Sermão da Segunda Dominga da Quaresma

SERMÃO DA SEGUNDA DOMINGA DA QUARESMA


Assumpsit Jesus Petrum, et Jacobum, et Joannem, et duxit illos in montem excelsum seorsum, et transfiguratus est ante eos.[1]

I – As felicidades do Monte Garizim, e as maldições do Monte Hebel. O monte da tentação e o monte da Transfiguração. A fim de desfazer a cegueira dos que seguem o demônio ao monte das tentações, porá o autor um monte à vista do outro monte; o monte das tentações à vista do monte da Transfiguração, e as glórias do mundo à vista das glórias do céu, comparando, não bem com males, senão bens com bens.

Às portas quase da Terra de Promissão, mandou Moisés apregoarem dois montes altos e opostos — com vozes que todo o exército imenso dos filhos de Israel, estendido pelos campos, milagrosamente ouvia — em um, chamado Gari­zim, as felicidades dos que guardassem a Lei de Deus, e em outro, que se chamava Hebel, as maldições e desgraças dos que a não guardassem. Tais se me afiguram nesta entrada da Quaresma os dois montes, também muito altos, e não só opostos, mas totalmente contrários, cuja história evangélica neste domingo, e no passado, nos representou e representa a Igreja. No primeiro monte o demônio, que ainda se chamava príncipe deste mundo, mostrou a Cristo todos os reinos do mesmo mundo, e todas as suas glórias: Ostendit et omnia refina mundi, et gloriam eorum (Mt. 4, 8). — No segundo, Cristo, verdadeiro Rei e Senhor do céu, mostrou a alguns discípulos seus mais familiares, não todo o reino, nem toda a glória do céu, porque não eram capazes de a ver os olhos humanos, mas alguma parte dela: Et transfiguratus est ante eos[2] — Oh! quanto vai de monte a monte! Oh! quanto vai de reinos a reino! Ó quanto vai de glórias a glória! Também um desses montes, e com mais razão, se podia chamar o das felicidades, e outro o das maldições. E também está bradando o pregão, em cada um deles, que as felicidades estão guardadas para os que guardarem a lei de Deus, a que Cristo transfigurado nos anima com a vista da glória do céu, e as maldições, do mesmo modo, estão aparelhadas para os que desprezam e quebrantam a mesma lei, a que o demônio tentador nos incita com a falsa aparência das glórias do mundo..

Como ambos estes montes são de glória, posto que tão diversas, a cada um deles responde a sua assunção. Ao primeiro: Assumpsit eum diabolus[3]; ao segundo: Assumpsit Jesus Petrum, et Jacobum, et Joannem[4]. — É certo que bastava ser uma assunção do diabo, e outra assunção de Jesus, para todos amarem e desejarem a assunção de Jesus, e abominarem e renegarem da assunção do diabo. Mas que é o que vemos? O caminho do Monte Tabor, por onde se vai à glória do céu, deserto, e quase sem haver quem o pise; e a estrada do outro monte sem nome, por onde se vai às glórias do mundo, cheia e rebentando de gente de todos os estados, ainda daqueles que professam o desprezo cio mesmo mundo! Lá disse Davi que todo o homem que tem fé e entendimento, o que faz muito de propósito neste vale de lágrimas é dispor a sua ascensão: Ascensines in corde suo disposuit, in valle lacrymarum, in loco quem posuit[5]. — Pois, se todos desejamos e esperamos que a nossa ascensão e assunção seja para gozar eternamente as verdadeiras felicidades da bem-aventurança, como deixamos o caminho do monte por onde Cristo nos guia à glória do céu, e seguimos com tanta ânsia e contenda, não digo já a estrada, senão os precipícios, por onde o demônio, debaixo do falso nome nosso, de glórias do mundo, nos leva às maldições do inferno?

Ora, eu com a graça divina quisera hoje desfazer esta cegueira, que tantas almas tem enganado e perdido, as quais nesta vida a não conheceram, e agora sem nenhum remédio a choram. A este fim porei um monte à vista do outro monte, e umas glórias à vista da outra glória: o monte da tentação à vista do monte da Transfiguração, e as glórias do mundo à vista da glória do céu, comparando, . não bens com males, senão bens com bens. Por este meio, mais clara e manifestamente que por nenhum outro, se verá a diferença dos falsos aos verdadeiros; e já que os nossos entendimentos e vontades andam tão enganados, ao menos nos desenganarão os olhos. A luz da divina graça se sirva de no-los abrir e alumiar por intercessão da Cheia de graça: Ave Maria.

II – Quem nos mostrará a diferença dos bens que se prometeram no primeiro monte, e se prometem no segundo? Sendo o lume do rosto de Cristo transfigurado como o do sol, o mesmo sol nos há de mostrar nas três propriedades da sua luz as três diferenças dos bens do céu aos bens da terra.

Posto o monte da tentação com as glórias do mundo, à vista do monte da Transfiguração com a glória do céu, quem nos mostrará a diferença dos bens que se prometeram no primeiro monte, e se prometem no segundo, senão quem se achou em ambos, tentado em um, e transfigurado no outro? Esta mesma dúvida tiveram muitos, que refere Davi, os quais perguntavam: — Quem nos mostrará os bens? Multi dicunt: Quis ostendit nobis bona (S 1.4, 6)? — E responde o mesmo profeta que o lume do rosto do Senhor no los mostraria: Signatum est super nos lumen vultus tui, Domine[6]. — Nunca o rosto de Cristo, Senhor nosso, esteve mais alumiado e mais luminoso que neste dia de sua Transfiguração, em que resplandeceu o seu rosto como o sol; Resplenduit faties ejus sicut sol (Mt. I7, 2). — E em sinal de que logo aqui se viram os bens, disse S. Pedro em nome de todos: Bonum est nos hic esse[7] . — Sendo pois o lume do rosto de Cristo o que nos há de mostrar os bens, e sendo o lume do mesmo rosto como o do sol, três coisas acho no lume do sol que, tão claramente como a luz do mesmo sol, nos podem mostrar a grande diferença que há entre os bens da glória do céu e os que também se chamam bens das chamadas glórias do mundo. O lume do sol é puro e sem mancha; é tanto para cada um, como para todos; e todo se goza junto, e não por partes. Nestas três propriedades, pois, do lume do sol, nos mostrará o rosto de Cristo três diferenças dos bens do céu aos do mundo, que também serão os três pontos do nosso discurso. No primeiro veremos que os bens do mundo são bens com mistura de males, e só os bens do céu são puros, e sem mistura; no segundo, que dos bens do mundo, quando muito, logra cada um os seus, e nos bens do céu logra cada um os seus, e mais os de todos; no terceiro, que os bens do mundo, se chegam a se gozar todos, é sucessivamente, e por partes; porém, os bens do céu sempre, todos e juntamente. Prometi que tudo isto veríamos com os olhos, e posto que a matéria de alguns destes pontos se já superior a todos os sentidos, a luz da Transfiguração a fará tão clara como o mesmo sol.

III – Primeira diferença: os bens deste mundo são bens com mistura de males, e só os bens do céu bens puros e sem mistura. A rosa, claro e desenganado espelho da mistura de bens e males. O verdadeiro conceito que fez dos bens deste mundo Salomão, o mais opulento e delicioso de todos os reis. A confissão do imperador Carlos Quinto diante do Senado de Bruxelas.

Diz a primeira diferença da nossa proposta que todos os bens do mundo são bens com mistura de males, e só os bens do céu bens puros, e sem mistura. E assim é.. Quando Deus, nosso Senhor, fabricou este grande edifício do universo, dividiu-o em três partes: uma na terra, que é este mundo em que vivemos; outra debaixo da terra, que é o inferno; outra acima da terra, que é o céu: e em todas estas três regiões repartiu os bens e os males, mas com grande justiça e diferença.No inferno há só males, sem bens; no céu há só bens, sem males; na terra há bens e males juntamente. E por que razão? No inferno há só males, porque há só maus; no céu há só bens, porque há só bons; e na terra, onde andam de mistura os bons com os maus, era justo que andassem também misturados os bens e os males.

A primeira mestra desta verdade é a mesma natureza, em tudo o que criou para o homem. No maior mimo dos sentidos, que é a rosa, cercando-a de espinhos, nos deixou, diz Santo Ambrósio, um claro e desenganado espelho desta deliciosa e dolorosa mistura: Spina sepsit gratiam floris tanquam humanae speculum praeferens vitae, grane suavitatem per functionis suae finitimis curarum spinis saepe compungat[8]. A mesma consideração seguiu e adiantou Boécio, o qual, ajuntando ao exemplo da beleza o da doçura, cantou ou chorou elegantemente: Armat spina rasam, mella tegunt apes[9]. — E assim como não há nesta vida rosa sem espinho, nem mel sem abelha, assim não há pérola sem lodo, nem ouro sem fezes, nem prata sem liga, nem céu sem nuvem, nem sol sem sombra, nem lume sem fumo, nem triaga sem veneno, nem monte sem vale, nem quantidade sem peso, nem enchente sem minguante, nem trigo sem palha, nem carne sem osso, nem peixe sem espinha, nem fruta, por saborosa que seja, sem caroço ou casca que deitar fora. No mesmo tempo, de que se compõe a nossa vida, não há verão sem inverno, nem dia sem noite. E nesta mesma semelhança é tanta a diferença que, para haver verão e inverno, é necessário um ano, e para haver noite e dia, são necessárias vinte e quatro horas, mas para haver mal e bem, basta um só momento.

