Carnaval – Sermão das Quarenta Horas (1642)

SERMÃO DAS QUARENTA HORAS

Em Lisboa, na Igreja de S. Roque, ano de 1642


Quis mihi det te fratrem meum, sugentem ubera matris meae, ut inveniam te foris, et deosculer te, et jam me nemo despiciat[1]?

I – O tema do discurso, e a interpretação dos expositores antigos. A filosofia da consonância e da dissonância. A consonância admirável do tema, e a dissonância ainda mais admirável dos tempos.

Que ocultos são os mistérios da Escritura divina, e que grande doutor é o tempo! Não há melhor intérprete das profecias que o sucesso das coisas profetizadas, nem há discurso mais certo para alcançar o que se não entende, que o discurso dos anos. As palavras que propus, são dos famosos Cânticos de Salomão, em que nenhuma há que não esteja prenhe de grandes mistérios. Todos os santos padres e doutores sagrados as entendem conformemente de Cristo, Redentor nosso, e de sua esposa, a Igreja, mas em diferentes sentidos. Santo Ambrósio, Santo Atanásio e S, Gregório Papa reconhecem nelas o mistério altíssimo da Encarnação do Verbo, na qual o Filho de Deus, vestindo-se da natureza humana, aparentou conosco, e se fez irmão nosso: Quis mihi det te fratrem meum[2]? – S. João Crisóstomo, depois de encarnado o mesmo Senhor, o reconhece já nascido, e aos peitos virginais de sua Santíssima Mãe – sua e nossa: – Sugentem ubera matris meae[3]. – Teodoreto, Apônio e Ruperto, não com menos propriedade das mesmas palavras, depois de encarnado e nascido, o adoraram no altar sacramentado, para alimento suavíssimo das almas, pelas mesmas portas do sentido do gosto: Et deosculer te[4].

Aqui pararam, e não disseram mais, os expositores antigos, sendo sem dúvida que, se alcançaram a viver na nossa idade, descobririam com a experiência e com a vista o que nós estamos vendo neste grande teatro. Não só desejava a esposa – quando ainda não tinha outro ser que o profético e figurativo – não só desejava a Igreja então ver a seu Esposo, Cristo sacramentado, mas, a respeito da sua presença sacramental, como causa, considerava nela três efeitos particulares, tão maravilhosos como novos. O primeiro, ver o mesmo Sacramento exposto e manifesto, e que saísse fora dos sacrários, donde está encerrado: Ut inveniam te foris[5]. – O segundo, que o fim de se desencerrar e aparecer em público, fosse um novo invento: inveniam – por virtude do qual ninguém mais desprezasse a mesma Igreja: Et jam me nemo despiciat[6]. – O terceiro, suspirar e desejar ardentemente que acabasse já de vir ao mundo o autor dessa grande obra, e duvidar quem seria: Quis mihi det?

Este é o fundamento, e este, assim dividido, será o argumento do que pretendo dizer. Para prova e evidência de tantas coisas juntas, e tão maravilhosas, nem da parte do pregador eram necessários discursos, nem da parte dos ouvintes entendimento: os olhos e a memória bastavam. Lembre-se a memória do que foi e do que viu no tempo passado, abram-se os olhos ao que é e ao que vêem no presente, e esta só lembrança, e esta só vista bastará para que conheçamos, e demos graças a Deus, pela diferença tão notável de tempo a tempo. Agora me pudera eu descer do púlpito, e só com esta advertência deixar à memória e aos olhos a consonância e dissonância de tudo o que melhor se pode considerar que dizer.

A filosofia da consonância e dissonância, ainda em uma só palavra ou sílaba, é tão admirável, como pouco advertida. Sendo a consonância concórdia do som, e a dissonância discórdia, e, sendo o som um movimento sucessivo, que perde umas partes quando adquire outras, é certo que, quando a parte que soa e existe no ouvido, se ouve, a parte que passou já não se ouve, porque já não existe nem soa: como pode logo ser, que do que se ouve, e do que se não ouve, se forme a consonância ou dissonância? O como, ou modo natural desta filosofia, é que a parte do som que passou, ainda que já não soa nem existe no ouvido, existe, porém, e persevera na memória; e da parte do som passado, que persevera na memória, junta com a parte do som presente, que continua no ouvido, resulta entre o ouvido e a memória a consonância ou dissonância das vozes. Troquemos agora os sentidos, e do ouvir passemos ao ver, e entre os olhos e a memória veremos no nosso caso a mesma maravilha. Ponha-se neste formoso teatro a memória defronte da vista, e a vista defronte da memória, e, na contraposição destes dois espelhos, se verá a consonância maravilhosa do tema, isto é, da profecia com o profetizado, e a dissonância ainda mais admirável dos tempos, isto é, do passado com o presente. O passado tão descomposto, o presente tão modesto; o passado tão disforme, o presente tão reformado; o passado tão abominável, o presente tão louvável; o passado tão gentílico, o presente tão cristão: o passado tão ímpio, e o presente tão santo,

Assim que a memória e a vista me desobrigavam de quanto posso dizer. Mas, porque a sensibilidade fraca da nossa natureza não percebe os discursos e conseqüências do silêncio nem os encarecimentos mudos da admiração, que é a mais eloqüente retórica, sendo forçoso que eu haja de falar, para que diga alguma coisa digna do que a memória admira na vista, e do que a vista quase não pode crer à memória, recorramos à fonte e à Mãe da graça, para que com ela nos assista. Ave Maria.

II – O intróito ou entrada santa da quaresma. O sanctus introitus e o santo entrudo. Que faria a Igreja Católica com a profanação de sua entrada santa da quaresma? As calúnias sofridas pela Companhia de Jesus pela invenção da solenidade das Quarenta Horas.

Quis mihi det[7]?

Assim como na entrada do templo de Salomão estava edificado um pórtico do mesmo nome, lugar também sagrado, ao qual primeiro se entrava, e dele e por ele ao templo, ou – para que usemos de melhor e mais alto exemplo – assim como no sacrossanto sacrifício do Corpo de Cristo, antes de o sacerdote subir ao altar, pára primeiro na entrada, e considera aonde há de entrar, com as palavras de Davi: Introibo ad altare Dei[8] – e com profunda inclinação, batendo nos peitos, confessa a própria indignidade para tão soberanos mistérios, e este rito e sagrada cerimônia se chama o intróito da Missa, assim, antes de entrar no santo tempo da quaresma, que é o tempo da penitência, e o Sacrifício, em que não só se representa o da nossa Redenção, mas nós também sacrificamos os nossos corpos ao jejum e às outras mortificações e penalidades dos sentidos, assim, digo, ordenou a Igreja antigamente, para que esta entrada não fosse súbita, e sem a devida preparação, que nos dias antecedentes aos quarenta seguintes, os altares se vestissem de luto, no canto eclesiástico cessassem as aleluias, e tudo quanto se visse e ouvisse nos ofícios divinos, fossem os pregões e ensaios da mesma quaresma, os quais como tão religiosos e pios, se chamavam o intróito ou entrada santa: Sanctus Introitus.

Durou esta observância e costume, verdadeiramente cristão, por muitos anos, em que florescia a Igreja; mas, enfim, prevaleceram contra ele e contra ela os abusos e profanidades gentílicas, com tal excesso, que as intemperanças dos jogos furiosos de Baco, chamados por isso bacchanalia, se passaram para estes mesmos dias, e, porque Luso, filho do mesmo Baco, foi o que deu o nome à nossa Lusitânia, nela, como peste hereditária, não lançaram menores raízes. Chegou a tanto o desprezo da mesma cristandade entre os cristãos nestes dias, qual S. Pedro Crisólogo, arcebispo de Ravena, o descreve dos gentios de sua diocese, no primeiro dia do ano. Diz que inventou o demônio aqueles, que ele chama portentos de impiedade e doidice, e a que fim? Ouçamos as palavras do mesmo santo, que, parece, falavam de nós e conosco: Ut ridiculum de religione componeret, ut in sacrilegium verteret sanctitatem, ut de honore Dei Deo pararet injuriam. – Tudo o que a Igreja tinha instituído nestes dias, era religião, era santidade, era honra de Deus. E estava tão trocado e profanado tudo, que o que era honra de Deus, se tinha convertido em injúrias do mesmo Deus: Ut de honore Dei Deo pararet injuriam – o que era santidade, se tinha transformado em sacrilégios: Ut in sacrilegium verteret sanctitatem – e do que era religião se tinha composto o ridículo: Ut ridiculum de religione componeret. – E que ridículo foi este, composto do que era religião? Foi o nome que todos sabemos, mas não sei se reparávamos na composição dele. Estes dias, pelas obras religiosas e pias, com que neles se preparavam os cristãos para entrar no tempo santo da quaresma, chamavam-se, como dissemos sanctus introitus – e os mesmos cristãos depravados, por desprezo e por matéria de riso, tinham composto do mesmo nome outro, tão ridículo, que em lugar de lhe chamarem sanctus introitus, lhe chamavam, santo entrudo. Não me atrevera a nomear deste lugar tal indecência, se não fora tanto do nosso caso, e do que logo hei de dizer sobre ela.

