Sermão da Primeira Sexta-feira da Quaresma (1649)

SERMÃO DA PRIMEIRA SEXTA-FEIRA DA QUARESMA,

Em Lisboa, na Capela Real. Ano de 1649


Ego autem dico vobis: Diligite inimicos vestros, benefacite his qui oderunt vos, ut sitis filii Patris vestri, qui in caelis est[1].

I – As três grandes dificuldades do Evangelho do dia.

Dificultoso preceito! Dificultoso motivo! Dificultoso exemplo! Dificultoso preceito: Diligite inimicos vestros[2]. — Dificultoso motivo: Ego autem dico vobis[3]. — Dificultoso exemplo: Ut sitis filii Patris vestri[4]. — Negar ou desprezar a dificuldade, não é arte, nem valor, nem razão. Reconhecê-la e impugná-la, confessá-la e convencê-la, sim. Isto é o que pretendo fazer hoje, por isso à dificuldade do preceito ajuntei a do motivo e do exemplo. Estas três dificuldades, todas grandes, e cada urna maior, primeiro propostas e encarecidas, depois impugnadas e convencidas, serão, com a graça divina, as três partes do meu discurso. Ouçam-me com atenção os maiores e os melhores, porque esses são os que têm mais inimigos.

II – A dificuldade do preceito. O amor dos inimigos entre os gentios, os judeus e os cristãos. As objeções da razão natural e humana.

Começando pela primeira parte, é tão dificultoso preceito o de amar os inimigos, que em todas as leis o repugnaram os homens, e se armaram contra esta lei. Na lei da natureza a abominaram os gentios; na lei escrita a descompuseram os judeus; na lei da graça a desprezam e têm por afronta os cristãos. Abominaram tanto este preceito os gentios, que o lançavam em rosto aos cristãos, como escreve S. Justino, e diziam que era lei bárbara, irracional e impossível[5]. É verdade que na mesma lei da natureza a observou Jó, idumeu e gentio; mas era Jó o que a observou: Si gavisus sum ad ruinam ejus qui me oderat, et exultavi quod invenisset eum malum[6]. — Outros exemplos se acham deste amor nos escritores gentílicos; mas, como bem os argúi S. Gregório Nazianzeno, nos históricos foi mentira, nos oradores lisonja, e nos filósofos vaidade. Assim o supôs o mesmo Cristo hoje, quando disse:. Si enim diligitis eos qui vos diligunt, nonne et ethnici hoc faciunt[7]?

Os judeus também tinham expressa esta lei, como parte da natural e moral. No capítulo vinte e três do Êxodo: Si occurreris bovi inimici tui, aut asino errand, reduc ad eum[8]. — E no capítulo vinte e cinco dos Provérbios: Si esurierit inimicus tuas, ciba ilium[9]. — Mas foi tanto o horror que concebeu aquela gente, tanta a violência que experimentou, e tanto o ódio com que aborreceu este amor, que, sem respeito a Moisés nem a Deus, para mais coradamente quererem mal a seus inimigos, se fizeram inimigos da mesma lei. Conservaram o texto, mas adulteraram e romperam o sentido. Esta foi aquela glosa sem nome, que Cristo hoje emendou, tão antiga como ímpia: Audistis quia dictum est antiquis; Diliges proximum tuum, et odio habebis inimicuum tuum[10].

Finalmente, nós, os cristãos, que professamos e adoramos o Evangelho, como o observamos nesta parte? Os ódios públicos o dizem, e os ocultos não o calam. Conosco falou Cristo, quando disse: Ego autem dico vobis — porque então pregou a sua lei, e ensinou a todos a ser cristãos. Mas tem chegado a tal extremo de insânia o desprezo deste ponto que, honrando-nos da lei, fazemos honra de a não guardar. Se fôramos verdadeiros cristãos, cessava entre nós este preceito, porque não havia de haver inimigos a quem amar. Assim o presumiu Tertuliano, quando disse: Christianus nullius est hostis. — Disse que nenhum cristão é inimigo; melhor dissera, que nenhum inimigo é cristão. Porem, Cristo, que tão interiormente conhecia a perversa inclinação da natureza humana, e tão experimentavelmente começava já a padecerem si mesmo a repugnância e dificuldade do que mandava, por isso supôs que sempre havia de haver inimigos: Diligite inimicos vestros.

Temos posto em campo, contra a verdade e eqüidade deste famoso preceito, divididos em três esquadrões, porém unidos no mesmo parecer, debaixo da bandeira da lei da natureza, os gentios; debaixo das tábuas da lei escrita, os judeus; debaixo da cruz e lei da graça os cristãos; em suma, o gênero humano todo. E na testa deste imenso exército,como o gigante Golias ao dos filisteus, desafiando a parte contrária, e blasonando e defendendo a sua, quem? Não menos que a mesma razão natural e humana, armada no peito de dificuldades, e na cabeça de impossíveis, e argüindo e declamando fortemente assim: Vede se, sendo eu o que hei de responder, lhe enfraqueço alguma força, ou encubro e dissimulo algum argumento dos que podem apertar e encarecer.

É possível — diz a razão revestida em cada um de nós, ou cada um de nós nela — é possível que haja eu de amar a quem me aborreça, desejar bem a quem me faz todo o mal que pode, honrar a quem me calunia, interceder por quem me persegue, e não me desafrontar de quem me afronta? E que tudo isto há de caberem um coração de barro? Abalam-se e rebentam os montes, sai de si o mar, enfurecem-se os ventos, fulminam as nuvens, escurece-se e descompõe-se o céu, nem cabe em si mesmo o mundo com quatro vapores insensíveis, que se levantam da tetra; e que em um vaso tão estreito e tão sensitivo como o coração humano, hajam de caber juntas, e estar em paz todas estas contrariedades? Alma, corpo, que dizeis a este preceito? Ajunte-se a república interior e exterior do homem, chame a cortes ou a conselho todas suas potências, todos seus sentidos, e sejam ouvidos nesta causa todos, pois, toca a todos. Que é o que dizem? Todos repugnam, todos reclamam, todos se alteram, todos se unem e conjuram em ódio e ruína do inimigo. A memória, sem jamais se esquecer, representa o agravo; o entendimento pondera a ofensa; a fantasia afeia a injúria; a vontade implora e impera a vingança. Salta o coração, bate o peito, mudam-se as cores, chamejam os olhos, desfazem-se os dentes, escuma a boca, morde-se a língua, arde a cólera, ferve o sangue, fumegam os espíritos; os pés, as mãos, os braços, tudo é ira, tudo fogo, tudo veneno.

Acende e provoca esta batalha a trombeta da fama, dizendo e bradando que é honra; põe-se da parte do ódio e da vingança o mundo todo, que assim o manda, que assim o julga, que assim o aplaude, que assim o tem estabelecido por lei. Sobretudo, o tribunal supremo da razão assim o prova, porque amigo de amigos, e inimigo de inimigos, é voz que soa justiça, merecimento, proporção, igualdade. Finalmente, o mesmo Deus condena a meu inimigo, porque é meu inimigo: pois, se Deus o condena e aborrece, por que o hei de amar eu? Deus, que isto manda, não é o autor da natureza? E que faz a mesma natureza toda movida e governada pelo mesmo Deus? Vingam-se por instinto natural as feras na terra; vingam-se as aves no ar; vingam-se os peixes no mar, vinga-se a mansidão dos animais domésticos; vinga-se e cabe ira em uma formiga; e basta que a natureza viva naqueles átomos, para que neles ofendida se doa, neles agravada morda, neles tome satisfação da sua injúria E se a natureza, onde é incapaz de razão, não é capaz de sofrer sem razões; que o homem, criatura racional, a mais nobre, a mais viva e a mais sensitiva de todas, com a balança da mesma razão no juízo, não haja de pesar agravos, antes, contra a força e violência do mesmo peso, haja de pagar ódios com amor: Diligite inimicos vestros[11]? Não é homem quem aqui não pasma, ou não diga, olhando para si: Não posso.

III – Por que, não só não é dificultoso, como parece, o amar aos inimigos, senão muito fácil e natural ao homem, e tanto mais quanto for mais homem? A adulação ou vaidade de ter inimigos. Por que nos querem mal nossos inimigos? Os grandes exemplos da Escritura Sagrada. Sêneca, Temístocles, e a desgraça de não ter inimigos.

Estas são as dificuldades que todos reconhecem e chamam grandes neste preceito, que verdadeiramente é o grande. Mas, com estarem tão declaradas, e porventura encarecidas, eu espero mostrar e demonstrar que não só não é tão dificultoso como parece o amor aos inimigos, senão muito fácil e natural ao homem, e tanto mais quanto for mais homem. Primeiramente, isto de ter inimigos é uma sem-razão ou injúria tão honrada, que ninguém se deve doer ou ofender dela. Quem a não aceita como adulação e lisonja de sua mesma fortuna, ou tem pequeno ração, ou pouco juízo. Se o ter inimigos é tentação, antes é tentação de vaidade que de vingança. É motivo de dar graças a Deus, e não de lhes ter ódio a eles. Sabeis por que vos querem mal vossos inimigos? Ordinariamente é porque vêem em vós algum bem que eles quiseram ter, e lhes falta. A quem não tem bens, ninguém lhe quer mal. No nosso mesmo texto o temos. Não só diz Cristo que amemos a nossos inimigos, senão também que lhes façamos bem: Diligite inimicos vestros, et benefacite his qui oderunt vos. — Esta segunda parte parece mais dificultosa que a primeira, e talvez não só dificultosa, senão impossível, porque, para amar, basta a vontade, para fazer bem, é necessário ter com que o fazer. E se eu acaso for tão pobre e miserável que não tenha bem algum, como posso fazer bem a meus inimigos? Enganais-vos. Ninguém tem inimigos que lhes não possa fazer bem, porque quem não tem bens não tem inimigos. Tendes inimigos? Pois algum bem tendes vós, porque eles vos querem mal. E porque esta suposição universalmente é certa, por isso Cristo manda a todos os que tiverem inimigos que não só os amem, senão que lhes façam bem: Et benefacite his qui oderunt vos. — Quem tem bens, assim como é certo que há de ter inimigos, assim é certo que pode fazer bem.

