Sermão do Sábado antes da Dominga de Ramos (1634)

SERMÃO DO SÁBADO ANTES DA DOMINGA DE RAMOS

NA IGREJA DE NOSSA SENHORA DO DESTERRO, BAHIA, ANO DE 1634


Cogitaverunt principes sacerdotum ut et Lazarum interficerent: quia multi propter illum abibant ex Judaeis, el credebant in Jesum. In crastinum autem turba multa, quae venerai ad diem festum, cum audissent quia venit Jesus Jerosoluman, acceperunt ramos palmarum, et processerunt obviam ei[1].

I – Que se pode esperar de uma consulta dos príncipes dos sacerdotes, senão coisas de grande glória de Deus e grandes bens dos homens? As causas que alegaram os sacerdotes para a morte de Cristo.

O tema é grande, mas o sermão será pequeno. São as palavras do evangelista S. João aos doze capítulos de sua História Sagrada. Querem dizer: — Fizeram consulta os príncipes dos sacerdotes. — Quando logo encontrei com este princípio, fiz esta consideração. Consulta, os príncipes dos sacerdotes! Sem dúvida que sairão dela grandes bens à república: é gente eclesiástica, e, pelo conseguinte, douta e santa; que se pode esperar de uma consulta sua, senão, coisas de grande glória de Deus e grandes bens dos homens? Assim o imaginava eu, mas enganei-me. Contra Deus, e contra os homens sim. O que saiu da consulta foi que em todo o caso morresse Cristo, como tio dia dantes se tinha decretado; isso quer dizer aquele etut et Lazarum — como interpretam os doutores; e não só que dessem a morte a Cristo, senão que também tirassem a vida a Lázaro, a quem o Senhor pouco antes tinha ressuscitado: Ut et Lazarum interficerent. — Há juízos mais apaixonados? Há sentença mais enorme? Ora, ouçamos as causas que alegam, e admirar-nos-emos muito mais. — Morra — dizem — Cristo, porque faz milagres; porque dá saúde a enfermos e vida a mortos; porque é amado; porque é estimado; porque é seguido; e morra Lázaro, porque, sendo ressuscitado por virtude de Cristo, é causa de o amarem, de o estimarem, de o seguirem: Quia multi propter illum abibant ex Judaeis, et credebant in Jesum. — Honrado crime! Tudo isto passou como hoje. — In crastinum autem — porém, ao outro dia, diz o evangelista que entrou o Príncipe da glória a cavalo por Jerusalém triunfando — dentro porém dos limites de sua modéstia e humildade — servindo-lhe de pomposo acompanhamento a multidão infinita do povo, que com palmas e aclamações, devoto o seguia: Turba multa, quae venerat ad diem festum, acceperunt, ramos palmarum, et processerunt obviam ei (Jo. 12, 12 s). — Até aqui a letra do nosso tema. O que temos que ver é uma causa crime, sentenciada, apelada, revogada. Do primeiro tribunal sairão culpados os inocentes; do segundo sairão condenados os juízes. Pouco disto parece que está no tema, mas tudo tiraremos dele. Não o mostro logo, por não gastar dois tempos. Peçamos a graça.

II – Conselho de Platão aos que governam. O que acontece aos louvores nos tribunais onde a inveja preside? Os elogios de Doeg, exaltando a Davi diante de Saul. Os mandamentos da lei de Deus e os mandamentos da lei da inveja.

Dizia Platão que os que julgam ou governam era bem que dormissem sobre as resoluções que tomassem. Parecia-lhe ao grande filósofo que o juízo consultado com os travesseiros, era força que saísse mais repousado. Assim aconteceu aos nossos juízes do Evangelho, os príncipes dos sacerdotes: dormiram so­bre a resolução que ontem tomaram de tirar a vida a Cristo, porém, hoje acordaram em conselho com um conselho tão desacordado, como foi confirmarem uma sentença a mais injusta, a mais bárbara, a mais sacrílega, que nunca se deu nem há de dar no mundo. Perguntara eu a suas senhorias dos príncipes dos sacerdotes: — E bem, senhores, fazer milagres, ressuscitar mortos, ser estimado, ser querido, que culpa é, ou contra que lei? No Êxodo, no Levítico, no Deuteronômio, que são os cânones por onde vos governais, não há texto que tal proíba: pois, ignorância? Seria afronta de um tribunal tão autorizado querer presumi-la nele. Deu a razão de tudo Eutímio, em duas palavras. liaque tota res est invídia: o caso é que tudo neste caso é inveja. — Pois, já me não espanto que achassem os príncipes dos sacerdotes na mesma bondade crimes na mesma inocência culpas, no mesmo Cristo pecados, por que nos tribunais, ou públicos eu particulares, onde a inveja preside, as virtudes são locadas, os merecimentos são culpas, as obras ou boas qualidades, são crimes.

