Sermão da Terceira Quarta-feira da Quaresma (1651)

PREGADO NA CAPELA REAL. ANO DE 1651


Dic ut sedeant hi duo filii mei, unus ad dextram, et unus ad sinistram in regno tuo[1].

I – Na petição da mãe dos Zebedeus, respondeu o Senhor aos filhos para que o entendesse a Mãe. o autor hoje responde à mãe para que o entendam os filhos.

Esta foi a petição da mãe dos Zebedeus a Cristo, tantas vezes ouvida neste real auditório, como variamente ponderada deste sagrado lugar. Mas porque o soberano Senhor respondeu aos filhos para que o entendesse a mãe, eu determino responder à mãe para que me entendam os filhos, e os que não são filhos também. Com uma só hei de falar, mas para todos hei de dizer. E porque seria impropriedade alegar a Maria Salomé, ou Escritura, ou exemplo, ou autor que não fosse daquele tempo, resumindo-me ao mesmo dia em que foi esta petição feita — que segundo a cronologia mais certa foi o décimo ou nono dia antes da Paixão de Cristo — de tudo o mais quanto sucedeu e se disse no mundo desde então até o presente, me não aproveitarei em uma só palavra. De grandes tesouros de escrituras, de grandes paralelos de exemplos, de grandes autoridades e sentenças, assim sagradas como profanas, me privo; mas espero que nos não farão falta. Começando pois a falar com a mãe dos Zebedeus, o que lhe digo — ou dissera — é desta maneira.

II – O primeiro termo impróprio do memorial: dizei. Os ministros, como o primeiro homem, não se fazem com uma palavra: há-os de fazer quem os faz, e eles também se hão de fazer para serem feitos. Cristo sempre fez grande caso do que dirão o mundo e seus discípulos. O que se dirá então de João e de Jacó? Que dirão as outras Marias da mãe dos Zebedeus? O título de João e o título de Lázaro. Que dirão Marta e Maria, irmãs de Lázaro?

Visto, senhora, este vosso memorial — o qual considero antes que se presentasse a Cristo — posto que eu não tenha autoridade para o emendar, nem ainda confiança para o argüir, a muita devoção que professo com vossos filhos, e o grande respeito que por eles e por vossa venerável pessoa vos é devido, excita, persuade e ainda obriga o meu zelo a que repare e advirta, por vos servir, o que nesta petição me faz dúvida. E para que seja com distinção, clareza e brevidade, examinando uma por uma todas as palavras dela, direi sobre cada uma o que eu noto, mas não condeno, posto que outros o podem estranhar.

A primeira coisa pois, em que a minha consideração repara neste memorial, é a primeira palavra dele: dic, dizei. Não é este o estilo por onde começam nem devem começar as petições. As petições começam por diz, e não por dizei. Mas como vós, Salomé, sois mãe do valido, parece-me que o valimento vos ditou a petição. Os outros nas suas petições começam: diz fulano. Os validos não dizem diz; dizem dizei. Tal estilo de pedir não é pedir, é ensinar ou mandar. O príncipe que assim despacha não concede, obedece; não dá mercê, dá a lição. Cristo é Mestre e Senhor. Vos vocatis me magister et Domine[2], e nem como Senhor deve ser mandado, nem como Mestre ensinado.

Se o que pedis que diga: dic, é que os vossos dois filhos tenham os dois lugares do lado, como quereis que vos despache Cristo logo e em uma palavra? Tão leve negócio é a eleição de um primeiro ministro, e muito mais a de dois ministros, ambos primeiros, que por uma simples petição, sem mais consulta nem conselho, se haja de conceder? Se o pedira todo o reino, ainda havia muito que duvidar, por que não cuidassem os vassalos que juntos nem divididos podiam ter ação ou impulso nas resoluções soberanas. Quanto mais que semelhantes lugares não se dão a quem os deseja e os pede, antes, quando os desejam, então começam a os desmerecer, e quando se atrevem a os pedir, então os desmerecem de todo. O pedir e o despedir em tais casos hão de ser correlativos. Oh! quanto melhor tiveram negociado os vossos dois pretendentes, se quando Cristo os estremava dos outros, para lhes fiar os casos de maior importância, eles se retirassem com modéstia, e com discreta resistência se escusassem! Quando Moisés se escusou de primeiro ministro de Deus sobre o Egito, então o levantou Deus ao seu lado, e lhe delegou o seu poder e mais o seu nome: Constitui te Deum Pharaonis[3].

Eu bem sei que esta pequena palavra dic encerra em três letras todo o poder das três Pessoas Divinas, uma das quais é Cristo. Por isso o mais bem entendido de todos os anjos, quando quis provar se o mesmo Cristo era Filho de Deus, o fez com a mesma palavra: Si Filius Dei es, dic ut lapides isti panes fiante[4]. Mas, ainda que Cristo com um dic podia fazer das pedras pão, e o que é mais, filhos de Abraão, para fazer homens de quem há de fiar a superintendência do mundo, nunca ele usou nem usará jamais só de palavras. Não são estas as feituras que se fazem com um dic, ainda que seja Deus o que o faça. O sol, a lua, as estrelas, as plantas, os animais do ar, do mar e da terra fê-los Deus dizendo: Ipse dixit, et facta sunt[5]; mas quando veio a fazer o homem, que havia de ter o manejo de todas essas criaturas, primeiro decretou Deus com grande conselho, e não disse: digamos, senão: façamos: faciamus hominem ad imaginem et similitudinem nostram, et praesit[6]. Não se fazem assim ministros tamanhos. Há-os de fazer quem os faz, e eles também se hão de fazer para serem feitos. Bem lembrada estareis, senhora, daquele mais fausto dia que nunca amanheceu à vossa casa, quando Cristo elegeu e chamou para seu serviço estes mesmos vossos filhos. E que é o que lhes disse então? Faciam vos fieri piscatores hominum (Mt. 4, 19): farei que vos façais pescadores de homens. — Se é necessário que Cristo faça muito neles, e eles façam muito em si para passarem de pescadores a pescadores, para subirem aos lugares supremos, que lhe pretendeis, como quereis que seja com um dic?

Mas, caso negado, que Cristo dissesse o que vós pedis que diga, que havia de dizer o mundo? Não sabeis que Cristo é um Senhor que, enquanto Deus e enquanto homem, sempre faz grande caso do que dirão? Enquanto Deus, com isto lhe atavam as mãos os profetas, ainda nos mais justificados castigos: Ne quando dicant gentes: ne quasso dicant Aegyptii[7]. Enquanto homem, vossos mesmos filhos lhe ouviram perguntar: Quem dicunt hommes esse Filium hominis? E logo: Vos autem, quem me esse dicitis[8]? Porque não só lhe dava cuidado o que dizia o mundo por fora, senão também os discípulos dentro da sua mesma escola. Como não reparais logo muito no que se dirá da pessoa e governo de Cristo, se ele disser o que vós quereis que diga: dic? Das portas a dentro, que dirá Pedro, a quem já estão prometidas as chaves? Que dirão as cãs de André? Que dirá a renúncia de Mateus? Que dirá o zelo de Simão? Que dirá o sangue real de Bartolomeu? Que dirá a santidade do outro Jacó, a quem só é lícito entrar no Sancta Sanctorum? E que dirá o despego e desinteresse de Filipe, a quem para si e para todos basta só a vista do Padre? E se isto se pode dizer dentro das paredes domésticas, sem entrarem nesta conta as murmurações de Judas, que se dirá das portas a fora? Será bem que se diga que com o Mestre da justiça e da verdade pode mais a afeição que o merecimento, e que se dá um lado a João, porque é o querido, e outro a Jacó, porque é seu irmão? Será bem que se diga e se moteie que, se Cristo provou a sua divindade com os milagres, também com esta eleição tem dado bem a conhecer sua humanidade, pois tanto se deixa levar de respeitos humanos? Sobretudo, será bem que se diga que no governo de uma monarquia, que há de ser o exemplar de todas, se distribuem os postos por intervenção de uma mulher? Eis aqui o que quereis que se diga de Cristo com este vosso dic.

