Sermão da Primeira Dominga da Quaresma

SERMÃO DA PRIMEIRA DOMINGA DA QUARESMA,

Na Igreja de S. Antônio dos Portugueses, em Roma.


Tunc assumpsit eum diabolus in sanctam civitatem, et statuit eum super pinnaculum templi, et dixit ei: Si Filius Dei es, mitte te deorsum[1].

I – Que lugar haverá ou pode haver no mundo onde o demônio não tente aos homens? Assunto do sermão: Cristo tentado na Cidade Santa, com o lugar mais alto do Templo, para exemplo à ambição do eclesiástico.

Santo Antônio — não o nosso, em cuja casa estamos, senão o do Egito, chamado por antonomásia o Grande — abriu-lhe Deus um dia os olhos, para que visse neste mundo o que nós não vemos, e viu que todo ele estava cheio e armado de laços. Laços no mar, e laços na terra; laços nos desertos, e laços no povoado; laços nos montes, e laços nos vales; laços nas ruas, e laços dentro das casas; e não só nos lugares profanos, senão também nos sagrados, e até nos mesmos templos, não de ídolos, senão do verdadeiro Deus, laços. Significava esta visão que não há lugar no mundo livre de tentações do demônio, e isto é o que temos no Evangelho presente. Tentou o demônio a Cristo. E onde o tentou? Tentou-o no deserto, tentou-o no monte, tentou-o em Jerusalém, e tentou-o no Templo. Se nos desertos, apartados da comunicação da gente, se nos montes, que estão mais vizinhos ao céu, se nas cidades de profissão e de nome santas, e nos templos consagrados a Deus, há tentações, e tenta ali o demônio ao mesmo Deus, que lugar haverá ou pode haver no mundo, onde não tente aos homens? Não é necessário que vejamos por revelação os laços, pois vemos por experiência os que caem neles, e nos vemos a nós mesmos tantas vezes caídos.

Permitiu, pois, Cristo, Senhor nosso, ser tentado do demônio hoje, não para se honrar, com a vitória — que era pequeno triunfo — mas para nos ensinar a vencer com seu exemplo. Tentado no deserto com o pão e com a fome, para exemplo à abstinência do monge; tentado no monte com as promessas de todo o mundo, para exemplo à cobiça do leigo; e tentado na Cidade Santa, com o lugar mais alto do Templo, para exemplo à ambição do eclesiástico. Esta última tentação, por ser tão própria do lugar, e tão acomodada ao auditório, será hoje o argumento de todo o meu discurso. Veremos nele um cortesão de Roma, segundo as três partes do tema, três vezes, e por três modos tentado. Tentado quando vem pretender à Cidade Santa: Assumpsit eum diabolus in sanctam civitatem (Mt. 4, 5); — tentado quando consegue o lugar ou dignidade da Igreja que pretendia: Statuit eum super pinnaculum templi; — e tentado com o mesmo lugar depois de conseguido, quando o diabo o instiga a que se precipite: Mitte te deorsum (Mt. 4, 6). — Nota o evangelista no nosso texto que o Espírito Santo foi o que levou a Cristo ao lugar onde havia de ser tentado: Ductus est Jesus in desertum a Spiritu, ut tentaretur a diabolo (Mt. 4, 1). — E, pois, o motor e autor das vitórias contra as tentações do espírito maligno é o Espírito Santo, peçamos ao mesmo divino Espírito nos ajude com sua graça. Ave Maria.

II – Quando tentou o demônio a Cristo? As qualidades que se requerem para um sujeito ser sublimado ao lugar mais alto da Igreja.

Tunc assumpsit eum diabolus in sanctam civitatem, etc. A primeira coisa em que topa o meu reparo nestas palavras do nosso tema é aquele tunc: então. Então? Quando? Não fora o demônio demônio, se não fizera tudo a seu tempo, e não soubera observar a ocasião. Quando viu a Cristo com fome: Postea esuriit[2]então o tentou com o pão: Et accedens tentator[3]; e agora, quando levou o Senhor à Cidade Santa e ao lugar mais alto do Templo, também diz o evangelista que o fez — tunc: então. — E por quê? Porque já tinha experiência do sujeito a quem tentava. Levantar os sujeitos aos lugares da Igreja, sem os conhecer e experimentar primeiro, é coisa que nem o diabo faz. Quando Cristo esteve mais qualificado para o lugar, então o tentou o diabo com ele, e quando merecia a assunção, então foi a tentação: Tunc assumpsit eum diabolus. — Para um sujeito ser sublimado ao lugar mais alto da Igreja, que qualidades são as que se requerem? Requere-se, ainda que menos, a nobreza do nascimento, requer-se o exemplo da vida, requer-se o exercício das virtudes, requer-se o espírito muito provado, e requerem-se finalmente as letras, não só sabidas, mas praticadas.

Todas estas qualidades então — tunc — concorriam juntas em Cristo, e já reconhecidas pelo mesmo demônio. A nobreza do nascimento: Si Filius Dei es[4]; o exemplo da vida: Ductus est a Spiritu in desertum[5]; o exercício das virtudes: Cum jejunasset quadraginta diebus, et quadraginta noctibus[6]; o espírito provado: Ut tentaretur a diabolo[7]; as letras, não só sabidas, mas praticadas: Scriptum est enim: Non in solo pane vivit homo, sed in omni verbo, quod procedit de ore Dei[8].E que sobre todas estas qualidades juntas, sobre toda esta capacidade de merecimentos, ainda seja tentação subir às alturas do Templo! Ó mundo! Ó cabeça do mundo! E que tentação seria se o eclesiástico tentasse a subida, não com espírito provado, mas reprovado; não com exemplo, mas com escândalo; não com virtudes, mas com vícios; não com letras, mas com ignorâncias? Não falo na qualidade do nascimento, porque, depois que Cristo tirou a Pedro e André da barca para a cadeira, ainda que não reprovou a grandeza dos apelidos, mostrou que, se era decente para o sujeito, não era necessária para o ofício. Este foi o tunc da tentação de Cristo; vamos agora ao nunc das nossas.

Em três partes — como dizia — dividiu o demônio a sua tentação: vir; subir, cair. Vir à Cidade Santa: Assumpsit eum in sanctam civitatem — subir ao pináculo do Templo: Et statuit eum super pinnaculum templi — cair e arrojar-se ao precipício: Mitte te deorsum. — Sigamos o tentador pelos mesmos passos.

