Sermão de São Gonçalo

Si venerit in secunda vigilia, et si in tertia vigilia venerit, et ita invenerit, beati sunt servi illi[1]

I – O santo sobre cujo estado duvidaram os historiadores, sobre cuja profissão duvidou ele mesmo, e sobre cujas grandezas, para eleger as maiores, duvida o próprio autor

Onde há muito em que eleger não pode haver pouco sobre que duvidar. Celebra hoje a nossa devoção um santo sobre cujo estado duvidaram os historiadores, sobre cuja profissão duvidou ele mesmo, e sobre cujas grandezas, para eleger as maiores, eu sou o que mais duvido. Duvidaram os historiadores sobre o seu estado, porque uns o fizeram da jerarquia clerical, como filho de S. Pedro, outros da monástica, como monge de S. Bento, outros da mendicante, como religioso de S. Domingos, controvérsia em que é mais gloriosa a dúvida que a decisão. Assim duvidaram e contenderam as mais nobres cidades da Grécia sobre qual fosse ou houvesse sido a pátria do famoso Homero. Duvidou o mesmo santo sobre qual seria a profissão em que Deus mais se agradaria que ele o servisse, porque não basta servir a Deus, mas é necessário servi-lo como ele quer. E como neste requerimento empenhasse muitas horas e muitos dias de fervorosa oração, e, porque já era sacerdote, muitos sacrifícios, finalmente lhe respondeu o divino oráculo que se dedicasse a seu serviço naquela religião em que se dá princípio aos Ofícios Divinos pela Ave Maria. Com este indício, no qual era significado claramente o sagrado Instituto dos Pregadores, resolveu o santo a sua dúvida, e com o mesmo espero eu resolver a minha. Para dar, pois, bom princípio ao nosso discurso, antes de saber nem propor qual há de ser, comecemos também saudando a Mãe da graça, e digamos Ave Maria.

II – As quatro vigias da vida do homem. Por que no Evangelho deixa o Senhor a primeira e a última vigia, e só faz menção da segunda e da terceira? Por que só chama bem-aventurados os da segunda e terceira idade, que são os mancebos e os varões? Assunto do sermão. S. Gonçalo não só foi o santo da segunda e da terceira vigia, senão também da primeira e da quarta, e não só da primeira, da segunda, da terceira e da quarta, senão também da quinta.

Si venerit in secunda vigilia, et si in tertia vigília venerit, beati sunt servi illi (Lc. 12, 38).

Duvidoso eu, e muito duvidoso, como dizia, entre as grandezas do nosso santo para eleger e pregar dele as mais admiráveis, sobre esta minha dúvida encontro no Evangelho com outra maior. Diz Cristo, Mestre divino e Senhor nosso, que os servos que ele achar vigilantes, ou venha na segunda vigia da noite, ou na terceira, esses são os bem-aventurados. A suposição e frase é militar, porque já os soldados naquele tempo dividiam a noite em quatro vigias, de cujo número persevera hoje o nome de se chamarem quartos. E porque a nossa vida, como diz Jó, é milícia, e neste mundo vivemos às escuras, ou com pouca luz como de noite, divide o Senhor a mesma vida do homem em quatro partes com nome de quatro vigias. A primeira parte, ou idade, é a de menino, a segunda a de mancebo, a terceira a de varrão, a quarta a de velho. Suposto, pois, que estas partes ou idades, no curso da vida humana são quatro, por que deixa o Senhor a primeira e a última, e só faz menção da segunda e da terceira: Si venerit in secunda vigília, et si in tertia vigilia venerit? A razão natural, quanto às vigias, é porque na segunda e na terceira é mais carregado o sono, mais trabalhosa a resistência e mais dificultosa a vigilância. E quanto às partes ou idades da vida é também a mesma, ou semelhantes, porque na idade de mancebo e de varão, assim como as tentações são mais fortes, assim é mais trabalhosa a resistência dos vícios, e mais dificultosa a observância das virtudes, Na primeira idade, que é a dos meninos, ainda os não tenta o mundo; na última, que é a dos velhos, já os não tenta: e a virtude sem batalha, que nos meninos é inocência, nos velhos desengano, quanto mais está em paz e fora de guerra, tanto menos tem de vitória e de sólida e forte virtude.

S. Gregório Nazianzeno, concordando este texto com a lei em que Deus nos manda que o amemos, dá outra razão igualmente própria e natural, mas muito mais sublime: Diliges Dominum Deum tuum ex toto corde tuo, et ex tota anima tua, et ex omnibus viribus tuis, et ex omni mente tua (Lc. 10, 27): Amarás a Deus, teu Senhor, com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento e com todas as tuas forças. – De sorte que destas quatro partes, ou destes quatro todos há de constar o amor de Deus, para ser legitimo de todos os quatro costados. Amor de todo o coração, amor de toda a alma, amor de todo o entendimento, e amor de todas as forças. Pois, esta é a razão por que Cristo só fala da segunda e da terceira vigia, e não da primeira nem da quarta. E por que só chama bem-aventurados aos da segunda e terceira idade, que são os mancebos e os varões, e não aos da primeira e da quarta, que são os meninos e os velhos? Sim, e clarissimamente. Porque Deus quer ser amado não só com todo o coração e com toda a alma, senão também com todo o entendimento, e com todas as forças; e, posto que os meninos e os velhos têm coração e têm alma, os meninos ainda não têm entendimento, e os velhos já não têm forças: logo, só os da segunda e terceira vigia, só os mancebos podem amar e servir a Deus com todas as quatro partes ou todos os quatro todos do inteiro e perfeito amor: com todo o coração: ex toto corde – com toda alma: ex tota anima – com todo o entendimento: ex tota mente: com todas as forças: ex omnibus viribus.

Entendido assim – pois assim se deve entender – o Evangelho, parece que ele por si mesmo nos tem já dividido o discurso em duas partes, e que, segundo elas, devemos tratar das duas principais idades do nosso santo: a segunda, que nos mancebos é florente, e a terceira, que nos varões é madura; sendo uma e outra na sua perfeição, ambas foram cheias de flores e ambas de frutos, Mas, posto que assim pareça a outros, a mim, cuja é a eleição, não me parece. Não são as excelências de S. Gonçalo tão pouco grandes que caibam em tão estreitos limites. Quando o rio sai da madre, também as margens são rio. Não só havemos de largar o Evangelho, senão também o número das vigias. Digo, pois, ou determino dizer, que S. Gonçalo, não só foi santo da segunda e da terceira vigia, senão também da primeira e da quarta, e não só da primeira, da segunda, da terceira e da quarta, senão também da quinta. Santo, e admirável santo, na primeira idade de menino; santo e admirável na segunda, de mancebo; santo e admirável na terceira, de varão; santo e admirável na quarta, de velho; e, finalmente, santo e admirável na quinta, depois de morto, em que tem já cinco vezes tantos anos quantos teve de vida. Se o discurso for largo facilmente se acomodará a devoção com a paciência.

III – A primeira vigia de S. Gonçalo: foi santo e admirável santo S. Gonçalo na primeira idade de menino, porque não foi menino menino, senão menino homem. Adão, o único homem que nasceu homem. O Batismo de S. Gonçalo. O profeta e a árvore plantada junto às correntes das águas, a qual dará o fruto a seu tempo. Se S. Paulo diz que primeiro é no homem a parte animal, e depois a parte espiritual, como eram primeiro no nosso menino os atos da parte espiritual, e depois os da animal? As razões racionais do choro e da abstinência do menino Gonçalo. O menino Paulo e o menino Gonçalo.

Começando pela primeira vigia, foi santo e admirável santo S. Gonçalo na primeira idade de menino, porque não foi menino, senão menino homem. Os outros meninos, para chegarem a ser homens, hão de esperar muitos dias: S. Gonçalo não esperou nem um só dia, porque no mesmo dia em que, nascendo, saiu à luz do mundo, já era homem, e grande homem no ser, posto que fosse menino na estatura. Falando o profeta Zacarias do futuro Salvador do mundo, excita primeiro as admirações do que havia de dizer com a palavra ecce, e o que disse é que o seu nome seria: O que nasce homem: – Ecce vir oriens nomen ejus[2]. E se é prodígio digno de admiração e admirações que um homem, que era juntamente Deus, nascesse menino e homem: vir oriens – quão admirável santo devemos entender que foi o nosso, sendo desde seu nascimento não homem-menino, senão menino-homem? Um só homem houve no mundo que nascesse homem. Este foi Adão, a quem Deus criou em idade e estatura perfeita. Mas este homem, que unicamente nasceu homem, nem por isso deixou de ser menino. Vós o julgai. O de que era senhor e o que tinha de seu Adão não era menos que todo este mundo, e um homem que, tendo tanto, deu quanto tinha por uma maçã, vede se foi menino, Adão nascido homem, mas homem menino: Gonçalo nascido menino, mas menino homem. E quando começou este grande menino a mostrar publicamente que era menino homem? Oito dias depois de nascido, que foi o de seu batismo. Saiu da pia onde os outros meninos estranham tanto o rigor da água, e quando a ama o recolheu nos braços para o acalentar do choro e lhe dar o peito, o prodigioso infante em vez de chorar e mamar, fitou os olhos em um Cristo crucificado, e com o rosto alegre e os bracinhos abertos e estendidos, parecia que lhe dava as graças da graça que recebera, Assim esteve por largo espaço, com admiração e pasmo dos circunstantes, sem o poderem divertir da vista firme e contemplação atenta do sagrado objeto. E quem negará que foi isto receber o batismo não como menino, senão como homem? O batismo, ou o recebem os adultos, que são os homens, ou os inocentes, que são os meninos, mas com grande semelhança no batismo, e com grande diferença nos batizados. No batismo com grande semelhança, porque assim a uns como a outros comunica aquele Sacramento a graça, e infunde os hábitos de todas as virtudes; mas nos batizados com grande diferença, porque nos inocentes ficam os hábitos das virtudes como amortecidos, sem poderem exercitar os atos delas, e nos adultos ficam vivos e prontos, porque logo, ou produzem, ou podem produzir os atos virtuosos a que os mesmos hábitos os inclinam. Assim se viu no batismo de Santo Agostinho que foi batizado em idade de trinta e três anos, e assim ele, como Santo Ambrósio que o batizou, e também tinha sido batizado em idade adulta, compuseram extemporaneamente e cantaram o hino Te Deum, em que se contém tantos e tão excelentes atos, e tão ardentes afetos de todas as virtudes. Agora pergunto: e a qual destas duas diferenças ou classes de batizados pertence o nosso santo? É certo que não à dos meninos e inocentes, senão à dos homens e adultos. Porque logo, como se o batismo lhe infundira não só os hábitos, senão os atos de todas as virtudes, em não chorar, exercitou o da fortaleza; em não tomar o peito, o da temperança; em fixar os olhos e estender alegre os bracinhos para a imagem de Cristo crucificado, o da prudência, o da justiça, o da religião, o da fé, o da caridade; e em o não poderem divertir daquela devota e constante atenção, o da perseverança.

