Sermão da Quinta Terça-feira da Quaresma

SERMÃO DA QUINTA TERÇA-FEIRA DA QUARESMA,

Pregado em Roma, na língua italiana, à Sereníssima Rainha de Suécia, em obséquio de um ditame daquele sublime espírito, que, detestando as beatarias públicas, só reputava por verdadeiras virtudes as que se ocultam aos olhos do mundo.


Nemo in occulto quid facit[1].

I – Os olhos, a maior graça da natureza e o maior perigo da graça. O perigo e o laço dos olhos alheios. Os mortos e o apetite de ser visto. Os três documentos do sermão: não obrar para os olhos dos homens, obrar só para os olhos de Deus, e obrar como se Deus não tivera olhos.

A maior graça da natureza e o maior perigo da graça são os olhos. São duas luzes do corpo, são dois laços da alma. Mas como os mesmos olhos, ou são os próprios, com que vemos, ou os alheios, com que somos vistos, questão pode ser não vulgar, e útil curiosidade saber quais deles sejam o maior laço e o maior perigo. Eu, em tanta estreiteza de tempo, não o tenho para disputar, e assim digo resolutamente que o maior perigo e o maior laço são os olhos alheios. E por quê? Porque, sendo tão natural no homem o desejo de ver, o apetite de ser visto é muito maior. Considerava Jó a sua morte, e vede a espinha que mais lhe picava o coração: Nec aspiciet me visus hominis (Jó 7, 8): Morrerei, e não me verão mais os olhos dos homens. — O uso de ver tem fim com a vida, o apetite de ser visto não acaba com a morte. Esta foi a origem das estátuas romanas sepulcrais. Punha-se a estátua e imagem do defunto sobre o sepulcro, para que o homem que dentro dele não podia ver, sobre ele fosse visto. Já que me falta a vida própria, ao menos não me falte a vista alheia. De maneira que, devendo os mármores da sepultura ser uns espelhos em que se vissem os vivos, são uma antecipada ressurreição da arte em que se vêem os defuntos. Tão imortal é nos mortais o desejo de ser vistos. E se esta ambição vive nos mortos, nos vivos, que será? Será o que diz o texto que propus, com maior erro ainda e indignidade na vida, que a ambição e vaidade depois da morte: Nemo in occulto quid facit: Ninguém faz ocultamente coisa digna de louvor, porque oculta não pode ser vista. — Tirai do mundo — diz Sêneca — os olhos alheios, e nada se fará do que o mesmo mundo admira e preza: Nemo oculis suis lautus est: ubi testis ac speculator abscessit, subsidunt omnia, quorum fructus monstrari et conspici[2]. — Este era o uso de Roma no tempo do Estóico. Mas, porque então, e depois, e ainda hoje se usa o mesmo em tempo de Cristo, que faremos? Para desterrar de Roma o nemo, e ajuntar nela o facit com o occulto, isto é, para que as boas obras se façam e juntamente se ocultem, vos oferecerei brevemente neste discurso três documentos: um seguro, outro perfeito, e o terceiro heróico. O seguro, não obrar para os olhos dos homens; o perfeito, obrar só para os olhos de Deus. E o heróico? Obrar por Deus como se Deus não tivera olhos. Este é o meu argumento. Bem vejo quanta dissonância vos fará aos ouvidos a rudeza de uma voz tão pouco romana, como a minha, no meio da harmonia destes coros reais pouco menos que celestes. Mas o mesmo autor do nosso Evangelho, São João, diz que no tempo em que os anjos no céu estavam cantando os louvores de Deus, se fez lá pausa e silêncio por espaço de meia hora para se ouvirem as vozes da terra: Factum est silentium in caelo, quasi media hora (Apc. 8, 1). — Eu farei por não exceder a meia, nem ainda o quase.

II – O documento seguro: nenhuma coisa se deve obrar para os olhos dos homens. Por que ensinava Cristo, Senhor nosso, aos homens do seu tempo que se guardassem de fazer o que faziam os escribas e fariseus? A aurora e a luta entre Jacó e Deus. As estrelas da noite e as estrelas da manhã.