O primeiro inimigo que houve neste mundo foi Lúcifer. Ele o primeiro traidor, que se revestiu da serpente, ele o primeiro falsário, que enganou a Eva, ele o primeiro ladrão e homicida, que não só roubou a Adão quanto possuía, mas até o despojou da mesma imortalidade. E por que quis tanto mal Lúcifer a Adão, que lhe não tinha feito nenhum mal? Porque tinha Deus revelado ao mesmo Lúcifer que se havia de fazer homem, e não anjo. Bem se viu na promessa da divindade: Eritis sicut dii[12]que essa era a espinha que ele trazia atravessada na garganta; e como Adão teve aquela fortuna que Lúcifer pretendeu, e não pôde alcançar, claro está que havia de ser seu inimigo. O primeiro inimigo também que houve entre os homens foi Caim; e por que teve tanto ódio Caim a Abel, sendo seu irmão? Porque ele só podia ofertar hortaliças, e Abel sacrificava cordeiros. Isto, e não a graça de Deus, era o que mais lhe doía e quebrava os olhos, como cavador enfim, que os não levantava da terra. O mesmo Caim se declarou, quando disse: Ecce ejicis me a facie terrae, et a facie tua abscondar[13]. — E não debalde, para executar o homicídio, levou o irmão ao campo: Egrediamur foras[14]para que no mesmo lugar onde pastavam os rebanhos, causa do ódio, ali desafrontasse a sua inveja. Também José padeceu os ódios, não de um, mas de dez irmãos, entre os quais, antes de o venderem, sempre andou vendido. E por que causa? Porque ele só valia mais que todos eles. Por isso era mais estimado do pai, e o trazia mais bem vestido que todos. Grande caso que, porque o seu pelote não era de pano de serra, como o dos outros, se resolvessem, sendo irmãos, a lho tingir no próprio sangue?

Se cavarmos bem ao pé de todas as inimizades e ódios do mundo, acharemos que estas são as raízes. Assim como o motivo de amar é o bem próprio, assim o de aborrecer são os bens alheios. Nem Saul havia de aborrecer a Davi, se não fora mais valente; nem Abimeleque a Isac, se não fora mais rico; nem os sátrapas a Daniel, se não fora mais sábio. Quando el-rei Assuero nomeou a Amã por primeiro-ministro de todo o império, diz o texto original que o exaltou e levantou o seu ódio sobre todos os grandes da corte: Exaltavit Aman, et posuit solium ejus super omnes principes[15]. — E que se seguiu a esta exaltação e preferência, superior aos demais? Coisa maravilhosa! O mesmo Espírito Santo quis que soubéssemos o que logo foram por dentro os que nesta eleição ficaram de fora. Em lugar das palavras referidas, tresladaram os Setenta Intérpretes, também com autoridade divina: Exaltavit eum, et prior sedebat omnibus inimicis suis. — Lá diz o texto que o exaltou sobre todos os grandes da corte; e cá diz a interpretação que sobre todos os seus inimigos. De maneira que nomear Assuero a Amã por maior que todos os outros, foi fazer que todos os outros fossem inimigos de Amã. Pela portaria das mercês entraram logo os ódios, e ao pé das provisões se assinaram todos os seus inimigos, não porque Ama lhes fizesse algum mal para lhe quererem mal, mas porque o rei e a fortuna lhe quis mais bem, e fez mais bem que a eles.

Se passarmos dos sólios aos estrados, também acharemos nos toucados estes malmequeres. Nenhuma gentileza há tão confiada, a que não piquem os alfinetes de ver a outrem mais bem prendida. Também o exemplo é de duas irmãs da mesma confraria. Raquel não era amiga de Lia, nem Lia de Raquel. E por quê? Porque a cada uma delas faltava o bem que lograva a outra A Lia não lhe parecia bem Raquel, porque era formosa; e Raquel não gostava de Lia porque era fecunda Deus repartia entre as duas irmãs os dois bens que elas mais estimavam, e elas, em lugar de se darem os parabéns, tomaram deles ocasião para não se quererem bem.

Todos os bens, ou sejam da natureza, ou da fortuna, ou da graça, são benefícios de Deus, e a ninguém concedeu Deus esses benefícios sem a pensão de ter inimigos. Mofino e miserável aquele que os não teve. Ter inimigos parece um gênero de desgraça, mas não os ter, é indício certo de outra muito maior. Ouçamos a Sêneca, não como mestre da Estóica, mas como estóico da corte romana. Uma das mais notáveis sentenças deste grande filósofo é: Miserum te judico, guia non fuisti miser: Eu te julgo por infeliz e desgraçado, porque nunca o foste. — Este porque, antes de explicado, é dificultoso, mas depois de explicado, muito mais. Como pode um honem ser desgraçado porque o não é? Porque há desgraças tão honradas, que tê-las, ou padecê-las, é ventura; não as ter, nem as padecer, é desgraça. E esta, de que falava Sêneca, qual era? Ele se explicou: Transiisti sine adversario viram: Foste tão mofino, que passaste toda a vida sem ter inimigo. — Não ter inimigos, tem-se por felicidade; mas é uma tal felicidade, que é melhor a desgraça de os ter que a ventura de os não ter. Pode haver maior desgraça que não ter um homem bem algum digno de inveja? Pois, isso é o que se argúi de não ter inimigos: Miserum te judico, quia non fuisti miser: tansiisti sine adversario viram. — Temístocles, em seus primeiros anos, andava muito triste; perguntado pela causa, sendo amado e estimado como era de toda a Grécia, respondeu: — Por isso mesmo. Sinal é, o ver-me amado de todos, que ainda não tenho feito ação tão honrada que me granjeasse inimigos. — Assim foi. Cresceu Temístocles, e com ele a fama de suas vitórias; e não destruía tantos exércitos de inimigos na campanha, quantos se levantavam contra ele na pátria. Para que vejam os odiados, ou pensionados do ódio, se se devem prezar ou ofender de ter inimigos. Aqueles inimigos eram as trombetas da fama de Temístocles; e os vossos são testemunhas em causa própria de vos ter dado Deus os bens que lhes negou a eles.

IV – A quem havemos de pagar a pensão de ter inimigos, e em quê? A inveja e o ódio mortal de Saul contra Davi, e o amor e respeito com que sempre guardou e perdoou Davi a vida a Saul. De que modo castigou Deus a inveja de Fenena. Se nossos inimigos não nos amam por amor dos bens que Deus nos deu, por que não amaremos nós a esses inimigos por amor do Deus que nos deu os bens? O discreto e galante memorial presentado por Marcial ao Imperador Domiciano. Por que acrescenta Deus os bens ao invejado? O exemplo de Ana e Fenena, no Livro Primeiro dos Reis.

Suposto, pois, que o ter inimigos é pensão dos benefícios que recebemos de Deus, segue-se saber a quem havemos de pagar esta pensão, e em quê. A pensão havemo-la de pagar a Deus, que nos fez o benefício; e a paga há de ser em amor dos inimigos, que o mesmo Deus nos manda amar: Diligite inimicos vestros. — Eles querem-vos mal pelos bens em que Deus vos avantajou a eles? Pois vós haveis de pagar a pensão desses bens a Deus, em querer e fazer bem aos que vos querem mal. Um dos homens mais beneficiados de Deus que houve neste mundo foi Davi; e uma das mais famosas ações de Davi, foi o desafio seu com o gigante, e a vitória que alcançou dele. E que se seguiu de uma façanha tão notável, e tão importante à honra, à liberdade, e à conservação do reino de Israel? Da parte de el-rei Saul foi a inveja e ódio mortal contra Davi; e da parte de Davi o amor e respeito com que sempre guardou e perdoou a vida a Saul. Tinha Deus dado licença a Davi para que tirasse a vida a Saul, a quem havia de suceder na coroa; e ele que fez, tendo-o muitas vezes debaixo da lança? Sempre lhe guardou a vida muito melhor que os capitães e soldados da sua guarda[16]. Assim se viu naquela noite, em que, estando Saul em campanha, Davi ocultamente entrou na tenda real, e, dormindo ele, lhe tomou da cabeceira a lança, e com ela na mão bradou de fora ao general Abner que guardasse melhor ao seu rei. Esta ação antepõe S. João Crisóstomo justamente à do sacrifício de Abraão, porque maior valor e maior bizarria é não tirar um homem a vida a seu inimigo, tendo licença de Deus, que tirar a vida a seu filho, sendo mandado por Deus.