Os gentios sem fé, ensinados só da experiência, disseram que Deus tinha dois tanques, um de mel, outro de fel, e que nenhuma coisa mandava aos homens que não viesse passada por ambos, e que esta era a causa por que em todas as que chegavam à terra vinha a doçura do bem misturada com a amargura do mal. Não puderam falar mais ao certo, se tiveram lido a Davi. Diz o real Profeta que Deus tem na mão um cálix, pelo qual dá de beber aos homens, cheio de vinho puro e misturado: Calix in manu Domini vini meri, plenus mixto[10]. — Repara e pergunta Santo Agostinho: Quomodo meri, si mixto[11]? — Se o vinho era puro como era misturado, e, se era misturado, como era puro? — Porque não há bem natural, e deste mundo, ainda que dado pela mão de Deus, por mais puro e defecado que seja, que não traga em si e consigo alguma mistura de mal. O vinho é aquele cordial simples, medicado pela natureza para alegrar o coração humano; mas não há alegria ou causa de alegria, tão contrária e alheia de toda a tristeza, que não dê que penar ao coração. Se ri, o riso será misturado dor; se gosta, o gosto será metido entre pesares. Assim o deixou em provérbio Salomão, de presente como experimentado, e de futuro como Profeta: Risus dolore miscebitur, et extrema gaudii luctus occupat[12].

E, pois, nomeamos o mais sábio de todos os homens, e o mais opulento e delicioso de todos os reis, ele nos dirá o verdadeiro conceito que fez, e nós devemos fazer, dos bens do mundo. — Eu me resolvi — diz Salomão — a me dar a todas as delícias e gozar todos os bens desta vida: Dixi ego in corde meo: Vadam, et affluam deliciis, et fruas bonis[13]. — Com este pressuposto, querendo, podendo sabendo fazer quanto quisesse, porque ninguém pôde tanto, nem quis mais, nem soube melhor que Salomão, vede o que faria? Fabricou um palácio real em Jerusalém, que, depois do templo que ele edificara, foi o segundo milagre; no monte Líbano traçou vários retiros e casas, de prazer, em que de mais de se ver junto todo o raro e curioso do mundo. a amenidade dos jardins, a frescura das fontes, a espessura dos bosques, a caça e montaria de aves e feras, e até as sombras no verão, e os sóis no inverno excediam com a arte a natureza; o trono de marfim em que dava audiência, e a carroça chamada ferculo, em que passeava, eram de tal arquitetura e preço, que faz particular descrição deles a Escritura; às galas de Salomão o mesmo Cristo lhes chamou glória; os tesouros de ouro e prata que ajuntou eram imensos; os gados maiores e menores, que naquele tempo também eram riquezas dos reis, não tinham número; os, cavalos estavam repartidos em quarenta mil, presépios; a suntuosidade da mesa, para a qual concorriam diversas províncias, e a majestade, grandeza e ordem dos oficiais e ministros, com que era servido, foi a que encheu de pasmo a rainha Sabá; as baixelas e vasos eram de ouro, as músicas de vozes esquisitas de ambos os sexos, e os cheiros e aromas com que tudo recendia quanto cria e exala o Oriente. Não falo na qualidade e gentileza das damas, filhas de príncipes, e escolhidas em diferentes nações, entre as quais só as que tinham nome e estado de rainhas eram sessenta, servidas todas com aparato e magnificência real. Tudo isto gozava Salomão em suma paz e com igual fama, sem inimigo ou receio que lhe desse cuidado, e em tudo se empregava com tal aplicação e excesso, que ele mesmo confessa de si que nenhuma coisa viram seus olhos, nem inventaram seus pensamentos, nem apeteceram seus desejos, que lhes negasse: Orneia quae desideraverunt oculi mei non negavi eis, nec prohibui cor meum quin omni voluptate frueretur[14]. — Estando, pois, nestas felicidades de Salomão, não só recompilados mas estendidos todos os bens do mundo, saibamos por fim, que conceito fez deles. Ele o diz, e em bem poucas palavras: Cum me convertissem ad universo opera quae fecerant manos mexe, et ad labores in quibus frustra sudaveram, vidi in omnibus vanitatem et afflictionem animi (Ecl. 2, 11): Voltando os olhos a tudo quanto tinha feito, em que debalde tinha trabalhado e suado — feito, diz, e trabalhado e suado, e não gozado, porque tudo o que gozou foi debalde: frustra — e o que vi e achei em tudo é que tudo é vaidade e aflição de ânimo: Vanitatem et afflictionem animi. — Logo, se todos os bens do mundo são vaidade, como podem ser verdadeiros bens? E já que lhes concedemos o nome de bens, se todos causam aflição do ânimo, como podem ser bens sem mistura de males?

Mas porque não cuide alguém que do tempo de Salomão para cá terão mudado os bens do mundo, ou melhorado de natureza, ouçamos outro grande oráculo, quase de nossos dias. Quando o imperador Carlos Quinto fez aquela grande ação, em que teve poucos a quem imitar, e terá menos imitadores, de renunciar o império, dando as causas desta retirada depois de tantas vitórias, confessou com lágrimas, diante de todo o senado de Bruxelas, que a principal, ou uma das principais, fora porque em todo o tempo — diz — de minha vida, depois que pus na cabeça a coroa, nem um só quarto de hora tive de pura e verdadeira alegria, senão sempre misturada com cuidados, aflições e dores: Se tolo regei tempore, nec ad unum quidem horae quadraram puram habuisse meramque laetitiam, sed multis illam curis, angoribus, doloribusque permixtam. — E se esta triste mistura experimentaram nas maiores felicidades do mundo, entre os reis, Salomão, e entre os imperadores, Carlos, que poderão dizer das suas particulares, ainda os mais bem vistos da fortuna?

IV – Quão pensionados dá o mundo os gostos e bens desta vida! A felicidade de José no Egito e a felicidade de Jacó e Raquel. Não há Raquel que não tenha o seu Labão e a sua Lia. As pensões da gentileza de Absalão, do valor de Davi e do entendimento de Aquitofel. Até no Monte Tabor, por mais soberanos que sejam os bens, uma vez que tocaram na terra, não pode haver gosto sem pesar, nem glória sem pena. Por que rejeitou Cristo na cruz as bebidas que lhe ofereceram?

Grandes foram as que sonhou José, e saíram-lhe tão verdadeiros os sonhos que, de vendido e escravo se viu vice-rei do Egito, e com tal autoridade e poderes que só no nome e na coroa o precedia o rei. Tudo governava, tudo mandava José, tudo lhe obedecia, com nunca vista nem esperada felicidade; mas onde? No Egito. Ninguém é nem pode ser feliz com a alma noutra parte. O corpo, o poder e a dignidade estavam no Egito; a alma, o amor e a saudade, andavam peregrinando em Canaã, com que toda aquela aparência dos maiores bens da fortuna vinham a ser suplício e desterro. No Egito vivo, na pátria morto; no Egito aplaudido, na pátria chorado; no Egito dando de comer ao mundo, na pátria comido das feras; no Egito tudo, na pátria nada. Ainda que José não fora levado ao Egito para escravo, senão para vice-rei, igualmente ia vendido, porque muito melhor fortuna era para ele estar em casa de Jacó, sendo o filho mais mimoso do pai, que na corte e no palácio de Faraó, sendo o primeiro ministro, e o mais valido do rei. Abra os olhos o mundo, e não se contente com ver os homens por fora: penetre-os também, e considere-os por dentro, e achará que andam nele tão contrapesados os males com os bens que, ainda em comparação dos maiores, se pode pôr em balança se pesam mais os males.

De José foi pai Jacó, também assaz ditoso. A que Jacó teve pela maior ventura de sua vida foi quando, ao cabo de tantos anos de servir, alcançou por prêmio a companhia de Raquel. Se o que muito se deseja muito se preza, se o porque muito se trabalha muito se estima, nenhum gosto, nenhuma alegria teria jamais quem tanto amava, que se igualasse com esta. Mas, vede quão pensionados dá o mundo os gostos e bens desta vida. A felicidade foi uma, as pensões foram três, e todas assaz pesadas: a esterilidade da mesma Raquel, os enganos de Labão, e os ciúmes de Lia. Por mais amadas, e por mais pretendidas que sejam as que chamamos venturas, todas no cabo são Raquéis. Não há Raquel que não tenha o seu Labão e a sua Lia. Se Raquel agrada, Labão molesta; se Raquel dá gosto, Lia dá pena. Quanto mais que, para molestar e dar pena, basta-lhe a Raquel ser Raquel. Lede a História Sagrada, e achareis que foi tão mal acondicionada aquela formosura, que era necessário todo o amor de Jacó para aturar e sofrer seus antojos. Muito mais trabalho lhe deu depois do que tinha trabalhado por ela antes. Tão travados andam nesta vida os gostos com os desgostos, tão misturados os males com os bens. Se Raquel tem bom rosto, tem má condição; se Lia tem boa condição, tem mau rosto: e não há bem nenhum tão inteiro que possa encher os olhos e mais o coração.