E que faria a Igreja Católica, assim desprezada e afrontada no meio de tantos escândalos, tão contínuos, tão públicos, e tão alheios da modéstia, compostura, temperança e sobriedade cristã? Chorava, gemia, e suspirava pelo remédio: Quis mihi det? – Mas não havia quem lho desse. Passavam uns pontífices e outros pontífices, e desprezavam-se suas censuras; passavam uns reis e outros reis, e desobedeciam-se seus decretos; nasciam e cresciam umas e outras religiões, e seus santíssimos patriarcas, e, posto que todos pregavam com celestial espírito e zelo contra estas impiedades, elas não só não admitiam cura, mas, como convertidas em natureza, se reputavam incuráveis. Porém, como a providência divina, para maior ostentação de sua onipotência, se preza de obrar as coisas maiores por meio dos instrumentos mais pequenos, assim como para derrubar o gigante filisteu escolheu entre os filhos de Jessé o último e de menor idade, que foi Davi, o qual, armado só do nome de Deus de Israel, como ele mesmo lhe disse, lhe cortou a cabeça, e a levou em triunfo, assim entre todas as sagradas religiões, escolheu Deus a de menor idade, e ainda menor que menor, a mínima Companhia de Jesus, para, em virtude do mesmo Nome Santíssimo, derrubar, degolar e triunfar deste monstro, composto de todos os vícios, tão abominável em si, como na composição ou descomposição de seu nome.

Começou a Cristandade a dar-se o parabém deste novo e admirável invento; mas, sofrendo mal a emulação que fosse autora e inventora dele uma religião tão nova, houve quem caluniasse satiricamente esta mesma solenidade das Quarenta Horas, dizendo com mordacidade discreta, se não fora ímpia, que os padres da Companhia, porque não tinham santos a quem festejar, festejavam o santo entrudo. Verdadeiramente, Senhor, que a constelação com que nascestes sacramentado neste mundo, foi de que nunca vos houvessem de faltar traidores! Sacramentou-se Cristo na mesma noite em que o estavam entregando: In qua nocte tradebatur (1 Cor. 11,23) – e sacramentou-se com profecia de que o haviam de entregar: Quod pro vobis tradetur (ibid. 24). – Quanto à primeira parte da calúnia, já a Companhia, por mercê de Deus, tem santos, a que também festeja; já os seus altares estão bastantemente autorizados de santos confessores, e os seus mártires são tantos, que não cabem nos altares. E quanto ao ridículo da Segunda parte: Ut ridiculum de religione componeret – saiba o juízo onde se forjou esta mal limada agudeza, que quando a Companhia não viera ao mundo mais que para lhe dar esta volta, seria bem empregado o seu instituto, e, quando o espírito e zelo, de que Deus por sua bondade a dotou, não tivera obrado outra coisa grande, bastava este só milagre, que estamos vendo, para a canonizar por santa. Mas, antes que passemos a esta demonstração, que será a coroa do nosso discurso, sigamos por sua mesma ordem as palavras do tema.

III – A traça, o artifício e a eficácia do invento da Companhia de Jesus para que se tornem a Deus os que, tão esquecidos da cristandade, andavam tão fora de Deus, saia Deus também, e apareça fora, Por que razão Cristo nasce em Belém, não dentro, senão fora da cidade? A aparição fabulosa de Netuno para salvação de Tróia, e a aparição verdadeira de Cristo para salvação de Lisboa.

Já vimos quem foi o inventor: Quis mihi det? Segue-se agora a traça, o artifício e a eficácia do invento: Ut inveniam, – O invento foi, diz a mesma Igreja, que o mesmo Cristo Sacramentado, que nestes dias tinha razão para se ausentar de nós, aparecesse em público, e, descerrado do interior dos sacrários, onde estava oculto, saísse fora: Ut inveniam te foris: Diremos logo que porque o mundo nestes dias andava tão fora de si, quis também o Senhor do mesmo mundo sair fora? Sim, e não foi esta a vez primeira. Ouçamos ao grande doutor da Igreja, Santo Ambrósio, sobre o foris do nosso tema: Foris factus est, qui erat intus[9]: O Filho de Deus, que estava dentro, saiu fora. – E onde estava dentro, e quando saiu fora? O mesmo santo: Vide illum intus, quando legis quod in sinu est Patris: agnosce illum foris, quando nos quaesivit, ut redimat: Estava o Verbo Divino dentro, quando estava oculto no sacrário do seio do Padre: Unigenitus, qui est in sinu Patris[10], – E saiu fora quando, vestido de nossa carne para nos salvar, nos veio buscar ao mundo: Exivi a Patre, et veni in mundum[11]. – Vai por diante o mesmo Ambrósio: Foris sibi factus est, ut mihi intus esset: Saiu fora de si, para estar dentro em mim.

O fim das saídas foram e são as entradas: Já fora e já dentro o mesmo Cristo, mas com efeitos sempre mais maravilhosos, ou encarnado, ou comungado, ou desencerrado e exposto. Encarnado, sai de si para entrar em nós: Foris sibi factus est, ut mihi intus esset; – comungado, sai de si para que nós entremos nele: In me manet, et ego in illo[12]; e desencerrado e exposto, sai a nós, para que nós entrássemos em nós: Ut inveniam te foris, et jam me nemo despiciat. – Recorramos à memória, e ela nos dirá quão fora de Deus e quão fora de si andavam os homens nestes dias. Andavam tão fora de Deus, que não pareciam cristãos; e andavam tão fora de si, que não pareciam homens. Pois, para que tornem em si os que, esquecidos da humanidade andavam tão fora de si, e para que se tornem a Deus os que, tão esquecidos da cristandade andavam tão fora de Deus, saia Deus também, e apareça fora: Ut inveniam te foris,

Nasce Cristo em Belém, e não dentro, senão fora da mesma cidade: Non erat ei locus in diversorio[13]. – Mas por que razão em Belém, e não dentro, senão fora? Para inteligência do que hei de responder, é necessário supor duas coisas: uma, que sabem todos os doutos; outra que poucos têm advertido. A primeira, é que Cristo, Senhor nosso, tem dois corpos, um natural, outro místico, e ambos verdadeiros. O natural é o que nasceu no presépio e morreu na cruz; o místico é a congregação universal de todos os fiéis, por outro nome, a Igreja, cuja cabeça é o mesmo Cristo, e os fiéis somos os membros. Esta suposição é de fé expressa em muitos lugares de S. Paulo: Vos autem estis corpus Christi, et membra de membro[14]. – E em outro lugar: Quia membra sumus corporis ejus, etc[15]. – A segunda coisa, também certa, e de poucos advertida, é que o corpo natural de Cristo foi figura de seu corpo místico, de tal sorte, que as ações de sua vida eram profecias dos sucessos futuros da sua Igreja.