Estava Saul um dia muito melancolizado e triste, desejou que lhe buscassem algum bom músico, não sei se para se alegrar, se para se entristecer mais. Acudiu logo um dos cortesãos que o assistiam, dizendo que não podia sua majestade achar outro como Davi, porque além ele grande músico, era mancebo muito valente, de grande inteligência nas matérias de guerra, cortesão, avisado, gentilhomem, e, sobretudo, muito virtuoso e temente a Deus: Vidi filium Isai scientem psallere, et fortissimum robore, et virum bellicosum, et prudentem in verbis, et virum pulchrum: et Dominus est cum eo[2]. — Há mais panegírico que este? Parece-me que estão dizendo todos os que o ouviram que é grande coisa ter um amigo em palácio, e que este devia ser mui verdadeiro de Davi, pois sabia fazer tão bons ofícios para com ele diante de el-rei. Tal é o mundo, que muitas vezes parecem finezas de amizade o que são ódios refinadíssimos. Dizem os doutores hebreus como refere Nicolau de Lira, que este cortesão que aqui falou era Doeg, capital inimigo de Davi. Capital inimigo de Davi, e gasta tanta retórica em seus louvores? Capital inimigo de Davi, e de um fundamento tão leve, como ser músico, toma ocasião para fazer um aranzel tão largo de suas grandezas? Sim. Descobriu-lhe a tenção delicadamente um expositor grave, português, e de nossa Companhia: Sciebat Saulem esse invidum, et alienis laudibus incredibiliter cruciaria laudat igitur Davidem apud Saulem, ut Saul invidiae stimulis agitatus interficiat Davidem. — Sabia Doeg que era Saul grande êmulo de Davi, que o invejava muito, e como no juízo dos invejosos os merecimentos são culpas, e as excelentes qualidades delitos, louvou e engrandeceu a Davi diante de Saul, para que Saul, como fez, desse sentença de morte contra Davi. — Disse que era prudente, guerreiro, esforçado, gentil-homem, virtuoso, e dotado de tantas outras boas partes; e quem bem entendesse toda esta ladainha de encômios e louvores, bem podia dizer por Davi: Orate pro eo. — Eram capítulos que contra ele se apresentavam ao rei, não menos que de lesa-majestade. Pareciam louvores, e eram acusações; pareciam abonos, e eram calúnias. Caluniado o inocente na sua virtude, e acusado o benemérito nas suas boas obras, sem que à inocência se lhe desse defesa, nem ao merecimento lhe valessem embargos, porque era o juiz a inveja.

Que bem o entendeu assim o mesmo Davi! Dê-nos a confirmação quem nos deu a prova. Passou-se o perseguido mancebo para a corte de Aquis, rei e reino contrário ao de Saul, e que por isso parecia seguro. Ia só, desconhecido e disfarçado, mas como levava por companheira a sua fama, e esta nunca sabe guardar silencio, começou a correr logo pela corte que era chegado o valente de Israel, o matador do Golias, aquele a quem as damas de Jerusalém compuseram a letra que então andava muito valida: Percussit Saul mille, David decem millia[3]. — Coisa maravilhosa a que se segue! Tanto que chegou aos ouvidos de Davi o que passava, diz a Escritura que começou a recear muito aparecer diante de Aquis: Posuit David sermones istos in corde suo, et extimuit valde a fatie Achis regis[4] — e a última resolução que tomou foi fugir dali e ir-se meter em uma cova: Fugit autem inde in speluncam Odollam[5]. — Pois Davi, que resolução é esta vossa? Que quer dizer irdes-vos fazer ermitão de um deserto, quando vos vedes tão acreditado em uma corte? Quando vos vedes com tanta fama diante do rei, para que fugis de sua presença? Entendia-o como prudente,obrava como experimentado. São os louvores no tribunal da inveja acusações: e porque Davi se viu tão louvado, homiziou-se. O ver-se louvado era ver-se acusado; o ver suas grandezas referidas era ver as suas culpas provadas; teve logo muita razão de se homiziar e fugir, tanto de si como de seus êmulos. Os sátrapas e primeiros ministros de Aquis eram mui picados de inveja contra os hebreus: e como havia de escapar deles, e viver na mesma corte Davi, criminoso das suas vitórias, e réu da sua fama? Se se dissera de Davi que era um falsário, um perjuro, um adúltero, um homicida, um roubador do alheio, e outras baixezas, se as há ainda maiores, passeara Davi na corte; e entrara muito confiado no palácio do rei, porque ali têm estes serviços prêmio, ou, quando menos, passam sem castigo; porém, dizendo-se dele tantas virtudes, tantas grandezas, tantas façanhas, tantas excelências, andou como prudente em se homiziar, em fugir, porque todas essas excelências e grandezas eram crimes contra a pessoa e privados de Aquis, e delitos sem perdão contra as leis da inveja. Considero eu que há mandamentos da lei da inveja, assim como há mandamentos da lei de Deus. Os mandamentos da lei de Deus dizem: Não matarás, não furtarás, não levantarás falso testemunho; os mandamentos da lei da inveja dizem: Não serás honrado, não serás rico, não serás valente, não serás sábio, não serás bem disposto, e também dizem, não serás bom pregador, e se acaso Deus vos fez mercê que soubésseis pôr os pés por uma rua, que soubésseis apertar na mão uma espada, que fôsseis discreto, generoso, ou rico, ou honrado, no mesmo ponto tivestes culpas no tribunal da inveja, porque pecastes contra os seus mandamentos. Por estas culpas esteve tão arriscado Davi, por estas foi hoje condenado seu filho, Cristo, que assim lhe chamaram as turbas no Evangelho: Hosanna Filio David[6]. — Era grande pregador, fazia muitos milagres, dava saúde a enfermos, ressuscitava mortos, e como estas excelências, ou estas culpas, estavam provadas com os aplausos, com as aclamações, com o amor e seguimento dos povos: Multi abibant ex Judaeis, et credebant in Jesus[7] — confirmou-se o primeiro decreto e saiu a segunda sentença: que morra Cristo: Ut et Lazarum, idest, ut Christum et Lazarum interficiant.[8]

III – Por que condenam a Lázaro? A inocência de Lázaro e a inocência do moço cego de seu nascimento. As culpas da túnica de José e a impecabilidade de Lázaro.