Estendei a vista ou o pensamento por todas as coisas do mundo, e vereis que não achais urna só instância nem um só exemplo contrário a esta verdade. Muito estimam os homens a gentileza, muito estimam o valor, muito estimam o entendimento: mas perguntem os formosos a Absalão, os valentes a Davi, os entendidos a Aquitofel, que pensão pagou o primeiro à sua gentileza, o segundo ao seu valor, e o terceiro ao seu entendimento. Era Absalão tão galhardo mancebo quedo pé até o cabelo da cabeça, como fala a Escritura, nenhum pintou a natureza mais belo.As damas lhe compravam os cabelos a peso de ouro, e dos mesmos cabelos lhe teceu a morte o laço, com que, pendurado dos ramos de um carvalho, acabou infamemente a vida, passado pelo-peitos com três lanças. E esta foi a pensão que pagou Absalão à sua gentileza. Era tão valente Davi que, tremendo todo o exército de Israel à vista do gigante Golias, ele só, e desarmado, aceitou o desafio, e, derribado a seus pés, com a sua própria espada lhe cortou a cabeça. Mas foi tal a inveja e ódio que desde aquela hora lhe cobrou el-rei Saul, que mais de uma vez, com a lança que trazia na mão por cetro, o quis pregar a uma parede. De maneira que lhe foi necessário a Davi homiziar-se pela morte do gigante, como se matara um hebreu, e fugir dá sua vitória, como se fora delito. E esta foi a pensão que pagou Davi ao seu valor.. Era tão entendido Aquitofel, e tão prudentes e sábios seus conselhos que, por testemunho do texto sagrado se ouviam como oráculos do mesmo Deus. Seguiu as partes de Absalão, quando se rebelou contra seu pai, o como lhe convinha, e porque o moço fatal não quis seguir senão o que já o levava ao precipício, foi tal a sua desesperação que, atando a banda ao pescoço e a uma trave, se afogou a si mesmo. E esta foi a pensão que pagou Aquitofel ao seu entendimento. Fiai-vos lá de entendimentos, fazei lá caso de valentias e prezai-vos de gentilezas! Têm os males tão viciados e corrompidos os bens, que a gentileza é laço, o valor delito e o entendimento loucura. Mas para que é irmos buscar exemplos ao Testamento Velho, se no Novo e no nosso Evangelho temos o maior de todos? Transfigurou-se Cristo no Tabor, apareceram ali Moisés e Elias, e quando parece que haviam de dar o parabém ao Senhor da glória com que o viam naquele monte, o em que lhe falaram foi da morte que havia de padecer no do Calvário: Loquebantur de excessu, quem completurus erat in Jerusalém[15]. — Pode haver prática mais alheia da ocasião que esta? Quando o rosto de Cristo está resplandecente como o sol, então lhe falam no eclipse? Quando as suas roupas estão brancas como a neve, então lhe falam nos lutos? E no dia que tem mais alegre na sua vida, então lhe falam na morte? Sim. Porque não há alegria neste mundo tão privilegiada que não pague pensão à tristeza. Até no monte Tabor, até na pessoa de Cristo, até no milagre da Transfiguração, por mais soberanos que sejam os bens, uma vez que tocaram na terra, não pode haver gosto sem pesar, nem glória sem pena. Tanto assim que, se faltar o motivo na presença do que é, havê-lo-á na memória do que há de ser: transfigurado agora, mas crucificado depois. E, sendo a Transfiguração, como logo disse o mesmo Cristo, parecida com a Ressurreição, e não com a morte, virão dois homens do outro mundo, que misturem a morte com a Transfiguração, e confundam o Calvário com o Tabor.

Seja, pois, a conclusão destas experiências e desenganos do mundo fazermos tão pouco caso dos seus chamados bens, pela mistura que sempre trazem de males, como se verdadeiramente foram puros males sem nenhuma composição ou temperamento de bens. É doutrina que, despedindo-se do mundo o Redentor dele, nos deixou estampada com seu exemplo no mesmo monte Calvário. Duas vezes no Calvário deram fel a Cristo, uma antes, outra depois de crucificado. Antes de crucificado, quando lhe deram vinho misturado com fel: Dederunteivinum cum felle mixtum[16]; — depois de crucificado quando, dizendo na cruz que tinha sede, lhe deram fel e vinagre: Dederunt in estam meam fel, etinsiti mea potaverunt me aceto[17]. — E como se houve o Senhor em um e outro caso? Em ambos provou uma e outra bebida, e em ambos a não quis beber. Assim o referem da primeira e da segunda os evangelistas, pelas mesmas palavras: Cum gustasset, noluit hibere[18]. — Na primeira bebida é certo que ia o amargo do fel moderado com o doce do vinho, e na segunda ia o mesmo fel, não moderado, senão exasperado com o azedo do, vinagre. Pois, se o fel ia tão diferentemente temperado em uma e outra bebida, por que igualmente as rejeitou o Senhor ambas, sem nenhuma diferença? Porque na primeira o vinho misturado com o fel, e o doce com o amargo, era o bem misturado com o mal; na segunda o fel junto com o vinagre, era um mal sobre outro mal, sem nenhuma mistura de bem; e provando Cisto e reprovando igualmente uma e outra bebida, quis-nos deixar por doutrina e por exemplo, na confusão dos bens e males de que se compõe este mundo, que tanto devemos desprezar e aborrecer o bem misturado com o mal, como se o bem e o mal tudo fora mal, sem nenhuma mistura de bem. Em ambas as bebidas ia fel, em uma juntamente com vinho, em outra juntamente com vinagre,que é vinho corrupto; e é tal a corrupção que causa nos bens a companhia e mistura dos males, que o bem misturado com o mal se converte totalmente em mal, e perde todo o ser que tinha de bem. Façamos, pois, de todos os chamados bens deste mundo a estimação e conceito que eles merecem: indigno, qualquer que seja, de ser amado como bem, senão abominado e aborrecido como verdadeiro e puro mal, e, pela mistura que tem de doce, ainda mais abominado e mais aborrecido, como mais falso e enganoso.

V – Só os bens da pátria celestial se podem chamar bens, porque só são bens sem mistura de nenhum mal. Razões da diferença das duas árvores mais insignes do Paraíso Terreal. O ouro da terra, que os reis põem sobre a cabeça, e o ouro do céu, que os bem-aventurados trazem debaixo dos pés. O que diz S. Agostinho. Os bens do céu e as lágrimas de gosto e de alegria. S. Boaventura e as doze prerrogativas dos bens celestes

Só os bens daquela pátria celestial, só os bens daquela Terra de Promissão da glória, só os bens daquele Tabor da bem-aventurança, só aqueles unicamente se podem chamar bens, porque só são bens sem mistura de nenhum mal. É o céu como o Templo de Salomão, em que nunca se ouviu golpe de martelo, porque lá, como diz o evangelista profeta, não há coisa que cause dor ou pena, nem tire da boca um ai; e são os moradores do mesmo, céu como as estrelas fixas do firmamento, onde não chegam fumos dos vapores da terra que as ofusquem, gozando todos em suma paz a pátria do sumo bem, que não seria sumo, nem bem, se não excluísse todo o mal, por mínimo que seja. E por isso só os bens naturais da mesma pátria são puros, sinceros e perfeitamente bens, sem corrupção, contrariedade, nem mistura de mal.

Entre todas as plantas do Paraíso Terreal houve duas árvores mais insignes, e de que só sabemos o nome, que foram a árvore da ciência e a árvore da vida. Mas a da ciência continha dois contrários, a da vida não: porque a ciência era do bem e juntamente do mal, que é o contrário do bem, e a da vida era da vida somente, e não da vida e da morte, que é o contrário da vida. Pois, se ambas eram árvores do paraíso, por que havia nelas esta grande diferença? Porque também o paraíso não era absolutamente paraíso, senão paraíso terreal, e por isso uma das suas plantas era parecida às delícias da terra, e outra semelhante às do céu. A parecida à da terra, era a da ciência do bem e do mal, porque na terra sempre o mal anda misturado com o bem; e a semelhante às do céu era de vida sem morte, porque no céu todo o bem é puro e sincero, sem mistura nem companhia de mal. Assim o diz S. João descrevendo a Jerusalém da glória, e não dá outra razão desta diferença de coisas, senão serem umas as segundas, que são as do céu, e outras as primeiras, que são ou foram as deste mundo. Et mors ultra non erit, negue luctus, negue dolor erit ultra, guia prima abierunt[19].

Para prova dos bens deste mundo, sempre misturados com os males, tomei por testemunha a natureza, e para prova dos bens do céu, puros e sem mistura, tomemos por testemunha a arte. A arte, para purificar, o ouro, como ele é o mais precioso metal, aplica-lhe também o mais eficaz e poderoso elemento, que é o do fogo: Aurum quod per ignem probatur[20]. — Ali o purga e alimpa das fezes,ali o prova e lhe apura a fineza dos quilates, e então se reputa entre nós por ouro puríssimo. Mas, para que se veja o nosso engano, ponhamos esse mesmo ouro no céu. Diz S. João que as ruas da cidade do céu são de ouro limpo: Platea civitatis aurum mundum (Apc. 2I , 21). — E se perguntarmos, esta limpeza e pureza do ouro do céu, em que consiste? Depois de dizer anuiu mundum, acrescenta: tanquam vitrum perlucidum (ibid.): que é puro e limpo, porque é diáfano e transparente como vidro. — Logo, se o ouro então é puro e limpo, quando chega a sua fineza a ser diáfana e transparente como o vidro, bem se segue que o nosso ouro crasso, espesso, opaco, e que nenhuma coisa tem de diáfano nem transparente, por mais que nos lisonjeie com a sua cor, e nós nos enganamos com ele, de nenhum modo é ouro limpo e puro. De maneira que, comparado o ouro da terra, que os reis põem sobre a cabeça, com o outro do céu, que os bem-aventurados trazem debaixo dos pés: platea ejus — todo o da terra está penetrado de fezes, e cheios de escória, posto que nós a não vejamos, e só o do céu é puro e limpo: aurum mundum. — Sobretudo, se pedirmos ao mesmo evangelista, que nos diga com que ingredientes se purifica tanto este ouro do céu, responde que só com entrar no mesmo céu: Non intrabit in caiu aliquod coinquinatum[21]. — E como aquela é a natureza do céu, e esta a da terra, a mesma diferença de ouro a ouro nos ensina que, assim como na terra não pode haver bem que careça da mistura de mal, assim todos os do céu são puros e sem mistura.