E não cuideis, senhora, que ficaram de fora nestes ditos os mesmos por quem rogais. Se tanto quereis a vossos filhos, pelo mesmo amor que lhes tendes, vos rego que os não queirais expor com este dic ao que deles se dirá. O seu maior louvor até agora era que Pedro e André deixaram as redes, porém João e Jacó não só deixaram as redes, senão também o pai: Relictis retibus et paire (Mt. 4, 22). Agora, dir-se-á que, se deixaram as redes e o pai, não deixaram as redes e a mãe, pois por meio dela quiseram pescar de um lanço os maiores dois lugares do reino, que é o mesmo que todo ele, pois contém o manejo de todo. Até agora se dizia que sendo dois dos três que foram escolhidos para a glória do Tabor, foram tão discretos que viram e calaram, quando Pedro, que era o companheiro, ficou tido por néscio, porque falou; e agora, dir-se-á que foram tão ingratos ao mesmo Pedro que, tendo-os ele incluído na sua petição quando disse: Bonum est nos hic esse[9], eles não só o não introduziram na sua, mas expressa e cavilosamente o desviaram e excluíram, pois era só o que temiam lhes podia fazer oposição. Até agora eram reputados em toda a escola de Cristo por dois dos três melhores discípulos, e por isso preferidos tantas vezes aos demais; agora, dir-se-á que são os menos provectos, ou os mais rudes de todos, porque na questão que se altercou sobre qual havia de ser o maior, resolvendo o divino Mestre que o seria o que se fizesse mais pequeno, eles entenderam tão mal a doutrina e tomaram tão mal a lição que, em vez de se meter cada um no último lugar, ambos pretendem os primeiros.

Isto se dirá, senhora, dos filhos do Zebedeu sobre o vosso dic. E da mãe também haverá quem diga. Que cuidais que dirão, e não sem fundamento, as outras Marias? Elas são muito devotas e pias; mas, assim como as vossas contemplações vos não mortificaram de toda a ambição, também no exercício das suas poderá ser que não esteja mortificada a inveja. Elas também têm filhos, e a que não tem filhos tem irmão. E deixando as demais — em que a igualdade do estado e do parentesco é assaz bastante motivo para estranharem muito esta diferença — que dirá a Madalena por parte de Lázaro? E se ela calar, como costuma, que dirá e que poderá dizer Marta, pois sabeis que é mulher que se sabe queixar? Não dirá — ao menos dentro em si: — É possível que não entrassem em tal altiveza de pensamentos as irmãs do senhor de Betânia, e que os tenha e se atreva a os declarar a mãe dos pescadorinhos de Tiberíades? — Se Cristo não mede estas distâncias com os mesmos compassos com que as distingue o mundo, ao menos nem a sua modéstia pode negar que, para a autoridade do rei, e para o respeito dos ministros, e para a decência dos mesmos ofícios, faz muito a qualidade e suposição das pessoas. Se Salomé funda a sua confiança na graça do seu João, não é menor a de Lázaro, porque se um tem o título de quem diligebat, o outro tem o de quem amas[10]. Oito dias faz hoje que Cristo o ressuscitou morto de quatro. E que sujeito mais digno do lado de um príncipe, que um homem vindo do outro mundo?

Quem não aceitará e venerará todas as suas disposições, e não ouvirá como oráculo todas as suas palavras? Todos os erros dos ministros não nascem de outra causa, senão de tratarem só desta vida e não se lembrarem da outra; mas um homem que sabe por experiência o que é viver e morrer, que coisa intentará ou fará, que não seja muito acertada? Só por esta prerrogativa era merecedor Lázaro, não de um, mas de ambos os lados. Quando Cristo, na transfiguração do Tabor, deu as primeiras mostras da majestade do seu reino, a um lado pôs Moisés e a outro Elias, porque um era vivo, e outro morto. E ambas estas propriedades se ajuntam em um ressuscitado. Como vive, remunerará os merecimentos dos vivos, que o requerem, e como morto os dos mortos, que o não podem requerer. Ouvindo el-rei Herodes os milagres de Cristo, entendeu que era o Batista ressuscitado, porque de um ressuscitado não se podem esperar senão milagres. E tal é hoje Lázaro. — Tudo isto poderiam dizer Marta e Maria por parte de seu irmão, ainda sem o considerarem herdeiro dos serviços de ambas. Os alabastros quebrados da Madalena, os ungüentos derramados, as lágrimas e os cabelos também eram desta ocasião. E se Marta se não jactasse — como não faria — de que Cristo tinha comido o pão em sua casa, ao menos podia alegar a sua diligência, o seu cuidado e a mesma largueza que o Senhor estranhou e chamou supérflua, para que, havendo de acrescentar alguma casa, fosse a sua.

Mas quando as duas irmãs, por sua virtude, calem tudo isto, quem tapará a boca às demais, para que não digam que este vosso dic encerra maior ambição que a mesma que declarais? Dirão que não só pretendeis o aumento e promoção dos filhos, senão também a vossa, e que, quando para eles pedis as cadeiras, para vós negociais a almofada. Como as profecias que tratam do reino de Cristo falam também da Esposa — de que só Salomão escreveu livros inteiros — não só esperamos rei, mas também rainha. Dirão pois que para os filhos quereis os lados do trono, e para vós o do estrado, e que sendo por natureza a maior valia dos validos, aspirais a governar juntamente ambos os quartos de palácio. Oh! como vos considero já carregada de memoriais, quando sobre a carga dos anos vos pareceram melhor nas mãos, em lugar desses papéis, ou o Saltério de Davi, ou os Trenos de Jeremias! Tudo isto, senhora, e muito mais encerra o vosso dic, o qual não só desdiz muito do que sois e do que vossos filhos professam, mas também desdiria muito do mesmo Cristo se tal dissesse. Mas passemos à segunda palavra.

III – Segundo termo impróprio do memorial: Que se assentem, Os lugares que pediu, a mãe dos Zebedeus não só não são para estar assentados, mas nem ainda para estar Cristo chamou os discípulos, não para estar assentados, senão para seguir e andar, pondo seu tabernáculo no sol, para que andasse em perpétuo movimento.

Ut sedeant: que se assentem. Também este termo não é curial, antes muito impróprio, e ainda indecente. Que sejam, Salomé, vossos filhos muito assentados, isso procurai vós; mas que estejam assentados é implicação do que pedis. Pedis o lado, e dizeis que se assentem? Não sabeis que em palácio, assim como não há mais que um dossel, há também uma só cadeira? Não sabeis que os grandes ali se cansam de estar em pé, só descansam de joelhos, arrimados quando muito a uma credência daqueles idolatrados altares? Bastava para isto ser Cristo rei; quanto mais sendo rei e Deus juntamente! Tu es ipse Rex meus et Deus meus[11]. O trono de Deus no templo é o propiciatório, donde ouve e responde. E posto que nem vós, nem vossos filhos entrásseis naquele sagrado, porque é vedado a todos, bem deveis de ter ouvido que ao lado direito do propiciatório está um querubim, e ao lado esquerdo outro, mas ambos em pé. Logo, se quereis que os vossos dois filhos sucedam no lugar destes querubins, e que ocupem um e outro lado do trono de Cristo, como pedis que se assentem: Ut sedeant? Os querubins estão em pé, e os filhos do Zebedeu hão de estar assentados?