Lá diz o real profeta do homem que logo começa e há de ser grande santo: Et erit tanquam lignum quod plantatum est secus decursus aquarum, quod fructum suum dabit in tempore suo (Sal. 1, 3): Que será como a árvore nova e tenra plantada junto às correntes das águas, a qual dará o fruto a seu tempo. – As águas correntes são as do batismo; as plantas novas, regadas com elas, são os batizados, não adultos, senão meninos e inocentes, e destes diz o profeta, que não dão logo o fruto, senão que o darão a seu tempo. Por quê? Porque naquele estado imperfeito da natureza, que é a infância, assim como têm emudecida a língua e encaixados os braços, assim as potências da alma, como dormentes, não estão prontas e expeditas para exercitar logo os atos das virtudes. Crescendo, porém, depois e tomando forças, então sai ou amanhece, como o sol, o lume do entendimento e da razão, e então é o tempo determinado pela natureza, e esperado pela graça para poderem produzir e produzirem os frutos: Et fructum suum dabit in tempore suo. – Assim sucede a todos os meninos. Porém, o nosso, como exceção dos demais, antecipando os limites e vagares da natureza, fez seu o tempo que não era seu, e seus os frutos que não eram do tempo. Reparou e considera discretamente Santo Agostinho que os meninos vão ao batismo com pés não seus, e crêem com coração não seu, e confessam o que crêem com língua não sua: Parvulis mater Ecclesia aliorum pedes accommodat ut veniant, aliorum cor ut credant, aliorum linguam ut fateantur – E tudo isto fizeram seu os olhos do nosso menino, fixando-se em Cristo crucificado. Aqueles olhos fizeram sua a língua com que confessaram a fé, aqueles olhos fizeram seu o coração com que a creram, e aqueles olhos fizeram seus os pés, ou para melhor dizer, as asas com que venceram as distâncias que há de menino a homem, sem deixar espaço em meio. Assim ficou o nosso santo, e se mostrou publicamente menino e homem juntamente no mesmo tempo, porque, não sendo o tempo seu enquanto menino, enquanto homem e com ações de homem o fez seu: Et fructum suum dabit in tempore suo.

Não parou o prodígio naquele primeiro dia, mas depois se continuou com novas e maiores circunstâncias, porque o mesmo menino, que então não chorou, agora chorava irremediavelmente, e o que então não tomou o peito, agora estava constante em de nenhum modo o querer admitir. Não se entendia ao princípio o segredo destas lágrimas e abstinências, até que finalmente se conheceu que eram saudades dos seus primeiros amores. Para que não chorasse e se deixasse alimentar, de que indústria usaram? Levavam a Gonçalo ou Gonçalinho à mesma igreja, e tanto que punha os olhos na imagem de Cristo crucificado, esta vista lhe enxugava logo as lágrimas e lhe tirava o fastio, com que, já contente e gostoso, aceitava o natural alimento. Este era o único remédio, sem haver nenhum outro, caso verdadeiramente raro, e mais se consultarmos nele a S. Paulo. Para inteligência do grande prodígio que encerra, se há de supor que o homem é composto de duas partes, uma animal e outra espiritual: a animal consta de duas vidas, que são a vegetativa e sensitiva, e a espiritual consiste em uma só, que é a racional. E que diz S. Paulo? Tudo o contrário do que acabamos de contar do nosso menino. Diz que, posto que a parte espiritual seja mais nobre no homem que a animal, a animal, contudo, é primeiro que a espiritual, e que a espiritual não tem lugar senão depois da animal: Non prius quod spiritale est, sed quod animale, deinde quod spiritale (1 Cor. 15, 46). Uma e outra coisa confirma o apóstolo com o exemplo de Adão, homem da terra, de quem recebemos a vida animal, e foi primeiro que Cristo, e com o exemplo de Cristo, homem do céu, de quem recebemos a vida espiritual, e foi depois de Adão. Isto é o que ensina S. Paulo. Vamos agora ao que se via no nosso santo, O chorar, ou não chorar, pertence à vida sensitiva, porque o chorar é efeito do sentimento: o tomar ou não tomar o peito pertence à vida vegetativa, porque a nutrição é efeito do alimento; do mesmo modo o chorar por ver a Cristo, e não admitir gosto sem ele, é efeito da vida racional e o mais racional da mesma vida. Pois, se S. Paulo diz que primeiro é no homem a parte animal, e depois a parte espiritual, como eram primeiro no nosso menino os atos da parte espiritual, e depois os da animal: primeiro o buscar e ver a Cristo, e depois o cessar do choro, e tomar o peito? Por que S. Paulo falava conforme a lei ordinária da natureza, e dos meninos que primeiro são meninos e depois homens, porém, o nosso santo obrava como exceção da mesma lei, e não como menino somente menino, senão como menino juntamente homem.

Daqui se segue, em maior assombro do caso, que o mesmo não cessar do choro, e o mesmo não tomar o peito, senão com Cristo diante dos olhos já não eram no nosso santo atos animais e de menino, senão racionais e de homem. Para prova desta grande conseqüência suponho, com a fé e com a teologia, três coisas: primeira, que Deus é o último fim do homem; segunda, que todas as ações humanas e propriamente de homem devem ser encaminhadas a este último fim; terceira, que as ações que não levam diante dos olhos este fim, ainda que as faça um homem de cem anos, não são humanas nem de homem, senão de animais, e de menino ou bruto. E digo indistintamente de menino ou bruto, porque tão animal ação é o mamar e o chorar em um menino como o mamar e o balar em um cordeiro. Nem o exemplo ou nome de menino de cem anos é novidade neste ponto, porque meninos de cem anos chamou o profeta Isaías aos que deste modo obram: Pueri centum annorum (Is. 65, 20), E como o nosso menino cessava do choro e tomava o peito com Cristo diante dos olhos, que é o último fim do homem, o mesmo cessar do choro, e o mesmo tomar o peito, que nos outros meninos são ações animais e de menino, nele eram racionais e de homem. Oh! que grande menino e que grande homem sois, meu santo! O mesmo S. Paulo dizia de si: Cum essem parvulus, loquebar ut parvulus, sapiebam ut parvulus, cogitabam ut parvulus; quando autem factus sum vir, evacuavi quae erant parvuli (1 Cor. 13,11): Eu – diz o apóstolo – quando era menino, falava como menino, entendia como menino e cuidava como menino; porém, depois que cresci e fui homem, deixei tudo o que era próprio de menino. – S. Gonçalo era muito mais menino que S. Paulo, porque S. Paulo na idade em que chama menino já falava: loquebar ut parvulus – e S. Gonçalo ainda não falava, nem começou a falar senão daí a dois anos, e quando o apóstolo do terceiro céu era menino, e obrava como menino, e lhe faltava ainda muito para ser homem, não na mesma idade, senão muito antes dela, ainda mudo e ainda totalmente infante, já o nosso menino era juntamente homem. Tire, pois, S. Gonçalo das mesmas palavras do apóstolo o quando autem, e, aplicando a si as primeiras e as últimas, diga confiadamente: Cum essem parvulus, factus sum vir[3]

IV – A segunda vigia do santo: foi admirável santo S. Gonçalo na idade de mancebo, porque, leito naqueles anos pastor de almas – oficio tão perigoso para a própria, como útil para as alheias – de tal sorte acudiu a uma obrigação sem faltar a outra, que a ambas satisfez adequadamente. O significado das cãs. Os cabelos de Absalão e a madureza de espírito. S. Gonçalo e os pastores do Testamento Velho. O homem, o pior gado de guardar O que dizem os historiadores do tempo em que S. Gonçalo governou a sua igreja. O duplo milagre dos pães convertidos em carvões. Os milagres à custa do pão alheio. Não está a perfeição em saber fazer milagres, senão em os saber desfazer O duplo milagre exigido de Deus por Gedeão. As propriedades da vara de Moisés e o mistério das chaves de Pedro.

Quanto à segunda vigia, foi santo e admirável santo S. Gonçalo na idade de mancebo, porque, feito naqueles anos pastor de almas – ofício tão perigoso para a própria, como útil para as alheias – de tal sorte acudiu a uma obrigação sem faltar a outra, que a ambas satisfez adequadamente. Faltavam-lhe ao novo prelado as cãs, que no sacerdócio são os esmaltes da coroa, e na prelazia o ornamento da dignidade, mas não lhe faltava nada do que as mesmas cãs significam, e não poucas vezes desmentem. São como as neves de que sempre está coberto o Monte Etna, debaixo das quais se ocultam vulcões e incêndios; são como as que o divino Mestre chamou sepulturas caiadas: Sepulchra dealbata (Mt. 23, 27) – brancas por fora e corrupção por dentro. E também podem ser com aquela árvore, a que já comparamos o nosso santo em mais levantado sentido. Dela diz o profeta que nunca lhe cairá a folha: Folium ejus non defluet (SI. 1, 3) – e as árvores que não mudam a folha, tão verdes são de poucos anos como de muitos. Mas quanto com maior indecência se devem estranhar nos velhos as verduras, tanto é digna de maior veneração nos moços a madureza. As verdadeiras cãs – diz o Espírito Santo – são o juízo sisudo, e não consiste a velhice na cor dos cabelos, senão na pureza da vida: Cani autem sunt sensus hominis, et aetas senectutis vita immaculata[4]. Os melhores cabelos e a pior cabeça que nunca houve foi a de Absalão: os cabelos vendiam-se a peso de ouro, e a cabeça nenhum peso tinha. Mais lhe tomara eu o chumbo na testa que o ouro na gadelha. Também há cabelos que parecem de ouro e são de prata sobredourada, e isto é o pior que têm as cãs: poderem-se tingir, Não assim os cabelos negros, que não admitem outra cor. Por isso a pastora das églogas de Salomão o que louvou nos cabelos do seu pastor foi serem da cor do corvo: Comae ejus sicut elatae palmarum, nigrae quasi corvus[5].

Sendo, pois, o melhor e o maior de todos os pastores pastor e mancebo, grande louvor é do nosso santo ser eleito pastor na mesma idade. Mancebo era Abel: e que pastor mais religioso? Mancebo era Jacó: e que pastor mais vigilante? Mancebo era Davi: e que pastor mais animoso e esforçado? – Se o leão – diz o texto – lhe tomava o cordeiro pela cabeça, tirava-lho da garganta pelas pontas dos pés, e se lho engolia pelos pés, arrancava-lho das entranhas pelas orelhas. – A idade da velhice é já muito fria para ações tão alentadas e tão ardentes. O pior gado de guardar é o homem. Quarenta anos guardou ovelhas Moisés sem nenhum perigo, e não havia dois anos que era pastor de homens, quando só Deus lhe pôde guardar a vida dos mesmos a quem ele guardava. Ele levava-os a beber nas correntes puríssimas do Jordão, e eles suspiravam pelos charcos do Nilo e lodos do Egito. A maior falta que hoje se experimenta nos pastores é a do valor. Se S. Gonçalo o não tivera mostrado antes, tanta culpa teria quem lhe meteu o cajado na mão como ele em o aceitar, Se não tens valor para arcar com os vícios autorizados, e temes o rosto dos poderosos, não aceites o ofício, diz Deus: Noli fieri judex, nisi valeas irrumpere iniquitates, ne forte extimescas fatiem potentis[6]. – No rebanho manso das ovelhas também há valentes de testa tão dura e armada que se batem uns com os outros, mas todos temem e reverenciam o pastor. Assim foi antigamente, quando os pastores eram Crisóstomos e Ambrósios, posto que os mais poderosos da manada fossem Teodósios e Arcádios. Se os pastores não guardaram tantos respeitos, eles foram mais respeitados. E assim o foi S. Gonçalo, posto que mancebo.