Se quereis saber de mim — dizia pregando Santo Agostinho — o que há no céu, não vos posso dizer o que há, sem dizer também o que não há: Ibi erit quidquid voles, et non erit quidquid nolles: No céu há tudo o que quiserdes, e só não há o que não quiserdes. — Logo, parece que o céu é feito pela medida da nossa vontade? Não. A nossa vontade é feita pela medida do céu. E por quê? Porque o objeto da nossa vontade, enquanto quer, é o bem, e o objeto da mesma vontade, enquanto não quer, é o mal; e como tudo o que há no céu é o bem, e o que não há no céu é só o mal, por isso há no céu tudo o que quisermos, e só não há o que não quisermos. Se nos bens do mundo houvera esta separação, também na terra pudera o homem querer e gozar o bem sem o mal; mas por mais que queira, não pode, porque sempre o mal anda não só junto, senão penetrado e inseparável do bem. E para que acabemos de conhecer a sutileza com que os mesmos chamados bens nos lisonjeiam e alegram, e com falsas aparências de gosto disfarçam o mal, que sempre levam consigo, levemo-los nós ao exame do céu, e lá se descobrirá o seu engano.

Diz o mesmo evangelista S. João o qual é força que tornemos a ouvir, suposto que S. Paulo, que também viu o céu, nos não quis dizer nada. — Diz, pois, o evangelista, tão notável no que diz, como nas palavras com que o diz, que a todos os que deste mundo passam ao céu lacrymam lhes enxuga Deus os olhos de toda a lágrima Et absterget Deus omnem lacrryman ab oculis eorum (Apc. 7, 17). — E que quer dizer toda a lágrima? Quer dizer todo o gênero de lágrimas como aguda e literalmente comenta Santo Ambrósio — porque neste mundo não só há lágrimas de dor e tristeza, senão também lágrimas de gosto e alegria: e assim de umas como de outras enxuga Deus os olhos dos que vão ao céu. As palavras do grande doutor da Igreja são estas: Absterget Deus omnem lacrymam, nam tristitia saepe lacrymas educit, saepe et laetitia, saepe et gaudium. — Mas que as lágrimas da tristeza e da dor não tenham lugar no céu, bem está, porém, as lágrimas da alegria e do gosto, e mais as do grande gosto e as da grande alegria, que só a grande alegria e o grande gosto fazem rebentar os olhos em lágrimas, por que se não hão de admitir no céu? Porque todas essas lágrimas foram deste mundo. E lágrimas deste mundo, ainda que fossem de alegria, e grande alegria, nunca podiam ser de pura alegria, e ainda que fossem de gosto, e grande gosto, nunca podiam ser de puro gosto, porque no mundo não há gosto sem mistura de pesar, nem alegria sem mistura de tristeza; e semelhantes misturas de nenhum modo têm lugar no céu, onde as alegrias e os gostos, como todos os outros bens, são puros e sem mistura de mal. A alegria no céu é sem tristeza, o gosto é sem pesar, o descanso é sem trabalho, a segurança é sem receio, o sossego sem sobressalto, a paz sem perturbação, a honra sem agravo, a riqueza sem cuidado, a fartura sem fastio, a grandeza sem inveja, abundância sem míngua, a companhia sem emulação, a amizade sem cautela, a saúde sem enfermidade, a vida sem temor da morte, enfim, todos os bens puros e sem mistura de mal, e por isso verdadeiros bens. Ó bem-aventurados do céu, olhai lá de cima cá para este mundo, e tende nova glória acidental dos bens que gozais, não digo em comparação dos males, senão dos bens que nós padecemos!

Mas, confirme nos esta corrente de bens sem males um compêndio, e semelhantes atributos, com exclusão cada um do seu contrário, os quais reduz S. Boaventura a número de doze, como outros tantos frutos da bem-aventurança: Primus est sanitas absque infirmitate; secundus juventus sine senectute; tertius satietas sine fastidio; quartus libertas sine servitute; quintus pulchritudo absque deformitate; sextos impassibilitas absque dolore; septimus abundantia sine índigentia; octavus pax sine perturbatione; nonos securitas absque timore; decimus cognitio absque ignorantia; undecimus gloria sine ignominia; duodecimus gaudium dium sine tristitia. — Até aqui o Doutor Seráfico, o qual nestas doze prerrogativas de bens sem males, nos descreveu um inefável zodíaco de glórias, o qual todos os bem-aventurados, não nos doze meses do ano, nem nas doze horas do dia, sempre, e sem cessar, estão correndo e gozando imovelmente no círculo sem fim da eternidade. Ditosos eles que gozam tanto bem, e nós também ditosos, se nos dispusermos a o não perder.

VI – Segunda diferença: dos bens do mundo quando muito, logra cada um os seus; dos bens do céu, e no céu, logra cada um os seus, e mais os de todos. A vinha de Nabot, a herança de Mifiboset e afazendado pai de famílias do Evangelho. De quem havia de guardar Adão o paraíso? A frieza ou fealdade das palavras meu e teu, de que fala S. João Crisóstomo. As indústrias, as artes e os instrumentos que os homens têm inventado para que cada um possa lograr e possuir o seu segura e quietamente. Os efeitos contrários dos ministros da justiça.

A segunda diferença da nossa proposta, é que dos bens do mundo, quando muito, logra cada um os seus; dos bens do céu, e no céu, logra cada um os seus, e mais os de todos. Disse quando muito, porque muitas vezes não basta que os bens deste mundo sejam nossos, para que o mesmo mundo no-los deixe lograr. Sua era de Nabot a vinha, e não só sua por todos os direitos humanos, mas por distribuição e doação divina, e por mais que ele a quis lograr e defender, bastou que el-rei Acab tivesse apetite de plantar no mesmo sítio, não um bosque ou um jardim, senão uma horta de verduras populares: Hortum olerum (3 Rs. 21, 2) — para que em adulações do mesmo rei lhe fosse tirada por justiça a vinha e mais a vida. Sua era de Mifiboset a herança de seu pai Saul, em que vivia privadamente, quando tinha direito para aspirar à coroa; e bastou o falso testemunho de um criado infiel, para que, acusado falsamente de crime de lesa-majestade, lhe fosse confiscada a mesma herança, e ainda depois de conhecida a verdade, se lhe não restituísse. Sua era a fazenda do pai de famílias do Evangelho, encomendada a um feitor, para que arrecadasse as rendas dos que a cultivavam, e não, bastou que constasse por escritos o que cada um devia, para que o mesmo feitor não roubasse grande parte das mesmas rendas com tal astúcia, que nem demandar o pôde o senhor, e, em vez de o acusar, o louvou. Mas que muito que a cobiça e infidelidade alheia nos não deixe lograr os bens deste mundo, por mais que sejam nossos, se nós mesmos, sem outro inimigo ou ladrão, bastamos, e por nossa vontade, para segura e quietamente, mas sem proveito? Para guardar a casa inventaram as portas e nos despojar deles! Pôs Deus a Adão no paraíso com obrigação de que o cultivasse e guardasse: Ut operaretur, et custodiret illum (Gên. 2, 15) — e esta segunda parte , quando menos, parece que não tinha lugar naquele estado. Outro homem de quem Adão houvesse de guardar o paraíso não o havia no mundo. Para os animais também não era necessária a guarda, porque todos, por instinto natural e sujeição inviolável, o obedeciam logo, de quem havia de guardar Adão o paraíso? De quem o não guardou. Havia-o de guardar de si mesmo, e porque Adão o não guardou de Adão , sendo, os bens que possuía todos os do mundo, ele mesmo, e só ele se, despojou de todos, sem haver outro que lhe impedisse o lográ-los.

Dando a razão desta diferença entre os bens do mundo e os do céu, S. João Crisóstomo diz em uma palavra que é porque no mundo há meu e teu, e no céu não: Ubi non est meum actuum,frigidum illud verbum. — Antes parece que porque no mundo há meu e teu, por isso havia de lograr cada um o seu pacificamente e sem contenda: eu o meu, porque é meu, e vós o vosso, porque é vosso. Mas não é assim. Eu para lograr o meu, hei-me de guardar de vós; e vós, para lograr o vosso, haveis-vos de guardar de mim. Por isso chama o santo ao meu e teu, com elegância verdadeiramente áurea, palavra fria: Meum actuum, frigidum illud verbum. — E que frieza ou frialdade é esta do meu e teu? É tal frieza e tal frialdade que não há amor no mundo tão ardente por natureza, e tão intenso por obrigação, que logo não esfrie. Em havendo meu e teu não há amor de amigo para amigo, nem amor de irmão para irmão, nem amor de filho para pai, nem amor de pai para filho, nem amor de próximo, por mais religioso que seja, para outro próximo, nem amor do mesmo Deus para Deus. Antes de haver meu e teu havia amor, porque eu amava-vos a vós, e vós a mim; mas tanto que o meu e teu se meteu de permeio, e se atravessou entre nós, logo se acabou o amor, porque vós já me não amais a mim, senão o meu, nem eu vos amo a vós, senão o vosso. No princípio mundo, como gravemente pondera Sêneca, por que não havia guerras? Porque usavam os homens da terra como do céu. O sol, a lua, as estrelas e o uso da sua luz é comum a todos: e assim era a terra no princípio; porém, depois que a terra se dividiu em diferentes senhores, logo houve guerras e batalhas, e se acabou a paz, porque houve meu e teu.

