Sermão de São Sebastião (1634)

SERMÃO DE SÃO SEBASTIÃO

PREGADO NA IGREJA DO MESMO SANTO

do Acupe, termo da Bahia. Ano 1634.


Beati pauperes, quia vestrum est regnum Dei. Beati qui nunc esuritis, quia saturahimini. Beati qui nune fletis, quia ridehitis. Beati eritis cum vos oderint homines[1].

Os bem-aventurados da terra, e seus quatro dotes. Quão parecidos são os espíritos bem-aventurados da terra com os corpos bem-aventurados do céu. Em que se diferença esta bem-aventurança daquela bem-aventurança? Assunto do sermão: São Sebastião, o Encoberto.

Cuidam os que pior conceito fazem do mundo – e assim o cuidava também eu – que só no céu há bem-aventurados. Mas hoje nos desengana Cristo no Evangelho, que também há bem-aventurados na terra. No céu não há pobreza, e são bem-aventurados os pobres: Beati pauperes. – No céu não há lágrimas, e são bem-aventurados os que choram: Beati qui lugent. – No céu não há fome nem sede, e são bem-aventurados os que a padecem: Beati qui nunc esuritis. – No céu não há ódios nem perseguições, e são bem-aventurados os perseguidos e aborrecidos: Beati eritis cum vos oderint homines. – E como a terra seja o hospital da pobreza, o vale das lágrimas, o deserto da fome, e a pátria do ódio e perseguição, bem clara fica a conseqüência ou demonstração evangélica, que também há bem-aventurados na terra. Os corpos dos bem-aventurados do céu têm quatro dotes gloriosos; os espíritos dos bem-aventurados da terra têm outros quatro dotes, que, ainda que o mundo lhes não chame de glória, não são menos para gloriar. A pobreza, que nos alivia do peso e embaraço das coisas da terra, responde ao dote da agilidade: Beati pauperes. – As lágrimas, que entre as sombras da tristeza são os claros do alívio e consolação, respondem ao dote da claridade: Beati qui lugent. – A fome e sede, que atenua e adelgaça a quantidade grosseira do corpo, responde ao dote da sutileza: Beati qui nunc esuritis. – A paciência generosa, com que os ódios e perseguições se fazem menos sensíveis, responde ao dote da impassibilidade: Beati estis cum vos oderint homines. – Tão parecidos são como isto os espíritos bem-aventurados da terra com os corpos bem-aventurados do céu.

Mas, entre esta semelhança tão grande, perguntará com razão alguém: Em que se diferença esta bem-aventurança daquela bem-aventurança, em que se distinguem estes bem-aventurados daqueles bem-aventurados? É tão grande a distância e a diferença, que chega do céu à terra. A bem-aventurança do céu é bem-aventurança descoberta e visível; a bem-aventurança da terra é bem-aventurança invisível e encoberta. A do céu é visível e descoberta, entre os resplandores da glória; a da terra é invisível e encoberta, debaixo dos acidentes da pena: segue uma e outra bem-aventurança as condições e estados do seu objeto. O objeto da bem-aventurança é Deus; mas Deus no céu é descoberto à vista, e Deus na terra é encoberto à fé. Que muito logo que uma e outra bem-aventurança, conformando-se com o seu objeto, e retratando-se nele, no céu seja bem-aventurança descoberta e, visível, e na terra bem-aventurança invisível e encoberta? Encoberta debaixo dos trajes vis da pobreza: Beati pauperes; encoberta debaixo das nuvens tristes das lágrimas: Beati qui lugent; encoberta debaixo dos horrores macilentos da fome: Beati qui nunc esuritis; e encoberta debaixo dos eclipses escuros do ódio: Beati eritis cum vos oderint? Assim andam neste mundo encobertos os bem-aventurados, e assim viveu, quando vivia nele, aquele grande nem-aventurado e aquele famoso encoberto, cujas saudosas e gloriosas memórias hoje celebramos, o ilustríssimo e invictíssimo confessor de Cristo, São Sebastião. Oh! divino bem-aventurado! Oh! divino encoberto! No céu vos celebra a Igreja Triunfante descobertamente bem-aventurado; na terra vos festeja a Igreja Militante bem-aventurado, mas encoberto; assim vos chamo, e assim vos devo chamar, porque assim vos descreve, e assim vos pinta hoje o Evangelho, encoberto com quatro disfarces, mas todos quatro de bem-aventurança e de bem-aventurado: Beati pauperes. Beati qui lugent. Beati qui nunc esuritis. Beati eritis cum vos oderint homines. – Suposto este fundamento do Evangelho, resumindo o meu discurso só a duas palavras, todo o assunto dele será este: Sebastião, o Encoberto. Para sair bem de tão antigo e tão novo assunto, não poderá ser sem muita assistência da graça. Ave Maria.