Do tempo em que governou a sua igreja dizem muitas coisas os historiadores, todas próprias de um bom pastor. Dizem que não se vestia da lã das ovelhas, nem se sustentava do seu leite, e muito menos do seu sangue. Dizem que o patrimônio de Cristo não o gastava com criados, cães ou cavalos, nem com acrescentar a casa, ou lhe vestir as paredes. Dizem que, exceta a limitada côngrua do próprio sustento, tudo o demais distribuía aos pobres, e não como próprio, com nome de caridade, senão como seu e por obrigação de justiça. Dizem que não só pregava aos ouvidos, senão também, e muito mais, aos olhos, porque os exemplos da sua vida eram a alma de toda a sua doutrina. Estas e outras muitas coisas dizem os historiadores, mas todas em comum. E porque do tempo em que o nosso santo foi pastor, um só caso referem em particular: por este coligiremos os demais, e vendo como obrava, conheceremos qual era. Havia entre os fregueses de S. Gonçalo o abuso, que ainda dura em outros, de terem perdido o medo às excomunhões. Eram daquela gente que não crê o que não se vê, e sentiam mais a pena que os multava na bolsa que a que os condenava na alma. Pregando, pois, um dia o santo, e afeando este abuso como tão alheio da fé e religião cristã, viu passar uma mulher que levava uma cesta de pão, chamou-a, mandou-lhe que pusesse a cesta a seus pés, e, repetindo com voz temerosa a forma da excomunhão sobre os pães, que eram muito alvos, subitamente se converteram em carvões. Ficaram assombrados todos, e muito mais a pobre mulher, que deu por perdido o seu pão. Mas, depois que com a vista de tão estranha e repentina mudança os viu persuadidos ao que não acabavam de entender – agora, diz o santo, para que vejais também quão contrário é o efeito que obra a absolvição nos excomungados, repetiu sobre os carvões as palavras da absolvição, e no mesmo momento e do mesmo modo ficaram outra vez convertidos em pães, tão alvos como dantes eram.

Feita a demonstração de um e outro milagre, disse S. Gonçalo à mulher que levasse o seu pão com a bênção de Deus: e aqui reparo muito. Sendo o pão, não uma, senão duas vezes milagroso, dobrada razão tinha o santo para o aplicar à Igreja. Ó tempos! Pároco sei eu que, à conta de uma excomunhão, teve pão com que sustentar muitos dias a sua família, e era muito mais numerosa que a de S. Gonçalo. E por que não fez ele outro tanto? Ao menos parece que devera mandar reservar alguns daqueles pães convertidos em carvão para perpétua memória e horror do caso. Por que tornou, pois, a entregar à mulher todo o seu pão, tão inteiro no número, e tão branco na cor como era dantes? Porque entendeu, o bom e desinteressado pastor, que era coisa muito fora de razão querer fazer milagres à custa do pão alheio. Quantos milagres vemos neste mundo, e quantos homens e alvitres milagrosos, e todos à custa do pão alheio, e nenhum do seu? A Elias sustentava Deus cada dia com dois pães, e a S. Paulo, primeiro ermitão, também cada dia com meio pão; e, sendo os ministros de um e outro milagre corvos, sempre o pão era da mesa de quem mandava sustentar os famintos, e não tomado a outrem. O maior milagre neste gênero foi o dos pães que, sendo cinco se multiplicaram a tantos milhares que sustentaram cinco mil homens e sobejaram tantas alcofas. Mas estes sobejos para quem foram? Para os donos dos cinco pães que eram os apóstolos. Semelhante milagre já o vimos e estamos vendo. O que ontem se contava por unidades hoje se conta por milhares e por milhões. Mas à custa de quem? Dos mesmos que dão a matéria e o cabedal para o milagre. E em vez de terem parte na multiplicação e quando menos nos sobejos, até os seus cinco pães lhos excomungam, de maneira que antes os querem perder que lograr, porque só lhos permitem convertidos em carvão.

O remédio desta grande perdição e desta grande lástima já o ensinou S. Gonçalo, se houver quem lhe queira tomar a lição. E em que consistiu o remédio? Consistiu em tornar a converter o carvão em pão, assim como o pão se tinha convertido em carvão. Não está a perfeição do milagroso em poder fazer os milagres, senão em os saber desfazer, E a razão no nosso caso é porque, quando os milagres são danosos, para refazer o dano do milagre é necessário que desfaça o segundo o que fez o primeiro. Tendo um anjo feito uma grande promessa a Gedeão, que também era pastor, pediu-lhe ele em confirmação dois milagres, mas com tal condição que, o que fizesse o primeiro, desfizesse o segundo. Tomou pois Gedeão um velo de lã das suas ovelhas, e pondo-o no meio da eira, disse: – Quero que todo o orvalho desta noite caia na lã, e nada na eira: e assim sucedeu. Ao outro dia, posto o velo no mesmo lugar, disse: – Agora quero, às avessas, que todo o orvalho desta noite caia na eira, e nada na lã. – E também sucedeu do mesmo modo. Mas, por que se não contentou Gedeão com um só milagre, senão com dois, e que desfizesse o segundo o que tivesse feito o primeiro? Porque, se quis certificar da promessa do anjo, e conhecer que eram milagres de Deus. E entendeu que, sendo o orvalho bem comum de toda a terra, não podia Deus defraudar uma parte dela com o primeiro milagre, sem que lhe refizesse o dano com o segundo. Isto é o que pediu Gedeão, isto o que fez S. Gonçalo, e isto o que não há quem imite. Basta que tudo há de ser para o particular e nada para o comum, tudo para o velo de Gedeão e nada para a eira? Assim o executam sem nenhuma igualdade os que querem ter jurisdição até no que cai do céu, e, por mais que as queixas cheguem ao mesmo céu, nenhum dos que fazem os milagres os quer desfazer. Se cuidam que é descrédito, e menos autoridade do poder, desfazer o que fizeram, enganam-se, porque muito mais poderosos se mostrarão no desfazer do milagre que em o fazer. Vede-o no nosso caso. Converter o pão em carvões pode-o fazer o fogo queimando-o; mas converter os carvões em pão, só o pode fazer a onipotência, obrando sobre as leis de toda a natureza.

Finalmente, neste milagre se retratou o nosso bom pastor a si mesmo, e mostrou qual era. Este milagre teve avesso e direito, e tais hão de ser os homens que governam homens. O bom pastor não há de ser todo bondade: Cum electo electus eris, et cum perverso perverteris[7]. – Nem tudo há de ser indulgência, nem tudo censura. Há de ter excomunhões para os rebeldes e absolvições para os arrependidos, e tanto para os brancos, como os pães, como para os pretos, como os carvões. Há de saber fazer e desfazer, converter e desconverter. Deus converteu a Nabucodonosor de homem em bruto, e depois tornou-o a converter de bruto em homem. A vara de Moisés era o mesmo cajado com que ele governava as suas ovelhas. E que propriedades tinha este cajado? Umas vezes se convertia de vara em serpente, e outras de serpente em vara. Nem por ser a lei de Cristo lei da graça há de ser nela tudo graça. A cerimônia com que o Autor da mesma lei constituiu a S. Pedro supremo Pastor, foi meter-lhe na mão as chaves do céu e da terra. E por que, ou com que mistério chaves? Porque a chave tem uma volta para fechar, e outra para abrir. Nem há de fechar tudo com rigor, nem deixar tudo aberto com demasiada benignidade. Quando for necessário, fechar de pancada, mas, se não for necessário, não andar às pancadas. Com serem, porém, as insígnias do poder pastoral as chaves, já eu notei noutra ocasião que não disse Cristo: o que fechares será fechado, e o que abrires, aberto, senão: o que atares, será atado, e o que Desatares, desatado. E por quê? Porque quer Cristo que os seus pastores saibam atar e desatar, e não sejam homens que não atam nem desatam. Porque não atam andam os vícios soltos e porque não desatam estão as virtudes presas. Oh! se ressuscitara hoje S. Gonçalo, como se havia de ver trocado tudo! Mas temo que o não haviam de merecer os nossos tempos, como também os seus o desmereceram.

V – A terceira vigia, foi santo e admirável santo S. Gonçalo na idade de varão, porque, tanto que entrou nela, saiu da pátria, e se partiu peregrino a Jerusalém, a viver na Terra Santa todo o restante da mesma idade. Se Cristo, como Bom Pastor, se fez peregrino para trazer duas ovelhas de Emaús a Jerusalém, como S. Gonçalo, que devia imitar a Cristo, se parte peregrino a Jerusalém, deixando em Emaús, não duas ovelhas, senão todo o rebanho de que era pastor? Moisés é o milagre da sarça ardente. A petição da Pastora dos Cantares e o desejo de nosso santo de ver os lugares onde Cristo em sua vida apascentou suas ovelhas. O amor de S. Pedro ao rebanho e a peregrinação de S. Gonçalo. Os privilégios da virgindade de S. Gonçalo. Razões das finezas de Cristo para com a Madalena. O Verbo tinha suas delícias com os homens onde não estavam, porque haviam de estar, e S. Gonçalo tinha as suas com Cristo onde não estava, porque havia estado.

Quanto à terceira vigia, foi santo e admirável santo S. Gonçalo na idade de varão, porque tanto que entrou nela saiu da pátria, e se partiu peregrino a Jerusalém a visitar os sagrados lugares de nossa Redenção, e viver, como viveu, na Terra Santa todo o restante da mesma idade. Não admiro nesta notável resolução o deixar a pátria, onde o amor natural costuma lançar aquelas fortes e doces raízes que tão dificultosamente se arrancam, mas, quando vos vejo, meu santo, com o cajado de pastor trocado em bordão de peregrino, deixando as vossas ovelhas e de Cristo, por ir correr e venerar os passos que o mesmo Senhor andou nesta vida para as apascentar e rematou na morte para as remir, isto é o que não sei admirar bastantemente, nem acabo de entender.

Uma vez sabemos que mudou Cristo os trajos e se vestiu de peregrino: mas quando, ou para quê? Era no mesmo dia da sua Ressurreição, tendo dito três dias antes que, quando tirassem a vida ao pastor, se derramariam as ovelhas: Percutiam pastorem, et dispergentur oves gregis[8]. E porque duas delas iam desgarradas e quase perdidas de Jerusalém para Emaús, esta foi a causa daquela peregrinação, querendo-as reduzir outra vez o Senhor, e unir com o seu rebanho. Pois, se Cristo, como bom Pastor, se faz peregrino para trazer duas ovelhas de Emaús a Jerusalém, como S. Gonçalo, que devia imitar a Cristo, se parte peregrino a Jerusalém, deixando em Emaús, não duas ovelhas, senão todo o rebanho de que era pastor? Emaús quer dizer conselho temeroso: timiens consilium – e este conselho parece que não foi temeroso, senão temerário. Nota o evangelista que Emaús estava distante de Jerusalém sessenta estádios: Stadiorum sexaginta (Lc. 24, 13) – que fazem da nossa medida três léguas, e se Cristo não sofreu que duas ovelhas se ausentassem do seu rebanho três léguas, e as foi buscar ao meio do caminho. Ipse Jesus appropinquans ibat cum illis[9]como se ausenta S. Gonçalo das suas ovelhas, em não menor distância que de mil léguas, quantas dista Portugal de Jerusalém? Mais nota o evangelista, que esta diligência a fez Cristo no mesmo dia: in ipsa die (Lc. 24, 15) – e, se o bom Pastor no mesmo dia acode a uma tão pequena parte do seu rebanho, como S. Gonçalo deixa e desampara totalmente o seu, e se vai viver tão longe dele, não por menos espaço de tempo que quatorze anos inteiros?

