Sermão da Segunda Quarta-feira da Quaresma (1638)

SERMÃO DA SEGUNDA QUARTA-FEIRA DA QUARESMA

Na Misericórdia da Bahia. Ano de 1638


Generatio mala et adultera signum quaerit, et signum non dabitur ei[1].

I – Por que Cristo, que nas bofetadas se mostrou tão sofrido, respondeu com palavras tão pesadas a uns homens que lhe pediam uma mercê? As respostas de Teofilato, de S. Crisóstomo e de Santo Agostinho. Os ouvintes de ver e os ouvintes de ouvir.

Se o evangelista o não dissera, não o crera. Diz o evangelista S. Mateus que, pedindo os escribas e fariseus a Cristo, Redentor nosso, que fizesse algum sinal milagroso com que o conhecessem por Deus, o Senhor se indignou contra eles, chamando-lhes de maus homens e geração adúltera: Generatio mala et adultera signum quaerit (Mt. 12, 38). — Tomo a dizer que, se o evangelista o não dissera, não o crera. Cristo irado? Cristo chamando nomes afrontosos aos homens? Cristo desenterrando gerações alheias? Quem pode turbar tanta serenidade, quem pode provocar tanta mansidão, quem pode alterar tanta paciência? Não é este Senhor o mesmo que não respondia às blasfêmias, que ouvia calado as injúrias, que não acudia por si nos falsos testemunhos, que recebia as bofetadas com rosto sereno, os açoites sem se lhe ouvir uma queixa? Pois, se injúrias, blasfêmias, falsos testemunhos, bofetadas, açoites, não foram nunca poderosos para tirar de seu compasso a serenidade de Cristo, para lhe arrancar do peito uma palavra irada, como agora diz tantas, e tão pesadas, a uns homens que chegaram a pedir-lhe uma mercê, e, segundo diz o evangelista, com termos muito honrados: Magister volumus a te signum videre[2]? — Como o caso foi tão extraordinário, e a dificuldade tão digna de reparo, notavelmente hão trabalhado os doutores em descobrir a razão dela.

Teofilato, diz que se, gastou o Filho de Deus contra estes homens, porque entraram adulando. Entraram chamando a Cristo mestre: Magister — título naqueles tempos tão autorizado quanto era bem que o fosse nestes; e, ainda que o Senhor verdadeiramente era mestre: Vos vocatis me Magister, et bene dicitis: sum etenim[3] — contudo, na boca dos fariseus, e na intenção com que o diziam, vinha a ser adulação e lisonja. Eis aqui quem são os aduladores, gente que mente com a verdade e afronta com a cortesia. Isto haviam de escrever os políticos no seu livro do duelo, que mais afronta uma mesura de um adulador que uma bofetada de um inimigo. Por isso Cristo, que nas bofetadas se mostrou tão sofrido, quando ouviu as adulações, parece que perdeu a paciência: Generatio mala et adultera signum quaerit.

Crisóstomo responde à dúvida por outro caminho. Diz que se mostrou Cristo irado, porque, tendo-lhe chamado Mestre, em lugar de dizerem que o queriam ouvir, disseram que o queriam ver: Magister, volumus a te signum videre. — É vício este que por nossos pecados reina hoje muito no mundo, e não sei se somos cúmplices nele os pregadores. Estava Cristo pregando em Jerusalém, e, pedindo atenção ao auditório, pediu-a desta maneira: Qui habet aures audiendi, audiat (Lc. 14, 35): Quem tem ouvidos de ouvir, ouça-me. — Notável modo de falar! Que quer dizer quem tem ouvidos de ouvir: aures audiendi? Há ouvidos que não sejam de ouvir? Nos ouvintes dos pregadores sim. Os ouvintes dos pregadores, uns têm ouvidos de ouvir, outros têm ouvidos de ver: uns têm ouvidos de ouvir, porque vêm ouvir para ouvir: para ouvir aquela doutrina, para a tomar, para se aproveitar dela; outros têm ouvidos de ver, porque vêm ouvir, não para ouvir, senão para ver: para ver se falou o pregador com equívocos ao uso, ou com lhaneza e gravidade apostólica; para ver se trouxe conceitos ou pensamentos novos, como se a verdade, por antiga, seja menos verdadeira ou menos venerável; para ver se tocou neste ou naquele, e mais nos maiores; e o pior é que estes ouvintes de ver muitas vezes são as toupeiras do lugar, aqueles que sabemos que vêem menos que todos. Pois estes, que com tão contrário fim vêm ouvir a palavra de Deus, provocam tanto sua ira, diz Crisóstomo, que parece que se não pode conter a paciência divina dentro dos limites da sua imensidade, e assim sai da madre hoje: Generatio mala et adultera signum quaerit.

Santo Agostinho ainda dá outra razão, e muito como sua. Diz que por dizerem volumus: queremos — por isso foi sua petição tão pesadamente recebida. Entrais a pedir a Deus, e dizeis volumus? Mau princípio. Se queremos, senhores, sair bem despachados da mão da liberalidade de Deus, havemos de dizer: Fiat voluntas tua — e não a nossa. Assim como não há coisa que mais obrigue a Deus que uma vontade sujeita, assim não há outra que mais o provoque à ira que uma vontade presumida. Nenhuma coisa nos deu Deus que fosse toda nossa, senão a vontade. E porque quis que fosse toda nossa, por isso quer que seja toda sua: deu-no-la para que tivéssemos que lhe dar. E porque estes, em lugar de a darem a Deus, a tomaram para si: volumus — essa é a razão de se irar Cristo contra eles, é os tratar tão asperamente: Generatio mala et adultera signum quaerit.

Todas estas razões, como de tão grandes doutores, as venero e ponho sobre a cabeça. Mas, se as quisermos examinar em todo o rigor, acharemos que têm muito de encarecidas. A primeira funda-se em uma lisonja, a segunda em uma curiosidade, a terceira em um amor-próprio. E estas faltas, ainda que o são, bem se vê que não haviam de provocar a ira à mansidão e paciência de Cristo, pois sabemos que a não puderam alterar noutras ocasiões, nem palavras blasfemas, nem mãos sacrílegas, nem a mesma morte. Que fossem motivos bastantes para o Senhor lhes negar o sinal da sua divindade que lhe pediam — Signum non dabitur ei — sim; mas, para se mostrar tão irado, para os tratar com tanta aspereza: Generatio mala et adultera — parece que não. Para que vejamos se podemos alcançar outra solução desta dificuldade mais própria, e também menos sabida, a qual seja a matéria do sermão, peçamos a graça do Espírito Santo por intercessão daquele grande sinal que S. João viu no céu: Signum magnum apparuit in caelo: Mulier amicta sole[4]. Ave Maria.

II – A própria e literal razão, da parte dos escribas e fariseus, que Cristo, Senhor nosso, teve para se irar contra eles, e lhes chamar geração má e adúltera. Por que nesta mesma petição procediam os escribas e fariseus como filhos adulterinos de seu pai Abraão?

Generatio mala et adultera signum quaerit, et signum non dabitur ei. Estes dois nomes de geração má e adúltera, com que Cristo, Senhor nosso, como juiz de vivos e mortos, hoje castiga e condena os escribas e fariseus, nunca foram mais justificados e bem merecidos que na presente ocasião, em que, para crer a divindade do Filho de Deus, lhe pediam milagres: Volumus a te signum videre. — Nesta mesma petição procediam como geração má e adúltera, porque, sem o querer confessar, mostravam claramente não ser filhos legítimos, senão adulterinos daquele honrado pai, de que tanto se prezavam. A nobreza e descendência de que mais se prezavam os escribas e fariseus, a qual traziam sempre na boca, e pela qual desprezavam a todos os outros homens, era serem filhos de Abraão: Patrem habemus Abraham, semen Abrahae sumus[5]. — E que semelhança no parentesco tinham as ações destes filhos com as daquele pai, como o mesmo Senhor outra vez lhes lançou em rosto: Si filii Abrahae estis, opera Abrahae facite[6]? — Mandou Deus a Abraão que saísse da sua pátria, que deixasse a casa de seu pai, e o trato e companhia de todos seus parentes, e fosse peregrino, ou verdadeiramente desterrado para outra terra que ele lhe mostraria: Egredere de terra tua, et de cognatione tua, et de domo patris tui, et veni in terram quam monstrabo tibi[7]. — A obediência não se pode negar que por todas suas circunstâncias era dificultosa e áspera. Até as árvores insensíveis, quando se arrancam de uma terra para se transplantarem a outra, se secam e murcham.