III – Primeira parte da tentação: vir o pretendente à Cidade Santa. Vir à Cidade Santa, e pretender uma Igreja, também santa, pode ser tentação do demônio? Por que padeceu Jacó nos seus desposórios as tentações do demônio, e Isac não? O modo com que Deus quer que as suas esposas tenham esposo?

Assumpsit eum diabolus in sancta civitatem. A primeira parte da tentação, senhores meus, é vir o pretendente à Cidade Santa. Pois, vir à Cidade Santa, e pretender uma Igreja também santa, pode ser tentação do demônio? Sim. Porque, quando a eleição é de Deus, e não tentação do demônio, quando Deus quer que o eclesiástico tenha igreja e esposa, não é ele o que há de ir à Cidade Santa: a Cidade Santa é a que há de ir a ele. No capítulo penúltimo do Apocalipse conta S. João o que viu, e diz assim: Vidi civitatem sanctam Jerusalem descendentem de caelo a Deo paratam, sicut sponsam ornatam viro suo (Apc. 21, 2): Vi descer do céu a Cidade Santa, mandada por Deus, e ornada como esposa para se receber com o esposo. — Notável visão! Os homens são os que vão à Cidade, e não a cidade aos homens; o esposo é o que pretende a esposa, e não a esposa o esposo. Pois, por que viu S. João tudo às avessas? Porque viu às direitas. Vinda a Igreja, do céu, vinha de Deus: Descendentem de caelo a Deo — e quando a Igreja e a esposa vêm pelo céu e por Deus, não é o homem o que vai à Cidade Santa, a Cidade Santa é a que vem ao homem; não é o esposo o que vai buscar a esposa, a esposa é a que o vem buscar a ele: Sicut sponsam ornaram viro suo. — E quando isto não é assim, senão às avessas, que será? Não é eleição de Deus, é tentação do diabo: Assumpsit eum diabolus in sanctam civilatem.

No Testamento Velho, e na mesma casa, temos dois desposórios muito semelhantes e muito diferentes. Isac desposou-se com Rebeca, Jacó desposou-se com Raquel: esta foi a semelhança. A diferença foi que só Jacó, e não Isac, padeceu os enganos, os enredos e as maldades de Labão. E este Labão quem era, ou a quem representava? S. Gregório, e todos os padres, dizem que Labão significava o demônio, e os seus enganos as suas tentações. Pois, por que padeceu Jacó nos seus desposórios as tentações do demônio, e Isac não? Lede a Escritura. Jacó foi buscar a Raquel, Isac não foi buscar a Rebeca: Rebeca o foi buscar a ele. E quando Rebeca vai buscar a Isac, quando a esposa vai buscar o esposo não há enganos de Labão, não há tentações do demônio; mas quando Jacó vai buscar a Raquel, quando o esposo vai buscar e pretender a esposa, aí é que Labão trama os seus enganos, aí é que o demônio executa as suas tentações. Haverá aqui algum Isac? Nenhum. Se houvesse algum Isac, esperaria na sua terra que o fosse lá buscar a esposa; mas todos e cada um são Jacó, e Jacó muito empenhado na sua pretensão, e por isso todos tentados, e todos enganados.

Quanto melhor providas seriam as Igrejas, quanto mais descansados viveriam os que fossem dignos delas, e quanto menos ocasião se daria às tentações do demônio na Cidade Santa, se as esposas fossem buscar os esposos, como Rebeca a Isac, e não os esposos as esposas, como Jacó e Raquel! Na Cidade Santa estava recolhida a esposa dentro do seu aposento, e com as portas fechadas, quando viu ao longe que a vinha pretender o esposo, atravessando serras e passando montes: Ecce iste venit, saliens in montibus, transilienssiliens colles[9]. — Chegou enfim o peregrino pretendente à cidade, foi-se logo à porta da esposa, bateu com grandes ânsias e instâncias: Aperi mihi[10]falou com palavras corteses e comedidas: Soror mea, columba mea[11]representou presentou seus merecimentos, seus trabalhos e suas dilações: Quia caput meum plenum est rore, et cincinni mei guttis noctium[12]mas a esposa respondeu com esquivanças e escusas frívolas, e por mais que o esposo continuou o bater ou a bataria da porta, não se rendeu nem quis abrir. Paremos aqui, porque aqui é que estão parados todos os pretendentes da Cidade Santa. Saístes de Portugal, atravessando os montes Pireneus, e passando as serranias dos Alpes: Sauins in montibus, transiliens colles; — chegastes enfim à desejada Cidade Santa; começastes a pretender, a falar, a requerer; batestes à porta principal, e também à travessa; batestes com a mão fechada, e também com a mão aberta; e a porta fechada, a resposta desvios. Sabeis por quê? Porque negociais às avessas. Não quer Deus que vós pretendais a esposa: quer que ela vos pretenda a vós. Vede se sucedeu assim.

Cansado o esposo de esperar e de bater, mudou de pensamento, deixa a pretensão, sai-se da cidade: eis que no mesmo ponto levanta-se a esposa, abre a porta, sai pelas ruas e praças buscando o esposo, chega aos muros da cidade, passa pelas guardas, põe-se no campo e nas estradas públicas, caminha, pergunta, solicita, e, achando finalmente o esposo, dá-se os parabéns de o haver achado, tem mão nele, diz que já o quer, que já o ama, que há de ser seu, e que o não há de largar: Inveni quem diligit anima mea: tenui eum, nec dimittam[13]. — Há tal novidade no mundo? Há tal mudança? Quando o esposo vem, quando pede, quando roga, quando bate, quando importuna, quando alega finezas, merecimentos, trabalhos, nem acha amor, nem acha razão, nem acha justiça ou piedade; e quando deixa a pretensão, quando se despede da cidade, ou quando se vai sem se despedir, e não quer nada dela, então o busca a esposa, então o deseja, e não só se lhe entrega por vontade, senão por força e por violência: Tenui eum, nec dimittam?

Sim, que este é o modo com que Deus quer que as suas esposas tenham esposo. Não há de ser o esposo o pretendente, e a esposa a pretendida, senão o esposo o pretendido, e a esposa a pretendente. De sorte que, enquanto o esposo pretendeu e requereu da Cidade Santa, não foi ouvido; mas quando esteve fora dela, então foi buscado. Não sois, vós o que haveis de buscar: hão-vos de buscar a vós, e em tal forma que a Igreja se dê os parabéns de vos haver achado, e que seja necessária força e violência para que aceiteis o desposar-vos com ela. Assim se desposou a Igreja de Milão com Ambrósio, assim a de Mandeburgo com Norberto, assim a de Cracóvia com Estanislau, assim a universal com Gregório. Uns escondiam-se, outros fugiam, e todos resistiam e repugnavam, e por isso mereciam que Deus por força, e com milagres, os subisse à maior altura do Templo, e os colocasse nela. Mas quando estes lugares se pretendem, e se vêm buscar, ainda que seja à Cidade Santa, quem duvida que pode ser, como hoje foi, tentação do diabo: Assumpsit eum diabolus in sanctam civitatem? Até aqui o vir, que é coisa cansada; passemos ao subir, que, ainda que seja costa arriba, é mais suave, e subamos quanto é possível.