Nemo in occulto quid facit.

Contra o abuso tão geral como errado deste dogma, ensina o nosso primeiro documento, a que chamei seguro, que nenhuma coisa se deve obrar para os olhos dos homens. E por que razão? Não só para justificar as mesmas obras, senão para as fazer, porque tudo aquilo que se faz para os olhos dos homens, ainda que se faça, não se faz. Parece paradoxo, mas é verdade divina. Ensinava Cristo, Senhor nosso, aos homens do seu tempo, que se guardassem de fazer o que faziam os escribas e fariseus: Secundum opera eorum nolite facere[3]. — E, sinalando o divino Mestre o fundamento desta sua doutrina, acrescenta: Dicunt enim, et non faciunt (Mt. 23, 3): Porque dizem, e não fazem. — Senhor meu, dai-me licença para que vos represente uma réplica a minha ignorância, que o não parece, pois se funda nas vossas mesmas palavras. Vós não dizeis que estes mesmos homens, não só jejuam, mas andam pálidos e macilentos, e com aparência mais de cadáveres que de vivos, de pura abstinência? Vós não dizeis que não só fazem oração no templo, mas que nas praças e nas ruas públicas, com as mãos e os olhos levantados ao céu estão orando? Vós não dizeis que não só dão esmola, mas que a som de trombetas chamam aos pobres, para que de perto e de longe venham todos? Como logo dizeis deles que não fazem: non faciunt? Aperto mais a minha admiração. Estas obras sinaladas por Cristo, são todas aquelas a que S. Paulo reduz as obrigações de um verdadeiro cristão: Sobrie, et pie, et juste vivamus in hoc saeculo[4]: sobrie, para conosco; pie, para com Deus; juste, para com o próximo. Tudo isto faziam os escribas e fariseus. Sobrie para consigo, porque jejuavam; pie para com Deus, porque oravam; juste para com o próximo, porque davam esmola. Como logo diz Cristo: Et non faciunt? Fazer tudo isto é não fazer? Sim, porque omnia opera sua faciunt ut videantur ab hominibus (Mt. 23, 5): Tudo aquilo faziam para que os homens o vissem — e o que se faz para ser visto dos homens, ainda que se faça, não se faz. Faciunt ut videantur ab hominibus? Non faciunt. — Jejuam, e não fazem jejum; oram, e não fazem oração; fazem esmolas, e não as fazem: et non faciunt. Oh! quantas coisas se fazem neste mundo que não se fazem! Discorrei vós por elas, que eu não tenho tempo.

Senhores meus, as boas obras são a alma da fé: fazei-as, mas guardai-as dos olhos, que a mesma fé é cega. Faça a virtude por cautela o que faz o vício por vergonha. Qui male agit, odit lucem (Jo. 3,20): Quem faz mal foge da luz, e não quer que o vejam, porque faz mal. — Quem faz bem fuja também da luz, e não queira ser visto, porque faz bem. Toda uma noite tinha gastado ou empregado Jacó, não rondando, não jogando, nem em saraus ou festins, mas abraçado estreitissimamente com Deus. Começaram a se pintar os horizontes com as primeiras cores da manhã e basta — diz Deus — porque vem aparecendo a aurora: Dimitte me, jam enim ascendit aurora (Gên. 32, 20). — E que importa que venha a aurora, o sol, o dia? Se Jacó fizera algum mal, fuja e esconda-se da luz, para que o não vejam; mas se está bem ocupado, e no maior bem a que pode aspirar um homem, também há de fugir e ter medo da luz? Sim, porque a luz é o maior perigo das boas obras. A virtude é como o segredo: oculto, conserva-se; manifesto, perde-se. Retire-se logo Jacó, não o veja a aurora, e pois tem vencido e triunfado de Deus, faça a retirada para que não perca a vitória. Por isso os santos se retiravam aos desertos, e se metiam nas covas: sepultavam a virtude, para que não morresse. Estas eram aquelas estrelas de que dizia Deus a Jó que as estrelas da manhã o louvavam: Cum me laudarent astra matutinal[5]. — E por que louvam a Deus mais as da manhã que as da noite, ou as da manhã sim e as da noite não? Porque as estrelas da manhã escondem-se aos olhos, as da noite manifestam-se e brilham. As que se manifestam são louvadas dos homens, as que se escondem louvam a Deus: Cum me laudarent astra matutina.