Mais têm estes querubins. Não só estão em pé, mas também com as asas estendidas: Extendentes alas (Êx. 37, 9). E por que razão com as asas estendidas? Porque aos lados do trono, onde eles estão, ninguém e de nenhum modo pode estar assentado, senão sempre e de todos os modos em pé. Se somente tem pés, como homens, há de estar em pé com os pés; e se tem pés e mais asas, como querubim, há de estar em pé com os pés e também em pé com as asas. Vede, senhora, o que digo, para que vejais que não dizeis bem. Bem sabeis que os querubins não têm pés, nem asas, nem corpo, porque são espíritos. E por que os pinta e representa a Escritura em figura humana, e com asas? Pinta-os em figura humana, para mostrar que são criaturas racionais como nós, e sobre isso acrescenta-lhes asas, para que reconheçamos que a sua natureza é superior e mais levantada que a nossa. E como os querubins representados nesta forma vêm a ser compostos de duas naturezas diferentes, parte homem e parte ave, por isso com a parte que têm de homem, estão em pé com os pés, e com a parte que têm de ave, estão em pé com as asas, porque aos lados do trono, nem como homens, nem como superiores aos homens podem estar assentados. O homem quando está assentado não se firma sobre os pés; a ave também, quando está assentada, não se firma sobre as asas, antes as encolhe. Mas os querubins estão firmados sobre os pés e firmados juntamente sobre as asas — que por isso as têm estendidas — porque nem a um, nem a outro lado do trono, nem como homens, nem como mais que homens, podem estar assentados, senão com os pés e com asas, sempre e de todo modo em pé. Isto mesmo é o que notou Isaías nos dois serafins que assistiam aos lados do trono de Deus: Vidi Dominum sedentem super soleum excelsum et elevatum. Seraphim stabant et volabant[12]. Stabant, porque estavam em pé com os pés; volabant, porque estavam em pé com as asas. E o que estava assentado era só Deus: Vidi Dominum sedentem. Um dos vossos filhos, senhora, que é João, não posso eu negar que seja como querubim, homem com asas, e não quaisquer, senão de águia — que assim o viu e pintou Ezequiel na descrição do seu carro — mas ainda que ele tenha asas, e seu irmão as tivesse, e Cristo lhes conceda, como quereis, os dois lugares de querubins a um e outro lado, nem por isso podem estar ou hão de estar assentados, como diz o vosso memorial: Ut sedeant.

Mas vos digo que os lugares que pedis não só não são para estar assentados, mas nem ainda para estar. E para prova desta verdade, ou deste desengano, bem lhes bastava a vossos filhos lembrarem-se da sua vocação. Quando Cristo os chamou, que é o que lhes disse? Venite post me: Vinde após mim (Mt. 4,19). Logo, não os chamou para estar assentados, nem para estar, senão para seguir e andar. E por isso os chamou o mesmo Senhor, não estando assentado, nem estando, senão andando: Ambulans Jesus juxta mare Galileae[13]. Sendo pois expressamente chamados para andar após Cristo, quererem agora não andar, senão estar assentados, não após Cristo, senão aos lados de Cristo, quem não dirá que é renunciar declaradamente à vocação, ou apostatar dela. Oh! como temo que não só não hão de sair bem despachados, mas tratados como néscios. Como néscio foi tratado Pedro ou Tabor. E por quê? Porque queria que Cristo fizesse ali seu assento, e fixasse tabernáculo naquele monte. Os mesmos raios do sol, que lhe davam nos olhos e saíam do rosto de Cristo, lhe deviam advertir que Cristo não viera ao mundo para estar parado, e que não era lugar do seu tabernáculo um monte que não se move. In sole posuit tabernaculum suum (SI. 18, 6), diz vosso ascendente Davi: que havia Cristo de pôr seu tabernáculo no sol, para que não só o morador, senão a casa, nem só a casa e o pavimento dela, senão o mesmo sítio e lugar em que estivesse fundada, andasse em perpétuo movimento. Do círculo de cada dia, com que o sol sem cessar anda sempre rodeando e torna a rodear o mundo, disse Salomão: Girat per Meridiem, et flectitur ad Aquilonem, lustrans universa in circuitu[14], E isto é o que faz e fez sempre Cristo, depois que se manifestou ao mundo para o alumiar, sendo certo que, quando sua vida e ações se escreverem, será a mais freqüente palavra na sua história: circuibat, perambulabat[15].

Boas testemunhas podem ser os mesmos, que agora pedem estar assentados, destes contínuos passos de seu Mestre, sem descansar nem parar, sempre em roda viva. Já nas cidades, já nos desertos, já nas praias, já na Judéia, já na Galiléia, já na Samaria, já em Jerusalém, já em Cafarnaum, já em Tiro, já em Sidônia, já em Caná, já em Jericó, já em Cesaréia de Filipe, já na região dos genesarenos, já nos confins de Decápolis, já em Betsaida, Naim, Betânia, Nazaré, Efrém, sem haver terra grande e populosa, nem lugar pequeno ou aldeia, que Cristo, para alumiar a todos com sua luz, não santificasse com seus passos. Finalmente nos mesmos secretos que agora acaba de revelar o Senhor a seus discípulos, bem claramente lhes disse que o caminho que o leva a Jerusalém é a morrer pregado em uma cruz, para que vejais se é justo nem decente que peçam os lados de um rei, que vai a morrer em pé, aqueles que os pretendem para estar assentados: Ut sedeant.

IV – Hi: estes. Quem são estes? A arte do pescador e o apostolado. Agora são estes, porém depois não serão estes, porque os lugares mudam as naturezas, como a superintendência das outras criaturas fez perder o juízo a Adão. João e Jacó, os filhos do trovão, não dizem bem com a mansidão de tão benigno Príncipe.

Hi. A palavra é muito breve, mas não digna de menor reparo. Vós dizeis hi: estes. E quem não dirá quem são estes? Muitos, é de crer, se embaraçarão logo com as redes e com a barca; mas eu tão longe estou de encalhar neste baixo — posto que o seja — que antes o exercício de pescador me parece o melhor noviciado que estes apóstolos podiam ter para a profissão de primeiros ministros: Que é uma barca, senão uma república pequena? E que é uma monarquia, senão uma barca grande? Nas experiências de uma se aprende a prática da outra. Saber deitar ao leme a um e a outro bordo, e cerrá-lo de pancadas quando convém; saber vogar, quando se há de ir adiante, e siar, quando se há de dar volta, e suspender ou fincar o remo, quando se há de ter firme; saber esperar as marés e conhecer as conjunções, e observar o cariz do céu; saber temperar as velas conforme os ventos, largar a escota ou carregar a bolina, ferrar o pano na tempestade, e na bonança içar até os topes. Tão política como isto é a arte do pescador na mareação, e mais ainda nas indústrias da pesca. Saber tecer a malha e segurar o nó; saber pesar o chumbo e a cortiça; saber cercar o mar para prover e sustentar a terra; saber estorvar o anzol, para que o peixe o não corte, e encobri-lo, para que o não veja; saber largar a sedela, ou tê-la em teso; saber aproveitar a isca e esperdiçar o engodo. Só um defeito reconheço no pescador para os lugares do lado, que é o exercício de puxar para si. E este é, senhora, o que não só se argúi, mas se prova do mesmo que vossos filhos pretendem, e vós pedis.

Dir-me-eis que na mesma palavra hi se responde a este escrúpulo, pois estes por quem intercedeis, são tão livres de interesses que deixaram tudo, e não menos deles que dos outros dez disse Pedro: Esse nos reliquimus omnia[16]. Algum dia terá esta proposição uma grande réplica em um dos mesmos doze, como está profetizado no Salmo quarenta, onde diz que, depois de deixar o próprio por cobiça do alheio, chegará a vender a seu Senhor. Mas pois o mesmo Senhor não replicou a ela, nem eu quero replicar. Só vos digo, Salomé, que se vossos filhos agora são estes, hi, depois que se virem ao lado, pode ser que sejam outros. Ainda não sabeis que os ofícios mudam os costumes, e os lugares as naturezas? Quem mais inocente, quem mais humilde, quem mais modesto, quem mais santo que Saul antes de subir ao trono? E depois que nele se viu, todas estas virtudes se trocaram nos vícios contrários, mereceu ser tão indignamente deposto do lugar, quão dignamente fora levantado a ele! Mas o levantado e o deposto, propriamente não foi o mesmo Saul, porque já era outro. Ninguém subiu a uma torre muito alta, que olhando para baixo se lhe não fosse o lume dos olhos e lhe andasse a cabeça à roda. Temei a vossos filhos estas vertigens, e não vos fieis de serem agora o que são, hi, porque depois não serão estes.