De quatro maneiras encoberto nos representa o Evangelho aos bem-aventurados, e em outras quatro considerações – se bem o advertimos – foi São Sebastião, o Encoberto: encoberto na vida e encoberto na morte; encoberto na fé e encoberto nas obras; e as estas duas combinações de encobrir reduziremos toda a prova do nosso assunto. Foi São Sebastião encoberto na vida e encoberto na morte: por quê? Porque encobriu a realidade da vida debaixo da opinião da morte, e encobriu a aparência da morte debaixo da realidade da vida. Foi também São Sebastião encoberto na fé e encoberto nas obras: por quê? Porque encobriu a verdade da fé com a política das obras, e encobriu a política das obras com a dissimulação da fé. Assim com a Igreja nos deu o assunto no Evangelho, que é a primeira fonte da verdade, assim nos há de dar a prova nas lições que reza do santo, que é a segunda.

Primeiramente, foi São Sebastião, o Encoberto, porque encobriu a realidade da vida debaixo da opinião da morte. São palavras formais do texto eclesiástico da sua história: Quem omnium opinione mortuum, noctu sancta mulier Irene sepeliendi gratia jussiit auferri; sed vivum repertum domi suae cutravit, et Paulo post confirmata valetudine. – Oh! milagre! Oh! maravilha da Providência divina! Na opinião de todos era Sebastião morto: omnium opinione mortuum; mas na verdade e na realidade estava Sebastião vivo: vivum repertum; ferido sim, e malferido, mas, depois das feridas curado: Irene domi suae curavit; deixado sim por morto de dia na campanha, mas de noite retirado dela: noctu jussit auferri; com vozes sim de sepultura e de sepultado: Sepeliendi grafia; mas vivo, são, valente, e tão forte como de antes era: confirmata valetudine. – Assim saiu Sebastião daquela batalha, e assim foi achado depois dela: na opinião morto, mas na realidade vivo: opinione mortuum, vivum repertum. – Atam a São Sebastião a um tronco – escusada diligência, para quem estava mais atado a Cristo, mais preso na sua fé, e mais seguro na sua constância – voam as setas, empregam-se os tiros, despejam-se as aljavas, desaparece o corpo, pregam-se já umas setas em outras setas: quem não crerá que está morto Sebastião? Assim o crêem os bárbaros, que já se retiram; assim o crê o tirano, que já está satisfeito; assim o choram os amigos, assim o lamenta a Igreja, assim o geme e suspira a cristandade; mas que importa que Sebastião esteja morto na opinião, se estava vivo na realidade?Isto é ser Sebastião, o Encoberto, porque encobriu a realidade da vida debaixo da opinião da morte: opinione mortuum, vivum repertum.

Foi levada a Jacó a túnica de seu filho José, envolta falsamente no sangue suposto: e que fez Jacó tanto que a viu? Resolve-se sem mais inquirição que José era morto; assenta consigo que uma fera o matara, e, porque não aparece morto nem vivo, acrescenta que também a fera o comera e engolira: Fera pessima comedit eum; bestia devoravit Joseph[2]. – A esta resolução seguiram-se os nojos, os lutos, as lágrimas, os suspiros, as lamentações perpétuas, sem bastar um ano, nem muitos anos, para que Jacó admitisse alívio à sua pena, nem consolação à sua dor: Scissisque vestihus, indutus est cilicio, lugens filium suam multo tempore, et noluit consolationem accipere[3]. – Oh! como é certo que há homens cegamente crédulos contra si mesmos! Basta que assim se há de crer, e assim se há de acrescentar, e assim se há de assentar por certa uma tamanha nova? Vinde cá, Jacó: quem vos trouxe essa túnica ensangüentada disse-vos que o sangue era de Jacó? Não. Há alguém que o visse matar, há alguém que o visse comer, há alguém que o visse engolir? Pois, como assim assentais tão apressada e precipitadamente que José é morto? Mas não quero argumentar contra vossa piedade, como pai, senão contra vossa pouca fé, como justo.