As ações de Cristo, Senhor nosso, no tempo em que viveu neste mundo, demonstravam somente o que eram e o que obravam; mas, para os tempos futuros da sua Igreja, em que entram os nossos, significavam o que então havia de ser, e o que o mesmo Senhor havia de obrar nela. Assim se colhe de outro texto do mesmo S. Paulo, no qual diz que a idade do corpo místico de Cristo, que é a Igreja, se há de medir pela idade do corpo natural do mesmo Cristo, e que nela há de ter o seu complemento. Isso querem dizer aquelas palavras: In mensuram aetatis plenitudinis Christi[16]. – E neste sentido as declarou literalmente o eminentíssimo Cardeal Guzano, autor não só sapientíssimo, mas extático, em tratado particular desta matéria, escrito há perto de trezentos anos. Isto suposto, torne agora a nossa questão. Cristo nasceu em Belém, e não dentro, senão fora da cidade; e se ele, como Senhor de tudo, nasceu onde quis, e como quis, por que razão em Belém, e por que razão não dentro, senão fora?

Quanto à primeira parte, Santo Agostinho, S. Gregório Papa, S. Bernardo, e todos os santos comumente, dizem que quis o Senhor nascer em Belém, porque Belém quer dizer: Domus panis: casa de pão; em profecia, que debaixo de espécies de pão havia de tornar a nascer outra vez, como nasceu, no último dia de sua vida, e nasce todos os dias, por virtude das palavras da consagração, no Santíssimo Sacramento do altar. Este foi o mistério de nascer em Belém. E o mistério de nascer não dentro, senão fora da mesma casa de pão, era profecia também, que viria tempo em que debaixo das mesmas espécies lhe seria necessário sair fora, como desejava a Esposa: Et inveniam te foris – a fim – como ela também diz – porque, saindo assim em público, conseguiria a presença de sua majestade o respeito que os homens tinham perdido à sua Igreja: Et jam me nemo despiciat.

Digam, agora, os olhos e a memória, se é isto o que vimos, e o que vemos. Mas, porque ainda visto parece fábula, vejamos em um espelho, também fabuloso, a causa de tão estranha mudança. Naquela grande tempestade, em que segunda vez se viu perdida Tróia, e também perdida Roma, antes de o ser – porque nas ruínas de uma, naufragavam os fundamentos da outra – introduz o príncipe dos poetas latinos ao deus Netuno, que saíra em pessoa a pôr em paz a tormenta; e para representar que o mesmo foi aparecer o deus sobre as ondas, que parar subitamente a fúria dos ventos discordes, traz esta comparação:

Ac veluti magno in populo cum saepe coorta est
Seditio saevitque animis ignobile vulgus;
Jamque faces et saxa volant; furor arma ministrat;
Tum, pietate gravem, ac meritis si forte virum quem
Conspexere, silent, arrectisque auribus adstant
[17].

Vistes o que cada dia acontece nos povos e cidades principalmente grandes, levantar-se entre homens sediciosos uma briga, ou arruído súbito, que na campanha se pudera chamar batalha? Todos puxam pelas armas, e são armas tudo o que de mais perto se oferece às mãos: chovem os golpes, voam as pedras; uns ferem, outros caem; todos correm e acodem sem saber a quem, ou contra quem, nem a causa; uns, incitados do ódio e da ira, outros sem ira, nem ódio; tudo é grita, tudo desordem, tudo confusão, No meio, porém, deste tumulto popular, se aparece uma personagem de grande autoridade e respeito, no mesmo ponto abatem todos as armas, embainham as espadas, aparta-se sem outra violência a briga, e não há quem se mova. – Tal aconteceu naquela tempestade do mar – diz o poeta – tanto que apareceu o deus Netuno, e muito melhor direi eu: tal é o que se viu nas nossas tempestades da terra tão furiosas, tanto que apareceu no meio delas o Deus verdadeiro. Que era Lisboa, que era o mundo nestes dias, senão um mar tempestuoso e uma tormenta desfeita? Soltava-se a gula, desenfreava-se a ira, libertava-se a injustiça, desbaratava-se o siso. E com estes quatro ventos tão soltos e furiosos, que ondas se não levantavam entre os homens de afrontas e injúrias mal sofridas?

Que naufrágios não fazia a compostura e urbanidade política, a modéstia e a caridade cristã, e a mesma vida, sem causa nas brigas, nos insultos, nas feridas, nas mortes, sendo os instrumentos deste destroço a água, o fogo, o ferro, as pedras, e tudo o que podia inventar a loucura e ocorrer ao furor; enfim, propriamente e sem metáfora: Faces et saxa volant; furor arma ministrat? – E quem imaginara que toda esta tempestade a havia de serenar uma nuvem, da qual mais naturalmente se podiam esperar ou temer raios? Mas assim a serenou, com o silêncio e atenção que vemos: Silent, arrectisque auribus adstant. – Porque naquela nuvem branca apareceu, sem aparecer, o Senhor do mar e dos ventos: Qualis est hic, quia venti et mare obediunt ei[18]?

IV – Os apóstolos da primeira Companhia de Jesus na tempestade de Tiberíades, e os apóstolos da segunda Companhia de Jesus na tempestade do mundo. Qual foi a razão, ou o mistério, por que ordenou o Senhor que, ao milagre de multiplicar pães, sucedesse imediatamente o de aplacara tempestade? Advertência aos hereges.

Já nestas últimas palavras tenho feito cristã a comparação fabulosa. Pela travessa do mar de Tiberíades navegava Cristo com os apóstolos, quando se levantou uma tal tempestade, que eles, com serem criados no mar, se deram por perdidos. O Senhor no mesmo tempo dormia: lpse vero dormiebat (Mt. 8, 24). – Espertaram-no a grandes vozes, dizendo: Salva nos, perimus[19]. – E que faria e diria aquela vigilante providência, que ainda quando dorme não dorme? Aos apóstolos repreendeu os de pouca fé: Modicae fidei; – ao vento, mandou-lhe que parasse; ao mar, que se não bolisse; e no mesmo ponto, o que era furiosa tempestade, ficou a mais sossegada bonança: Imperavit ventis, et mari, et facta est tranquilitas magna[20]Em tudo foram semelhantes aquele caso e o nosso; porém, no nosso maior a tempestade, maior o milagre, e maior a fé. Maior a tempestade, porque a daquele dia levantaram-na os mares e os ventos, que sempre obedecem a seu criador; a destes dias levantava-a o apetite, a paixão e o livre alvedrio humano, cuja rebeldia só pode resistir a Deus, e dizer-lhe na cara: Não quero.

Maior o milagre, porque lá foi necessário espertar Cristo do sono, levantar-se, aparecer visível aos dois elementos, repreendê-los, como diz S. Lucas: Increpavit (Lc, 8, 24) – e mandar-lhes, com império, que sossegassem: Imperavit ventis, – Porém, cá, sem aparecer nem se mostrar visível, sem falar, sem repreender, sem mandar, e sem acordar do sono, sendo tantos os elementos alterados quantos são os homens, todos se sossegaram em um momento, e se puseram na paz, que vemos. E disse, sem espertar do sono, porque o sono não é outra coisa que uma doce prisão de todos os sentidos do corpo, e tal é o estado do Corpo de Cristo no Sacramento, por força do modo sacramental – a que os teólogos chamam ubi definitivo – e, posto que o Senhor ali nos está vendo sempre com os olhos da divindade, enquanto Deus, e com os olhos da alma, enquanto homem, os do corpo não só lhos vendou o nosso amor, mas lhe embargou juntamente de todos os outros sentidos o uso.

Finalmente, foi maior a fé, porque a fé dos apóstolos naquele tempo era muito fraca: Modicae fidei. – Muito fraca, porque cuidaram que Cristo podia menos dormindo que acordado; muito fraca, porque, bastando a vontade do Senhor somente para o milagre, foram necessárias todas aquelas ações exteriores e visíveis, para que eles cressem que a obediência dos ventos era efeito do seu império, e por isso lhes tornou a dizer então: Ubi est fides vestra[21]? – Em suma, muito fraca, porque, como afirma expressamente, entre os padres antigos, S. Crisóstomo, e entre os expositores mais graves, Dionísio Cartusiano, os apóstolos naquele tempo ainda não criam a divindade de Cristo. E quando os apóstolos da primeira Companhia de Jesus na tempestade de Tiberíades, que era um lago, tiveram tão pouca fé, a fé dos apóstolos da segunda Companhia do mesmo Jesus – nome que ela deve a Portugal – foi tão grande, tão animosa, tão firme que, sendo a tempestade maior que o mar, e tão imensa como o mundo todo, creram, entenderam e supuseram com evidência que, para o mesmo Senhor a sossegar em um momento, não era necessário acordar, nem levantar-se, nem falar, nem mandar, nem mostrar-se visível, nem correr aquela cortina, que o leito da barca não tinha; mas, debaixo, e coberto dela, sair somente fora: Ut inveniam te foris.