Que direi dos meios e dos remédios, das indústrias, das artes e instrumentos que os homens têm inventado para que cada um pudesse possuir e lograr o seu segura e quietamente, mas sem proveito? Para guardar a casa inventaram as portas e as fechaduras; mas pela mesma abertura por onde entra a chave, deixa também aberta a entrada para a gazua. Para assinalar os limites de cada um, inventaram os marcos; e para guardar a vinha e o pomar, inventaram os valados, as silvas, as sebes, e as paredes de pedra ligada ou solta; mas tudo isto se rompe e se escala. Para guardar as cidades inventaram os muros, os fossos, as torres, os baluartes, as fortalezas, os presídios, a artilharia, a pólvora; mas não há cidade tão forte que, por bateria ou por assalto, ou minada por debaixo da terra, ou pelo ar, se não expugne e renda. Para guardar os reinos e os impérios inventaram as armadas por mar e os exércitos por terra, tantos mil soldados a pé, tantos mil a cavalo, com tanta ordem e disciplina, com tanta variedade de armas, com tantos artifícios e máquinas bélicas; mas nenhum destes aparatos tão estrondosos e formidáveis têm bastado, nem para que os assírios guardassem o seu império dos persas, nem os persas o seu dos gregos, nem os gregos o seu dos romanos, nem os romanos finalmente, o seu daqueles a quem o tinham tomado, tornando a ser vencidos dos mesmos que tinham vencido e dominado. Mais inventaram e fizeram os homens a este mesmo fim de conservar cada um o seu. Inventaram e firmaram leis, levantaram tribunais, constituíram magistrados, deram varas às chamadas justiças, com tanta multidão de ministros maiores e menores, e foi com efeito tão contrário que, em vez de desterrarem os ladrões, os meteram das portas a dentro, e em vez de os extinguirem, os multiplicaram, e os que furtavam com medo, e com rebuço, furtavam debaixo de provisões, e com imunidade. O solicitador com a diligência, o escrivão com a pena, a testemunha com o juramento, o advogado com a alegação, o julgador com a sentença, e até o beleguim com a chuça, todos foram ordenados para conservarem a cada um no seu, e todos por diferentes modos vivem do vosso.

VII – Razões que nos alega o divino Mestre para que façamos os nossos tesouros dos bens do céu, e no céu. Os bens deste mundo e as quatro pragas de que fala o profeta Joel. Que aconteceu ao rico a quem o Evangelho canoniza com nome,não só de néscio, mas de estólido?

Esta é uma das razões a qual o divino Mestre, Cristo, Senhor nosso, nos alega, para que façamos os nossos tesouros dos bens do céu, e no céu, e não dos bens do mundo, e na terra, porque na terra há ladrões, e no céu não: Nolite thesaurizare vobis in terra, ubi aerugo et tinea demolitur, et ubi fures elfodiunt, et furantur: Thesaurizate autem vobis in caelo, ubi negue aerugo, negue tinea demolitur; et ubi fures non effodiunt, nec furantur[22]. — nas quais palavras se deve notar muito que não só nos aconselha e manda o Senhor que guardemos os nossos bens dos ladrões da cobiça, senão também dos ladrões da natureza: Ubi aerugo et tinea demolitur. — Os bens deste mundo, como são corruptíveis, ainda que não haja ladrão que os furte, eles mesmos se nos roubam, porque as roupas, por preciosas que sejam, come-as a polilha, que nasce das mesmas roupas, e os metais, ainda que sejam ouro e prata, rói-os a ferrugem, que nasce dos mesmos metais.

Porém, os bens do céu, que são incorruptíveis, nem deles se pode gerar vício de corrupção que os gaste, nem a lima surda do tempo, que tudo consome, lhe pode meter o dente, porque a sua dureza é como a sua duração, e são bens eternos. Oh! quanto mais nos ensinou o divino Mestre nestas palavras, do que elas dizem! Quando não houvera corsários no mar, nem salteadores nos caminhos, nem ladrões públicos e secretos no povoado, quem há tão poderoso que possa conservar e lograr o que possui neste mundo contra os roubos inevitáveis da natureza? Que são todos os elementos, senão uns roubadores universais de tudo o que granjeia e trabalha o gênero humano? O fogo nos rouba com os incêndios, a água com as inundações, o ar com as tempestades, e a mesma terra com os exércitos inumeráveis de pragas que, como semeada com os dentes de Cadmo, nascem e se levantam dela para outra vez nos roubar o que nos tem dado. Ouçamos ao profeta Joel: Residuum erucae comedit locustae; residuum locustae comedit bruchus; residuum bruchi comedit rubigo[23]. — Vieram — diz Joel — quatro pragas sucessivas à terra, uma sobre a outra. E que fizeram? Totalmente devastaram a mesma terra, sem perdoar a quanto ela dá cultivada, ou espontaneamente cria e sem cultura. O que deixou a lagarta comeu o gafanhoto o que deixou o gafanhoto comeu o pulgão, e o que deixou o pulgão comeu a ferrugem. De sorte que, para serem despojados os homens dos maiores bens e mais necessários à vida, quais são aqueles de que ela se sustenta, não depende a sua perda e desgraça das hostilidades e roubos dos sabeus e dos caldeus, que destruíram as terras, os gados e as herdades de Jó, mas bastam só as pragas naturais da mesma terra corrupta, para que em um momento fique tão pobre como Jó qualquer que fosse tão rico e abundante como ele. Tudo o que nasce na terra, o sol e a chuva o cria: mas o mesmo sol, se é demasiado, o queima, e a mesma chuva, se é muito continuada, o afoga, para que acabemos de nos desenganar da pouca firmeza ou segurança que pode haver nos bens que não são do céu, pois as mesmas causas que os dão os tiram, e as mesmas que os produzem os matam.

E como ficam baldados, ainda sem chegar a este caso, os cuidados, os trabalhos e os suores dos que toda a vida e todo o amor empregam em adquirir e aumentar os chamados bens deste mundo, se, no mesmo tempo em que cuidam que são seus, não sabem para quem trabalham. É ponderação do grande rei e profeta Davi, triste verdadeiramente, e digna de quebrar as mãos e os ânimos a todos os que debaixo desta ignorância se cansam. Thesaurizat, et ignorat cui congregabit ea (SI. 38, 7): Adquirem, ajuntam, entesouram, e não sabem para quem. — Cuidam que é para si o que chamam seu, e não é seu, nem para si, porque é para outrem, e talvez para o maior inimigo. Assim lhe aconteceu àquele rico, a quem o Evangelho canoniza com o nome não só de néscio, mas de estólido: stulte. — Dava o parabém à sua alma pelos muitos bens que tinha juntos para muitos anos: Anima mea, habes multa bona in annos plurintos[24]. — E sendo mandado sair deste mundo naquela mesma noite, a pergunta que lhe fizeram foi: Et quae parasti, cujus erunt (Lc. 12, 20)? E todos esses bens que ajuntaste, e chamas bens, cujos serão? — O trabalho foi teu, e os bens serão de quem não sabes. Não assim os bens no céu, diz o mesmo profeta. — Labores mamam tuarum guia manducabis, beatus es, et bene tibi erit[25]: Vós trabalhareis nesta vida, mas na outra sereis bem-aventurados, porque comereis o fruto dos vossos trabalhos, ou os mesmos trabalhos de vossas mãos: Labores manuum tuarum. — Aquele foi canonizado por néscio, e este por bem-aventurado, porque só os que trabalham pelos bens do céu sabem de certo que trabalham para si, e para o que é e há de ser seu eternamente.

VIII – No céu logra cada um os seus bens, e mais os de todos. Se os pecados que se condenam no Pródigo foram cometidos em ausência do pai, e muito longe dele, que pecado foi ode que principalmente se acusou, como cometido em presença do pai, e contra o céu? Se os herdeiros e os irmãos eram dois, como diz o pai que tudo era de um irmão, ,sendo também do outro? O Sacramento do Altar,único exemplo na terra de total e recíproca comunicação de bens. Em que esteve no Tabor o erro ou desacerto de S. Pedro, digno da notável e declarada censura dos evangelistas: — Não sabia o que dizia?