Não sabeis vós que está profetizado a José que o há de adorar o sol, a lua e as estrelas? Não sois vós o mesmo que interpretastes a profecia? Não sois o mesmo que entendestes, e dissestes que seu pai, sua mãe, e que seus irmãos o haviam de adorar? Pois, se ainda não está cumprida esta adoração, como credes que é, ou pode ser morto José? Não é razão que se dê mais crédito à fé que à vista? Não é razão que se creia mais a profecia que a túnica? Mas: vide utrum tunica filii tui sit, an non[4]. – Vede bem se é mortalha de defunto, ou se pode ser túnica de vivo; vede bem se esse sangue é vosso, e seu, ou se pode ser alheio; tomai exemplo para vós no sucesso de vosso pai.

Mandou Deus a Abraão que lhe sacrificasse seu filho Isac, pai de Jacó; levou Isac a lenha, Abraão o fogo e a espada; compôs o altar, atou a vítima, levantou o golpe: tudo verdade infalível; mas, se alguém neste passo, movido de piedade, afastasse os olhos, e visse de aí a um pouco que, depois de arder a vítima, ficavam sobre o altar aquelas cinzas, que havia de cuidar? Havia de cuidar que eram as cinzas de Isac, e que ali acabara o malogrado moço; e que aquele mesmo túmulo, que tinha sido o altar de seu sacrifício, era a sua sepultura. Esta havia de ser a opinião, mas não era esta a realidade, porque o venturoso Isac no mesmo tempo estava livre, vivo e alegre, e com as esperanças confirmadas de se haverem de cumprir nele todas as promessas de Deus, feitas a seu pai e à sua casa. Pois, se assim se podem enganar os juízos dos homens; se assim se equivoca a morte com a vida em um só abrir e fechar de olhos; se as cinzas, que pareciam de Isac, eram, do cordeiro; sobretudo, se assim acode Deus pela verdade de suas promessas, por que não crerá vossa fé, Jacó, que pode ter sucedido a José, ainda que tivesse algum perigo, o que sucedeu a Isac? Se as cinzas de um bruto se não distinguem das de Isac, quem vos disse a vós que esse sangue, que cuidais ser de José, não será também de outro bruto? Todos estes motivos, tão fortes e tão bem fundados, tinha Jacó para não crer que José fosse morto; mas nem razões, nem conveniências, nem profecias, nem exemplos, nem coisa alguma do mundo era bastante para aliviar um momento de sua tristeza, nem a persuadir eu alentar a que admitisse alguma melhor esperança, tão certo, tão firme, tão desenganado estava de que José era morto. Esta era a opinião, vamos agora à realidade. Oh! admiráveis são os juízos e traças de Deus em homens fatais, que ele escolheu para coisas grandes!

No mesmo tempo em que isto passava em Canaã, estava José no Egito, não só vivo, são, e muito bem disposto, mas com sucessão muito copiosa para herdeiros de sua fortuna, e com urna fortuna tão notável, que era absoluto senhor de todo o Egito: Absque trio imperiio non movebit quisquam manum aut pedem in omni terra Aegypti[5]. – É verdade que foi José preso e encarcerado: Miserunt eum in cisternam veterem[6]; verdade que foi vendido: Vendiderunt eum Ismaelitis[7]; é verdade que trataram de o matar: Cogitaverunt illum occidere[8]; é verdade que o despojaram da púrpura: Nudaverunt eum tunica talari et polvmita[9]; mas Deus o tinha escolhido e reservado para restaurador do mundo: Vocavit eum, lingua Aegyptiaca, Salvatorem mundi[10]; o mesmo Deus o libertou da servidão, o mesmo Deus o revestiu de outra melhor púrpura: Vestivit eum stola byssina, et collo torquem auream circumposuit[11]; o mesmo Deus o levantou ao trono de Faraó, com majestade e poder universal: Constitui te super ornem terram Aegypti[12] – para ser adorado, para ser reverenciado, e para ser conhecido e obedecido de todos: Ut ornes coram eo genuflecterent, et praepositur esse scirent universae terrae[13].- Eis aqui quão diferente era a opinião e quão diversa a realidade a respeito da vida e morte de José; mas como a Providência divina tinha determinado que ele estivesse tantos anos encoberto, sem saberem dele os de sua casa nem os de sua nação, oculta-se a realidade da vida debaixo da opinião da morte, que é o que sucedeu ao nosso encoberto hoje.