Este sim, que foi o maior triunfo do Sacramento do Corpo de Cristo, e se pode dizer com razão, que permitiu Deus esta grande tempestade só para estabelecer a fé do mesmo Sacramento. Depois do famoso milagre da multiplicação dos pães no deserto, seguiu-se imediatamente o milagre de outra tempestade, que padeceu a barca de S. Pedro, a qual o mesmo Cristo sossegou com sua presença. E por que não se pudesse cuidar que a conseqüência destes dois milagres sucederia acaso, notam os evangelistas que, obrado o primeiro milagre em terra, logo o Senhor dispôs o segundo, que havia de obrar no mar, obrigando os discípulos, por força, a que se embarcassem: Et statim coegit discipulos suos ascendere navim (Me. 6, 45) – diz um evangelista. E outro: Et statim compulit discipulos ascendere in naviculam (Mt. 14, 22). – Notem-se as duas palavras, coegit e compulit, que ambas significam a resistência dos discípulos, o empenho do Mestre, e ser a viagem forçada. Qual foi logo a razão, ou mistério, por que ordenou o Senhor que ao milagre de multiplicar os pães, sucedesse imediatamente -statim- o de aplacar a tempestade? Admiravelmente o descobriu S. Marcos: Cessavit ventus, et plus magis intra se stupebant: non enim intellexerunt de panibus (Mc. 6, 51 s): Tanto que viram cessar a tempestade, pasmaram muito mais todos, e pasmaram porque não tinham entendido o milagre dos pães. De sorte que ordenou o Senhor que, ao milagre da multiplicação dos pães, sucedesse imediatamente o da tempestade sossegada com sua presença, para que o testemunho do segundo milagre confirmasse a verdade do primeiro, e a evidência da tempestade aplacada, que viam, lhes ensinasse o mistério dos pães multiplicados, que não entenderam: Non enim intellexerunt de panibus. – Ora, vede.

O milagre dos pães multiplicados foi o primeiro ensaio, ou a primeira prova do Sacramento, porque, assim como Cristo multiplicou o pão, e com ele multiplicado sustentou tantos mil homens, assim, debaixo das espécies de pão, havia de multiplicar o Sacramento de seu corpo, que no mesmo Sacramento está multiplicado em todas as partes do mundo. Tanto assim que, sobre aquele mesmo milagre, como consta do capítulo sexto de S. João, assentou Cristo toda a fé e doutrina do que ele ensinou, e nós cremos do Santíssimo Sacramento do Altar. Sobre aquele milagre disse: Hic est panis qui de caelo descendit[22] ; sobre aquele milagre disse: Caro mea vere est cibus[23]; sobre aquele milagre disse: Qui manducat hunc panem, vivet in aeternum[24], – E, como os discípulos não entenderam os mistérios ocultos do pão multiplicado, por isso o Senhor ajuntou logo ao milagre do pão multiplicado o da tempestade sossegada só com a sua presença, para que a experiência manifesta do milagre que viam, os instruísse e confirmasse na fé do que não entenderam: Cessavit ventus, et plus magis intra se stupebant: non enim intellexerunt de panibus[25].

Mas com quem falarei eu agora? Passo da terra ao mar, e falo convosco, ó navegantes dessas naus setentrionais, que de todos os portos do norte vos achais agora no de Lisboa. Muitos de vós, enganados por Calvino, por Beza, por Zwínglio, e pelos outros hereges, negais a fé e verdade da presença de Cristo no Sacramento. E que vos direi eu para vos convencer? Lembrai-vos do que vistes neste mesmo empório, e nestes mesmos dias, e abri os olhos ao que agora podeis ser. Lembrai-vos da tempestade que nestes dias vistes em Lisboa, maior que todas as que experimentastes no mar, e por medo da qual vos não atrevíeis a sair em terra; e, se algum saía, ou tomava ferido, ou não tornava. E vendo agora a tempestade convertida em tão estupenda bonança, toda aquela guerra em paz, todo aquele tumulto em silêncio, todas aquelas doidices em siso, e toda aquela confusão e perturbação das ruas e praças em piedade, em devoção, e em culto divino nas igrejas, com a vista defronte da memória, e os efeitos à vista da causa, deste segundo e tão evidente milagre, não podereis negar a fé e verdade do primeiro. Obrigados, pois, a conhecer e confessar, apesar da heresia e do inferno, que dentro daquele círculo breve, e debaixo daqueles acidentes, que parecem de pão, está realmente presente o verdadeiro e todo-poderoso Deus, pois só a sua onipotência podia obrar uma tão prodigiosa mudança, sem outro instrumento ou meio natural e humano, mais que abrirem-se as portas ao sacrário, onde o diviníssimo Sacramento estava encerrado, e sair fora: Ut inveniam te foris.

V – A mudança súbita, e tão digna de reparo, que se seguiu à morte de Cristo na cruz depois do golpe da lança. O lado aberto de Cristo e o Sacramento da Eucaristia.

O que a Igreja Católica – deixados os hereges – se prometia deste novo e milagroso invento, era que ninguém depois dele a desprezaria: Et jam me nemo despiciat – e, tornando a falar conosco, mostremos aos olhos este milagre, e fechemos todo o discurso com uma chave, se eu me não engano, de ouro. Pregado Cristo na cruz, era tão desumano o ódio de seus inimigos, que ainda ali lhe multiplicavam as dores, as injúrias, as afrontas, e, com várias ilusões e alusões ao que tinha dito em vida, as blasfêmias. Blasfemavam-no os escribas e fariseus, blasfemavam-no os príncipes dos sacerdotes, blasfemavam-no os soldados, que lhe jogaram as vestiduras, blasfemavam-no todos os que assistiam no Calvário, e até os que passavam de longe lhe não perdoavam as blasfêmias: Praetereuntes blasphemabant eum (Mt. 27, 39).

Expirou, enfim, o Senhor mais depressa do que se imaginava. Quis-se assegurar um soldado de que estava morto, abrindo-lhe o peito com a lança: Unus militum lancea latus ejus aperuit (Jo. 19, 34). – Saiu da ferida sangue e água: Exivit sanguis et aqua – e, desde o mesmo ponto, se trocaram as coisas, de sorte que aos opróbrios sucederam obséquios, às afrontas honras, às injúrias e blasfêmias venerações não imaginadas. Esta foi a mudança súbita, e tão digna de reparo, que o mesmo evangelista anotou, e quis que todos a advertissem. Acabava de narrar o ato cruel da lançada, e logo acrescenta, com ponderação enfática: Post haec autem (ibid. 38): Porém, depois disto. – E depois disto, que foi? Tudo o contrário do que dantes tinha sido.