Havia de romper Abraão todas aquelas cadeias, com que o amor natural, desde o dia do nascimento, tão forte como docemente nos prende; havia-se de arrancar, não só daquela primeira terra, ou segunda mãe, que em seu regaço nos recebe nascidos, senão também daqueles primeiros ares com que respiramos e bebemos a vida; havia de deixar o presente pelo futuro, o próprio pelo estranho, o conhecido pelo ignorado, e o possuído e certo pelo que podia parecer duvidoso; e, contudo, para se certificar e segurar Abraão, e para crer a Deus, pediu-lhe porventura algum sinal? Nem por pensamento. Creu e obedeceu a olhos fechados, ou verdadeiramente abertos: Credit Abraham Deo, et reputatum est illi ad justitiam[8] — e daqui começou a merecer o nome ou antonomásia universal de Pater credentium: pai de todos os que crêem em Deus e a Deus. E se Abraão nem naquela, nem em alguma outra ocasião, pediu sinal a Deus para crer, quando os escribas e fariseus, tão prezados e presumidos de filhos de Abraão, para crer ao Filho de Deus lhe pedem sinal: Volumus a te signum videre — bem se vê neste seu querer ver que, se são filhos e geração de Abraão, não são geração legítima e boa, senão má e adulterina: Generatio mala et adultera signum quaerit.

Tal é a própria e literal razão da parte dos escribas e fariseus, que Cristo, Senhor nosso, teve para se irar contra eles, e para os tratar com palavras tão pesadas e ásperas, e tão alheias da mansidão, benignidade e paciência do mesmo Senhor; mas aqui é que se funda toda a dúvida e dificuldade na nossa proposta. Posto que os escribas e fariseus merecessem aquele castigo, e outros maiores, bem pudera o Senhor, como em outras ocasiões de mais atrevidos descomedimentos contra sua pessoa, dissimular debaixo do silêncio a sua justa ira, e acrescentar este exemplo a tantos outros da sua mansidão e sofrimento. Qual é logo a razão por que, quando lhe pedem sinais da sua divindade, ele responde com sinais de pouca paciência? Por isso mesmo, e na segunda parte do nosso texto temos a razão da primeira. Que diz a segunda parte do nosso texto? Et signum non dabitur ei. — Diz que estava decretado que a esta geração má e adúltera se não desse o sinal que pedia: logo, daqui se segue que, por forçosa e natural conseqüência, havia de dissimular Cristo a sua paciência, e mostrar-se no exterior pouco paciente e mal sofrido, porque, se fizesse o contrário, e dissimulasse uma tão grave ofensa, e a sofresse com declarada paciência, a mesma paciência de Cristo no tal caso, era maior prova da sua divindade do que o sinal e milagre que pediam, e quantos podiam pedir. Este é o meu pensamento, e este será o argumento de todo o sermão.

Em um tempo em que tanto e por tantos modos se padece em todo este estado, não se pode falar em matéria mais própria do tempo, nem mais útil e necessária ao Estado que a do mesmo padecer. Por isso fiz eleição dela muito de propósito, e com o empenho que se verá. Só me pesa de não ter presentes neste auditório todos os que, lançados e despojados das suas terras, se vêm recolhendo a esta não menos arriscada, para que eles saibam vencer a sua fortuna, e nós armar-nos para a nossa com a paciência. Queira Deus que a não hajamos mister.

III – Por que tinha decretado Cristo de não dar aos escribas e fariseus o sinal é milagre que pediam em prova de sua divindade? Excelência da paciência sobre os milagres de S. Paulo.

De maneira, senhores — torno a dizer — que a razão de Cristo não sofrer nesta ocasião aos escribas e fariseus, e lhes chamar generatio mala et adultera, foi porque tinha decretado de lhes não dar o sinal e milagre que pediam em prova de sua divindade: Et signum non dabitur ei. — E a razão desta razão, ou conseqüência, é porque, se o Senhor no tal caso se portara com a costumada mansidão e paciência, a sua mesma paciência seria maior prova de sua divindade que o sinal e milagre que lhe pediam, e quantos lhes podiam pedir.

Quis provar S. Paulo aos coríntios que era verdadeiro apóstolo mandado por Deus, e diz assim: Signa apostolatus mei facta sunt super vos in omni patientia, in signis, et prodigiis (2 Cor. 12, 12): Os sinais do meu apostolado, ó Coríntios, não são ocultos e invisíveis, senão manifestos a todos: vós os vedes e experimentais. E quais são? A paciência com que vos sofro, e os milagres e prodígios que entre vós tenho obrado: In omni patientia, et signis, et prodigiis. — Nota aqui S. Crisóstomo que primeiro pôs S. Paulo a paciência, e depois os milagres: Vide quod primum collocet, nimirum patientiam. — Os milagres são os selos pendentes das provisões de Deus, porque só Deus, e quem tem os poderes de Deus, pode obrar sobre as forças da natureza. E esta pode ser a energia daquele sobre vós: Facta sunt super vos. — Pois, por que põe S. Paulo em segundo lugar os milagres, e no primeiro a paciência? Porque a maior prova dos poderes divinos, com que obrava, era a paciência de Paulo que os milagres de Paulo. Ut signis et miraculis majorem esse patientiam non dubitemus[9]: Para que ninguém duvide — diz S. Lourenço Justiniano — que para persuadir e convencer maior é a força da paciência que a dos milagres.

Daqui se entenderá um bem notável reparo do que disse e do que calou Cristo na conversão e eleição do mesmo S. Paulo: Vas electionis est mihi iste, ut portet nomen meum coram gentibus, et regibus, et filiis Israel. Ego enim ostendam illi quanta oporteat eum pro nomine meo pati (At. 9, 15 s): Vês este Saulo — diz Cristo a Ananias — que até agora tão cruel e raivosamente perseguia a minha Igreja? Pois este tenho eu escolhido por vaso de eleição, para que leve meu nome a todas as gentilidades e reis do mundo, e para isso lhe mostrarei o muito que há de padecer por mim. — Aqui está o reparo. S. Paulo, para converter os gentios, obrava muitos e prodigiosos milagres, sarava todas as enfermidades, ressuscitava os mortos, pisava os mares, enfreava os ventos, apagava os incêndios, e não só domava e dominava as feras, as serpentes, os basiliscos, senão também os demônios. Uma vez, porque em Malta o mordeu uma cobra, tirou ali o veneno a todas. Pois, por que não faz menção Cristo desta virtude e destes poderes que lhe havia de dar, senão só do muito que ele por seu nome havia de padecer: Quanta oporteat eum pro nomine meo pati? — Porque, para derrubar a idolatria, e estabelecer no mundo a fé da sua divindade, mais importava a paciência de Paulo que todos os seus milagres.

Note-se muito aquele oporteat eum pati. O que importava era o seu padecer, e não o seu poder. O ser padecente e paciente, e não o ser onipotente e milagroso. Tanto assim que, para os mesmos milagres de S. Paulo serem milagres, talvez se valiam dos instrumentos e relíquias de sua paciência. S. Lucas, que naquela ocasião era companheiro do mesmo apóstolo na Ásia, diz que em toda ela fazia S. Paulo virtutes non quaslibet (At. 19, 11): não quaisquer, senão grandes milagres — e que, levados os seus lenços ou os seus cintos aos enfermos e aos endemoninhados, os doentes saravam e os demônios fugiam: Ita ut etiam super languidos deferrentur a corpore ejus sudaria, et semicinctia, et recedebant ab eis languores, etspiritus nequam egrediebantur[10]. — Mas por que eram os instrumentos destes milagres os lenços e os cintos de Paulo? Porque os cintos, exercitados nos seus apertos, e os lenços, banhados nos seus suores, eram relíquias da sua paciência. Dela se valiam os milagres, e não ela deles. E agora caio eu na energia com que dizia o mesmo S. Paulo: Quis infirmatur, et ego non infirmor (2 Cor. 11, 29)? Quem há que adoeça, que eu não adoeça com ele? — Não diz quem há que adoeça que eu não o cure, senão quem há que adoeça que eu não adoeça também? Porque o curar era milagre, o adoecer era paciência. E como a paciência é mais poderosa e eficaz que os milagres para persuadir, por isso o divino Mestre quando os escribas e fariseus, debaixo deste nome, lhe pediram que para prova de sua divindade fizesse um milagre, o que ele não quis, por isso, digo, dissimulou a paciência debaixo dos nomes afrontosos com que os castigou, porque, se no tal caso tão gravemente ofendido se mostrara sofrido e paciente, a sua mesma paciência era maior prova da sua divindade que o milagre ou milagres que lhe pediam.

