Sermão da Epifania (1662)

SERMÃO DA EPIFANIA,

Pregada na Capela Real, em Lisboa, Ano de 1662.

Cum natus esset Jesus in Bethlehem Juda in diebus Herodis regis, ecce Magi ab oriente venerunt.

§I

Para que Portugal na nossa idade possa ouvir um pregador evangélico, será hoje, o Evangelho o pregador. Esta é a novidade que trago do Mundo Novo. O estilo era que o pregador explicasse o Evangelho: hoje o Evangelho há de ser a explicação do pregador. Não sou eu o que hei de comentar o texto: o texto é o que me há de comentar a mim. Nenhuma palavra direi que não seja sua, porque nenhuma cláusula tem que não seja minha. Eu repetirei as suas vozes, ele bradará os meus silêncios. Praza a Deus que os ouçam os homens na terra, para que não cheguem a ser ouvidos no céu.

Havendo, porém, de pregar o Evangelho, e com tão novas circunstâncias como os que promete o exórdio, nem por isso cuide alguém que o pregador e o sermão há de faltar ao mistério. Antes, pode bem ser que rara vez ou nunca se pregasse neste lugar a matéria própria deste dia e desta solenidade senão hoje o mistério próprio deste dia é a vocação da gentilidade à fé. Até agora celebrou a Igreja o nascimento de Cristo; hoje celebra o nascimento da Cristandade. Cum natus esset Jesus in Bethlehem Juda – este foi o nascimento de Cristo, que já passou: Ecce Magi ab Oriente venerunt – este é o nascimento da Cristandade, que hoje se celebra. Nasceu hoje a Cristandade, porque os três reis que neste dia vieram adorar a Cristo foram os primeiros que o reconheceram por Senhor, e por isso lhe tributaram ouro; os primeiros que o reconheceram por Deus, e por isso lhe consagraram incenso, os primeiros que o reconheceram por homem em carne mortal, e por isso lhe ofereceram mirra. Vieram gentios, e tornaram fiéis, vieram idólatras, e tornaram cristãos; e esta é a nova glória da Igreja, que ela hoje celebra, e o Evangelho, nosso pregador, refere. Demos-lhe atenção.

§II

Cum natus esset Jesus in Bethlehem Juda in diebus Herodis regis, ecce Magi ab Oriente venerunt. Estas são as primeiras palavras do Evangelho, e logo nelas parece que repugna o mesmo Evangelho a ser meu intérprete, porque a sua história e o seu mistério é da Índia Oriental: Ab oriente venerunt – e o meu caso é das Ocidentais. Se apelo para os reis e para o sentido místico, também está contra mim, porque totalmente exclui a América, que é a parte do mundo donde eu venho. Santo Agostinho, S. Leão papa, S. Bernardo, Santo Anselmo, e quase todos os Padres reparam, por diversos modos, em que os reis que vieram adorar a Cristo fossem três, e a limitação deste mesmo número é para mim, ou contra mim, o maior reparo. Os profetas tinham dito que todos os reis e todas as gentes haviam de vir adorar e reconhecer a Cristo: Adorabunt eum omnes reges terrae, omnes gentes servient eiOmnes gentes quascumque fecisti venient, et adorabunt te, coram Domine. Pois, se todas as gentes e todos os reis do mundo haviam de vir adorar a Cristo, por que vieram somente três? Por isso mesmo, respondem o Venerável Beda e Ruperto Abade. Foram três, e nem mais nem menos que três, os Reis que vieram adorar a Cristo, porque neles se representavam todas as partes do mundo, que também são três: Ásia, África e Europa: Tres reges, tres partes mundi significant: Asiam, Africam, et Europam, diz Beda. E Ruperto, com a mesma distinção: Magi tribus partibus orbis, Asiae, Europae, atque Africae, pidei, atque adorationis exemplar existere meruerunt. Isto é o que dizem estes grandes autores, como intérpretes do Evangelho; mas o mesmo Evangelho, para ser meu intérprete, ainda há de dizer mais. Dizem que os três reis significavam a Ásia, a África e a Europa, e onde lhes ficou a América? A América não é, também, parte do mundo, e a maior parte? Se me disserem que não apareceu no presépio, porque tardou e veio muitos séculos depois, também as outras tardaram; antes, ela tardou menos, porque se converteu e adorou a Cristo mais depressa e mais sem repugnância que todas. Pois, se cada um das outras partes do mundo teve o seu rei que as apresentasse a Cristo, por que lhe há de faltar pobre América? Há de ter rei que receba e se enriqueça com os seus tributos, e não há de ter rei que com eles ou sem eles a leve aos pés de Cristo? Sei eu – e não o pode negar a minha dor que se a primeira, segunda, e a terceira parte do mundo tiveram reis, também o teve a quarta, e enquanto lhe não faltou o quarto. Mas vamos ao Evangelho, e conciliemos com ele esta exposição dos Padres.

Ecce Magi ab oriente venerunt. Diz o Evangelista que os reis do Oriente vieram a adorar a Cristo, e nesta mesma limitação, com que diz que vieram nomeadamente os do Oriente, e não outros, se reforça mais a dúvida, porque assim no Testamento Velho, como no Novo, está expresso que não só haviam de vir a Cristo os gentios do Oriente, senão também os do Ocidente. No testamento Velho, Isaías, falando com a Igreja: Ab oriente adducam semen tuum, et ab occidente congregabo te; e no Testamento Novo a profecia e oráculo de Cristo: Dico vobis, quod multi ab oriente et occidente venient. Pois, se não só haviam de vir a Cristo os reis e gentes do Oriente, senão também as do Ocidente, como diz nomeadamente o evangelista que os que vieram eram todos do Oriente, ou como vieram só os do Oriente, e os do Ocidente não? A tudo satisfez o mesmo evangelista, e na simples narração da história concordou admiravelmente o seu texto com o dos profetas. Que diz o evangelista? Cum natus esset Jesus in diebus Herodis regis, ecce Magi ab oriente venerunt. Diz que nos dias de Herodes, sendo nascido Cristo, o vieram adorar os Reis do Oriente – e nestas mesmas circunstâncias do tempo, do lugar e das pessoas, como que limitou a primeira vocação da gentilidade, mostrou que não havia de ser só uma, senão duas, como estava profetizado. A primeira vocação da gentilidade foi nos dias de Herodes: In diebus Herodis regis – a segunda quase em nossos dias. A primeira foi quando Cristo nasceu: Cum natus esset Jesus – a segunda quando já se contavam mil e quinhentos anos do nascimento de Cristo. A primeira foi por meio dos reis do Oriente: Ecce Magi ab oriente venerunt – a segunda por meio dos reis do Ocidente, e dos mais ocidentais de todos, que são os de Portugal.