Bem está, ou mal está: porém, a Lázaro por que o condenam? Não lhe neguemos sua defensa natural. Se o condenam, como dizem, porque o ressuscitou Cristo: que culpa é ser um homem ressuscitado? Tão longe esteve de culpa neste caso, que nem a teve em ato nem em potência; nem a teve, nem a pode ter. Curou Cristo um moço cego do seu nascimento, e perguntaram os discípulos, cuidando que excitavam uma questão de grande habilidade: Domine, quis peccavit, hic, aut parentes ejus, ut caecus nasceretur(Jo. 9, 2)? — Senhor, por cujos pecados nasceu este moço cego: pelos seus, ou pelos de seus pais? — Riem-se muito desta pergunta os expositores, e em particular Teofilato, porque, se o moço nascera cego por seus pecados, seguir-se-ia que pecara antes de nascer; e que maior disparate pode dizer-se, ou imaginar, que ter um homem pecados antes de ter ser: ser pecador antes de ser homem? Não menos inocente que isto estava Lázaro. Estava morto, quando Cristo o ressuscitou, e por benefício do não ser estava impecável. Assim que podemos dizer dele, neste caso, o que de Eurialo disse seu grande amigo Niso: Nihil iste, nec ausus, nec potuit: Nem teve culpa, nem a pôde ter — inocente em ato e em potência. Mas, com ser assim, são tão linces os olhos da inveja que, nestes impossíveis de pecado, descobriram e acharam culpas dignas de morte: Ut et Lazarum interficerent. — E por quê? Quia — eis aqui a culpa — quia multi propter illum credebant in Jesum: Porque muitos por causa ou por ocasião dele criam em Jesus.

Fizeram conselho sobre José seus irmãos: saiu dele que morresse; e, quase com as mesmas palavras que temos no Evangelho, o refere a Escritura: Cogitaverunt eum occidere[9]. — Sabida a causa, era porque o amara Jacó particularmente, e além da samarra ou pelote do campo, com que ia guardar as ovelhas corno os demais, fizera-lhe o pai uma túnica ou pelote não sei de que estofazinha melhor: Tunicam polymitam (Gên. 17, 3) — com que aparecia os dias de festa na aldeia menos pastor que os outros. Ah! quantos Josés destes há hoje no mundo! Invejados, murmurados, perseguidos: por quê? Porque lhes deu a fortuna com que trazer uma capa melhor que a vossa. Assim estava condenado o inocente moço, quando trouxe sua ventura por ali um mercador israelita, que prometeu por ele vinte reais, e os cobiçosos irmãos, que eram dez, por quatro vinténs, que cabiam a cada um, venderam a seu irmão e as suas consciências.

Tinham-lhe já despido a túnica, causa das invejas, e não tinha bem virado as costas José, quando os vendedores arremetem a ela, e a começam a fazer eu desfazer em pedaços. — Parai aí, ingratos irmãos, parai, e respondei-me, que quero argüir-vos: Não está já vendido José? Vossa cólera não está já vingada? Vossa fereza não está já satisfeita? Essa túnica, que culpa tem, ou que culpa pode ter? Por que a fazeis em pedaços? Bem sei que não haveis de ter boca para me responder: mas responderá por vós Ruperto Abade: Fraternae gloriae monumentum impeccabile — notai muito aquele impeccabile — fraternae gloriae monumentum impeccabile laceratur: adeo nec morte nec venditione satiatur invidia. — Nenhuma culpa tinha a túnica de José, que mal a podia ter a seda ou lã insensível, sem vida, sem alma, sem vontade. Contudo, nesta incapacidade natural e neste impossível de culpa acharam uma os invejosos irmãos, e foi ser instrumento da glória de José: Fraternae gloriae monumentum. — Era prenda da particular afeição de Jacó, era gala com que José se autorizava, com que luzia mais que os irmãos, com que granjeava respeito nos estranhos, e isto lhe bastou por culpa, para sem culpa a despedaçarem: Monumentum impeccabile laceratur. — Não sei se pudera achar em toda a Escritura passo que mais ao vivo declarasse o que temos entre mãos. Nenhuma culpa tinha cometido Lázaro, antes, nem a podia ter quando o ressuscitou Cristo, como vimos; e nesta grande inocência, antes, nesta impecabilidade soube a inveja descobrir culpas, e culpas dignas de morte, que foram ser instrumento das glórias de Cristo: Quia multi propter illum credebant in Jesum. — Fora famosa, e mais que todas, a ressurreição de Lázaro, admirando-se e pasmando a gente de ver passar pelas ruas de Jerusalém o que tinham visto de quatro dias morto na sepultura; e como toda esta admiração redundava em fama e glória do ressuscitador, por ser instrumento da glória desta fama, condenam a Lázaro a perder a vida: Ut et Lazarum inter ficerent. — Bem assim como a inveja dos irmãos de José, não contente com se vingar nele, passou a executara vingança na túnica inocente: Adeo nec morte nec venditione satiatur invídia.

IV – As condenações e penas dos juízes de Cristo e de Lázaro. Jó e os tormentos de um pensamento frustrado ou de um intento sem execução. Por que se enforcou Aquitofel, conselheiro de Davi e Absalão?

Pronunciada contra Cristo e contra Lázaro esta tão injusta sentença, como a inocência quanto mais cala então alega melhor por si diante de Deus, serviu este silêncio de apelação ante seu divino tribunal. Não tardou muito o despacho — que no juízo do céu não há dilações — e o que saiu nele foram dois decretos contra os dois dos pontífices, nesta maneira: o primeiro, que a sentença dada contra Lázaro se não executasse, que ficasse só em intentos: Cogitaverunt; o segundo, que Cristo entrasse ao outro dia por Jerusalém triunfando, recebido com palmas e aclamado do povo: Acceperunt ramos palinarum, et processerunt obviam ei. — Assim o diz o tema. Mas vejo que me argúem. Não tinha eu prometido ao princípio que na revogação das sentenças ficariam os juízes condenados? Onde estão estas condenações? Onde estão estas penas? Essa é, a graça, serem-no e não o parecerem. Não se executar a morte de Lázaro foi a primeira pena; entrar Cristo por Jerusalém triunfando foi a segunda. Vejamos a primeira, logo passaremos à outra.