Mais maravilhosamente foi encoberto Sebastião que José, porque em José estava a opinião em Canaã, e a realidade em Egito. Em Sebastião não assim. A opinião e a realidade, tudo estava na mesma Roma: dentro em Roma encobria Sebastião a realidade de vivo com a opinião de morto. Na opinião de Irene, e na de Diocleciano, estava morto, mas em si mesmo estava vivo. Houve aqui, sem ressurreição, a mesma maravilha da ressurreição de Cristo. No mesmo horto do sepulcro falava Cristo com a Madalena; no mesmo caminho de Emaús falava Cristo com os dois discípulos; e bastava um disfarce de hortelão ou de peregrino, para que em Cristo se encobrisse a realidade de vivo, e na Madalena e nos discípulos se continuasse a opinião de morto. Também estes tinham profecias bem claras, mas eram incrédulos. Onde está, ó incrédulos, a memória dos três dias de Jonas, que ainda não são passados? Quando os marinheiros de Jope viram a Jonas engolido da baleia, e a baleia sorvida do mar, sem aparecer, deram todos a Jonas por morto; mas que importava que Jonas estivesse morto no conceito dos homens, se ele estava vivo – ainda que encoberto – no ventre da baleia? Que coisa era aquela grande baleia no meio do mar, senão urna ilha Enante, em que ninguém podia tomar porto, que já parecia, já desaparecia? Mas, encoberto Jonas nesta ilha encoberta, por mais que a opinião o tenha por morto, como passarem os dias e as noites da profecia de Cristo, ele desembarcará vivo e com assombro nas praias de Nínive. Assim apareceu Sebastião ao imperador Diocleciano, como diz admiravelmente o nosso texto: Cujus aspectu, cupi ille primum obstupuisset,quod mortuum crederet: Ficou pasmado e assombrado Diocleciano quando viu diante de si vivo a Sebastião, a quem ele tinha por morto; mas isso mesmo foi ser Sebastião o verdadeiro encoberto, pois nos olhos do imperador do mundo, e nos do mesmo mundo, pôde encobrir a realidade da vida debaixo da opinião da morte: Opinione mortuum, vivum repertum.