Para melhor inteligência destas duas vocações, ou destas duas epifanias, havemos de supor que neste mesmo mundo em diferentes tempos houve dois mundos: O Mundo Velho, que conheceram os antigos, e o Mundo Novo, que eles e o mesmo mundo não conheceu, até que os portugueses o descobriram. O mundo Velho compunha-se de três partes: Ásia, África e Europa, mas de tal maneira que, entrando neste primeiro composto toda a Europa, a Ásia e a África não entravam inteiras, senão partidas, e por um só lado, a África com toda a parte que abraça o Mar Mediterrâneo, e a Ásia com a parte a que se estende o Mar Eritreu. O Mundo Novo, muito maior que o Velho, também se compõe de três partes: Ásia, África e América, mas de tal maneira também, que entrando neste segundo composto toda a América, a Ásia e a África, só entram nele partidas, e com os outros dois lados, tanto mais vastos e tanto mais dilatados, quanto o mar Oceano que os rodeia excede ao Mediterrâneo e Eritreu. E como os autores antigos só conheceram o Mundo Velho, e não tiveram nem podiam ter conhecimento do novo, por isso Beda e Ruperto disseram com muita propriedade que os três Reis do Oriente representavam as três partes do mundo: Ásia, África e Europa. Contudo, S. Bernardo, que foi contemporâneo de Ruperto, combinando o nosso Evangelho com as outras Escrituras, conheceu com seu grande espírito, ou, quando menos, argüiu com seu grande engenho que, assim como houve três reis do Oriente que levaram as gentilidades a Cristo, assim havia de haver outros três reis do Ocidente que as trouxessem à mesma fé: Vide autem neforte ipsi sint et tres Magi venientes iam non ab Oriente sed etiam ab Occidente. Quem fossem ou quem houvessem de ser estes três reis do Ocidente, que S. Bernardo anteviu, não o disse, nem o pôde dizer o mesmo santo, posto que tão devoto de Portugal, e tão familiar amigo do nosso primeiro rei. Mas o tempo, que é o mais claro intérprete dos futuros, nos ensinou dali a quatrocentos anos que estes felicíssimos reis foram el-rei D. João, o Segundo, el-rei D. Manuel, e el-rei D. João, o Terceiro, porque o primeiro começou, o segundo prosseguiu, e o terceiro aperfeiçoou o descobrimento das nossas conquistas, e todos três trouxeram ao conhecimento de Cristo aquelas novas gentilidades, como os três Magos as antigas. Os Magos levando a luz da fé do Oriente para o Ocidente, eles do Ocidente para o Oriente; os Magos apresentando a Cristo a Ásia, África e Europa, e eles a Ásia, África e América: Os Magos estendendo os raios da sua estrela por todo o Mundo Velho, até às gargantas do Mediterrâneo, e eles alumiando com o novo sol a todo o Mundo Novo até às balizas do Oceano.

Uma das coisas mais notáveis que Deus revelou e prometeu antigamente foi que ainda havia de criar um novo céu, e uma nova terra. Assim o disse por boca do profeta Isaías: Ecce ego creo caelos novos, et terram novam. É certo que o céu e a terra foram criados no princípio do mundo: In principio creavit Deus caelum et terram – e também é certo, entre todos os teólogos e filósofos, que depois daquela primeira criação, Deus não criou nem cria substância alguma material e corpórea porque somente cria de novo as almas, que são espirituais. Logo, que terra nova, e que céus novos são estes, que Deus tanto tempo antes prometeu que havia de criar? Outros o entendem doutra maneira, não sei se muito conforme à letra. Eu, seguindo o que ela simplesmente soa e significa, digo que esta nova terra e estes novos céus são a terra e os céus do Mundo Novo, descoberto pelos Portugueses. Não é verdade que, quando os nossos argonautas começaram e prosseguiram as suas primeiras navegações, iam juntamente descobrindo novas terras, novos mares, novos climas, novos céus, novas estrelas? Pois esta é a terra nova e esses são os céus novos que Deus tinha prometido, que havia de criar, não porque não estivessem já criados desde o princípio do mundo, mas porque era este Mundo Novo, tão oculto e ignorado dentro do mesmo mundo, que quando de repente se descobriu e apareceu, foi como se então começara a ser e Deus o criara de novo. E porque o fim deste descobrimento, ou desta nova criação, era a Igreja, também nova, que Deus pretendia fundar no mesmo Mundo Novo, acrescentou logo pelo mesmo profeta e pelos, mesmos termos – que também havia de criar uma nova Jerusalém, isto é, uma nova Igreja, na qual muito se agradasse: Quia ecce creo Jerusalém exultationem, et populum ejus gaudium.

Não tenho menos autor deste pensamento que o evangelista dos segredos de Deus, S. João, no seu Apocalipse: Et vidi caelum novum et terram novam. Primum enim caelum, et prima terra abiit, et mare jam non est. Et vidi civitatem Jerusalem novam descendentem de caelo. Primeiramente, diz S. João que viu um céu novo e uma terra nova: Vidi caelum novum et terram novam. Esta é a terra nova e o céu novo que Deus tinha prometido por Isaías. Logo, acrescenta o mesmo evangelista, como comentador do profeta, que à vista deste céu novo e desta terra nova, o céu e a terra antiga desapareceram, e que o mar já não era: Primum enim caelum, et prima terra abiit, et mare iam non est – e assim aconteceu no descobrimento do Mundo Novo. Desapareceu a terra antiga, porque a terra dali por diante já não era a que tinha sido, senão outra muito maior, muito mais estendida e dilatada em novas costas, em novos cabos, em novas ilhas, em novas regiões, em novas gentes, em novos animais, em novas plantas. Da mesma maneira o céu também começou a ser outro. Outros astros, outras figuras celestes, outras alturas, outras declinações, outros aspectos, outras influencias, outras luzes, outras sombras, e tantas outras coisas todas outras. Sobretudo o mar, que fora, já não é: Et mare jam non est – porque até então o que se conhecia com nome de mar, e nas mesmas Escrituras se chama mare magnum, era o Mediterrâneo; mas, depois que se descobriu o Mundo Novo, logo se conheceu também que não era aquele o mar, senão braço dele, e o mesmo nome, que injustamente tinha usurpado, se passou sem controvérsia ao oceano, que é só o que por sua imensa grandeza absolutamente, e sem outro sobrenome, se chama mar. E porque toda esta novidade do novo céu, da nova terra e do novo mar, se ordenava à fundação de outra nova Igreja, esta foi a que logo viu o mesmo evangelista, com nome também de nova: Et vidi civitatem Jerusalem novam descendentem de caelo. Finalmente, para que ninguém duvidasse de toda esta explicação, conclui que a mesma Igreja nova que vira se havia de compor de nações e reis gentios, que nela receberiam a luz da fé, e sujeitariam suas coroas ao império de Cristo: Et ambulabunt gentes in lumine ejus et reges terrae afferent gloriam suam ei honorem in illam. Que é tudo o que temos visto no descobrimento do Mundo Novo, ou nesta nova criação dele: Ecce creo caelos novos et terram novam.

Houve porém nesta segunda e nova criação do mundo, uma grande diferença da primeira, e de nova e singular glória para a nossa nação. Porque, havendo Deus criado o mundo na primeira criação por si só, e sem ajuda ou concurso de causas segundas, nesta segunda criação tomou por instrumento dela os portugueses, quase pela mesma ordem e com as mesmas circunstâncias, com que no princípio tinha criado o mundo. Quando Deus criou o mundo, diz o sagrado texto que a terra não se via porque estava escondida debaixo do elemento da água, e tudo escuro e coberto de trevas: Terra autem erat invisibilis – como lêem os Setenta et tenebrae erant super faciem abyssi. Então dividiu Deus as águas, e apareceu a terra; criou a luz e cessaram as trevas: Divisit aquas; facta est lux; appareat Arida. Este foi o modo da primeira criação do mundo. E quem não vê que o mesmo observou Deus na segunda, por meio dos portugueses? Estava todo o Novo Mundo em trevas e às escuras, porque não era conhecido. Tudo o que ali havia, sendo tanto, era como se não fosse nada, porque assim se cuidava e tinha por fábula. Terra autem erat vanitas et nihil, como diz o texto hebreu. O que encobria a terra era o elemento da água, porque a imensidade do Oceano, que estava em meio, se julgava por insuperável, como a julgaram todos os antigos, e entre eles Santo Agostinho. Atreveu-se, finalmente, a ousadia e zelo dos portugueses a desfazer este encanto e vencer este impossível. Começaram a dividir as águas, nunca dantes cortadas, com as venturosas proas dos seus primeiros lenhos: foram aparecendo e surgindo de uma e outra parte, e como nascendo de novo, as terras, as gentes, o mundo que as mesmas águas encobriam, e não só acabaram então no mundo antigo as trevas desta ignorância, mas muito mais no novo e descoberto as trevas da infidelidade, porque amanheceu nelas a luz do Evangelho e o conhecimento de Cristo, o qual era o que guiava e levava os portugueses, e neles, e com eles navegava. Tudo estava vendo o mesmo profeta Isaías deste descobrimento, quando, falando com aquela nova igreja, pelos mesmos termos da primeira criação do mundo, lhe disse: Quia ecce tenebrae operient terram, et caligo populos; super te autem orietur Dominus, et gloria ejus in te videbitur. Et ambulabunt gentes in lumine tuo, ei reges in splendore ortus tui.