IV – Segunda parte da tentação: conseguir o pretendente a sua pretensão. O modo com que levou o tentador a Cristo, até o pôr no pináculo do Templo. O subir sempre, sem descansar nem parar, inclinação própria e natural do demônio. Quanto tinha subido a soberba do demônio depois que caiu do céu. Os que fazem das dignidades degraus, para querer sempre subir, sem jamais parar. S. Belarmino e o anzol com que o diabo pesca aos eclesiásticos. Por que combatiam no ventre de Rebeca a Jacó e Esaú? Por que as igrejas não se hão de levar por escalas?

Chegados o tentador e o tentado à Cidade Santa, não parou o demônio até o pôr no pináculo do Templo: Et statuit eum super pinnaculum templi. — Em nenhuma corte do mundo tem lugar o extremo desta tentação, senão na corte da Cidade Santa, onde estamos. Em todas as outras cortes podem os cortesãos aspirar a subir, mas não ao pináculo. Pode aspirar à grandeza, mas não à majestade, ao título, mas não à coroa. O fidalgo particular pode aspirar ao conde, o conde a marquês, o marquês a duque, e aqui para o desejo, porque o ser rei está fora da esfera da ambição. Nesta corte não é assim. Da sotaina podeis subir à murça, da murça ao mantelete, do mantelete à mitra, da mitra à púrpura, e da púrpura à tiara. Sobre o modo com que o tentador subiu e levou a Cristo ao pináculo não concordam os expositores do nosso texto. Uns, fundados na palavra assumpsit eum, têm para si que foi voando pelos ares; outros dizem que foi caminhando naturalmente, e esta opinião não só é para mim a mais verossímil, senão a verdadeira, porque S. Lucas, falando da mesma subida, diz: Duxit illumin Jerusalem, et statuit super pinnam templi[14]. — Nem a palavra assumpsit de que usou S. Mateus, obriga a outro sentido e modo extraordinário, porque quando Cristo levou os apóstolos ao monte da Transfiguração, diz o mesmo S. Mateus: Assumpsit Jesus Petrum, et Jacobum, et Joannem, et duxit illo in montem excelsum seorsum[15] — e é certo que os levou o Senhor ao cume do monte, não pelo ar, senão pela terra. Assim que o modo com que levou o tentador a Cristo até o pôr no pináculo, não foi voando, senão andando naturalmente por seus passos contados, e por seus degraus, subindo sempre. A cidade de Jerusalém não estava situada no campo raso, senão em alto: Ecce ascendimus Jerosolymam[16]; no alto da cidade estava o Monte Sião, no alto do Monte Sião estava o Templo, e por aqui levou o tentador ao tentado, sempre subindo. Do deserto e da campanha subindo à cidade, da cidade subindo ao monte, do monte subindo ao Templo, do Templo subindo ao teta, e do teto subindo ao pináculo: Et statuit eum super pinnaculum templi.

Se o evangelista me não dissera que esta ação ou modo de levar era do demônio, eu me atrevera a afirmar com toda a segurança que a tal condução era sua, porque isto de subir, e subir sempre, ou seja por tentação, ou por inclinação, é só próprio e natural do demônio. O subir, e querer subir, bem pode ser do homem; mas o subir sempre, ainda depois de ter subido, sem descansar nem parar, só do demônio pode ser. Grande texto de Davi: Superbia eorum qui te oderunt ascendit semper[17]. — A soberba dos que têm ódio a Deus, é soberba que sempre sobe. E quem são os que têm ódio a Deus? São os demônios, diz Santo Tomás, porque os homens, ainda que ofendem a Deus, não lhe têm ódio. E esta foi a soberba que condenou os anjos, e de anjos os fez demônios: soberba que sempre quis subir: Superbia eorum ascendit semper. — Que a soberba não queira nem saiba descer, isso é ser soberba; mas que não saiba parar? Tal foi a soberba dos anjos. A natureza angélica tinha muitos degraus por onde subir sem sair da sua esfera; mas em nenhum quis parar: Ascendit semper. — Anjo do ínfimo coro, não te contentarás com ser arcanjo? Não: Ascendit semper. Arcanjo, não te contentarás com ser principado, que é a mais alta dignidade da tua jerarquia? Não: Ascendit semper. Principado, não te bastará ser virtude? Virtude, não te bastará ser potestade? Potestade, não te bastará ser dominação? Ainda é pouco: Ascendit semper. — Ora suba a dominação a ser trono. Mas, se sou trono, hei de ser querubim; se sou querubim, hei de ser serafim. Seja assim, e seja muito na má hora, para que acabe já de subir a tua soberba, pois chegaste à suprema eminência da tua natureza, e de todas: aí pararás, aí descansarás. Parar? Isso não, diz o serafim: Ascendit semper. Sempre hei de subir: Pois, aonde, ou para onde? Aonde ou para onde? Até ser como Deus: Similis ero Altissimo[18]. — Assim se tentou Lúcifer, e para subir sempre a sua soberba, não tendo para onde subir em todo o criado, quis subir ao incriado e impossível: Ascendit semper.

Admirais-vos de tão teimosa ambição, e de tão pertinaz desejo de subir? Pois ainda não está bem declarado o texto. Quando isto disse Davi, já havia três mil anos que o demônio estava derribado do céu, e ardendo no inferno. Logo, ainda então subia a soberba de Lúcifer, e ainda hoje sobe, que isso quer dizer: Ascendit semper. — Mas, se Lúcifer tinha chegado a querer ser semelhante a Deus, como podia subir mais? Ninguém o pudera entender nem imaginar, se o não tivéramos na Escritura. O nosso Evangelho o diz. Quando o demônio, na terceira tentação, ofereceu todo o mundo a Cristo, foi com a condição de que se lhe prostrasse de joelhos, e o adorasse: Haec omnia tibi dabo, si cadens adoraveris me[19]. — Pois, vem cá, demônio, se tu entendes que esse homem a quem tentas é Deus, e assim o declaraste na primeira e na segunda tentação: Si filius Dei es — e se das suas respostas, tão sábias e tão dignas de Deus, te devias confirmar muito mais no mesmo pensamento, como lhe dizes que se ponha de joelhos diante de ti, e que te adore? Aqui vereis quanto tinha subido a soberba do demônio depois que caiu do céu. No céu subiu a querer ser semelhante a Deus, e depois tinha subido tanto acima de Deus que quis que o mesmo Deus o adorasse: Si cadens adoraveris me. — Comparai a afetação da semelhança com a temeridade da adoração, e vereis quanto subiu e foi subindo sempre a soberba daquele insaciável espírito. De inferior quis subir a ser semelhante, de semelhante a ser igual, de igual a ser superior, e de superior a ser supremo, e que o mesmo Deus lhe ficasse tanto abaixo, que prostrado em terra o adorasse.