Enquanto Adão foi particular, conservou-se na inocência original em que fora criado; mas tanto que se lhe deu a investidura do governo e a superintendência das outras criaturas, logo a mesma alteza da dignidade lhe desvaneceu a cabeça e lhe fez perder o juízo: Homo, cum in honore esset, non intellexit[17]. Tal mudança fez em Adão a diferença do estado, que já não era ele, senão outro, e duas vezes outro. Outro porque quis ser como Deus, e outro porque ficou como bruto. O mesmo Deus lhe declarou ambas estas mudanças: a de homem em Deus, pelo pensamento: Ecce Adam quasi unus ex nobis factus est[18]; e a de homem em bruto pelo castigo: Comparatus est jumentis, et similis factus est illis[19]. Não vos fieis no entendimento de vossos filhos, nem na sua virtude. Olhai que se são filhos vossos, também são filhos de Adão. O que agora neles é modéstia, depois será soberba; o que agora neles é ciência, depois será ignorância, e tanto mais, quanto levantados de mais humilde fortuna. Considerai aquelas palavras de Jó: De terra surrecturus sum, et videbo Deum ego ipse, et non alius (Jó 19, 25 ss): Hei-me de levantar da terra, e hei de ver a Deus eu mesmo, e não outro. — Parece que para um homem levantado da terra ser o mesmo, e não outro, é necessário ser confirmado em graça, e mais em glória. Vede se se arriscam vossos filhos a ser outros, e muito outros, ainda que agora sejam estes: hi.

Mas eu não quero que sejam outros, senão estes mesmos que são, para que de nenhum modo convenham eles aos lados de Cristo, nem os lados a eles. Quando Cristo chamou estes dois moços para que o seguissem, bem sabeis que lhes deu por nome Boanerges, que quer dizer: Filii tonitrui (Mc. 3, 17): Filhos do trovão. E bem sabeis também que filhos de trovão na frase hebréia é o mesmo que raios, porque os raios são partos do trovão. Parece-vos logo bem que Cristo, quando reinar, esteja no seu trono cercado de raios? Seria muito bom, para que todos fugissem de palácio e ninguém quisesse aparecer numa audiência. Quando Deus deu a primeira lei no Monte Sinai entre relâmpagos e raios — porque era lei de rigor — todos fugiam do monte, diziam: Non loquatur nobis Dominus[20]. Mas na lei de Cristo, que ele chamou suave, e convida que vão todos a ele: Venite ad me omnes, jugum enim meum suave est[21], não dizem bem os raios com a mansidão e clemência de tão benigno príncipe. Bem seria que tivesse a seu lado tais ministros, que cada resposta sua fosse uma trovoada, cada olhadura um relâmpago, e cada resolução um raio. Se João é águia e Jacó quer ser como ele, uma águia com um raio na mão dirá muito bem ao lado de Júpiter, mas não ao de Cristo. Em suma, que estes vossos filhos são muito fogosos e muito ardentes, e não se quer tanta bravosidade para os lados do. Rei. E por que não cuideis que o nome estrondoso de Boanerges, ou filhos do trovão, tem mais de ruído que de realidade, ou que eu o interpreto contra o natural de vossos filhos, contem eles o que lhes aconteceu em Samaria. Não quiseram os samaritanos que Cristo em certa ocasião se detivesse na sua terra. E qual foi no mesmo instante a braveza e o orgulho do vosso João e do vosso Jacó? Domine, vis dicimus ut ignis descendat de caelo, et consummat illos (Lc. 9, 54)? Quereis, Senhor, que mandemos descer fogo do céu, que consuma a todos estes? — Vede se eram raios. De sorte que não menos que toda Samaria queriam abrasar com fogo do céu em um momento. Com tais conselhos ou fúrias como estas, em oito dias não haveria mundo, quanto mais monarquia. Voltou-se o Senhor para eles, e o que lhes disse foi: Nescitis cujos spiritus estis (Ibid, 55): Não sabeis de cujo espírito sois. — Esse espírito é de Elias, e não meu. E quem não é do espírito de Cristo, como há de estar ao lado de Cristo? Mais espírito, e menos espíritos. Espíritos tão arrebatados, nem os príncipes os têm junto a si, nem eles se contêm em si. E estes são, Salomé, aqueles para quem pedis, não um, senão ambos os lados: Hi.

V – Duo: dois, A inconveniência de dois validos. Os dois ministros de Absalão. A união hipostática. A união matrimonial, e a discrepância das vontades e entendimentos. Diferentes juízos de Moisés e Josué ao descerem do Monte Sinai.

Duo, Ainda este duo tem maior dissonância. Pretendeis o valimento do rei, e quereis que os validos sejam dois: duo? Se convém que os reis tenham valido ou não, é problema que ainda não está decidido entre os políticos. Mas dois validos, ninguém há que tal dissesse nem imaginasse. Se os vossos filhos tiveram lido as Histórias Sagradas e profanas desde o princípio do mundo até hoje, não lhes havia de passar tal coisa pelo pensamento. Criou Deus a Adão no sexto dia do mundo, para que no governo dele fosse sua imagem; e logo no dia seguinte se diz que descansou Deus, porque os supremos príncipes é bem que tenham uma causa segunda que os represente, e sobre quem descansem. Mas este homem, que se supõe ser em tudo o primeiro homem, há de ser um, e não dois; por isso fez Deus um Adão, e não dois Adões. Entre os caldeus foi primeiro ministro de Nabucodonosor Daniel, mas só Daniel; entre os egípcios, José de Faraó, mas só José; entre os gregos, Efestião de Alexandre, mas só Efestião; entre os persas, Amã e Mardoqueu de Assuero, mas não juntos, senão em diversos tempos, e sempre um só. Se algum exemplo houve de dois juntamente, foi para ruína do rei e perdição da coroa. Nenhum rei teve a seu lado maior e melhor ministro que Absalão quando começou a reinar, porque teve a Aquitofel, cujos conselhos, por testemunho da mesma Escritura Sagrada, eram como oráculos de Deus. E porque Davi quis tirar a coroa a Absalão, como a rei intruso e rebelado, que fez? A traça de que usou como tão prudente foi meter-lhe do outro lado outro ministro, que foi Cusai. E assim sucedeu. Encontraram-se os dois ministros nos pareceres, seguiu Absalão o de Cusai, e não o de Aquitofel, e sendo que com este se conservara sem dúvida, como diz o mesmo texto, porque teve dois, se perdeu.

A razão natural deste inconveniente é porque, onde há dois entendimentos, duas vontades, duas naturezas e duas pessoas diferentes, não pode haver união. A união hipostática em Cristo, que foi o maior milagre da sabedoria e onipotência divina, uniu duas naturezas, dois entendimentos e duas vontades. Mas notai que neste mesmo composto, com ser milagroso, as pessoas não são duas, senão uma só. Em uma pessoa, por milagre, podem estar unidas duas naturezas, dois entendimentos e duas vontades; mas em duas pessoas diferentes, — como dois homens: duo — é milagre que nem Deus fez jamais, nem fará. Na Santíssima Trindade há também união deste gênero, por outro modo ainda mais admirável. As pessoas são três realmente distintas, e todas entendem o mesmo e querem o mesmo. Mas ainda que as pessoas são três, as naturezas, os entendimentos e as vontades não são três, senão uma só natureza, um só entendimento e uma só vontade. Vede agora se em dois homens, que as naturezas, os entendimentos, as vontades e as pessoas são diversas, e em tão diversas matérias, como são as que concorrem numa monarquia, poderá haver união, nem concórdia.

