Sermão do Demônio Mudo (1651) – Sermão da Terceira Dominga da Quaresma

SERMÃO DO DEMÔNIO MUDO

No Convento de Odivellas, Religiosas do Patriarca S. Bernardo. Ano de 1651


Erat Jesus ejiciens daemonium, et illud erat mutum[1].

I – O demônio com bramidos de S. Pedro, e o demônio mudo de S. Lucas. Os ouvintes a quem o demônio tragou, deixando as orelhas de fora.

Vigiai, e estai alerta — diz o apóstolo S. Pedro — porque o demônio, vosso inimigo, como leão bramindo, cerca e anda buscando a quem tragar: Sobrii estote et vigilate, quia adversarius vester diabolus, tanquam leo rugiens, circuit, quaerens quem devoret (1 Pdr. 5, 8). — Necessária e temerosa advertência é esta; mas muito mais necessária e muito mais temerosa a de que hoje nos avisa o Evangelho. Por quê? Porque o demônio, de que nos manda acautelar S, Pedro, é demônio com bramidos: Tanquam leo rugiens — e o demônio de que fala o Evangelho é demônio mudo: Erat Jesus ejiciens daemonium, et illud erat mutum. — Se o demônio vem bramindo, os mesmos bramidos dão rebate do perigo, e ninguém haverá tão descuidado, ainda que esteja dormindo, que não esperte assombrado, e se acautele; porém, se o demônio vem mudo, debaixo do mesmo silêncio, em que se esconde o perigo, descansa e adormece o cuidado.

O demônio sempre é inimigo: Adversarius vester diabolus — mas quando vem bramindo, vem como inimigo declarado; quando vem mudo, vem como inimigo oculto; e muito mais para temer é o inimigo oculto e dissimulado que descoberto. Quando o exército contrário, com as bandeiras estendidas, ao som de caixas e trombetas se vem avançando aos muros, não são necessárias vigias; mas quando de noite vem marchando à surda, com todos os instrumentos bélicos em silêncio, então é necessário que as sentinelas estejam com os olhos muito abertos. Quando o demônio vem como leão bramindo, avisa-me o leão, e avisa-me S. Pedro; mas quando ele vem mudo, nem o leão nem S. Pedro me pode avisar. Enfim, a diferença do demônio — como leão, e bramindo — ao mesmo demônio — como demônio, e mudo — até aos mesmos sentidos é manifesta: como leão vê-se, e como bramindo ouve-se; porém, como demônio, que é invisível, não se pode ver, e como mudo, que não fala, não se pode ouvir.

Este é o demônio que Cristo hoje lançou fora, e este o milagre que muitas vezes repete por meio dos pregadores, se o estado já incapaz dos ouvintes o não impede. Quando o leão levava algum cordeiro do rebanho de Davi, se não estava ainda tragado e engolido de todo, e lhe ficavam as orelhas de fora, pelas mesmas orelhas o tornava ele a tirar da garganta do leão. É o que diz o profeta Amós, que também foi pastor: Quomodo si eruat pastor de ore leonis extremum auriculae[2]. — Eu não duvido que possa haver neste auditório alguns a quem tragasse o demônio, porque ele não bramiu, nem eles o ouviram. Se também lhe tragou as orelhas, não lhe vejo remédio; mas, se ainda lhe ficaram de fora, por elas, e pelos ouvidos, se poderão livrar, se ouvirem com a atenção que pede tão grave matéria: Ave Maria.

II – Os cercos do demônio mudo. O demônio mudo e os claustros das religiosas. Que meios tomou o supremo e vigilantíssimo pastor Inocêncio X, para conservar o estado de perfeição e pureza das virgens consagradas a Deus? A resposta do visitador dos conventos a Sua Santidade. Argumento do sermão: O espelho, diabo mudo dos conventos e celas das religiosas.

O grande patriarca S. Bernardo, que, sendo entre os outros doutores sagrados tão eminente, neste lugar é o maior, expondo o texto de S. Pedro, diz que dava graças ao grande Leão da tribo de Judá, Cristo, Senhor nosso, porque, permitindo o bramir ao leão do inferno, não lhe permitia o ferir: Gratias magno ille leoni de tribu Juda: rugire iste potest, ferire non potest. — E por que não pode ferir, se pode bramir? Por isso mesmo. Quando o leão vem bramindo, na mesma boca, em que traz o perigo, traz juntamente o remédio. Os seus bramidos nos livram dos seus dentes, e as suas ameaças das suas garras. Mas se ele, que, assim como pode bramir, pode não bramir, se vier mudo, que será? Aqui há de bater o nosso ponto. Vai por diante o texto, e diz que não só vem bramindo, senão cercando: Rugiens circuit, quaerens quem devoret. — E, posto que estes cercos do demônio não darão muito cuidado a S. Bernardo, porque os muros da sua Religião são muito altos, muito seguros e muito fortes, contudo, se o demônio despir a pele e o corpo de leão, pouca resistência lhe podem fazer os muros, E tal é o caso em que estamos.

O demônio, como espírito, e como espírito soberbo, atrevido, e sem temor nem reverência dos lugares sagrados, entra pelos claustros religiosos, passeia os corredores e dormitórios, e por mais fechadas que estejam as celas, sem gazua, com ser ladrão, se mete e mora nelas muito de assento. Por sinal, senhoras, que muitas o deixastes na vossa cela, e o achareis lá quando tornardes. Ninguém se benza, porque esta verdade, posto que não seja fé católica, é romana. É a novidade que de lá trago, para que vos peço nova atenção.

Sendo o estado das virgens consagradas a Deus a mais ilustre porção do rebanho de Cristo, como lhe chama S. Cipriano: Illustrior portio gregis Christi — que meio tomaria o supremo e vigilantíssimo pastor, Inocêncio X, que Deus guarde muitos anos, para conservar o mesmo estado em sua pureza e perfeição, e, onde estivesse descaído, o restituir a ela? Elegeu Sua Santidade em Roma um religioso de grande virtude e prudência, e mestre do espírito muito experimentado, ao qual encomendou que visitasse de secreto os conventos das religiosas, não só em comum, senão também nas celas ou aposentos particulares, e que procurasse de lhes tirar — não por violência, mas com a suavidade de santas exortações — tudo o que julgasse menos decente à fé e único amor que devem a seu divino Esposo. Fê-lo assim o visitador, com o zelo que dele se esperava, e, depois de alguns meses, dando conta ao mesmo Sumo Pontífice da sua missão, disse que vinha muito edificado do que achara, mas não de todo contente. Edificado, porque achara tantas penitências, tantos jejuns, tantas disciplinas e cilícios, e tantas orações e devoções, que lhe fora necessário moderar o excesso, e ir à mão a tão demasiados fervores. Edificado também, porque, havendo nos ditos aposentos algumas alfaias, ou peças de maior preço e curiosidade, do que permite a pobreza e simplicidade religiosa, todas, posto que com alguma repugnância, as fizera despedir, e aplicar a melhores usos, exceto somente uma. E porque esta a não pudera arrancar das paredes, e muito menos dos afetos, senão em muito raras daquelas monjas, por isso não estava totalmente satisfeito da sua diligência. Então perguntou Sua Santidade que alfaia ou que peça era aquela. Ao que respondeu o visitador que o espelho. — O espelho? — Beatíssimo Padre, sim, E a razão do meu descontentamento é porque tenho alcançado por larga experiência, que enquanto uma religiosa se quer ver ao espelho, não tem acabado de entregar todo o coração ao Esposo do céu, e ainda lhe ficam nele alguns ressábios do amor e vaidade do mundo.

Tal foi a resposta do visitador daqueles conventos, ouvida não menos que da boca de Sua Santidade. E coar esta tão autêntica e bem fundada notícia, fiquei eu persuadido a uma coisa, e me resolvi a outra. A primeira a que fiquei persuadido, com boa vênia de tão venerável comunidade, é que nos conventos e celas das religiosas o espelho é o diabo mudo, A segunda a que juntamente me resolvi, foi que, vindo a Portugal, havia de publicar e pregar este caso no primeiro lugar a que pudesse pertencer. Ele, pois, será hoje o argumento do meu discurso, e uma alegoria tão própria das palavras que propus no tema, como elas mostrarão.

III – Se a virtude de Cristo tão facilmente lançava dos corpos os demônios, por que experimentou tanta resistência e dificuldade na expulsão do demônio mudo? Se os demônios mudos se lançam com orações e jejuns, às mesmas religiosas, que tanto oravam e jejuavam, por que repugnavam tanto a que se lhes tirasse da cela o espelho?