Assim sobe sempre a soberba do demônio, e assim sobe e está subindo, sem aquietar e parar jamais, a soberba dos que ele tenta, ou dos que sem ser tentados o seguem: Superbia eorum ascendit semper. — Subir às dignidades pode ser bom e pode ser mau; mas o que sempre é mau, e nunca pode ser bom, senão péssimo, é fazer de uma dignidade degrau para a outra, e querer sempre subir sem jamais parar. Não se sobe hoje às dignidades, sobe-se por elas. Haviam de ser fim, e são meio; haviam de ser termo, e são degrau. E tal modo ou tal fúria de ambição não é humana: é diabólica, é luciferina. Por isso dizia o mesmo Davi, temendo-se de cair ou subir a semelhante tentação: Non veniat mihi pes superbiae (Si. 35, 12): Ah! Senhor, daí-me vossa graça, e tende-me de vossa mão, para que não entre em mim o pé da soberba. — Eu cuidava que o perigo da soberba estava na fantasia da cabeça, e não está senão no ardimento dos pés. São uns pés que não podem aquietar em nenhum lugar, por alto que seja; sempre estão em movimento e, sempre para cima: sempre em movimento, porque não sabem parar; e sempre para cima, porque não sabem descer, senão sempre subir: Ascendit semper. — E notai que não diz Davi os pés da soberba, senão o pé: Non veniat mihi pes superbiae — porque a soberba e ambição de subir nunca está mais que sobre um pé. Tem um pé no lugar que possui, e outro já vai pelo ar para o lugar que pretende. Isto é subir sempre. Quem sobe, quando firma o pé num degrau já levanta o outro para o pôr no que se segue; e assim sobe, e vai subindo sempre — por mais alto que seja o lugar a que tem subido — quem for tocado desta tentação.

Ferculum fecit sibi rex Salomon: reclinatorium aureum, ascensum purpureum (Cânt. 3, 9 s): Fez Salomão um leito para si, cujo reclinatório era de ouro e a subida de púrpura. — Com licença da sabedoria de Salomão, eu não fizera o leito por esta traça: fizera o reclinatório de púrpura, e a subida de ouro. Para reclinar e descansar a cabeça, o ouro, ainda que seja muito lustroso, é muito duro e muito frio. Para os degraus era muito decente e muito autorizado o ouro, porque não há modo de subir mais majestoso que metendo o ouro debaixo dos pés, e pisando-o. Pelo contrário, a púrpura era muito acomodada para o reclinatório, porque é branda, e conserva o calor. Mas a púrpura para os degraus: Ascensum purpureum? Sim, porque fazia Salomão o seu leito, não como era bem que fosse, senão como via que havia de ser. Via que das púrpuras se haviam de fazer os degraus para o reclinatório, porque é tal a tentação de subir que nem nas púrpuras se pára, nem nas púrpuras se descansa: Ascensum purpurem: ascendit semper.

Estou vendo, porém, que me dizem os meus portugueses: ainda que temos o exemplo de S. Dâmaso, e de João Vigésimo-Segundo, os nossos pensamentos não sobem ao pináculo, nem a tão alta suposição. Com uma igreja das que vagam na nossa terra nos contentamos: isso é o que só pretendemos na Cidade Santa. Mas também aí pode entrar com igual perigo a tentação do demônio. Eu não sou muito curial destas tentações, e assim falarei por boca de quem tinha grande experiência, e grande prática delas. O cardeal Belarmino, passando por um lago destes arredores, viu um moço que estava pescando rãs, e a isca com que lhes armava era a pele de outra rã já morta. Lançava o anzol com aquela pele da morta, e assim pescava as vivas. — Eis aqui, diz Belarmino, como pesca o diabo aos eclesiásticos. Morreu o cônego, o prior, o abade: e que faz o diabo? Toma a pele do defunto, que é a murça, ou a sobrepeliz e estola, mete-a no seu anzol, que é a tentação, e vem-se de Portugal a pescar a Roma. Quem cuidasse tal coisa! Que o diabo se venha fazer pescador na barca de S. Pedro! E que fazem as rãs que estão esperando no lago, e atroando os ouvidos de todos? Tanto que chega a nova, tanto que vêem a pele da morta, todas a ela com tanta boca aberta; e, se alguma se adianta às demais, todas a abocanhá-la e a mordê-la. Eu não o vi, mas assim o ouço. Nisto são piores as rãs que os peixes. Os peixes mordem e calam, as rãs atroam, e não há quem se ouça nem se valha com elas. Que cada um pretenda para si, humano é; mas é grande desumanidade que homens da mesma pátria, da mesma nação e do mesmo sangue, se mordam, se maltratem e se afrontem por se introduzir a si, e afastar os outros!

Combatiam-se no ventre de Rebeca Jacó e Esaú; e, consultado o oráculo divino, respondeu: Duae gentes sunt in utero tuo (Gên. 25, 23): Saberás, aflita mãe, que trazes em tuas entranhas duas nações. — Que duas nações sejam inimigas, e se façam guerra, e dêem batalha uma contra a outra, não é maravilha. Mas que se vejam semelhantes hostilidades em homens da mesma geração e do mesmo sangue, como se foram de nações, não só diferentes, mas inimigas? Este é o prodígio. E por que se combatiam, por que se maltratavam os dois irmãos, com tanta dor e afronta da mãe? Porque cada um deles pretendia levar a bênção do pai, e derrubar ao outro para que a não levasse. E quando chegou a bênção tão debatida? Nasceram, cresceram, esperaram, e a bênção, não chegou senão daí a muitos anos, e levou a quem menos se cuidava. Eis aqui por que se estão combatendo, perseguindo e afrontando Esaú e Jacó. Por uma bênção que sabe Deus quando chegará; por uma bênção que muitas vezes a leva o engano, e não o merecimento; por uma bênção que há de dar um velho cego às apalpadelas, prometida por um regalo e alcançada com umas luvas. Não era esta a tenção de Isac, verdadeiro pai, e santo. Mas assim sucedeu, e assim sucede. Vede se é tentação do demônio, pior que a de Cristo. A Cristo levou-o o tentador pelos degraus ordinários ao Templo. Vós derribais os companheiros, e fazeis deles degrau para subir à Igreja. As Igrejas não se hão de levar por escala. Quando se escalam os muros, sobem os que vêm detrás por cima dos que caem diante, mas não são eles os que os derrubam. O dote da sutileza do céu faz que o lugar que ocupa um não impida a passagem ao outro; e cá o estudo e emprego de todas as sutilezas é impedir aos outros para lhes ocupar o lugar. Enfim, bem ou mal ocupado, que se segue depois disso? A terceira parte da tentação, e a mais perigosa de todas.