Pois, se Deus tinha dado esta licença a Davi, por que não usa dela? Porque o mesmo Deus, que por uma parte lhe dava licença que matasse a seu inimigo, por outra lhe atava as mãos para que o não fizesse. A licença de matar o inimigo era privilégio; o não o matar, antes amá-lo e fazer-lhe bem, era lei geral; e Davi teve por melhor guardar a lei sem obrigação, que usar do privilégio, porque, se o privilégio o desobrigava de se não vingar do ódio do seu inimigo, a pensão de pagar e agradecer a Deus a causa do mesmo ódio era nova circunstância da mesma lei, que mais nobre e mais apertadamente o obrigava a o amar e lhe querer bem. Como se dissera Davi: Qual foi a causa da inveja e ódio com que me persegue Saul? Foi aquela singular mercê que Deus me fez na vitória que em seu nome alcancei do gigante; pois, já que Saul é tão ingrato, que me paga um tão grande serviço com me querer mal, eu hei de sertão agradecido a Deus, e à causa dessa mesma ingratidão, que a hei de pagar com lhe fazer bem. Inverso gratus officio — disse com profunda elegância S. Zeno Veronense.

Julgue agora todo o homem — e tanto mais quanto formais homem — se é coisa dificultosa e impossível, antes muito fácil e natural, amar os inimigos, sendo este amor pensão dos benefícios de Deus, e os mesmos benefícios ocasião desse ódio. Pergunto — e haja quem me responda — Esses bens por que vos não querem bem vossos inimigos, quem vo-los deu? Deus. — Pergunto mais: E esse preceito de amar os mesmos inimigos, quem vo-lo pôs? — Também Deus. — Pois, se vossos inimigos não vos amam, por amor dos bens que Deus vos deu, por que não amareis vós a esses inimigos por amor do Deus que vos deu os bens? Se esses bens são poderosos para causar ódio em quem os inveja, por que não serão poderosos para causar amor em quem os logra? Lograi-os, e não os queirais perder, porque quem não paga a pensão merece que o privem do benefício. O mesmo Davi o disse assim, e confessou diante de Deus: Si reddidi retribuentibus mihi mala, decidam merito ab inimicis meis inanis (SI. 7, 5): Se eu, Senhor, não dei a meus inimigos bem por mal, senão mal por mal, justamente me derrubareis do estado em que me tendes posto, e me privareis e despojareis de todos os bens que me tendes dado: Decidam mento ab inimicis meis inanis. — Reparemos muito naquele merito: justamente. E qual é o fundamento dessa justiça? É a lei do amor dos inimigos, e de querer e fazer bem aos que nos querem mal. E como Deus nos dá os bens com esta pensão e com esta obrigação, justamente são privados do benefício os que não guardam a obrigação e pensão com que lhes foi dado.

Pelo contrário — notai muito o que quer dizer — pelo contrário, se guardardes a lei de amar os inimigos, não só vos não tirará Deus os bens, porque eles vos querem mal, senão que de tal sorte vos acrescentará os mesmos bens, que a vós serão prêmio do vosso amor, e a eles castigo do seu ódio. Lembra-me a este propósito um discreto e galante memorial apresentado ao imperador Dominiciano, o qual dizia assim: Diz Marcial que ele tem em Roma um inimigo, o qual se dói muito das mercês que Vossa Majestade lhe faz; pede à Vossa Majestade lhas faça maiores, para que o dito seu inimigo se doa mais: Da Caesar tanto tu, coagis ut doleat — Isto mesmo faz a justiça e liberalidade divina. Acrescenta os bens ao invejado, para maior castigo e maior dor do inimigo invejoso. Para que aprova mostrasse a coerência e consequência natural deste discurso, quis que no-la desse o mesmo Davi, e no mesmo Saul. Mas, vindo à combinação do caso, achei que ainda prova mais do que eu tinha prometido, porque não só prova que acrescenta Deus os bens ao invejado, para maior castigo e dor do invejoso, mas que diminui e tira também ao invejoso, para maior honra e vingança do invejado. Seja pois, isto o que digo.

Quando Davi, dentro da mesma cova e que tinha a Saul já sepultado antes de morto, lhe perdoou a vida, disse-lhe Saul que então conheceu e soube decerto que ele havia de reinar, e Deus lhe havia de dar a sua coroa: Scio quod certissime regnaturus sis (1 Rs. 24,21): Agora acabei de entender certissimamente que tu, e não eu, hás de ser o rei. — E donde colheu Saul esta conseqüência tão certa? De duas premissas: uma da sua parte, outra da parte de Davi. Da sua parte, porque Saul dava mal por bem a Davi; e da parte de Davi, porque ele dava bem por mal a Saul. E não podia haver mais justo prêmio para um, nem mais justo castigo para outro, que acrescentar os bens ao invejado, para maior dor do invejoso, e tirar os bens ao invejoso para maior vingança do invejado. Não é isto interpretação de doutores, senão texto expresso da Escritura Sagrada, no capítulo terceiro do Segundo Livro dos Reis: Facta est longa concertatio inter domam Saul, et domam David (2 Rs. 3,1): Houve grande competência entre a casa de Saul e a casa de Davi. — David proficiscens, et se ipso semper robustior (ibid.): Davi e a sua casa sempre crescendo e cada dia mais forte. — Domus autem Saul decrescens quotidie (ibid): E a casa de Saul sempre diminuindo, e cada dia mais fraca. — Para que vejam os que se amam a si e desejam o seu aumento e das suas casas, se é melhor ser inimigo, como Saul, ou amar os inimigos, como Davi.

E para que também neste exemplo passemos dos sólios aos estrados, onde não são menores os ódios e as invejas, Elcana, príncipe do povo de Israel, ao uso daqueles tempos, tinha duas mulheres, uma chamada Ana, estéril como Raquel, outra chamada Fenena, fecunda como lia Ana, triste pela sua desgraça, encomendava-se a Deus, mas não queria mal a Fenena; Fenena, soberba com a sua fortuna, desprezava e tratava mal a Ana. E qual foi o sucesso de ambas? Também é texto expresso: Donec sterilis peperit plurimos, et quae muitos habebat finos, infirmata est[17]. — Trocou as mãos a divina justiça, e a Fenena tirou-lhe os filhos que tinha, e a Ana deu-lhe os que não tinha, mas com tal proporção e energia da divina justiça, diz a tradição dos hebreus, que a cada filho que nascia a Ana, morriam dois a Fenena Concorda com esta tradição muito ajustadamente a mesma História Sagrada, porque dela consta que os filhos que tinha Fenena, eram Dez, e os que depois teve Ana foram cinco. De sorte que, ao mesmo compasso com que deus ia favorecendo e levantando a Ana, que não queria mal a Fenena, ia justamente castigando e abatendo a Fenena, que tratava mal a Ana: até aqui a que carecia de filhos, teve muitos, e a que contava tantos, ficou sem nenhum: Donec sterilis peperit plurimos, et quae multus habebat filias, infirmata est.

Finalmente que, de todo este discurso-mais largo do que eu pretendia-deve colher e entender a natureza humana, em um e outro sexo, contra a razão enganada nas suas falsas balanças, contra o mundo louco nas suas leis ignorantes e vis, e contra o exemplo brutal e indigno dos animais, se é mais natural, mais útil, mais fácil, mais generoso, mais honrado e descansado conselho, ou querer e fazer mal aos que nos querem mal, ou querer e fazer bem, e amar de coração e de obras, como manda o preceito de Cristo, a nossos inimigos: Diligite inimicos vestros, et benefacite his qui oderunt vos.

V – A segunda dificuldade do Evangelho: o motivo. As infinitas razões e motivos que o Senhor pudera dar para persuadir o que mandava. Se a divindade e humanidade de Cristo tinha tantos motivos com que nos persuadir o amor dos inimigos, por que, deixados todos, só disse: Ego autem dico vobis?

A esta primeira dificuldade, do preceito, segue-se a segunda, do motivo: Ego autem dico vobis. — Os antigos disseram: Sê amigo de teus amigos, e inimigo de teus inimigos; porém eu — diz Cristo — digo o contrário. — E em dizer Cristo o contrário absoluta e nuamente, sem dar a razão do seu dito, aqui está a dificuldade. Se o Divino Mestre refuta e condena uma opinião tão antiga e recebida, por que não dá a razão? Se o faz como legislador, os legisladores põem a lei, e dão a razão da lei, principalmente quando revogam uma, e promulgam e introduzem outra. Pois, se a lei de amar os próprios inimigos era tão nova, e se reputava por tão repugnante e dificultosa a sua observância, por que não declara Cristo a razão da justiça, da conveniência, da importância, da necessidade, e não dá outro motivo do que diz, senão: Eu digo: Ego autem dico vobis?

Infinitas são as razões e motivos que o Senhor pudera dar para persuadir o que mandava. Ama a teu inimigo — pudera dizer — para que ele também te ame, porque não há modo, nem meio, nem diligência, nem feitiço mais eficaz para ser amado que amar. — Ama a teu inimigo, porque, amando a ele, me amas a mim; e se ele te não merece que o ames, mereço-te eu que me ames nele. Ama a teu inimigo porque, se ele te ofende com o seu ódio, mais te ofendes tu com o teu: o teu te mete no inferno, e o seu não. Ama a teu inimigo, porque amigos já os não há, e, se não amares Os inimigos, estará ociosa a tua vontade, que é a mais nobre potência, e privará teu coração do exercício mais natural, mais doce mais suave, que é o amor. Ama a teu inimigo, por que o não ajudes contra ti, e tenhas dois inimigos: um que te queira mal, e outro que te faça o maior de todos. Ama a teu inimigo, porque, se ele o faz com razão, deves emendar-te, e, se contra razão, emendá-lo. Ama a teu inimigo, porque, se o seu ódio vil é filho da inveja, mostre o teu amor generoso que por isso não é digno de vingança, senão de compaixão.