Para haver união de vontades entre dois sujeitos diferentes, instituiu Deus o matrimônio, do qual disse: Erunt duo in carne una[22]. Mas como são dois, posto que atados com tão estreito laço, nem por isso as vontades se deixam atar, ainda onde os motivos são os mesmos. Jacó e Esaú eram filhos do mesmo Isac e da mesma Rebeca. E sendo os motivos os mesmos e tão naturais, Rebeca inclinava a uma parte e amava a Jacó, Isac à outra, e amava a Esaú. E se isto sucede aos pais, só por serem dois, duo, que sucederá aos vossos dois, não sendo pais? E como será a sua vontade igual para todos — como deve ser — não sendo filhos, mas estranhos, os que houverem de governar? Os entendimentos não são tão livres como as vontades, mas nem por isso discrepam menos no julgar, ainda quando as informações são as mesmas.

Desciam do Monte Sinai Moisés e Josué ao tempo em que nos arraiais de Israel se faziam as festas do novamente fundido e adorado ídolo; ouviram ambos as vozes do que lá soava, mas vede que diferente juízo formaram. A Josué pareceu-lhe que era tumulto de guerra: Ululatus pugnae auditur in castris[23], e a Moisés que não eram trombetas nem caixas, senão muitos que cantavam: Vocem cantantis ego audio[24]. De sorte que sendo as vozes as mesmas, e ambos igualmente informados, e pelo próprio sentido por onde se recebem todas as informações, bastou que fossem dois os que ouviam, para que um julgasse uma coisa e outro outra, e não só diferentes, mas contrárias. Um disse: cantam, outro disse: pelejam, e a guerra não estava nos arraiais, senão no juízo dos que ouviram o mesmo. Logo, de nenhum modo convém que na corte de Cristo, como vós a formais na vossa idéia, haja dois primeiros ministros, porque ainda que sejam tão grandes homens como Moisés e Josué — o que dificultosamente se acha — basta somente que sejam dois, para, assim nos entendimentos como nas vontades, ou sempre ou quase sempre andem encontrados. Deixo o apetite natural de querer cada um luzir, em que vem a ser necessidade a divisão, como nos dois primeiros planetas. A lua, para luzir, aparta-se necessariamente do sol, porque se o segue pelos mesmos passos, não aparece. E que entendimento ou vontade há tão reta, que não torça de parecer por aparecer? Quantas vezes folgara um de saber votar o que votou o companheiro, e só porque o voto é alheio, e não seu, vota o contrário? Assim ficaria parado o curso dos negócios, e esta discórdia de pareceres seria a rêmora da monarquia, tudo por serem dois e não um só os que estivessem ao leme: Duo.

VI – Filii mei; filhos meus. A fraca significação deste especioso nome que entre os homens se chama irmandade. Caim e Abel. Remo e Rômulo. Os setenta irmãos de Abimelec. Esaú e Jacó.

Filii mei. Em dizer que são vossos filhos, estou vendo, Salomé, que desprezais todo este meu discurso, imaginando, como mulher e mãe, que todos os inconvenientes e temores de discórdia se seguram com serem irmãos, posto que sejam dois. São irmãos, e irmãos inteiros, filhos do mesmo pai e da mesma mãe: segura está logo, e está sempre neles a união e concórdia. Ah! senhora, que mal sabeis quão fraca significação é a deste especioso nome que entre os homens se chama irmandade? Basta ser fundado em carne e sangue, para não ter subsistência nem firmeza. Diferente poder é o da ambição, da cobiça, da emulação, da inveja e de todas as outras pestes da união e sociedade humana, com que os mais sagrados vínculos da natureza se profanam e rompem. E como a má semente destes vícios nasce e se dá melhor entre iguais, por isso entre os que nasceram dos mesmos pais é mais natural a discórdia. Da mesma fonte nascem os rios do Paraíso, e nenhum faz companhia com outro: cada um segue diferente carreira, não só divididos, mas opostos. E se isto se acha na fineza da água, que será no calor do sangue? Diga-o o de Abel, derramado por Caim, e o de Remo por Rômulo. Se dois irmãos, fundadores daquela portentosa cidade, que hoje não cabe no mundo, não couberam juntos na mesma cidade, se dois irmãos primogênitos da natureza, para propagação do gênero humano, não couberam em toda a terra, onde não havia outros, como caberão os vossos dois, e como estarão conformes em um gabinete, onde cada memorial, cada consulta e cada requerimento é uma maçã da discórdia? Ainda que não foram uma só vez, senão setenta vezes irmãos, eu lhes não segurara a paz, nem ainda a vida. Setenta irmãos matou Abimelec, filho ele e eles do famoso Gedeão, só por mandar só. Tão furiosa é a sede de dominar, que ainda entre irmãos se não farta com menos sangue. Onde setenta não estão seguros de um, como o estará um de outro? Eis aqui quão pouco se desfaz a objeção de João e Jacó serem dois, duo, com a exceção de serem filhos vossos: Filii mei.

Se a ambição tão declarada destes mesmos dois irmãos atropela tantos outros respeitos, como lhe podeis esperar união nem concórdia que dure muito tempo? Agora são amigos, agora conformes, agora verdadeiramente irmãos, e só desejam ser companheiros; mas, assim como agora se unem para subir, assim se dividirão para se derrubar. Quantos se uniram para a batalha, que depois se mataram sobre os despojos? A ambição que agora os une, essa mesma os há de apartar depois, e de um lado contra outro lado, como de dois montes opostos, se hão de combater e fazer guerra Assim como agora excluíram os outros dez apóstolos, assim depois se hão de excluir e impugnar um a outro, e de qualquer que seja a vitória, será vossa a dor e o luto. Oh! queira Deus, Salomé, que estes mesmos lugares, que agora procurais com tanto desejo e empenho, não vos obriguem depois, se os conseguirdes, a maior arrependimento! Não vos fieis do amor de vossos filhos; temei-vos dos seus ciúmes. Lembrai-vos da batalha de Jacó e Esaú dentro no ventre da mesma mãe, que não só eram irmãos, mas gêmeos. Quem vos segurou que Jacó não será Jacó para João, e João para Jacó Esaú? Considerai as penas que causaram à sua mãe estes dois filhos, de que descendem os vossos, e os desgostos que lhe deram antes de nascerem e depois de nascidos. Antes de nascerem, sentindo Rebeca a guerra que se faziam dentro das próprias entranhas, dizia: Si sic mihi futurum erat, quid necesse fuit concipere (Gên. 25, 22)? Se tanto trabalho me haviam de dar estes filhos, quanto melhor me fora nunca os haver concebido! — E depois de nascidos e crescidos, quando Esaú determinou matar a Jacó, ainda disse a mesma Rebeca com maior aflição: Cur utroque orbabor filio in uno die (Gên. 27, 45)? É possível que em um dia hei de perder e ficar órfã de um e outro filho? — De um e outro disse, e com razão, porque a um havia de chorar morto, e ao outro homicida. O meio que tomou Rebeca, para salvar a vida a ambos, foi desterrar de seus olhos o mais amado, para o livrar das mãos do mais ofendido. E o vosso amor, Salomé, é tão cego que, em vez de apartar os vossos filhos da ocasião, os meteis ou quereis meter no maior perigo, Já que não amais como mãe, nem os amais como filhos, não lhes chameis filhos vossos: Filii mei.

VII – Um à direita e outro à esquerda. Qual à direita e qual à esquerda? Benjamim, filho das dores, e filho da mão direita, A preferência, causa da inveja dos irmãos de Moisés e de José. Nada há mais fácil no supremo poder que trocar as mãos, como Jacó abençoando a Manassés e a Efraim. Os êmulos de Daniel.