Três vezes repete S. João o autem, ou o porém da diferença: Post haec autem rogavit Pilatum Joseph ab Arimathaea. Venit autem et Nicodemus, qui venerat ad Jesum nocte. Erat autem in loco, ubi crucifixus est, hortus: et in horto monumentum novum, in quo nondum quisquam positus erat[26]. – Antes dagora os discípulos públicos e conhecidos fugiram; post haec autem – porém agora, os discípulos, que eram ocultos, se publicaram e declararam desordenadamente pela sua parte, e em serviço de seu Mestre e Senhor. Até agora não havia quem se atrevesse a falar por ele uma palavra, nem a lhe dar uma sede de água; post haec amem: porém, agora audacter (Mc. 15, 43) – animosamente, e sem temor, entraram pelo pretório de Pilatos a demandar o sagrado corpo, para lhe dar honorífica sepultura. Até agora tinha mandado Pilatos que, para morrer mais depressa, lhe quebrassem os ossos, como aos outros dois crucificados: Ut frangerentur eorum crura, post haec amem (Jo. 19, 31); porém agora, o mesmo Pilatos, não só concedeu liberalmente o que era vedado a todos os que morriam por justiça, mas fez doação do corpo defunto, como diz S. Marcos: Donavit corpus Joseph[27] para que se lhe fizessem as exéquias e honras públicas, sucedendo à desnudez as holandas, às feridas os bálsamos e aromas, e à pobreza e desamparo, o culto, a veneração e a pompa funeral: Sicut mos est judaeis sepelire[28]

Dois discípulos ou criados fiéis, José e Nicodemos, foram os ministros destas finezas, e neles se representaram todos os estados, e nelas todas as virtudes cristãs, que vemos, e já não admiramos, neste formoso concurso, tudo notado pelos quatro evangelistas. Concorreram os príncipes: Príncipes judaeorum[29]; concorreram os conselhos: Hic non consenserat consilio eorum[30]; concorreram os doutores e letrados: Tu es magister in Israel[31]; concorreu a nobreza e a milícia: Nobilis decurio[32]; concorreram os naturais e os estranhos: Ab Arimathaea, civitate Judaeae[33]; concorreu a bondade e a justiça: Vir bonus et justus[34]; concorreu a riqueza: Quidam homo dives[35]; concorreu a liberalidade, ou, mais propriamente, a prodigalidade: Ferens mixturam myrrhae, et aloes, quasi libras centum[36]; concorreu, finalmente, em tudo, o asseio, o primor, o preço, a decência, e a novidade, não havendo coisa que houvesse tido outro uso, ou servisse a outrem: a mortalha nova: Mercatus sindonem[37]; e a sepultura nova: Monumentum novum, in quo nondum quisquam positus erat[38]

Ao nosso ponto agora. Suposto que esta mudança tão natural de afrontas e desprezos de Cristo, em obséquios e venerações do mesmo Cristo se seguiu imediatamente ao golpe da lança: Post haec autem – que segredo, que mistério, ou que efeito obrou aquela lançada, para que dela resultasse uma tão prodigiosa mudança? Porventura foi a chaga do lado que se abriu no peito do Senhor? Não foi a chaga que se abriu, mas foi o que por ela logo saiu: Continuo exivit sanguis et aqua[39]. – Ora, vede. Todos os santos padres, sem exceção alguma, dizem que, assim como do lado de Adão dormindo tirou Deus a costa, de que formou a Eva, assim do lado de Cristo morto saíram os Sacramentos, de que formou sua Esposa, a Igreja. Mas entre esses mesmos sacramentos houve uma grande diferença, porque os outros sacramentos saíram do lado de Cristo simbolicamente, e só em representação; o Santíssimo Sacramento do altar saiu em realidade. O que saiu foi sangue e água: e aquele sangue é realmente o mesmo que adoramos no cálix; e o cálix usual, em que Cristo o consagrou, e nós o consagramos, também levou e leva juntamente água. E como, aberto o lado de Cristo, saiu fora o Santíssimo Sacramento: Exivit sanguis et aqua – por isso no mesmo ponto as afrontas e desprezos de Cristo cessaram, e se converteram em obséquios e venerações, que é o que a Esposa esperava, e dizia: Ut inveniam te foris, et jam me nemo despiciat[40]

Notou neste caso Santo Agostinho, que não disse o evangelista que o soldado feriu o lado, senão que o abriu: Non dixit percussit, aut vulneravit, sed aperuit. – E disse aperuit com grande mistério, acordo e advertência, como acrescenta o mesmo santo: Vigilanti verbo – porque no sacrário do peito de Cristo estava encerrado o diviníssimo Sacramento, e, tanto que as portas do mesmo sacrário se abriram com o ferro da lança, que foi a chave: Lancea latus ejus aperuit – assim como no mesmo ponto – continuo – saiu fora, não em figura, senão em realidade, e em sua própria substância o Sacramento: Exivit sanguis et aqua – assim, no mesmo ponto em que ele saiu, entraram os homens em si, e se seguiram as maravilhas de tão prodigiosa mudança: Post haec autem. – Deste modo o tinha eu imaginado, não sem grande dor, de não ter quem me confirmasse a novidade do pensamento, quando fui achar que, há perto de seiscentos anos, o tinha escrito Ruperto Abade, o mais douto e agudo expositor do seu tempo, por estas palavras expressas: De patefacto Christi lacere sanguinis et aquae, sacramentum productum est, et exinde statim Ecclesia reformatar[41] Todas as palavras dizem o que eu quero dizer, o que tenho dito, e o que diz o texto.

Note-se muito o statim, que é o continuo; o exinde, que é o post haec; o productum, que é o exivit; o de patefacto latere, que é o abrir-se o sacrário: Lotus ejus aperuit; o exivit sanguis et aqua, que é o aparecer o Sacramento em suas próprias espécies: sacramentum productum est; e, sobretudo, a diferença do post haec autem, porque a Igreja, que por este soberano invento se prometia não ser mais desprezada como dantes: Et jam me nemo despiciat – assim o experimentou imediatamente: Et exindestatim Ecclesia reformata, – A Igreja até agora, nestes dias, não só estava disforme, mas informe: disforme, porque tinha perdido a sua formosura; e informe, porque tinha perdido a sua própria forma, parecendo mais gentílica, que cristã; mas, tanto que viu fora o diviníssimo Sacramento, de que, perdido tudo o mais, não tinha perdido a fé, o vê-lo fora – Ut inveniam te foris – foi o mesmo que entrar ela dentro em si, e ficar tão outra, tão mudada, tão diferente do que pouco antes era, e tão reformada e transformada no que dantes tinha sido, como a vemos: Et exinde statim Ecclesia reformata.

VI – O mistério do sangue e água do lado de Cristo. Por que razão saiu primeiro o sangue, e depois a água? O sangue do Sacramento e a água do Batismo. Por que não se havia de expor nestes dias o Santíssimo Sacramento na hóstia, senão no cálix? A semelhança da enfermidade com o remédio. O cálix gentílico da intemperança, incompostura e embriaguez, e o cálix cristão da sobriedade e contingência. As divinas embriaguezes do cálix de Cristo. Por que o mesmo Deus no seu Sacramento, e em si mesmo sacramentado, quando sai fora, se admira da mudança que faz nos homens? As cidades babilonizadas pelo cálix das abominações.

Ainda não está esgotado o mistério do sangue e água. Assim como Ruperto, e outros doutores, pela união da água elementar; que se consagra no cálix – qual foi a que saiu do lado – supõe nela, e no sangue, um só Sacramento, que é o da Eucaristia, assim outros, porque estes dois sagrados licores saíram divididos e distintos, um primeiro e outro depois, na água reconhecem o sacramento do Batismo, e no sangue o Santíssimo do Altar. Non casu et simpliciter hi fontes scaturiunt, sed quoniam ex ambobus Ecclesia constituta est: sciunt hoc initiati, per aquam enim regenerati, per carnem et sanguinem nutriti[42] : Não acaso, senão com altíssimo conselho – diz S. João Crisóstomo – brotaram do peito aberto de Cristo duas fontes, uma de água, outra de sangue, como sabem todos os cristãos: pela água, que é matéria do sacramento do Batismo, somos todos regenerados; e pelo sangue, que é a do Sacramento do altar, sustentados. – O mesmo diz S. Jerônimo, S. Cirilo Alexandrino, e Tertuliano, em mais breves palavras: Ut qui aqua se lavassent, etiam sanguinem potassent[43]. Mas desta mesma sentença, tão recebida, resulta uma bem fundada dúvida. Primeiro é o sacramento do Batismo que o do altar. Assim o acaba de dizer Tertuliano; assim o notou o mesmo S. Crisóstomo: Nam prius diluimur, postea misterio dedicamur. – Assim o significou a figura do Velho Testamento, porque primeiro chovia o céu o orvalho, em significação do Batismo, e depois caía do mesmo céu o maná, em representação do divino Sacramento. Logo, do mesmo modo, e pela mesma ordem, primeiro havia de sair do lado de Cristo a água, e depois o sangue; pois, por que razão saiu primeiro o sangue, e depois a água: Exivit languis et aqua?