Assim como São Sebastião encobriu à realidade da vida debaixo da opinião da morte, assim encobriu também a aparência da morte debaixo da realidade da vida. Mas vejo que, antes de provar esta proposição, me estão reprovando e impugnando com o meu texto: Rei novitate, et acri Sebastiani reprehensione Diocletianus excandescens, eum tamdiu virgis caedi imperavit, donec animam Deo redderet: Assombrado Diocleciano com a novidade da primeira maravilha, e enfurecido da constância, zelo e liberdade com que Sebastião o repreendia, mandou que de tal maneira continuassem os verdugos em o atormentar e ferir, não já de longe, senão de perto, e aos braços com cruéis açoites, que não parassem nem desistissem do tormento, até que nele desse a vida; e assim se executou. Pois, a esta morte tão continuada e tão repetida, a esta morte tão cruel, a esta morte tão tormentosa, a esta morte tão conhecida e tão verdadeiramente morte, chamo eu aparência da morte, e não só aparência da morte, senão aparência da morte debaixo da realidade da vida. Isto é morte na aparência, e isto é vida na realidade? Sim. Esta é a excelência da morte de quem morre em Deus, e por Deus, e para Deus. As outras mortes são descobertamente o que parecem: parecem mortes, e são mortes; a morte do que morre por Deus e para Deus não é o que parece: é uma aparência de morte debaixo da realidade da vida. Diz o sábio que os justos, quando passam desta vida, por mais tormentos que padeçam, nenhum para eles é mortal: Non tanget illos tormentum mortis[14]. – E porque a novidade desta sentença parece que tinha contra si o testemunho de todos os olhos do mundo, que vêem morrer os justos nos tormentos, acode a esta objeção com outra sentença mais notável: Visi sunt oculis insipientium mori[15]. – É verdade – diz o sábio, que muitos olhos podem testemunhar que viram e vêem morrer os justos; mas esses olhos são os olhos dos néscios: ainda que sejam testemunhas de vista, não valem testemunha. – Entre os olhos dos néscios e os olhos dos sábios há grande diferença: os olhos dos néscios, como param na superfície, vêem só as aparências; os olhos dos sábios, como penetram o interior das coisas, vêem as realidades. E, como naqueles que morrem por Deus está encoberta a realidade da vida debaixo da aparência da morte, por isso os néscios, que só vêem as aparências, presumem neles a morte: Visi sunt oculis insipientium mori. – E os sábios, que penetram as realidades, reconhecem neles sempre a vida: Non tanget illos tormentum mortis. – E se não, ouçamos a um sábio: Mortui estis, sed vita vestra abscondita est in Christo cum Deo (Col. 3, 3): Estais mortos – diz São Paulo – mas a vossa vida está escondida em Cristo com Deus. – Glorioso apóstolo, explicai os termos desta postila, que parecem implicados. A vida, ainda que seja escondida, também é vida, posto que há poucos viventes que a queiram esconder e esconderse. Logo, se esses, com quem falais, têm vida, como lhes chamais mortos: Mortui estis? – E se são mortos, como afirmais que têm vida: Sed vita vestra abscondita est? – Nas primeiras palavras falou São Paulo pela nossa linguagem, e nas segundas pela sua, e conforme estas duas linguagens eram aqueles com quem São Paulo falava, juntamente mortos e vivos. Para os néscios, que vêem as coisas por fora, eram mortos na aparência; para os sábios, que vêem as coisas por dentro, eram vivos na realidade; mas essa vida – diz o grande apóstolo – estava escondida em Cristo: Sed vita vestra abscondita est in Christo – porque os que morrem por Cristo e para Cristo têm escondida e encoberta a realidade da vida debaixo da aparência da morte.

Mandou o tirano imperador que atormentassem a Sebastião até que morresse; enganou-se o bárbaro, porque para os que dão a vida por Cristo não há tormento que chegue a matar: Non tanget illos tormentum mortis. – Obedeceram os algozes furiosamente, e quando viram expirar a Sebastião tiveram-no por morto; mas também se enganaram os néscios, porque os que dão a vida por Cristo só nos olhos dos néscios podem morrer: Visi sunt oculis insipientium mori. – E assim, no mesmo teatro onde Sebastião despido, chagado, envolto em seu sangue, parecia que estava morto, aí mesmo perseverava, aí mesmo se conservava, e aí mesmo triunfava vivo. Porque, como milagroso encoberto na vida e na morte, debaixo da aparência da morte encobria a realidade da vida: Donec animam Deo redderet.