§III

Isto é o que fizeram os primeiros argonautas de Portugal, nas suas tão bem afortunadas conquistas do Novo Mundo, e por isso bem afortunadas. Este é o fim para que Deus, entre todas as nações, escolheu a nossa com o ilustre nome de pura na fé, e amada pela piedade. Estas são as gentes estranhas e remotas, aonde nos prometeu que havíamos de levar seu Santíssimo Nome. Este é o império seu, que por nós quis amplificar e em nós estabelecer. E esta é, foi, e será sempre a maior e melhor glória do valor, do zelo, da religião e cristandade portuguesa. Mas quem dissera ou imaginam que os tempos e os costumes se haviam de trocar, e fazer tal mudança, que esta mesma glória nossa se visse entre nós eclipsada, e por nós escurecida? Não quisera passar a matéria tão triste, e tão indigna – que por isso a fui dilatando tanto, como quem rodeia e retarda os passos, por não chegar aonde muito repugna. – Mas nem a força da presente ocasião mo permite, nem a verdade de um discurso, que prometeu ser evangélico, o consente. Quem imaginara, torno a dizer, que aquela glória tão heroicamente adquirida nas três partes do mundo, e tão celebrada e esclarecida em todas as quatro, se havia de escurecer e profanar em um rincão ou arrabalde da América?

Levantou o demônio este fumo ou assoprou este incêndio entre as palhas de quatro choupanas, que com nome da cidade de Belém puderam ser pátria do anticristo. E verdadeiramente que, se as Escritoras nos não ensinaram que este monstro há de sair de outra terra e de outra nação, já pudéramos cuidar que era nascido. Treme, e tem horror a língua de pronunciar o que viram os olhos, mas, sendo o caso tão feio, tão horrendo, tão atroz, e tão sacrílego que se não pode dizer, é tão público e tão notório que se não deve calar. Ouçam, pois, os excessos de tão nova e tão estranha maldade os que só lhe podem pôr o remédio; e se eles – o que se não crê – faltarem à sua obrigação, não é justo, nem Deus o permitirá, que eu falte à minha. O ofício que tive naquele lugar, e o que tenho neste – posto que indigno de ambos – são os que, com dobrado vínculo da consciência, me obrigam a romper o silencio, até agora observado ou suprimido, esperando que a mesma causa, por ser de Cristo, falasse e perorasse por si, e não por ela. Assim o fizeram em semelhantes, e ainda menores casos, os Atanásios, os Basílios, os Nazianzenos, os Crisóstomos, os Hilários, e todos aqueles grandes Padres e mestres da Igreja, cujas ações, como inspiradas e aprovadas por Deus, não só devemos venerar e imitar como exemplos, mas obedecer e seguir como preceitos. Falarei, pois, com a clareza e publicidade com que eles falaram, e provarei e farei certo o que disser, como eles o fizeram, porque, sendo perseguidos e desterrados, eles eram o corpo do delito que acusavam, e eles mesmos a prova. Assim permitiu a divina Providência que eu em tal forma, e as pessoas reverendas de meus companheiros, viéssemos remetidos aos olhos desta corte, para que ela visse e não duvidasse de crer o que doutro modo pareceria incrível.

Quem havia de crer que em uma colônia chamada de portugueses se viesse a Igreja sem obediência, as censuras sem temor, o sacerdócio sem respeito, e as pessoas e lugares sagrados sem imunidade? Quem havia de crer que houvessem de arrancar violentamente de seus claustros aos religiosos, e levá-los presos entre beleguins e espadas nuas pelas ruas públicas, e tê-los aferrolhados, e com guardas, até os desterrarem? Quem havia de crer que com a mesma violência e afronta lançassem de suas cristandades aos pregadores do Evangelho, com escândalo nunca imaginado dos antigos cristãos, sem pejo dos novamente convertidos, e à vista dos gentios atônitos e pasmados? Quem havia de crer que até aos mesmos párocos não perdoassem, e que chegassem aos despojos de suas igrejas, com interdito total do culto divino e uso de seus ministérios: as igrejas ermas, os batistérios fechados, os sacrários sem sacramento enfim, o mesmo Cristo privado de seus altares, e Deus de seus sacrifícios? Isto é o que lá se viu então: e que será hoje o que se vê, e o que se não vê. Não falo dos autores e executores destes sacrilégios, tantas vezes, e por tantos títulos excomungados, porque lá lhes ficam papas que os absolvam. Mas que será dos pobres e miseráveis índios, que são a presa e os despojos de toda esta guerra? Que será dos cristãos? Que será dos catecúmenos? Que será dos gentios? Que será dos pais, das mulheres, dos filhos, e de todo o sexo e idade? Os vivos e sãos sem doutrina, os enfermos sem sacramentos, os mortos sem sufrágios nem sepultura, e tanto gênero de almas em extrema necessidade sem nenhum remédio? Os pastores, parte presos e desterrados, parte metidos pelas brenhas; os rebanhos despedaçados; as ovelhas, ou roubadas, ou perdidas; os lobos famintos, fartos agora de sangue, sem resistência; a liberdade por mil modos trocada em servidão e cativeiro; e só a cobiça, a tirania, e sensualidade, e o inferno contentes. E que a tudo isto se atrevessem e atrevam homens com nomes de portugueses, e em tempo de rei português?

Grandes desconcertos se lêem no mesmo capítulo do nosso Evangelho, mas de todos acho eu a escusa nas primeiras palavras dele: In diebus Herodis regis. Se sucederam semelhantes escândalos nos dias de el-rei Herodes, o tempo os desculpava ou culpava menos; mas nos dias daquele monarca, que com o nome e com a coroa herdou o zelo, a fé, a religião, a piedade do grande Afonso I? Oh! que paralelo tão indigno do nome português se pudera formar na comparação de tempo a tempo! Naquele tempo andavam os portugueses sempre com as armas às costas contra os inimigos da fé, hoje tomam as armas contra os pregadores da fé; então conquistavam e escalavam cidades para Deus, hoje conquistam e escalam as casas de Deus; então lançavam os caciques fora das mesquitas, hoje lançam os sacerdotes fora das igrejas; então consagravam os lugares profanos em casas de oração, hoje fazem das casas de oração lugares profanos; então, finalmente, eram defensores e pregadores do nome cristão, hoje são perseguidores e destruidores, e opróbrio e infâmia do mesmo nome.

E para que até a corte e assento dos reis, que lhe sucederam, não ficasse deste paralelo, então saíam pela barra de Lisboa as nossas naus carregadas de pregadores, que voluntariamente se desterravam da pátria para pregar nas conquistas a lei de Cristo, hoje entram pela mesma barra, trazendo desterrados violentamente os mesmos pregadores, só porque defendem nas conquistas a lei de Cristo. Não se envergonhe já a barra de Argel de que entrem por elas sacerdotes de Cristo cativos e presos, pois o mesmo se viu em nossos dias na barra de Lisboa. Oh! que bem empregado prodígio fora neste caso, se, fugindo daquela barra o mar, e voltando atrás o Tejo, lhe pudéssemos dizer, como ao rio e ao mar da terra que então começava a ser santa: Quid est tibi, mare, quod fugisti? Ei tu, Jordanis, quia conversus es retrorsum ? Gloriava-se o Tejo quando nas suas ribeiras se fabricavam e pelas suas correntes saíam as armadas conquistadoras do império de Cristo; gloriava-se, digo, de ser ele aquele famoso rio de quem cantavam os versos de Davi: Dominabitur a mari usque ad mare, et a flumine usque ad terminas orbis terrarum; mas hoje, envergonhado de tão afrontosa mudança, devera tornar atrás, e ir-se esconder nas grutas do seu nascimento, se não é que de corrido corre ao mar para se afogar e sepultar no mais profundo dele. Desengane-se, porém, Lisboa que o mesmo mar lhe está lançando em rosto o sofrimento de tamanho escândalo, e que as ondas, com que escumando de ira batem as suas praias, são brados com que lhe está dizendo as mesmas injúrias que antigamente a Sidônia: Erubesce, Sidon, ait mare.