Em outras ocasiões tem esta dúvida outras respostas; porém, na ocasião presente, pedia a verdade do mistério, e a evidência do efeito, que primeiro saísse o Sacramento da Eucaristia no sangue, e depois o do Batismo na água. Por quê? Porque o mundo nestes dias tinha-se feito gentílico, seguindo as festas, ou as fúrias de Baco – por isso chamadas bachanalia – e como não houve outro remédio para as emendar e destruir, senão o de sair fora o Santíssimo Sacramento, não só representado, mas presente no sangue: Exivit sanguis – por isso o Batismo, representado na água, não podia vir nem aparecer antes do mesmo Sacramento, senão depois: Exivit sanguis et aqua. – Esta foi a conseqüência do efeito, e esta a energia do mesmo batismo, mais vivamente declarada em seus próprios termos. Como o mundo, nas profanidades destes dias, se tinha desbatizado e feito gentio, e, por virtude do Santíssimo Sacramento sair fora, se havia de tornar a rebatizar e fazer outra vez cristão, que é o que estamos vendo, claro está que o efeito milagroso do mundo convertido rebatizado não havia de aparecer nem sair antes do Sacramento, senão imediatamente depois. E este depois, é o depois do evangelista, tão ponderado na diferença dos efeitos: Post haec autem.

Mais ainda, porque ainda falta a coroa de todo o mistério. E saiu do sacrário do lado o diviníssimo Sacramento, não na primeira espécie e substância, que é a do corpo e da hóstia, senão na segunda, que é a do sangue e do cálix: Exivit sanguis- porque na primeira transubstancia-se o corpo debaixo das espécies de pão, e na segunda o sangue debaixo das espécies de vinho. Assim o dizemos na Missa: Per hujus aquae et vini mysterium[44]. – E como o vinho era a matéria dos sacrifícios profanos e embriaguezes de Baco, pertencia a vitória das bacanálias mais própria e mais naturalmente àquela parte do Sacramento que se consagra debaixo da mesma matéria. Por esta propriedade e proporção tão admirável, se eu tivera autoridade para fazer a troca, não se havia de expor nestes dias o Santíssimo Sacramento na hóstia, senão no cálix. O cálix, cercado de raios, como raio que antes do dia da cinza desfez em cinzas este monstro, servindo-lhe o mesmo monstro de peanha, é o que havia de aparecer triunfante naquele trono. Funda-se a minha razão na semelhança da enfermidade com o remédio, e na da matéria vencida com a vencedora. Assim como é próprio da medicina natural curar contrários com contrários: Contraria contrarias curantur – assim é glória, e a mais heróica, da onipotência divina, curar semelhantes com semelhantes. Curou Deus as mordeduras das serpentes no deserto; curou o veneno universal da árvore vedada no Calvário; curou a raiz de todos os males humanos, que é a came e sangue no mesmo Sacramento. E com quê? Semelhantes com semelhantes. As serpentes com serpente: Sicut Moyses exaltavit serpentem in deserto[45]; a árvore com árvore: Ut qui in ligno vincebat, in ligno quoque vinceretur[46] ; a carne e sangue, com a carne e sangue: Caro mea vere ast cibos, et sanguis meus vere est potus[47]. – Logo, não seria só maior propriedade, senão energia e elegância grande, na mesma vitória vista pelos olhos, se de semelhante a semelhante triunfasse um cálix do outro: o cálix sagrado do profano; o cálix cristão do gentílico; o cálix da sobriedade e continência – num germinans virgines[48]que a fé adora nos altares do verdadeiro Deus, do cálix da intemperança, descompostura e embriaguez, em que a gula bebia e desbaratava o siso nas mesas de Baco.

E por que não pareça que, pela vileza da palavra embriaguez, se desprezará Cristo da vitória, como menos decente a mistério tão sagrado, o mesmo Senhor ao mesmo seu cálix atribui a mesma embriaguez, e não por outra palavra, ou frase, senão a mesma: Calix meus inebrians quam praeclarus est (SI. 22, 5)! O meu cálix – diz aquele Senhor sacramentado-oh! quão insigne, oh! quão excelente, oh! quão admirável é! – Em quê? Quem se atrevera a o pronunciar, se o mesmo Cristo o não dissera? É insigne, é excelente, é admirável, e particularmente milagroso, em embriagar e fazer dar volta ao juízo dos homens: Calix meus inebrians.

Todos os santos padres celebram os admiráveis efeitos deste divino cálix, não com outro nome, senão o de embriaguez. S. Cipriano: Calix Dominicus bibentes inebriat, ut sobrios faciat, et mentes ad spiritualem sapientiam dirigat[49]S. Cirilo: Inebriati sunt sobria ebrietate, quae peccatum mortificat, et cor vivificat[50]Santo Ambrósio: Haec ebrietas sobrios facit, haec ebrietas gratiae, non temulentiae est[51].São Bernardo: fila ebrietas vero non mero ingurgitans, non madens vino, sed ordens Deo[52]. – Querem dizer estes santos que a embriaguez do cálix divino, chamando-lhe todos embriaguez, é semelhante, mas contrária à do cálix profano. A do cálix profano, de sisudos faz loucos; a do cálix divino, de loucos faz sisudos. A do profano, de sóbrios faz intemperantes; a do divino, de intemperantes sóbrios. A do profano, de modestos, furiosos; a do divino, de furiosos, modestos. A do profano, de pacíficos, discordes e belicosos; a do divino, de discordes e inquietos, pacíficos. A do profano, de pios, ímpios; a do divino, de ímpios, espirituais e devotos. A do profano, de racionais, brutos; a do divino, de feras, homens. A do profano, de católicos, ateus; a do divino, de gentios, cristãos. A do profano, de livres, escravos do gosto, do apetite, da paixão; a do divino, de escravos, senhores de todas as paixões da sua alma, e de si mesmos. Enfim, o profano é causa de todas as profanidades e escândalos de que se lembra a memória; a do divino, de toda a piedade, religião, e exemplo mais celestial que da terra, mais angélico que humano, que estão vendo os olhos. Estas são as divinas embriaguezes do cálix de Cristo, que por isso se não afronta, mas preza muito de lhe chamar seu: Calix meus inebrians.

O que o mesmo Senhor acrescenta a estas palavras, é o que as faz não só admiráveis, mas estupendas: Calix meus inebrians quam praeclarus est! Este meu cálix – cuja embriaguez causa tal mudança nos entendimentos e juízos humanos – oh! quão claro é, e mais que claro: Quam praeclarus est! – É admiração do mesmo Cristo sacramentado, como se dissera: Sendo tanta a escuridade, não de um, nem de muitos homens, senão das cidades inteiras, e do mundo todo envolto e revolto nas trevas da ignorância, da doidice, da confusão, da cegueira, do desatino, que, aparecendo o meu Sacramento, como o sol na noite mais escura, mais tempestuosa, e mais horrenda, subitamente a esclarecesse, amanhecendo, aos homens convertidos em brutos e feras, o lume da razão, é maravilha e milagre que a mim mesmo me causa admiração e espanto: Quam praeclarus est! – Perguntam os teólogos se em Cristo cabe admiração? Respondo: Admiração, ou é filha da ignorância, ou do encarecimento. A da ignorância não cabe em Cristo, no qual estão encerrados todos os tesouros da sabedoria e ciência de Deus, como diz S. Paulo; a do encarecimento sim, e tal é esta admiração: A Domino factum est istud, et est mirabile in oculis nostris[53]. – Se esta obra é de Deus – argüi Davi – como é admirável nos nossos olhos? De nenhuma coisa se devem admirar os homens, por grande, rara, e estupenda que seja, quando sabem que é obra de Deus. E que o mesmo Deus no seu Sacramento, e em si mesmo sacramentado, quando sai fora, se admire da mudança que faz nos homens! Sim.