Erat Jesus ejiciens daemonium, et illud erat mutum (Lc. 11, 14). — Diz o evangelista S. Lucas, que estava Cristo lançando do corpo de um endemoninhado um demônio que era mudo. E por que não diz que o lançou, ou que o lançara, senão que o estava lançando: Erat ejiciens? — Este reparo é de todos os expositores, os quais também respondem todos que aquele estar, ou aquela detença e tardança, significava a repugnância, a rebeldia, e a resistência e contumácia com que o demônio se não queria despegar daquele corpo, nem deixar-se arrancar dele. Mas isto mesmo tem nova dificuldade no Evangelho do mesmo S. Lucas. Diz este evangelista que quando Cristo lançava os demônios fora dos corpos, não era necessário que o Senhor lho mandasse com alguma palavra, mas bastava que o endemoninhado tocasse as vestiduras sagradas, para logo ficar livre: Qui vexabantur a spiritibus immundis, curabantur Et omnis turba quaerebat eum tangere: quia virtus de illo exibat, et sanabat omnes[3]. — Pois, se a virtude de Cristo tão facilmente lançava dos corpos os demônios, por que experimentou tanta resistência e dificuldade na expulsão deste demônio mudo? Porventura por ser mudo? Não, antes por ser mudo era conveniente que o lançasse por um tacto também mudo, e juntamente passivo, como aos demais. Apertemos a dúvida em todo o rigor. É certo que o demônio não podia resistir à virtude de Cristo, que era onipotente. E também é certo que as dificuldades e resistências do erat ejiciens eram afetadas pelo mesmo Cristo, para debaixo delas nos dar alguma importante doutrina. Que queria logo significar o Senhor naquele demônio mudo, e naquelas resistências? Antes da prova ninguém tenha a resposta por paradoxa. No demônio mudo queria o Senhor significar o espelho, e nas resistências a grande dificuldade, com que o espelho se lança fora. No mesmo exemplo de Roma, que acabo de referir, temos a prova, e muito mais encarecida.

Quando Cristo, Senhor nosso, mandou aos seus discípulos pregar, deu-lhes juntamente poder sobre os demônios, para que os lançassem dos corpos. Com este poder lançavam fora indiferentemente todos os demônios, até que lhes trouxeram um, também mudo, como consta do Evangelho de S. Mateus, o qual, por mais exorcismos que lhe fizeram, era tão obstinado e rebelde, que de nenhum modo o puderam arrancar os apóstolos do corpo de que se tinha apoderado. Deram conta desta novidade ao divino Mestre, perguntando a causa dela, e o Senhor lhes respondeu que os demônios daquela casta não se lançavam fora, senão com oração e jejum: Hoc genes daemoniorum non ejicitur nisi in oratione et jejunio[4]. — Ao nosso ponto agora. Naquelas devotas religiosas de Roma, que deram motivo ao nosso discurso, não ouvimos que eram tão contínuas as orações e os jejuns, que foi necessário moderar-lhes o excesso destes santos exercícios? Sim. Pois, se os demônios mudos se lançam com orações e jejuns, as mesmas que tanto oravam e jejuavam, por que repugnavam tanto a que se lhes tirasse da cela o espelho? Porque o espelho é um demônio mudo, de pior casta que os outros demônios mudos: os outros lançam-se com orações e jejuns: In oratione et jejunio — porém, estes são muito mais rebeldes e obstinados. Estão tão pegados à parede, e muito mais ao coração, que orará e jejuará a dona da casa quanto quiserdes, e muito mais do que quiserdes, mas o espelho não há de ir fora. Depois, e mais em seu lugar, declararemos a razão ou sem-razão desta dificuldade; agora vamos seguindo o texto, e tirando as dúvidas, ou os escrúpulos que pode ter a nossa alegoria.

IV – A origem dos espelhos segundo Sêneca, Platão e Sócrates. Se o espelho, desde sua origem, não foi obra humana, senão divina, não é agravo e afronta, sobre impropriedade grande, comparar o espelho ao demônio? De que modo de um espelho, não artificial ou fingido, senão natural e verdadeiro, e de uma formosura também natural e verdadeira, que nele se viu, nasceram todos os demônios quantos depois de serem anjos ardem no inferno.

À palavra ejiciens segue-se daemonium. E chamar demônio ao espelho parece que não só é fazer injúria à arte, senão à mesma natureza. O espelho, depois de muitos anos — quando já o mundo não tinha muito que ver em si, senão muito que aborrecer — foi invento artificial e humano. Porém, na sua primeira origem já tinha sido o espelho obra da natureza, e do soberano autor dela, As estrelas são espelhos do sol; os rios são espelhos das árvores; uma fonte, que não devera, foi o espelho fatal de Narciso; e o mesmo mar, espelho daquele rústico presumido, que dizia: Nuper me in littore vidi, cum placidum ventis staret mare[5]. — Sêneca, com toda a severidade estóica, diz que os espelhos — em que os primeiros homens encontravam com a sua imagem em qualquer pedra lisa — foram ordenados desde seu princípio pela natureza, como mãe e mestra dos bons costumes, para que o moço, que nasceu bem afigurado, vendo no espelho a sua gentileza, a não afeiasse com os vícios; e o que nasceu feio, suprisse e emendasse aquele defeito com a formosura das virtudes. Do mesmo modo, para que o mancebo, vendo-se robusto e forte, empregasse as suas forças em honestos e honrosos trabalhos, e o velho, considerando as suas cãs, as não afrontasse com ação indigna delas, antes, reconhecendo os poucos dias que lhe podiam restar de vida, os perpetuasse com exemplos merecedores da imortalidade. Esta mesma doutrina tinha sido a de Platão e Sócrates, em cujas escolas estavam colocados espelhos, para que a eles se vissem e compusessem os discípulos das virtudes que nelas se ensinavam.

Pois, se o espelho desde sua origem não foi obra humana, senão divina; se o fim deste instrumento natural foi para que o homem, criado à imagem de Deus, vendo a sua no espelho, a procurasse conformar com a perfeição e soberania de tão alto original; não é agravo e afronta, sobre impropriedade grande, comparar o espelho ao demônio, e chamar-lhe demônio? Não, porque desde sua mesma origem não há duas coisas que Deus criasse mais parecidas e semelhantes que o demônio e o espelho. O demônio primeiro foi anjo, e depois demônio; o espelho primeiro foi instrumento do conhecimento próprio, e depois do amor-próprio, que é a raiz de todos os vícios.

E para que se veja quão alheio de agravo nem encarecimento é o nome de demônio que dei ao espelho, ouçam todos com assombro o que agora hei de dizer. E é, que de um espelho não artificial ou fingido, senão natural e verdadeiro, e de uma formosura também natural e verdadeira que nele se viu, nasceram todos os demônios, quantos depois de serem anjos ardem no inferno.

Os espelhos em que se vêem os anjos — e o mesmo se entende das nossas almas — não são compostos de vidro e aço, ou de outra matéria corpórea, senão espirituais como os mesmos anjos, os quais, nos atos do próprio entendimento, como em espelhos naturais e claríssimos, se vêem a si, e as expressas imagens de si mesmos. Em Deus, que é o supremo espírito, e exemplar de todos, temos o melhor e mais qualificado exemplo. Deus Padre, desde o princípio sem princípio, de sua eternidade, produziu e está sempre produzindo, por ato de entendimento o Verbo divino, e o mesmo Verbo é um espelho de candidíssima luz, e sem mácula, no qual vê Deus a sua essência, a sua majestade, a sua grandeza infinita, e todos seus atributos: Candor est enim lucis aeternae, et speculum sine macula Dei majestatis, et imago bonitatis illius[6], — Assim o diz o Espírito Santo no livro da Sabedoria; e assim, por seu modo, se vêem os anjos a si mesmos, não fora, senão dentro de si, no espelho natural, e imagem expressíssima do próprio entendimento.

Isto posto, tanto que foi criado o maior e mais excelente de todos os espíritos angélicos, Lúcifer, viu-se neste seu espelho mental, e, contemplando nele a sua formosura, maior sem controvérsia que a de todos os anjos, ficou tão namorado e elevado da mesma vista: Elevatum est cor tuum in decore tuo[7] — que não se contentou com menos que ser como Deus: In caelum conscendam, super astra Dei exaltabo solium meum; sedebo in monte testamenti, ascendam super altitudinem nubium, similis ero Altissimo[8]. — E que se seguiu daqui? O mesmo que ao homem, quando quis ser como Deus: In quocumque die comederitis, aperientur oculi vestri, et eritis sicut dii[9]. — Note-se com muito grande atenção, esta paridade. O homem, querendo ser mais do que era, perdeu o que era: quis ser como Deus, e perdeu a dignidade de homem, ficando semelhante aos brutos: Homo, cum in honore esset, comparatus est jumentis, et similis factus est illis[10]. E Lúcifer do mesmo modo, querendo ser como Deus, perdeu a dignidade de anjo, e em sinal de ficar também como bruto, lhe nasceu logo uma cauda tão grande, que arrastou e derrubou com ela a terceira parte de todas as jerarquias angélicas: Et cauda ejus trahebat tertiam partem stellarum caeli, et misit eas in terram[11]. — De sorte, como dizia, que, vendo Lúcifer a sua formosura natural e verdadeira em um espelho também natural e verdadeiro, deste espelho e desta vista, como de pai e de mãe, nasceram todos os demônios, quantos com o mesmo Lúcifer ardem no inferno. A certo demônio perguntou Cristo uma vez como se chamava, e ele respondeu: Legio, quia multi sumus (Mc. 5, 9): Que se chamava legião, porque não era um só demônio, senão muitos mil. — E se ao espelho, por ser em Lúcifer origem de todos os demônios, se podia dar o nome de todos, bem se segue quão curto lhe vem o de um só demônio: Erat ejiciens daemonium.

V – A eloqüência e retórica do espelho. O espelho, pregoeiro mudo. De que modo nos tenta o demônio mudo, se o não vemos nem ouvimos? A visão beatífica, espelho voluntário de Deus, e o espelho em que se transformou o demônio.