Unus ad deveram, et unus ad sinistram (Mt. 20, 21). Oh! quem me dera saber-vos ponderar o perigo, o precipício, e o labirinto de penas e aflições que envolveis e não vedes nestas palavras! Um quereis à mão direita, outro à esquerda, indiferentemente; e quem vos disse que se acomodará qualquer deles com este partido? Estai certa que ambos esperam a direita, e nenhum quer a esquerda. Jacó cuida que se deve a direita à idade; João está confiado em que se há de dar ao amor, e, sendo força que um seja preferido, como hão de ficar ambos contentes? Se Cristo tivera duas mãos direitas, ainda assim não era segura a igualdade. Mas sendo os lugares desiguais, e a ambição em ambos a mesma, qual dos dois poderá sofrer, ou no outro a preferência, ou em si a desigualdade? Quando a Raquel lhe nasceu o segundo filho — o qual também lhe tirou a vida — pôs-lhe por nome Benoni, que quer dizer o filho das dores, e Jacó, seu pai, lhe mudou logo o nome de Benoni em Benjamim, que quer dizer o filho da mão direita, Mas no caso ou controvérsia presente, em que um dos filhos há de levar a mão direita outro a esquerda, não há dúvida que o filho que for o da mão direita, será também o das dores. O que for o Benjamim do príncipe, será o Benoni do irmão, porque o não poderá sofrer sem a maior de todas as dores, que é o ver-se preferido no lugar quem merecia ou aspirava ao primeiro. Grande foi a dor da mesma Raquel, quando viu preferida a Lia pela idade, e grande a dor de Esaú, quando viu preferido a Jacó pelo amor. E assim como em um e outro caso não bastaram a consolar ajusta dor os respeitos da irmandade, assim será na preferência de qualquer dos dois irmãos, ou a faça a idade em Jacó, ou o amor em João. Mas, em qualquer dos filhos que seja a dor, também o será da mãe.

Fingi, senhora, que já os tendes um à mão direita, outra à esquerda, mas lembrai-vos que disse Cristo: Nesciat sinistra tua, quid faciat devera tua (Mt. 6, 3): Não saiba a vossa mão esquerda o que fizer a direita. — E se Cristo seguir este seu conselho, e ao irmão que estiver à mão direita comunicar alguns segredos, que não participar ou não fiar ao que estiver à esquerda, qual será a sua dor, qual a sua tristeza, e qual, porventura, a sua inveja, quando não passe a ódio e a vingança? Por que se voltaram Arão e Maria contra seu irmão Moisés, senão porque Deus lhe comunicava os secretos que a eles encobria? Por que matou Caim a seu irmão Abel, senão porque o viu mais bem visto de Deus, e que aceitava com mais agrado os serviços que lhe fazia? Para se ver preferido na confiança e na graça, não há irmandade que tenha paciência. A primeira coisa que ocorre é fazer perder a mesma graça a quem a tem, ainda que ambos se percam. Se os irmãos de José não sofreram uma preferência sonhada, como haverá irmão que a sofra experimentada e conhecida? Não conhece a violência da ambição humana quem presume sofrimento para tamanha dor.

Mas adverti que, se a mão esquerda está exposta a estes perigos, nem por isso a mão direita está segura de outros e não menores receios. Não há coisa menos segura que a graça dos príncipes, nem mais fácil no supremo poder que trocar as mãos. Nas matérias de justiça não têm liberdade os reis de inclinar à mão direita nem à esquerda, que assim lho mandou Deus: Neque declinet ad partem deveram, vel sinistram [25]; mas do favor e da graça podem trocar as mãos quando quiserem e quando menos se cuida. Quando José apresentou a Jacó os dois irmãos Manassés e Efraim, filhos seus, para que lhes lançasse a bênção, pôs-lhe à mão direita a Manassés, que era o primogênito, e à esquerda Efraim, que era o segundo; porém Jacó, cruzando e trocando as mãos, a Efraim, que estava à mão esquerda, deu a direita, e a Manassés, que estava à direita, a esquerda. Assim pode trocar as mãos e os lados quem reparte e tem em seu arbítrio a bênção. E isto mesmo que sucedeu àqueles dois irmãos, com serem filhos de José, pode também suceder aos vossos, porque a roda que dá estas voltas não está aos pés da fortuna, como se pinta, senão nas mãos do príncipe, de quem depende.

Deste supremo arbítrio se segue que os dois, que tiveram ambos os lados, não só se devem temer um do outro, senão também dos que eles costumam afastar, que são os que estão de fora. De fora estava Mardoqueu, e muito de fora, e de repente entrou no lugar de Amã, não só quando ele o não cuidava, mas quando lhe tinha negociado e prevenido a ruína. Quem vos segurou que vossos filhos, quando consigam os lugares que pretendem, se hão de conservar neles, ou quem os pode segurar a eles da natural ou violenta inconstância dos mesmos lugares? Para a barca em que remavam havia porto e âncora; para os assentos que desejavam não há lugar nem instrumento que os tenha firmes, Como não temerão a mudança nas vontades mais livres e mais mudáveis os que sabem quão facilmente se mudam os ventos? Olhai, que se virem que o príncipe põe os olhos em outro, já não hão de comer naquele dia nem dormir naquela noite. Olhai, que se o virem falar meia hora, ou ouvir o que eles não ouvirem, já se hão de dar por caídos. Olhai, que tudo o que se fizer bem, não lho hão de atribuir, e de tudo o que suceder mal, hão de ser eles os autores. Considerai neles quantas virtudes quiserdes, mas nenhuma, nem todas juntas bastarão a os livrar do temor, da suspeita, do ciúme e da justa desconfiança, porque contra a inveja não há sagrado.

Quiseram os êmulos de Daniel apartá-lo do lado do rei; buscaram algum pretexto ou ocasião para isto: Quaerebant occasionem ut invenirent Danieli ex latere regis[26], E sendo tal a sua inocência na vida, e tal a sua inteireza no ofício que, como testemunha o mesmo texto, nem puderam achar causa nem ainda suspeita: Nullamque causam et suspicionem reperire potuerunt (Dan. 6, 4). Enfim, não só o derrubaram do lado do rei, mas o meteram no lago dos leões, só porque fazia oração a Deus três vezes no dia: Tribus temporibusin die flectebat genua sua, et adoraverat coram Deo suo[27]. Pode haver coisa mais injusta? Pode haver pretexto mais bárbaro? Pois esta causa, que não era causa, e este pretexto, que não podia ser pretexto, foi traçado com tal arte pelos inimigos de Daniel, que nem o rei pôde deixar de o condenar, nem ele de ser tirado do lado e lançado no lago dos leões. Vede agora, senhora, para onde levais ou encaminhais vossos filhos. O que só vos digo sem encarecimento é que, para serem lançados aos leões, não é necessário o lago, basta o lado. O trono de Salomão, que era figura do de Cristo, tinha sete leões de um lado e sete do outro, e estes são os lados que pretendeis para dois filhos, onde há catorze leões para ambos, e sete para cada um. E se me disserdes que os leões do trono de Salomão eram de marfim, eu vos digo que nem por isso são menos para temer. Os leões naturais só têm dentes na boca; os de marfim, todos são dentes. Por isso vemos tão mordidos e tão roídos quantos sobem àqueles lugares. E porque vos não quero cansar mais com os meus reparos, passemos ou paremos já na última palavra ou cláusula do vosso memorial.

VIII – In regno, no reino. Que sabem João e Jacó para governar uma monarquia? Que coisa é um reino? O que diz Jó dos poderosos. Os perigos da corte.