Estava Jó coberto de lepra, com as dores e trabalhos que tantas vezes se têm repetido nos púlpitos, e nunca assaz exagerado, começa a queixar-se e dizer assim: Dies mei transierunt; cogitationes meae dissipatae sunt, torquentes cor meum (Jó 17, 11): Passaram-se meus dias, e os contentamentos que neles tinha também se passaram, que para não durarem muito bastava serem meus: dies mei, alguns intentos que tive: Cogitationes meae — abortou-nos a fortuna, não chegaram a ter execução: dissipatae sunt — e isto, diz Jó, é a maior pena que padeço, porque quantos foram então esses intentos, tantos verdugos tenho agora que me atormentam a alma: torquentes cor meum. — Não acabo de me admirar que um homem, que tanta razão tinha de saber avaliar tormentos, saísse com semelhante queixa. — E bem, exemplo da paciência, tão mimoso andais vós da fortuna, que de coisas tão poucas vos queixais tanto? Não tendes perdas de fazenda o mortes dos filhos, ruína da casa e do estado, dores, tristezas, desamparos, misérias, o corpo feito uma chaga viva: que tem que ver com tudo isto os intentos não executados, para só vos queixardes deles: Cogitationes meae dissipatae sunt? — Falou como grande mestre de paciência. Tinha tomado os pulsos Jó a tudo o que é dor, a tudo o que é pena, a tudo o que é tormento; e porque achou que não há dor tão excessiva, pena tão cruel, tormento tão insofrível como um pensamento frustrado, um intento sem execução, por isso, tendo tanto de que se queixar, só se queixa de se frustrarem seus pensamentos, e de seus intentos se não executarem: Cogitationes meae dissipatae sunt. — Como era tão dificultoso o crédito deste encarecimento, não o quis fiar Jó dos expositores; ele se fez comentador de si mesmo no verso seguinte: Si sustinuero, infernus domus mea est. Putredini dixi: Pater meus es: puder mea, et soror mea, vermibus (Jó 17, 13 s): Não cuide alguém — diz — que são hipérboles ou exagerações fantásticas o que digo, porque de verdade é o tormento, que padeço tão insofrível, e tão desesperado que, se durar mais um pouco: si sustinuero — bem me podem abrir a cova. O que os mortos sem padecer experimentam na sepultura, isso é o que executam em mim os meus pensamentos, porque não há corrupção que tanto penetre e desfaça, não há bichos que tanto comam e carcomam um cadáver como os mesmos pensamentos que estão mordendo o coração, e roendo a alma; e o pior é que não acabam de matar, mas, matando-me, me estão gerando outra vez, como se foram meu pai e minha mãe, para mais penar: Putredini dixi: Pater meus es tu; mater mea, et soror mea, vermibus[10]. — Comparemos agora o cogitationes meae de Jó com o cogitaverunt dos nossos juízes, e veremos se ficaram condenados. Tiveram intentos de matar a Lázaro: Cogitaverunt ut Lazarum interficerent — ficaram esses intentos no ar, não chegaram a ter execução: Cogitationes meae dissipatae sunt[11] — e assim, não executados, foram os verdugos que lhes apertaram o garrote à alma: Torquentes cor meum — executando neles a sentença de Deus, sentença não menos que de morte e sepultura: Si sustinuero, sepulchrum domus mea est[12].

Satisfaçamos agora aos curiosos. Suposto que foi a sentença de morte esta, e as de morte são tão várias, perguntar-me-ão que gênero de morte foi? O nome não lhe saberei eu dar, mas digo que é uma morte da casta daquelas que por mais penar não matam, uma morte interior, que se sabe sentir, mas não se sabe explicar, tão rigorosa, tão cruel que, se Deus mandara pendurar de um pau todos estes príncipes dos sacerdotes contra os foros de sua dignidade, muito mais benigna e piedosa fora a sentença. Deu Aquitofel um conselho a Absalão, com que sem dúvida ficaria desbaratado seu pai Davi, contra quem o ingrato filho se levantara; não o aceitou Absalão, por permissão do céu, e tomou outro bem diferente, que lhe deu Cusai. Tanto que Aquitofel viu isto — ouvi um caso raro e espantoso — põe-se a cavalo, parte-se para sua casa, faz seu testamento, deita um laço a uma trave, enforca-se: Abiit in domum suam, et disposita domo sua, suspendia interiit (2 Rs. 17, 23). — Muitas questões se podem levantar sobre este caso. A dos canonistas bem à mão está, e é se se havia de enterrar este homem em sagrado, ou não? A Escritura diz que o enterraram na sepultura de seu pai: Sepelierunt eum cum patribus suis — mas isto não faz argumento, porque naqueles tempos nem as sepulturas estavam nas igrejas, nem havia ainda o capítulo Placuit [13] — e, dado que uma e outra coisa fora, entre todos os santos e doutores que escreveram sobre o passo, só um rabino diz que não estava Aquitofel em seu juízo. Se assim é — agora entra a minha questão — se estava em seu juízo Aquitofel, como fez uma ação tão desassisada, como é enforcar-se um homem com suas próprias mãos? Disse-o a Sagrada Escritura, e é prova maravilhosa do nosso intento: Videns quod non fusset factum consilium suum, abiit in domum suam, et suspendio interiit. — A única e total razão por que se enforcou Aquitofel, diz o texto, foi: Videns quod non fuisset factum consilium suum: Porque viu que não fora executado seu conselho. — Quem dera crédito a tal cousa, por mais doutores que o disseram, se o mesmo Espírito Santo o não afirmara? Tão cruel executor é um conselho não executado, tais dores, tais penas, tais tormentos causa na alma de quem o considera que, estando um homem em seu inteiro juízo, escolhendo, segundo as regras da prudência, do mal o menos, teve por melhor morrer a suas próprias mãos, agonizando em uma forca, que viver padecendo os rigores de um tormento tão desesperado, Assim o experimentou Aquitofel, e para que assim o experimentassem os invejosos pontífices, ordenou Deus que não chegasse a ter execução o conselho que entre si tomaram de tirar a vida a Lázaro, ficando neles esse mesmo conselho não executado por executor da mesma morte, ou porventura, de outra mais cruel que a que lhe determinavam dar: Cogitaverunt principes sacerdotum ut et Lazarum interficerent.