Só resta a última e principal diferença de mudo: Et illud erat mutum. — E não é necessária outra prova mais certa e mais evidente que a mesma experiência dos que se vêem, e muito mais das que se vêem ao espelho. Não há eloqüência, nem retórica com todas suas figuras, que mais diga, que mais persuada, e que mais deleite, que aquele lisonjeiro mudo. Mudo adula, mudo encarece, mudo atrai, mudo afeiçoa, mudo enfeitiça, mudo engana, mudo mente e desmente juntamente, negando o que é, e fingindo o que agrada. Nono, poeta antigo, e tão erudito nas línguas como nos silêncios, chamou ao espelho pregoeiro mudo: Tacito praecone — speculo — imagini credebat puella suae pulchritudinis: e diz discretissimamente que uma donzela que se viu no espelho, pregoeiro mudo, não cria da sua formosura o que ela via, senão o que ele apregoava. — São os mistérios do espelho como os da fé, em que uma coisa é a que se vê, e outra a que se crê: Vê-se o que concedeu a natureza mais ou menos avara; e crê-se em fé do amor, ou desejo próprio, não o que retrata o espelho, senão o que representa a imaginação: Imagini credebat pulchritudinis suae. — Formosura apregoada não está muito longe de vendida. Diga-o a de Sara, quando as vozes do pregão chegaram aos ouvidos de Faraó. Se Deus não acudira pela honra de Abraão, já ele de antemão tinha recebido boa parte da paga: Fueruntque ei oves, et boves, et servi, et famulae, etc.[12].

Para este juízo falso e mudo concorre com o espelho uma testemunha também falsa e muda, que é a formosura. Com este sobrenome tão pouco ameno, a censurou Teofrasto, referido por Laércio na vida de Aristóteles: Pulchritudinem esse silentem fraudem: que a formosura é um engano e uma mentira muda. — De sorte que deste mudo e desta muda se representa no teatro do espelho um diálogo, que se ouve sem voz, tão aparente à vista, tão pintado ao desejo, e que tanto persuade, engana e tenta como o mesmo demônio. Aqui está a propriedade do demônio e mudo. O demônio tentou a Cristo falando; a nós tenta-nos mudo e sem dizer palavra. Mas de que modo, se o não vemos nem ouvimos? Ouçam agora esta filosofia os que a não sabem, posto que todos a experimentam.

Dentro da nossa fantasia, ou potência imaginativa, que reside no cérebro, estão guardadas, como em tesouro secreto, as imagens de todas as coisas que nos entraram pelos sentidos, a que os filósofos chamam espécies. E assim como nós das letras do A B C, que são somente vinte e duas, trocando-as e ajuntando-as variamente, escrevemos e damos a entender o que queremos, assim o demônio, daquelas espécies, que são infinitas, ordenando-as e compondo-as como mais lhe serve, pinta e representa interiormente à nossa imaginação o que mais pode inclinar, afeiçoar e atrair o apetite. E deste modo mudamente nos tenta, mudamente nos persuade, e mudamente nos engana. Isto mesmo é o que passa entre a vista e o espelho, e tanto mais viva e enganosamente, quanto é maior o desejo de bem parecer. Saem as espécies direitamente do rosto ao espelho, e, recebidas no vidro, e rebatidas do aço, tornam reflexamente aos olhos; e nesta ida e volta, ambas mudas e em silêncio, por engano do amor-próprio, se pinta ou despinta de tal sorte o mesmo objeto, que mais parece milagre da transfiguração que ilusão da vista.

Diz S. Paulo que o demônio algumas vezes se transfigurou em anjo de luz: Ipse enim Satanas transfigurat se in angelum lucis (2 Cor. 11, 14). — E estas são as transfigurações que cada dia faz o diabo mudo. Vê-se talvez ao espelho uma figura só por sua antiguidade venerável; e quando aos que a vêem de fora lhes parece aquela cara pouco menos feia que um demônio, ela, depois que se viu, sai tão transfigurada, que na confiança e estimação da própria beleza, só lhe faltam as asas para cuidar que é um anjo. Assim o cuida, porque assim se viu; e assim se viu, porque assim se quis ver, como se o espelho não fora espelho do rosto, senão da vontade. À visão beatífica, com que os bem-aventurados vêem a Deus, chamam sabiamente os teólogos: Speculum voluntarium: espelho voluntário. — E o demônio — que, como bugio de Deus, diz S. Gregório Nazianzeno, em tudo o arremeda — transformando-se no espelho, o fez muito mais voluntário do que é Deus na visão dos bem-aventurados. Deus na visão beatífica é espelho voluntário, porque só se vê nele e dele o que quer Deus, que é o espelho. E o espelho, em que se transformou o demônio, é muito mais voluntário, porque se vê nele à medida e ao arbítrio da própria vontade, não o que quer, ou representa o espelho, senão o que quer, e como quer quem se vê. Só não pode fazer o demônio que as que se vêem ao espelho como querem, sejam vistas também como querem; mas isto se supre com as receitas que se vão buscar à botica, que no mesmo espelho ensina por acenos o mesmo diabo mudo.

VI – A razão ou sem-razão de ser tão dificultoso de se arrancar da parede de uma ceia, ou do afeto de uma religiosa, o espelho, que ali está tão pregado. A semelhança de Deus, que Lúcifer afetou, quando disse: Similis ero Altissimo. São Jerônimo, e o exemplo de Blesila, nobilíssima viúva romana. S. Justino mártir, e o sacrílego apetite mulheril de se verem ao espelho. O espelho da deusa Palas. O arquipresbítero da Catedral de Antuérpia, e os espelhos encadernados nos livros de devoção das mulheres devotas.

Já temos chegado ao lugar para onde reservei a razão ou sem-razão do erat ejiciens, ou de ser tão dificultoso de se arrancar da parede de uma cela, ou do afeto de uma religiosa, o espelho que ali está tão pegado. É possível que uma virgem consagrada a Deus, e desposada com o Filho de Deus, há de estar tão casada com o espelho? É ela mulher? É ela filha de Eva? Pois, de lá lhe vem esta inclinação, e não é muito que tenha lançado tão fortes raízes. Diz Tertuliano que, quando Eva foi criada no Paraíso, se já se tivessem inventado as lisonjas com que se costuma enfeitar a formosura, e se já houvesse também os espelhos, aos quais fosse lícito enganar e mentir, como hoje fazem, que também Eva se havia de deixar enganar deles: Si margaritae canderent, et ceramnia coruscarent, et speculo tantum menti ri liceret, et Eva concupiisset. — Isto cuidou Tertuliano de Eva; e eu cuido do demônio que, se já houvesse espelhos, não havia ele de pedir emprestada à serpente a língua, para a enganar e render. Mais digo: que se a serpente lhe prometesse: Serás como Deus — e o espelho lhe dissesse: Verás em mim tua formosura — que havia Eva de aceitar o partido e oferta do espelho, e não a promessa da serpente. E para que não pareça coisa incrível no juízo de uma mulher antepor a glória, ou idolatria de estar contemplando a sua formosura, à dignidade e divindade de ser como Deus, seja juiz e prova o mesmo demônio.

Quando Lúcifer disse: Similis ero Altissimo[13] — julgaram muitos doutores, principalmente antigos, que nesta semelhança com Deus — que é o sicut dii — afetara Lúcifer a divindade; porém, muitos outros intérpretes, não menos doutos, que vieram depois, não por serem mais amigos do demônio, senão porque ao mesmo demônio se deve fazer justiça, quando ele a tiver — têm para si, que um espírito de tão sublime entendimento não podia cair em uma ignorância tão evidente, e em um erro tão crasso, senão em outro mais natural e mais próprio da formosura, em que também podem ser cúmplices os nossos espelhos. E qual foi? Foi que, vendo Lúcifer sua extremada formosura, ficou tão satisfeito dela que, renunciando a vista de Deus, não quis outra mais que a sua.

Em que consiste a glória e bem-aventurança de Deus? Consiste em se estar sempre vendo a si mesmo, contemplando a sua essência, a sua divindade, a sua formosura eterna, infinita, imensa. Pois, assim como Deus se vê no espelho do seu entendimento, assim eu — diz Lúcifer — me quero ver no espelho do meu. E assim como ele tem a sua glória em se estar vendo a si mesmo, assim eu quero ter a minha em me estar vendo a mim, e por isso não quero a sua glória nem a sua bem-aventurança, senão a minha,

Esta vista, pois, e esta contemplação da própria formosura é a semelhança de Deus, que Lúcifer afetou quando disse: Similis ero Altissimo — e a mesma vista e contemplação, se já houvesse espelhos no Paraíso, como dizia Tertuliano, seria a maior tentação de Eva, tendo experimentado o demônio em si mesmo, quanto mais poderosa era para a persuadir e render o silêncio do espelho mudo, que a astúcia da serpente falando. E porque esta experiência não teve lugar em Eva, porque ainda não havia espelhos, bem se viu, depois que os houve, o apetite que herdaram da mesma Eva as suas filhas. E por isso há tantas no mundo — e fora do mundo — que gastam as horas e perdem os dias inteiros em se estar vendo, revendo e contemplando no espelho, como se não tiveram nem esperaram outra glória.