IV – A resposta de el-rei Acás a Isaías e o pedido dos escribas e fariseus a Cristo. Como se prova melhor a divindade de Cristo pela sua paciência que pelos seus milagres com o testemunho do Padre no Monte Tabor

Até agora vimos a força e verdade desta conseqüência em comum e por comparação alheia; e vejamo-la agora própria e singularmente no mesmo Cristo. Por mandado de Deus ofereceu o profeta Isaías a el-rei Acás que, em prova de certa promessa que lhe tinha feito, pedisse o sinal e milagre que quisesse, ou do céu, ou da terra, ou do inferno: Pete tibi signum a Domino Deo tuo, in profundum inferni, sive in excelsum supra[11] — respondeu Acás que não que ria pedir nem tentar a Deus: Non petam, et non tentabo Dominum[12]. — Mas pois estes escribas e fariseus, piores que Acás, não repararam em tentar a Deus: tentantes eum (Lc. 11, 16) — e pediram sinal e milagre: Volumus a te signum videre — eu lhes mostrarei que a paciência de Cristo, que ele dissimulou debaixo dos nomes com que os definiu, seria muito mais prova da sua divindade que o milagre que pediam. E para que esta demonstração seja com a mesma largueza que Deus a ofereceu a el-rei Acás, será com sinal do céu, com sinal da terra e com sinal do inferno. Do céu, por testemunho do Padre; do inferno, por testemunho do demônio; e da terra, por testemunho do mesmo Cristo. Grande teatro temos aberto. Comecemos pelo céu.

Transfigurou-se Cristo no Tabor, e não parou a Transfiguração na sagrada humanidade, mas dela transbordou e redundou nas roupas de que estava vestido. O rosto resplandecente como coroado do sol, as vestiduras brancas como tecidas de neve: Resplenduit faties ejus sicut sol, vestimenta autem ejus facta sunt alba sicut nix (Mt. 17, 2). — Ora, escribas e fariseus, já tendes cumpridos vossos desejos: se quereis ver um milagre, e grande milagre: Volumus a te signum videre — ide ao Monte Tabor, e vê-lo-eis, não a te, como dizeis, senão in te; não feito só por Cristo, senão no mesmo Cristo. Nunca o mundo viu mais ilustre milagre; mas, se ainda vossa incredulidade se não contenta, vede este mesmo milagre cercado de outros dois também nunca vistos: Et apparuerunt illis Moyses et Elias cum eo loquentes[13]. — Vede ressuscitado a Moisés, cuja sepultura ainda hoje se ignora; vede aparecido a Elias, que também se não sabe onde está escondido. Tudo isto estavam vendo os três apóstolos assombrados, quando se acharam cobertos de uma nuvem — cuja sombra, com novo milagre, juntamente era sombra e luz: Et ecce nubes lucida obumbravit eos[14] — e do meio dela ouviram a voz do Eterno Padre, que dizia: Hic est Filius meus dilectus, in quo mihi bene complacui: Este é o meu Filho amado, em que muito me agradei. — Ipsum audite: ouvi-o (Mt. 17 5).

Cuidava eu que o Padre neste passo, tão agradado da gentileza do Filho, havia de dizer: Olhai para ele, e vede-o — e não: Ouvi-o. — Com tão bizarras e novas galas parece que o mais formoso dos filhos dos homens mais estava então para ver que para ouvir. Assim parece; mas ouçamos contudo o que dizia, e em que falava. Diz o evangelista S. Lucas que o que falava o transfigurado Senhor, e a prática que tinha com Moisés e Elias, era sobre o excesso do que havia de padecer em Jerusalém: Et dicebant excessum ejus, quem completurus eras in Jerusalem (Lc. 9, 31) — e isto é o que o Eterno Padre mandou ouvir: Ipsum audite. — Cresce a enchente dos mistérios de monte a monte. O Filho leva os três discípulos ao Monte Tabor para lhes encher os olhos de glórias, o Pai manda-os ao Monte Calvário para lhes encher os ouvidos de penas. E por quê? Porque o intento do Padre era provar a divindade do Filho: Hic est Filius meus dilectus — e esta divindade melhor se provava pelas penas futuras do Calvário, que ouviam, que pelas glórias e milagres presentes do Tabor, que estavam vendo. As glórias e milagres do Tabor eram redundâncias naturais da humanidade; os excessos das penas que havia de padecer no Calvário, eram provas ainda mais certas da divindade.

Mais certas, digo, e não me atrevera a o dizer, se não fora por boca de S. Pedro, que se achou presente no Tabor. Diz S. Pedro que viu as glórias e milagres do Tabor, e ouviu a voz do Padre: Hic est Filius meus dilectus. — E acrescenta que ainda tinha outro testemunho mais firme, que era a prática dos profetas: Habemus firmiorem propheticum sermonem[15]. — A prática dos profetas era a de Moisés e Elias com Cristo sobre os excessos que havia de padecer em Jerusalém: Loquebantur de excessu. — E como o Eterno Padre, depois da sua voz, mandou em confirmação que ouvissem aquela prática: ipsum audite — ainda que esta prática, comparada com a voz do Padre, não podia ter maior firmeza, comparada com os outros milagres do Tabor, era mais firme: Habemus firmiorem propheticum sermonem. — Tanto se prova melhor, a divindade de Cristo pela sua paciência que pelos seus milagres!

V – O testemunho do demônio: que motivo teve o demônio para querer desviar a Cristo da árvore da cruz por meio da mulher de Pilatos assim como por eio da mulher de Adão o levou à árvore da ciência? O testemunho de Cristo: por que Cristo mede ao demônio e a S. Pedro com os mesmos termos, e ao demônio e a S. Pedro chama Satanás?

Muito me detive, e mais do que quisera, neste sinal do céu: vamos ao do inferno. Ao tempo em que os judeus instavam a Pilatos que sentenciasse a Cristo à morte, teve ele um aviso de sua mulher, que de nenhum modo condenasse aquele justo, porque em sonhos tinha padecido uma terrível visão, na qual fora ameaçada com grandes medos para que assim lhe persuadisse: Nihil tibi, et justo illi: multa enim passa sum hodie per visum propter eum[16]. — É questão entre os intérpretes se esta visão foi de anjo bom ou de anjo mau? E, posto que sejam mais os que dizem que foi de anjo bom, a opinião de S. Cipriano, S. Bernardo, Caetano, e outros, os quais têm para si que foi visão do demônio, para mim é certa, e a provo do mesmo texto sagrado, porque, sendo certo que um anjo veio confortar a Cristo nos temores do Horto, para que bebesse o cálix, como havia de vir agora o mesmo ou outro anjo impedir que Cristo padecesse? Sendo, pois, anjo mau e demônio, que motivo teve o demônio para se empenhar agora nesta diligência tão apertadamente? O demônio foi o que persuadiu a Judas que vendesse a Cristo: Cum diabolus jam misisset in cor ut traderet eum Judas[17] — o demônio foi o que armou os ministros da justiça para que o fossem prender, como lhes disse o mesmo Senhor: Haec est hora vestra, et potestas tenebrarum[18]. — Que novo motivo teve logo o demônio agora, quando já os judeus bradavam: Crucifige, crucifige[19] — para querer desviar a Cristo da árvore da cruz, por meio da mulher de Pilatos, assim como por meio da mulher de Adão o levou à árvore da ciência? Santo Inácio Mártir, contemporâneo dos apóstolos, diz que agora acabou o demônio de conhecer que Cristo era o verdadeiro Messias, Filho de Deus, e que, para impedir a salvação do gênero humano, e a sua própria perdição, procurava com tanto empenho que não morresse: Mulierculam turbans, ut a crucifixione cessarent, moliebatur, quia suam perniciem sentiebat[20]. — Pois agora, demônio cego, agora, e ainda agora se te abriram os olhos?

Não viste a este mesmo homem caminhar seguro por cima das ondas? Não o viste imperar aos ventos, e ser obedecido deles? Não o viste, com tão poucos pães, matar a fome a tantos mil homens? Não o viste ressuscitar a Lázaro sepultado de quatro dias, e aos outros que referem os evangelistas, e muitos mais que não referem? Sobretudo, não viste o domínio que tinha sobre os mesmos demônios, lançando-os dos corpos à legiões inteiras, e confessando eles que era Filho de Deus: Exibant daemonia a multis clamantia, et dicentia: Quia tu es Filius Dei[21]? Pois, se a ti, espírito contumaz, protervo e obstinado, não puderam tantos milagres persuadir a divindade deste mesmo homem, que viste agora nele para creres que é Deus? — Viu a mansidão e paciência com que se deixou prender pelos soldados da coorte romana, podendo-a prostrar toda com uma palavra, como tinha feito; viu como mandou embainhar a espada a Pedro, e sarou à orelha de Malco; viu como se deixou manietar, e levar pelas ruas públicas à casa de Anás e de Caifás; viu como no palácio do pontífice, onde são mais afrontosas as afrontas, escarnecido, cuspido, esbofeteado, blasfemado, negado, tudo sofreu como um cordeiro, sem se alterar nem queixar; viu como, relaxado a Pilatos, e de Pilatos remetido a Herodes, nem aos ludíbrios e insolências das guardas, nem aos desprezos do rei, nem à roupa de mentecapto, de que o mandou vestir, respondeu, resistiu ou mostrou diferente semblante, senão o mesmo; viu, finalmente, que, chegada a perseguição aos últimos termos, em pé, diante do tribunal do juiz ímpio e desumano, ouvia as acusações e os falsos testemunhos como se fora surdo, e calava como se fora mudo, sem negar, sem contrariar, sem replicar, sem se defender nem acudir por sua inocência. E à vista de tudo isto o demônio, que, posto que seja mau, é muito bem entendido, não pôde deixar de entender que aquele homem não era só homem, nem anjo, senão juntamente Deus, e que a maior prova de sua divindade era a paciência daquele dia que os milagres de tantos anos.