In regno tuo: no reino vosso. Logo iremos ao vosso; vamos primeiro ao reino. Se vós soubéreis que coisa é um reino e o peso dele, e mais quando carrega sobre causas segundas, eu vos prometo que vos benzereis de tal pensamento, quanto mais desejá-lo para os filhos, a quem tanto bem quereis. Que Hércules é João, ou que Atlante Jacó para tomarem sobre seus ombros uma monarquia? Em que cortes se criaram, que terra viram, que histórias leram, que negócios manejaram? Até falar, e como hão de falar não sabem, porque o tratar com as gentes não se aprende com os peixes mudos. Se com o leme e o remo governavam bem a barquinha, os instrumentos que em pequenos desenhos correm felizmente, reduzidos a máquinas grandes não têm sucesso. Das aranhas aprenderam os pescadores a tomar em redes peixes pequenos: dizei-me ora que tomem com elas baleias! Dizei-me, ou dizei-lhes, que sobre as duas tábuas estroncadas com que passam o lago de Tiberíades, se metam nas ondas do Oceano, onde se perde a terra de vista, e muitas vezes o céu com as tempestades! Pois, estas são as mal-entendidas fortunas que solicitai a vossos filhos. Já que lhes destes a vida, deixai-os viver; já que vos devem o ser, deixai-os ser o que são; já que vos custaram dores, não as queirais acrescentar a eles e mais a vós. As dores com que os paristes filhos passaram; as com que os procurais validos hão de durar toda a vida. — Toda a vida, digo, se eles durarem tanto, que não lhes desejeis fortuna de muita dura. — Se todas as vezes que se embarcavam naquele lago, não se levantava nele mais um sopro de vento, que o vosso coração não flutuasse nas mesmas ondas, como o podereis ter seguro nem quieto, quando os virdes engolfados naquele mar imenso, sempre turbulento, onde tantos fizeram naufrágio?

Ouvi o que diz Jó, piloto bem experimentado destes mares, e que neles correu e escapou de ambas as fortunas, posto que nunca delas saiu a terra, não só nu dos vestidos, mas da pele: Ecce gigantes gemunt sub aquis (Jó 26, 5): Até os gigantes — diz ele — gemem debaixo da água. — Estes gigantes são aqueles que entre os outros homens seus iguais chegam a ser maiores que todos no poder, na privança, na dignidade, no posto. Mas nenhum há tão grande nem tão agigantado, que possa vadear aquele pego, nem tomar pé naquele fundo: por isso todos gemem. E notai que não gemem sobre a água, como o marinheiro ou pescador na tormenta, senão debaixo da água: Sub aquis gemunt. Oh! que grande advertência, e quão verdadeira! Quem geme fora da água, respira; quem geme debaixo da água, não pode respirar. É necessário que tape a boca e que afogue os gemidos, para que os mesmos gemidos o não afoguem. Laboravi in gemitu meo[28], dizia Davi, quando servia junto à pessoa de el-rei Saul, porque entre outros muitos desgostos que se tragam na privança, é necessário engolir os gemidos. A tristeza do coração não vos há de sair à cara, e não só haveis de mostrar bom rosto aos favores, senão também aos desprezos e às injúrias. Neste perpétuo martírio de corpo e alma, vede quanta paciência será necessária aos que desejais validos, e se puderam ter bastante cabedal desta virtude em um lugar onde se perdem todas. Oh! como ides enganada, senhora, com as de vossos filhos!

O paço a ninguém fez melhor; a muitos que eram bons fez que o não fossem. Lembrai-vos que Moisés deixou o paço de Faraó, tendo nele o lugar de filho, e não de criado. Jessé tirou a seu filho Davi do paço de Saul; Barcelai não quis morrer nem viver no paço de Davi, e se o aceitou para seu filho, como vós o desejais para os vossos, foi porque, tão enganado como vós, não conhecia o que é. Bem parece que fostes criada longe da corte e nos ares inocentes das praias de Galiléia. Ide a Jerusalém, para onde agora caminha Cristo, entrai, se vo-lo permitirem as guardas, ou no palácio profano de Herodes, ou no sagrado de Caifás, e naquele tropel e concurso de pretendentes esfaimados — que todos procuram comer, e todos se comem — vereis se entre tanto tumulto pode haver quietação, entre tanta perturbação sossego, entre tanta variedade firmeza, entre tanta mentira verdade, entre tanta negociação justiça, entre tanto respeito inteireza, entre tanta inveja paz, entre tanta adulação e adoração modéstia, temperança, nem ainda fé. Vede, sobretudo, se tanta sede de ambição e cobiça insaciável pode ter satisfação que a farte ou modere, e se a podem dar vossos filhos a tantos que pretendem e batalham sobre a mesma coisa, que, ou se deve negar a todos, ou conceder-se a um só? Daqui se seguem os descontentamentos, as queixas, as murmurações do governo, as arrogâncias dos grandes, as lágrimas, as lamentações dos pequenos, as dissensões, as parcialidades, os ódios, sendo o alvo de todas estas setas avenenadas os que assistem mais chegados ao trono do supremo poder, os que respondem em seu nome, os que declaram seus oráculos, os que distribuem seus decretos. E se isto é o que se experimenta e padece, não em Babilônia ou Nínive, senão em Jerusalém, nem no império dos assírios, persas, gregos ou romanos, senão em uma república tão arruinada hoje, e tão limitada como a de Judéia, que será do reino universal de Cristo: In regno tuo?

IX – Tuo: o que encerra esta breve palavra. A grandeza do reino de Cristo. Ainda que da parte do Rei estarão seguros dos perigos, da parte dos súditos e das leis não deixarão de ter grandes dificuldades. Dificuldade das novidades do reino de Cristo.

Tuo: dizeis sem advertir ou saber o que encerra esta breve palavra. O profeta Davi diz que o reino de Cristo dominará de mar a mar, e desde o Rio Jordão até os fins da terra; o profeta Isaías, que se lhe sujeitarão e o virão a adorar os do Oriente e os do Ocidente, os do Setentrião e os do Meio-Dia; o profeta Daniel, que todas as gentes, todos os povos, todas as línguas o confessarão, e que será obedecido e servido de todos os reis e monarcas do mundo. Esta é a grandeza do reino. E que capacidade, que talentos vos parece que são necessários para mover com proporção e sustentar os dois pólos de uma máquina tão imensa? Bastará o vosso João e o vosso Jacó, que nunca tomaram compasso na mão, nem viram carta para conhecer as regiões e as gentes, para perceber e entender as línguas, para compreender os negócios de Estado, e de tantos estados, para responder às embaixadas, para aceitar as obediências, para capitular as condições, para estabelecer as parei as, para ajustar os tratamentos, enfim para concordar as vontades e compor os interesses de todos os reis e príncipes do universo. O certo é que ou não conheceis vossos filhos, ou não tomastes bem as medidas aos postos onde os quereis levantar. José e Daniel, dois sujeitos de tamanha esfera, toda ela empregaram cada um em um só reino: José no do Egito, Daniel no de Babilônia. E que proporção tem uma Babilônia, nem cem Babilônias, um Egito, nem mil Egitos, com o reino e monarquia de Cristo? Dentro em casa temos ainda maior exemplo. Moisés, aquele homem mais que homem, que no nome trazia a divindade e na mão a onipotência, quantas vezes se queixou a Deus de não poder com o peso de um só povo, e povo da sua lei, da sua nação e da sua língua? Aceitou-lhe Deus a escusa, substituiu-lhe o lugar, mas com quem e com quantos? Não com menos que com setenta anciãos do mesmo povo, escolhidos dos maiores e melhores de todo ele. Se para o peso de um reino, que ainda então o não era, foram necessárias setenta colunas tão fortes, como quereis vós que sobre duas tão fracas se sustente aquele imenso edifício, que há de recolher dentro em si tudo quanto rodeiam e cobrem as abóbadas do firmamento? Não é frase poética ou minha, senão do profeta Daniel: Et magnitudo regni, quae est subter omne caelum, detur populo sanetorum Altissimi[29].