Ama a teu inimigo, porque, ou ele é executor da divina justiça, para castigar a tua soberba, ou ministro da sua providência, para exercitar a paciência e coroar a tua constância. Ama a teu inimigo, porque Deus perdoa a quem perdoa, e mais nos perdoa ele na menor ofensa, do que nós ao ódio de todo o mundo nos maiores agravos. Ama a teu inimigo, porque as setas do seu ódio, se as recebe com outro ódio, são de ferro, e, se lhe respondes com amor, são de ouro. Ama a teu inimigo, porque melhor é a paz que a guerra, e nesta guerra a vitória é fraqueza, e o ficar vencido, triunfo. Ama ateu inimigo porque ele, em te querer mal, imita o demônio, e tu, em lhe querer bem, pareces-te com Deus. Ama a teu inimigo, porque esse mesmo inimigo, se bem o consideras, é mais verdadeiro amigo teu que os teus amigos; ele estranha e condena os teus defeitos, e eles os adulam e lisonjeiam. Ama a teu inimigo, porque, se o não queres amar porque é inimigo, deves-lo amar porque é homem. Ama a teu inimigo, porque, se ele te parece mal, amando-o tu, não serás com ele. Ama a teu inimigo, porque as maiores inimizades cura-as o tempo, e melhor é que seja o médico a razão que o esquecimento. Ama a teu inimigo, porque os mais empenhados inimigos dão-se as mãos, se o manda o rei; e o que se faz sem descrédito, porque o manda o rei, por que se não fará porque o manda Deus? Finalmente, sem subir tão alto, ama a teu inimigo, porque, ou ele é mais poderoso que tu, ou menos: se é menos poderoso, perdoa-lhe a ele, se é mais poderoso, perdoa-te a ti.

Esta última razão é de um filósofo gentio, Sêneca, e de outro também filósofo e gentio, e não menos discreto que ele, antes muito mais, e mais sólido. O grande Plutarco escreveu um famoso e doutíssimo tratado dos bens e utilidades que o homem pode tirar do ódio de seus inimigos. Se das feras e das serpentes tiraram tantas utilidades os homens, por que as não tirará a mansidão de uns a fereza dos outros? Hércules, da pele do leão fez a sua maior gala; Salomão, dos dentes do elefante fez o seu trono; a medicina, da cabeça da víbora fez a melhor triaga; e não há veneno tão mortal, que, calcinado e temperado como convém, não se converta em antídoto. Pois se a divindade e humanidade de Cristo tinha tantas motivos, ou conformes à natureza, ou superiores a ela, com que nos persuadir o amor dos inimigos, por que, deixados todos, só disse: Ego autem dico vobis? — Porque ele é o mais forte, o mais poderoso e o mais eficaz motivo de todos. Ajuntem-se todos os filósofos de Atenas, todos os oradores de Roma, e, o que é mais, todos os profetas de Jerusalém; façam discurso, inventem razões, excogitem argumentos, formem silogismos, demonstrações e evidências para persuadir um homem a que ame seus inimigos: todos estes motivos comparados com um ego dico vobis de Cristo, não pesam um átomo.

VI – A onipotência infinita e imensa da palavra de Cristo. Como do dizer ou não dizer de Deus dependem as existências e as negações, o tudo e o nada, o ser e o não-ser das coisas? Por que, para os homens amarem a seus inimigos, como Cristo lhes mandava, nenhuma razão ou motivo podia Cristo alegar que dizer: Eu o digo? Os motivos da fé e os motivos da caridade.

Pesemos e consideremos bem o poder, ou a onipotência infinita e imensa daquele ego dico. Antes da criação do mundo não havia nada. Apareceu subitamente esta grande máquina que vemos. E quem a fez? A metade do nosso texto: Ego dico. — O vobis ainda o não havia, porque não havia nada. E se não havia nada, como se fez tudo isto? Porque Deus o disse: Ipse dixit, et facto sunt[18]. — Não havia céu. Disse Deus: Faça-se o céu — e fez-se o céu. Não havia terra. Disse Deus: Faça-se a terra — e fez-se a terra. Estava tudo às escuras. Disse Deus: Faça-se a luz — e fez-se a luz. Pois, se o dizer de Deus é tão poderoso, que de nada fez tudo, e do não-ser tirou o ser de todas as coisas, que motivo podia nem pode haver tão poderoso para que de não ser amigos nos fizesse ser amigos, com o ego dico? Quem é este Ego? É Deus, infinito Ser. Quem este Ego? É Deus, infinita Sabedoria. Quem é este Ego? É Deus, infinita Onipotência. Quem é este Ego? Deus, infinita Verdade. Pois, se um só dizer deste Ego: Ipse dixit — bastou para dar todo o ser ao não-ser, por que não bastará para que sejamos o que ele quer, depois de ele nos dar o ser que temos?

Vede o que fizeram todas as criaturas depois de Deus lhes dar o ser, bastando, para que o fizessem, outro dizer somente do mesmo Deus. Aqui entra já todo o nosso texto: Ego dito vobis. — Disse Deus à terra que produzisse as plantas, sem outra semente ou água que a regasse mais que a mesma palavra; e no mesmo ponto os montes, os vales, os campos se vestiram todos de verde; nasceram as ervas, brotaram as flores, levantaram-se as árvores com os ramos cobertos e sombrios de folhas, e carregados de tanta variedade de frutos. Disse ao elemento da água que produzisse os peixes e as aves; e logo começaram a nadar nas mesmas águas o vulgo dos peixes menores, em cardumes de tão diversas cores e figuras, uns lisos, outros encrespados de escamas, e, no pego mais profundo, as baleias e os outros gigantes e monstros do mar, como galeaças da natureza, remando com as barbatanas, e batendo ou açoitando as ondas, como senhoras delas. As aves, pintadas de diversas cores, ou vestidas de uma só, com liberdade de vagar por três elementos, umas, mais afetas à pátria onde nasceram, habitaram as ribeiras, os rios, os lagos; outras fabricaram seus ninhos entre a frescura das árvores, outras nos cerros mais altos, enquanto não havia tones, e todas reconheceram por rainha a águia, porque ela só voa e sobe direita até se esconder nas nuvens. As feras, que povoaram os bosques, as serpentes, que arrastando saíram das covas, e os rebanhos inocentes e pacíficos, que cobriam e fecundaram os prados, também foram partos de um só dizer de Deus à terra.

Mas, se a terra e a água, os dois mais baixos e grosseiros elementos, produziram tantos e tão vários e tão admiráveis efeitos, o elemento do ar e do fogo, e, sobretudo, os orbes celestes, tanto mais altos e mais nobres, por que não produziram coisa alguma? Porque Deus lho não disse. Se Deus dissera aos céus que produzissem as estrelas, eles as produziram; mas não as produziram, porque o mesmo Deus, que já as tinha criado do nada, quando criou a luz, as pôs e repartiu pelo firmamento: Posuit eas in firmamento caeli[19]. — O mesmo se há de entender dos dois elementos, ar e fogo. Eles estéreis, sem nada, os outros fecundos, com tantas criaturas, porque o nada, e o que tem ser, tudo depende unicamente do dizer ou não dizer de Deus. Admiravelmente o evangelista S. João. Tanto que no princípio nomeou o Verbo Divino, que é a palavra de Deus: Et Verbum erat apud Deum[20]logo acrescentou: Omnia per ipsum facta sunt, et sine ipso factum est nihil (Jo. l, 3): — Tudo o que se fez, e o nada que se não fez, uma e outra coisa dependeu totalmente do dizer ou não dizer de Deus. — Se Deus disse, por meio de sua palavra se fez tudo: Omnia per ipsum facto sunt; — e se Deus não disse, por que faltou a sua palavra, se não fez nada: Et sine ipso factum est nihil. — E como do dizer ou não dizer de Deus dependem as existências e as negações; o tudo e o nada, o ser e o não-ser das coisas, para os homens amarem a seus inimigos, como Cristo lhes mandava: Diligite inimicos vestros — e para lhes não terem ódio, como dizia a tradição dos antigos: Odio habebis inimicum tuum: Para o tudo deste amor, e para o nada daquele ódio, nenhuma razão ou motivo podia Cristo alegar nem mais eficaz, nem mais forte, nem mais irrefragável, que dizer: Eu o digo: Ego autem dito vobis.

Houve-se Cristo — notai muito — com as nossas vontades para o amor dos inimigos, como se há com os nossos entendimentos para os mistérios da fé. Se perguntarmos aos teólogos, qual é o motivo por que cremos os mistérios da fé sem nenhuma dúvida, respondem todos com S. Paulo, que o motivo — a que eles chamam objeto formal — é guia Deus dixit: porque Deus o disse. — Todas as outras razões — que também se chamam manuduções — bastam para conhecer o entendimento com evidência, que os mistérios da fé não são incríveis, antes que evidentemente são mais críveis que tudo o que propõem as seitas e erros contrários; mas, para fazer um ato verdadeiro e sobrenatural de fé, não há nem pode haver outro motivo, senão porque Deus o disse: Quia Deus dixit. De maneira que, quando Cristo, para persuadir o amor dos inimigos, disse somente: Ego autem dico vobis — quis por modo altíssimo e verdadeiramente divino, que o que é único motivo da fé, fosse também único motivo da caridade, e que a mesma caridade, nas repugnâncias deste amor, nos cativasse as vontades, assim como a fé, nas dificuldades dos seus mistérios, nos cativa os entendimentos: In captivitatem redigentes omnem intellectum in obsequium Christi[21].