V – Terceira parte da tentação: o cair. Depois de vir e subir segue-se o cair. Cipião e os dois precipícios em que pode e costuma cair quem vai de Roma com despacho. A tentação da fome e a tentação da cobiça. Diferenças entre o tentar com pão feito e o tentar com o pão que se há de fazer A tentação do Filho Pródigo. Por que é o avarento idólatra, e o cobiçoso não?

Et dixit ei: Mitte te deorsum[20]. — Depois de vir e subir, segue-se o cair. Conseguiu o pretendente o seu despacho, expediu as suas bulas, voltou contente para a pátria, vê-se colocado ou colado na Igreja com a superioridade e autoridade dela, e aqui está o fim de toda a tentação, que é o precipício: Mitte te deorsum. — Este precipício pode ser, como ordinariamente é, ou para a parte da primeira tentação, ou para a parte da terceira, com que ficará caindo em todas três. Na primeira tentação tentou o demônio a Cristo com pão: Dic ut lapides isti panes fiant[21]na terceira tentou-o com tudo: Haec omnia tibi dabo[22]e em ambas pode cair facilmente o tentado, ou por fome ou por cobiça. Tratava-se aqui em Roma de mandar a Portugal contra Viriato, e eram pretendentes do posto Sulpício Galba e Aurélio Cota; e como os votos dos padres conscritos se dividissem no Senado, uns por parte do primeiro, outros do segundo, diz Valério Máximo que Cipião excluiu a ambos, e deu a razão excelente por estas palavras: Neuter mitti placet, quia alter nihil habet, alteri nihil est satis: Não convém que se mande a Portugal nem um, nem outro, porque um nenhuma coisa tem, a outro nenhuma coisa lhe basta. — Aos que nada têm tenta-os o diabo com o pão, aos que nada lhes basta tenta-os com tudo; e sendo tão perigosa tentação a da necessidade como a da cobiça, estes são os dois precipícios em que pode e costuma cair quem vai de Roma com despacho.

Os que de cá vão com fome tenta-os o diabo com pão, e muito mais apertadamente do que a Cristo, porque a Cristo tentou o demônio com pão que se havia de fazer: Dic ut panes fiant[23]mas a estes tenta-os com o pão feito. Deus livre a todo o faminto de que o diabo o tente com o pão feito e preparado. A Eva tentou-a o diabo com a fruta madura e sazonada: a Esaú tentou-o com as lentilhas cozinhadas e temperadas. E que sucedeu a ambos? Ambos caíram sem resistência. Ser tentado com o comer que se há de fazer, ainda que haja fome, não é tão grande tentação: Se o pomo estivera em flor, e as lentilhas em erva, nem Eva nem Esaú se haviam de tentar, quanto mais cair. Porém, tentar com o pão, e feito, tentar com o pão que outros fizeram, e vós o tendes recolhido no vosso celeiro com obrigação de o repartir aos pobres, grande tentação. O eclesiástico é despenseiro do pão, e não senhor; mas é grande tentação do despenseiro, que, podendo-se fazer senhor, se não faça, e, podendo comer o pão, o não coma. Nesta parte são mais venturosas as ovelhas do campo que as de Cristo, porque o pão das ovelhas do campo não o pode comer o pastor, e o das ovelhas de Cristo sim. E quando o pão do gado é de tal qualidade que o pode comer o pastor, aqui está a tentação.

O Filho Pródigo, depois de desbaratar todo o patrimônio; para remediar a sua necessidade, pôs-se a pastor, e o mantimento de seu gado era tal que também o pastor o podia comer. Foi, porém tão honrado e tão pontual este moço — como filho de bons pais que era — que até daquele mantimento rústico e grosseiro, que se lhe dava para o seu gado, nem uma bolota tomava para si. Mas qual era a sua tentação? Cupiebat explere ventrem de siliquis, quas porci manducabunt (Lc. 15, 16): Toda a sua tentação e todo o seu apetite era comer e encher-se daquele mesmo mantimento que se lhe dava para o seu gado. — E se isto fazia a fome do Filho Pródigo, que fará a do padre avarento? Pastor com fome há de comer o pão do gado, qualquer que seja, e mais os que de cá vão com fome de tantos anos. Os pregadores zombam do diabo em tentar a Cristo com pão de pedras, e não reparam em que estava o tentado com fome de quarenta dias. Para fome de muitos dias não há pão duro, quanto mais para fome de tantos anos! Nas grandes fomes, como a de Jerusalém e de Samaria, chegaram as mães a comer os próprios filhos. Haveis de comer o pão das ovelhas, e haveis de fazer das mesmas ovelhas pão: Qui devorant plebem meam ut cibum panis[24].

E se isto faz a fome, que é natureza, a cobiça que é vício e vício insaciável, que fará? O demônio, quando tentou a Cristo pela cobiça — que é o segundo precipício — pôs-lhe por condição que o havia de adorar: Si cadens adoraveris me. — Quem não pasma de tal atrevimento, e mais ainda de tal confiança? Adorar o demônio, posto que disfarçado em outra figura, como aqui apareceu, é a mais ímpia, a mais sacrílega, e a mais abominável idolatria. E parece que se não pode presumir nem temer que haja de cair em tal precipício algum homem cristão, quanto mais coroado com o sacerdócio. Mas o demônio, que teve atrevimento e confiança para tentar com semelhante condição a um homem que presumia ser Deus, também o fará a qualquer outro, por mais sagrado e consagrado que seja. Quando o profeta Zacarias exclamou: O pastor, et idolum[25]! — bem anteviu que o ofício de pastor e o pecado de idolatria podiam andar juntos. E S. Zeno, bispo de Verona, que, como pastor de pastores, tinha grandes experiências, não só diz que sim, mas declara o como. Pondera o santo aquele lugar do salmo: Simulacra gentium argentum et aurum (SI. 113, 4): Os ídolos dos gentios são ouro e prata — e afirma que o mesmo ouro e prata em mão do sacerdote, que é pastor, ainda que o não adore com idolatria expressa, também é ou pode ser ídolo. E de que modo? Não pondo-o sobre os altares, mas metendo-o na arca, ou debaixo da terra. Ouvi as palavras do santo, que são admiráveis: Aurum et argentum, si erogaveris, pecunia est; si servaveris, simulacrum. — Tendes ouro e prata, vós que sois sacerdote e pastor? Pois sabei que esse ouro e essa prata, se a derdes aos pobres, é dinheiro, mas se a guardardes é ídolo. O pastor que reparte o que tem a suas ovelhas é pastor, o que o guarda e entesoura é idólatra: reparti-lo é esmola, guardá-lo é idolatria: Si erogaveris, pecunia est; si servaveris, simulacrum.