V – Como foram condenados, os juízes pela sentença injustamente dada contra Cristo Por que os vendilhões do Templo, açoitados por Cristo, nem uma palavra dizem contra ele? A parábola do rico avarento. Por que busca tantas traças e invenções o rico avarento para que saia Lázaro, sequer por um breve espaço, do seio de Abraão? A entrada triunfal de Cristo em Jerusalém, crucifixão dos pontífices e sacerdotes. A história de Amã e Mardoqueu.

Condenados temos os juízes pela primeira sentença injustamente dada contra Lázaro. A injustiça da segunda, dada contra Cristo, era muito mais atroz; e para que o fosse também em a pena e o castigo, mandou Deus, como dizíamos, que entrasse o Senhor por Jerusalém triunfando: Acceperunt ramos palmarum, et processerunt obviam ei[14]. — Funda-se o rigor desta pena em uma vilania da condição natural dos invejosos, com que mais sentem os bens alheios, e suas glórias, que os males e tormentos próprios. Entrou Cristo, Senhor nosso, um dia no Templo de Jerusalém, e vendo que se estavam ali vendendo pombas, cabritos, cordeiros, e ainda novilhos, indignado de tamanho desacato, toma as cordas com que vieram atados aqueles animais, faz delas uns como azorragues, começa a açoitar os que compravam e vendiam. Compras e vendas feitas na Igreja castiga-as Deus por sua própria mão, e não comete a outrem a execução de semelhantes delitos, sem reparar em sua autoridade. Mas, cuidava eu que se agravariam muito estes homens de se verem tão áspera e tão baixamente tratados por Cristo, e que quando não chegassem a lhe pôr as mãos, ao menos o blasfemassem. Fui, porém, ver o texto, e achei que nenhuma má palavra disseram contra Senhor, não o reconhecendo por tal. Comparando, pois, este passo com outros de sua vida, mui diferentes, faz esta ponderação S. João Crisóstomo. Se quando Cristo sarou o mudo, o acusaram por endemoninhado, se quando Cristo deu vista a um cego, o queriam apedrejar, se quando ressuscita a Lázaro, dão contra ele sentença de morte, como agora, que os açoita e os trata como escravos, nem sequer uma má palavra dizem, contra Cristo? Como o não acusam, como o não apedrejam, como o não matam? Divinamente o santo padre: Animadvertis invidiam incredibilem, et quonam pato in alios collata beneficia coagis eos irritabant? Não vedes, diz Crisóstomo, a vilania destes invejosos, que mais se doíam dos bens alheios que dos males próprios? Sarar Cristo enfermos, dar vida a mortos, eram bens alheios: por isso o sentiam tanto que queriam apedrejar a Cristo e tirar-lhe a vida; açoitá-los Cristo a eles, e tratá-los como escravos, eram males próprios: por isso o sentiam tão pouco, que nem uma só má palavra disseram contra o mesmo Cristo. Mais. Os milagres que Cristo obrava eram fama e glória para Cristo; os açoites com que os castigava eram pena e afronta para eles: mas como era gente invejosa, mais sentiam a fama e glória de Cristo que as penas e afrontas suas, excesso verdadeiramente da inveja, não só admirável, mas incrível: Invidiam incredibilem. — Parecerá encarecimento a confirmação que hei de dar a este passo, mas tem bom fiador.

Ardia no inferno o rico avarento, e vendo dali o pobre Lázaro no seio de Abraão, disse assim: Pater Abraham, miserere mei, et mitte Lazarum ut intingat extremum digiti in aguam, ut refrigeret linguam meam (Lc. 16, 24): Pai Abraão, tende compaixão de mim; mandai a Lázaro que molhe a ponta do dedo na água, e me venha refrigerar a língua. — Não lhe deferiu Abraão o gosto, mas como da avareza é tão próprio o pedir como o não dar, tornou o avarento a fazer segunda petição: Rogo te, pater, ut mittas eum in domum patris mei: habeo enim quinque fratres, ut testetur illis, ne et ipsi veniant in hunc locum (ibid. 27 s): Rogo-vos muito, pai Abraão, que ao menos mandeis a Lázaro a casa de meus irmãos, que lhes diga o que por cá passa, para que não se condenem. — Ou eu me engano, ou estas petições dizem uma coisa e pretendem outra. Se as labaredas do inferno são tão grandes como sabemos, e o avarento o sabia por experiência, como é possível que tivesse para si que as podia refrigerar tão pouca água quanta pode levar a ponta de um dedo? Mais. Se no inferno não pode haver caridade nem amor, que se lá o houvera não fora inferno, fora paraíso, como é possível que tivesse este condenado tanto amor para com seus irmãos, que lhes queira mandar pregadores da outra vida para que se convertam? Quanto mais que, para o refrigerar do incêndio, qualquer outro o podia fazer tão bem como Lázaro, e para pregar a seus irmãos muitos outros o podiam fazer melhor que ele. Qual é logo a razão por que em uma e outra proposta sempre insiste unicamente em que vá Lázaro: em uma: Mitte Lazarum — em outra: Rogo ut mittas eum? — O caso é que nenhuma destas coisas pretendia o avarento, e todo o seu intento e teima era tirá-lo do seio de Abraão, e fazer que, ao menos por algum tempo, não gozasse o descanso em que o via. É sutileza de S. Pedro Crisólogo, e a razão não só tão delicada, mas tão natural como sua: Quod agit dives, non est novelli doloris, sed livoris antiqui: zelo magis incenditur quam ehenna: Sabeis — diz Crisólogo — por que busca o avarento tantas traças e invenções para que saia Lázaro, sequer por um breve espaço, do seio de Abraão? É porque se está comendo de inveja, porque vê agora em tanta felicidade o que noutro tempo viu em tanta miséria: Zelo magis incenditur quam gehenna. — Aqui vai o sutil do pensamento. O avarento está no inferno, mas o inferno do avarento mais está no seio de Abraão que no mesmo inferno, porque mais o atormenta no seio de Abraão o descanso e felicidade que ali está gozando Lázaro, que no fogo do inferno as mesmas chamas em que ele está ardendo. Pedia que saísse Lázaro do seu descanso, e que trouxesse água para o refrigerar; e o refrigério estava, não na água, que havia de trazer, senão no descanso de que havia, de sair. Como era invejoso, mais o abrasavam as glórias alheias, que via, que os infernos próprios, em que penava: Zelo magis incenditur quam gehenna. — Este foi o gênero de castigo a que a divina justiça condenou os injustos príncipes dos sacerdotes, mui conforme a quem eles eram. Eram invejosos, como vimos, e porque nenhuma pena os havia de atormentar tanto como as glórias de Cristo, entra o Senhor diante de seus olhos em Jerusalém, triunfando com uma universal aclamação de filho de Davi e rei de Israel, com um perpétuo victor nas bocas e nas mãos de todos: Acceperunt ramos palmarum, et processerunt obviam ei.