Notável argumento foi aquele de Cristo contra os saduceus: Deus Abraham, Deus Isaac et Deus Jacob non est Deus mortuorum, sed viventium (Mt. 22, 32): Deus é, Deus de Abraão, Deus de Isac, Deus de Jacó; logo não é Deus dos mortos, senão dos vivos. – Antes, destas premissas – Mestre divino – parece que se segue e se prova o contrário. Abraão não morreu? Sim. Isac não morreu? Sim, Jacó não morreu? Sim. Logo, se Deus o é de Abraão, de Isac e de Jacó, segue-se que Deus é Deus de mortos. Não se segue senão que Deus é Deus de vivos, porque os santos, como Abraão, Isac e Jacó, que vivem com Deus, e morrem para Deus, só passam pela morte na aparência, e sempre conservam a vida na realidade. Na aparência, para os olhos da carne, são mortos; na realidade, para os olhos do espírito, são vivos: Non est Deus mortuorum, sed viventium. – Esta foi a razão altíssima por que, dobrando Deus a Jó na segunda fortuna tudo o que tinha perdido, lhe não dobrou os filhos; pois, se Deus premeia a paciência e constância de Jó com lhe restituir em dobro a fazenda, os gados, os escravos e criados, os filhos, que era o que mais estimava, por que lhos não dá também em dobro? Porque Deus não dobrou a Jó senão o que tinha perdido, e o que lhe tinham morto os inimigos; e os filhos de Jó nem ele os perdeu, nem lhos mataram. É verdade que os mensageiros lhe vieram dizer que todos ficavam mortos; mas Deus, em lhos não restituir, quis dar-lhe um seguro de que estavam vivos. Se morreram fora da graça e serviço de Deus, então era verdade certa e triste, em todo o sentido, que estavam mortos; mas como tinham passado da vida como verdadeiros filhos de tão grande servo de Deus como Jó, ainda que debaixo da ruína da casa pereceram mortos na aparência, ficaram sempre vivos na realidade. E se os que morrem em Deus, e para Deus, não passam mais que pelas aparências da morte, conservando sempre as realidades da vida, que direi de Sebastião, aquele fidelíssimo e animosíssimo servo, que não só acabou a vida em Deus, e para Deus, senão que, à força de tantos, tão esquisitos e tão repentinos tormentos, a deu por Deus? Não deixou a vida a Sebastião no fim de seus anos, como deixou a Abraão, Isac e Jacó; não lhe cortou o fio da vida um caso inopinado, como aos filhos de Já; mas ele a deu a Deus voluntariamente quando mais inteira; ele a deixou cortar por Deus quando mais florida. Por isso, meu invictíssimo encoberto, por mais que Diocleciano vos mande matar, por mais que os algozes vos deixem por morto, por mais que Irene vos queira sepultar, por mais que vós mesmo reveleis o lugar de vosso sepulcro, e por mais que vossas relíquias, como despojos da morte, estejam repartidas pelo mesmo, eu, contudo, vos reconheço vivo, vos confesso vivo, vos reverencio vivo, e espero de vós favores como de vivo, porque debaixo destas aparências da morte conservais e encobris a realidade da vida: Tamdiu virgis caedi irperavit, donec animam Deo redderet.

Passando brevemente à segunda combinação do nosso assunto, foi também Sebastião encoberto na fé e encoberto nas obras, porque, como dizíamos, encobriu a verdade da fé com a política das obras e encobriu a política das obras com a dissimulação da fé: Christianos, quorum fidem clam colebat, opera et facultatibus adjuvabat – diz o nosso texto – onde se devem notar muito aquelas palavras: quorum fidem claro colebat. – Era cristão, mas cristão encoberto: e como era encoberto, sendo cristão? Encobrindo a verdade da fé debaixo da política das obras: tudo é do mesmo texto: Diocletiano chirus, dux primae cohortis, christianos, quorum fidem clam colebat, opera et facultatibus adjuvabat. – Oh! que grande cristão por dentro! Oh! que grande político por fora! Sebastião, visto por fora, e entendido por dentro, urna coisa era o que era, e outra coisa era o que parecia: parecia um cortesão do palácio da terra, e era um peregrino da corte do céu; parecia um capitão que militava debaixo das águias romanas, e era um soldado que servia debaixo da bandeira da cruz; parecia um grande privado de Diocleciano, e era o maior confidente de Cristo. Sua fortuna, seu hábito e traje, seu nome, tudo era suposto: o nome era ironia. Debaixo do nome de Sebastião – que significava Augusto – encobria o príncipe a quem servia; debaixo das armas e do bastão encobria a milícia que professava; debaixo da privança e graça do imperador encobria a graça de Cristo, de que só vivia. Toda a sua vida era uma dissimulação da vista, toda era um enigma da opinião, e toda era uma metáfora do que não era, porque, parecendo que toda se empregava em dar a César, só dava a Deus o que era de Deus. Assim servia Sebastião encoberto a Cristo, porque entendia – e cuidava bem – que o servia mais encoberto que declarado.