III – O documento perfeito: obrar só para os olhos de Deus. Razões por que Deus se fez homem antes de ser homem, só para se unir a um homem que só buscava os olhos de Deus. Nos olhos humanos as boas obras, ou enquanto vistas não podem ser boas, ou enquanto boas não podem ser vistas. Por que reservou Deus só para si a vista dos corações? A cegueira dos idólatras da cristandade que dedicam as suas obras aos olhos dos homens.

Este foi o documento seguro. E qual é o perfeito? Obrar só para os olhos de Deus. E por quê? Porque aquilo é o mais perfeito que mais une o homem com Deus, e Deus só dá os seus braços a quem busca só os seus olhos. Tome Jacó, já que o nosso teatro nos não dá lugar de multiplicar figuras. Verdadeiramente é caso estupendo ver a Deus abraçado com um homem, e quando Deus não era homem! Cresce o pasmo com saber que Jacó não era Hilarião nem Macário. Era um homem leigo, e tão leigo que nenhum hoje o pode ser tanto por muitas circunstâncias. Ele, com boa licença de Raquel, de Lia, e das duas criadas, não tinha voto de castidade. Ele não professava obediência, porque era senhor independente de copiosa família, não falando na investidura do morgado universal. Ele não professava pobreza, porque os seus rebanhos de gados maiores e menores, que eram os tesouros daquele tempo, não cabiam nos campos. Como logo mereceu Jacó uma união com Deus tão estreita, tão forte e tão singular e inaudita? O mesmo texto o diz: Traductis omnibus quae ad se pertinebant, mansit solus, et ecce vir luctabatur cum eo usque mane[6]. — Jacó naquela ocasião, passado da outra parte de um rio tudo o que levava consigo, e todos os que o acompanhavam, ele só em um deserto, e de noite, se deixou ficar orando, onde, quando e como só os olhos de Deus o podiam ver. Onde, porque era em um deserto; quando, porque era de noite; e como, porque estava só. De sorte que não uma só vez, nem por um só momento, senão três vezes e por três modos se retirou e escondeu Jacó dos olhos dos homens, para assim só, e mais só, e ainda mais só, buscar só os olhos de Deus. E se namorou tanto desta ação a divindade do Verbo, que, não se podendo conter nem no céu nem em si mesmo, como se antecipasse a Encarnação, se vestiu de homem: ecce vir — para se abraçar e unir fortissimamente com ele: luctabatur cum eo. — Enfim, Deus feito homem antes de ser homem, só para se unir a um homem que só buscava os olhos de Deus.

Senhores cortesãos da cabeça do mundo, isto não é só para os desertos e para os anacoretas. Querer que as vossas obras sejam boas e sejam vistas é contradição manifesta nos olhos humanos, porque nos olhos humanos as boas obras, ou enquanto vistas não podem ser boas, ou enquanto boas não podem ser vistas. Ouvi um notável egredo da razão de estado de Deus. Honro videt ea quae parent, Deus autem intuetur cor[7]: Para os olhos dos homens fez Deus as cores, e para os seus os corações. E porque reservou Deus só para si a vista e conhecimento do coração humano? Para que só Deus pudesse ver as obras boas. Os homens podem ver as obras; mas a bondade delas, ainda que a tenham, não a podem ver, porque não vêem os corações. E como o coração é a fonte da bondade, onde as obras se batizam e recebem o caráter de boas, daqui é que reservou Deus só para si a vista dos corações, para que o homem, ainda que quisesse, não pudesse dirigir as suas obras boas a outros olhos que aos de Deus. Aos olhos de Deus sim, só a eles, porque eles só as vêem; aos outros não, porque as não vêem. E que doidice verdadeiramente seria não consagrar as boas obras aos olhos de Deus, que só as vê, e sacrificá-las ao ídolo dos olhos humanos, que as não podem ver?