Uma das maiores dificuldades da nossa fé, é o mistério altíssimo e profundíssimo da Santíssima Trindade, em que confessamos a Deus por trino e uno. Creio que o Padre é Deus, creio que o Filho é Deus, creio que o Espírito Santo é Deus, e, crendo juntamente que estas três pessoas são realmente distintas, creio outra vez, e mil vezes, que a pessoa do Espírito Santo Deus, não são três deuses, senão um só Deus. E alcança ou compreende o meu entendimento como isto é, ou pode ser? Não. Pois, se o não entendo nem o alcanço, como o creio, e com tal certeza que darei por ela a vida? Quia Deus dixit: Porque Deus o disse: Tres sunt qui testimonium dant in caelo: Pater, Verbum et Spiritus Sanctus et hi tres unam sunt[22]. — Outra grande dificuldade da fé, e mais sensível ainda, é o mistério ocultíssimo e patente do Santíssimo Sacramento do altar. A vista diz que vê pão, o olfato que cheira pão, o gosto que gosta pão, o tato que apalpa pão, e até o ouvido quando se parte a hóstia, que ouve pão; e eu, rindo-me dos meus próprios sentidos, e do testemunho conteste de todos cinco, creio que ali não há substância de pão, e que a substância que debaixo daquele acidentes se oculta, inteira e perfeita em qualquer parte mínima deles, é todo o corpo de Cristo. E por que creio firmissimamente tudo isto, que não vejo nem sinto contra o que parece que estou sentindo e vendo? Porque o mesmo Cristo o disse: Hoc est cor pus meus[23]. — Pois, assim como este único dizer de Cristo é uma razão sobre todas as razões, um motivo mais poderoso que todos os motivos, e uma escuridade mais clara que a luz do sol, para eu crer e defender até à morte o que ele disse, assim o mesmo Senhor e legislador divino, para persuadir e estabelecer nos corações dos homens o amor dos inimigos, contra todas as dificuldades, repugnâncias e rebeldias da nossa inclinação, não podia, nem devia alegar outras razões, outros motivos ou outras evidências mais fortes, que dizer: Amai a vossos inimigos, porque eu sou o que o digo: Ego autem dico vobis.

VII – Como um dito sonhado de um Deus não crido bastou para amansar a ira e ataras mãos a Labão, gentio e idólatra. A grande razão por que Deus tinha chamado o exército de Nabucodonosor para a destruição e cativeiro de Jerusalém. Quem se há de levantar contra nós no dia do Juízo?

Agora, para confusão e afronta dos que, com nome de cristãos, não obedecem à fé deste heróico motivo, ouçam o que porventura não ouviram. Fugiu Jacó ocultamente da casa de Labão, seu sogro, com as suas duas filhas, e tudo o que em seu serviço, favorecido de Deus, tinha em tantos anos adquirido. Chegou esta notícia a Labão, que estava ausente, e tendo o secreto da partida por traição, e o que levava consigo Jacó por roubo, ajuntando uma grande tropa de parentes e criados, partiu em seguimento dele, com ânimo de o despojar de quanto levava, e ainda da mesma vida; mas, quando chegou subitamente à sua presença, que foi ao sétimo dia, todo o susto de tão repentina e estrondosa tempestade se resolveu nestas palavras: Nunc quidem valet manus mea reddere tibi malum: sed Deus patris vestri heri dixit mihi: Cave ne loquaris contra Jacob quidquam durius (Gên. 31, 29): Bem vês, ó Jacó — lhe disse Labão — que tu, fugitivo, e eu, tão poderosamente armado neste deserto, te pudera fazer todo o mal que quisesse, e tu me merecias; mas não o faço, porque o Deus de teus pais me disse ontem que nem por obra, nem por palavra te desgostasse. — Já estou vendo que todos têm reparado muito, não tanto nesta mudança tão súbita de Labão, quanto naquela palavra Deus patris vestri. Não diz que não fazia mal a Jacó porque lho disse Deus, senão porque lho disse o Deus de seus pais. E a razão desta diferença é porque o Deus, em que cria Labão, não era o Deus verdadeiro, em que cria Jacó, senão os seus ídolos; por sinal que essa era uma das suas queixas, dizendo que Jacó lhos levava roubados: Cur furatus es deos meos[24]? — E não era Jacó, senão sua filha Raquel a que lhos roubara. Pois, se Labão era gentio e idólatra, e não cria no Deus de Jacó, como fez tanto caso do que esse Deus, não crido, lhe disse: Deus patris vestri dixit mihi? — Ide comparando este dixit mihi com o dico vobis. Mas ainda teve outra grande circunstância este caso.

O modo com que Deus disse a Labão que não ofendesse a Jacó foi em sonhos. Assim o afirma o texto: Vidit in somais dicentem sibi Deum: Cave ne quidquam aspere loquaris contra Jacob[25]. — Pois, se o dito era dito sonhado, e o Deus era Deus não crido, como fez tanto caso Labão do Deus e do dito? Aqui vereis quanto pode e quanta reverência merece um dixit mihi de Deus. Pergunto: Este homem, Cristo Jesus, que disse: Ego autem dico vobis — cremos de fé que é verdadeiro Deus? — Sim. — E estas mesmas palavras: Ego dico vobis — cremos também de fé que esse Deus as disse? Também. Pois, se a um gentio idólatra ofendido, poderoso, irado, e empenhado na vingança, um dito sonhado de um Deus não crido bastou para lhe refrear a paixão, amansar a ira, e atar as mãos, para que podendo, se não vingasse, nem dissesse uma palavra áspera contra quem lhe tinha feito tantos agravos, e tudo isto pelo respeito somente de um dixit mihi — como pode tão pouco com a nossa fé, e com as nossas inimizades o ego dico vobis, não só do Deus verdadeiro, mas do Deus que deu a vida por inimigos?

Já eu me contentara com deixar à nossa consideração esta vergonhosa conseqüência, por lhe não chamar ímpia; mas pois Deus e a sua palavra é o ofendido, seja também ele o que se queixe. Quando Nabucodonosor veio sitiar a cidade de Jerusalém em tempo de el-rei Joaquim, havia trezentos anos que nos desertos vizinhos habitavam, como ermitães uns pastores chamados recabitas, os quais, por temor dos inimigos, se recolheram à cidade. Então falou Deus ao profeta Jeremias, e lhe disse que hospedasse um dia aos recabitas em um cenáculo do Templo, e, quando estivessem à mesa, lhes dissesse que bebessem do vinho que nela lhes teria preparado. Fê-lo assim o profeta; mas eles responderam que não podiam nem haviam de beber vinho, porque Jonadab, filho de Recab, de quem traziam o nome e a origem, lha tinha proibido: Non bibemus vinum, quia Jonadab filius Rechab, pater noster, praecepit nobis, dicens bibetis vinum, vos et filii vestri, usque in sempiternum (Jer. 35, 6). — Ouvida a resposta, esperava Jeremias o mistério e fim com que Deus lhe mandara fazer aquela experiência. E a declaração do enigma, ou a segunda parte da parábola, foi que o mesmo Jeremias mandasse chamar os magistrados da cidade, e que, com aquele exemplo à vista, lhes notificasse a grande razão com que Deus tinha chamado o exército de Nabuco, executor de sua justiça, para a destruição e cativeiro de Jerusalém. As palavras da conseqüência e cominação divina foram estas: Numquid non recipietis disciplinam, ut obediatis verbis meis, dicit Dominus (Jer. 35, 13): E possível — diz Deus — que tão pouco respeito e tão pouca obediência se há de guardar em Jerusalém ao que eu digo? — Praevaluerunt sermons Jonadab, filii Rechab, quos praecepit filiis suis ut non biberent vinum, et non biberunt us que ad diem hanc; Ego autem locutus sum ad vos, de mane consurgens et loquens, et non obedistis mihi (ibid.14): Com os filhos de Recab, moabitas e gentios puderam tanto as palavras de Jonadab, que, proibindo-lhes uma coisa que é lícita a todos os homens, haverá tantos centos de anos a observam sempre até hoje; e que eu — diz Deus — falando aos filhos de Israel, desde pela manhã até à noite, e proibindo-lhes o que não é lícito a nenhum homem, nenhum caso façam do que Ihes digo? — Tanto respeito ao que diz Jonadab, e tão pouco ao que diz Deus? Vede se o ego autem locutus sum ad vos, é o mesmo que o ego autem dico vobis.

Assim como os ninivitas se hão de levantar no dia do Juízo contra os judeus, porque eles creram ao que disse Jonas, e os judeus não criam o que dizia Cristo, assim os recabitas se hão de levantar naquele dia contra Jerusalém, porque eles creram e observaram o que lhes disse Jonadab, e Jerusalém não cria nem observava o que dizia Deus. E contra nós os cristãos, quem se levantará? Os turcos. O mesmo preceito de não beber vinho, que pôs Jonadab aos recabitas, pôs Mafoma aos seus sequazes. E que maior afronta e vergonha da cristandade, que resistir o turco ao seu apetite e à sua sede, porque o manda o Alcorão e o disse Mafoma, e não mortificar o cristão a sua paixão e o seu ódio, porque o prega o Evangelho e o diz Cristo? Mas não é necessário ir tão longe, nem sair de casa. Sabeis quem se há de levantar contra nós no dia do Juízo? Nós mesmos. Dizei-me: E se estais tão ofendido e tão agravado de vosso inimigo, por que vos não vingais? — Por me não perder. — Bem. E por que beijais aquela mão que desejais ver cortada? — Porque dependo dela. — Melhor. E por que lisonjeais com a boca este e aquele, que aborreceis com o coração? Porque assim importa às minhas conveniências. Pois, o que fazeis por essa política vil, baixa e infame, não o fareis porque o manda Cristo? Desengana-se qualquer outro amor dos inimigos, ainda que fosse verdadeiro por outras causas, que todo é hipocrisia e vileza. Só é racional, virtuoso e cristão o que não tem outro motivo nem outro porquê, senão porque Cristo o disse: Ego autem dito vobis.