Se alguém quiser buscar escusa a uma tão notável resolução do nosso santo, dificultosamente a achará tal que satisfaça. Se dissermos que quis trocar a sua terra pela Terra Santa, esta razão, ainda que parece pia, não é bastante para deixar o seu rebanho, sendo pastor. Porque, ainda que trocar a sua terra pela Terra Santa fora trocar a terra pelo céu, devera trocar o céu pela terra, não digo por acudir a todo o rebanho, senão a uma só ovelha dele. – Que pastor há, diz Cristo, o qual tendo cem ovelhas, se acaso se lhe desgarrou e perdeu uma, não deixe as noventa e nove no deserto, e vá buscar a ovelha perdida? – Assim o fez o mesmo Cristo. A ovelha perdida era o homem, as noventa e nove eram os nove coros dos anjos, o deserto onde as deixou era o céu: e, se o bom e verdadeiro pastor deixou o céu e veio à terra para acudir a uma só ovelha perdida, ainda que trocar S. Gonçalo a sua terra pela Terra Santa fora trocar a terra pelo céu, devera não fazer tal troca, mas deixar e trocar o céu pela terra, não só para conservar todo o seu rebanho, como dizia, mas para acudir a uma só ovelha dele. E, se quisermos considerar que a jornada da Terra Santa foi feita com espírito e desejo de lá converter os infiéis maometanos que a dominavam e habitavam, também esta escusa é insuficiente e alheia do exemplo de Cristo. Quando os apóstolos pediram ao mesmo Senhor que ouvisse os clamores da Cananéia, que era gentia, respondeu que as ovelhas que Deus lhe encomendara eram os filhos de Israel, e não os gentios: Non sum missus nisi ad oves, quae perierunt domus Israel[10]. – E em conseqüência desta mesma doutrina mandou a seus discípulos que só pregassem aos judeus, e não à gentilidade: In viam gentium ne abieritis[11] – E como as ovelhas que S. Gonçalo deixava na sua pátria e na sua igreja eram as que Deus lhe tinha encomendado, ainda que a sua peregrinação a Jerusalém fosse com intento de converter outras do paganismo, comparado este zelo com a sua obrigação, não só não parece louvável, mas nem ainda lícito.

Primeiramente respondo que a peregrinação de S. Gonçalo à Terra Santa, não só foi lícita e louvável, mas verdadeiramente santa, porque ele a empreendeu, não só por espírito e devoção particular sua, senão por impulso e vocação especial de Deus. Vejamos o caso resoluto e definido na História Sagrada. Era pastor Moisés, e andava nos desertos de Madiã guardando as ovelhas que Jetro lhe tinha encomendado, quando viu de longe a sarça que ardia e não queimava. Resolveu-se então a ir ver de mais perto aquela maravilha: Vadam, et videbom visionem hanc, magnam[12]e diz o texto sagrado que, vendo Deus que ele voluntariamente ia, o chamou e lhe mandou que fosse: Cernens quod pergeret ad videndum, vocavit eum[13]Pois, se Moisés já ia por sua própria vontade, por que o chamou Deus? Porque este era o caso, como o do nosso santo, em que não basta a inclinação e deliberação própria, mas é necessária especial vocação divina. A sarça ardente juntamente e ilesa, como dizem todos os santos, significa o mistério e mistérios da redenção humana, e assim disse o mesmo Senhor, que descera a libertar o seu povo: Descendi ut liberem eum[14]a terra, em que estava a sarça significava a terra a que hoje chamamos santa, e assim lhe chamou a voz da sarça: Locus enim, in quo stas, terra sancta est[15] – E para um pastor, como Moisés, deixar como ele deixou a assistência das suas ovelhas por ir ver e contemplar de mais perto os mistérios de nossa Redenção, e venerar com os pés descalços a Terra Santa, não basta só a vontade e deliberação própria, mas é necessária particular e especial vocação de Deu: Cernens quod pergeret ad videndum, vocavit eum. – Assim o fez Moisés, que totalmente deixou então o ofício e o rebanho, e assim o fez o nosso santo, chamado também e inspirado por Deus, e por isso não só lícita e louvável, senão santamente, e com ato de maior perfeição.

Mas, se foi grande a dúvida em que da sua parte nos meteu a deliberação do nosso peregrino em deixar, as suas ovelhas, muito maior é a que devemos admirar da parte de Deus na vocação divina, tão especial, rara e não usada do mesmo Deus, como agora veremos. Pediu a Pastora dos Cantares ao seu divino Pastor lhe manifestasse os lugares onde apascentava as suas ovelhas, e onde descansava pelo meio dia, para que o não buscasse erradamente e debalde por outras partes: Indica mihi, quem diligit anima mea, ubi pascas, ubi cubes in meridie, me vagari incipiam post greges sodalium tuorum[16]E que lhe responderia o soberana Pastor? Primeiro lhe disse que não conheci quem era: Si ignoras te – porque, se conhecesse suas obrigações, não faria semelhante petição; e sem deferir a ela, lhe mandou que seguisse as pisadas do seu rebanho, e que tratasse de o apascentar como os outros pastores: Egredere, et abi post vestigia gregum, et pasce haedos tuos juxta tabernacula pastorum[17]. – Quem não reconhece nesta breve história quão semelhante foi a petição da alma santa ao desejo do nosso santo, e quão diferente a resposta que ele alcançou de Cristo à que ouviu de sua boca a mesma alma, em que se representavam as de todos os pastores de sua Igreja que mais o amam? A petição da alma santa e o desejo do nosso santo era de ver os lugares onde Cristo em sua vida apascentou suas ovelhas com a doutrina que trouxe do céu, e onde finalmente descansou ao meio dia, não à sombra da árvore da cruz, senão pregado e morto nela. Isso quer dizer: Ubi pascas, ubi cubes in meridie.- Mas, se ao nosso santo, sendo atualmente pastor lhe concedeu o mesmo Cristo esta peregrinação, e que fosse ver e viver naqueles sagrados lugares, como à alma e pastora santa, em que eram significados os outros pastores, de nenhum modo lhes defere o Senhor a estes mesmos desejos, e resolutamente lhes manda que apascentem as suas ovelhas, e que trate cada um de seguir, não as pisadas de Cristo em Jerusalém, senão as do seu rebanho na sua terra: Abi post vestigia gregum?

O que desta admirável diferença se segue é quão singularmente estimou Cristo os afetos, também singularíssimos, com que S. Gonçalo, na sua peregrinação, acompanhou os passos da vida e morte do mesmo Senhor, pois, antepôs esta devoção e desejo à obrigação e cuidado da guarda das suas ovelhas. De uma e outra parte foi desusada fineza, mas muito mais admirável da parte de Cristo, a qual ainda não está bastantemente ponderada, e só se pode dignamente encarecer ouvindo ao mesmo Cristo com S. Pedro, isto é, ao primeiro e supremo Pastor com o segundo. Perguntou Cristo, redentor nosso, a S. Pedro se o amava mais que os outros discípulos: Simon Joannis, diligis me plus his[18] ? – E como S. Pedro respondesse com a devida modéstia: Tu scis, Domine, guia amo te: Bem sabeis vós, Senhor, que vos amo: – Pois, Pedro, se me amas – disse o Senhor – Pasce oves meas: Apascenta minhas ovelhas. – Feita esta primeira recomendação, repetiu Cristo a mesma pergunta, e como Pedro respondesse do mesmo modo: – Pois, Pedro – torna a dizer o Senhor – se me amas, como dizes: Pasce agnos meos: Apascenta os meus cordeiros. – Já as perguntas sobre o amor eram duas, e as recomendações do rebanho também duas, e ainda acrescentou o Senhor a terceira: Dicit ei tertio (Jo. 21, 17) – de sorte que Pedro se entristeceu, como se o divino Mestre, a quem são manifestos os corações, duvidasse do seu amor ou desconfiasse do seu cuidado. Pois, se três vezes examina Cristo o amor de S. Pedro, não só como grande, senão como maior de todos, e as prendas que lhe pede deste amor uma, duas e três vezes, é que apascente as ovelhas e cordeiros do seu rebanho: Pasce oves meas, pasce agnos meos – que novo ou que outro amor é este de S. Gonçalo para Cristo e de Cristo para S. Gonçalo, pois, em lugar de lhe dizer que continuasse em apascentar as ovelhas que lhe tinha encomendado, lhe inspira que deixe as mesmas ovelhas, e se parta peregrino a Jerusalém, não só a visitar, senão a viver nos lugares sagrados, onde o mesmo Senhor tinha passado a vida e padecido a morte?

A mesma vida e morte de Cristo sempre fixa e ardente na memória do nosso peregrino pastor, não há dúvida que foi, como de Jacó, a sua amada Raquel, pois, por ela serviu duas vezes sete anos naquele voluntário desterro, sendo as suas saudades as ovelhas, e os seus desejos e suspiros os cordeiros que apascentava começando desde Nazaré, e acabando no Monte Olivete, e repetindo este amoroso círculo com tantas pausas e estâncias quantos eram ou tinham sido os passos do seu ausente amor. Mas, quem nos acabará de descobrir o mistério desta tão singular novidade, e sem exemplo na estimação de Cristo? O primeiro pensamento que me ocorreu foi que, em prêmio da pureza virginal que perpetuamente guardou o nosso santo, lhe quis Deus conceder na terra o que só concede aos virgens no céu. É privilégio concedido no céu aos virgens – diz S. João no Apocalipse – que eles só sigam ao Cordeiro, que é Cristo, a todas partes por onde e para onde for: Virginis enim sunt: hi sequuntur Agnum quocumque ierit[19] – Porém, os virgens no céu, não só seguem os passos do Cordeiro, mas vêem o mesmo Cordeiro, e S. Gonçalo na terra, sem ver nem poder ver o Cordeiro, lhe seguia e adorava os passos. Eles seguem os passos do Cordeiro onde está o Cordeiro, mas S. Gonçalo não seguia os mesmos passos onde o Cordeiro estivesse, senão onde tinha estado, e só porque tinha estado ali se não podia apartar deles. Oh! singular e admirável fineza! E esta digo, em conclusão, que foi a que Cristo assim amado tanto estimou. A primeira pessoa a quem Cristo apareceu na manhã da sua ressurreição foi à Madalena. Assim o dizem os evangelistas. Mas, por que mereceu a Madalena, não só com exceção de todas as outras devotas mulheres, mas também dos mesmos apóstolos, este tão singular privilégio? Lede a História Sagrada, e o que ela fez e os outros não fizeram, e achareis a razão. As outras Marias como os anjos lhes disseram que o Senhor ressuscitara e não estava ali, foram-se: S. Pedro e S. João, como acharam no sepulcro a mortalha e o sudário, e não o sagrado corpo, também se foram: porém, a Madalena somente porque sabia, como os demais, que aquele era o lugar onde o Senhor fora sepultado, isto só bastou para que perseverasse ali e não se apartasse do mesmo lugar. De maneira que os outros deixaram o sepulcro porque Cristo não estava nele, porém, o amor da Madalena não se soube apartar do mesmo sepulcro, porque ainda que o Senhor não estava nele, tinha estado. E assim como bastou que Cristo tivesse estado dentro daquelas pedras, para que a Madalena se não pudesse apartar delas, esta foi também, da sua parte, a fineza, e da parte do mesmo Senhor, a razão por que tanto estimou o seu amor, e o antepôs ao de todos.