Mas concedamos ou finjamos que houve um homem tão mimoso da fortuna, que todos os bens que possui deste mundo, ou herdades ou adquiridos, os logrou pacificamente, sem que a inveja dos iguais nem a potência dos maiores lhe inquietasse a posse ou duvidasse o domínio: que felicidade é a deste homem? Primeiramente, com ser fingida, e não usada, se os bens são poucos, não deve de estar contente, e, se são muitos, quem duvida que ainda deseja mais, sendo certo que em um e outro caso mais vem a padecer que a lograr o que tem? Mas, se por graça especial de Deus é esse homem tão moderado e tão senhor de seus apetites que com o seu pouco, ou seu muito, se dá por satisfeito, possui e logra mais alguma coisa que o seu? Não. Pois, esta é a diferença que há entre os bens do céu e os do mundo. Os do mundo, quando muito, e por milagre, tanto da natureza como da fortuna logra cada um os seus; os do céu não só logra cada um os seus, senão também os de todos. Oh! se entendêssemos bem este ponto, que pouco caso faríamos dos bens da terra! Arrependido o Filho Pródigo do mal aconselhado que havia sido em sua vida passada, veio buscar outra vez a casa do pai, e, lançado a seus pés, lhe disse: Pater, peccavi in caelum, et coram te (Lc. 15, 18): Pai meu, eu em vossa presença pequei contra o céu. — Os pecados que se condenam no Pródigo todos foram cometidos na ausência do pai, e muito longe dele: In regionem longinquam (ibid. 13); que pecado foi logo este de que principalmente se acusa, cometido em presença do pai, e contra o céu? O único pecado que cometeu o Pródigo em presença do pai foi pedir que lhe desse em vida a parte da herança que lhe tocava, porque queria lograr o seu: Pater, da mihi, portionem substantiae quae me contingit[26]. — E este pecado cometido em presença do pai: coram te — confessa o filho arrependido que foi pecado contra o céu: peccavi in caelum? — Sim, porque pedir só a sua parte, e querer lograr somente o seu, foi igualar o céu com a terra. Na terra, quando muito, logra cada um a porção dos bens que tocam a cada um: Da mihi portionem substantiae quae me contingit: — e quem é filho do Pai do céu, e criado para o céu, contentar-se só com o seu, é injúria, é agravo, é pecado grande que comete contra o mesmo céu, porque no céu não só logra cada um o seu, senão o de todos. No mesmo caso o temos.

Estranhando o filho mais velho as festas com que o pai celebrava a restituição e vinda do mais moço, as palavras com que o consolou foram estas: Fili, tu semper mecum,, et omnia mea tua sunt (Lc. 15, 31): Filho, vós sempre estais comigo, e tudo quanto tenho é vosso — Neste tudo repara muito Santo Agostinho, porque, tendo o pai outro filho, e o Pródigo outro irmão, como podia o pai dizer a um deles que tudo o que tinha era seu? Quid sibi vult omeia mea tua sunt, quasi non sint et fratris? — Nem obsta que um aos filhos nunca saísse da casa do pai, e o outro fora dela vivesse tão perdidamente, porque já estava arrependido dessa mesma vida; e onde o pai é Deus, tanto direito tem à herança dos seus bens os arrependidos como os inocentes. Assim que a dúvida toda está onde a põe Agostinho, que é no omnia: Omnia mea tua sunt. — Pois, se os herdeiros e os irmãos eram dois, como diz o pai que tudo era de um irmão, sendo também do outro? Por que falou como Pai do céu, e dos bens do céu, onde tudo é de todos, e tudo de cada um: Sed sic a perfectis et inunortalibus filiis habentur omnia, ut sint et omnium singula, et omnia singulorum — responde elegante e doutamente o mesmo Santo Agostinho. Neste mundo, onde os homens são mortais e os bens também mortais, cada um logra somente o seu; porém no céu, onde os homens e os bens são imortais, cada um logra ode todos, e todos o de cada um. — O pecador arrependido logra a glória do inocente que nunca pecou, e o inocente, que nunca pecou, logra a do pecador arrependido; e nem o inocente por inocente, exclui o pecador, nem o pecador, por pecador, desmerece o que logra o inocente, mas todos gozam o de cada um, cada um de todos: Omnium singula, et omnia singulorum.

Haverá, porventura, na terra algum exemplo que nos declare esta recíproca e total comunicação, tão total e toda em todos, como total e toda em cada um? Nunca houve nem podia haver tal exemplo ou semelhança na terra, mas só a houve depois que desceu do céu. E qual é? O diviníssimo Sacramento: Panis qui de caelo descendit [27]. — O diviníssimo Sacramento é penhor da glória e figura da glória. Uma e outra coisa nos ensina a Igreja: penhor da glória: Futurae gloriae nobis pignus datur [28]figura da glória: Quam pretiosi corporis et sanguinis tui temporalis perceptio praefigurat [29]. — O penhor, para ser penhor, não é necessário que tenha a semelhança, senão o preço e valor do que assegura. Assim vemos que a baixela ou tapeçaria é penhor de tanta quantia quanta se nos fia debaixo dela; e isto mesmo tem o valor e preço infinito do Sacramento, enquanto penhor da glória. Mas, para ser figura da glória, não basta só o valor e o preço, senão também a semelhança, porque sem semelhança não pode haver figura. Logo, se o Sacramento, em que não vemos a Deus, é figura da glória, que consiste em ver a Deus, onde está esta figura e esta semelhança? Admiravelmente o dizem as mesmas palavras da igreja: Quam pretiosi corporis et sanguinis tui temporalis perseptio praefigurat. — Note se muito a palavra percetio: não consiste a figura e semelhança do Sacramento com a glória no que recebemos, posto que seja o mesmo Deus, mas consiste no modo com que o recebemos: temporalis perseptio pracefigurat. — E por quê? Porque, assim como no Sacramento tanto recebe um como todos, e tanto recebem todos como cada um, assim na glória tanto logram todos como cada um, e tanto cada um como todos. Cá na terra, como há a divisão de meu a teu, cada um logra os seus bens, mas não participa os dos outros; porém, no céu os próprios e os dos outros tanto são comuns de todos como particulares de cada um, porque lá não tem lugar esta divisão.

Daqui se entenderá o fundamento por que S. Pedro no Tabor foi notado pelos dois evangelistas S. Marcos e S. Lucas com uma censura tão pesada como de não saber o que disse: Nesciens quid diceret (Lc. 9, 33). — O que disse S. Pedro foi que fizessem ali três tabernáculos, um para Cristo, outro para Moisés, outro para Elias: Faciamus hic Iria tabernacula tibi unum, Moysi unum, et Eliaeunam (Mt. 17, 4). — E em que esteve o erro ou desacerto, digno de tão notável e declarada censura? Esteve em que, sendo Tabor não só um retrato da glória do céu, senão uma participação própria e verdadeira do que nela se goza, quis S. Pedro introduzir e estabelecer no Tabor uma coisa tão imprópria e alheia da mesma glória, como teu, e teu: Moysi unum, et Eliae unum. Excelentemente S. Pascásio: Error in causa est, guia fria se promittit faceie tabernacula, unum scilicet,ac privatum Jesu, alterum Movsi, et aliud Eliae, quasi non eos caperet unum tabernaculum, seu ia uno simul consistere non possent [30]. — S. Pedro, como desinteressado, não quis introduzir na glória o meu e o nosso, porque não disse que faria tabernáculo para si, nem para os companheiros, e até aqui não errou calando; porém, tanto que falou e disse unum tibi, não parando ali, mas querendo dividir os tabernáculos, e fazer outro para Moisés e outro para Elias, como se todos não coubessem no mesmo tabernáculo, ou o mesmo tabernáculo não fosse capaz de todos, aqui e nesta divisão é que esteve o seu erro, porque na glória do céu, que o Tabor representava, o tabernáculo de Moisés é de Elias, e ode Elias é de Moisés, e o de Moisés e Elias é de Cristo, e o de Cristo é de Moisés, e é de Elias, e é de Pedro, e é de João, e é de Diogo, sem excluir a ninguém, mas comunicando-se, não só universalmente a todos, senão particularmente cada um.

IX – Se os bem-aventurados na glória e as glórias dos bem-aventurados não são iguais, como pode ser que em tanta desigualdade do que possuem estejam todos igualmente contentes, e que, sendo o que cada um possui próprio de cada um, gozem todos igualmente o de cada um, e cada um igualmente ode todos? Em que consiste a glória essencial. A caridade universal de S. Paulo. O amor dos pais e a glória dos filhos. Se no céu cada um pela sua glória particular é bem-aventurado e glorioso, que será pelas glórias e bem-aventuranças de todos? O que diz S. Boaventura

Contra esta doutrina, porém, posto que tão provada, me parece que estão replicando, não só os doutos e indoutos da terra, senão também os bem-aventurados do mesmo céu. Os doutos, porque muitas vezes leram no Evangelho: Tunc reddet unicuique secundum opera ejus. Et in qua mensura mensi fueritis, remetietur vobis [31]; e em S. Paulo: Qui parte seminat, parte et meter; et qui seminat in benedictionibus, de benedictionibus et metet. Et unusquisque propriam mercedem accipiet secundum suum luborem[32]. — Os indoutos, porque também muitas vezes têm ouvido, na interpretação destes textos, que os prêmios do céu se hão de distribuir a cada um por justiça, e que a medida lá do gozar há de ser a mesma que cá foi do servir, e que quem semeia pouco colherá pouco, e quem muito, muito, e que a paga que há de receber o trabalhador, há de ser conforme o seu trabalho. Os bem-aventurados, finalmente, porque é certo que no céu há muitos diferentes graus da glória como foram diferentes na terra os da graça, e que assim como cá por fora vemos que no mesmo céu uma é a claridade do sol, outra a da lua, outra a das estrelas: Alia claritas solis, alia claritas lunae, et alia claritas stellarum. Stella enim a stella differt in claritate [33] — assim lá por dentro há maio­res e menores lumes da vista de Deus, e na mesma bem-aventurança, maiores e menores participações, ou, como diz S. Paulo, pesos dela. Pois, se bem-aventurados na glória, e as glórias dos bem-aventurados não são iguais, como pode ser primeiramente que em tanta desigualdade do que possuem estejam todos igualmente contentes, e que, sendo o que cada um possui próprio de cada um, gozem todos igualmente o de cada um, e cada um igualmente o de todos?