Exemplo seja Blesila, aquela nobilíssima viúva romana, da qual escreve S. Jerônimo que desde amanhecer o sol até à noite empregava com grande vagar e estudo o dia todo em se enfeitar ao espelho: Blesilla vidua nostra ante morosior ornabatur, et die tota quid sibi deesset quaerebat ad speculum. — Não desenganou a Blesila nem a morte, que a fez viúva, nem a mortalha, que a obrigou ao capelo, para lhe enfastiar aquele imortal apetite de se estar sempre vendo ao espelho. Mas pôde tanto a graça, triunfadora da natureza que, com mudança não imaginada, a mesma Blesila, como se fora outra, renunciando ambos os mundos, se vestiu de um hábito grosseiro de penitência, e se fez religiosa. Disse renunciando ambos os mundos, porque além deste mundo, em que todos vivemos, em frase de latinos e gregos há outro mundo, que são os enfeites das mulheres: Mundus muliebris. — Não acharam os homens mais sábios, nem outra menor comparação com que definir, nem outro menor nome com que declarar o excesso desta vaidade e apetite mulheril. E que fazia depois a que assim gastava os dias em semelhantes enfeites? O mesmo S. Jerônimo, comparando os dias de então às noites de agora, continua dizendo com admiração: Nunc ad orandum festina consurgit, et tinulla voce caeteris alleluia praeripiens, prior incipit laudate Dominum suum: Aquela Blesila, que dantes tão mal empregava os dias, agora aproveita tão santamente as noites, que ela é a primeira que se levanta à matinas, e com a voz e campainha — tinula voce — esperta as outras monjas, não para se verem e contemplarem a si, mas para irem ver e contemplar a Deus naquele espelho da oração elevada, em que nesta vida, como diz S. Paulo, vêem menos claramente o rosto divino os que depois o hão de ver face a face: Videmus nunc per speculum in aenigmate: tunc autem facie ad faciemt[14].

Este mesmo apetite de as mulheres se verem ao espelho, declara S. Justino Mártir com um notável abuso que refere do seu tempo, por estas palavras: Usu venit quibusdam se ipsas fallentibus, ut cum aperte vultum pigmentis fingere non audeant, arte id faciant, in undam aut oleum facie inclinata despicientes. S. Justino floresceu duzentos anos depois da vinda de Cristo, em que ainda durava o primeiro espírito da Igreja, e era proibido às mulheres cristãs o uso dos espelhos. E que obraria nelas o apetite, tão contrário a este preceito, e ainda ao de se pintarem, como faziam as gentias, e como hoje fazem as cristãs idólatras, que têm o seu rosto por ídolo? Diz o santo que, não se atrevendo a ter nem usar dos espelhos artificiais, com outra arte se viam ou no azeite ou na água: ad undam, aut oleum facie inclinata. — Mas não parava aqui a curiosidade, que se podia perdoar. A deusa Palas também se viu na água, e lhe serviu de emendar um defeito, que não via. Como criada nos vales do Monte Ida, entre os pastores, recreava-se a deusa em tocar uma frauta pastoril; mas como ao passar de um ribeiro visse nele que a frauta lhe descompunha a harmonia das faces, inchando mais uma delas: Não quero eu — disse — comprar a tanto custo a consonância da frauta — e lançou-a de si muito longe.

I procul hinc, dixit, non est mihi tibia tanti,
Ut vidit vultum Pallas in amne suum.

Se aquelas boas ou más cristãs usaram dos dois espelhos naturais para emendar alguma decomposição ou deformidade do rosto, venial podia ser o pecado contra o preceito. Mas diz com grande invectiva o zelo de S. Justino, que o faziam para ver se a natureza as tinha dotado de algumas prendas, das que agradam aos olhos dos homens, e para as converterem em armas com que fazer guerra à castidade: Ut de se ipsis judicarent, an adversus castitatem belligerare passent. — Tanto mais abominável era que o verem-se, o fim por que se viam. De Arquimedes, famosíssimo matemático, sabemos que em um porto de Sicília fabricou uns espelhos, de tal forma que, reverberando neles os raios do sol, convertidos em fogo, abrasaram uma armada inimiga. E tal era a diabólica tenção destas matemáticas do inferno, para abrasarem as almas dos que falsamente se chamam amigos.

Ainda é mais ímpio, e por seu modo sacrílego, este apetite mulheril de se verem ao espelho. Quase estive duvidoso se o diria, com receio de que haja quem lhe tome a invenção. Nas terras do norte são mais usadas as orações dos livros que as das contas, e a todas as senhoras leva um criado à igreja, em um saco de veludo, o livro por que há de rezar. Ouçamos agora ao autor do grande Teatro da Vida Humana, arquipresbítero da Catedral de Antuérpia, o qual, como testemunha de vista, diz assim, falando das mulheres: Harum luxuries eo processit, ut etiam in libellis, quos ad Ecclesiam deprecaturae adferunt, specula componant, quibus mundum muliebrem, et phaleras suas, ac capellitium inter fervidas scillicet suas preces adornent: Tem chegado — diz — o luxo e vaidade das mulheres a tal excesso, que até nas horas, ou livros de orar, que levam à igreja, vão entre as folhas encadernados espelhos, nos quais estão compondo de novo os seus enfeites, a fim de que as suas fervorosas orações não apareçam diante de Deus desacompanhadas deste ornato. — Até aqui o autor, a cujo teatro, se isto houvesse de sair por farsa, não haveria coisa mais ridícula.

Mas se se houver de representar e ponderar com juízo, nenhuma pode ouvir a cristandade nem mais trágica, nem mais triste, nem mais injuriosa. De sorte que à igreja, onde as mulheres vão orar e adorar a Deus, se vão idolatrar a si mesmas; e naqueles livros santos, cujas folhas umas têm estampadas as imagens da Virgem Maria, outras as de Jesus Cristo crucificado, se não pejam de que apareça também as suas! Se vos não atreveis a estar duas horas sem vos ver por amor de Deus, como esperais ver a esse mesmo Deus eternamente? Oh! cristandade! Oh! gentilidade! Conta Pausânias que no templo maior da Arcádia, estava um espelho, no qual os homens que olhavam para ele não se viam a si, mas só viam as imagens dos deuses. E quando os gentios, adoradores dos deuses falsos, entenderam que nos espelhos dos templos não se haviam de ver outras imagens que as dos mesmos deuses, têm nome e fé de cristãs as que levam os espelhos aos templos do Deus verdadeiro, não só para tirarem os olhos dos altares, e os porem em si, nem só para se verem a si, que seria menor escândalo, mas para verem e enfeitarem o modo com que desejam ser vistas?

E como este apetite de bem parecer, herdado de tão longe, e esta inclinação e estimação, fundada nos ornatos de uma caveira e no esquecimento dela, é tão natural e tão própria do gênero feminino, e ainda na adulação do amor-próprio mais enganado, não há gentileza tão perfeita, que não tenha que emendar, nem tão inteira, que não tenha que suprir, nem tão sã, que não tenha que curar, de que o espelho é o médico: esta é a razão, ou sem-razão da dificuldade e resistência, com que nos mesmos claustros religiosos, e entre as mesmas que professam o desprezo dos olhos humanos, sejam tão raras dentro das suas quatro paredes as que deixem despegar e sair delas o espelho.

VII – O grande sacrifício que farão a Deus as religiosas que renunciarem ao espelho. Quem renuncia o ver-se no espelho, não só sacrifica a vista, senão também os olhos com que se vê. Por que são os espelhos olhos da arte? O diferente modo com que vemos as coisas no espelho, ou em si mesmas. A desculpa natural das religiosas que se não atreverem a renunciar ao espelho. O exemplo das mulheres hebréias. O bronze dos espelhos, e a grande concha do purificatório sacerdotal da lei antiga. Por que não têm desculpa, nem escusa alguma, as religiosas que andam tão pregadas a seus espelhos?

Daqui — falando agora conosco — parece se seguem duas conseqüências certas. A primeira, em respeito das religiosas que renunciarem o espelho, o grande sacrifício que farão a Deus; a segunda, em respeito das que se não atreverem a tanto, uma natural desculpa de o não fazerem. Quanto ao sacrifício, estão neles escondidos dois extremos rigores, em que ninguém repara. O primeiro é que quem renuncia o ver-se no espelho, não só sacrifica a vista, senão também os olhos com que se vê. Funda-se esta proposição em uma sentença aprovada e louvada pela filosofia conimbricense, que é a mais autorizada e elegante que até agora apareceu no mundo: Scite dictum est, ut speculum oculus est artis, ita oculum esse naturae speculum. — Quer dizer este grande reparo filosófico que, assim como os olhos são espelhos da natureza, assim os espelhos são os olhos da arte. — Os olhos são espelhos da natureza, porque neles se retratam as imagens de quem se vê, a que chamamos meninas. E chamam-se meninas, e não meninos, porque a mesma natureza parece que fez os espelhos para as mulheres, e não para os homens. E por que são os espelhos olhos da arte? Admiravelmente, porque os olhos naturais não se vêem a si mesmos, nem o próprio rosto; e fez a arte os espelhos como segundos olhos fora de nós, para que nos pudéssemos ver a nós. Logo, quem sacrifica o espelho, não só sacrifica a vista senão também os olhos com que se vê, e sem os quais se não pode ver. E esta é a maior mortificação, ou rigor da natureza neste sacrifício.