VIII – A terceira dificuldade do Evangelho: o exemplo apresentado por Cristo para imitar o amor dos inimigos. Se Deus não ama a seus inimigos, antes os aborrece e lhes tem ódio, como pode ser exemplo aos homens de como hão de amar a seus inimigos? Os ódios de Deus e os amores dos homens. De como o ódio de Deus pode servir de exemplo ao nosso amor A batalha entre Deus e Moisés no deserto.

Vencida a dificuldade do preceito e do motivo, resta só a terceira e última, e a mais difícil de todas, que é o exemplo. O exemplo para imitar o amor dos inimigos, com que o divino Mestre conclui a sua doutrina, não é outro, nem menor, que o do mesmo Deus, seu Pai e nosso: Ut sitis filii Patris vestri, qui in caelis est[26]. — Mas esta mesma soberania e divindade do exemplo é a que o faz mais dificultoso, não por ser tão alto e sublime, mas porque é totalmente contrário e repugnante à própria imitação que persuade. A imitação há de ser tão parecida ao exemplo, e o exemplo tão semelhante à imitação, como a idéia e o ideado, o original e a cópia, a representação e a coisa representada. E entre o amor dos inimigos, a que Deus obriga o homem, há tanta diferença da parte do homem, e tanta repugnância da parte de Deus, não quanta pode haver entre um amor e outro amor, senão quanta há, com toda a propriedade, entre o verdadeiro amor e o verdadeiro ódio. Logo, nem Deus pode ser exemplo ao homem, nem o homem pode imitar a Deus no amor dos inimigos. Os inimigos de Deus são os que estão em pecado, e fora da sua graça; e assim como Deus ama aos seus amigos: Ego diligentes me diligo[27]assim não ama a seus inimigos, antes os aborrece, e lhes tem ódio: Altissimus odio habet peccatores[28] — diz o Eclesiástico, e o Salmista: Odisti omnes qui operantur iniquitatem[29]. — Logo, se Deus não ama a seus inimigos, antes os aborrece e lhes tem ódio, como pode dar exemplo, nem ser exemplo aos homens de como hão de amar a seus inimigos? Esta é a grande dificuldade do exemplo que a divina sabedoria de Cristo nos propõe, a que eu antes quisera ouvir a resposta, que ter obrigação de a dar. Mas, a grande reparo grande solução.

Digo primeiramente que nos propõe Cristo por exemplo a Deus, que não ama a seus inimigos, quando nos manda que os amemos, porque é tal a bondade de Deus, que pode o seu ódio servir de exemplo ao nosso amor. Assaz fará o nosso amor se chegar a se parecer com o seu aborrecimento. De maneira que a força, a energia, e alma desta razão vem a ser: Sede amigo dos vossos inimigos, assim como Deus é inimigo dos seus. — Considerai a Deus não com amor, senão com ódio aos homens, e quando o vosso amor imitar o seu ódio, então satisfareis ao meu preceito, porque, se tratardes a vossos inimigos como Deus trata aos seus, amareis mais finalmente os vossos inimigos, do que amais a vossos amigos. Esta é a minha resposta. E se não tenho bem declarado a força do exemplo de Cristo, outro exemplo, de Deus com ódio, e dos homens com amor, o declarará melhor.

Libertados os filhos de Israel do cativeiro do Egito, fundiram e adoraram no deserto o ídolo do bezerro; e ofendeu-se Deus tanto, não só da cegueira, mas da ingratidão de tão abominável gente, que se resolveu a lhes tirar a vida a todos, e os sepultar naquele mesmo deserto. Deu parte da sua resolução a Moisés, que estava com o mesmo Senhor no monte, revelando-lhe o que em sua ausência tinham cometido; porém, Moisés, pondo-se da parte do povo, resistiu à sentença de Deus com tais réplicas e instâncias de uma e outra parte, como se entre os dois se dera uma bem jogada batalha. Deus dizia que havia de castigar, Moisés replicava que não; Deus alegava pela sua afronta, Moisés alegava pelo crédito e fama do nome de Deus; Deus prometia acrescentar a Moisés, Moisés instava que não se havia de diminuir o povo; Deus, falando com Moisés, chamava-lhe o povo teu, como quem o lançava de si, e Moisés, falando com Deus, chama-lhe Senhor, o povo vosso, como quem o queria interessar no perdão e conservação de coisa sua; finalmente, a contenda se acendeu de parte a parte de tal sorte, que nas palavras, e no que disseram Deus e Moisés, Deus parece que excedeu os termos do seu próprio decoro, e Moisés os da sua sujeição e obediência, e ainda os da estimação que fazia da graça de Deus. E como ou por que termos? Porque Deus, como se fora homem, em cujo peito tivesse lugar a paixão, e ela o fizesse sair fora de si, disse a Moisés: Deixa-me, que quero desta vez desafogar a minha ira e o meu furor: Dimitte me, ut irascatur furor meus (Êx. 32,10). — E Moisés, tão grande privado de Deus, como se estimara mais o perdão do povo que a privança e graça do mesmo Deus, disse: Ou haveis de perdoar ao povo este pecado, ou, quando não, riscar-me dos vossos livros, em que tendes escrito o meu nome: Aut dimitte eis hanc noxam, aut dele me de libro tuo, quem scripsisti (ibid. 31 s).

Este foi, no Monte Sinai, o processo da batalha ao som de trombetas, de trovões e raios, de que só foram testemunhas os anjos. E qual foi o fim? Da parte de Deus não podia haver maiores demonstrações de ira, de aborrecimento, de ódio; da parte de Moisés, pelo contrário, os empenhos da piedade, da benevolência e do amor, também não podiam ser maiores nem mais encarecidos. E o fim destes dois extremos tão encontrados quais foram? Foram tais que se não puderam crer nem imaginar, se a verdade infalível do texto sagrado não declarara sucesso. Deus, com todo aquele ódio, perdoou a todos: Placatus est Dominus ne faceret maluco quod locutus fuerat adversos populum suum[30]. — E Moisés, com todo aquele amor, desce do monte, convoca os levitas, tira pela espada, e matou naquele mesmo dia vinte e três mil homens do mesmo povo: Cecideruntque in die illa quasi viginti tria millia hominum[31]. — Há tal fim? Há tal caso? Há tal mudança? Mudou-se Deus? Mudou-se Moisés? Ou são os mesmos? Os mesmos são, não se mudaram; mas estes são os ódios de Deus, e estes os amores dos homens. Este é Deus quando mais inimigo, e estes os homens quando mais amigos. Pela experiência desta formosa verdade, e em confirmação dela disse, com profundo juízo, S. João Crisóstomo: Utilior est homini Deus iratus quam homo propitius: Que melhor é para os homens, e mais útil, Deus irado, que o homem propício; Deus com ódio, que o homem com amor. — E como o ódio de Deus, quando mais empenhado, tem tanto melhores efeitos que o amor dos homens, por isso a divina sabedoria de Cristo, quando nos manda amar aos inimigos, nos põe por exemplo a Deus quando não ama, porque quando chegarmos a ser inimigos como Deus, seremos mais que amigos como homens.

IX – Quão ma é a dificuldade de não poder Deus, com seu exemplo, ensinar o amor dos inimigos. Assim como Deus é o melhor exemplo do amor dos amigos, assim é o melhor, e o mais verdadeiro, do amor dos inimigos. Em todo este mundo, quantos são os amigos de Deus, e quantos os seus inimigos? Por que são maiores os favores que Deus faz sem embargo do seu ódio aos inimigos, que, sem respeito do seu amor, aos amigos? O que fez Deus a Esaú com ódio de Esaú, e o que fez a Jacó com amor de Jacó.

Esta foi a súbita apreensão da minha resposta, e do exemplo dela. Mas ouçamos a do divino Mestre, que não só se ouve, mas se vê com os olhos. Definiu Cristo, Senhor nosso, o amor, não com Aristóteles, pela vontade de querer o bem, senão pela obra e verdade de o fazer: Benefacite. — A escola de Aristóteles diz: Amare est velle bonum alicui[32] — e a escola de Cristo, por boca do melhor discípulo dela: Diligamus opere et veritate[33]. — Daqui se segue que, assim como Deus é o melhor exemplar do amor dos amigos, assim é o melhor e mais verdadeiro exemplo do amor dos inimigos. Agora entra o alegado por Cristo, tão claro como a luz do sol, e como o elemento mais claro: Qui solem suum oriri facit super bonos et maios, et pluit super justos et injustos (Mt. 5, 45): — Amai e fazei bem a vossos inimigos-diz o soberano Legislador — para que sejais filhos de vosso Pai, que está no céu, o qual faz nascer o sol sobre os bons e sobre os maus, e descer a sua chuva sobre os justos e sobre os injustos. — Os bons e os justos são os amigos de Deus, os maus e os injustos são os seus inimigos; e é tal a bondade e beneficência do mesmo Deus, ou com amor, ou com ódio, que aos amigos e inimigos, sem diferença, comunica igualmente os seus tesouros. Se nasce o seu sol, para todos nasce; se desce a sua chuva, para todos desce. Bem pudera Deus fazer que só para os bons e justos houvesse luz, e para os maus e injustos trevas, como no Egito os hebreus estavam alumiados, e os egípcios às escuras. E do mesmo modo, como lhe pedia o real profeta Davi, bem pudera negar a chuva aos montes de Gelboé, e dá-la abundantemente aos outros montes. Mas, posto que os bons e os justos sejam os seus amigos, e os maus e os injustos os seus inimigos, sobre o que lhe merecem uns, e sobre o que lhe desmerecem os outros, quer que assentem igualmente os seus benefícios.