Lembras-te tu, demônio — já somos entrados no terceiro sinal — lembras-te do que te respondeu Cristo na terceira tentação? Pois agora conhecerás, e conhecerão os escribas e fariseus — também tentadores como tu: Tentantes, signum de caelo quaerebant[22] — quão dependentes trouxe sempre este Senhor, e quão atados entre si o crédito da sua divindade com a fé da sua paciência. Quando o demônio, na terceira tentação, ofereceu a Cristo todo o mundo, se o adorasse, o que o Senhor lhe respondeu foi: Vade retro, Satana (Mt. 4, 10): Vai-te daqui, Satanás, não apareças mais diante de mim. — Isto refere o evangelista S. Mateus no capítulo quatro, e no capítulo dezesseis diz que, depois que S. Pedro confessou ao mesmo Cristo por Filho de Deus: Tu es Christus, Filius Dei vivi — então começou o Senhor a fiar dos discípulos aquele grande segredo, de que havia de ir a Jerusalém a padecer e morrer a mãos dos príncipes dos sacerdotes. Diz mais que, ouvindo isto S. Pedro, tomou à parte o mesmo Cristo, e lhe estranhou muito aquela resolução, dizendo: Absit a te, Domine[23]. — É possível, Senhor, que tal coisa vos há de entrar no pensamento? Vós arriscar vossa pessoa e a vossa vida! Vós ir padecer e morrer a mãos de vossos inimigos? Non erit tibi hoc: De nenhum modo: nem Deus há de permitir isto, nem vós o haveis de querer.

Assim falou S. Pedro, levado do grande amor que tinha a seu Mestre. E que vos parece que responderia o Senhor? Varie post me, Satana (Mt. 16, 23): Aparta-te daqui, Satanás; não apareças mais diante de mim. — Quem haverá que não pasme na combinação destes dois casos tão diferentes e tão parecidos? Basta que ao demônio e a S. Pedro mede Cristo com os mesmos termos? Ao demônio e a S. Pedro lança de si? Ao demônio e a S. Pedro chama Satanás? Tanto merece a soberba do demônio, quando quer que Cristo o adore, e tanto desmerece o amor de Pedro, quando persuade a Cristo que não padeça? Sim, porque tanto ofendia a fé da divindade do Filho de Deus o demônio, pedindo-lhe a adoração, como Pedro, impedindo-lhe a morte. — Não queres, Pedro, que eu padeça? Pois, tanto me tentas tu agora como o demônio, e tão Satanás és tu como ele. Ele, em querer que eu o adore, quer que o trate como Deus, e tu, em quereres que não padeça, queres que eu o não seja. — Pouco há que me confessaste por Filho de Deus, e agora mostras que não sabes o que é ser Deus: Non sapis ea quae Dei sunt (MI 16, 23). — E como a ciência da divindade de Cristo se perde na negação da sua paciência, claro está que havia o mesmo Senhor de negar aos escribas e fariseus os sinais de sua paciência, chamando-lhes: Generatio mala et adultera — pois estava decretado que se lhes não desse o sinal da sua divindade, que pediam: Et signum non dabitur ei.

VI – Como o sinal futuro da divindade de Cristo não foi outro senão o da sua paciência. O novo sinal que os mesmos escribas e fariseus pediram a Cristo pregado na Cruz: Se é Filho de Deus, desça da cruz, e creremos nele. – O milagre da sarça ardente; a prova mais evidente da paciência divina. As sentenças de Tertuliano e Sêneca, e o grande parentesco que tem o sofrimento com Deus, e a sua e nossa paciência com a sua divindade.

Porém, como esta negação não foi absoluta, e para sempre, senão só para aquele tempo, reservando-se o despacho da sua petição para quando se cumprisse em Cristo o sinal de Jonas profeta: Et signum non dabitur ei, nisi signum Jonae prophetae[24] — vejamos como este sinal futuro da divindade de Cristo não foi outro senão o da sua paciência. Engolido Jonas, e sepultado no ventre da baleia, foi profecia o sinal da morte e sepultura de Cristo, como declarou o mesmo Senhor: Sic erit Filius hominis in corde terrae[25]. — Pregado, pois, Cristo na cruz, tornaram a instar os mesmos escribas e fariseus com a sua petição, pedindo-lhe novo sinal da sua divindade, e oferecendo-lhe a sua fé, mas tal como sua: Si Filius Dei est — dizem — descendat nunc de cruce, et credimus ei (Mt. 27, 42): Se é Filho de Deus, como dizia, desça agora da cruz, e creremos nele. — Esta promessa de crerem, era, torno a dizer, como sua, falsa, aleivosa e atraiçoada. S. Jerônimo os convence bem claramente. Menos era descer-se um homem vivo da cruz, que depois de morto levantar-se vivo da sepultura. Pois, se vós, judeus, não crestes, fazendo ele o que era muito mais, como haveis de crer, se fizesse o que é menos? E por que não desceu Cristo da cruz, como pudera tão facilmente, sendo menor este milagre, ainda que estava com as mãos e pés pregados, do que o da ressurreição de Lázaro, quando a uma voz sua, não só saiu amortalhado da sepultura, senão também com as mãos e pés ligados: Et statim prodiit qui fuerat mortuus, ligatus pedes, et manus institis[26]? — Responde Santo Agostinho que não quis descer, porque antes quis dar os sinais da sua paciência que os da sua onipotência: Quare non descendit, ut eis descendendo suam potentiam monstraret? Quia patientiam docebat, ideo potentiam differebat[27]: Quis deferir para depois os sinais do poder, porque estava ensinando a paciência.

E se os judeus não foram e estiveram tão cegos, bastavam os sinais de uma tal paciência para prova da divindade, de que duvidavam: Si Filius Dei est. — Excelente e fortemente Tertuliano: Hinc vel maxime pharisaei Dominum agnoscere debuistis, patientiam hujusmodi nemo hominum perpetraret: Dizeis, ó judeus, que creríeis a divindade do Crucificado, se descesse da cruz, e dizeis que a não credes, porque não desceu; antes, por isso mesmo devíeis crer, porque tal ato de paciência nenhum homem teria valor para o fazer. — Entendamos e sondemos bem o fundo deste fortíssimo pensamento. Que homem haveria no mundo que, condenado a tão infame suplício, e argüido de falsário, podendo desmentir a seus acusadores, e confundi-los, descendo da cruz, como eles lhe ofereciam por partido, o não fizesse, e se deixasse padecer aquela afronta, e que os mesmos inimigos ficassem triunfando na sua opinião, e crendo e publicando que o não fazia porque não podia: Seipsum non potest salvum facere[28]? — É certo que nenhum homem, sendo somente homem, se poderia vencer tanto, e acabar tal coisa consigo. E que Cristo, podendo descer da cruz para desmentir aquela afronta, e tornar a pôr-se na mesma cruz para remir o mundo, tivesse contudo paciência para suportar uma tal confusão e uma tal dor, maior sem comparação que a da cruz e a dos cravos? Não há dúvida que este foi o mais profundo sinal e a mais autêntica prova de sua divindade. Si enfim commotus ad eorum verba descenderet, victus convitiorum dolore putaretur — diz Santo Agostinho. Que só para tão sublimes entendimentos era aquela oculta demonstração, e não para os de gente tão grosseira.