O segundo, e ainda mais apertado, é porque quem sacrifica o espelho, não só sacrifica a vista com que se havia de ver, senão também a vista com que se tem visto. Esta proposição, que parece mais dificultosa, não é menos que teológica, fundada em outra de fé. Diz o apóstolo S. Tiago que os que ouvem a palavra de Deus, e não fazem o que ouvem, são semelhantes aos que vêem no espelho o seu rosto natural, e logo se esquecem da figura e feições do mesmo rosto que viram: Si quis auditor est verbi, et non factor, hic comparabitur viro consideranti vultum nativitatis suae in speculo: consideravit enim se, et abiit, et statim oblitus est qualis fuerit (Tg. 1, 23 s). — Isto que diz o apóstolo, e é de fé, porque ele o diz, a experiência ordinária o ensina. Vê um homem aos outros, e lembra-se claramente das feições do rosto e figura de cada um, e, ausente, o retrata na imaginação assim como o viu; mas se viu no espelho a si mesmo, logo se esquece, nem se pode pintar ou figurar como é.

E donde vem, ou se causa esta diferença tão notável? Vem do diferente modo com que vemos as coisas no espelho ou em si mesmas. Em si mesmas vemo-las por espécies diretas, que são mais vivas e mais fortes; no espelho vemo-las por espécies reflexas, que não têm aquela vida, ou aquela viveza, nem aquela força. E a razão é porque o reflexo que as rebate no espelho as enfraquece de tal sorte, que quando chegam à potência, onde se formam as espécies memorativas por meio das quais nos lembramos, ou estas se não produzem, ou são tão tênues, e quase mortas, que se não pode servir delas a memória, e se segue naturalmente o esquecimento. Logo, quem sacrifica o espelho, não só renuncia nele a vista futura, senão também a passada. A futura, porque se não há de ver, pois não tem espelho; a passada, porque, por falta do mesmo espelho, não pode renovar na memória nem suprir no esquecimento o retrato de quando se viu: Et oblitus est qualis fuerit. — Tanto renunciam e dão para sempre a Deus as religiosas de ânimo varonil, que por seu amor e reverência lhe sacrificam o espelho!

E quanto à fraqueza das que se não animam nem atrevem a tanto, e à desculpa que parece têm natural de não degolarem para sempre em si mesmas a vista do próprio rosto, verdadeiramente, considerada a miséria dos nossos tempos, e o desmaio e frieza a que tem descaído geralmente o valor e espírito da perfeição cristã, não só no estado secular, senão também no religioso, parecerá do mesmo modo que nos devemos contentar com esta moderação, posto que não sem dor. Mas, se nos pusermos fora dos nossos tempos, e fora também das obrigações da cristandade, acharemos que a chamada desculpa natural, neste caso, é tão grande miséria, tão grande fraqueza, e tão grande afronta de qualquer congregação religiosa, que nem dizer, nem ouvir, nem imaginar se pode, sem igual confusão, como agora demonstrarei com lastimosa evidência.

Postos, pois, fora dos nossos tempos e fora da cristandade, antes de Salomão edificar o famosíssimo Templo de Jerusalém, fabricou Moisés outro templo menor e portátil, chamado o Tabernáculo, em que no caminho da Terra da Promissão se faziam os sacrifícios e se ensaiavam as outras cerimônias, que depois se haviam de exercitar no Templo. E sendo uma das peças notáveis deste Tabernáculo um tanque, ou lavatório grande, para uso e purificação dos sacerdotes antes de entrarem a sacrificar, diz o texto sagrado que este lavatório era fundido de bronze, e que este bronze era dos espelhos das mulheres que de dia e de noite serviam, oravam e vigiavam no Tabernáculo: Fecit et labrum aeneum cum basi sua de speculis mulierum, quae excubabant in ostio tabernaculi[15]. — Não faça dúvida ser o bronze dos espelhos, porque os espelhos ordinários daquele tempo eram de bronze, como tinham sido os primeiros de estanho, e depois se fizeram também de prata e ouro, guarnecidos de pedraria; pelo que, disse Sêneca que um destes espelhos valia mais que o dote com que o Senado dotara as filhas de Cipião Africano, sendo aquele grande triunfador de Cartago tão pobre, que não teve com que as dotar, Mas por isso mesmo digno, como diz o mesmo Sêneca, de que tivesse por sogro o Senado Romano.

De maneira — tornando aos espelhos de bronze — que, assim como Arão do ouro das arrecadas das mulheres tinha fundido o ídolo do bezerro, assim Moisés, do bronze dos espelhos, também das mulheres, fundiu a grande concha do purificatório sacerdotal, com uma diferença, porém, muito notável: que as arrecadas foram trazidas por mandado de Arão, arrancando-as os homens das orelhas de suas mulheres e filhas; e os espelhos, sem mandado de Moisés, ou outra autoridade superior, espontânea e voluntariamente, por pura e mera devoção das mulheres, foram oferecidos a Deus, e dedicados ao serviço e uso do Tabernáculo. Assim o observou e pondera elegantemente Filo Hebreu: Ex vasis jam antea expolitis in usum tamen alium, quem mulieres mira animi alacritate certatim contulerant: specula enim, ad quae formam curare solitae fuerant, sponte, nemine jubente, Deo dicaverant; haec ad se delata opifex in unam massam confundit. — Das quais palavras se colhe quão aceita fosse a Deus, e quão grata aos olhos divinos aquela oferta, assim por serem os espelhos, e o cuidado e cultura da gentileza, a coisa que mais estimam, e de que mais se prezam as mulheres: Specula, ad quae formam curare solitae fuerant — como pela vontade e prontidão de ânimo, e pela alegria justamente chamada admirável, com que foram oferecidos: mira animi alacritate certatim contulerant. — E, sobretudo, sem que alguém a isso obrigasse aquelas devotas mulheres: nemine jubente — que é o que Deus mais estima, mais preza e mais ama no que se lhe oferece, como diz S. Paulo: Non ex tristitia, aut necessitate; hilarem enim datorem diligit Deus[16].

Provado assim o muito que agrada a Deus a renúncia e sacrifício dos espelhos, que é a primeira parte da nossa proposta, segue-se a segunda, que prometi, de mostrar de não terem desculpa nem escusa as religiosas que o não fazem e repugnam. E se não, pergunto, para que me respondam: Estas mulheres que tão animosa e valorosamente, e com ânimo e resolução mais que varonil, dedicaram os seus espelhos a Deus e ao Tabernáculo, que mulheres eram? Eram aquelas hebréias, que havia um ano tinham saído do cativeiro do Egito, onde muitas delas, como escravas, adoravam os ídolos de seus senhores; havendo também um só ano — e o mesmo — que Deus tinha dado no Monte Sinai a lei de Moisés. E estas mulheres tinham voto de religião? Não, porque ainda não havia tais votos, nem tal nome no mundo. E eram virgens consagradas a Deus? Também não, porque daí a dois mil anos deu princípio a Virgem das virgens a tão soberano instituto. Qual era logo o estado destas tão admiráveis mulheres? Umas eram casadas, outras viúvas, outras donzelas, e assim o confessam até Calvino e Beza, os hereges mais inimigos do estado religioso.

Vamos agora subindo por esta mesma escada, e vejam as religiosas cristãs, não naqueles espelhos deixados, senão nas mesmas que os deixaram, se têm desculpa ou escusa alguma de estarem tão pegadas aos seus. Com os mesmos olhos com que as hebréias se costumavam ver e enfeitar aos seus espelhos, os viram depois quebrar, desfazer, derreter e fundir, não chorando aquela destruição, nem tendo saudades do tempo em que neles se viam, mas grande glória sim do diferente uso e emprego em que os viram trocados. E se isto faziam mulheres casadas, ou que o foram, ou que o podiam ser, que devem fazer ou ter feito as que com vínculo perpétuo e indissolúvel se desposaram com o Filho de um Pai eterno? Se este consentimento comum, e ímpeto fervoroso de espírito, ardia nos corações das filhas de Israel, sucessoras de Raquel e Lia, qual era bem que se venerasse nas filhas dos Basílios, Bentos e Agostinhos, e muito particularmente nas de S. Bernardo, sucessoras das Umbelinas, das Leogardes, das Edvígias, e de tantas outras? Se aquele zelo e devoção se admirava na sinagoga e lei de Moisés, quanto se deve estranhar, não só a falta dele, mas o contrário, nas recoletas da Igreja Católica e lei de Cristo? É tanta a diferença da lei de Moisés à lei de Cristo, quanta vai da sombra à luz, da noite ao dia, da figura à verdade, e da lei da graça, que só ela pode dar, àquela que não podia. E se tanta fé e lealdade guardavam a Deus as que havia um só ano que o conheciam, as que antes de terem entendimento receberam a fé do mesmo Deus no batismo, e antes de ter língua prometeram nele que renunciavam ao demônio e a todas as suas pompas, por que há de poder tanto com elas o mesmo demônio, também mudo e sem língua, que na idade capaz de arrependimento lhe tornem a dedicar as pompas renunciadas, e não ocultamente, senão nos olhos do mundo, e na própria cara, sem lhe fazerem as faces vermelhas de pejo e confusão, senão de outra cor?

VIII – Os obséquios das mulheres egípcias à deusa Ísis. De que mais se prezavam os olhos da Esposa santa dos Cânticos, figura profética das que na lei da graça haviam de ser esposas de Cristo. Que quis significar a Esposa quando diz que seus olhos, como pombas em cima dos rios de água, não se lavavam em água, senão em leite?