E não cuide alguém que estas vozes de tão justo sentimento nascem de estranhar eu ou me admirar de que os pregadores de Cristo e o mesmo Cristo seja perseguido, porque esta é a estrela em que o mesmo Senhor nasceu: Cum natus esset Jesus in Bethlehem Juda in diebus Herodis regis. Ainda Cristo não tinha quinze dias de nascido, quando já Herodes tinha poucos menos de perseguidor seu, para que a perseguição e o perseguido nascessem juntos. E não só nasceu Cristo com estrela de perseguido em Belém, senão em todas as partes do mundo, porque em todas teve logo seu Herodes que o perseguisse. Vou supondo, como verdadeiramente é, que Cristo não só nasceu em Belém, mas que nasceu e nasce em outras muitas partes, como há de nascer em todas. Por isso o profeta Malaquias, muito discretamente, comparou o nascimento de Cristo ao nascimento do sol: Orietur vobis Sol justitiae. O sol vai nascendo sucessivamente a todo o mundo, e, ainda que a umas terras nasça mais cedo, a outras mais tarde, para cada terra tem seu nascimento. Assim também Cristo, verdadeiro sol. A primeira vez nasceu em Belém, depois foi nascendo sucessivamente por todo o mundo, conforme o foram pregando os apóstolos e seus sucessores: a umas terras nasceu mais depressa, a outras mais devagar, a umas muito antes, a outras muito depois, mas para todas teve seu nascimento. É a energia com que falou o anjo aos pastores: Natus est vobis hodie Salvator (Lc. 2,11): Nasceu hoje para vós o Salvador – como se dissera: Hoje nasceu para vós; os outros, também, terão seu dia em que há de nascer para eles. – Assim havia de ser, e assim foi, e assim tem nascido Cristo em diferentes tempos em tão diversas partes do mundo, mas em nenhum tempo, e em nenhuma parte nasceu onde logo não tivesse um Herodes que o perseguisse.

Viu S. João no Apocalipse aquela mulher celestial vestida de sol, a qual estava em vésperas do parto, e diz que logo apareceu diante dela um dragão feroz e armado, o qual estava aguardando que saísse à luz o filho para o tragar e comer: Et draco stetit ante mulierem, quae erat paritura: ut cum peperisset, filium ejus devoraret. Que mulher, que filho, e que dragão é este? A mulher foi a Virgem Maria, e é a Igreja. O Filho foi e é Cristo, que assim como a primeira vez nasceu da Virgem Santíssima, assim nasceu e nasce muitas vezes da Igreja, por meio da fé e pregação de seus ministros em diversas partes do mundo. E o dragão que apareceu com a boca aberta para o tragar, tanto que nascesse, é cada um dos tiranos que logo mesmo Cristo tem armados contra si, tanto que nasce, e onde quer que nasce. De maneira que não há nascimento de Cristo sem o seu perseguidor ou o seu Herodes. Nasceu Cristo em Roma, pela pregação de S. Pedro, e logo se levantou um Herodes, que foi o imperador Nero, o qual crucificou ao mesmo S. Pedro. Nasceu Cristo em Espanha, pela pregação de S. Tiago, e logo se levantou outro Herodes, que foi el-rei Agripa, o qual degolou ao mesmo S. Tiago. Nasceu Cristo em Etiópia, pela pregação de S. Mateus, e logo se levantou outro Herodes, que foi el-rei Hirtaco, o qual tirou, também, a vida ao mesmo S. Mateus, e, estando sacrificando o corpo de Cristo, o fez vítima de Cristo, E para que dos exemplos do Mundo Velho passemos aos do Novo, nasceu Cristo no Japão, pela pregação e milagres de S. Francisco Xavier, e logo se levantaram, não um, senão muitos Herodes, que foram os Nobunagas e Taicozamas, os quais tanto sangue derramaram, e ainda derramam, dos filhos e sucessores do mesmo Xavier. Finalmente, nasceu Cristo na conquista do Maranhão, que foi a última de todas as nossas, e para que lhe não faltassem naquele Belém e fora dele os seus Herodes, se levantaram agora e declaram contra Cristo em si mesmo, e em seus pregadores, os que tão ímpia e barbaramente, não sendo bárbaros, o perseguem. Assim que não é coisa nova, nem matéria digna de admiração, que Cristo e os pregadores de sua fé sejam perseguidos.

O que, porém, excede toda o espanto, e se não pode ouvir sem horror e assombro, é que os perseguidores de Cristo e seus pregadores neste caso não sejam os infiéis e gentios, senão os cristãos. Se os gentios indômitos, se os tapuias bárbaros e feras daquelas brenhas se armaram medonhamente contra os que lhes vão pregar a fé, se os cobriram de setas, se os fizeram em pedaços, se lhes arrancaram as entranhas palpitantes, e as lançaram no fogo, e as comeram, isso é o que eles já têm feito outras vezes, e a que lá vão buscar os que pelas salvar deixam tudo; mas que a estes homens, com o caráter de ministros de Cristo, os persigam gentilicamente os cristãos, quando essas mesmas feras se lhes humanam, quando esses mesmos bárbaros se lhes rendem, quando esses mesmos gentios os reverenciam e adoram, este é o maior extremo de perseguição, e a perseguição, mais feia e afrontosa que nunca padeceu a Igreja. Nas perseguições dos Neros e Dioclecianos os gentios perseguiam os mártires, e os cristãos os adoravam; mas nesta perseguição nova e inaudita, os cristãos são os que perseguem os pregadores, e os gentios os que os adoram. Só na perseguição de Herodes e na paciência de Cristo se acham juntos estes extremos. No Evangelho temos a Cristo hoje perseguido, e hoje adorado, mas de quem adorado, e de quem perseguido? Adorado dos gentios, e perseguido dos cristãos, adorado dos Magos, que eram gentios, e perseguido de Herodes e de toda a Jerusalém, que eram os cristãos daquele tempo.

Ninguém repare em eu lhes chamar cristãos, porque há cristãos de fé e cristãos de esperança. Os filhos da Igreja somos cristãos de fé, porque cremos que Cristo já veio; os filhos da sinagoga eram cristãos de esperança, porque criam e esperavam que Cristo havia de vir. E que homens que criam em Cristo, e esperavam por Cristo, e eram da mesma nação e do mesmo sangue de Cristo, persigam tão barbaramente a Cristo, e que no mesmo tempo, para maior escândalo da fé e da natureza, os Magos o busquem, os gentios o creiam, os idólatras o adorem? Bendito sejais, Senhor, que tal contradição quisestes padecer, e bendito mil vezes pela parte que vos dignastes comunicar dela aos que tão indignamente vos servem: não debalde nos honrastes com o nome de Companhia de Jesus, obrigando-nos a vos fazer companhia no que padecestes nascido debaixo do mesmo nome: Cum natus esset Jesus in Bethlehem Juda. Vós em Belém de Judá, para que os vossos perseguidores fossem da vossa mesma nação, nós em Belém, não de Judá, para que os nossos fossem, também, da nossa; vós na mesma terra, e no mesma tempo perseguido de Herodes e adorado dos Magos, e nós também por mercê vossa, no mesmo tempo e na mesma terra perseguidos dos cristãos, e pouco menos que adorados dos gentios! Assim a experimentam hoje os que, por escapar à perseguição, andam fugitivos por aquelas brenhas, se bem fugitivos não por medo dos homens, senão por amor de Cristo e por seguir seu exemplo. Daqui a poucos dias veremos fugir a Cristo; mas de quem e para quem? De onde e para onde? Não se pudera crer, se o não mandara Deus e o dissera um anjo: Fuge in Aegyptum (Mt. 2,13): Fugi para o Egito. Pois, de Israel para o Egito, da terra dos fiéis para a terra dos gentios, e para a terra daqueles mesmos gentios donde antigamente fugiram os filhas de Israel? Sim. Que tão mudados estão os tempos e os homens, e a tanto chega a força da perseguição. Futurum est enim ut Herodes quaerat puerum ad perdendum eum. Foge Cristo, e fogem os pregadores de Cristo dos fiéis para os infiéis e dos cristãos para os gentios, porque os cristãos os desterram, e os gentios os amparam, porque os cristãos os maltratam e os gentios os defendem, porque os cristãos os perseguem e os gentios os adoram.