Mas quero eu também falar com ela em termos mais claros: vejamos se crêem a Moisés. Viu Moisés no Monte Horeb arder a sarça que se não queimava, e disse: Vadam, et videbo visionem hanc magnam (Êx. 3, 3): Quero-me chegar mais perto, e ir ver esta grande visão. — Venham agora também com ele os escribas e fariseus, pois também dizem que querem ver: Volumus signum videre. — Chama-se aquela visão grande por quatro grandes circunstâncias. Grande pela pessoa, grande pelo fim, grande pelo milagre, e grande pela significação. Grande pela pessoa, porque não era menos que Deus: Ego sum Deus Abraham, Deus Isaac et Deus Jacobl[29]. Grande pelo fim, porque vinha naquela forma livrar o seu povo: Vidi afflictionem populi mei: descendi ut liberem eum[30]Grande pelo milagre, porque a sarça, ardendo, não se queimava: Quod rubus arderet, et non combureretur (Êx. 3, 2). — E grande, finalmente, pela significação, porque significava o altíssimo mistério de Cristo crucificado. O monte era o Calvário; a árvore a cruz; os espinhos, os de que estava coroado, e também os cravos; o fim, libertar do cativeiro o gênero humano; o fogo e as labaredas, o ódio, a perseguição, as injúrias, as blasfêmias; e o milagre, arder entre elas sem se queimar nem queimar: o queimar-se é sentir-se, o queimar é vingar-se. Que estrondo é, como notou Davi, o de um espinheiro ardendo: Exarserunt sicut ignis in spinis[31]?

Parece uma carga de mosquetaria, rebentando cada espinho e estalando com fúria. E de entre os espinhos daquela sarça ardente, que se ouvia? Pater, dimitte illis, non enim sciunt quid faciun[32]: escusar a culpa e negociar o perdão para os que assim o maltratavam. Já agora, ó escribas e fariseus, se não fôsseis totalmente cegos, podíeis estar satisfeitos. Essa é a grande visão que viu e entendeu Moisés: vós também a vistes, mas não a quisestes entender. Este é o sinal que Cristo vos prometeu, quando vos negou o que lhe pedíeis: Et signum non dabitur ei, nisi signum Jonae prophetae. — Uma sarça ardendo sem se queimar é o jeroglífico mais claro e a prova mais evidente de uma paciência, não humana só, mas juntamente divina, qual foi a de Cristo. Acabai de ouvir e crer o que disse a Moisés e vos diz a vós o oráculo da mesma sarça: Ego sum Deus patris tui: Eu sou o Deus de vossos pais. — Deus Abraham, Deus Isaac et Deus Jacob: O Deus de Abraão, o Deus de Isac, o Deus de Jacó. — E se vos prezais de ser descendentes de Abraão, Isac e Jacó, acabai de reconhecer o Deus que também se quis fazer descendente deles.

Convencida assim contra os escribas e fariseus a divindade de Cristo pelos sinais da sua paciência, não quero por fim deste discurso dever aos católicos a maior coisa que nunca se disse da paciência de Deus combinada com a sua divindade. É uma sentença de Tertuliano, em cuja inteligência têm trabalhado muito todos os comentadores do mesmo autor, e nenhum há dos modernos, que nela, como em pedra de afiar, não tenha provado a agudeza do seu engenho[33]. Eu, que com tão pouca idade, e menos ciência, não posso ter lugar em tão venerável consistório, e só me é licito ouvir, ou ler de fora, não direi o que eles disseram, e somente construirei o que me parece que quis dizer Tertuliano. As suas palavras são estas: Patientiam Dei esse naturam effectam, et praestantiam ingenitae cujusdam proprietatis. Ou esta sentença quer dizer que a paciência se fez natureza de Deus, ou que a natureza de Deus se fez paciência. Que a paciência se fez natureza de Deus, construindo assim: Patientiam, effectam esse Dei naturam. — Que a natureza de Deus se fez paciência, construindo assim: Naturam Dei, effectam esse patientiam. — Não se pode dizer nem imaginar maior encarecimento. Mas, como pode ser verdadeiro? O mesmo Tertuliano se explica: Et praestantiam ingenitae cujusdam proprietatis: porque, sendo a paciência uma propriedade ingênita e natural de Deus, chegou a tal extremo ou a tal excelência — isso quer dizer praestantiam — que, sendo propriedade, passou a se fazer natureza: Naturam Dei effectam. Aqui está outra dificuldade, ou outra maravilha. As propriedades não são natureza, mas nascem e resultam da natureza. Porém, a paciência em Deus é tal propriedade, tão natural, e tão íntima sua, que do ser de propriedade de Deus se introduziu a ser natureza de Deus: Patientiam esse Dei naturam.

Explico em teologia moral isto que na especulativa parece difícil. Não há coisa mais comum, mais ordinária, mais freqüente, mais habituada e mais experimentada sempre e em tudo na paciência de Deus que o seu sofrimento. Sofre aos gentios, que, negando-lhe a adoração, idolatram os paus e pedras, e as sevandijas mais vis; sofre aos cristãos, que, dentro dos lumes da razão e da fé, obedeçam aos impulsos do próprio apetite, e desprezem os seus preceitos; sofre aos magos e magas, que, em lugar de servirem a seu Criador e Senhor, sirvam aos seus maiores inimigos, que são os demônios. Tudo isto, e muito mais, é o que Deus costuma sofrer e está sofrendo sempre, e como consuetudo, em sentença de todos os filósofos est altera natura, este costume, este hábito, e esta perpétua e quase imutável continuação do seu sofrimento, é a que tem convertido a sua paciência em natureza: Patientiam effectam esse Dei naturam.

Já eu parece que me pudera aquietar aqui, mas, ouvindo a Sêneca, entro em pensamento que ainda Tertuliano quis dizer outra coisa: Ferte fortiter adversa, hoc enim est que Deum antecedatis: ille extra patientiam malorum est, vos supra patientiam[34]: Padecei e sofrei fortemente as coisas adversas — diz Sêneca — porque isto é só o em que podeis vencer a Deus: ele quando sofre está fora da paciência; porém, vós, sofrendo, estais sobre a paciência. — Em parte falou este filósofo como gentio, mas em parte como teólogo. Em Deus propriamente não há paciência, porque a paciência não consiste só em sofrer, senão em sofrer padecendo; e Deus, ainda que sofre, não padece, porque é impassível. Como se há de entender logo Tertuliano, falando da perfeita e inteira paciência? Demos outra volta e outra construção às suas palavras, a qual verdadeiramente parece a mais corrente e natural: Patientiam Dei essa naturam effectam: quer dizer que a paciência é a natureza de Deus feita. — Deus, depois do mistério da Encarnação, tem duas naturezas: uma feita, outra não feita. A natureza não feita é a divina, porque nem outrem a fez, nem Deus se fez a si mesmo. Por isso o Verbo encarnado, segundo esta natureza, se chama genitum, non factum: gerado sim, feito não. — A natureza feita é a natureza humana, e, segundo esta natureza, se chama o mesmo Verbo propriamente feito: Verbum caro factum est[35]. — E como Deus com a natureza divina, incriada, e não feita, era impassível, e por excesso de perfeição lhe faltava este complemento da inteira paciência, que,era sofrer padecendo, essa foi a razão por que tomou a segunda natureza humana criada e feita: Dei naturam effectam. — E por este modo passou a paciência a ser natureza de Deus, isto é, ser natural a Deus a própria e perfeita paciência, conseguindo também pela mesma paciência toda a excelência da propriedade ingênita que lhe faltava: Et praestantiam ingenitae cujusdam proprietatis.

VII – A presunção cega e ignorante das divindades ou deidades da terra, que julgam ordinariamente que para eles é só a majestade e soberania, e para os outros a paciência. A autoridade da paciência. Se Moisés era tão arrebatado e iracundo, por que depois do milagre da sarça ardente se mostra tão manso e tão benigno.

Este é, senhores, o grande parentesco que tem o sofrimento com Deus, e a sua e nossa paciência com a sua divindade. E para que tomem exemplo na divindade do céu as divindades ou deidades da terra, deixados já os escribas e fariseus obstinados e incrédulos, falemos brevemente com os cristãos, que talvez se deixam tão mal persuadir como eles. As divindades ou deidades da terra são os que nela, com o poder sobre os demais, representam a Deus. O mesmo Deus por boca de Davi lhes chama deuses: Ego dixi, dii estes, et filii Excelsi omnes[36]. — E o mesmo Davi diz que viu a Deus julgando a estes deuses: Deus stetit in synagoga deorum, in medio autem deas dijudicat[37]. — Estes deuses, pois que agora julgam, e depois hão de ser julgados, cuidam ordinariamente que para eles é só a majestade — ainda que não sejam majestades nem altezas — e que para eles é só a soberania — quando não seja a soberba — e para os outros a paciência. Oh! que presunção tão cega e tão ignorante! Basta, deidades ou ídolos de barro, que o Deus verdadeiro se fez homem para verdadeiramente exercitar a paciência em si mesmo, e vós, deuses de nome, como questão de vocábulo, não só vos fazeis divinos, senão também desumanos! Para nós é o poder, para os outros a paciência. Assim o dizem e fazem muitos, e quase todos o fazem sem o dizer. Por isso, quando Deus lhes chamou deuses, juntamente os desenganou que os outros homens, sem a sua fortuna, são tão bons como eles, e eles, com toda essa fortuna, nem por isso são melhores que os outros; Vos autem sicut homines moriemini[38].