Mas, passando do tempo das hebréias, que tinham fé, às gentias e idólatras sem conhecimento do Deus verdadeiro, no Egito, assim como era venerado por Deus Osíris, que tinha sido seu rei, assim Ísis, que fora sua mulher, era venerada por deusa. E no dia em que se celebravam as festas desta segunda e falsa deidade, e era levada de um templo a outro em procissão, diz Apuléio que ia diante um coro de donzelas vestidas de gala, e coroadas de flores, as quais levavam em açafates, e, semeando-as por toda a parte, faziam prados as ruas. Diz mais, que ao meio do caminho vinha outro coro a encontrar e receber a deusa, e que estas — de cujas galas se não faz menção — traziam lançados detrás das costas os espelhos, e os mesmos espelhos também voltados do avesso, com que nem elas nem outrem se podia ver neles. Isto posto, sabida coisa é vulgarmente, que os egípcios, como primeiros inventores das ciências, sempre significavam mais do que diziam, e todas suas ações eram mistérios. Que mistério tinha logo o primeiro coro das donzelas alcatifando as ruas de flores, e o segundo, trazendo os espelhos detrás das costas? É certo que umas e outras se queriam mostrar devotas e obsequiosas à deusa; mas esta devoção e obséquio atribui o mesmo autor mais principal e declaradamente às segundas que às primeiras: Aliae, quae nitentibus speculis pone tergum reversis venienti deae obviam demonstrarent obsequium. — Saibamos agora: E por que era maior obséquio o dos espelhos voltados e lançados detrás das costas, que o das flores semeadas pelas ruas por onde a deusa havia de passar? Porque nas flores significavam as primeiras donzelas que cada uma consagrava à deusa a flor das suas idades; e nos espelhos significavam as segundas que sacrificavam à mesma deusa o que aquela idade mais preza e mais estima, que é o ver-se ao espelho. De sorte que, competindo as donzelas egípcias a quais se haviam de mostrar mais obsequiosas à divindade que adoravam, ajuízo dos sábios instituidores daquela pública solenidade, maior era o obséquio e sacrifício das que se condenavam a não se ver mais ao espelho por amor e reverência dela, que as que, vestidas de festa, lhe ofereciam e punham aos pés a flor de sua idade.

Em umas e outras se representavam com propriedade grande as religiosas cristãs. Nas primeiras, as que, entrando noviças na religião, consagram a Deus a primavera dos anos, e flor da idade; nas segundas, as que, professas e antigas no mesmo instituto, e provectas na virtude e no juízo, lhe sacrificam a perpétua e voluntária cegueira do objeto mais amável e mais amado, não se querendo ver ao espelho, nem vê-lo, que por isso as mais discretas os levavam detrás das costas. E se elas isto faziam tão alegre e animosamente, guiadas só pelo ditame da razão natural, sendo gentias e idólatras, que escusa ou desculpa podem ter de o repugnar no estado mais sublime da fé e cristandade, as que, tendo renunciado o mundo por amor do verdadeiro Deus, não só se chamam esposas, mas verdadeiramente o são de seu próprio Filho? Diga-o por todas uma, em que são significadas todas.

Nos Cânticos de Salomão, a que ali se chama Esposa santa, era uma figura profética das que depois, na lei da graça, haviam de ser esposas de Cristo. O mesmo Esposo lhe deu então o nome e sobrenome com que hoje se chama cada uma, esposa e soror: Sóror mea, sponsa (Cant. 4, 9). – Diga-nos agora aquela esposa, e aquela sóror, que é o de que mais se prezavam os seus olhos. Tinha-os ela formado pelo exemplar que o mesmo Esposo lhe mostrara nos seus — pensamento singular de S. Gregório Niceno — e, falando de uns como de outros, diz que eram semelhantes a duas pombas, as quais, estando sobre os rios das águas, não se lavavam em água, senão em leite: Oculi ejus sicut columbae super rivulos aquarum, quae lacte sunt lotae[17]. – Notável dizer, e tão dificultoso a todos os intérpretes, como notável! É certo que nesta comparação não se louva a cor, que nos olhos é tão vária, porque louvar neles a brancura, seria louvor tão frio como a mesma neve. Que quis logo significar a Esposa, quando diz que os seus olhos, como pombas: sicut columbae — em cima dos rios d’água: super rivulos aquarum — não se lavavam em água, senão em leite: quae lacte sunt lotae? — O mesmo Gregório Niceno, como tão eminente filósofo, por observação sua, e experiência certa, diz que todos os outros licores podem servir de espelho, só o leite não, porque ninguém, nem coisa alguma se pode ver nele. As palavras do santo são estas: Vere in lacte hoc observatum est, solum inter humida proprietatem hanc habere, ut in eo nullius rei simulacrum aut similitudo conspiciatur.

E como entre todos os licores só o leite não pode servir de espelho, por isso os olhos da Esposa, informados do Esposo divino, eram semelhantes àquelas pombas, que, estando sobre os rios de água: super rivulos aquarum — não se lavavam na mesma água, na qual se podiam lavar e ver juntamente; mas, deixada totalmente a água, posto que tão vizinha, se lavavam só em leite: quae lacte sunt lotae — porque no leite só se podiam lavar, mas não se podiam ver. Lembremo-nos agora dos espelhos de que Moisés fez a concha ou tanque, em que os sacerdotes se haviam de lavar antes do sacrifício. Aqueles sacerdotes já se não podiam ver nos espelhos de que se tinham feito as margens do tanque; mas podiam-se ver na água dele, em que se lavavam. Porém, as pombas, em que eram significados os olhos das religiosas do nosso tempo: Oculi ejus sicut columbae — ainda que estavam sobre as águas dos rios, em que se podiam lavar e ver: super rivulos aquarum — para maior e total sacrifício, não só renunciavam na mesma água todos os licores, em que se podiam ver, mas no leite, que só não pode servir de espelho, renunciavam todos os espelhos: Ut in eo nullius rei simulacrum ac similitudo conspiciatur.

IX – Por que não persuadir o desuso dos espelhos, mas reduzi-los religiosamente a uma bem entendida concordata? O espelho que São Bernardo compôs, para que todos os seus monges e monjas se vissem e compusessem a ele. O primeiro lume do espelho de S. Bernardo: o pensamento de Deus. O segundo lume: a discrição e a polidez do falar. O terceiro lume: o rigoroso capítulo das obras de cada dia. Por que examinava Deus tão exata e miudamente as obras da criação do mundo?

Afronta seria de uma tão religiosa e santa comunidade, como a presente, depois dos dois exemplos das hebréias, que tinham fé de Deus, e das gentias, que a não tinham, se a houvéssemos de exortar à imitação desta, que também no tal caso seria injúria chamar-lhe fineza. Esta é a razão que eu tenho para não querer persuadir, como não quero, o desuso dos espelhos, mas para os reduzir religiosamente a uma bem entendida concordata. E qual é? Que as filhas de S. Bernardo os não deixem, mas que os troquem, e que esta troca se faça vendo-se daqui por diante ao espelho não mudo, senão eloqüente; não lisonjeiro, senão verdadeiro; não do mundo, senão do céu, qual é o que o mesmo santo patriarca compôs, para que todos os seus monges e monjas se vissem e compusessem a ele.

Compôs S. Bernardo um breve e excelente tratado, que intitulou Speculum Monachorum: Espelho de Monges — o qual começa assim: Si quis emendationis vitae desiderio tactus, cogitationum, locutionum, operumque suorum excessus corrigere nititur, praesentis pagine frequenti lectione tanquam in speculo interioris hominis sui fatiem contempletur[18]. — E por que o santo, com a compreensão profundíssima de tão consumado artífice, divide e compõe o dito espelho daquelas três partes essenciais: cogitationum, locutionum, operumque — que são pensamentos, palavras, e obras, de cada um destes três lumes apontarei somente o mais breve e elevado.

Quanto aos pensamentos — cogitationum — diz o espelho de S. Bernardo que cuide cada um, ou cada uma, das suas religiões [19] — e diga consigo: Neste mundo não há mais que Deus e eu: Sic se existimet, quasi ipse sit solus, et Deus. — Oh! admirável e divino documento! Enquanto no mundo não houve mais que Deus e Adão, conservou-se o paraíso naquela bem-aventurada felicidade, sem perigo de se perder nem mudar. O paraíso da terra é a religião. E quando se perderá este paraíso? Quando nele, além de Deus, houver Adão e Eva, ou Eva e Adão. Quem introduziu no gênero humano o uso dos espelhos foi o apetite, de quem se vê neles, querer contentar a outros olhos que aos de Deus. Declarando Deus ao profeta Samuel a diferença que há dos seus olhos aos nossos, disse: Homo videt ea quae parent, Dominus autem intuetur cor (1 Rs. 16, 7): O homem olha para o rosto, Deus olha e vê o coração. — E como Deus encobriu o coração, e o pôs ou escondeu fora da esfera dos olhos, claro está que não há de ter cuidado de se ver ao espelho, quem só quer parecer bem a quem vê os corações. Quer o espírito de S. Bernardo que sejam as suas filhas como aquelas primitivas criaturas, a que Deus deu o ser, desde o primeiro até ao quarto dia. No primeiro dia criou a luz, no segundo o firmamento, no terceiro as plantas, no quarto o sol e a lua; mas em todas elas não havia olhos no mundo. O ar estava alumiado com os resplendores da luz; o firmamento, esclarecido com os cristais do segundo elemento; os prados, vestidos de rosas, flores e boninas; os céus bordados de ouro sobre azul, no sol, na lua e nas estrelas. E, posto que todas aquelas criaturas estavam ornadas dos esmaltes da natureza, de que se haviam de fazer depois os maiores encarecimentos da formosura, a graça de que todas elas mais se deviam prezar, era de não haver no mundo outros olhos a que pudessem ou quisessem parecer bem, senão os de Deus, que só as viam: Vidit Deus quod esset bonum[20].