Não foi grande maravilha que José, preso e vendido de seus próprios irmãos, os egípcios o venerassem e estimassem tanto e abaixo de seu rei o adorassem? Pois, muito maior é a diferença que hoje experimentam entre aqueles gentios os venturosos homiziados da fé, que, escapando das prisões dos cristãos se retiraram para eles. Os egípcios, ainda que gentios, eram homens; aqueles gentios, que hoje começam a ser homens, ontem eram feras. Eram aqueles mesmos bárbaros, ou brutos, que sem uso da razão, nem sentido de humanidade, se fartavam de carne humana; que das caveiras faziam taças para lhes beber o sangue, e das canas dos ossos frautas para festejar os convites. E estas são hoje as feras que, em vez de nos tirarem a vida, nos acolhem entre si, e nos veneram como os leões a Daniel; estas as aves de rapina que, em vez de nos comerem, nos sustentam como os corvos a Elias; estes os monstros – pela maior parte marinhos – que, em vez de nos tragar e digerir, nos metem dentro nas entranhas, e nelas nos conservam vivos, como a baleia a Jonas. E se assim nos tratam os gentios, e tais gentios, quando assim nos tratam os cristãos, e cristãos da nossa nação e do nosso sangue, quem se não assombra de uma tão grande diferença?

§IV

Veja que estão dizendo dentro de si todos os que me ouvem, e tanto mais quanto mais admirados desta mesma diferença que tão grandes efeitos não podem nascer senão de grandes causas. Se os cristãos perseguem os pregadores da fé, alguma grande causa têm para os perseguir. E se os gentios tanto os amam e veneram, alguma causa têm, também grande, para os venerar e amar. Que causas serão estas? Isto é o que agora se segue dizer. E se alguma vez me destes atenção, seja para estes dois pontos.

Começando pelo amor e veneração dos gentios, aquela estrela que trouxe os Magos a Cristo era uma figura celestial e muito ilustre dos pregadores da fé. Assim o diz S. Gregório, e os outros padres comumente mas a mesma estrela o disse ainda melhor. Que ofício foi o daquela estrela? Alumiar, guiar e trazer homens a adorar a Cristo, e não outros homens, senão homens infiéis e idólatras, nascidos e criados nas trevas da gentilidade. Pois, esse mesmo é o ofício e exercício, não de quaisquer pregadores, senão daqueles pregadores de que falamos, e por isso propriamente estrelas de Cristo. Repara muito S. Máximo, em que esta estrela, que guiou os magos, se chame particularmente estrela de Cristo: Stella ejus e argúi assim: Todas as outras estrelas não são, também, estrelas de Cristo, que como Deus as criou? Sim, são. Pois, por que razão esta estrela, mais que as outras, se chama especialmente estrela sua: Stella ejus? Porque as outras estrelas foram geralmente criadas para tochas do céu e do mundo: esta foi criada especialmente para pregadora de Cristo: Quia quam vis omnes ab eo creatae stellae ipsius sint, haec tamen propria Christi erat, quia specialiter Christi nuntiabat adventum. – Muitas outras estrelas há naquele hemisfério muito claras nos resplendores e muita úteis nas influências, coma as do firmamento, mas estas de que falamos são própria e especialmente de Cristo, não só pelo nome de Jesus, com que se professam por suas, mas porque afim, a instituto e o ofício para que foram criadas, é o mesmo que o da estrela dos Magos, para trazer infiéis e gentios à fé de Cristo. Ora, se estas estrelas fossem tão diligentes, tão solícitas e tão pontuais em acompanhar, e guiar, e servir aos gentios, como a que acompanhou, guiou e serviu aos Magos, não teriam os mesmos gentios muita razão de as quererem e estimarem, de sentirem muita sua falta, e de se alegrarem e consolarem muita com sua presença? Assim o fizeram os Magos, e assim o diz o evangelista, não acabando de encarecer este contentamento: Videntes autem stellam, gavisi sunt gaudio magno valde. Pois, vamos agora seguindo os passos daquela estrela, desde o oriente até ao presépio, e veremos como as que hoje vemos tão mal vistas e tão perseguidas, não só imitam e igualam em tudo a estrela dos Magos, mas em tudo a excedem com grandes vantagens.

Primeiramente, dizemos Magos que onde viram a estrela foi no Oriente: Vidimus stellam ejus in oriente. De maneira que, podendo a estrela ser vista de muito longe, como se vêem as outras estrelas, ela as foi buscar à sua terra. Nesta diligência e neste caminho se avantajou muito a estrela dos Magos aos anjos que apareceram aos pastores. Os anjos também alumiaram aos pastores: Claritas circumfulsit illos e também lhes anunciaram o nascimento de Cristo: Evangelizo vobis gaudium magnum, quia natus est vobis hodie Salvator mas essa luz e esse Evangelho, aonde o levaram os anjos? Não às terras do Oriente ou a outras remotas, como a estrela, mas a quatro passos da cidade de Belém, e nos mesmos arrabaldes dela, um trânsito muito breve: Transeamus usque Bethlehem. E quanto vai de Belém ao Oriente, tanto vai de um evangelizar a outro. Isto é, comparando a estrela com os anjos, e muito mais se a compararmos com os mesmos pastores. Estes pastores de Belém são os mais celebrados da Igreja, e os que ela alega por exemplo e propõe por exemplar aos pastores das almas. Mas que fizeram ou que faziam estes bons pastores? Pastores erant in regione eadem custodientes vigilias noctis super gregem suum. Eram tão vigilantes e cuidadosos do seu gado, que com ser a meia noite não dormiam, senão que o estavam guardando e velando sobre ele. Muito bem. Mas não sei se advertis o que nota o evangelista acerca do lugar e acerca do gado. Acerca do lugar diz que estavam na mesma região: Et pastores erant in regione eadem e, acerca do gado, diz que as ovelhas eram suas: super gregem suum. E em ambas estas coisas consiste a vantagem que lhes fez a estrela. Os pastores estavam na sua região, e a estrela foi a regiões estranhas: eles guardavam as ovelhas suas, e ela foi buscar ovelhas para Cristo. E guardar as suas ovelhas na sua região, ou ir buscar ovelhas para Cristo a regiões estranhas, bem se vê quanto vai a dizer.

Mas, ainda que tudo isto fez a estrela dos Magos, faltou-lhe muito para se igualar com as nossas estrelas. Ela foi buscar gentios a uma região remota, mas distante somente treze dias de caminho: as nossas vão buscá-los em distância de mais de mil léguas de mar e por rios, que só o dos Amazonas, sem se lhe saber nascimento, tem quatro mil de corrente. A estrela dos Magos nunca saiu do seu elemento: as nossas vão já no da terra, já na água, já no do ar, e dos ventos, suportam os perigos e rigores de todos. A dos Magos caminhou da Arábia à Mesopotâmia sempre dentro dos mesmos horizontes: as nossas vão do último cabo da Europa ao mais interior da América, dando volta a meio mundo, e passando deste hemisfério aos antípodas. Finalmente – para que ajuntemos à distância a diferença das terras – a estrela dos Magos ia com eles para a Terra de Promissão, a mais amena e deliciosa que criou a natureza: as nossas desterram-se para toda a vida em companhia de degradados, não como eles, para as colônias marítimas, onde os ares são mais benignos, mas para os sertões habitadas de feras e minados de bichos venenosos, nos climas mais nocivos da zona tórrida, Não é porém este o maior trabalho.