Expira Cristo na cruz em sumo desamparo, deixam-no morto até os mesmos que lhe tiraram a vida: não há quem o desça daquele madeiro, não há donde lhe venha uma mortalha, e até a terra lhe falta para o sepultar. Eis que aparecem personagens dos mais autorizados de Jerusalém, com holandas, com aromas, e o que mais é, com licença de Pilatos para aqueles piedosos ofícios. Mas quem eram esses dois homens? Eram José e Nicodemos, dois discípulos nobres da escola de Cristo. Pois não tem Cristo nos seus trabalhos, nem acha nos seus desamparos outros discípulos que o sirvam e socorram, senão José e Nicodemos? Onde estão os Pedros, onde estão os Andrés, onde estão os Jacobos, onde estão os Filipes e os Bartolomeus? João bem sabemos que está presente; mas, ainda que tomou à sua conta a Mãe, nenhuma diligência fez para o Filho defunto. Pois, estes discípulos tão antigos, tão obrigados e tão freqüentes da escola de Cristo, o deixam, o desamparam todos, por que só se atrevem a o buscar, a o servir e a o venerar José e Nicodemos? Porque os outros eram discípulos declarados: José e Nicodemos eram discípulos encobertos. Assim o notou e ponderou o evangelista São João neste mesmo lugar: Joseph ab Arimathaea, discipulus Jesu occultus propter metum Judaeorum, et Nicodemus, qui venit ad Jesum nocte[16] – Eram José e Nicodemos discípulos encobertos de Cristo, e nos trabalhos de Cristo e da cristandade – que é o seu corpo místico desamparado na cruz – são-lhe de maior importância e de maior serviço os amigos encobertos que os amigos declarados, porque os declarados, ainda que desejem igualmente, porque são amigos, os encobertos podem mais, porque não são suspeitosos. Ninguém era mais amigo nem ainda mais animoso que João; mas João não se atreveu a procurar a licença de Pilatos, como José, porque em João a fé e a amizade declarada era suspeitosa, e em José a fé e a amizade encoberta era efetiva. Esta é a razão por que, sendo São Sebastião tão fino e tão fiel cristão, e tão amigo de Cristo, encobria contudo com divina política a sua fé para a poder melhor empregar nas obras. Se Sebastião se declarara professor de Cristo, publicava a fé e perdia as obras; e como importava mais à cristandade o socorro de suas obras que a publicidade de sua fé, por isso com maiores quilates de cristão encobria a verdade da fé debaixo da política das obras: Christianos, quorum filem clam colebat, opera et facultatibus adjuvabat.

Quem não sabe aquela notável resolução de Davi, quando se rebelou contra ele Absalão? O maior confidente e o mais fiel amigo que então tinha Davi para o acompanhar e servir em toda a fortuna era Cusai; mas, agradecendo-lhe a vontade, e não lhe aceitando a companhia, manda-o que se vá meter com Absalão, que o sirva em todos os postos que ocupar, e que aceite qualquer lugar que lhe der em sua casa, que, segundo a qualidade de Casai, não poderia ser senão muito grande. Pois, Davi, fugitivo e perseguido rei, que conselho é este vosso? Agora que todo Israel segue a Absalão, agora que todos vos deixam, e adoram o sol que nasce, a um só antigo, que se acosta à vossa fortuna, ao maior homem, e de maior valor e juízo que tendes, tirais-lo de vós, e mandais-lo meter em casa e no serviço de vosso inimigo? Sim. E foi a mais bem entendida ação que nunca fez Davi, porque muito maiores serviços lhe podia fazer a fé de Cusai encoberta em casa de seu inimigo, do que a fé do mesmo Cusai declarada em sua própria casa; e assim foi, porque não obrou menos este confidente de Davi, admitido à graça e serviço de Absalão, que tirar a coroa da cabeça a Absalão, e torná-la a pôr na cabeça de Davi.