Deste modo assistia S. Gonçalo, não só ao sepulcro de Cristo, senão a todos os outros lugares em que o Senhor, vivo ou morto, tinha estado, respondendo e pagando com esta fineza o amor com que o mesmo Cristo, enquanto Verbo, tinha todas as suas delícias ab aeterno sem estar com os homens na terra. Notai muito. Traçava este mundo ab aeterno a sabedoria divina, que é o mesmo Verbo, e diz que, recreando-se pelos lugares da terra, eram as suas delícias estar com os homens: Delectabor per singulos dies, ludens in orbe terrarum, et deliciae mea esse cum filiis hominum[20], – Mas, se ainda então não havia homens que estivessem naqueles lugares, como tinha as suas delícias o Verbo em estar com eles? Porque, ainda que os homens então não estivessem ali, haviam de estar depois. Como se dissera o Verbo: aqui há de estar o paraíso terreal, e as suas delícias eram estar com Adão; aqui se há de fabricar a Arca, e as suas delícias eram estar com Noé, aqui se fundará a cidade de Hebron, e as suas delícias eram estar com Abraão; aqui será a terra de Hus, e as suas delícias eram estar com Jó; aqui se levantará o Monte Sinai, e as suas delícias eram estar com Moisés; e assim dos outros homens e dos outros lugares, Do mesmo modo S. Gonçalo. Em Nazaré dizia: Aqui encarnou o Verbo; em Belém, aqui nasceu; no Monte Tabor, aqui se transfigurou; no Calvário, aqui morreu; no Olivete, daqui subiu ao céu; e em todos estes lugares eram as suas delícias estar com Cristo, não porque ali estivesse, mas porque ali tinha estado. De sorte que o Verbo, supondo o futuro, e S. Gonçalo supondo o passado, ambos com o mesmo amor e com a mesma fineza, o Verbo tinha as suas delícias com os homens onde não estavam, por que haviam de estar, e S. Gonçalo tinha as suas com Cristo, onde não estava, porque havia estado. E por este modo excelente e singular cumpriu melhor que todos o nosso peregrino o que Deus prometeu por Isaías: que havia de fazer gloriosos os lugares onde tinha posto os seus pés: Et locum pedum meorum glorificabo[21]

VI – A quarta vigia: foi santo e admirável santo S. Gonçalo na idade da velhice, porque, passando-se a um deserto a fazer vida eremítica, soube deixar o mundo antes que o inundo o deixasse, A ermida do santo e construção da ponte sobre o Rio Tamaga. A atividade de Marta e a contemplação de Maria em S. Gonçalo. As dificuldades da construção da torre de Babel e da arca de Noé. A abreviada aritmética dos cômputos de S. Gonçalo: Eu não posso nada, Deus pode tudo. A fabulosa construção dos muros de Te baste e a construção milagrosa da ponte de Amarante.

Quanto à quarta vigia, foi santo e admirável santo S. Gonçalo na idade da velhice, porque, passando-se a um deserto a fazer vida eremítica, soube deixar o mundo antes que o mundo o deixasse. Não quis que o achasse a morte dentro dos muros do povoado, mas ele se saiu ao deserto para a esperar em campanha. Oh! que valente resolução, e que bem entendida! Como a velhice é o horizonte da vida e da morte, o horizonte onde se ajunta a terra com o céu e o tempo com a eternidade, que resolução pode haver mais bem aconselhada e mais digna da madureza de umas cãs que dedicar à contemplação da mesma eternidade aqueles poucos dias, e incertos, que pode durar a vida? Não foi admirável o nosso santo velho porque isto fez, mas é verdadeiramente admirável porque fez o que deveram fazer todos os velhos, e não vemos algum que o faça. Notou judiciosamente Sêneca que de todos os outros gêneros de morte, sendo tantos e tão vários, pode haver esperança de escapar: só a morte que traz consigo ou após si a velhice é morte sem esperança. Mata a doença, mata o incêndio, mata o naufrágio, mata a espada, mata a seta, ou descoberta ou atraiçoada mas de todos estes gêneros de morte muitos escaparam; só da morte e da velhice ninguém escapou: Alia genera mortis spei mixta sunt, nihil habet quod speret quem senectus ducit ad mortem[22]. – E, sendo, tão desesperada esta esperança, mais dignas são para mim de admiração as nossas velhices, do que foi a de S. Gonçalo, pois nos não desenganamos com elas. Quanto mais temos vivido neste mundo tanto mais amamos o mesmo mundo e a mesma vida, e quanto mais são os anos que contamos tanto mais são as raízes com que estamos pegados à terra. Mas, consideremos quão diferentemente tinha passado o nosso santo velho as outras suas idades, do que nós temos vivido ou desbaratado as nossas, e esta seja a maior advertência de o reconhecermos por singular e venerarmos por admirável.

Enfim, não tendo S. Gonçalo por que fugir de si, fugiu de nós para o seu deserto, e, levantando uma pequena ermida sobre as ribeiras do Rio Tamaga, fabricada pelas medidas do seu espírito, ali só por só com Deus empregava os dias e velava as noites na altíssima contemplação daquele sumo Bem, que cedo esperava gozar com a vista. Não havia ou se ouvia naquele bem-aventurado lugar algum ruído que perturbasse a quietação do santo anacoreta, senão, a tempos de inundações e tempestades, os gemidos e vozes mortais dos que, arrebatados da fúria e correntes do rio, tão impetuosas como súbitas, ou espedaçados nos penhascos, ou afogados no remoinho das águas, pereciam lastimosamente e sem remédio. Eram muitos todos os anos os miseráveis naufragantes, e muito mais as lágrimas dos que neles perdiam filhos, pais ou maridos. E que faria quando isto ouvia e via um coração tão cheio e abrasado do amor divino? Quanto maior é nos santos o amor de Deus, tanto mais forte é e mais solícito o amor do próximo. Orava continuamente, mas porque de ordinário, para remediar os trabalhos humanos não bastam as mãos ociosas, posto que levantadas a Deus, resolveu-se o espírito de um pobre e solitário ermitão ao que nunca se atreveram a intentar os braços poderosos dos reis, que foi unir as duas ribeiras do Tamaga com uma ponte, e meter debaixo dos pés dos passageiros a braveza e fúria do rio, que a tantos tinha tragado.

Grande empresa, mas tão alheia do sujeito que a empreendia, como dificultosa e impossível por todas suas circunstâncias! Assim se riam agora do imaginário o remédio os que tantas vezes tinham chorado os verdadeiros perigos. E, certamente, parecia imaginário o remédio quando se não considerasse no novo arquiteto mais que o peso e debilidade dos anos: a velhice é idade para ter trabalhado, e não para trabalhar, para ter feito, mas não para fazer. E que proporção têm – diziam – as contemplações de um anacoreta com as execuções e atividades de uma tão grande obra? Se S. Pedro foi chamado néscio, porque sendo um pescador quis fazer tabernáculos, que se diria do nosso ermitão, determinado a fabricar pontes? A superfície desta desaprovação do vulgo ainda tem muito maior fundo na teologia espiritual e ascética. Quando Marta se queixou de que Maria, sua irmã, a não ajudasse, o que lhe respondeu o divino Mestre foi: Martha, Martha, sollicita es, et turbaris erga plurima. Maria optimam partem elegit[23]: – Esse vosso cuidado, Marta, posto que bem intencionado, não serve mais que de perturbar e divertir em muitas coisas alheias da profissão de Maria; e se cuidais que ela assentada a meus pés e ouvindo-me, está ociosa, enganai-vos, porque escolheu a parte que lhe está melhor e mais me agrada: – E isto mesmo parece que estava dizendo ou ditando a S. Gonçalo a doutrina de Cristo naquele caso, e contra a sua determinação. Maria significa a vida contemplativa e interior, que é a que professam os eremitas, Marta significa a vida ativa, que é a que se emprega em ações exteriores, posto que em serviço de Deus e do próximo; e se esta das portas a dentro de uma casa, e ocupada só em preparar o que lhe parecia necessário para uma mesa, divertia e perturbava tanto a Marta, qual seria a perturbação e perpétuos divertimentos do nosso ermitão, empenhada a sua velhice na fábrica de uma ponte tão dificultosa? Parece-me que estou ouvindo os ruídos dos carros, dos penhascos, dos madeiros e a contínua bateria dos instrumentos dos oficiais e trabalhadores, uns desbastando, outros lavrando, outros fabricando e levantando as máquinas, para sustentar os arcos e guindar e assentar a pedraria já lavrada, e o autor e superintendente da obra no mesmo tempo dividido em tantas partes, com o cuidado e os olhos nas mãos de todos. Vede se competia a esta sua fadiga, melhor que a Marta, o sollicita es, et turbaris erga plurima.

Mas esta mesma era a maior prova do altíssimo grau da contemplação a que o espírito do santo eremita tinha subido. A alma que chegou ao cume da perfeição da vida contemplativa, nem as ações lhe divertem a contemplação, nem a contemplação lhe impede as ações, mas toda dentro e toda fora de si, juntamente está obrando no exterior, e no interior contemplando. Que vida mais ativa e mais atuosa que a dos anjos, sempre ocupados, e nunca jamais divertidos? Omnes sunt administratorii spiritus, in ministerium missi[24]Os anjos da guarda de dia e de noite estão velando, cada um sobre o homem que lhe está encomendado: os custódios dos reinos e monarquias, sempre atendendo ao governo e conservação delas na paz e na guerra, e em tantos outros acidentes, que nunca param; os que guiam com tanta ordem e concerto os astros, cada um movendo a sua estrela, quase todas maiores que este mundo. E de todos diz Cristo: Semper viident fatiem Patris, qui in caelis est (Mt. 18, 10): que estão sempre contemplando a face de Deus – como se estiveram no descanso e sossego do empíreo, sem outra ocupação ou cuidado. E tal era a contemplação verdadeiramente angélica do nosso anacoreta, tão quieta e sem perturbação no meio do tumulto e tráfego da sua obra, como se não tivera saído da sua ermida, podendo-se dizer dele o que do mesmo Deus, de cuja vista nunca se apartava: Immotusque manens, das cuncta moveri[25].