Vejo que estão dizendo consigo os apaixonados da avareza que a sentença deste santo tem mais de encarecimento que de teologia rigorosa e sólida. E para que se desenganem, se têm fé, e saibam que não só é fundada esta doutrina em autoridade humana, senão na verdade divina e irrefragável, ouçam o oráculo de S. Paulo não só uma vez: inculcado, mas uma e outra vez repetido. No capítulo quinto da Epístola aos Efésios, fazendo o apóstolo um relatório dos vícios por que não só os gentios senão os cristãos, são deserda dos do céu, chegando aos avarentos diz que este pecado é pecado de idolatria: Aut avarus, quod est idolorum servitus[26]. — E no capítulo terceiro da Epístola aos Colossenses, que também eram cristãos, repete e qualifica o pecado da avareza com a mesma censura: Et avaritiam, quae est simulacrorum servitus[27]. De sorte que em sentença de S. Paulo, canônica e de fé, se tomarmos a avareza em si mesma, e em abstrato é idolatria: Avaritiam, quae est simulacrorum servitus e se a tomarmos em concreto, e no sujeito, o avarento é idólatra: Avarus, quod est idolorum servitus — ou, como diz com mais expressão o original grego: Idolatra. Mas qual é a razão desta tão grave censura, que sempre parece dificultosa? O mesmo S. Paulo diz que a cobiça é raiz de todos os males: Radix omnium malorum est cupiditas[28] — e, contudo, não chama idólatra ao cobiçoso, senão ao avarento. Em que consiste logo esta especial razão de idolatria que se acha só no avarento, e não no cobiçoso? O cobiçoso e o avarento igualmente apetecem o dinheiro, igualmente amam mais o dinheiro que a consciência: por que é logo o avarento idólatra, e o cobiçoso não? S. João Crisóstomo, na exposição deste texto, alude a uma história que refere Filostrato, o qual conta que os aloadas prenderam ao deus Marte, e depois de encarcerado, e, debaixo da chave, então lhe fizeram sacrifício; e isto mesmo diz o santo que fazem os avarentos. Fecham o dinheiro, e fecham-se com ele, metem-no lá onde não apareça, nem veja sol nem lua, e assim encarcerado e escondido o antepõem ao verdadeiro Deus, é como seu Deus o adoram. O exemplo está muito acomodado, mas não chega ainda a dar a razão, nem a declarar a diferença por que o avarento é idólatra, e o cobiçoso não. Eu, porque a não achei em nenhum expositor, darei a que me parece. A diferença entre o cobiçoso e o avarento, é que o cobiçoso quer o dinheiro para gastar, o avarento quer o dinheiro para o guardar. O cobiçoso, ou seja liberal ou pródigo, contanto que não seja avarento, quer ter dinheiro para ter outras coisas; o avarento quer ter dinheiro só para ter; e como o cobiçoso usa do dinheiro como meio e instrumento para conseguir outros fins, e o avarento não tem outro fim em ter dinheiro, senão o ter, e faz do mesmo dinheiro o seu último fim, daqui se segue que o cobiçoso não é idólatra, e o avarento sim, porque o último fim natural e sobrenatural de todas as coisas é Deus, e quem tem, por último fim qualquer outra coisa que não seja Deus, é idólatra. Por isso o apóstolo, com grande advertência, chamou a este gênero de idolatria servidão dos ídolos: Quod est idolorum servitus — porque o cobiçoso, que não é avarento, serve-se do dinheiro, porém, o avarento, em lugar de se servir dele, serve-o a ele. E tão incompatível é servir ao dinheiro e a Deus, como servir a Deus e ao ídolo: Non potestis Deo servire, et mammonae[29]. — Assim que o que se vê colocado sobre o Templo, se não tiver mão em si, e Deus o não tiver de sua mão, ou caia para a parte da primeira tentação, ou caia para a parte da terceira, sempre leva consigo o precipício: Mitte te deorsum.

VI – O perigo da volta para a pátria: a nau de Salomão, em que se não deve ir por mar, e a carroça de S. Bernardo, em que se não deve ir por terra. Judas, e a idolatria do dinheiro. As quatro rodas da carroça da avareza: a pusilanimidade, a desumanidade, o desprezo de Deus e o esquecimento da morte. Por que o demônio começou a primeira tentação pelo pão, e acabou a segunda pelo precipício? A carroça triunfal da bem-aventurança.

Tenho acabado, senhores, o meu discurso, e mostrado as três partes da tentação que encerram as palavras do demônio, que tomei por tema, que eram: vir, subir e cair. Já viestes à Cidade Santa, que fora melhor não vir: Assumpsit eum in Sanctam civitatem; — já subistes, aqueles com quem falo, ao lugar da Igreja que pretendeis: Statuit eum super pinnaculum templi. — Queira Deus que seja para bem. Resta agora, na volta para a pátria, e na administração do mesmo lugar, o perigo de cair: Mitte te deorsum. — Os vossos intentos até agora bem creio que são quais devem ser, religiosos, pios, e santos; e também aqui pode estar escondida a tentação, porque também o demônio alegou a Cristo que os anjos o levariam e guardariam em todos os seus caminhos, como diz o salmo: Angelis suis mandavit de te, ut custodiant te in omnibus viis tuis (SI. 90, 11). — Para que assim seja, sem perigo de algum dos dois precipícios que acabo de ponderar, permiti-me que vos dê duas advertências sobre os mesmos caminhos. Na volta para a pátria, que rogo a Deus seja muito feliz, ou podeis fazer a vossa viagem por mar ou por terra. Se for por mar, encomendo-vos que não vos embarqueis na nau de Salomão; e se for por terra, que não vades na carroça de S. Bernardo.