Deixado, porém, o sol no céu, e a chuva nas nuvens, passemos à terra, e a toda a terra, onde moram os inimigos de Deus, e onde se vêem mais vária e opulentamente beneficiados de sua mão. Em todo este mundo, quantos são os amigos de Deus, e quantos os seus inimigos? Os amigos são muito poucos, e os que se conservam sempre em sua amizade e graça, sem cair em seu ódio, raríssimos. Pelo contrário, os inimigos de Deus, e os que vivem perpetuamente em seu ódio, não têm número. Estes são os hereges e os cismáticos, estes os maometanos e os judeus, estes os gentios e os ateus, estes os apóstatas e maus cristãos. E a insolência de todos estes, armados do ódio que têm ao supremo e eterno Deus, está sempre subindo e fazendo guerra ao céu, à escala vista, com as suas ingratidões, com as suas injúrias, com as suas afrontas, com as suas blasfêmias de pensamento, de palavra, de obra: Superbia eorum qui te oderunt ascenda semper[34]. — E quem e o que lá desfaz ou suspende estas tremendas exalações e vapores, para que não desçam sobre o mundo em raios, senão o braço ou coração do mesmo Deus, com as indulgências do seu ódio? Ele é o que os sofre, ele é o que os dissimula, ele é o que tem mão em si e na sua justa ira. Mas não pára aqui. Esse mesmo Deus, que aos seus inimigos deu o ser, antes de o poderem ter merecido, lhes dá a vida, lhes conserva a saúde, lhes acrescenta as riquezas, as honras, os estados, os remos e os impérios, como se para a distribuição dos bens, ou da natureza, ou da fortuna — sendo ele Senhor de ambas — os bons e os maus todos foram bons, os justos e os injustos todos foram justos, e os amigos e inimigos todos foram amigos. É verdade que nos afetos do ódio, ou amor de Deus, há a diferença de amados ou aborrecidos; mas, nos efeitos de beneficência do mesmo Deus, tão favorecidos e tão mimosos, uns e os outros, como se os amados e aborrecidos todos foram amados.

Já nesta geral indiferença, com que Deus faz bem igualmente aos amigos que estão em sua graça, e aos inimigos que estão em seu ódio, ficava bem demonstrada a verdade e excelência do soberano exemplar, que o Filho de Deus propõe no mesmo Deus aos homens, para que, imitando-o como bons filhos a tal Pai: Ut sitis filii Patris vestri — saibam com efeito amar, e amem a seus inimigos. Mas como o amor dos inimigos é mais alto, e ele só heróico — para que vejamos quem é Deus, e quais nós devemos ser neste ponto — atrevo-me a dizer que, posto Deus entre amigos e inimigos, de uma parte os que estão em seu amor, e da outra os que estão em seu ódio, se tomarmos bem as medidas aos seus favores, maiores são os que faz, sem embargo do seu ódio, aos inimigos, que sem respeito do seu amor aos amigos. Não me atrevera a dizer tanto, se não falara em próprios termos pela boca de um profeta, e pela pena de um apóstolo.

O profeta Malaquias, falando em nome de Deus, ou Deus falando por boca do mesmo profeta, diz: Dilexi Jacob, Esau autem odio habui (Mal. 1, 2 s): Eu amei a Jacó, e tive ódio a Esaú. — E S. Paulo, escrevendo aos romanos, e falando Deus pela sua pena, repete a mesma sentença pelas mesmas palavras: Jacob dilexi, Esau autem odio habui (Rom. 9, 13). — De sorte que em dois textos, um do Testamento Velho, e outro do novo, temos expresso o ódio de Deus e o amor de Deus; e as pessoas uma amada, outra aborrecida, não ocultas, senão declaradas por seu próprio nome, Jacó, e Esaú. Agora vamos à História Sagrada, e vejamos o que fez Deus a Esaú com ódio de Esaú, e o que fez a Jacó com amor de Jacó.

O que mais estima a felicidade humana, e vida, riqueza, honra. Quanto à vida, assim como Jacó e Esaú nasceram na mesma hora, assim acabaram a vida da mesma idade, e essa tão estendida, que não se podiam queixar das parcas, porque Jacó consta que morreu de cento e quarenta e cinco anos. Quanto à riqueza, ambos cresceram tanto na multiplicação e fecundidade dos gados que criaram os seus pastores, e eram as minas e tesouros daquele bom tempo, que por não caberem nos campos, foi necessário que as duas poderosas famílias se dividissem como dividiram, habitando e dominando Jacó as terras de Canaã, e Esaú as de Edom e Seir. Até aqui, nem o ódio nem o amor de Deus se distinguiram nos efeitos, e o odiado e o amado continuaram a sua peregrinação — que assim lhe chama a Escritura – tão irmãos na fortuna como no sangue.

Mas, vindo ao ponto da honra, que é o de maior estimação e reparo, tendo já as duas famílias crescido a ser duas nações, ou duas gentes — como Deus revelou à mãe de ambos, quando ainda os trazia no ventre. Duae gentes sunt in utero tuo[35]foi muito notável a grandeza e majestade com que a descendência de Esaú se avantajou à de Jacó. Trocando o nome de Edom, chamaram-se os descendentes de Esaú idumeus, e, governando-se toda a nação umas vezes como república, outras como monarquia, sempre os descendentes e netos de Esaú foram os príncipes soberanos dela, ou na república, com títulos de duques, ou na monarquia, com majestade e coroa de reis. E, posto que em semelhantes sucessões costuma haver muitas mudanças e quebras, esta foi tão continuada de pais a filhos, sempre no mesmo domínio, que quando Moisés a escreveu, no capítulo trinta e seis do Gênesis, já o número dos duques tinha sido onze, e o dos reis coroados nove. E o que de nenhum modo se deve passar em silêncio, é que o segundo destes reis, e bisneto de Esaú, ainda em sua vida, foi o famosíssimo Jó, que tanto pela constância na adversa fortuna, como pela moderação na próspera, podia fazer insigne e memorável qualquer reino dos maiores do mundo. Em quem pudera esperar nem imaginar tais excessos de felicidade na pessoa e descendência de um homem, do qual disse o mesmo Deus que lhe tinha ódio: Esau odio habui?

O reparo, porém, mais notável e digno de admiração nesta mesma história, é a advertência e reflexão com que a Escritura Sagrada começa a escrever o catálogo dos reis descendentes de Esaú: Reges autem qui regnaverunt in terra Edom, antequam haberent regem filii Israel, fuerunt hi (Gên. 36, 31). — Quer dizer: Estes foram os reis filhos de Esaú, antes que os filhos de Jacó tivessem rei. — Porventura que não há outra semelhante reflexão em toda a História Sagrada. Primeiramente, Moisés não podia notar esta diferença sem particular revelação de Deus, porque, quando os filhos de Jacó tiveram o primeiro rei, que foi Saul, havia de ser mais de quinhentos anos depois deste tempo. Pois, por que razão, ou com que mistério fez Deus esta revelação a Moisés, e lhe mandou fazer esta reflexão, e notar esta grande diferença entre os filhos de Esaú e os filhos de Jacó, em matéria tão relevante nas gerações do mundo, qual é ter reis, ou não ter reis? Para que entendessem os que isto haviam de ler, que o ódio de Deus é tão benéfico, tão generoso, tão heróico, e tão inclinado a fazer bem a seus inimigos que não só pode competir com o amor do mesmo Deus, em respeito dos seus amigos, mas adiantar-se e vencê-lo em matérias de tanto preço e tanto peso, como foram neste caso a dignidade real, e o tempo dela.

O tempo, quanto vai de quinhentos anos antes, ou quinhentos depois; a dignidade quanto vai de ter reis, e tantos reis, ou não ter rei. Isto é o que o ódio de Deus a Esaú fez a Esaú, e isto o que o amor de Deus a Jacó não fez a Jacó, para que se veja quão malfundada era a dificuldade de não poder Deus, com o seu exemplo, ensinar o amor dos inimigos, pois ele os não ama, antes lhes tem ódio. É verdade que Deus tem ódio a seus inimigos, mas é um ódio que dá largas vidas, é um ódio que dá imensas riquezas, é um ódio que dá cetros e coroas aos que não ama. Faz isto algum, não digo ódio senão do que entre os homens se chama amor? O amor mais natural e mais devido, é o dos pais aos filhos e o dos filhos aos pais; e Davi, sendo pai, tirou o reino a seu filho Adonias; e Absalão, sendo filho, tirou o reino a Davi, seu pai. Estes foram os segundos reis da descendência de Jacó, os quais só conservaram o reino inteiro até à terceira geração, conservando-se os da descendência de Esaú, não só em tantas outras gerações, como as do catálogo de Moisés, senão em muitas outras, que depois delas se continuaram e seguiram.