O mesmo Tertuliano, a quem há pouco interpretávamos, disse com igual juízo, que assim como Deus, quando dá o poder, delega no homem a representação da sua divindade, assim com o mesmo poder delega nele a imita imitação da sua paciência: Nobis quidem exercendae patientiae auctoritatem divina dispositio delegar, Deum ipsum ostendens patientiae exemplum. — De sorte que o exemplo e imitação da paciência de Deus é uma segunda delegação com que Deus delega no homem, não a sujeição, senão a autoridade da paciência: Patientiae auctoritatem — para que entendam os que mandam e governam, que tão fora está a paciência de os desautorizar, que antes por ela cresce e se lhes dobra a autoridade nesta segunda delegação: uma vez delegados de Deus no poder da sua divindade, a outra vez delegados do mesmo Deus na imitação e autoridade da sua paciência: Patientiae auctoritatem delegat. — Altamente ponderado, e elegantemente dito! E para que vejamos uma é outra coisa com os olhos, tornemos à grande visão da sarça. Elegeu Deus a Moisés para libertador, do cativeiro do seu povo no Egito. Trocou-lhe o cajado de pastor em bastão de general, e o título que lhe deu não foi de rei ou imperador, senão de Deus: Constitui te Deum Pharaonis (Êx. 7, 1): Eu te constituo e faço Deus de Faraó. — Entra Moisés com o título de Deus, e com a vara onipotente no Egito: e que fez? Parece que se competiam ali a dureza e a brandura: a dureza da parte de Faraó, e a brandura da parte de Moisés. Começou a primeira praga: Induratum est cor Pharaonis; seguiu-se a segunda: Induratum est cor Pharaonis; continuaram as demais: Induratum est cor Pharaonis[39]. — Muito espera e sofre Moisés.

Bastava a dureza, a rebeldia e a blasfêmia com que Faraó respondeu na primeira fala: Nescio Dominum (Ex. 5, 2): que não conhecia a Deus — para que lho fizesse conhecer Moisés, levantando a vara e derrubando-o do trono desfeito em cinza. Mas nem esta blasfêmia contra Deus, nem os desprezos do mesmo Moisés e do seu poder foram bastantes para que ele lhos fizesse sentir como merecia, e os levasse ao cabo. Seis vezes orou a Deus pelo mesmo Faraó, e fez cessar as pragas, com que elas vinham a ser como a mesma vara de Moisés, quando se converteu em serpente. Tomada pela parte da cabeça, era um dragão medonho e ferocíssimo; tomada, porém, pela cauda, já deixava de ser serpente. Assim aquelas pragas e castigos no princípio começavam contra Faraó, com estupendo horror e assombro, e no fim paravam na mansidão de Moisés, e cessavam com nova paz e serenidade. Cuidará alguém que eram estes efeitos do natural brando e benigno daquele grande herói, mas não era assim. Moisés era tartamudo, e os gagos naturalmente são coléricos; e Moisés de sua natureza o era tanto, tão impaciente e mal sofrido, como se viu naquele encontro, quando, vendo que um egípcio afrontava a um hebreu, arremeteu a ele, e, sem mais armas que as próprias mãos, o lançou morto a seus pés. Pois, se Moisés era tão arrebatado e iracundo, e tão áspero de condição, como agora se mostra tão manso e tão benigno, que daí lhe começou o nome de vir mitissimus super omnes[40]? — Porque então obrava como particular, agora como Deus de Faraó. Este nome de Deus era o santelmo, que na maior fúria das tempestades lhe serenava as ondas. Que havia de fazer aquele delegado de Deus, que debaixo do mesmo nome o representava, senão imitar a sua paciência?

VIII – Como se hão de portar os deuses da terra na moderação das palavras e no agrado do semblante com os mesmos inferiores que os ofenderam. A breve e notável história, na qual é questão curiosa, e não fácil, donde inferiu Natanael que Cristo era Deus. Que gentileza viu Jacó no rosto de Esaú, quando voltava para a terra de seus pais, para se lhe representar como o rosto de Deus?

Que dirão a isto os deuses da terra — ainda que ela não seja das maiores do mundo — os quais, em se vendo com uma varinha na mão, se acaso souberam que os mordeu um mosquito, ou que uma rã abriu contra eles a boca — posto que os mosquitos não sejam tão venenosos, nem as rãs tão desentoadas, como as que produziu no Egito a vara de Moisés — já não cabem dentro em si de inchação, de ira, e de vingança? Já ameaçam ferros, enxovias, degredos, e, se algum fora Deus que tivesse inferno, também abrasariam nele eternamente os réus da sua lesa divindade. Ouçam estes deuses como se hão de portar, não digo nas execuções furiosas, mas na moderação das palavras e no agrado do semblante, com os mesmos inferiores que os ofenderam.

Depois que o apóstolo S. Filipe, por testemunho do Batista, soube que Cristo era o verdadeiro Messias, comunicou aquela grande nova a Natanael, letrado da lei, e o levou a ver o mesmo Senhor. Vendo Cristo a Natanael, disse dele: Ecce verus Israelita, in quo dolus non est (Jo. 1, 47): Este é o verdadeiro israelita, em quem não há engano. — Perguntou Natanael, donde o conhecia? E o Senhor respondeu que o tinha visto à sombra daquela figueira, onde estava antes que Filipe o chamasse: Priusquam te Philippus vocaret, cum esses sub ficu, vidi te (ibid. 48): — Ouvida tal resposta, disse Natanael: Rabbi, tu es Filius Dei, tu es Rex Israel: Mestre, vós sois o Filho de Deus, e o rei prometido de Israel. — Até aqui a breve e notável história, na qual é questão curiosa, e não fácil, donde inferiu Natanael que Cristo era Deus? Dizer o Senhor que o vira à sombra da figueira, estando ausente, e sendo o lugar distante, era bom argumento para inferir que Cristo era profeta, porque aos profetas tão presentes são as coisas ausentes e distantes como as futuras. Mas para inferir que era Deus, não bastava esta evidência. Qual foi logo a que teve Natanael para crer e confessar que Cristo era Deus: Tu es Filius Dei? — Descobriu-a com grande sutileza e propriedade S. João Crisóstomo. Ora vede. Quando S. Filipe disse a Natanael que tinha achado o Messias, acrescentou que era Jesus, filho de José de Nazaré: Quem scripsit Moyses, et prophetae, invenimus Jesum, filium Joseph a Nazaréth[41]. — E Natanael, quando ouviu dizer que era de Nazaré, estranhou muito que de tal lugar ou lugarinho houvesse de sair coisa tão grande: A Nazareth potest aliquid boni esse (Jo. 1, 46)? Porventura de Nazaré pode vir coisa boa?

Ao ponto agora. De Cristo saber o tempo e o lugar onde Natanael estava quando S. Filipe o chamou, entendeu Natanael que também sabia o mesmo Cristo o que ele lhe respondera, e o desprezo com que falara de Nazaré, e que de tal terra não podia sair nenhum bem. E este homem — diz consigo Natanael — sabe o desprezo com que falei de sua pátria e do seu nascimento, e recebe-me com palavras de tanto agrado, e dizendo de mim louvores: Hic est verus Israelita? Logo, tal homem não é só homem, senão também Deus: Tu es Filius Dei. — Se fora só homem, ou me havia de despedir da sua presença, ou repreender-me do que tinha dito, ou, quando menos, significar-mo com alguma alusão e remoque; porém, que tão ofendido das minhas palavras, posto que em ausência, as suas, na presença, fossem tão corteses, e tão cheias de benignidade e amor, como se pagara lisonjas com louvores, tal generosidade, tal mansidão, tal paciência só se pode achar em homem que juntamente seja Deus: Ex quo arboris nomen, tempusque exposuit — são as palavras de Crisóstomo – certissime esse prophetam agnovit, neque hoc tantum, sed quae invicem locuti essent, in memoriam reducit, praesertim illud: A Nazareth potest aliquid boni esse — ex quo maxime sibi conciliet, cum ex eo non reprehendit, sed laudibus prosecutus est[42].Isto quanto ao agrado das palavras.