Quanto à segunda parte, ou segundo lume do espelho de S. Bernardo, quer o santo que nele se vejam as palavras: locutionum. — Nem faça dúvida parecer que as palavras só pertencem ao sentido de ouvir, e não ao de ver, porque lá disse Moisés, quando Deus dava a sua lei no Monte Sinai, que o povo via as vozes: Populus autem videbat voces (Êx. 20, 18). — Quais diz, pois, o santo que hão de ser as palavras de quem guarda as suas leis? Cum loquitur, non studeat eloquentiae: sermo ejus sit potius rusticanus, quam urbanus: in omnibus agendis non studeat curialis videri. — Quer dizer que quando houverem de falar, não se prezem as suas palavras de ser eloqüentes e discretas, mas que antes sejam rústicas que urbanas, e que de nenhum modo pareçam cortesãs, e de corte. — Dificultoso preceito para Odivellas, que tão perto está de Lisboa, e tem contra si a opinião e dito comum. Dizem que o polido e discreto do falar de S. Bernardo o herdaram as filhas, e não os filhos. E assim como a segunda parte deste dito é praga e falsidade, assim a primeira, se fosse verdadeira, não seria louvor, senão descrédito: Si quis loquitur, quasi sermones Dei[21] — diz o apóstolo S. Pedro: Os servos, e muito mais as servas de Deus, hão de falar como o mesmo Deus: poucas palavras, graves, sem artifício nem afetação, e santas. — Os conventos são as cortes e palácios de Deus, e uma das coisas em que se hão de distinguir dos palácios do mundo é a linguagem. Antes pareça do monte que da corte: Rusticanus potius, quam urbanus.

No palácio do pontífice Caifás, pela linguagem descobriu o mesmo S. Pedro, e deu a conhecer quem era: Nam et loquela tua manifestum te facit[22]. — Três anos havia que ele andava na escola de Cristo, e ainda falava em Jerusalém tão rústica ou rusticamente como nas praias de Galiléia. Da pouca urbanidade com que o mesmo Cristo disfarçado falou à Madalena, quando lhe disse: Mulier, quid ploras[23]? — entendeu ela que era hortelão; e da muita cortesia com que a Madalena lhe respondeu: Domine, si tu sustulisti eum[24] — pudera coligir o hortelão que era senhora, e da corte. Ainda que não fora provérbio de Salomão, que Deus gosta de conversar, não com os discretos, senão com os simples: Cum simplicibus sermocinatio ejus[25]. — Além das outras filhas do espírito de S. Bernardo, que já referimos, podem servir de exemplo às demais as Sanchas, as Teresas, e as Mafaldas, todas portuguesas, e todas de sangue real.

Finalmente, vindo às obras, diz assim o santo legislador: Singulis diebus capitulum sibi teneat, et ponat rationem diligentes, quid ipso die deliquerit publice vel privatim: Todos os dias, diante deste espelho, faça a religiosa capítulo de si mesma, e, chamando a juízo todas as suas potências e sentidos, peça conta à sua consciência do que no mesmo dia tiver delinqüido. — Examine e pergunte à memória o de que se lembrou; ao entendimento, que cuidou; à vontade, o que amou ou aborreceu; aos olhos, o que viram; aos ouvidos, o que ouviram; e às outras portas da alma, o que por elas entrou ou saiu. E se parecer demasiado, e não necessário, este rigoroso capítulo de cada dia, dentro das paredes da religião, onde todas as ações são tão ordenadas e santas, lembremo-nos das obras da criação do mundo, as quais Deus ia fazendo cada dia, e cada dia no mesmo dia as examinava. Assim o nota o texto sagrado: Vidit Deus quod esset bonum, et factus est dies unus. Vidit Deus quod esset bonum, et factus est dies secundus[26] — e com a mesma expressão nos dias e obras seguintes. Pois, se todas aquelas obras eram obras feitas pela divina sabedoria, em que não podia haver erro, e pela divina bondade, em que não podia haver mal, e pela divina onipotência, em que não podia haver defeito, por que as examina Deus tão exata e miudamente? Esta mesma dúvida propôs Oleastro a Deus sobre a criação da primeira obra, que foi a luz. E responde, falando com o mesmo Criador: Ut examinem ego tenebras meas, siquidem tu examinasti lutem tuam.

Não examinastes, Senhor, as vossas obras, porque elas tivessem necessidade deste exame; mas porque nós a tínhamos deste exemplo — para que eu examine as minhas trevas, pois vós examinastes a vossa luz. — Quantas luzes há, não só no mundo secular, senão também no religioso, muito estimadas por tais, que, se bem se examinassem, se havia de achar que são trevas? Os exercícios da religião todos são obras de luz, e luz aprovada pelo Espírito Santo; mas se não forem feitas puramente por agradar só a Deus, e entre Deus e elas se atravessar qualquer respeito da terra, ou de amor, ou de ódio, ou de emulação, ou de inveja, ou de ambição, ou de fingimento, ou de qualquer outro afeto contrário à caridade e verdade, é certo que ficarão tão eclipsadas e escurecidas essas obras de luz, que não mereçam a Deus pôr os olhos nelas. Por isso S. Bernardo fez tanto caso deste que chamou capítulo de cada dia, que torna a dizer que o dia de ontem se há de comparar com o de hoje, e o de hoje com o de amanhã, para que veja o monge se vai adiante, ou torna atrás no espírito. Neste caso, será bom remédio perguntar-se cada um a si, como fazia o mesmo santo: Bernarde, ad quid venisti? Bernardo, a que vieste? — E quando isto não baste, acrescentar outra mais apertada pergunta, e dizer: Eu vim à religião para me salvar, e se eu agora não fizer o a que vim, depois aonde irei?

X – As duas imagens com que ficarão melhor ornadas as paredes das celas das religiosas. Os dois fins do presente discurso. Exortação de Santo Agostinho às virgens consagradas a Deus! O espelho da Rainha das Virgens, e o temeroso espelho de Cristo crucificado,

À vista deste espelho, no qual se retratou um tão santo e amoroso pai, para que o imitem seus filhos e filhas, tenho para mim que, ao menos estas — posto que dantes as mais empenhadas — não só terão perdido o amor, senão também renunciado as saudades de todos os outros espelhos. Mas quando forem arrancados das paredes, para que elas não fiquem nuas, senão muito melhor ornadas, dissera eu que ao seu lugar se passassem duas imagens, que suponho haver em todas as celas: uma do mesmo Senhor, que hoje lançou fora o demônio mudo; e outra da Virgem Santíssima, que, por ocasião deste mesmo milagre, mereceu as aclamações da Mãe de tal Filho: Beatus venter qui te portavit[27]. — Este pensamento me ocorreu, sem outra reflexão sobre o presente assunto mais que de acabar com o mesmo Evangelho, que nos deu o fundamento dele. Agora, porém, estou vendo que nestas duas imagens, as mais santas e soberanas de todas, se fará uma segunda e mais preciosa troca, substituindo por um espelho da terra os dois espelhos em que se estão continuamente vendo e revendo os bem-aventurados do céu.

Dois foram os fins do nosso discurso, ou um só fim dividido em duas partes. A primeira, exortar as virgens esposas de Cristo a que só queiram parecer bem aos olhos do seu divino Esposo; a segunda, o despego ou renúncia daquele natural apetite, a que os olhos ou cegueira humana chamam formosura. Quanto à primeira parte, que melhor e que mais natural ou sobrenatural espelho para todas as virgens consagradas a Deus que a Rainha das virgens? Assim diz, falando com todas, o grande doutor da Igreja, Santo Ambrósio: Sit vobis tanquam in imagine descripta virginitas, vitaque Beatae Mariae, de qua velut in speculo refulget species castitatis, et forma virtutis. Hinc sumatis licet exempla vivendi, ubi tanquam in exemplari magisteria expressae probitatis, quid corri gere, quid effugere, quid tenere debeatis, ostendunt. — Porque me dizem que nesta comunidade há só quatro que entendem a língua latina, para as demais romancearei as palavras do santo, que dizem assim: — Tende sempre, ó virgens, diante dos olhos a imagem da Virgem Maria, a qual, como em espelho, resplandece o verdadeiro retrato da castidade, e de toda a virtude. Este é o exemplar a que deveis compor todas as vossas ações, porque nele, como mestra da perfeição, vos mostrará e ensinará a mesma Virgem das virgens o que deveis emendar, o que deveis fugir, e o que deveis imitar.