A nau de Salomão é aquela que ele descreve nos seus Provérbios: Navis institoris, de longe portans panem suum[30] — não de mercador que vai buscar o pão a outra terra longe da sua, para o vender e comerciar com ele. — Se em tal nau se embarcar o sacerdote, que tem à sua conta Igreja, e da qual há de dar estreita conta a Deus, sem dúvida fará naufrágio, e se perderá. Nenhum pecado provocou a Cristo a tomar o açoite na mão, neste mesmo Templo onde hoje o tentou o demônio, senão o da cobiça e indecência com que da sua casa, que é a Igreja, faziam os ministros dela casa de negociação: Nolite facere domum Patris mei domum negotiationis[31]. — O mercador licitamente negoceia com o seu pão, porque é seu! De longe portans panem suum. — No eclesiástico não só é indecente semelhante negociação, mas ilícita e injusta, porque o pão absolutamente não é seu, e, tirada a côngrua, sustentação sua, e da própria e moderada família, tudo o demais é dos pobres. Até Judas, a quem a Igreja chama mercador péssimo: Judas mercator pessimus — não se atreveu a enfeitar a sua cobiça senão com pretexto dos pobres: Poterat enfim unguentum istud venundari plusquam trecentis denariis, et dari pauperibus[32]. — Mas, como ele falou em vender: venundari — bem mostrou que o seu espírito era mais de mercador que de sacerdote: mercador, porque quis vender o que era consagrado a Cristo; e péssimo, porque o quis vender sendo eclesiástico. Porque quis vender os ungüentos, por isso chegou a vender o ungido.

E notai, como notou S. Paulino, que aos ungüentos avaliou-os em trezentos dinheiros, e ao ungido vendeu-o por trinta, para que nos não admiremos de que aquela obra santa e boa, como a qualificou o mesmo Cristo: Opus bonum operara est in me[33]Judas pelo contrário lhe chamasse perdição: Ut quid perditio haec[34]? — Avaliou mal, como traidora si mesmo, mas fez-lhe a conta como mercador muito coerentemente, porque, se Cristo no seu conceito valia trinta dinheiros, e os ungüentos trezentos, empregar e despender trezentos com o que valia trinta, era perdição. Tão barato vende a Deus quem tanto estima e idolatra o dinheiro! E que sucedeu daqui? O naufrágio e perdição que eu temo a todo o eclesiástico que se embarcar na nau de Salomão. Nesta nau se embarcou Judas, deixando o lugar seguro que tinha na barca de Pedro, e perdeu o mesmo lugar, perdeu quanto tinha adquirido, perdeu o último dinheiro da venda de Cristo, e, sobretudo, perdeu para sempre o céu e a alma, que por isso lhe chamou o mesmo Senhor filho da perdição: Filius perditionis (Jo17, 12).

Esta é a nau em que se não deve ir por mar. E a carroça em que se não deve ir por terra, qual é? É, como disse, a de S. Bernardo, a qual o santo elegante e gravemente descreve por estas palavras: Avaritia rotis vehitur quatuor vitiorum, quae sunt pusillanimitas, inhumanitas, contemptus Dei, mortis oblivio: porro jumenta trahentia, tenacitas et rapacitas, et his unus auriga ambobus praesidet ardor habendi: Posto que os avarentos, por não gastar, costumem andar a pé, a avareza — diz Bernardo — anda em carroça. Sustentase esta carroça sobre quatro rodas, que são quatro vícios, que sempre acompanham a avareza, e sem os quais não dá passo. A primeira roda é a pusilanimidade: pusillanimitas — porque assim como dos ânimos grandes e generosos é própria a liberalidade, assim é própria condição e vileza do avarento ser miserável, e não dar nada. A segunda roda é a desumanidade: inhumanitas — porque não há fera mais desumana e cruel que o avarento, como o outro que, vendo a pobreza e necessidade de Lázaro, e as chagas de que estava coberto, se não movia a compaixão, e nem com as migalhas que lhe caíam da mesa o socorria. A terceira roda é o desprezo de Deus: contemptus Dei — porque na estimação do avarento não há outro Deus mais que o dinheiro, e nele, como diz o nosso poeta português, adora mais os cunhos que a cruz. A quarta e última roda é o esquecimento da morte: mortis oblivio — porque o avarento não se lembra que tudo o que guarda e ajunta mais tarde ou mais cedo cá há de ficar, e, como tem o coração onde tem o tesouro, mais quer entesourar na terra que depositar no céu. Os dois cavalos que tiram por esta carroça, ou os dois jumentos, como lhes chama o santo, são a rapacidade e a tenacidade: Jumenta trahentia, tenacitas et rapacitas — porque o avarento com a rapacidade apanha, ajunta e rouba quanto pode e não pode, e com a tenacidade retém, conserva e aferrolha tudo de tal arte que nenhuma coisa lhe sai da mão. Finalmente, o cocheiro que governa esta carroça, estas rodas, e estes dois brutos, já largando as rédeas a um, já estreitando-as a outro, é o apetite insaciável de ter: Ardor habendi.

Vede agora, senhores, como irá seguro e livre de infinitos perigos quem se meter em tal carroça, e nas mãos de tal cocheiro, e sobre o rodar de tais rodas! Não vos temo tanto os despenhadeiros dos Alpes, nem a fragosidade dos Pireneus, quanto os vales e campinas da nossa terra. Quando Davi disse aos sacerdotes: Sacrificate sacrificium justitiae[35]não sei com que pensamento acrescentou: A fructu frumenti, vini, et olei sui, multiplicati suntn[36]. — Naquelas searas, naquelas vinhas, naqueles olivais, de que se tiram os rendimentos para as igrejas e seus ministros, aqui é que mais repara o meu temor, e receio que aqui tropecem os cavalos, se embarace o cocheiro, e se descomponham as rodas. O fundamento que tenho para assim o temer e cuidar é que quando ouço falar nos vossos provimentos, ou promoções, só se estimam os despachos e se avaliam os lugares pelo que rendem. A um grão príncipe desta Itália pediu um eclesiástico, seu vassalo, que lhe fizesse mercê de certa igreja. E quanto rende essa igreja? — perguntou o príncipe. — Sereníssimos, respondeu o pretendente, rende oitocentos até mil escudos. — Bem está, não é muito o rendimento. — E quantos fregueses tem? — tornou o príncipe a perguntar. — E como o pretendente dissesse que não sabia, o despacho, com última e severa resolução, foi este: — E vós sabeis a conta aos escudos que haveis de comer, e não sabeis o número às almas que haveis de curar? Pois não sois digno de ter igreja, nem de a pretender diante de mim: ide embora. — Oh! se todos os que fazem semelhantes provimentos fizessem este exame, e se ao menos o fizessem os que o pretendem, e são providos! Por isso guardam os escudos e não guardam as ovelhas: mercenários, e não pastores, ou trusquiadores, que é pior. Estas são as contas que se fazem, sem se fazer conta da que se há de dar a Deus, quando a pedir, do preço de seu sangue. Mas aqueles que só se governam pelo ardor habendi irão arder onde ele os leva. Aqui irá parar a alegria dos bons despachos e os falsos parabéns dos que os recebem, tão falsos como os dos que os dão.