Vencida esta primeira apreensão, e conhecida a concórdia e harmonia que conservam dentro no mesmo espírito, se é perfeito, a vida ativa e contemplativa, a qual não entendiam os que consideravam o nosso eremita divertido no exercício da sua profissão, segue-se a segunda, em que toda a prudência e providência humana podia reparar muito. E qual era? Que um homem só, e desassistido de toda a outra companhia e poder, se atrevesse a uma empresa que muitos e mais poderosos juntos jamais empreenderiam nem imaginavam possível. Se os fabricadores da torre de Babel, sendo todos os homens que havia no mundo, juntos e unidos no mesmo pensamento, o fim e efeito que conseguiram foi a confusão e desengano da sua temeridade, verdadeiramente parece que não faziam grande injúria às cãs e prudência do nosso santo velho os que reprovavam que ele, sendo um e só – ainda que a sua idade fosse mais viva e mais robusta – intentasse uma tal obra. Mas o que ninguém cria nem esperava, intentou, prosseguiu e levou ao fim em S. Gonçalo a caridade e amor do próximo, do qual diz S. Paulo que, tudo crê, tudo espera e com tudo pode: Omnia, credit, omnia sperat, omnia sustinet (1 Cor. 13, 7). – Um dos que se acharam entre os edificadores da torre de Babel foi Noé, e é coisa bem notável que a ele só encomendasse, e dele só fiasse Deus a fábrica da arca: Fac tibi arcam de lignis laevigatis[26]lhe disse o supremo Arquiteto daquela nova máquina, e prescrevendo-lhe a traça, a forma e as medidas com tanta miudeza, nem em comum, nem em particular faz menção de outro artífice ou companheiro, que houvesse de ter parte na obra, senão o mesmo Noé somente: Mansiunculas in arca facies, et bitumine linies intrinsecus et extrinsecus. Et sic faties eam[27]Pois, se a fábrica era tão grande e tão nova, e previa Deus que todos os homens do mundo, entrando neste número o mesmo Noé, não haviam de poder conseguir nem continuar aquela torre na terra, havendo de ter esta fábrica os alicerces sobre a água, como a encomenda e fia de um só homem? Porque o intento da torre era a vaidade, o intento da arca a caridade. O intento da torre era celebrarem os homens o seu nome antes de se dividirem: Celebremus nomen nostrum antequam dividamur[28] – o intento da arca era salvar os homens da inundação universal do dilúvio: Ut possint vivere[29] e quando, para conseguir os intentos da vaidade, não buscam todos os homens, para os da caridade, por árduos e dificultosos que sejam, basta um só homem. Trocai agora o nome de Noé em Gonçalo, o da arca em ponte, e o do dilúvio em rio, e vereis quão bem fundada foi a caridade do nosso santo na esperança de levar ao cabo a sua obra, pois, assim como a de Noé era para salvar os homens da inundação do dilúvio, assim a sua era para os salvar das inundações do rio.

Mas ainda aqui nos falta por dar satisfação a uma grande máxima da doutrina de Cristo. Quis ex vobis volens turrim aedificare, non prius sedens computat sumptus, qui necessarii sunt, ne posteaquam posuerit fundamentum, et non potuerit perficere omnes qui vident, incipiant illudere ei (Lc. 14, 28 s): Que homem há de vós, o qual, querendo edificar uma torre, não lance primeiro as suas contas muito devagar, e, computando o cabedal com as despesas, não veja se é bastante, por que lhe não aconteça começar a obra e não a poder acabar, ficando ela e ele expostos ao riso das gentes? – Isto é o que ensina Cristo Senhor nosso, e estas são as contas e o cômputo que devia fazer o nosso eremita antes de pôr, não digo a mão, senão o pensamento à obra: ver primeiro se tinha com que comprar os materiais, com que pagar aos mestres, com que fazer a féria e sustentar os trabalhadores, e isto não só para começar a obra, senão para a pôr em perfeição. Agora, pergunto se fez S. Gonçalo este cômputo? Digo que sim, e com tão nova e abreviada aritmética, que todo o resumiu a duas adições somente: primeira, eu não posso nada; segunda: Deus pode tudo. O mesmo tinha já feito S. Paulo, quando disse – Omnia possum in eo qui me confortat (Fil 4, 13): Eu pelas minhas forças nenhuma coisa posso; mas pelas que Deus me dá, sou todo poderoso. – Tal era o espírito e tal a conseqüência do nosso santo: por que eu não posso nada, eu sem Deus não poderei mover uma pedra: mas porque Deus pode tudo, eu com Deus, e Deus comigo, bem poderemos fazer a ponte. E assim foi. Não deu Deus a S. Gonçalo a vara de Moisés; mas para lhe dar ainda mais, deu-lhe a cítara de Orfeu, fazendo-a de fabulosa verdadeira. Contam as fábulas que Orfeu, com a sua cítara, edificou os muros de Tebas, porque era tal a doçura e suavidade daquele pequeno instrumento tocado por ele, que levava após si as árvores, os montes, os rios, as feras, e até a liberdade dos homens. Assim cresciam fabulosamente em Tebas os muros, e assim em Amarante verdadeiramente a ponte.

Deram-lhe a S. Gonçalo uns touros bravos e feros, e ele, com a voz de uma só palavra, os amansou de maneira que logo tomaram o jugo, e tiraram pelo carro, seguindo a quem os guiava, como se tiveram ensino de muitos anos. Chegava à ribeira do rio, chamava os peixes, e eles, correndo em cardumes, saltavam aos pés do santo, enquanto ele não dizia basta, e os demais, com sua bênção, se retiravam para tornarem outra vez quando fossem chamados. Era necessária água para mais fácil serviço da obra: tocou o santo velho com o seu bordão em uma pedra, e correu logo uma fonte; mas porque a água bastava para satisfazer a sede, e não para alegrar e dar forças aos trabalhadores, tocou do mesmo modo em outra pedra, e saiu dela outra fonte de vinho. Trabalhavam muitos braços e muitos instrumentos, para abalar um grande penedo, sem ele se mover; mas com o impulso de uma só mão do santo, mais como andando por si mesmo, que levado por força, se foi pôr onde era necessário. Porém, como há homens mais duros que as pedras, e mais irracionais que os brutos, assim como com estes, persuadindo-os o santo suavemente a quanto queria, se mostrava mais evidentemente a oculta divindade que lhe governava a língua, assim houve um tão duro e tão astuto que, pedindo-lhe o pobre ermitão, em cuja santidade não cria, algum socorro para a sua obra, por ser muito rico, ele escusando-se por estar fora de casa, lhe respondeu que sua mulher o socorreria, dando-lhe para ela um escrito, Recebeu-o a mulher, e, rindo-se para o santo, lhe disse: – Padre ermitão, este crédito não vale nada, porque o que nele me diz meu marido, é que vos dê de esmola quanto pesar este papel. – Despedido tão secamente, replicou contudo o santo que se pesasse o papel como mandava o dono da casa, e que ele pelo peso se contentaria com a esmola. Caso verdadeiramente da mão oculta de Deus! Pôs-se o papel em uma parte da balança, e quando parece que bastavam poucos grãos de trigo para a pôr em equilíbrio, vieram sacos e mais sacos, e pudera vir todo o celeiro, sem igualar o peso do papel, que não chegava a uma folha. Lá se queixava Jó de que a onipotência divina, para o mortificar, ostentasse seu infinito poder contra uma folha que leva o vento: Contra folium quod vento rapitur, ostendis potentiam tuam[30]e cá, para canonizar a S. Gonçalo, ostenta seu poder a divina potência em fazer tão pesada uma meia folha, que nenhum peso a pudesse igualar, nem levantar, nem mover. Assim concorreu Deus juntamente com o nosso santo no começar, no continuar e no aperfeiçoar a sua obra, e assim a deixou perfeita e acabada, para tanto bem de tantos, antes que a última idade lhe acabasse a vida.

VII – A quinta vigia. A imortalidade de S. Gonçalo significada pelo sobrenome Amarante. A imortalidade do amaranto, S. Gonçalo, admirável e vigilante pai de famílias. Assim como no seu nascimento foi menino como homem, assim depois da sua morte foi homem como Deus. S. Gonçalo e a criação e a conservação de suas obras. A resposta de Jesus aos discípulos do Batista, e as ações de S. Gonçalo, não obrando como homem, senão como homem-Deus, Os excessos de maioria dos milagres de S. Gonçalo sobre os milagres de Cristo. As milagrosas fontes de água e vinho em Amarante. O caso do confrade do mesmo santo que uma vez o quis preferir aos pobres.

Concluídas tão felizmente as quatro vigias e idades da vida humana, qual cuidamos que seria a quinta vigia, que eu prometi do nosso santo, não já de vivo e mortal, senão de imortal, e depois da morte? Esta nova prerrogativa mais parece que lhe convém a S. Gonçalo de Amarante pelo sobrenome que pelo nome. O amaranto, como diz Plínio, é uma flor, a qual, porque nunca se murcha, mereceu desde a antigüidade o nome de imortal. Isso significa o mesmo nome que lhe puseram os gregos, por onde lhe cantou a imortalidade o poeta latino: Immortalesque amaranthi. – E, se buscarmos no Evangelho esta quinta vigia, acharemos que, depois de falar expressamente na segunda e terceira, e supor nesta mesma conta a primeira e a quarta, introduz em quinto lugar outra indeterminada, e nela um pai de famílias muito vigilante: Quoniam si sciret pater familias, qua hora fur veniret, vigilaret utique[31]Esta, pois, não das idades, que têm fim, mas da vida imortal, que não acaba, foi e é a quinta vigia do nosso santo, na qual lhe quadra admiravelmente o nome de pai de famílias, porque ele verdadeiramente é o pai universal, não só daquela grande e numerosa província, mas de todas as vizinhas e confinantes, as quais em tudo o que hão mister, de perto e de longe, a ele recorrem. Só quem o viu o pode contar e crer. Se não têm filhos, a S. Gonçalo os pedem, e se têm muitos, a S. Gonçalo consultam se os hão de mandar à guerra, ou ao estudo, ou aplicar ao arado. Se hão de casar as filhas, S. Gonçalo é o casamenteiro, e se os próprios pais, ou não podem, ou se descuidam de lhes dar estado, a lembrança que elas por modéstia se não atrevem a lhes fazer, a fazem em segredo ao santo, que, como mais poderoso e mais vigilante pai, se não descuida, A ele encomendam os pastores os gados, e os lavradores as sementeiras; a ele pedem o sol, a ele a chuva; e o santo, pelo império que tem sobre os elementos, a seu tempo, e fora do tempo, os alegra com o despacho de suas petições. Ele os remedeia nas pobrezas, ele os cura nas enfermidades, ele os reconcilia nas discórdias; ele, enfim, se andam desgarrados, os encaminha, e talvez os castiga também amorosamente, para que não degenerem de filhos de tal pai,

Por todas estas razões, confirmadas com infinitos exemplos, me parecia ao princípio que com o nome de pai de famílias, satisfazia S. Gonçalo às obrigações da quinta vigia, que lhe acrescentamos à vida. Mas, bem considerado o que depois de morto e imortal obra e está obrando cada dia em benefício dos que o invocam, não há dúvida que lhe vem muito curto este nome. E, para inventarmos algum que iguale as medidas e encha o conceito de suas maravilhas, assim como ao princípio disse que no seu nascimento foi menino como homem, assim digo, por fim, que depois da sua morte foi homem como Deus. Alguns anos depois de morto S. Gonçalo, em ocasião de uma extraordinária tempestade, vinha tão cheio e furioso o rio Tamaga, que não só levava envolto consigo quanto encontrava nas ribeiras, mas também nos montes. Entre outras coisas vinha atravessado na corrente um carvalho de tanta grandeza, que julgaram atônitos quantos o viam que, batendo com o peso seu e das águas a ponte, arruinaria os arcos, e a derrubaria sem dúvida. – S. Gonçalo – gritaram todos – S. Gonçalo, acudi à vossa ponte! Eis que no meio destes clamores vêem sair da igreja um fradinho vestido de branco, com o manto negro e um cajadinho na mão, o qual, voando pelo ar, ao rio, lançou a volta ao cajadinho a um ramo do tronco, e, fazendo encanar e embocar direito pelo olho do arco maior, ele passou precipitado com a corrente e a ponte, sem dano nem perigo, ficou tão firme e inteira como fora edificada. Com iguais clamores e triunfos deram todo graças a S. Gonçalo, que pelo hábito e lugar donde saíra, visivelmente se lhes manifestou quem era. E eu torno a repetir, como dizia, que nesta ação, bem entendida, mostrou o nosso santo que para com as suas obras não se portava como homem-homem, senão como homem-Deus.