Vidimus stellam ejus. Perguntam aqui os intérpretes porque mandou Cristo aos Magos uma estrela, e não um anjo ou um profeta? Os profetas são as embaixadores ordinários de Deus: os anjos os extraordinários, e tal era esta embaixada. Por que não mandou logo Cristo aos Magos um anjo ou um profeta, senão uma estrela? A razão foi – dizem todos – porque era conveniente que aos Magos se enviasse um embaixador que lhes falasse na sua própria língua. Os Magos eram astrólogos: a língua por onde os astrólogos entendem o que diz o céu são as estrelas, e tal era essa mesma estrela, à qual chama Santo Agostinho lingua coeli, língua do céu: pois vá uma estrela aos Magos, para que ela lhes fale na língua que eles entendem. Se eu não entendo a língua do gentio, nem o gentio entende a minha, como hei de converter e trazer a Cristo? Por isso temos por regra e instituto aprender todas a língua ou línguas da terra onde imos pregar, e esta é a maior dificuldade e o maior trabalho daquela espiritual conquista, e em que as nossas estrelas excedem muito a dos Magos. Notai. Os Magos entendiam a língua da estrela, e o que ela lhes dizia; mas por que a entenderam? Porque, coma astrólogos que eram, pelos livros dos caldeus sabiam que aquela estrela era nova e nunca vista, e como discípulos que também eram de Balaão sabiam pelos livros da Escritura que uma estrela nova, que havia de aparecer, era sinal da vinda e nascimento do Messias, descendente de Jacó: Orietur stella ex Jacob –: e por esta ciência adquirida com dobrado estudo puderam alcançar e entender a que a estrela significava e lhes dizia. Cá não é assim, senão às avessas. Lá, para entender a estrela, estudavam os Magos; cá, para entender ao gentio, hão de estudar as estrelas. Nós que os imos buscar somos os que lhes havemos de estudar e saber a língua. E quanta dificuldade e trabalho seja haver de aprender um europeu, não com mestres e com livros, como os Magos, mas sem livro, sem mestre, sem princípio, e sem documento algum, não uma, senão muitas línguas bárbaras, incultas e hórridas: só quem o padece, e Deus por quem se padece, o sabe.

Quando Deus confundiu as línguas na torre de Babel, ponderou Filo Hebreu, que todos ficaram mudos e surdos, porque, ainda que todos falavam e todos ouviam, a nenhum entendia o outro. Na antiga Babel houve setenta e duas línguas: na Babel do rio das Amazonas já se conhecem mais de cento e cinqüenta, tão diversas entre si como a nossa e a grega; e assim, quando lá chegamos, todos nós somos mudos, e todos eles surdos. Vede, agora, quanto estudo e quanto trabalho será necessário, para que estes mudos falem e estes surdos ouçam. Nas terras dos tírias e sidônios, que também eram gentios, trouxeram a Cristo um mudo e surdo para que o curasse, e diz S. Marcos que o Senhor se retirou com ele a um lugar apartado, que lhe meteu os dedos nos ouvidos, que lhe tocou a língua com saliva tirada da sua, que levantou os olhos ao céu e deu grandes gemidos, e então falou o mudo e ouviu o surdo: Aprehendens eum de turba seorsum, misit digitos suos in auriculas ejus et expuens, tetigit linguam ejus: et suspiciens in caelum, ingemuit, et ait illi Ephpheta, quod est adaperire. Pois, se Cristo fazia os outros milagres tão facilmente, este de dar fala ao mudo e ouvidos ao surdo, como lhe custa tanto trabalho e tantas diligências? Porque todas estas são necessárias a quem há de dar língua a estes mudos, e ouvidos a estes surdos. É necessário tomar o bárbaro à parte, e estar e instar com ele muito só por só, e muitas horas, e muitos dias; é necessário trabalhar com os dedos, escrevendo, apontando e interpretando por acenos o que se não pode alcançar das palavras; é necessário trabalhar com a língua, dobrando-a e torcendo-a, e dando-lhe mil voltas para que chegue a pronunciar os acentos tão duros e tão estranhos; é necessário levantar os olhos ao céu, uma e muitas vezes com a oração, e outras quase com desesperação; é necessário, finalmente, gemer, e gemer com toda a alma: gemer com o entendimento, porque em tanta escuridade não vê saída, gemer com a memória, porque em tanta variedade não acha firmeza, e gemer até com a vontade, por constante que seja, porque no aperto de tantas dificuldades desfalece, e quase desmaia. Enfim, com a pertinácia da indústria, ajudado da graça divina, falamos mudos e ouvem os surdos, mas nem por isso cessam as razões de gemer, porque, como trabalho deste milagre ser tão semelhante ao de Cristo, tem mui diferente ventura, e mui outro galardão do que ele teve. Vendo os circunstantes aquele milagre, começaram a aplaudir e dizer: Bene omnia fecit: et surdos fecit audire, et mutos loqui: não há dúvida que este profeta tudo faz bem, porque faz ouvir os surdos e falar os mudos. – De maneira que a Cristo bastou-lhe fazer falar um mudo e ouvir um surdo, para dizerem que tudo fazia bem feito, e a nós não nos basta fazer o mesmo milagre em tantos mudos e tantos surdos, para que nos não tenham por malfeitores. Mas vamos seguindo a estrela.

Quando os Magos chegaram à vista de Jerusalém, esconde-se a estrela e esta foi a mais bizarra ação, e a mais luzida que eu nela considero. Basta, luzeiro celestial, que sois estrela de reis, e escondei-vos e fugis da corte? Ainda não entrastes nela, e já a conheceis? Mas, bem mostrais quanta tendes de Deus e quanto o quereis servir e louvar todas as estrelas, como diz Davi, louvam a Deus: Laudate eum, omnes stellae et lumem: – mas o mesmo Deus disse a Jó que os louvores das estrelas da manhã eram os que mais lhe agradavam: Cum me laudarent astra matutina. E porque agradam mais a Deus os louvores das estrelas da manhã, que os das estrelas da noite? Porque as estrelas da noite louvam a Deus luzindo, as estrelas da manhã louvam a Deus escondendo-se; as estrelas da noite comunicam as influências, mas conservam a luz, as estrelas da manhã perdem a luz para melhor lograr as influências; enfim, as estrelas da noite luzem, porque estão mais longe do sol: as estrelas da manhã escondem-se, porque esta o mais perto. Isto é o que fez a estrela dos Magos, mas por poucas horas: as nossas por toda a vida. A estrela dos Magos, quando se escondeu, não luziu, mas não alumiou: as nossas escondem-se onde alumiam, e não luzem; a dos Magos alumiava, onde a viam os reis: Vidimus stellam ejus – as nossas alumiam onde não são vistas, nem o podem ser: no lugar mais desluzido, e no canto mais escuro de todo o mundo. E isto é verdadeiramente esconder-se porque não é só desterrar-se para sempre, mas enterrar-se.