Para declaração deste que parece enigma, havemos de supor que no céu há ver e gozar a Deus, em que consiste a glória essencial, e há gozar-se da mesma glória dos que vêem a Deus e o gozam, que são duas coisas muito diversas. Na glória que consiste em ver e gozar a Deus, ainda que alguns possam ser iguais, há muitos graus de diferença e excesso, segundo o maior ou menor merecimento de cada um. Mas nesta mesma diferença, posto que desigual, todos respectivamente, e cada um, estão igualmente contentes, porque nenhum quer ou deseja maior do que tem, fundando-se a igualdade do mesmo contentamento na medida da própria capacidade, e na proporção da justiça com que se vêem remiados. Cá, onde todos apetecemos ser maiores, não se entende isto, mas facilmente se pode compreender por várias semelhanças. Levai ao mar três vasos, um grande, outro muito maior, outro muito pequeno, enchei-os todos: neste caso o vaso menor tem menos água, o grande tem mais, e o maior muito mais, e, contudo, nesta mesma desigualdade nenhum admite nem pode admitir mais do que tem, porque cada um, segundo a sua capacidade, está igualmente cheio. Tem um pai três filhos, um menino, outro moço, outro já homem feito; vestiu a todos da mesma tela, e qual está mais contente? Porventura o que levou mais côvados? De nenhum modo. E, se não, trocai os vestidos, e vereis se quer algum o do outro. Mas cada um se contenta igualmente do seu, porque é o que lhe vem mais justo e mais proporcionado à sua estatura. O mesmo passa nos bem-aventurados do céu, porque, assim como a glória da vista clara de Deus os enche por dentro, assim os veste por fora. Nem obsta a capacidade maior ou menor do merecimento, nem a estatura mais ou menos alta da dignidade, para alterar ou diminuir a igualdade desta satisfação e contentamento de cada um no seu estado, porque, como bem declara com outra semelhança Santo Agostinho, também a cabeça é mais nobre que a mão, e a mão mais nobre que o pé, e nem por isso o pé deseja ser mão, nem a mão deseja ser a cabeça, nem a cabeça deseja ser coração, porque assim o pede a natureza das partes e a harmonia do todo[34]. E se esta união, conformidade e ordem se acha em um corpo natural e corruptível, qual será a do corpo celestial daquela soberana e sobrenatural república, onde a vontade do mesmo Deus que o beatifica é a alma que o informa?

E quanto à segunda parte da objeção, em que parece dificultoso gozar-se cada um das glórias de todos, e gozarem-se todos da glória de cada um, assim como satisfizemos à primeira dificuldade com a proporção da justiça, assim respondo à segunda com a extensão da caridade. O céu é uma república imensa, mas onde todos se amam, e está lá a caridade tanto no auge da sua perfeição, que todos e cada um amam tanto a qualquer outro como a si mesmo. Donde se segue que, ainda que os graus da glória sejam desiguais, segundo o merecimento de cada um, a alegria e o gosto dessa mesma glória ou glórias é igual em todos, porque todos as estimam como próprias, e cada um como sua. Expressamente S. Lourenço Justiniano: Tanta vis in illa caelesti patria nos sociat, ut quod in se quisque non accipit, hoc se accepisse in altero exultet. Una cunctis erit beatitudo laetitiae, quamvis non una sit omnibus sublimitas vitae[35]. — Note-se muito a palavra heatitudo laetitiae, em que o santo distingue na mesma bem-aventurança duas bem-aventuranças, uma da glória, outra da alegria: a da glória é particular e determinada, porque consiste na vista de Deus, que se mede com o merecimento e graça desta vida; porém, a da alegria não tem termo nem limite, porque é imensa, e sem medida, segundo a extensão da caridade, a qual, compreendendo e abraçando a todos, se alegra e goza da glória de todos e cada um, como se fora própria. E este como se fora própria, não quer dizer que não tem nem possui cada um a glória dos outros, não em si, mas nos que ama como a si mesmo: Ut quod in se quisque non accipit, hoc se accepisse in.altero exultet. — Esta mesma razão é de Santo Agostinho, S. Boaventura, de Santo Anselmo, e de todos[36].

E para que o uso ou abuso da pouca caridade deste mundo nos não escureça a inteligência desta verdade, com dois exemplos deste mesmo mundo a quero declarar, um singular, em S. Paulo, outro universal, em todos os homens. Era tão imensa a caridade de S. Paulo, que ele padecia os males de todos os homens e nenhum mal temporal ou espiritual sucedia neste mundo que não acrescentasse neva e particular matéria ao fogo em que ardia o seu coração: Quis infirmatur; et ego non infirmor? Quis scandalizatur, et ego non uror[37]? — Assim como todo o peso da redondeza da terra pesa e carrega para o centro, assim todas as enfermidades, todas as dores, todas as penas, todos os trabalhos, todas as aflições e tribulações, misérias, pobrezas, tristezas, angústias, infortúnios, desgraças enfim, todos os males do gênero humano carregavam de toda a parte sobre o coração de Paulo, adoecendo ele de todos, e com todos: Quis infirmatur, et ego non infirmor? — E assim como no mesmo centro está o fogo do inferno, em que ardem os condenados, pagando as penas das culpas que cometeram nesta vida, assim ardia no coroação de Paulo o fogo da caridade, tão forte e intensamente, que todos os escândalos e culpas que de novo se cometiam, não só o atormentavam de qualquer modo, mas verdadeiramente o abrasavam e queimavam: Quis scandalizatur, et ego non uror?[37] — E, se a caridade de Paulo o fazia padecer os males de todos, sendo mais natural à natureza humana gozar-se dos bens que padecer os males, quem duvida que a caridade de qualquer bem-aventurado, a qual no céu é mais perfeita que a dos maiores santos na terra, excite, afeiçoe e obrigue naturalmente e sem milagre a cada um a que se alegre e goze dos bens de todos?

E se não — para que cada um se persuada pelo que experimenta em si mesmo — pergunto a todos os que sois pais ou mães: Não é certo que os pais e as mães tanto amam e estimam os bens de seus filhos como os próprios? Até as feras mais feras, se se lhes fizer esta pergunta, responderão que sim. E eu acrescento que não será verdadeiro pai nem verdadeira mãe o que não estimar menos os seus bens que os de seus filhos. Por isso os cortesãos de Jerusalém, quando Davi renunciou a coroa em seu filho Salomão, a lisonja com que beijaram a mão ao mesmo Davi, foi dizendo todos a uma voz, e com o mesmo conceito, que Deus fizesse o trono e reino do filho maior e mais feliz ainda que o do pai. E por isso a mãe de Nero, tendo ouvido de um oráculo que, se chegasse a ser imperador seu filho, a havia de matar, respondeu: Occidat, dummodo imperet. Mate-me embora, contanto que seja imperador. — Assim estimou mais a mãe a honra e império do filho que a vida própria. E se a estes extremos se estende o amor natural da terra, que será o sobrenatural do céu? É tão grande, ou, por falar mais propriamente, é tão perfeito, tão puro e tão sobre-humano o amor com que todos os bem-aventurados reciprocamente se amam que, se o amor de todos os pais e mães, quantos houve desde o princípio do mundo e haverá até o fim, se unisse em um só amor, comparado este com o amor do menor bem-aventurado do céu, não só o não igualaria, mas nem pareceria amor. Vede agora, conclui S. Boaventura, quão imensa será a glória dos que assim se amam, sendo eles infinitos, e a glória de cada um as glórias de todos!

Ó bem-aventurados vós, e bem-aventuradas, não digo a vossa, senão as vossas bem-aventuranças! Lá está gozando esta verdade quem a disse na primeira palavra que escreveu. A primeira palavra do primeiro salmo de Davi, é: Beatus vir (SI. 1, 1): Bem-aventurado o homem. — E qual é a bem-aventurança que o faz, e lhe dá o nome de bem-aventurado? Não é uma, nem só muitas, senão todas as bem-aventuranças de todos os bem-aventurados, porque todas as bem-aventuranças de todos concorrem a fazer bem-aventurado a cada um. Assim o declara expressamente o mesmo texto original hebraico, em que Davi escreveu, o qual, tem em lugar de beatus vir, beatitudines vivi. E se cada um pela sua glória particular é perfeitissimamente bem-aventurado e glorioso, que será pelas glórias e bem-aventuranças de todos? Pela sua glória bem-aventurado cada um pelo que ele mereceu, e pelas glórias de todos sobre bem-aventurado, também pelo que eles mereceram. Excesso verdadeiramente de comunicação de bens, que pudera parecer injusto, se a glória não fora prêmio da graça. De vós, pois, e de todos vós, ó felicíssimos habitadores dessa pátria celestial, de vós e a vós se pode dizer com razão: Alii laboraverunt, et vos in labores eorum introistis (Jo. 4, 38): que os outros mereceram e trabalharam, e vós gozais os frutos de seus trabalhos, pois gozais o que eles mereceram e vós não merecestes.

Vós — ponderem os da terra bem o que digo — vós não fostes patriarcas, e gozais a glória dos patriarcas; vós não fostes profetas, e gozais a glória dos profetas; vós não fostes apóstolos, e gozais a glória dos apóstolos; vós não padecestes martírio, e gozais a glória dos mártires; vós não fostes doutores nem ensinastes, e gozais a glória dos doutores; vós não vivestes nos desertos, e gozais a glória dos anacoretas, vós não professastes continência, e gozais a glória das virgens; vós fostes pecadores, e talvez grandes pecadores, e gozais a glória dos inocentes; vós, finalmente, sois homens com corpo, e não espíritos, e gozais as glórias de todas as jerarquias dos anjos. Assim o discorre e contrapõe admiravelmente o Serafim dos doutores da Igreja, S. Boaventura, posto que com a ordem mudada, mas com o mesmo sentido: ibi virgo gaudebit de sanctae viduitatis merito; ibi vidua exultabit de casto virginitatis privilegio; ibi confessor demartyris jucundabitur triumpho; ibi mar tripudiabit de confessorum bravio; ibi propheta laudabit de patriarcharum pia conversatione; ibi patriarcha exultabit de prophetarum fide; ibi apostoli et angeli gaudebunt de merito omnium inferioum; ibi omnes inferiores laetabuntur de gloria et corona superiorum[38].