Bem pudera eu dizer que foi este maior castigo que se Deus lhes mandara dar cem açoites, como pelas ruas públicas os negociantes do Templo; bem pudera dizer que foi maior castigo que se os lançasse logo nas chamas do inferno, como o rico avarento; mas em parte quero ir menos rigoroso por ir mais própria. Sabida coisa é que a pena que os juristas chamam talionis é entre todas a mais proporcionada. Digo, pois, que foi esta pena dos pontífices, pena e tormento de cruz. Eles quiseram crucificar a Cristo, e Cristo crucificou-os a eles. Não é meu o pensamento ou a sentença, senão do grande padre da Igreja, Santo Agostinho: Quam crucem mentis invidentia Judaeorum perpeti poterat, quando regem suum Christum tanta multitudo clamabat: Que vos parece que foi para os invejosos pontífices entrar Cristo por Jerusalém triunfante? Que vos parece que foi, diz Agostinho, senão crucificá-los? Aquelas aclamações do povo eram os pregões que iam diante publicando o delito de sua injustiça; aquelas palmas, que levavam nas mãos, eram as cruzes em que invisivelmente iam crucificados na alma: cruce mentis. — Bem lembrados estareis da história de Amã, privado de el-rei Assuero. Mandou Amã levantar uma cruz para crucificar nela a Mardoqueu, só porque uma vez se não levantou passando ele. A tais soberbas e insolências chegam os priva‑ dos de quem não sabe ser rei. Porém, trocou a fortuna as mãos, revogou-se a sentença em outro tribunal superior e o crucificado foi o Amã. Assim aconteceu aos príncipes dos sacerdotes. Eles no seu tribunal quiseram crucificar a Cristo; porém, o tribunal divino, em pena de sua injustiça, ordenou que neles se executasse a sua sentença, e que fossem eles os crucificados, não em uma só cruz, porque eram muitos, senão em tantas cruzes quantas foram as palmas do triunfo de Cristo: Acceperunt ramos palmarum, et exierunt obiam ei.

VI – O desterro de Cristo no Egito. Por que diz Davi que se ajuntaram e se uniram reis e príncipes contra Cristo?A pena a que Deus condenou Herodes e os príncipes dos sacerdotes: a frustração de seus intentos. A pena a que Deus condenou o demônio: a entrada triunfante de Cristo no Egito. O inferno dos demônios que ficaram na região do ar.

Tenho concluído com o Evangelho, e satisfeito ao que prometi. Resta-me dar satisfação ao lugar em que estou, que é o do desterro, cuja devoção, neste sábado ferial, convocou a ele tão grande auditório. Considerei devagar que parte deste discurso lhe acomodaria. E porque nenhuma achava que lhe servisse, determinei fazer-me um acinte a mim mesmo, e acomodar-lho todo. Tudo quanto até aqui tenho dito foi uma representação do que passou no desterro de Cristo. Para inteligência desta consideração havemos de supor que os juízes que condenaram a Cristo à morte, quando o Eterno Padre lha comutou em desterro, não foi só Herodes, como parece, senão Herodes e juntamente o demônio. Provo: Astiterunt reges terrae, et principes convenerunt in unum adversus Dominum, et adversus Christum ejus (Sl. 2, 2): Ajuntaram-se os reis da terra, e uniram-se em votos os príncipes contra Cristo — diz Davi — e não é pequena a dificuldade desta profecia. Se a entendemos da morte que Cristo com efeito padeceu, não houve então mais que um rei, que foi Herodes; se a entendemos da morte que lhe quiseram dar quando nascido, da mesma maneira não houve mais que um rei, que foi também Herodes — não já o mesmo, senão outro do mesmo nome, que um tirano que perseguiu inocentes, não havia de viver trinta e três anos. — Diz agora S. João Crisóstomo: Numquid Herodes reges? Porventura Herodes é muitos reis, Herodes é muitos príncipes? Claro está que não. Pois, se é um só rei e um só príncipe, como diz Davi que se ajuntaram e se uniram reis e príncipes contra Cristo: Astiterunt reges terrae, et principes convenerunt in unum? — A resposta do mesmo santo padre é o que eu dizia: In rege Herode peccati quoque regem ostendit. — Olhava Davi com os olhos proféticos, que vêem o visível e o invisível, e por isso diz que se ajuntaram reis e príncipes contra Cristo, porque os que o condenaram à morte não foi só Herodes, senão Herodes e mais o demônio. Herodes rei de Judéia, o demônio rei do pecado; Herodes príncipe da terra, o demônio príncipe do inferno: In Herode peccati quoque regem ostendit. — E, se bem considerarmos o motivo que Herodes e o demônio tiveram para querer tirar a vida a Cristo e aos inocentes na ocasião de seu desterro, acharemos que é a mesma com que a inveja moveu os príncipes dos sacerdotes a querer matar, não só ao ressuscitador, senão também ao ressuscitado. Estes, porque viam a Cristo reconhecido e aclamado por rei de Israel, e que muitos criam nele: Multi abibant ex Judaeis, et credebant in Jesum — e Herodes, e com ele o demônio porque já o começavam a ver em seu nascimento buscado e venerado dos reis do Oriente, e dentro da corte do mesmo Herodes aclamado por Messias e rei dos judeus: Ubi est qui natus est rex Judaeorum[15]?