A razão desta cegueira os mesmos que se deixam levar dela, sendo tantos, a não sabem, nem eu a sabia; mas a agudeza de Santo Agostinho a descobriu sutilissimamente. Argumentava Agostinho contra os idólatras, e dizia assim: Simulachra gentium argentum et aurum, oculos habent et non videbunt: O ídolo tem olhos mas não vê: o verdadeiro Deus vê tudo. Como ofereceis logo os vossos sacrifícios ao ídolo, que os não vê, e não a Deus, que vê? O mesmo argumento e a mesma pergunta faço eu aos idólatras da cristandade. É certo que estes idólatras o fim por que dedicam as suas boas obras aos olhos dos homens é para que elas, enquanto boas, lhes granjeiem reputação e nome de bons; mas, se a bondade dessas mesmas obras só a vêem os olhos de Deus, e os dos homens não, por que a não dedicais aos olhos que a vêem, senão aos que a não podem ver? Só a perspicácia da mesma águia dos doutores podia penetrar o segredo desta cegueira. Oculos habent, et non videbunt: Os olhos do ídolo — diz Agostinho, ainda que não vêem, vê-os o idólatra; os olhos de Deus, ainda que vêem tudo, o idólatra os não vê: e tal é a propensão e inclinação humana a nos deixarmos levar só do que vemos, que antes quer o idólatra dedicar os seus sacrifícios aos olhos visíveis do ídolo, porque ele os vê, ainda que eles o não vejam, do que aos olhos invisíveis de Deus, ainda que eles o vejam, porque ele os não vê. E daqui se colhe a dobrada perfeição dos que consagram as suas boas obras só aos olhos de Deus, porque as consagram visivelmente aos olhos que as vêem, e invisivelmente aos que eles não podem ver. E isto basta quanto ao documento perfeito.

IV – O documento heróico: obrar por Deus como se Deus não tivera olhos. Diferença entre o servo fiel de Deus e o servo fiel dos homens. Os piores homens da terra e os melhores anjos do céu. Que teve de grande o amor da Madalena? Que teve de imperfeito o sacrifício de Abraão?

Segue-se o heróico, com que somos chegados ao último grau e mais sublime desta matéria. E agora vos peço um momento de atenção. O documento heróico, como prometi, é obrar por Deus como se Deus não tivera olhos: não porque me vê, nem para que veja, senão como se Deus me não vira. Notai a diferença entre o servo fiel dos homens e o servo fiel de Deus: o servo fiel dos homens é o que serve a seu senhor onde o mesmo senhor o não vê, como se o estivesse vendo; e o servo fiel de Deus é o que serve a Deus, que sempre e necessariamente o está vendo, como se o não visse. Mas como pode ser isto, se Deus vê, e não pode deixar de ver tudo? Direi. — Um espírito heróico há de crer e amar a Deus, mas não o há de amar como crê. Há de crê-lo com todos seus atributos, e há-o de amar como se lhe faltasse algum. Isto não negando, mas abstraindo. Os maiores mestres da teologia ascética dizem que se há de temer a justiça de Deus como se não tivera misericórdia, e que se há de esperar na misericórdia de Deus como se não tivesse justiça. Mas esta abstração não chega a ser sublimemente heróica. Não se há de ajudar o respeito de um atributo com a desatenção do outro, senão com a desatenção do mesmo: temer a Deus justo como se não tivesse justiça, obedecer a Deus onipotente como se não tivesse onipotência, servir a Deus liberalíssimo como se não tivesse liberalidade, e, ao nosso intento, temer, obedecer, servir e amar a Deus, que tudo vê e sabe, como se não soubesse nem visse. E qual é a razão? Divinamente São Paulo: Non ad oculum servientes, quasi hominibus placentes[8]. — Quem serve aos olhos serve para agradar, e quem serve a Deus por agradar a Deus já não obra heroicamente, porque no mesmo agradar busca o prêmio de o servir: Non ut placeam Deo, sed quia Deus placet — diz São Bernardo. Servir, não por agradar, mas por servir; amar não por agradar, mas por mar; e por isso como se Deus não tivesse olhos: Non ad oculum servientes.