Assim esteve escondida a estrela, enquanto os Magos se detiveram em Jerusalém; mas, tanto que saíram para continuar seu caminho, logo tomou a se descobrir e aparecer: Et ecce stella, quam viderant in Oriente, antecedebat eos. Reparai no antecedebat. Ia a estrela adiante, mas de tal maneira diante, que sempre se acomodava e em tudo ao passo dos que guiava. Ambulante Mago stella ambulat, sedente sidit, dormiente excubat, diz S. Pedro Crisólogo: Quando os Magos andavam, andava a estrela; quando se assentavam, parava; quando dormiam, velava, mas dava um passo mais que eles. – Pudera a estrela fazer todo aquele caminho do Oriente ao Ocidente em dois momentos: Sicut fulgur exit ab Oriente, et paret usque ad occidentem. E que ela, contra a sua velocidade natural, já movendo-se vagarosa e tardamente, já parando e ficando imóvel, se fosse acomodando e medindo em tudo com a condição e fraqueza daqueles a quem guiava, quanto, quando, e como eles podiam, grande violência! e mais se levantasse os olhos ao firmamento, e visse que as outras do seu nome davam volta ao mundo em vinte e quatro horas, e ela quase parada. Mas assim faz e deve fazer quem tem por ofício levar almas a Cristo. Aqueles quatro animais do carro de Ezequiel, que olhavam para as quatro partes do mundo, e significavam os quatro evangelistas, todos tinham asas de águia, mas nota o texto que os pés com que andavam eram de boi: Et planta pedis eorum quasi planta pedis vituli. E que se haja de mover a passo de boi quem tem asas e asas de águia? Sim, que isso é ser evangelista, isso é ter ofício de levar o Evangelho a gentes estranhas, e isso é o que fez a estrela: antecedebat eos.

Mas estes – eos – quem eram? Aqui está a diferença daquela estrela às nossas. A estrela dos Magos acomodava-se aos gentios que guiava, mas esses gentios eram os Magos do Oriente, os homens mais sábios da Caldéia, e os mais doutos do mundo; porém as nossas estrelas, depois de deixarem as cadeiras das mais ilustres Universidades da Europa – como muitos deles deixaram – acomodam-se à gente mais sem entendimento e sem discurso, de quantas criou, ou abortou a natureza, e a homens, de quem se duvidou se eram homens, e foi necessário que os Pontífices definissem que eram racionais, e não brutos. A estrela dos Magos parava, sim, mas nunca tornou atrás; as nossas estrelas tomam uma e mil vezes a desandar o já andado, e a ensinar o já ensinado, e a repetir o já aprendido, porque o bárbaro boçal e rude, o tapuia cerrado e bruto, como não faz inteiro entendimento, não imprime nem retém na memória. Finalmente, para o dizer em uma palavra, a estreladas Magas guiava a homens que caminhavam nos dromedários de Madiã, coma anteviu Isaías: Dromedarii Madian et Epha; omnes de Saba venient, aurum ei thus deferentest – e acomodar-se ao passo dos dromedários de Madiã, ou ao sono das preguiças do Brasil, bem se vê a diferença.

Ainda a palavra eos nos insinua outra, que se não deve passar em silêncio. A estrela, guia e pregadora dos Magos, converteu e trouxe a Cristo almas de gentios: mas de que gentios e que almas? Almas ilustres, almas coroadas, almas de gentios reis: as nassas estrelas também trazem a Cristo, e convertem almas, mas almas de gente onde nunca se viu cetro, nem coroa, nem se ouviu o nome de rei. A língua geral de toda aquela costa carece de três letras: F, L, R: De F, porque não tem fé, de L, porque não tem lei, de R, porque não tem rei: e esta é a polícia, da gente com que tratamos. A estrela dos Magos fez sua missão entre púrpuras e brocadas, entre pérolas e diamantes, entre âmbares e calambucos, enfim, entre os tesouros e delícias do Oriente: as nossas estrelas fazem as suas missões entre as pobrezas e desamparos, entre os ascos e as misérias da gente mais inculta, da gente mais pobre, da gente mais vil, da gente menos gente de quantos nasceram no mundo. Uma gente com quem meteu tão pouca cabedal a natureza, com quem se empenhou tão pouca a arte e a fortuna, que uma árvore lhe dá o vestido e o sustento, e as armas, e a casa e a embarcação. Com as folhas se cobrem, com o fruto se sustentam, com os ramos se armam, com o tronco se abrigam, e sobre a casca navegam. Estas são todas as alfaias daquela pobríssima gente, e quem busca as almas destes carpas busca só almas. Mas, porque o mundo não sabe avaliar esta ação, como ela merece, ouça o mesmo mundo o preço em que a estimou quem só a pode pagar.

Quando o Batista mandou seus discípulas que fossem perguntar a Cristo se era ele o Messias, a resposta do Senhor foi esta: Euníes renuntiate Joanni quae audistis, ei vidistis (Mt. 11,4): Ide, dizei a João a que vistes e ouvistes. – E que é o que tinham visto e ouvida? O que tinham visto era que os cegas viam, os mancos andavam, os leprosas saravam, os mortos ressuscitavam: Caeci vident, claudi ambulant, leprosi mundantur, moriui resurgunt (Mt. 11,5). E não bastavam todos estes milagres vistos, para prova de ser Cristo o Messias? Sim, bastavam; mas quis o Senhor acrescentar ao que tinham visto o que tinham ouvido, porque ainda era maior prova, e mais certa. O que tinham ouvido os discípulos do Batista ora que o Evangelho de Cristo se pregava aos pobres: Pau peres evangelizaniur, e esta foi a última prova com que o Redentor do mundo qualificou a verdade de ser ele o Messias, porque pregar o Evangelho aos pobres, aos miseráveis, aos que não têm nadado mundo, é ação tão própria do espírito de Cristo, que depois do testemunho de seus milagres a pôs o Filha de Deus par selo de todos eles. O fazer milagres, pode-o atribuir a malícia a outro espírito: o evangelizar aos pobres nenhuma malícia pode negar que é espírito de Cristo.

Finalmente, acabou a estrela o seu curso: parou; mas onde foi parar? Usque dunz veniens starei supra, ubi erat puer. Foi parar em um presépio, ande estava Cristo sobre palhas, e entre brutos, e alio deu a conhecer: Oh! que estrela tão santa e tão discreta! Estrela que não quer aparecer em Jerusalém, e se vai parar no presépio; estrela que antes quer estas em uma choupana com Cristo, que em uma corte sem ele? Discreta e santa estrela, outra vez! Discretas e mais santas as nossas. A razão é clara. Cristo naquele tempo estava no Presépio, mas não estava na corte de Jerusalém; de sorte que, se a estrela quisesse ficar na corte, havia de ficar sem Cristo. Nas cortes da cristandade não é assim. Em todas as cortes está Cristo, e em todas se pode estar com Cristo. Agora vai a diferença e a vantagem. Trocar Jerusalém pelo presépio, e querer antes estar em uma choupana com Cristo, que em uma corte, sem ele, não é fineza, é obrigação: e isto fez a estrela dos Magos. Mas querer antes estar no presépio com Cristo que em Jerusalém com Cristo, querer antes estar na choupana com Cristo entre brutos, que na corte com Cristo entre príncipes; isto é não só deixar a corte pelo presépio, senão deixar a Cristo por Cristo, e o seu maior serviço pelo menor: deixar a Cristo onde está acompanhado, para a acompanhar onde está só: deixa a Cristo onde está servido, para o servir onde está desamparado; deixar a Cristo onde e conhecido, para o dar a conhecer ande o não conhecem.