A razão é de S. Paulo, porque aquilo que entre os homens, alumiados com a luz do céu, primeiro foi santo, e depois de santo se perverteu, e se fez vicioso e dissoluto, tomar outra vez a se converter, e ser santo, como dantes, por arrependimento e emenda, é caso tão dificultoso, tão árduo e digno de admiração, que não duvidou o apóstolo de lhe dar nome de impossível: Impossibile est enfim eos qui semel sunt illumi nati, guitaverunt etiam donum caeleste, et participes facti sunt Spiritus Sancti, et prolapsi sunt, rursus renovari ad poenitentiam[54]. – E isto é o que experimentou a Igreja nestes dias, primeiro fatais, e depois prodigiosos, em duas mudanças notáveis. No princípio da sua instituição eram pios, espirituais e devotos os cristãos, e tão sagrados estes dias que, por serem a entrada daqueles quarenta, a que a mesma Igreja chama dies salutis[55], se chamaram eles, como vimos, o intróito santo: sanctus introitus – mas foi tal a mudança e descaimento deste tão santo e perfeito estado, que, imitando os mesmos cristãos as festas e liberdades do mais livre e insano deus dos gentios, se não distinguiam deles mais que no nome, conservando só o da fé, morta nos costumes, e no abismo de tais profanidades verdadeiramente sepultada.

A segunda mudança foi, depois de muitas centenas de anos, ressuscitar do profundo daquela miséria à felicidade da piedade cristã, e à consonância deste santo nome, a que a vemos restituída. E se alguém me perguntar qual destas duas mudanças foi mais admirável, se a da morte, ou a da ressurreição; se a da santidade ao extremo dos vícios, ou a dos vícios à antiga virtude e santidade, digo que na mesma morte e na mesma ressurreição, temos a resposta. Assim como a morte não é digna de admiração alguma, assim o degenerar a santidade em vícios não tem que admirar, porque a própria inclinação e peso da natureza corrupta leva o homem ao pior, e o precipita sem parar aos abismos mais profundos de toda a maldade. E tal foi aquela primeira e passada mudança. Porém, a segunda e presente, assim como a ressurreição à natureza é impossível, e à onipotência um dos maiores milagres, assim a virtude e santidade, depois de perdida, e por muitos tempos morta e sepultada, tornar outra vez a reviver, surgir, e restituir-se à formosura do seu primeiro e florescente estado, é uma coisa tão dificultosa, tão árdua, e digna de toda a admiração e espanto, que até os gentios conheceram a diferença de uma e outra quando disseram: Facilis descensus Averni: sed revocare gradum, superas que evadere ad auras, hoc opus, hic labor est[56].

Boa é esta razão, e a verdadeira, pela qual a mudança tão notável, que estamos vendo, seja admirável aos nossos olhos: Et est mira bile in oculis nostris. – Mas que o mesmo Cristo – torno a instar – que o mesmo Cristo se admire de tais efeitos no seu Sacramento, onde está encerrada toda a sua divindade e onipotência! Sim, outra vez. E para que os mesmos olhos, que se admiram, vejam a oposição de um cálix a outro cálix, entre no teatro, com o profano na mão, a mesma profanidade, brindando a todo o mundo. Viu S. João, no seu Apocalipse, uma mulher tão ornada nos vestidos como desordenada na vida, a qual tinha na mão um cálix de ouro, cheio de todas as abominações e torpezas: Habens poculum aureum in manu sua, plenum abominatione et immunditia (Ape. 17, 4). – Com este cálix convidou e provocou a todos os habitadores da terra a que bebessem. Beberam, e pela eficácia da bebida, perderam todo o juízo: et inebriati sunt qui habitant terram de vino prostitutionis ejus.[57]Chamava-se aquela mulher Babylon: Babilônia, e foi tal a embriaguez dos que beberam o seu cálix, como verte com discreta propriedade o texto arábico, que todos ficaram babiloniados: Biberunt omnes populi, et babyloniati sunt. – As cidades babilonizadas: e ficou Jerusalém uma Babilônia, Roma outra Babilônia, Lisboa outra Babilônia, e em cada cidade tantas Babilônias quantos eram os habitantes delas, trocada toda a ordem em confusão, que isso quer dizer Babilônia; trocado todo o juízo era insânia, toda a paz em discórdia, toda a quietação em tumulto, toda a urbanidade em descortesia e afrontas.

Enfim, tudo em toda aquela perturbação indigna do trato, não só cristão, mas humano, de que se lembra com horror hoje a nossa memória. Esta era a deplorada miséria, e o estado, mais que miserável, a que tinha reduzido todo o mundo o cálix profano da mão de Babilônia. Senão quando aparece Cristo naquele trono, como o viu Davi, com o cálix divino cheio de toda a santidade e pureza: Calix in manu Domini vini meri[58]. – E que sucedeu no mesmo momento? Os anjos clamaram a vozes: Cecidit, cecidit Babylon (Apc. 14, 8): Caiu, caiu Babilônia. – Duas vezes disseram caiu, porque caiu em dois sentidos. Caiu Babilônia, porque caiu vencida, prostrada, e convertida aos pés de Cristo; e caiu Babilônia, porque os homens caíram em si, e entraram em si tão admirados do que tinham sido, como admirado Cristo de ver o que agora são, que é o meu ponto. Ouçamos ao mesmo Cristo por boca de Isaías: Babylon dilecta mea posita est mihi in miraculum[59]: Tu, ó Babilônia, que dantes eras louca, e agora sisuda, dantes ímpia, agora pia; dantes profana, agora religiosa; dantes gentílica, agora verdadeiramente cristã; tu, que dantes eras tão aborrecida de mim, e agora és a minha amada – dilecta mea – tanto me admiro de te ver tão mudada, tão convertida, tão outra, que não havendo para minha sabedoria coisa maravilhosa, tu para mim és um milagre: Posita es mihi in miraculum.

VII – O milagre da conversão de Nínive. Se a subversão ou conversão de Nínive havia de ser dali a quarenta dias, e assim o pregou Jonas, como escreveram os Setenta intérpretes que havia de ser dali a três dias? Conclusão: Parabém à Igreja Católica, e graças ao diviníssimo Sacramento.

Vejamos este milagre, e acabo. Foi Jonas pregar a Nínive, e a sua pregação era: Adhuc quadraginta dies, et Ninive subvertetur (Jon. 3, 4): Daqui a quarenta dias se há de subverter Nínive, – Nínive, assim como era a maior de todas as cidades, assim era, naquele tempo, a maior de todas as Babilônias. Reinava nela Sardanapalo, tão estragado ou engolfado em todas as intemperanças da gula, que em todas as idades do mundo nenhum tão propriamente pudera representar nele a brutal e sórdida figura do entrudo profano. Tal era o rei, e tal o povo. E, posto que a Nínive material ficou em pé, é certo, diz Santo Agostinho, que a interior e moral verdadeiramente se subverteu, porque a brutal e profana desapareceu, e a que se viu de novo, toda era racional, toda temente a Deus, e toda tão santa, como penitente. Mas no tempo ou dias em que Nínive deu esta grande volta, há uma das maiores dificuldades de todas as letras sagradas, porque, onde o texto original diz: Adhuc quadraginta dies: Daqui a quarenta dias – o texto dos Setenta Intérpretes, que também é de fé, e do qual usaram os apóstolos, diz: Adhuc tres dies: Daqui a três dias. – Pois, se a subversão ou conversão de Nínive havia de ser dali a quarenta dias, e assim a pregou Jonas, como escrevem os intérpretes do mesmo texto, tão dignos de fé como ele, que havia de ser dali a três dias?

A razão verdadeira desta grande dificuldade, é que os Setenta Intérpretes foram setenta homens hebreus, os quais, por indústria de el-rei Ptolomeu, divididos em outros tantos lugares, sem saberem uns dos outros, verteram o texto hebreu em língua grega, ou egípcia, com tanta consonância, que todos escreveram o mesmo sem discreparem em uma só palavra; e como isto fizeram inspirados por Deus com lume profético, assim quis o mesmo Deus que, em alguns lugares raríssimos, concordassem também todos em mudar alguma palavra, na qual revelassem algum novo e grande mistério. E tal foi o de dizerem três dias, onde Jonas tinha dito quarenta. Mas agora resta saber esse mesmo mistério quando havia de ser, quando se descobriu, e qual é. Não é outro, senão o que estamos vendo, porque o que se havia de fazer, e não fez nos quarenta dias de Jonas, se fez e se cumpriu nestes três dias. Jejuaram os ninivitas, e fizeram penitência aqueles quarenta dias, mas não conseguiram o fruto dela, porque depois tornaram a recair nos mesmos pecados, e, como diz Tobias, foi subvertida Nínive. Jejuavam, do mesmo modo, os cristãos, e faziam penitência nos quarenta dias da quaresma, no primeiro dia dos quais, com a cinza que se lhes lançava sobre a cabeça, parece que se lhes restituía o siso; mas também sem o desejado fruto, porque no ano seguinte continuavam os mesmos abusos, e cada ano mais acrescentados. E o que nem uns nem outros conseguiram em quarenta dias, logramos nós em três dias. Contai as horas que correm no espaço de quarenta dias, e achareis que são quase quatrocentas; e o que eles não conseguiram em quatrocentas horas de quarenta dias, logramos nós nos três dias das Quarenta Horas. Este é o grande milagre, de que até o mesmo Deus se admira: Babylon dilecta mea posita est mihi in miraculum (Is. 21, 4).