No tempo de Davi havia alguns ímpios tão ímpios que negavam os olhos a Deus: Dixerunt: Non videbit Dominus, nec intelliget Deus Jacob[9]. — E por que negavam estes os olhos a Deus? Para o ofenderem com maior liberdade, diz o profeta. Do mesmo modo, assim como a malícia consumada nega os olhos a Deus para o ofender com maior liberdade, assim a virtude heróica não há de atender aos olhos de Deus para o amar com maior fineza. Vede todo o caso nos piores homens da terra e nos melhores anjos do céu. Os piores homens da terra foram os algozes de Cristo. E estes que fizeram? Velaverunt eum, et percutiebant faciem ejus (Lc. 22, 64): Cobriram-lhe os olhos, e davam-lhe bofetadas. — Os melhores anjos do céu são os serafins. E que fizeram estes? Velabant faciem ejus… et dicebant: Sanctus (Is. 6, 2): Cobriam os olhos a Deus, e cantavam-lhe louvores. — Pois como? Os piores homens da terra cobrem os olhos a Cristo, e os melhores anjos do céu cobrem os olhos a Deus? Sim. Aqueles para o ofender e afrontar com maior liberdade; estes para o louvar e amar com maior fineza. Aqueles crendo que Cristo os não via, que era o maior erro da fé; estes como se Deus os não visse, que é o mais heróico do amor. Da Madalena disse Cristo: Quoniam dilexit multum[10] — e o amor que parece muito a Deus grande amor é. Mas que teve de grande este amor? Lágrimas, e de uma mulher? Muitas choram, e facilmente. Quebrar o alabastro? Os mármores se quebram por si mesmos na morte de Cristo. O preço do ungüento? Só na avareza de Judas foi grande preço. Enxugar os pés do Senhor com os cabelos? Mais faria se os cortara. Onde está logo a grandeza daquele ato? Onde está o muito daquele dilexit multum? S. Pedro Crisólogo o observou agudamente em duas palavras do texto: Stans retro. Tudo o que a Madalena fazia, não era aos olhos, senão às espaldas de Cristo: retro — e neste modo de servir consistiu o muito do amar. O ver e não ver em Deus só se pode verificar na pessoa de Cristo. Cristo com os olhos da divindade via a Madalena, mas com os olhos da humanidade não a via; e como ela chorava e ungia, servia e amava não como Deus a via, senão como Deus a não via: stans retro — nela se verificou à letra: Servir a Deus que nos vê, como se o mesmo Deus nos não visse. Por isso o seu amor por boca do mesmo Deus foi canonizado por heróico, que no conceito de Deus só o heróico é muito: Stans retro, dilexit multum[11].

Ânimos grandes e generosos, não vos engane a grandeza de vossas obras, para as julgardes por heróicas. Por maiores e mais heróicas que vos pareçam, se forem feitas porque Deus as há de ver, e não feitas como se Deus as não visse, é certo que ficarão abaixo deste supremo grau, e não chegarão a merecer tal nome. A façanha ou fineza que viu e celebrou o mundo com nome de maior entre as maiores foi o sacrifício de Abraão. Mandou Deus a Abraão que lhe sacrificasse o seu filho, com expressão de todos aqueles motivos que faziam a novidade de tal ação árdua, difícil e quase impossível a um coração humano. É possível — dizia dentro de si o pai — que hei de sacrificar o meu filho, o meu primogênito, o meu amado, o meu Isac? Eu sou, e outra, e mil vezes eu o que lhe hei de meter o ferro pelas entranhas? Eu o que hei de derramar o sangue que me saiu das veias? Eu o que, morto por estas mãos, o hei de pôr na fogueira? Eu o que com estes olhos o hei de ver arder? Mas enquanto o amor paterno estava suspenso, e como irresoluto nesta terrível consideração, vede o pensamento com que se resolveu, e lhe deu ânimo, valor e coragem para executar valentemente o sacrifício. Quando Deus disse a Abraão que lhe sacrificasse o filho, foi com estas palavras: Vade in terram visionis, atque ibi offeres eum in holocaustum super unum montium, quem monstravero tibi (Gên. 22, 2): Vai à terra da vista — notai muito o in terram visionis — vai à terra da vista, e aí sacrificarás o teu filho em um monte, que eu te mostrarei. — Se Deus me há de mostrar o monte — diz o pai — aí há de estar Deus; se o monte há de ser na terra da vista, aí me há de ver. — E é tão certo que foi este o pensamento de Abraão, que ele deu por nome ao mesmo lugar Dominus videt, e ao mesmo monte Dominus videbit: Appellavit nomen loci illius Dominus videt. Unde usque hodie dicitur: In monte Dominus videbit[12]. — De sorte que com certeza três vezes repetida conheceu Abraão que naquela terra, naquele lugar e naquele monte o havia de ver Deus: naquela terra: in terram visionis; naquele lugar: in loco Dominus videt; naquele monte: in monte Dominus videbit; e como Abraão conheceu certamente que Deus o havia de ver, e os olhos de Deus lhe haviam de fazer o teatro naquela grande ação, este foi o pensamento e o motivo com que se resolveu a sacrificar o filho. E que se infere daqui, conforme a verdade do nosso documento? Infere-se que quantas foram as certezas que Abraão teve de Deus o haver de ver naquela ação, tantos degraus se abateu ela para não subir a ser perfeitamente heróica. Se fora perfeitamente heróica, não havia de imaginar nem atender Abraão a que Deus o via, mas sacrificar o filho, degolá-lo e queimá-lo como se Deus o não visse.