X – Deixa o autor de considerar a terceira diferença entre os bens da terra e os bens do céu. A razão e evidência com que, sem fé nem conhecimento da outra vida, se desenganavam os gentios dos falsos bens deste mundo. Paralelo final entre o monte da tentação e o monte da transfiguração.

Faltava-nos agora o terceiro ponto da nossa proposta, e mostrar como tudo isto se goza no céu, não sucessivamente, senão por junto, reduzindo toda a eternidade a um instante, e estendendo esse mesmo instante por toda a eternidade.Sendo, porém, forçoso acomodar à brevidade do tempo, e supondo que bastam as demonstrações destes dois discursos para fundar sobre elas uma grande resolução, acabo com fazer a todos os que ouviram uma só pergunta: Credes isto que ouvistes, ou não? Quem crê o primeiro e segundo ponto, é cristão; quem não crê o segundo, é gentio; mas, ou sejais gentios, ou cristãos, se totalmente não tendes perdido o entendimento e o juízo não podeis deixar de estar persuadidos, do que ouvistes, ou a desprezar a falsidade de uns bens, ou a desejar juntamente a verdade dos outros.

O gentio não sabe que a alma é imortal, nem crê que há outra vida. E, contudo, se lerdes os livros de todos os gentios, nenhum achareis, nem filósofo, nem orador, nem poeta, que só com o lume da razão e experiência do que vêem os olhos, não condene o amor ou cobiça dos chamados bens deste mundo, e não louve o desprezo deles. Gentio houve que, reduzindo a dinheiro um grande patrimônio que possuía, o lançou no mar, dizendo: — “Melhor é que eu te afogue, do que tu me percas.” — Deixo os risos de Diógenes que, metido na sua cuba, zombava dos Alexandres e suas riquezas. Deixo a sobriedade dos Sócrates, dos Sênecas, dos Epitetos, e só me admira e deve envergonhar a todo cristão o exemplo do mesmo Epicuro neste conhecimento, sendo ele e a sua seita a que mais professava as delícias: Gaudebis minas? Minus dolebis — dizia o cômico gentio, e falando com gentios: — Se tiveres menos gostos, também terás menos dores. — E porque na mistura dos falsos e enganosos bens dividiam o bem do mal, e o contrapesavam o que tinham de gosto com o que causavam de dor, antes queriam não padecer a parte do verdadeiro mal que gozar a do falso bem. Não seria louco o que pela doçura da bebida tragasse juntamente o veneno? Esta, pois, era a razão e a evidên­cia com que, sem fé nem conhecimento da outra vida, se desenganavam os gentios, e uns pelo peso se descarregavam dos falsos bens, outros pelo desprezo os metiam debaixo dos pés.

E se assim os tratava o gentio, que não temia deles que o levassem ao inferno, nem lhe impedissem o céu, que deve resolver e gozar o cristão, que não só reconhece nos bens do mundo a vaidade do presente, senão também, e muito mais, o perigo do futuro? Será bem que por um instante de gosto me arrisque eu a uma eternidade de pena e por uma apreensão de bem misturado com tantos males, perca a glória da vista de Deus, e o gozar não só a minha bem-aventurança, senão a de todos os bem-aventurados? Ó fé, ó entendimento, onde estás? Mas o certo é que nem entendimento temos, pois não fazemos o que fizeram e entenderam tantos gentios, nem fé, senão morta, e sem ação vital, pois ela nos não move a viver como cristãos. Se o queremos ser, e emendar o deslumbramento desta tão enorme cegueira, eu não vejo outro remédio que nos abra os olhos, senão tornar pelos mesmos passos destes nossos dois discursos aos dois montes donde eles saíram. Oh! que duas estações tão próprias de um tempo tão santo como do da quaresma! Uma ao monte da tentação, outra ao monte da Transfiguração; mas ao monte onde o demônio mostrou a Cristo as glórias do mundo, outra onde Cristo mostrou aos apóstolos a glória do céu. Olhai, e notai bem quanto vai de monte a monte: vede e considerai bem quanto vai de glórias à glória. Naquele monte estão os males sobredoirados com nome de bens: neste estão os bens sem sombra nem aparência de mal. Ali está o falso, aqui o verdadeiro; ali o duvidoso, aqui o certo; ali o momentâneo, aqui o eterno; ali o que vai parar no fogo do inferno, aqui o que nos leva a ser bem-aventurados no céu. Vede, vede, e considerai bem o que deveis escolher, porque qual for a vossa eleição nesta vida, tal será a vossa remuneração na outra: ou padecendo sem fim todas as maldições com o demônio, ou gozando na eternidade todas as felicidades com Cristo.

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[1] Tomou Jesus consigo a Pedro, e a Tiago, e a João. e os levou à parte, a um monte alto, e transfigurou-se diante deles (Mi. 17. I s).
[2] E transfigurou-se diante deles (Mt. 17, 1.s).
[3] Tomou-o o diabo (Mt. 4, 5).
[4] Tomou Jesus consigo a Pedro, e a Tiago, e a João Mt. 17, 1.).
[5] Dispôs ascensões no seu coração. neste vale de lágrimas, no lugar que Deus destinou para si (SI. 83, 6s).
[6] Gravado está, Senhor, sobre nós o lume do teu rosto (SI. 4, 7).
[7] Bom é que nós estejamos aqui (Mt. 17, 4).
[8] 0 espinho circunda a graça da flor, como que mostrando em espelho a vida humana, a qual muitas fere a suavidade da existência com os espinhos dos cuidados que lhe são próprios (Ambr. lib. 3, Exam. cap. 17).
[9] O espinho arma a rosa e as abelhas defendem o mel (Boetius).
[10] Na mão do Senhor está o cálix de vinho puro, cheio de uma mistura (SI. 74, 9).
[11] Augus, ibi.
[12] O riso será misturado com a dor, e aos fins do gosto sucede a tristeza (Prov. 14, 13).
[13] Eu disse no meu coração: Irei, e engolfar-me-ei em delícias, e gozarei de toda a casta de bens (Ecl. 2, 1).
[14] E não neguei aos meus olhos coisa alguma de todas quantas eles desejaram, nem proibi ao meu coração que gozasse de todo o prazer (Ecl. 2, 10).
[15] Falavam de sua saída deste mundo, que havia de cumprir em Jerusalém (Lc. 9, 31).
[16] E lhe deram a beber vinho misturado com fel (Mt. 27, 34).
[17] Deram-me na minha comida fel, e na minha sede me propinaram vinagre (SI. 68, 22).
[18] Tendo-o provado. não o quis beber (Mt. 27.34).
[19] E não haverá mais morte, nem haverá mais choro, nem mais dor, porque as primeiras coisas são passadas (Apc. 21, 4).
[20] O ouro, que é acrisolado com o logo (1 Pdr. 1. 7).
[21] Não entrará nela coisa alguma contaminada (Apc. 21. 27).
[22] Não queirais entesourar para vós tesouros na terra, onde a ferrugem e a traça os consome, e onde os ladrões os desenterram e roubam. Mas entesourai para vós no céu, onde não os consome a ferrugem nem a traça, e onde os ladrões não os desenterram nem roubam (Mt. 6, 19 s).
[23] O gafanhoto comeu o que tinha ficado da lagarta; o brugo comeu o que tinha ficado do gafanhoto; a ferrugem comeu o que tinha ficado do brugo (JI. 1.4).
[24] Alma minha, tu tens muitos bens para largos anos (Lc. 12, 19).
[25] Porque comerás dos trabalhos das tuas mãos. hem-aventurado és, e te irá bem (SI. 127, 2).
[26] Pai, dá-me a parte da fazenda que me toca (Lc. 15, 12).
[27] Pão que desceu do céu (]o. 6.
[28] Dá-nos o penhor da glória futura.
[29] A qual é prefigurada na comunhão de teu precioso corpo e sangue.
[30] Paschas. lib.. 8, ira Matth.
[31] Então dará a cada um a paga segundo as suas obras (ML 16, 27). — Com a medida com que medirdes aos mais, vos medirão a vós (Mc. 4, 24).
[32] Aquele que semeia pouco também segará pouco, e aquele que semeia em abundância também segará em abundância (2 Cor. 9.6). — E cada um receberá a sua recompensa particular segundo o seu trabalho (1 Cor. 3.8).
[33] Uma é a claridade das estrelas. E ainda há diferença de estrela a estrela na claridade (1 Cor.15, 41).
[34] August. lib. 22, de Civ. cap. 30.
[35] Laurent. Just. de Long. Vitae, cap. 7.
[36] August. 22, de Civ.; Bonav. 2 de Angel; Anselm,. lib. de Similit. cap. 59.
[37] Quem enferma, que eu não enferme? Quem se escandaliza, que eu me não abrase (2 Cor. 1I, 29)?
[38] S. Bonavent. In Soliloquiis.

Fonte: https://www.literaturabrasileira.ufsc.br/documentos/?action=download&id=49810