Quem é Davi, senão Cristo? Quem é Absalão, senão Diocleciano? Quem é Cusai, senão Sebastião? Mete Cristo a Sebastião, seu maior confidente em casa de Diocleciano seu inimigo, para que ali obre a sua fé encoberta muito mais do que pudera fazer fora dali declarado. Dali, encoberto, ajudava aos cristãos, dali encoberto os defendia, dali encoberto os exortava e sustentava na confissão constante de Cristo; e desta maneira, não sendo cristão declarado para os gentios, era cristão mais efetivo para os cristãos, porque encobria a verdade da fé debaixo da política das obras: Christianos, quorum lidem clam colebat, opera et facultatibus adjuvabat.

Agora restava mostrar como encobriu o nosso Encoberto a mesma política de suas obras debaixo da dissimulação da sua fé, sendo as obras da fé de Cristo, que exercitava no secreto, contra a fé do imperador, que professava no público, concordando as cautelas de político com a sinceridade cristã, servindo no mesmo tempo a dois senhores encontrados, e sendo homem de duas fés, sem ser infiel a nenhuma delas. Mas, porque nos falta o tempo – que sempre é forçoso faltar onde o sujeito é maior que tudo o que se pode dizer – já que não posso continuar louvando, quero acabar pedindo.

Divino Sebastião encoberto, bem-aventurado na terra, e descoberto defensor que sempre fostes deste reino no céu, ponde lá de cima os olhos nele, e vede o que não poderá ver sem piedade quem está vendo a Deus: vereis pobrezas e misérias que se não remedeiam; vereis lágrimas e aflições que se não consolam; vereis fomes e cobiças que se não fartam; vereis ódios e desuniões que se não pacificam. Oh! como serão ditosos e remediados os pobres, se vós lhes acudirdes: Beati pauperes! – Oh! como serão ditosos e aliviados os aflitos, se vós os consolardes: Beati qui lugent! – Oh! Como serão ditosos e satisfeitos os famintos, se vós os enriquecerdes: Beati qui nunc esuritis! – Oh! como serão contentes os odiados e desunidos, se vós os concordardes: Beati estis cum vos oderint homines! – Desta maneira, santo glorioso, por meio de vosso amparo conseguiremos a bem-aventurança encoberta desta vida, até que por meio da vossa intercessão alcancemos a bem aventurança descoberta da outra. Ad quam nos perducat, etc.

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[1] Bem-aventurados vós os pobres, porque vosso é o reino de Deus. Bem-aventurados os que agora tendes fome, porque vós sereis fartos. Bem-aventurados os que agora chorais, porque vós vos rireis. Bem-aventurados sereis quando os homens vos aborrecerem (Lc. 6, 20 ss).
[2] Uma bravíssima fera o comeu, uma besta devorou a José (Gên. 37, 33).
[3] E, rasgados os vestidos, se cobriu de cilício, lamentando seu filho por muito tempo, e não quis admitir consolação (ibid. 34 s).
[4] Vê se porventura é a túnica de teu filho, ou não (ibid. 32).
[5] Sem o teu mando não moverá ninguém mão ou pé em toda a terra do Egito (Gên. 41,44).
[6] E o lançaram em urna cisterna velha (Gên. 37, 24).
[7] Venderam-no aos israelitas (ibid. 28).
[8] Cuidaram de ratá-lo (ibid. 18).
[9] Despiram-no da túnica talar e de várias cores (ibid. 23).
[10] Chamou-o na língua egípcia Salvador do mundo (Gên. 41.45).
[11] E lhe vestiu uma opa de linho fino, e lhe pôs à roda do pescoço um colar de ouro (ibid. 42).
[12] Eis aí te constituí eu superintendente de todo o Egito (ibid. 41).
[13] Para que todos ajoelhassem diante dele. e soubessem que ele era o superintendente de todo o Egito (ibid. 43).
[14] Não os tocará o tormento da morte (Sab. 3. 1).
[15] Pareceu aos olhos dos insensatos que morriam (ibid. 2).
[16] José de Arimatéia, discípulo de Jesus, ainda que oculto, por medo dos judeus, e Nicodemos, o que havia ido primeiramente de noite buscar Jesus (Jo. 19,38 s).

Fonte: https://www.literaturabrasileira.ufsc.br/_documents/0043-01952.html