Entre as causas segundas, como são homens, e a causa primeira, que é Deus, há tal diferença comumente no obrar, que das causas segundas, como falam os filósofos, dependem as obras somente in fieri, mas da primeira causa dependem in fieri, et in conservara: das causas segundas dependem as coisas quanto à criação, mas da causa primeira, não só dependem quanto à criação, senão também quanto à conservação. Quanto à criação, Deus, e o Pai, geram o Filho, quanto à conservação, Deus é só o que o conserva, sem dependência nem concurso do Pai, Daqui se entenderá aquele modo notável de falar, com que diz a Escritura que Deus ao dia sétimo descansou de todas as obras que tinha feito: Requievit die septimo ah universo opere quod patrarat (Gên. 2, 2) e logo acrescenta que todas as mesmas obras as tinha Deus criado e feito para as fazer: Ab omni opere suo quod creavit Deus ut faceret[32] Pois, se as tinha já feito, como as fez e criou para as fazer? Porque a primeira vez fê-las de novo pela criação, e depois de criadas, para que não deixassem de ser, sempre as havia de estar fazendo pela conservação. É o que respondeu e declarou Cristo, convencendo admiravelmente aos que o caluniavam de obrar ao sábado: Pater meus usque modo operatur, et ego operor[33] Porventura Deus, no mesmo dia do sábado, em que descansou das suas obras, deixou de obrar? Não, porque, se deixara de obrar conservando-as, deixaram elas de ser. Pois, assim como meu Pai obrou ao sábado, não servil, senão soberanamente, assim o faço eu. – Isto é o que faz Deus conservando as suas obras, e isto é o que fez S. Gonçalo, saindo por si mesmo a conservar a sua. Conservou-a então, e há tantos centos de anos que a conserva, e a conservará sempre, porque nas suas obras não obra como homem-homem, de quem dependem só in fieri, senão como homem-Deus, de quem dependem in fieri et conservari.

Vamos a outras obras de Deus-homem e de S. Gonçalo. Foram os discípulos do Batista perguntar em nome de seu mestre a Cristo, se era ele o verdadeiro Deus e homem, prometido pelos profetas, e esperado do mundo: Tu es, qui venturus es, an alium expectamus[34]? E que respondeu o Senhor? Em presença dos mesmos discípulos deu olhos a cegos, ouvidos a surdos, língua a mudos, mãos a aleijados, pés a mancos, saúde e limpeza a leprosos, e vida a mortos. E esta foi a resposta com que os despediu, dizendo: Euntes renuntiate Joanni quae audistis, et vidistis (Mt. 11, 4): Ide, dizei a João o que ouvistes e vistes. O mesmo respondo eu a quem porventura duvidar do que tenho dito, ou estranhar que se diga de S. Gonçalo que não obrava como homemhomem, senão como homem-Deus. Ide, ide a Amarante, visitai no sagrado mausoléu de S. Gonçalo as memórias imortais de sua vida póstuma, e vereis o que me ouvis. Vereis, ou pintadas, ou de vulto, como troféus das suas obras divinamente humanas, as muletas dos mancos, os braços dos aleijados, os olhos dos cegos, as orelhas dos surdos, as línguas dos mudos, as mortalhas dos mortos ou moribundos; e, porque os males interiores e invisíveis são os que mais atormentam e matam, também vereis os corações dos tristes, dos aflitos, dos perseguidos, dos desesperados, que só na invocação do nome de S. Gonçalo acharam a consolação, o alívio, a respiração, o remédio.

Assim obra como imortal, depois de morto, o grande imitador de Deus-homem. E, porque o mesmo Senhor deixou dito que, depois de subir ao céu, fariam seus fiéis servos na terra, não só semelhantes obras às suas, senão maiores: Opera quae ego fatio et majora faciet, quia ad Palrem vado[35]se atentamente considerarmos as circunstâncias destes milagres, acharemos que os de S. Gonçalo, comparados com os do mesmo Deus-homem, têm hoje no medo de os obrar grandes excessos de maioria. Grandes eram os concursos dos que, em fé dos milagres que obrava, buscavam e seguiam a Cristo: Sequebatur eum multitudo magna, quia videbant signa quae faciebat super his qui infirmabantur[36] diz S. Gonçalo. E, se perguntarmos ao mesmo evangelista a que número chegaria a maior multidão destes concursos, não só com o nome de maior, senão de máxima, diz que chegaram a ser quase cinco mil: Cum suble vasset oculos Jesus, et vidisset quia inultitudo maxima venit ad cum[37] , – e logo, declarando o número: Discubuerunt ergo vire, numero quasi quinque millia[38]. – Ah! Senhor, com quanto excesso se prova no vosso fidelíssimo servo a verdade daquela grande promessa! Quando na terra levantastes os olhos para ver a multidão dos que pela fama a experiência de vossos milagres vos seguiam, a maior e mais numerosa que vistes foi de cinco mil homens. Porém, hoje se do céu, onde estais, abaterdes os mesmos olhos divinos e os puserdes em Amarante, vereis, que pela fama e experiências dos milagres de S. Gonçalo, os que concorrem neste seu dia, a visitar suas sagradas relíquias e encomendar-se a seu patrocínio, não são cinco mil, nem dez, nem vinte, senão trinta e quarenta mil. Vereis que a multidão inumerável de naturais e estrangeiros não cabe pelas estradas, que cobre os montes, que inunda os vales, e que, não podendo todos entrar nem chegar de perto, cercam tumultuosamente a igreja, venerando e adorando de longe as paredes santas que encerram tão benéfico e soberano depósito. E este é outro excesso de maioria, que também na comparação de vós mesmo lhe prometestes.

Para receberem a saúde, dizem os evangelistas que a multidão dos que concorriam a Cristo, todos procuravam tocar seu sacratíssimo corpo, do qual saía a virtude que os sarava: Omnis turba quaerebat eum tangere: quia virtus de illo exibat, et sanabat omnes[39]Cá também procuram o mesmo; mas, porque o aperto e a multidão que contenciosamente se impede, lho não permite, de longe veneram o santo, de longe se encomendam a ele, e de longe, ou recebem logo os milagrosos efeitos de sua virtude, ou a levam consigo alegres a suas casas, como primícias e penhores certos dos benefícios que na ocasião da necessidade nenhuma dúvida lhe hajam de faltar. Mas, que muito é que aquela venturosa província, e as outras vizinhas e confinantes, logrem a felicidade de tão contínuos e certos favores, se as remotíssimas terras da África, da Ásia, e desta América, onde apenas há lugar que não tenha levantado templos ou altares a S. Gonçalo, só com a invocação de seu nome, como se nele se tivera sacramentado, pelo efeito maravilhoso de suas graças, de tão longe o experimentam e têm presente! De Deus dizia o profeta Isaías: Invocabis, et Dominus exaudiet; clamabis, et dicet: Ecce adsum (Is. 58, 9): Invocareis o Senhor, e ele vos ouvirá; chamá-lo-eis, e ele dirá: Aqui estou. – Aqui estou, diz Deus, e aqui estou, diz S. Gonçalo, homem enfim no obrar como Deus: Invocabis, et dicet: Ecce adsum. E porque alguma vez invocado S. Gonçalo, sucederá que vos não conceda o que pedis, e pareça que vos não ouve, sabei de certo que vos enganais, e não quero por prova outro exemplo, senão o do mesmo Deus. Deus diz que peçamos, e que receberemos: Petite, et accipietis[40] – e, contudo, mostra a experiência, que multas vezes pedimos e não recebemos. – Não há tal, acode Santo Agostinho. Que não recebemos o que pedimos, é verdade; mas que não recebemos é falso, porque, se não recebemos o que pedimos e queremos, recebemos o que devêramos pedir e querer: Negat Dominus quod volumus, ut tribuati quod mallemus[41] . Assim faz também algumas vezes S. Gonçalo, e não fora santo nem amigo se assim o não fizera. Tão milagroso é quando faz por vós o milagre, porque vos está bem, como quando cessa de o fazer, e o suspende, porque vos estaria mal. Vede-o no mesmo santo. Já deixamos dito como, para a fábrica da sua ponte, abriu duas fontes nas pedras, uma de água, outra de vinho; mas a de água ainda hoje corre, e persevera, e faz milagres: a de vinho secou-se totalmente. E por que se secou? Porque maiores naufrágios podia padecer aquele povo nesta fonte, do que dantes padecia no mesmo rio. O primeiro que espremeu as uvas e inventou o vinho foi Noé; e, sendo Noé aquele grande piloto que na maior tempestade do mundo soube governar a primeira nau, e levou nela a salvamento o mesmo mundo, gostando depois o mesmo licor que inventara, arcou de tal maneira, que não só perdeu a modéstia, senão também o juízo. Vede o que sucederia ao povo de Amarante, se perseverasse a fonte do vinho? Por isso o santo, ainda no tempo da sua obra, como notam os historiadores, abria e fechava a mesma fonte três vezes no dia: a primeira vez a horas do almoço, a segunda a horas do jantar, e a terceira a horas de ceia; e nestes três tempos, que sucedia? Tanto que os oficiais e trabalhadores recebiam, cada um por medida, a sua ração, a pedra se fechava outra vez, e a fonte não corria. Tão provido e vigilante era S, Gonçalo em que os seus milagres fossem para proveito, e não para dano daqueles por quem os fazia. E esta é a regra por onde haveis de conhecer os milagres e benefícios de nosso santo, tão agradecidos quando vos negar o que pedirdes, como quando vo-lo conceder, pois, vindo por sua mão uma ou outra coisa, sempre é para vosso bem.

Até aqui tenho falado em tudo com os autores da vida e milagres de S. Gonçalo. Por fim, quero acabar com um caso de que eu mesmo fui testemunha. Havia em Lisboa um devoto e confrade do mesmo santo, o qual todos os anos concorria para sua festa com vinte e cinco cruzados. Um ano, porém, em que os oficiais eleitos eram ricos, sendo também rica a confraria, entrou ele em pensamento que seria maior serviço de Deus despender aquele dinheiro com os pobres. Assim o resolveu consigo, sem o comunicar a outra pessoa: senão quando no mesmo ponto, lhe sobreveio uma dor interior, que de nenhum modo podia suportar; e, chamados à pressa os médicos, resolveram que logo tomasse os sacramentos, porque infalivelmente morria. Que faria, pois, com esta súbita sentença, quem um momento antes estava são, e com todas as suas forças? Cuidando em seus pecados, lembrou-lhe o novo propósito que tinha feito, e, arrependendo-se daquela que tivera por melhor obra pediu perdão ao santo, ratificando com voto que não faltaria jamais à sua antiga devoção, se escapasse daquele acidente com vida. Não eram concebidas estas palavras, quando com segundo repente cessou totalmente a dor, e, passando o moribundo das portas da morte à inteira saúde, achando-se tão são como dantes, foi por seu pé dar graças ao santo, que tão áspero e tão benigno tinha experimentado em dois momentos, Mas quem haverá que se não admire do novo estilo praticado neste caso contra a lei geral da esmola, e contra a preferência e privilégio dos pobres, tantas vezes publicado e pregado por boca do mesmo Deus? Quando concorrem Cristo e os pobres para a esmola, – dai-a, diz Cristo – aos pobres, porque, dando-a a eles, ma dais a mim: Quod uni ex his minimis fecistis, mihi fecistis[42] – Pois, se neste caso concorre S. Gonçalo com os pobres, como ameaça o mesmo Cristo de morte a quem quer dar a esmola aos pobres, e não ofertá-la a S. Gonçalo? Basta que iguala Cristo os pobres a si mesmo, e quer que S. Gonçalo, seja preferido aos pobres? Basta que antes quer Cristo que seja festejado. S. Gonçalo com maiores aparatos e maiores despesas que os pobres mais socorridos? Basta que sendo os pobres substitutos de Cristo, não quer o mesmo Cristo que o sejam de S. Gonçalo? Pois assim é, seja também o mesmo Cristo seu pregador, e acabe o seu panegírico, que eu, emudecido, confesso que o não sei louvar, E este é o excesso de favor e lugar a que S. Gonçalo subiu na sua quinta vigia, em que vive e reina imortal no trono da glória.