Que resta, pois, senão que demos o parabém à Igreja Católica, e as graças ao diviníssimo Sacramento? Parabém vos seja, Igreja sempre santa, e hoje mais santa; parabém vos seja por verdes tão felizmente cumpridos os vossos ansiosos desejos, Desejáveis que se acabassem os vossos desprezos: Et jam me nemo despiciat – e os mesmos, que não ouviam vossas exortações, nem observavam os vossos preceitos como deviam, aqui os tendes todos neste nobilíssimo e inumerável concurso, obedientes e rendidos, com toda a veneração e culto que vos é devido. Desejáveis que houvesse alguém que inventasse algum novo e eficaz remédio com que curar aquelas tão inveteradas chagas, que tanto vos afligiam: Quis mihi det? – E nesta mínima Companhia, donde menos se podia esperar, e nesta casa, donde já se vai derivando a outras, o achastes eficacíssimo.

Desejáveis que, depois do mistério da Encarnação, o mesmo Deus sacramentado saísse fora do encerramento dos seus sacrários: Ut inveniam te foris – para que entrassem em si os que tão fora de si andavam; e aqui os tendes prostrados diante da majestade daquele já triunfante trono, exposto o mesmo Sacramento aos obséquios dos que dantes se retirava, por não sofrer presente as suas injúrias. Bendita, e louvada seja, Senhor, a vossa sabedoria, que ela foi a inventora de tão soberano remédio; bendita, e louvada seja a vossa onipotência, que só ela o podia facilitar; bendita e louvada seja a vossa providência, que o guardou para nossos tempos; bendita, e louvada seja a vossa justiça, que assim levantou o castigo, de que nós éramos os réus e os executores; bendita e louvada seja a vossa bondade; bendita e louvada seja a vossa misericórdia; bendita e louvada seja a vossa divindade e humanidade; e, para dizer em uma palavra o que se resume em todas: Bendito e louvado seja o Santíssimo Sacramento.

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[1] Quem me fará tão ditosa, que te tenha a ti por irmão, pendente já dos peitos de minha mãe, para que eu te ache de tora, e te dê o suspirado ósculo, e ninguém mais me despreze (Cânt. 8, 1)?
[2] Quem me fará tão ditosa, que te tenha a ti por irmão (Cânt. 8, 1)?
[3] Pendente já dos peitos de minha mãe (ibid.).
[4] E te dê o suspirado ósculo (ibid.).
[5] Para que eu te ache de fora (ibid.).
[6] E ninguém mais me despreze (ibid.).
[7] Quem me fará tão ditosa (Cânt. 8, 1)?
[8] Entrarei ao altar de Deus (SI. 42, 4).
[9] Ambr: de Inst. Virg. cap. I.
[10] O Unigênito, que está no seio do Pai (Jo. 1, 18).
[11] Saí do Pai, e vim ao mundo (Jo. 16, 28).
[12] Esse fica em mim, e eu nele (Jo. 6, 57).
[13] Não havia lugar para ele na estalagem (Lc. 2, 7).
[14] Vós outros, pois, sois corpo de Cristo, e membros uns dos outros (1 Cor. 12, 27).
[15] Porque somos membros do seu corpo (Ef. 5, 30).
[16] Segundo a medida da idade completa de Cristo (Et. 4, 13).
[17] Virg. Aen. lib.I, 148-152.
[18]Quem é este, que os ventos e o mar lhe obedecem (Mt. 8, 27)?
[19] Salva-nos, que perecemos (ibid. 25).
[20] Pôs preceito ao mar, e aos ventos, e logo se seguiu uma grande bonança (ibid. 26).
[21] Onde está a vossa fé (Lc. 8, 25)?
[22] Aqui está o pão que desceu do céu (Jo. 6, 59).
[23] A minha carne verdadeiramente é comida (ibid. 56).
[24] O que come deste pão viverá eternamente (ibid. 59).
[25] E cessou o vento, e eles ainda mais se espantavam no seu interior do que viam, pois ainda não tinham conhecido o milagre dos pães (Mc. 6, 51 s)
[26] E depois disto José de Arimatéia rogou a Pilatos. E Nicodemos, o que havia ido primeiramente de noite buscar a Jesus. veio também. No lugar, porém, havia um horto, e neste horto um sepulcro novo, em que ninguém ainda tinha sido depositado (Jo. 19, 38.39.41).
[27] Deu o corpo a José (Mc. 15, 45).
[28] Da maneira que os judeus têm por costume sepultar os mortos (Jo. 19, 40).
[29] Senhor entre os judeus (Jo. 3, I ).
[30] 0 qual não tinha consentido com a determinação deles (Lc. 23, 51).
[31] Tu és mestre em Israel (Jo. 3, 10).
[32] Ilustre senador (Mc. 15, 43).
[33] De Arimatéia, cidade de Judéia (Lc. 23, 51).
[34] Varão bom e justo (ibid. 50).
[35] Um homem rico (Mt. 27, 57).
[36] Trazendo uma composição de quase cem libras de mirra e de áloes (Jo. 19, 39).
[37] Tendo comprado um lençol (Mc. 15, 46).
[38] Um sepulcro novo, em que ninguém ainda tinha sido depósitado (Jo. 19,41).
[39] Imediatamente saiu sangue e água (Jo. 19, 34).
[40] Para que te ache de fora, e ninguém mais me despreze (Cânt. 8, 1).
[41] Rupert. lib. 2, De Operibus Spirit. S. Cap. 19.
[42] Chrysostom. homil. 84, in Joan.
[43] Tertul.de Bapt. cap. 16.
[44] Por este mistério do vinho e da água.
[45] Como Moisés no deserto levantou a serpente (Jo. 3, 14).
[46] Para que o que venceu no lenho, fosse pelo mesmo lenho vencido.
[47] A minha carne verdadeiramente é comida, e o meu sangue verdadeiramente é bebida (Jo. 6, 56).
[48] Vinho que gera virgens (Zac. 9, 17).
[49] O cálix do Senhor embriaga aos que o bebem, para torná-los sóbrios, e dirigir-lhes a mente para a sabedoria divina.
[50] São embriagados de sóbria embriaguez, a qual mata o pecado e vivifica o coração.
[51] Esta embriaguez proporciona sobriedade: é a embriaguez da graça, e não a embriaguez do vinho.
[52] Embriaguez não provocada pela bebida, ou pelo vinho, mas ardendo de amor divino.
[53] Pelo Senhor foi feito isto, e é coisa admirável nos nossos olhos (SI. 117, 23).
[54] Porque é impossível que os que foram uma vez iluminados. que tomaram já o gosto ao dom celestial, e que foram feitos participantes do Espírito Santo, e depois disto caíram, é impossível que eles tornem a ser renovados pela penitência (Hebr. 6, 4. 6).
[55] Dia de salvação.
[56] É fácil descer ao Averno; mas voltar, e tornar a subir para a luz do alto, eis o esforço árduo, a empresa difícil (Virg. Aen. lib. 6, 126).
[57] E ficaram embriagados os habitantes da terra com o vinho da sua prostituição (Apc. 17, 2).
[58] Na mão do Senhor está o cálix de vinho puro (SI. 74, 9).
[59] A minha amada Babilônia se tornou para mim em assombro (Is. 21, 4).

Fonte: https://www.literaturabrasileira.ufsc.br/documentos/?action=download&id=49831