olhos, e, dedicando-se a o amar e servir, não só naquele dia, senão em todos os de sua vida, até a dar por ele. E se assim o fizermos todos os dias, e de todo o coração, e nesta hora, e em memória dela, sem dúvida conseguiremos o que o Senhor promete aos que nela madrugarem: Qui me invenerit, inveniet vitam, et hauriet salutem a Domini[69] — alumiados da luz do divino Sol, que, antes do sol nascer, era já nascido: Valde mane, orto jam Sole.

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[1] No primeiro dia da semana, partindo muito cedo, chegaram ao sepulcro quando já o sol era nascido (Mc. 16, 2).
[2] Eu durmo, e o meu coração vela (Cânt. 5, 2).
[3] Conservava-se em pé da parte de fora, chorando junto do sepulcro (Jo. 20, 11).
[4] Eu dormi, e estive sepultado no sono, e levantei-me (SI. 3. 6).
[5] Eu de mim mesmo tenho poder de pôr a minha alma, e tenho poder de a reassumir (Jo. 10, 18).
[6] Crucifica-o, crucifica-o (Lc. 23, 21).
[7] Rodearam-me muitos cães (SI. 21, 17).
[8] Nascido já o sol, isto é, Cristo.
[9] Levanta-te, glória minha, levanta-te, saltério e citara (SI. 56, 9).
[10] Levanta-te, Senhor, entra no teu repouso; tu e a arca da tua santificação (SI. 131, 8).
[11] Assim como Jonas esteve no ventre da baleia três dias e três noites, assim estará o Filho do homem três dias e três noites no coração da terra (Mt. 12, 40). 12)
[12] Euth. cap. 68 in Matthaeum.
[13] Dizei a seus discípulos, e a Pedro, que ele vai adiante de vós esperar-vos em Galiléia: lá o vereis (Mt. 28, 7; Mc. 16, 7).
[14] Olhai que eu vo-lo disse antes (Mt. 28, 7).
[15] Como ele vos disse (Mc. 16, 7).
[16] Porém, depois que eu ressurgir, irei adiante de vós para a Galiléia (Mt. 26, 32).
[17] Estando fechadas as portas (Jo. 20, 19).
[18] Maldonat. In cap. 28 Matth.
[19] August. in 4 de Trinitate.
[20] D. Leo Serm. I de Ressurrect.
[21] D. Anselm. in Matth. cap. 12.
[22] Quem fará cessar a harmonia do céu (Jó 38, 37)?
[23] Que darei eu em retribuição ao Senhor, por todos os benefícios que me tem feito (SI. 115, 12).
[24] Nas madrugadas meditarei em ti (SI. 62, 7).
[25] Pela manhã se antecipará diante de ti a minha oração (SI. 87, 14).
[26] Na manhã me porei na tua presença (SI. 5, 5).
[27] Na manhã ouvirás a minha voz (ibid. 4).
[28] Para publicar pela manhã a tua misericórdia (SI. 91, 3).
[29] Adiantaram-se às vigílias os meus olhos (SI. 76, 5).
[30] Feito obediente até à morte, e morte de cruz. Pelo que Deus também o exaltou, e lhe deu um nome que é sobre todo o nome (Flp. 2, 8 s).
[31] Nas madrugadas meditarei em ti, na hora em que Cristo ressuscitou (Hug. Card. in psal. 62).
[32] Um dia diz uma palavra a outro dia, e urna noite mostra sabedoria a outra noite (SI. 18, 3).
[33] Levante-se Deus, e sejam dispersos os seus inimigos (SI. 67, 2).
[34] Tira os presos com fortaleza (ibid. 7).
[35] O carro de Deus vai rodeado com muitas dezenas de milhares, milhares são os que se alegram (ibid. 18).
[36] O nosso Deus é o Deus que tem a virtude de nos fazer salvos, e do Senhor, que é o Senhor, é a saída da morte (SI. 67, 21).
[37] D. Chrysost. in Psal. 5 ad illa vers.: Mane exaudies vocem meam.
[38] August. in Psal. 138 citat. a Cornel.
[39] Que, tendo nascido de uma Virgem, agora tornas a nascer do sepulcro.
[40] Sede misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso, o qual faz nascer o seu sol sobre bons e maus (Lc. 6, 36; Mi. 5, 45).
[41] Os cavalos do sol, Pírois, Éous, Éton, e o quarto, Flégon (Ov. Met. lib. 2, 153).
[42] Porque o que pelo fogo não podia ser devorado, aquecido por um escasso raio do sol, imediatamente se desfazia (Sab. 16, 27).
[43] Para que a todos fosse notório que importa prevenir o nascer do sol para te bendizer e adorar-te desde o raiar da manhã (ibid. 28).
[44] Porque a esperança do ingrato fundirá como o gelo do inverno, e se perderá (ibid. 29).
[45] Deu saltos como gigante para correr o caminho. A sua saída é desde uma extremidade do céu, e corre até à outra extremidade dele (SI. 18, 6 s).
[46] Ora eles corriam ambos juntos, mas aquele outro discípulo, a quem Jesus amava, correu mais do que Pedro, e, levando-lhe a dianteira, chegou primeiro ao sepulcro (Jo. 20, 2, 4).
[47] Eu te darei as chaves do reino dos céus (Mt. 16, 19).
[48] Filhinhos, amai-vos uns aos outros (1 Jo. 3, 23).
[49] Quando tudo repousava num profundo silêncio, e a noite estava no meio do seu curso, a tua palavra onipotente desceu do céu, do teu trono real (Sab. 18, 14).
[50] Bernard. Serro. 69 in Cantic.
[51] Tu és o meu Deus, porque não tens necessidade dos meus bens (SI. 15, 2).
[52] Pela manhã entregava à morte todos os pecadores da terra (SI. 100, 8).
[53] Um deus nos concedeu este descanso (Virg. Ecl. 1, 6)!
[54] Que fabricou a aurora e o sol (SI. 73, 16).
[55] Amanhã é a solenidade do Senhor (Êx. 32, 5).
[56] E, levantando-se pela manhã, ofereceram holocaustos (ibid. 6).
[57] E o povo se assentou a comer e beber, e depois se levantaram a brincar (ibid.).
[58] Mas quando já era chegada a vigília da manhã, eis que, olhando o Senhor para o campo dos egípcios por entre a coluna de fogo e de nuvem, destruiu todo o seu exército (Êx. 14, 24).
[59] Estes são, ó Israel, os teus deuses, que te tiraram da terra do Egito (Êx. 32, 8).
[60] Os seus olhos são como as pestanas da aurora (Jó 41, 9).
[61] O qual morrendo destruiu-nos a morte, e ressuscitando restaurou-nos a vida.
[62] Cantou o galo, Pedro se lembrou, e chorou amargamente (Mt. 26, 74 s).
[63] Quem pôs a sabedoria no coração do homem? Ou quem deu inteligência ao galo (Jó 38, 36)?
[64] Eles — os galos — não sofrem que o sol nos venha surpreender desacautelados (Plinius, lib. 10. cap.21).
[65] E muitos corpos de santos, que eram mortos, ressurgiram (Mt. 27, 52).
[66] Que vigiavam as vigílias da noite (Lc. 2, 8).
[67] Vimos a sua estrela (Mt. 2, 2).
[68] O que a vós ouve a mim ouve (Lc. 10, 16).
[69] Aquele que me achar achará a vida. e haverá do Senhor a salvação (Prov. 8, 35).

Fonte: https://www.literaturabrasileira.ufsc.br/documentos/?action=download&id=49806