E para que ninguém despreze esta doutrina, tão temerosa como verdadeira, e tema o precipício da terceira parte da tentação, a que o diabo encaminha as duas primeiras, acabemos por onde começamos. Santo Antônio viu o mundo cheio de laços, S. Paulo viu os que caem neles. E quem são estes? Qui volunt divises fieri, incidunt in tentationem, et in laqueum diaboli[37]: Os que caem na tentação e no laço do demônio são os que querem ser ricos. — Não diz os que querem roubar, ou tomar o alheio, senão os que somente querem ser ricos, ainda que seja por meios lícitos, porque do lícito se passa ao ilícito, e do justo ao injusto, e do necessário ao supérfluo, e do supérfluo ao nocivo e mortal: Et in desideria multa, inutilia, et nociva, quae mergunt homines in interitum et perditionem[38]. — Por isso o demônio começou a primeira tentação pelo pão, e acabou a segunda pelo precipício: Mitte te deorsum. — S. Paulo neste lugar falava com Timóteo, eclesiástico, sacerdote e prelado; os que têm as mesmas obrigações ouçam e imprimam no coração o que ele lhe aconselha e manda: Tu autem, o homo Dei, haec fuge; sectere vero justitiam, pietatem, fidem, charitatem, patientiam, mansuetudinem. Certa bonum certamen fidei, apprehende vitam aeternam[39]. – Não é necessário que eu diga o que significam estes documentos, porque falo com quem os entende, ou deve entender; só digo que com eles se pode compor uma carroça triunfal, bem diferente da de S. Bernardo. As quatro rodas sejam as quatro primeiras virtudes: fé, piedade, justiça, caridade: Justitiam, pietatem, fidem, charitatem. — Os cavalos, mais sujeitos e bem arrendados que briosos, a paciência e mansidão: Patientiam et mansuetudinem. — O cocheiroro, que evite com toda a vigilância e fuja dos passos perigosos, o mesmo homem, lembrado que é ministro de Deus: Tu autem, o homo Dei, haec fuge. — E deste modo, pelejando fortemente contra o demônio, vencerá suas tentações nesta vida, e triunfará na eterna: Certa bonum certamen fidei, apprehende vitam aeternam.

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[1] Então, tomando-o o diabo o levou à Cidade Santa, e o pôs sobre o pináculo do Templo, e lhe disse: Se és Filho de Deus, lança-te daqui abaixo (Mt. 4, 5 s).
[2] Depois teve fome (Mt. 4, 2).
[3] E chegando-se a ele o tentador (ibid. 3).
[4] Se és Filho de Deus (ibid. 3).
[5] Foi levado pelo Espírito ao deserto (ibid. 1).
[6] Tendo jejuado quarenta dias e quarenta noites (ibid. 2).
[7] Para ser tentado pelo diabo (ibid. l ).
[8] Escrito está: Não só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus (ibid. 4).
[9] Ei-lo aí vem, saltando sobre os montes, atravessando os outeiros (Cânt. 2, 8).
[10] Abre-me (Canta. 5, 2).
[11] Irmã minha, pomba minha (ibidem).
[12] Porque a minha cabeça está cheia de orvalho, e me estão correndo pelos anéis do cabelo as gotas da noite (ibidem).
[13] Achei eu aquele a quem ama a minha alma: aferrei dele, nem o largarei (Cânt. 3, 4).
[14] Levou-o a Jerusalém, e pô-lo sobre o pináculo do Templo (Lc. 4, 9).
[15] Tomou Jesus consigo a Pedro, e a Tiago, e a João, e os levou a parte, a um alto monte (MI 17, 1).
[16] Eis aqui subimos para Jerusalém (Mt. 20, 18).
[17] A soberba daqueles que te aborrecem sobe continuamente (SI. 73, 23).
[18] Serei semelhante ao Altíssimo (Is. 14,14).
[19] Tudo isto te darei, se prostrado me adorares (Mt. 4, 9)
[20] E lhe disse: Lança-te daqui abaixo (Mt. 4, 6).
[21] Dize que estas pedras se convertam em pães (ibid. 3).
[22] Tudo isto te darei (ibid. 9).
[23] Dize que se convertam em pães (Mt. 4, 3).
[24] Que devoram o meu povo como quem come pão (SI. 52, 5).
[25] Ó pastor, ó ídolo (Zac. 11, 17).
[26] Ou avaro, o que é culto de ídolos (Ef. 5, 5).
[27] E a avareza, que é serviço de ídolos (Col. 3, 5).
[28] A raiz de todos os males é a avareza (1 Tim. 6,10).
[29] Não podeis servir a Deus e às riquezas (Mt. 6,24).
[30] Nau do negociante, que traz de longe o seu pão (Prov. 31, 14).
[31] Não façais da casa de meu Pai casa de negociação (Jo. 2, 26).
[32] Pois podia ele vender-se por mais de trezentos dinheiros, e dar-se este produto aos pobres (Mc. 14, 5).
[33] No que fez, me fez uma obra boa (Mt. 26, 10).
[34] Para que foi este desperdício (ibid. 8)?
[35] Sacrificai sacrifício de justiça (SI. 4, 6).
[36] Pelo produto do seu trigo, vinho e azeite se multiplicaram (ibid. 8).
[37] Os que querem fazer-se ricos caem na tentação e no laço do diabo (1 Tim. 6, 9).
[38] E em muitos desejos inúteis e perniciosos, que submergem os homens no abismo da morte e da perdição (ibidem).
[39] Mas tu, ó homem de Deus, foge destas coisas, e segue em tudo a justiça, a piedade, a fé, a caridade, a paciência, a mansidão. Há-te com valor no santo combate da fé, trabalha por levar a vida eterna (ibid. 11 s).

Fonte: https://www.literaturabrasileira.ufsc.br/documentos/?action=download&id=49786