Dir-me-eis que no reino de Cristo por seu: in regno tuo, não haverá tantos perigos e dificuldades como nos outros, quanto vai de tal rei aos outros reis. No que toca à pessoa, justiça e bondade do rei, tendes razão. A maior desgraça dos privados do rei deste mundo, e o maior precipício das mesmas privanças é serem eles não só ministros do seu governo, senão de suas paixões, aduladores de seus apetites e cúmplices de seus vícios. Assim desprezam e perdem a graça de Deus por não arriscar a dos reis, ou por mais se insinuar e conservar nela. Chegando Abraão a Egito acompanhado de Sara, mulher sua, mas com nome de irmã, as novas que logo levaram ao rei os do seu lado não foram que era chegado à corte um homem santo, senão uma mulher dotada daquelas prendas, que estimam e idolatram os que não são santos. Se el-rei Herodes quer a Herodias, ou el-rei Davi a Bersabé, os privados são os que facilitam os adultérios, e os que por si e por outros aprovam os homicídios. Se o rei é avarento, como Roboão, ou vão, como Assuero, eles são os que aconselham os tributos, eles os que louvam as prodigalidades e celebram as ostentações. Enfim, eles são os adoradores da estátua de Nabuco, e os que servem de lançar lenha e assopraras fornalhas de Babilônia, ou procurando, ou não fazendo escrúpulo de que nelas se abrasem os inocentes. Isto não haverá no reinado de Cristo, porque da parte do rei tudo será igualdade, justiça, modéstia, temperança. Nem os que assistirem a seu lado se atreverão a abusar ou exceder no poder que lhes for cometido, que só será o justo e necessário. Não se vingará Amã com a mão real dos agravos de Mardoqueu, nem as invejas de Doeg com a lança de Saul, nem os ódios de Joab com a dissimulação de Davi. Mas ainda que da parte do rei estarão, os que estiverem ao lado de Cristo, seguros destes perigos, da parte dos súditos e das leis não deixarão de ter grandes dificuldades que vencer e grandes repugnâncias que contrastar,

Está profetizado que no reinado de Cristo tudo será novo: Ecce nova fatio omnia (Apc. 21, 5). E novidades, ainda que sejam úteis, bem vedes quão dificultosas são de introduzir. Se se há de fundir de novo o mundo, é força que se desfaça e derreta primeiro, e isto não pode ser sem fogo, o mais violento de todos os elementos. Está profetizado — e assim o publicou em nossos dias o precursor do mesmo Cristo — que os vales se encherão, e os montes e outeiros serão abatidos, e não alguns, senão todos: Omnis vallis implebitur, et omnis mons et collis humiliabitur, E abater os grandes e levantar os pequenos, em tanta desigualdade de nascimentos e de fortunas, e fazer que pequenos e grandes todos sejam iguais, quem será tão valente e animoso, que tome sobre si esta conquista? Se os cavadores da vinha não sofreram que os igualassem, sem lhes tirarem nada do que lhes deviam, quem reduzirá a esta moderação a arrogância, a soberba e a inchação dos grandes do mundo, que cuidam que tudo lhes é devido, e a ninguém dão o que se lhe deve? Está profetizado que no mesmo reinado o lobo morará com o cordeiro, e que o leão, como o boi comerá palha: Habitabit lupus cum agno, et leo, quasi bos, comedet paleas (Is. 11, 6 s). Mas quem poderá conter a voracidade do lobo a que observe esta abstinência, e a ferocidade e gula real do leão a que se sustente, como o boi, da eira, não da montaria e do bosque? A lei não pode ser mais justa nem mais benigna, porque assaz indulgência e favor se faz ao leão, que passeia e não trabalha, em que coma igualmente à custa do boi, o que ele, puxando pelo arado, pela grade, pelo carro e pela trilha, começou e acabou com tanto trabalho. Mas como este mau foro está tão introduzido pelo costume e tão canonizado pelo tempo, que zelo, que força e que resolução haverá de ministros tão intrépidos e constantes, que contra tão poderosos contrários a pratique, a estabeleça e a defenda? Assim que, senhora, deixando o muito que ainda pudera dizer, e resumindo o que tenho dito, nem ao crédito do rei, nem ao bem do reino, nem a vós, nem a vossos filhos convém que os lugares que para eles pedis se lhes concedam, e ainda que lhos dessem sem os pedir, os aceitem. Pelo que, se o peso de todas estas razões tem convosco alguma autoridade, o meu conselho e parecer é que vós mesma vos despacheis com o mais breve, mais fácil e mais seguro despacho, que é não desejar, nem pretender, nem pedir.

X – Conclusão: se em todos os memoriais se fizessem semelhantes considerações, os memoriais seriam menos, e os reis e ministros menos importunados.

Estes são, senhor, os reparos, — e não todos — que respondendo à mãe dos Zebedeus se me ofereceram contra o seu memorial. Se em todos se fizessem semelhantes considerações, e tão verdadeiras, pode ser que os memoriais e os pretendentes seriam menos, e os reis e os ministros menos importunados. Duvidei se sairia a público com os ditos reparos, como fiz neste discurso, receando que se me poderia imputar a crime quase de lesa-majestade, por parecer com estes desenganos, ou apartava os vassalos do serviço real, ou os exortava a isso. Mas finalmente me resolvi a não calar o que fica dito, satisfazendo a este escrúpulo com um dilema que tenho por certo: ou os que me ouviram se hão de persuadir, ou não, Se não se persuadirem, ficaremos no mesmo estado, e haverá muitos que pretendam estes lugares; se se persuadirem — o que não espero — ninguém os apetecerá nem procurará. E quando estes lugares não forem apetecidos nem procurados, então será Vossa Majestade mais bem servido.

_________
[1] Dize que estes meus dois filhos se assentem no teu reino um à tua direita e outro à tua esquerda (Mt. 20, 21).
[2] Vós chamais-me Mestre e Senhor (Jo. 13, 13).
[3] Eis aí te constituí Deus de Faraó (Êx. 7, 1).
[4] Se és Filho de Deus, dize que estas pedras se convertam em pães (Mt. 4, 3).
[5] Ele disse, e foram feitas as coisas (SI. 148, 5).
[6] Façamos o homem à nossa imagem e semelhança, o qual presida (Gên. 1, 26).
[7] Para que não digam as nações (SI. 113, 2).
— Não permitais, te rogo, que digam os egípcios (Êx. 32, 12).
[8] Quem dizem os homens que é o Filho do Homem? E vós, quem dizeis que eu sou (Mt. 16, 13. 15)?
[9] Bom é que nós estejamos aqui (Mt. 17, 4).
[10] A quem Jesus amava (Jo. 21, 7.20).
— Aquele que tu amas (Jo. 11, 3).
[11] Tu mesmo és o meu rei e o meu Deus (SI. 43, 5).
[12] Vi ao Senhor assentado sobre um alto e elevado sólio. Os serafins estavam sobre ele… e voavam (Is. 6,1 s).
[13] Caminhando Jesus ao longo do Mar de Galiléia (Mt. 4, 18).
[14] Faz o seu giro pelo Meio-Dia, e depois se dobra para o Norte, visitando tudo em roda (Ecl. 1, 6).
[15] Rodeava, atravessava (Mt. 4, 23 – Lc. 19, 1).
[16] Eis aqui estamos nós que deixamos tudo (Mt. 19, 27).
[17] O homem, quando estava na honra, não o entendeu (SI. 48, 13).
[18] Eis aí está feito Adão como um de nós (Gên. 3, 22).
[19] Foi comparado aos brutos irracionais, e se fez semelhante a eles (SI. 48, 13).
[20] Não nos fale o Senhor (Êx. 20, 19).
[21] Vinde a mim todos, porque o meu jugo é suave (Mt. 11, 28. 30).
[22] Serão dois numa carne (Gên. 2, 24).
[23] Um alarido de peleja se está ouvindo no campo (Êx. 32, 17).
[24] Eu ouço vozes de quem canta (Êx. 32, 18).
[25] E não decline nem para a direita nem para a esquerda (Dt. 17, 20).
[26] Buscavam ocasião de acusar a Daniel em coisa que tocasse com o rei (Dan. 6, 4).
[27] Cada dia, em três diferentes horas, se punha de joelhos, e adorava o seu Deus (Dan. 6,10).
[28] Trabalhado me vejo no meu gemido (SI. 6, 7).
[29] E a grandeza do reino que está debaixo de todo o céu seja dada ao povo dos santos do Altíssimo (Dan. 7, 27).

Fonte: https://www.literaturabrasileira.ufsc.br/documentos/?action=download&id=49821