Quanto ao do semblante depois da pessoa ofendida, benévolo, amigo e alegre, também resplandece nele a face de Deus, porque no rosto carregado e sombrio basta uma carranca muda e desabrida para descobrir o fel que está escondido no coração. Quando Jacó, depois dos catorze anos de peregrino, voltou para a pátria, recebeu-o Esaú não só nos braços como irmão, mas com tal agasalho de olhos, e com tal alegria e agrado de todos aqueles sinais que redundam do coração, e com que ele sai ao rosto, que o mesmo Jacó — o qual não esperava tão afável correspondência, antes temia a contrária — não achou nem teve outros termos com que a declarar e agradecer, senão dizendo, como disse, que, quando viu o rosto de Esaú, lhe pareceu que via o de Deus: Sic vidi fatiem ruam, quasi viderim vultum Dei[43]. — Que admiração haverá que não pasme ou se não ria de tal dito? Como o rosto de Deus o rosto de Esaú? Se Esaú algum dia se viu ao espelho, não podia o vidro ser tão lisonjeiro que lhe metesse pelos olhos semelhantes reflexos. Não era Esaú um moço rústico, criado nos matos e na charneca, em seguimento das lebres e dos gamos, com uma cara muito parecida ao seu exercício, queimado, grosseiro, fero, e que para sátiro ainda lhe sobejava pintura? Não era a pele agreste, e o pêlo espesso e ríspido de Esaú, aquele que, para Rebeca o fingir nas mãos e pescoço de Jacó, o tomou das mesmas peles do fato montesinho, donde ele fora buscar a primeira urdidura daquele engano? Que gentileza viu logo o mesmo Jacó no rosto de Esaú, para se lhe representar como o rosto de Deus? Quasi viderim vultum Dei? A gentileza foi — diz Lirano — quia ira pacificum ac mitem eum vidit[44].

Roubou Jacó a Esaú o morgado, e roubou-lho com engano, que foi maior agravo, fez-lhe esta mesma guerra desde o ventre da mãe, e usou do amor da mesma mãe para lhe roubar o do pai, ciúmes ainda entre, irmãos tão mal sofridos, como se viu dentro na mesma família na venda de José; e que sobre tantas ofensas, não sonhadas, mas padecidas, em lugar de por elas lhe tirar Esaú a vida, como noutro tempo tinha determinado, agora festejasse sua vinda, o levasse nos braços, e o recebesse com tão bom rosto? Pois tal rosto — dizem os olhos de Jacó — não tem fisionomia de homem, senão de Deus: Quasi viderim vultum Dei. — Se fora rosto de homem, achara-o Jacó, quando menos, carregado, sem levantar para ele os olhos, as sobrancelhas caídas, a lisura da testa em rugas, o rosado das faces murcho, a boca sem se despegar, e tudo mudado de cor, e tinto de melancolia e desagrado. Porém, como Esaú o recebeu com tantas demonstrações de alegria e amor, e com tanto esquecimento do passado, não lhe podia parecer o seu rosto como de homem, senão como de Deus, que só em Deus se acha uma paciência tão magnânima, uma magnanimidade tão divina. Para que aprendam os nossos deuses cá de baixo como hão de representar bem a figura. As palavras, como as de Cristo a Natanael, e o rosto, como o de Esaú a Jacó, são os atos positivos, ou os testemunhos oculares e de ouvida, com que hão de provar as suas divindades, tão mal endeusadas como mal sofridas. E porque Cristo não havia de dar aos escribas e fariseus os sinais que lhe pediam da sua: Et signum non dabitur ei — por isso, em natural conseqüência, com rosto severo, e palavras tão desabridas, lhes disse, quem eles eram: Generatio mala et adultera signum quaerit.

IX – As três partes em que a divindade está repartida neste mundo. Em que consiste a perfeição que havemos de imitar em Deus, segundo a advertência de Cristo, Senhor nosso? Se no Jordão e no Tabor deu uma e outra vez o Eterno Padre testemunho de ser Cristo seu Filho, por que não o dá também no Calvário, quando os judeus lhe negavam a divindade? Advertência aos retirados de Pernambuco.

Tenho acabado o sermão. E para que dele possam colher algum fruto os que mais necessidade têm da paciência, consideremos que a divindade neste mundo está repartida em três partes: em um, em muitos, e em todos. Em um por realidade, que é Cristo, verdadeiro Filho de Deus; em muitos por representação, que são os que têm o mando e o governo; e em todos, por desejo e apetite, porque todos somos filhos de Adão, do qual herdamos aquela inclinação e desejo com que o tentou o diabo de ser como Deus: Eritis sicut dii[45]. — E toda esta divindade, ou verdadeira, ou representada, ou apetecida, se reduz por diversos modos à paciência. Cristo, verdadeiro Deus, quando quis encobrir a divindade, foi dissimulando e eclipsando a paciência com uma nuvem contrária. Os deuses da terra, que a representam, já ouviram como a hão de representar com a paciência, e todos os que a apetecem, desejando ser como Deus, só imitando a paciência do mesmo Deus o podem conseguir.

A todos, sem exceção de pessoa, qualidade ou estado, diz Cristo, Senhor nosso: Estote perfecti, sicut Pater vester caelestis perfectus est (Mt. 5, 48): Sede perfeitos, como Deus, vosso Pai celestial, que vos criou, é perfeito. — E em que consiste esta perfeição que havemos de imitar em Deus? Na paciência: Qui solem suum oriri facit super bonos et malos, et pluit super justos et injustos[46]. — Não há paciência mais ofendida, mais provocada, e, quanto é de nossa parte, mais forçada e constrangida a não sofrer que a de Deus. E ele, que faz? Diga-o o seu sol, que a bons e maus alumia: Qui solem suum oriri facit super bonos et malos — diga-o a sua chuva, que aos justos e aos injustos, a todos rega e fertiliza os campos: Et pluit super justos et injustos. — No Egito os hebreus tinham luz, e os egípcios estavam em trevas; sobre às searas dos hebreus chovia água, sobre as dos egípcios fogo e raios. Esta mesma diferença pudera a justiça divina observar em todo o mundo, e, contudo, é tanta a sua paciência, que, negado de uns, blasfemado de outros, e continuamente desobedecido e ofendido de todos, alumia, sustenta, conserva, e provê de tudo o necessário aos maus, como se foram bons, e aos injustos, como se foram justos.

E porque ninguém me diga que Deus é impassível, e não muito que tenha tanta paciência, desçamos do céu e das nuvens ao Calvário. E aquele Deus, pregado em uma cruz, cujo rosto, que noutro monte resplandeceu como o sol, em lugar de raios está coroado de espinhos, e cujos pés e mãos, em lugar de água do céu, estão chovendo sangue divino, é passível, ou impassível? Não só tudo isto está padecendo com invencível paciência, muda para a queixa, e só com voz para pedir perdão pelos mesmos que o crucificaram, mas, sem responder nem confundir os que no mesmo tempo o estão argüindo de que falsamente se fez Filho de Deus: Quia Filium Dei se fecit[47]. — Pasmai neste passo tanto da paciência do Filho como do Pai: Ut sitis filii Patris vestri[48].

Quando Cristo se fez batizar no Jordão, testemunhou a voz do Padre que era seu Filho: Hic est Filius meus dilectus, in que mihi complacui[49]: — E quando o mesmo Senhor se transfigurou no Tabor, a voz do mesmo Padre deu segundo testemunho, pelas mesmas palavras, de ser seu Filho: Hic est Filius meus dilectus, in que mihi bene complacui: ipsum audite[50]. — Pois, se no Jordão e no Tabor deu uma e outra vez o Eterno Padre este testemunho de ser Cristo seu Filho, quando ninguém lhe negava esta geração e esta divindade, agora, que no Calvário lhe negam uma e outra: Quia Filium Dei se fecit — por que não acode a voz do Padre a confundir aquela blasfêmia, e dar o mesmo testemunho? Primeiramente, porque a mesma paciência de Cristo, como deixamos provado, era o mais forte, o mais autêntico, e o mais evidente testemunho da sua divindade, sem ser necessário que o próprio Pai o confirmasse com o seu. Assim o entendeu o centurião romano e gentio, que disse: Vere Filius Dei erat iste (Mt. 27, 54): Verdadeiramente este homem era Filho de Deus — e assim o entenderam os judeus menos cegos, que do Calvário voltaram para a cidade batendo nos peitos: Percutientes pectora revertebantur (Lc. 23, 48).

Mas a principal e mais universal razão foi para que na paciência do Pai e Filho aprendêssemos todos a ser filhos do mesmo Pai, pela imitação da paciência de ambos: Ut sitis Filii Patris vestri. — Oh! quão pouco sabemos estimar as ocasiões da paciência, e quão cegos somos em conhecer a grande providência e amor com que Deus as dá maiores aos que mais estima e ama! A quem mais estimou e amou Deus na lei da natureza que a Jó? E a quem deu maiores ocasiões de padecer que a ele: Sufferentiam Job audistis[51]? — A quem mais estimou e amou na lei escrita que a Tobias? E quais foram os trabalhos e tormentos na própria pessoa e família, com que exercitou a sua paciência: Ut posteris daretur exemplum patientiae ejus, sicut et sancti Job[52]? Mas que comparação tem a paciência deste segundo Jó e do primeiro com a do Filho de Deus, a quem ele em um e outro testemunho chamou o seu muito amado: Filius meus dilectus, in quo mihi bene complacui?