Vista a semelhança da condenação de Cristo no tribunal dos homens, segue-se ver a condenação dos juízes no tribunal de Deus com a mesma propriedade. A primeira pena a que Deus condenou os príncipes dos sacerdotes foi, como vimos, que ficassem frustrados os seus intentos; e tal foi também a de Herodes. Disse Herodes aos Magos: Ite, interrogate diligenter de puero: — Ide, informai-a Cristo à morte, quando o Eterno Padre lha comutou em desterro, não foi só vos donde está esse Menino que dizeis: — Et ccum inveneritis, renuntiate mihi: E como o achardes avisa-me: — Ut et ego veniens adorem eum (Mt. 2, 8): Para que eu também o vá adorar. — Isto pronunciava Herodes com a boca; e com o coração dizia: Ide, informai-me, que lhe eu tirarei a vida, e mil vidas — como tirou a tantos mil inocentes. — Mas que fez Deus? Ou por um anjo, ou por si mesmo, avisou aos Magos que voltassem por outro caminho; e quando o tirano viu seus intentos frustrados: Videns quoniam illusus esset a Magis[16] — diga-nos o mesmo S. João Crisóstomo qual ficou. São palavras que, se as mandáramos fazer de encomenda, não vieram mais medidas com o intento: Considera quaenam Herodem pati probabile fuerit, qui certe suffocari etiam prae indignationis magnitudine potuit,cum se itta illusum atque irrisum videret: A pena que Herodes sentiu, vendo suas traças desvanecidas e seus intentos frustrados, considere-o quem saber que coisa é a inveja, que explicar-se com palavras não é possível. — Mil vezes quisera tomar um laço e enforcar-se — digno castigo daquela cabeça tão indignamente coroada — e é maravilha como a mesma dor colérica, que o fazia raivar, lhe não desse um nó na garganta, e o afogasse. Lá disse a Escritura de Aquitofel: Videns quod non fuisset factum consilium suum, abiit, et suspendio interiit[17]. E da mesma maneira diz Crisóstomo de Herodes: Videns quoniam illusus esset a Mugis, suffocari etiam prae indignationis magnitudine potuit. — E nós vejamos agora se é igual a condenação de Herodes com a dos príncipes dos sacerdotes. Eles condenados a ficarem os seus intentos só em intentos: Cogitaverunt principes sacerdotum ut et Lazarum interficerent — e ele condenado a ficarem frustrados os seus, e zombarem dele os Magos: Videns quoniam ilusus esset a Mugis.

A segunda pena coube ao segundo juiz, o demônio, e foi ver entrar a Cristo triunfante no Egito, como os príncipes verem o seu triunfo por meio de Jerusalém. Pinta-nos isto maravilhosamente o profeta Isaías: Et ascendet Dominus super nubem levem, et ingredietur Aegyptum (Is. 19, 1): Subirá o Senhor, e entrará pelo Egito, levado como em carro triunfal em uma nuvem leve. — Esta nuvem leve — diz Santo Ambrósio — é a Virgem Santíssima, Mãe do mesmo Senhor menino, que o levou em seus braços ao Egito: nuvem, porque ela é a que nos defende dos raios do sol de justiça; e leve, porque nela só, entre todas as criaturas, nunca houve peso de pecado. E que sucedeu ao demônio à vista deste triunfo? O mesmo profeta o diz: Et commovebuntur a facie ejus simulacra Aegypti: E à vista desta entrada triunfante caíram derrubados por terra todos es ídolos do Egito. — Assim foi, porque assim como o desterrado Menino, tendo escapado das mãos de Herodes, ia entrando vivo e triunfante nos braços da Mãe pelas ruas do Egito, ao mesmo passo dentro dos templos, e derrubadas dos altares, iam caindo as imagens dos falsos deuses, em que o demônio era adorado, desfeitas em pó e em cinza.

É teologia certa que, quando Deus lançou do céu os anjos maus, uns foram parar no inferno, e outros ficaram nesta região do ar, aos quais por isso chama S. Paulo aereas potestates. De sorte que neste mesmo lugar nos estão ouvindo muitos demônios, e queira Deus que sejam só os que se não vêem. Dá razão deste conselho divino divinamente S. Bernardo: Diabolus in poenam suam locum in aere medium inter coelum et Cerram sortitus est, ut videat et invideat, ipsaque invídia torqueatur. — Quer dizer: para maior tormento do demônio lhe deu Deus este cárcere livre do ar, elemento meio entre o céu e a terra, porque, vendo subir os homens da terra ao céu, e desta Igreja militante, onde os persegue, ir gozar da glória na triunfante, a vista e inveja deste triunfo lhe sirva de maior inferno aos que ficaram que aos que lá estão penando. — Já ouvimos a S. Pedro Crisólogo, que menos pena davam ao rico avarento as labaredas do inferno, em que padecia, que as glórias que Lázaro gozava no seio de Abraão, e este foi o castigo, mais que do próprio inferno, a que Deus condenou o demônio, no mesmo desterro com que livrou de suas mãos a seu Filho, para que, vendo-o entrar triunfante pelo Egito, penasse mais e se desfizesse de inveja, assim como se desfizeram os mármores e bronzes das imagens e simulacros em que era adorado: Et commovebuntur a sacie ejus simulacra Aegypti.