V – Conclusão. Por que Cristo depois da morte só se achou com José e Nicodemos?

Tenho acabado, e não sei se persuadido o que prometi; e para que estes três documentos sirvam a todos, a todos digo só três palavras conforme a generosidade de cada um. Vós, espíritos sublimes, que voais ao mais alto, obrai como se Deus não tivera olhos, que isto é o heróico. Vós, almas que aspirais à perfeição, obrai só para os olhos de Deus, que isto é o perfeito. E vós, os que vos contentais com menos, guardai-vos de obrar coisa alguma para os olhos dos homens, que isto é o seguro. Nestes dias em que entramos, nos quais se celebra a morte do Redentor, lembrai-vos daquele grande mistério que observou Santo Epifânio. Depois da morte se conhecem os verdadeiros amigos, e Cristo depois da morte só se achou com José e Nicodemos. E por que razão ou mistério com estes dois, e só com eles? Porque não só ambos eram discípulos do Senhor, senão ambos discípulos ocultos. Os discípulos manifestos todos o deixaram e fugiram: Omnes, relicto eo, fugerunt[13]. — Só os discípulos ocultos, na vida, na morte, e depois da morte foram fiéis. Para que no mesmo sepulcro de Cristo se sepultasse aquele indigno epitáfio das obras humanas: Nemo in oculto quid facit[14].

_________
[1] Ninguém obra coisa alguma em secreto (Jo. 7, 4).
[2] Senec. Epist. 95.
[3] Não obreis segundo a prática das suas ações (Mt. 23, 3)
[4] Vivamos neste século sóbria, justa e piamente (Ti. 2, 12).
[5] Quando os astros da manhã me louvam (Jó 38, 7).
[6] Passado tudo o que lhe pertencia, ficou só: e eis que um varão lutava com ele até pela manhã (Gen. 32, 23s).
[7] O homem vê o que está patente, mas o Senhor olha para o coração (1 Rs. 16, 7).
[8] Não os servindo ao olho, como para agradar a homens (Ef. 6, 6).
[9] Disseram: Não o verá o Senhor, nem o saberá o Deus de Jacó (SI. 93, 7).
[10] Porque amou muito (Lc. 7, 47).
[11] Por detrás dele, amou-o muito (Lc. 7, 38.47).
[12] Pôs por nome àquele lugar: O Senhor vê. Donde até o dia de hoje se diz:O Senhor verá no monte (Gen. 22, 14).
[13] Todos o deixam, e fugiram (Mt. 26, 56).
[14] Ninguém obra coisa alguma em secreto (Jo. 7, 4).

Fonte: https://www.literaturabrasileira.ufsc.br/documentos/?action=download&id=49803