Agora quisera aqui, como dizia no princípio, todos os retirados de Pernambuco, mártires da fé divina e da humana, por não ficarem sujeitos a homens tão hereges de uma como rebeldes à outra. Dizei-me, verdadeiros cristãos e verdadeiros portugueses, que queixas são as da vossa fortuna, e que repugnâncias às da vossa paciência nesta retirada tão honrada, e tão fiel a Deus e ao rei? Se é verdes-vos desterrados da vossa pátria, ponde-vos com o Filho de Deus no Egito entre bárbaros, também desterrado, e por fugir a sua inocência da espada e violências do mais cruel tirano. Se é por haverdes deixado a vossa casa, e comodidades dela, ouvi ao mesmo Filho de Deus, dizendo que os animais da terra têm covas, e os do ar ninhos, e ele não tem onde reclinar a cabeça. E se acaso a pouca caridade daqueles a cujo amparo vos recolhestes vos não receber na sua casa, dai outra vista com o pensamento a Belém, e vê-lo-eis em um presépio: Quia non erat ei locus in diversorio[53]. — Finalmente, se é grande a vós a pobreza, e todas as outras penas e trabalhos que dela se seguem, vede-o despido na cruz, e que os soldados inimigos estão jogando as suas roupas; vede que lhe dão a comer fel, e a beber vinagre; vede que está reduzido a tanta estreiteza, que, sendo cruz o lugar, não lhe cabem divididos nele, ambos os pés. E se uns vistes derramar o sangue dos filhos, outros o dos pais e irmãos, ou mortos na guerra ou nos tormentos, que é muito maior dor, naquelas quatro fontes de sangue, abertas a ferro nos pés e mãos do mesmo Filho de Deus, podeis refrigerar, lavar, e ainda afogar gloriosamente a vossa.

Sobretudo, e por fim de tudo, sabei vós, e saibam todos, que para a bem-aventurança que esperamos, e Deus nos tem prometido, é necessária e for forçosa a paciência: Patientia vobis necessaria est, ut reportetis promissionem[54] — Saibamos, outra vez, e saibam todos, que nenhum homem, de qualquer estado que seja, pode entrar no céu, senão pela porta da paciência: Per multas tribulationes oportet nos intrare in regnum Dei[55]. Assim que, animados e armados com estes dois textos de fé, mandados apregoar a todo o mundo por boca de S. Paulo, quando mais vos apertar a paciência, ainda que vos vejais reduzidos às misérias de outro Jó, respondei-lhes constantemente com o fim dele e dela: Sufferentiam Job audistis, et finem Domini vidistis[56]. — Este fim foi na terra, e mais no céu: na terra, recuperando-lhe Deus em dobro a felicidade temporal, como nós também esperamos; e no céu, coroando-lhe a paciência passada com a eterna bem-aventurança da glória: Quam mihi, etc.

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[1] Esta geração má e adúltera pede um prodígio, mas não lhe será dado (MI 11, 39).
[2] Mestre, nós quiséramos ver-te fazer algum prodígio (Mt. 12, 38).
[3] Vós chamais-me Mestre, e dizeis bem, porque o sou (Jo. 13,13).
[4] Apareceu um grande sinal no céu: Uma mulher vestida do sol (Apc. 12, 1).
[5] Nós temos por pai a Abraão (Mt. 3, 9); nós somos descendentes de Abraão (Jo. 8, 33).
[6] Se sois filhos de Abraão, fazei obras de Abraão (ibid. 39).
[7] Sai da tua terra, e da tua parentela, e da casa de teu pai, e vem para a terra que eu te mostrarei (Gên. 12, 1).
[8] Creu Abraão a Deus, e isto lhe foi imputado a justiça (Gên. 15, 6).
[9] Laurent. Just. c. 3 de Patientia.
[10] Chegando estes a tal extremo que até sendo aplicados aos enfermos os lenços e aventais que tinham tocado no corpo de Paulo, não só fugiam deles as doenças, mas também os espíritos malignos se retiravam (At. 19, 12).
[11] Pede para ti ao Senhor teu Deus algum sinal, que chegue ao profundo do inferno ou ao mais alto do céu (Is. 7, 11).
[12] Não pedirei tal, nem tentarei ao Senhor (ibid. 12).
[13] E lhes apareceram Moisés e Elias falando com ele (Mt. 17, 3).
[14] Eis que uma lúcida nuvem os cobriu (ibid. 5).
[15] E ainda temos mais firme a palavra dos profetas (2 Pdr. 1, 19).
[16] Não te embaraces com a causa desse justo, porque hoje em sonhos foi muito o que padeci por seu respeito (Mt. 27, 19).
[17] Como já o diabo tinha metido no coração a Judas (Jo. 13, 2).
[18] Esta é a vossa hora, e o poder das trevas (Lc. 22, 53).
[19] Crucifica-o, crucifica-o (Lc. 23, 21).
[20] Ignat. Mart. in Epist. ad Polycarp.
[21] E de muitos saíam os demônios gritando: Tu és o Filho de Deus (Lc. 4, 41).
[22] Para o tentarem, lhe pediam que lhes mostrasse algum prodígio do céu (Lc. 11, 16).
[23] Deus tal não permita, Senhor (MI 16, 22).
[24] Mas não lhe será dado outro prodígio, senão o prodígio do profeta Jonas (Mt. 12, 39).
[25] Assim estará o Filho do homem no coração da terra (ibid. 40).
[26] E no mesmo instante saiu o que estivera morto, ligados os pés e mãos com as ataduras (Jo. 11, 44).
[27] August. tract. 37 in Joan.
[28] A si mesmo não se pode salvar (Mt. 27, 42).
[29] Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isac, o Deus de Jacó (Êx. 3, 6).
[30] Eu vi a aflição do meu povo, e desci para o livrar (ibid. 7 s).
[31] Incendiaram-se como fogo em espinhos (SI. 117, 12).
[32] Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem (Lc. 23, 34),
[33] Tertul. lib. de Patientia, c. 3.
[34] Senec. lib. de Provident.
[35] O Verbo se fez carne (Jô.1, 14).
[36] Eu disse: Sois deuses, e todos filhos do Excelso (Si. 81, 6).
[37] Deus assistiu sempre no conselho dos deuses; no meio deles julga os mesmos deuses (ibid. 1).
[38] Mas vós como homens morrereis (ibid. 7).
[39] Endureceu-se o coração de Faraó (Êx. 7, 13, 22, etc.).
[40] O mais manso de todos os homens (Núm. 12, 3).
[41] Saberás que achamos aquele de quem falou Moisés e os profetas, a saber, Jesus de Nazaré, filho de José (Jo. 1, 45).
[42] Por dizer-lhe o nome da árvore e a ocasião, conheceu tratar-se sem dúvida de um profeta, e não só por isso, senão também pelo que tinha falado entre si, como aquela frase: De Nazaré nada pode sair de bom – o que o agradou sobremaneira, não só por não repreendê-lo, mas por louvá-lo apesar de tudo (S. Crisóst.).
[43] Porquanto vi a tua face, do mesmo modo como se eu tivera visto o rosto de Deus (Gên. 33, 10).
[44] porque o viu cheio de paz e mansidão (Lirano).
[45] Sereis como uns deuses (Gên. 3, 5).
[46] O qual faz nascer o seu sol sobre bons e maus, e vir chuva sobre justos e injustos (Mt. 5.45).
[47] Pois se fez Filho de Deus (Jo. 19, 7).
[48] Para serdes filhos de vosso Pai (Mt. 5, 45).
[49] Este é o meu Filho amado, no qual tenho posto toda a minha complacência (Mt. 3, 17).
[50] Este é aquele meu querido Filho em quem tenho posto toda a minha complacência: ouvi-o (Mí.17, 5).
[51] Vós ouvistes qual foi a paciência de Jó (Tg. 5, 11).
[52] Para que a sua paciência servisse assim de exemplo aos vindouros, como a do santo Jó (Tob. 2, 12).
[53] Porque não havia lugar para ele na estalagem (Lc. 2, 7).
[54] Porque vos é necessária a paciência, para que alcanceis a promessa (Hebr. 10, 36).
[55] Por muitas tribulações nos é necessário entrar no reino de Deus (At. 14, 21).
[56] Vós ouvistes qual foi a paciência de Jó, e vistes o fim do Senhor. (Tg. 5, 11).

Fonte: https://www.literaturabrasileira.ufsc.br/documentos/?action=download&id=49813