VIII – Que doutrina será bom que tiremos da vida e obras de S. Gonçalo? A primeira, e muito necessária, é que o imitássemos em fazer pontes. Por que não há pontes no Brasil, depois de cento e noventa anos de domínio português? S. Gonçalo, sendo menino, foi homem: nós, sendo homens, na vida e nos costumes somos meninos. Quem quer começar bem e acabar bem há de começar pelo fim e acabar pelo princípio. Por que começou Deus a obra da criação pelo céu, e acabou pela terra. A morte do santo. Exortação final.

Tenho acabado, ou deixado sem o acabar, o meu discurso. Mas, se os sermões de S. Gonçalo todos eram encaminhados à doutrina dos ouvintes, e não é lícito faltar à imitação do santo no seu próprio dia, que doutrina posso eu tirar deste sermão, que seja acomodada aos que me ouvem? Hei de exortá-los a que sejam bons pastores, como S. Gonçalo? Isso pertence aos eclesiásticos. Hei de exortá-los a que vão em peregrinação do Brasil a Jerusalém? Assaz peregrinos são os que tão longe se desterraram da pátria. Hei de exortá-los a que façam milagres? Basta que sejamos santos, sem aspirar à canonização. Que doutrina será bem logo a que tiremos da vida e obras de S. Gonçalo? A primeira que me ocorria, muito útil e muito necessária, é que o imitássemos em fazer pontes. Coisa é digna de grande admiração e que mal se poderá crer no mundo, que, havendo cento e noventa anos que dominamos esta terra, e havendo nela tantos rios e passos de dificultosa passagem, nunca houvesse indústria para fazer uma ponte. Que rio ou que regato há na Europa sem nome, e que lugar de quatro vizinhos que nas pontes não seja magnífico? Só por elas se conserva em Espanha a memória de que os romanos a dominaram. Porque Anco Márcio fez a Ponte Sublícia, da ponte e de a fazer lhe formou Roma a dignidade de pontífice, cujo nome, antes ainda de a mesma Roma ser cristã, se uniu ao Sumo Pontificado. Tanto honra este gênero de fábricas a seus atores! Pois, por certo, que nem por pobre, nem por avarenta padece a nossa república esta falta. Eu a atribuo à inércia natural do clima, porque não creio, como cuida o vulgo, que os que lhe administram o erário mais o querem para o papado que para o pontificado.

Mas porque o descuido que estranha esta advertência pertence a poucos, seja doutrina e exemplo geral para todos que ao menos procuremos acabar por onde S. Gonçalo começou. S. Gonçalo, como vimos, sendo menino, foi homem: nós, sendo na idade homens, na vida e nos costumes somos meninos, Melhor o disse Sêneca do que se pode traduzir na nossa língua: Adhuc non solum pueritia in nobis, sed quod est gravius, puerilitas remanet: et hoc quidem pejus est, quod authoritatem habemus senum, vitia puerorum, nec puerorum tantum, sed infantium[43]: Temos a autoridade de velhos, e os vícios de meninos; e o pior é que não só se vê em nós a meninice, que é defeito da idade, senão as meninices que o são do juízo: Non solum pueritia in nobis, sed puerilitas remanet. – A primeira coisa que fez S. Gonçalo foi pôr os olhos em um Cristo crucificado, e estender os bracinhos para se abraçar a ele; e isto é o que moços e velhos guardam para o fim da vida. Então vem o crucifixo, então se abraçam com suas chagas, e, como é por força e a mais não poder, muita graça de Deus é necessária para que seja de coração.

Quem quer começar bem e acabar bem há de começar pelo fim e acabar pelo princípio. Desde o princípio do mundo ensinou Deus ao homem esta importantíssima máxima nas primeiras palavras da Escritura: In principio creavit Deus caelum et terram[44]onde nota S. João Crisóstomo que Deus, na obra da criação, começou pelo céu e acabou pela terra: por isso não diz o texto: Creavit terram et caelum – senão caelum et terram. Mas criar primeiro o céu e depois a terra parece que é começar o edifício pelas abóbadas e acabá-lo pelos alicerces. Quanto mais que, sendo a terra e o céu criados para o homem, assim como o fim do homem é o céu e o princípio a terra, assim parece que devia começar pela terra e acabar pelo céu. Antes não, e por isso mesmo. Porque o homem tem o seu princípio na terra e o seu fim no céu, por isso lhe propõe Deus primeiro o céu e depois a terra, porque, se quer começar bem e acabar bem, há de começar pelo fim e acabar pelo princípio. Assim começou e assim acabou S. Gonçalo, E, sendo a sua vida e morte uma perpétua imitação de Cristo, foi coisa maravilhosa que, assim como nascido tomou por exemplar a Cristo morto na cruz, assim morrendo imitou ao mesmo Cristo nascido no presépio. Morreu, enfim, S. Gonçalo, entregando a alma nas mãos da Rainha dos Anjos, de que foi devotíssimo, e se achou presente a seu felicíssimo trânsito, e, tanto que expirou se ouviu no ar uma voz que dizia: – Ide todos ao enterro do santo. – Concorreram todos, e o leito em que acharam defunto o sagrado corpo, foi deitado no chão sobre umas palhas. Assim acabou na morte, imitando a Cristo nascido no presépio, quem assim desde seu nascimento tinha imitado a Cristo morto na cruz. Ó ditoso nascer, e ditoso morrer! Ó ditoso começar, e ditosíssimo acabar! Este foi o último exemplo que S. Gonçalo deixou ao mundo e com que deixou o mundo, que todos também havemos de deixar. E, depois, o não imitamos no nascimento, ao menos comecemos desde este dia seu a o imitar na morte, trazendo sempre diante dos olhos o fim da vida, para que, por seus merecimentos e intercessão, consigamos a vida sem fim. Amém.

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[1] Se vier na segunda vigília, e se vier na terceira vigília, e assim os achar, bem-aventurados são os tais servos (Lc. 12, 38).
[2] Eis aqui o homem que tem por nome o Oriente (Zac. 6, 12).
[3] Quando eu era menino, cheguei a ser homem feito.
[4] A prudência do homem é que supre as suas cãs, e a idade da velhice é uma vida imaculada (Sab. 4.8 s).
[5]Os seus cabelos são como os ramos novos das palmeiras, negros como um corvo (Cânt. 5, 11).
[6] Não pretendas ser juiz, se não tens coragem para fazer frente às injustiças, para que não temas à vista do poderoso (Eclo. 7, 6).
[7] Com o escolhido, escolhido serás, e serás perverso com o perverso (SI. 17, 27).
[8] Ferirei o pastor, e as ovelhas do rebanho se porão em desarranjo (Mt. 26, 31).
[9] Chegou-se também o mesmo Jesus, e ia com eles (U. 24, 15).
[10] Eu não fui enviado senão às ovelhas que pereceram da casa de Israel (Mt. 15, 24).
[11] Não ireis caminho de gentios (Mt. 10, 5).
[12] Irei, e verei esta grande visão (Êx. 3, 3).
[13] Vendo-o vir a examinar o que via, chamou-o (ibid. 4).
[14]Desci para o livrar (ibid. 8).
[15] Porque o lugar em que estás é uma terra santa (ibid. 5).
[16]Amado da minha alma, aponta-me onde é que tu apascentas o teu gado, onde te encostas pelo meio-dia, para que não entre eu a andar como uma vagabunda atrás dos rebanhos dos teus companheiros (Cânt. 1, 6).
[17] Sai, e vai em seguimento das pisadas dos rebanhos, e apascenta os teus cabritos ao pé das cabanas dos pastores (ibid. 7).
[18] Simão, filho de João, tu amas-me mais do que estes (Jo. 21, 15)?
[19] Porque são virgens, estes seguem o Cordeiro para onde quer que ele vá (Apc. 14, 4).
[20] Cada dia me deleitava brincando na redondeza da terra, e achando as minhas delícias em estar com os filhos dos homens (Prov. 8, 30 s).
[21] E eu glorificarei o lugar de meus pés (Is. 60, 13).
[22] Senec epist. 30.
[23] Marta, Marta, tu andas muito inquieta, e te embaraças com o cuidar em muitas coisas. Maria escolheu a melhor parte (Lc. 10, 41 s).
[24] São todos os espíritos uns administradores, enviados para exercer o seu ministério (Hebr. 1, 14).
[25] Permanecendo imóvel a tudo dás movimento.
[26] Faze para ti uma arca de madeiras aplainadas (Gên. 6, 14).
[27] Farás nesta arca uns pequenos quartos, e untá-la-ás com betume por dentro e por fora. Eis aqui a forma por que a hás de fazer (ibid. 14 s).
[28] Façamos célebre o nosso nome antes que nos espalhemos (Gên. li, 4).
[29] Para que possam viver (Gên. 6, 20).
[30] Contra uma folha, que é arrebatada do vento, ostentas o teu poder (Jó 13, 25).
[31] Se o pai de famílias soubesse a hora em que viria o ladrão, vigiaria, sem dúvida (Lc. 12, 39).
[32] De toda a sua obra, que Deus criou para fazer (Gên. 2, 3).
[33] Meu Pai até agora não cessa de obrar, e eu obro também incessantemente (Jo. 5,17).
[34] Tu és o que hás de vir, ou é outro o que esperamos (Mt. 11, 3)?
[35] Fará também as obras que eu faço, e fará outras ainda maiores, porque eu vou para o Pai (Jo. 14, 12).
[36] Seguia-o uma grande multidão de gente, porque viam os milagres que fazia sobre os que se achavam enfermos (Jo. 6, 2).
[37] Tendo Jesus levantado os olhos e visto que viera ter com ele unia grandíssima multidão de povo (ibid. 5).
[38] E se assentaram a comer em número de perto de cinco mil pessoas (ibid. l0).
[39] Todo o povo fazia diligência por tocá-lo, pois saía dele uma virtude que os curava a todos (Lc. 6,19).
[40] Pedi, e recebereis (Jo. 16. 24).
[41]August. Epist. 43 ad Paulin.
[42] O que fizestes a um destes pequeninos a mim é que o fizestes (Mt. 25, 40).
[43] Seneca lib. I. Epist. 4.
[44] No princípio criou Deus o céu e a terra (Gên. I, 1).

Fonte: https://www.literaturabrasileira.ufsc.br/documentos/?action=download&id=49864