X – Conclusão: aos amigos, de quem formos mais ofendidos, esses amemos mais. O exemplo do Filho de Deus na redenção do gênero humano. Por que o redentor do mundo não foi a Pessoa do Padre, nem a do Espírito Santo, senão a do Filho? O rico avarento e o amor de Lázaro. O amar e fazer bem aos inimigos pertence aos que maiores ofensas têm recebido deles.

Tão heróica é a beneficência de Deus em preferir os inimigos aos amigos, ainda sobre a confissão expressa do amor que lhe merecem os amigos, e do ódio que tem aos inimigos: a Jacó: Dilexit — a Esaú: Odio habui. — E porque nós não podemos imitar o exemplar de Deus, como neste caso, em dar cetros e coroas, coroemos o nosso discurso com outro ato não menos heróico nem menos generoso, senão mais. E qual é ou pode ser este ato? Que aos inimigos, de quem formos mais ofendidos, esses amemos mais. Atenção.

É teologia certa, que Deus podia remir o gênero humano por um homem, ou por um anjo; e por que se deliberou e decretou no consistório divino que o remisse Deus por si mesmo? Porque o pecado de Adão na desobediência, não só ofendeu a soberania de Deus, senão que direita e mais formalmente ofendeu a sua divindade, querendo e crendo que podia ser como Deus: Eritis sicut dii (Gên. 3, 5) — e como a divindade naquele caso foi a mais ofendida, à mesma divindade pertencia o perdão e o remédio do inimigo que o ofendera, e por isso o mesmo Deus foi o redentor. Assim o resolve e ensina toda a mesma Teologia, com o Doutor Angélico, Santo Tomás. Mas, ainda aqui não está totalmente satisfeita a fineza do divino exemplar. Na divindade o Padre é Deus, o Filho é Deus e o Espírito Santo é Deus; e tão ofendido foi Deus no Padre como no Filho, tão ofendido no Filho como no Espírito Santo, e tão ofendido no Espírito Santo como no Padre. Por que foi logo o redentor, não a pessoa do Padre, nem a do Espírito, senão a do Filho? Pela mesma razão.

O atributo, em que Adão quis ser semelhante a Deus, foi na sabedoria de todas as coisas: Eritis sicut dii, scientes bonum et malum[36]. — Assim o disse o demônio, e assim o creu e quis Adão. Ao ponto agora. Nas três pessoas divinas da Santíssima Trindade, ao Padre atribui-se a onipotência, ao Filho a sabedoria, ao Espírito Santo a bondade; e como na Pessoa do Filho, a que se atribui a sabedoria, foi maior e dobrada a ofensa do pecado de Adão, uma vez ofendido na divindade: Eritis sicut dii — outra vez ofendido na sabedoria: Scientes bonum et malum — por isso foi também no mesmo Filho maior e dobrada a obrigação de ser ele, e não outra Pessoa divina, o que procurasse o perdão, o remédio, e todo o bem do mesmo Adão que o ofendera. Finalmente, porque este exemplo de havermos de amar e fazer bem aos inimigos, quanto mais ofendidos deles, se acabe de verificar em Deus na Pessoa do Filho, esse foi o altíssimo mistério com que o mesmo Filho, enquanto homem, pondo-nos por exemplo a Deus, acrescentou que o havíamos de imitar como filhos do mesmo Pai, que é o que a pessoa do mesmo Filho fez: Ut siris filii Patris vestri, qui in caelis est.[37]

Vejo, porém, que pegando nesta última cláusula: Qui in caelis est — não faltará quem diga que estas divindades e finezas de amor são lá para o céu, e não para a terra, onde os nossos afetos, e ainda os nossos pensamentos, são tão grosseiros como ela. Mas, para confusão da mesma terra, e dos que, parece, não nasceram para o céu, acabo com lhes mostrar que o ditame de pertencer aos mais ofendidos serem eles os que amem, e façam bem aos que os ofenderam, é tão conforme à razão em toda a parte, que até no inferno se entende assim. Ardendo no inferno o rico avarento, olhou para cima, e, vendo a Lázaro entre os outros moradores daquele arrabalde do céu, chamado seio de Abraão, disse desta maneira, falando com ele: Pater Abraham, micte Lazarum ut intingat extremum digiti sui in aquam, ut refrigeret linguam, quia crucior in hac flamma (Lc. 16, 24): Pai Abraão, mandai a Lázaro que me venha refrigerar a língua, ao menos com um dedo molhado na água, porque me atormenta muito este fogo. — Cada palavra destas podia ser meditação de uma eternidade. Só reparo naquele mitte Lazarum: mandai a Lázaro. — Em todo o seio de Abraão não havia pessoa de quem menos devesse esperar o rico avarento este socorro e obra de caridade, do que Lázaro, porque Lázaro era aquele pobre coberto de chagas, que jazia à sua porta, morto de fome, a quem o rico avarento tantas vezes ofendia todos os dias, quantas se assentava à mesa, sem lhe permitir as migalhas que dela caíam, quantas saía ou entrava pela sua porta, quantas via as suas chagas, quantas ouvia os seus gemidos, e quantas sabia que os seus cães lhe lambiam as feridas.

Pois, se tantos outros homens havia no seio de Abraão, de cuja piedade podia esperar o rico avarento aquele socorro, e só Lázaro era o que tantas vezes e continuamente tinha a sua crueldade ofendido, por que só a ele nomeia, e só dele confia o remédio e alívio que pede? Porque entendeu aquele homem, posto no inferno, e posto que condenado que o amar e fazer bem aos inimigos, pertence aos que maiores ofensas têm recebido deles; e como Lázaro, entre todos, era o mais ofendido, ele era o que na ocasião se havia de mostrar mais amigo. Este exemplo do inferno não teve efeito, porque lá todos os desejos os convertem em desesperações. O que importa é que os que lá não quiserem ir acabar de entender os desenganos desta verdade, levantem os olhos ao céu, onde está aquele Pai, cujo exemplo nos manda Cristo imitar, tendo por certo que, se imitarmos o amor, ou amoroso ódio com que Deus não faz mal, senão bem a seus inimigos, na terra seremos seus Filhos por graça, e no céu por glória: Ut sitis filii Patris vestri, qui in caelis est[38].

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[1] Mas eu vos digo: Amai a vossos inimigos, fazei bem aos que vos têm ódio, para serdes filhos de vosso Pai, que está nos céus (Mt. 5, 44 s).
[2] Amai a vossos inimigos (ibid.).
[3] Mas eu vos digo (ibid.).
[4] Para serdes filhos de vosso Pai (ibid.).
[5] Justin. in Apol. pro Christ.
[6] Se eu folguei com a ruína daquele que me tinha ódio, e se eu exultei com o mal que lhe sobreveio (Jó 31,29).
[7] Porque se vós não amais senão os que vos amam, não fazem também assira os gentios (Mt. 5, 46 s.)?
[8] Se encontrares o boi do teu inimigo, ou o seu jumento, desgarrados, leva-lhos (Êx. 23, 4).
[9] Se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer (Prov. 25, 21).
[10] Ouvistes que foi dito aos antigos: Amarás ao teu próximo, e aborrecerás a teu inimigo (Mt. 5, 33.43).
[11] Amai a vossos inimigos (Mt. 5, 44).
[12] Sereis como uns deuses (Gên. 3, 5).
[13] Eis aí me lanças tu hoje da face da terra, e eu me irei esconder da tua face (Gên. 4, 14).
[14] Saiamos fora (ibid. 8).
[15] Exaltou a Ama, e pôs o seu assento sobre todos os príncipes (Est. 3, 1).
[16] 1 Rs. 26, 7. 14.
[17] Até que a estéril teve muitos filhos, e a que tinha muitos se impossibilitou de os ter (1 Rs. 2, 5).
[18] Ele disse, e foram feitas as coisas (SI. 148, 5).
[19] Pô-las no firmamento do céu (Gên. 1, 17).
[20] O verbo estava com Deus (Jo. 1, 1).
[21] Reduzindo a cativeiro todo o entendimento, para que obedeça a Cristo (2 Cor. 10, 5).
[22] Porque três são os que dão testemunho no céu: o Pai, o Verbo e o Espírito Santo, e estes três são uma mesma coisa (1 Jo. 5, 7).
[23] Este é o meu corpo (Mt. 26, 26).
[24] Por que me furtaste os meus deuses (Gên. 31, 30)?
[25] Mas em sonhos viu Labão a Deus, que lhe dizia: Guarda-te, não digas a Jacó coisa que o ofenda (ibid. 24).
[26] Para serdes filhos de vosso Pai, que está nos céus (Mt. 5, 45).
[27] Eu amo aos que me amam (Prov. 8, 17).
[28] O Altíssimo aborrece os pecadores (Eclo. 12, 3).
[29] Aborreces a todos os que obram a iniqüidade (SI. 5, 7).
[30] Então se aplacou o Senhor, para não fazer contra o seu povo o mal que tinha dito (Êx. 32, 14).
[31] E foram quase vinte e três mil homens os que caíram mortos naquele dia (ibid. 28).
[32] Amar é desejar o bem para alguém.
[33] Amemos por obra e em verdade (1 Jo. 3, 18).
[34] A soberba daqueles que te aborrecem sobe continuamente (SI. 73, 23).
[35] Duas gentes estão no teu ventre (Gên. 25, 23).
[36] Sereis como uns deuses, conhecendo o bem e o mal (Gên. 3, 5).
[37] Para serdes filhos de vosso Pai, que está nos céus (Mt. 5, 45).
[38] Para serdes filhos de vosso Pai, que está nos céus (Mt. 5, 45).

Fonte: https://www.literaturabrasileira.ufsc.br/documentos/?action=download&id=49793