VII – Os ídolos do Egito e os vícios de Jerusalém na alma dos pecadores. Advertência aos fiéis para a Semana Santa.

Acabei. E suposto que tenho satisfeito ao Evangelho e ao lugar, alguma justiça parece que me fica para pedir ao auditório a mesma satisfação. No Evangelho temos a Cristo triunfante em Jerusalém, naquele altar temos a Cristo triunfante no Egito: justo é senhores, que entre também Cristo triunfando, ou pelo Egito ou pela Jerusalém de nossas almas. Que outra coisa é uma alma, onde está levantando altar a Vênus, ídolo da torpeza; onde se fazem sacrifícios a Marte, ídolo da vingança; onde é adorado Júpiter, ídolo da vaidade: que coisa é, digo, uma desta alma: Et commovebuntur a facie ejus simulacra Aegyti: e caiam e rendam-se a seus pés todos esses ídolos. Caia a torpeza, caia a vingança, caia a vaidade, e acabem-se idolatrias tão pouco cristãs. Que coisa é, por outro modo, uma alma onde reina a ambição, onde dá leis a inveja, onde manda tudo o ódio: que coisa é, torno a dizer, uma alma destas, senão uma Jerusalém depravada e perdida, e onde por ódio, por ambição e por inveja se dá sentença de morte contra o mesmo Cristo? Ora, pois, Jerusalém, Jerusalém: convertere ad Dominum Deum tuum? [18] : acabem-se ódios, acabem-se invejas, acabem-se ambições: caiam todos esses vícios aos pés de Cristo, e levantem-se palmas nas mãos em sinal da vitória: Acceperunt ramos palmarum, et exierunt obviam ei.

Não duvido que o façam assim todos os que têm nome de cristãos, não movidos da eficácia de minhas razões, mas obrigados da santidade do tempo. Entramos na Semana Santa, em que nenhum cristão há de tão fraca fé e de tão fria piedade que se não lance rendido aos pés de Cristo. O que, porém, quisera eu encomendar e saber persuadir a todos é que nos não aconteça o que aconteceu aos que acompanharam a Cristo no seu triunfo. É advertência de S. Bernardo. Quando o Senhor ia passando pelas ruas de Jerusalém, tiravam muitos as capas dos om­bros, para que o Senhor passasse por cima delas; porém, tanto que o mesmo Se­nhor tinha passado, tornava cada um a levantar a sua capa, e pô-la outra vez aos ombros como dantes. O mesmo nos acontece a nós nesta semana. Despimos, ou parece que despimos, os maus hábitos de nossos vícios, lançamo-los aos pés de Cristo, para que passe por cima deles com a cruz às costas; porém, tanto que passou, tanto que se acabou a Semana Santa, e chegou a Páscoa, torna cada um aos mesmos vícios, e a revestir-se deles, como se já não foram pecados. Oh! se­pultemo-los para sempre com Cristo morto, e deixemos esses maus hábitos, como Cristo deixou as mortalhas na sua sepultura. Façamos diante daquela Senhora uns propósitos e resoluções muito firmes, de ser perpétuos escravos seus e de seu benditíssimo Filho, seguindo-o e servindo-o sempre e em qualquer parte: ou no Egito, como desterrados deste mundo, ou em Jerusalém, como mortos ao mesmo mundo, não havendo trabalho ou felicidade, nem fortuna tão próspera ou adversa que nessa parte de seu serviço, de sua obediência, de seu amor e de sua graça, para que, vivendo e morrendo com ele e por ele, o acompanhemos na vida onde não há morte por toda a eternidade. Amém.

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[1] Os príncipes dos sacerdotes assentaram matar também a Lázaro, porque muitos por causa dele se retiravam dos judeus, e criam em Jesus. E no dia seguinte uma grande multidão de povo, que tinha vindo à festa, ouvindo dizer que Jesus vinha a Jerusalém, tomaram ramos de palmas, e saíram a recebê-lo (Jo. 12,10,11 ss).
[2] Eis eu vi um dos filhos de Isaí, que sabe tocar harpa, e é muito forçoso, e homem guerreiro, e sisudo nas palavras, e de gentil presença: e o Senhor é com ele (1 Rs. 16, 18).
[3] Saul matou mil, e Davi dez mil (I Rs. 21, 1 I ).
[4] Considerava Davi estas palavras no seu ânimo, e teve muito medo de Aquis (ibid.12).
[5] Saiu pois Davi dali, e se retirou para a cova de Odolão (1 Rs. 22, 1).
[6] Hosana ao filho de Davi (Mt. 21, 9).
[7] Muitos se retiravam dos judeus, e criam em Jesus (10.12,11 ).
[8] Para matar também a Lázaro, isto é, a Cristo e a Lázaro.
[9] Cuidaram de matá-lo (Gên. 37, 18).
[10] Eu disse à podridão: Tu és meu pai; e aos bichos: Vós sois minha mãe e minha irmã (Jó 17, 14).
[11] Os meus pensamentos se desvaneceram (ibid. 11)
[12] Se eu suportar, o sepulcro será a minha casa (ibid. 13).
[13] Placuit: Vieira refere-se ao cânon 16 do II Concílio de Braga (ano de 563), que trata da sepultura dos suicidas (Conf. Histoire des Conciles — HEFELE — Tom. III).
[14] Tomaram ramos de palmas, e saíram a recebê-lo (Jo. 12, 13).
[15] Onde está o rei dos judeus que é nascido (Mt. 2, 2)?
[16] Vendo que tinha sido iludido dos magos (ibid. 16).
[17] Vendo que se não tinha seguido o seu conselho, foi para a sua casa, e se enforcou (2 Rs. 17, 23).
[18] Converte te ao Senhor teu Deus.

Fonte: https://www.literaturabrasileira.ufsc.br/documentos/?action=download&id=49834