Quanto à segunda parte, de renunciar e aborrecer o falso e cego desejo, e estimação da formosura, ainda é mais evidente e quase temeroso espelho a imagem de um Cristo pregado na cruz. Com os olhos em um Cristo crucificado, dizia o devotíssimo Drogo Hostiense: Fecisti, Domine, de corpore tuo speculum animae meae: Desse vosso corpo, Senhor, fizestes um espelho à minha alma. — Oh! que temeroso, outra vez, e que formidável espelho! O mais formoso de todos os filhos dos homens foi Cristo: Speciosus forma prae filiis hominum[28]. — E aquele mesmo rosto, que no Tabor excedia o resplendor e formosura do sol, no Calvário e na cruz estava tão escurecido e desfigurado que nenhuma semelhança tinha do que pouco antes fora. Os que dantes o viam com admiração e sumo agrado, agora com horror o não conheciam, nem podiam ver, e duvidavam se era o mesmo, ou outro: Non est species ei, neque decor; vidimus eum, et non erat aspectus, et desideravimus eum despectum et novissimum virorum, et quasi absconditus vultus ejus[29] — diz o profeta Isaías. — E, à vista de tão lastimoso retrato, quem haverá — e mais com obrigações de esposa — que tenha rosto para aparecer diante dele em outra melhor figura, e ainda lhe fiquem olhos para se ver e compor a outro espelho? Só S. Bernardo soube entender e dizer como nos havíamos de conformar com esta vista, para não ser feiíssima a nossa ingratidão e má correspondência. No céu, diz S. João que havemos de ser semelhantes a Deus, porque o havemos de ver como ele é: Similes ei erimus, quoniam videbimus eum sicuti est (1 Jo. 3, 2). — Pois, assim como no céu — exclama Bernardo — nos havemos de transformar em Deus, fazendo-nos semelhantes a ele, porque o veremos como ele é, assim na terra, vendo ao mesmo Deus tão desfigurado na cruz, e tão demudado de sua natural formosura, nos devemos também transformar e fazer semelhantes a ele, pois veremos no seu rosto qual ele se quis fazer por amor de nós: Siquidem similis eris illi, cum videris eum sicuti est, esto et nunc similis ei, videns eum sicuti propter te factos est.

XI – A fragilidade do espelho e a fragilidade da formosura. A formosura de Helena, por cujo roubo foi destruída Tróia. Exortação final às religiosas.

Daqui se não pode passar, e era justo nesta cláusula acabar de emudecer. Mas, porque o Evangelho diz que, lançado fora o demônio, falou o mudo, o mesmo espelho, que até agora mudo lisonjeava, dirá falando — pois já pode — e descobrirá a verdade dos enganos, que a vista dos mesmos olhos, ou dissimulava, ou fingia. Eu — diz o espelho — como formado de vidro, sou frágil; mas muito mais frágil é, ó filhas de Eva, a que vós chamais formosura. Ouvi ao mesmo compositor da arte, que ensinou como se havia de amar esta enganadora: Forma bonum fragile est, quantumque accedit ad annos Fit minor.

A formosura — diz ele — é um bem frágil; e quanto mais se vai chegando aos anos, tanto vai diminuindo e desfazendo em si, e fazendo-se menor. — Seja exemplo desta lastimosa fragilidade Helena, aquela famosa e formosa grega, filha de Tíndaro, rei de Lacônia, por cujo roubo foi destruída Tróia. Durou a guerra dez anos, e, ao passo que ia durando e crescendo a guerra, se ia juntamente com os anos diminuindo a causa dela. Era a causa a formosura de Helena, flor enfim da terra, e cada ano cortada com o arado do tempo; estava já tão murcha, e a mesma Helena tão outra, que, vendo-se ao espelho, pelos olhos, que já não tinham a antiga viveza, lhe corriam as lágrimas, e não achando a causa por que duas vezes fora roubada, ao mesmo espelho, e a si perguntava por ela:

Flet quoque, ut in speculo rugas conspexit aniles
Tindaris, et secum cur sit bis rapta requirit.

Que coisa é a formosura, senão uma caveira bem vestida, a que a menor enfermidade tira a cor, e antes de a morte a despir de todo, os anos lhe vão mortificando a graça daquela exterior e aparente superfície, de tal sorte que, se os olhos pudessem penetrar o interior dela, o não poderiam ver sem horror? Louvando Salomão a formosura da alma santa em corpo, diz que o vermelho das suas faces era como uma romã partida: Sicut fragmen mali punici, ita genae tuae[30] — e, deixando de notar que — o que naquelas faces era vermelho, em outras é vermelhão — acrescenta o mais sábio dos homens sabiamente: Absque eo quod intrinsecus latet: que aquele gabo se entendia sem o que as mesmas faces encobrem por dentro. — Aqui pudera o espelho fazer um bem grande e pouco vistoso reparo, que S. Bernardo pondera com todos os debruns da sua fealdade.

Mas, como estes interiores estão fora da esfera e jurisdição do espelho, não é o seu intento, nem o meu, desacreditar a formosura, nem a estimação ou desejo dela. Antes, para acabar sem agravo ainda dos olhos mais apaixonados, e sem variar nem dizer nada do que fica dito, digo por fim, e exorto a todas as fiéis esposas de Cristo que, para agradar a seu divino Esposo, amem, desejem e procurem com todo o afeto conservar e aumentar a formosura, mas não a frágil, senão a constante; não a que descompõe a enfermidade, senão a de que se compõe a saúde; não a que diminuem os anos, senão a que dura mais que os séculos; não a que é despojo do tempo, senão a que há de triunfar na eternidade. E há ou pode haver espelhos a que se veja e componha esta formosura? Sim, também. Mas não aquele que os pontífices procuram tirar das celas, senão o que eles canonizam, e nos faz bem-aventurados no céu. É um espelho de tão diferente artifício que, olhando para ele, não nos veremos semelhantes a nós, mas ele só com a sua vista nos fará semelhantes a si. Isto é o que já nos referiu com autoridade de fé o gloriosíssimo pai desta sagrada comunidade, São Bernardo: Similes ei erimus, quoniam videbimus eum sicuti est: Seremos semelhantes a Deus, porque veremos a Deus como ele é. — Fiquem agora considerando os olhos mais cegos, se se deve deixar um espelho, que é o demônio, por um espelho que é Deus.

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[1] Estava Jesus lançando um demônio, e era ele mudo (Lc. 11, 14).
[2] Como acontece quando um pastor chega a arrancar da boca do leão a ponta de uma orelha (Am. 3, 12).
[3] Os que eram vexados dos espíritos imundos ficavam sãos. E todo o povo fazia diligência por tocá-lo, pois saía dele uma virtude que os curava a todos (Le. 6, 18 s).
[4] Mt. 17, 20; Mc. 9, 28.
[5] Há pouco vi-me nas águas do mar, quando os ventos não lhe turbavam a superfície (Virg. Ecl. lib. II, 25).
[6] É o clarão da luz eterna, e o espelho sem mácula da majestade de Deus, e a imagem da sua bondade (Sab. 7, 26).
[7] E o teu coração se elevou na tua beleza (Ez. 28, 17).
[8] Subirei ao céu, exaltarei o meu trono acima dos astros de Deus, assentar-me-ei no monte do Testamento. Subirei acima da altura das nuvens, serei semelhante ao Altíssimo (Is. 14, 13 s).
[9] Em qualquer dia que vós comais desse fruto, se abrirão os vossos olhos, e vós sereis como uns deuses (Gên. 3, 5).
[10] O homem, quando estava na honra, foi comparado aos brutos irracionais, e se fez semelhante a eles (SI. 48, 13).
[11] E a cauda dele arrastava a terça parte das estrelas do céu, e as fez cair sobre a terra (Apc. 12, 4).
[12] E ele teve ovelhas, bois, servos, criadas (Gên. 12, 16).
[13] Serei semelhante ao Altíssimo (Is. 14, 14).
[14] Nós agora vemos a Deus como por um espelho, em enigmas, mas então face a face (1 Cor. 13,12).
[15] Fez outrossim uma bacia de bronze com sua base, dos espelhos das mulheres que velavam à porta do tabernáculo (Êx. 38, 8).
[16] Não com tristeza, nem como por força, porque Deus ama ao que dá com alegria (2 Cor. 9, 7).
[17] Os seus olhos são como as pombas, que, tendo os seus ninhos ao pé dos regatos das águas, estão lavadas em leite (Cânt. 5, 12).
[18] Se alguém for tocado pelo desejo de emendar a vida, procurando corrigir excessos de pensamentos, de palavras e de obras, contemple como em espelho, com a leitura freqüente desta página, a face de seu homem interior (S. Bern.).
[19]Religiosas, no original.
[20] Viu Deus que era bom (Gên. 1, 10).
[21] Se algum fala, seja como palavras de Deus (1 Pdr. 4, 11).
[22] Porque até a tua linguagem te dá bem a conhecer (Mt. 26, 73).
[23] Mulher, por que choras? (Jo. 20, 15).
[24] Senhor, se tu o tiraste (ibid.)
[25] A sua conversação é com os símplices (Prov. 3, 32).
[26] E viu Deus que isto era bom, e se fez o dia primeiro; e viu Deus que isto era bom, e se fez o dia segundo (Gên. 1, 4.5.8).
[27] Bem-aventurado o ventre que te trouxe (Lc. 11, 27).
[28] Vistoso em formosura sobre os filhos dos homens (S). 44, 3).
[29] Ele não tem beleza nem formosura; vimo-lo, e não tinha parecença do que era; por isso nós o estranhamos, feito um objeto de desprezo, e o último dos homens, e o seu rosto se achava como encoberto (Is. 53, 2 s).
[30] Assim como é o vermelho da romã partida, assim é o nácar das tuas faces (Cânt. 4, 3)

Fonte: https://www.literaturabrasileira.ufsc.br/documentos/?action=download&id=49870