A estrela dos Magos também deu a conhecer a Cristo: mas a quantos homens, e em quanto tempo? A três homens, e em dois anos. Esta foi a razão por que Herodes mandou matar todos os inocentes de dois anos para baixa, conforme o tempo em que a estrela tinha aparecido aos Magos: Secundum íem pus, quod exquisierat a Magi. Vede, agora, quanto vai daquela estrela às nossas estralas, e da sua missão às nossas. Deixadas as mais antigas, fizeram-se ultimamente duas, uma pelo Rio dos Tocantins, outra pela das Almazonas: e com que efeito? A primeira reduziu e trouxe a Cristo a nação dos Tupinambás, e a dos pochiguaras; a segunda pacificou e trouxe à mesma fé a nação das neengaíbas e a dos mamaianazes; e tudo isto em espaço de seis meses. De maneira que a estrela dos Magos em dois anos trouxe a Cristo três homens, e as nossas em meio ano quatro nações. E como estes pregadores da fé por ofício, por instituto, por obrigação, e por caridade, e pelo conhecimento e fama geral que têm entre aqueles bárbaros, os vão buscar tão longe com tanto zelo, e lhes falam em suas próprias línguas com tanto trabalho, e se acomodam à sua capacidade com tanta amor, e fazem por eles tantas outras finezas, que até nos brutos animais costumam achar agradecimentos, não é muito que eles os amem, que eles os estimem, que eles os defendam, e que antes ou depois de conhecerem e adorarem a Cristo, quase os adorem.

§V

Agora se segue, em contraposição admirável ou estupenda – e por mais digna de atenção – ver as cansas por que as cristãos perseguem, aborrecem e lançam de si estes mesmos homens. Perseguirem os cristãos a quem defendem os gentios, aborrecerem os do próprio sangue a quem amam os estranhos, lançarem de si os que têm uso da razão a quem recolhem, abraçam, e querem consigo os bárbaros, coisa era incrível, se não estivera tão experimentada e tão vista. E, suposto que é assim, qual pode ser a causa? Com serem tão notáveis as efeitos, ainda a causa é mais notável. Toda a causa de nos perseguirem aqueles chamados cristãos, é porque fazemos pelos gentios o que Cristo fez pelos Magas: Procid entes adoraverunt eum. Etresponsoacceptone redirentadHerodem, per aliam viam reversi suntin regionem suam. Toda a providência divina para com os Magos consistiu em duas ações: primeira, em os trazer aos pés de Cristo por um caminho; segunda, em os livrar das mãos de Herudes por outro. Não fora grande sem-razão, não fora grande injustiça, não fora grande impiedade trazer os Magos a Cristo, e depois entregá-los a Herudes? Pois, estas são as culpas daqueles pregadores de Cristo, e esta única causa porque se vêem, e os vedes tão perseguidos. Querem que tragamos os gentios à fé, e que os entreguemos à cobiça; querem que tragamos as ovelhas ao rebanho, e que as entreguemos ao cutelo; querem que tragamos os Magos a Cristo, e que os entreguemos a Herodes. E porque encontramos esta sem-razão, nós somos os desanuzoados; porque resistimos a esta injustiça, nós somos os injustos; porque contradizemos esta impiedade, nós somos os ímpios.

Acabe de entender Portugal que não pode haver Cristandade nem cristandades nas conquistas, sem os ministros do Evangelho terem abertos e livres estes dois caminhos, que hoje lhes mostrou Cristo. Um caminho para trazerem os Magos à adoração, e outra para os livrarem de perseguição, um caminho para trazerem os gentios à fé, outro para os livrare tirania um caminho para lhes salvarem as almas, outro para lhes libertarem os corpos. Neste segundo caminho está toda a dúvida, porque nele consiste toda a tentação. Querem que aos ministros do Evangelho pertença só a cura das almas, e que a servidão e cativeiro dos corpos seja dos ministros do Estado. Isto é o que Herodes queria. Se o caminho, por onde se salvaram os Magos, estivera à conta de Herodes, muito boa conta daria deles: a que deu dos Inocentes. Não é esse o governo de Cristo. A mesma Providência, que teve cuidado de trazer os Magos a Cristo por um caminho, essa mesma teve o cuidado de os livrar e pôr em salvo por outro; e querer dividir estes caminhos e estes cuidados é querer que não haja cuidado nem haja caminho. Ainda que um destes caminhos pareça só espiritual, e o outro temporal, ambos pertencem à Igreja e às chaves de S. Pedro, porque por um abrem-se as portas do céu, e por outro fecham-se as do inferno. As igrejas novas hão de se fundar e estabelecer, como Cristo fundou e estabeleceu a Igreja universal, quando também era nova. Que disse Cristo a S. Pedro? Super hanc petram aedqicabo ecclesiam meams libi dabo claves regni caelorum: et portae inferi praevalebunt adversus eam. Que importa que Pedro tenha chaves das portas do céu, se prevalecerem contra ele, e contra a Igreja as portas do inferno? Isto não é fundar nova Igreja, é destruí-la em seus próprios fundamentos.

Não sei se reparais em que deu Cristo a S. Pedro não só chave, senão chaves: Jibi dabo claves. Para abrir as portas do céu bastava uma só chave: pois, por que lhe dá Cristo duas? Porque assim como há caminhos contra caminhos, assim há portas contra portas: Portae inferi non praevalebuntadversus eam. Há caminhos contra caminhos, porque um caminho leva a Cristo, e outro pode levar a Herodes; e há portas, contra p porque umas são as portas do céu, e outras as portas do inferno, que o encontram. Por isso, é necessário que as chaves sejam duas, e que ambas estejam na mesma mão. Uma com que Pedro possa abrir as portas do céu, e outra com que possa aferrolhar as portas do inferno; uma com que possa levar os gentios a Cristo, e outra com que os possa defender do demônio, e seus ministros. E toda a teima do mesmo demônio e do mesmo inferno, é que estas chaves e estes poderes se dividam, e que estejam em diferentes mãos.

Não o entenderam assim os senhores reis que fundaram aquelas cristandades, e todas as das nossas conquistas, os quais sempre uniram um e outro poder, e o fiaram somente dos ministros do Evangelho; e a razão cristã ou política que para isso tiveram foi por terem conhecido e experimentado que só quem converte os gentios, os zela e os defende, e que, assim como dividir as almas dos corpos é matar, assim dividir estes dois cuidados é destruir. Por isso estão destruídas e desabitadas todas aquelas terras em tão poucos anos, e de tantas e tão numerosas povoações, de que só ficaram os nomes, não se vêem hoje mais que ruínas e cemitérios. Necessário é, logo, não só para o espiritual, senão também para o temporal das conquistas, que os mesmos que edificam aquelas novas igrejas, assim como têm o zelo e a arte para as edificar, tenham juntamente o poder para as defender. Quando os israelitas reedificavam o templo e a cidade de Jerusalém, diz a Escritura Sagrada que cada um dos oficiais com uma mão fazia a obra, e na outra tinha a espada: Una manufaciebat opus, et altera tenebat gladium (2 Esdr. 4,17). Pois, não era melhor trabalhar com ambas as mãos, e fariam muito mais? Melhor era, mas não podia ser, porque naquela mesma terra moravam os samaritanos, os quais, ainda que diziam que criam em Deus, resistiam e faziam cruel guerra à edificação do Templo; e, como aos israelitas lhes impediam a obra, era força fazê-la com uma mão e defendê-la com a outra, sob pena de não ir a fábrica por diante. O mesmo lhes acontece aos edificadores daquelas novas igrejas. Muito mais se obraria nelas, se não fosse entre amigos e entre homens de meia fé, quais eram os samaritanos. Mas, como estes com todas as forças do seu poder ou do poder que não é nem pode ser seu – impedem o edifício, é necessário trabalhar e juntamente defender. E se os mesmos trabalhadores não tiverem espada com que defendam o que trabalham, não só parará, como está parada a obra, mas perder-se-á, como se vai perdendo, quanto com tanto trabalho se tem obrado.

Sim. Mas a espada é instrumento profano e leigo, e não diz bem em mãos sagradas. Primeiramente quem pôs a espada na mão dos que edificavam o Templo foi Neemias, o mais sábio, o mais santo príncipe e o mais zelador da honra de Deus que então havia no mundo. E se alguém tem os olhos tão delicados, que os ofenda esta aparência – que não é razão, senão pretexto – aparte-os um pouco de nós, e ponha-os em S. Paulo. Não vedes a S. Paulo com a espada em uma mão, e o livro na outra? Estes são os instrumentos e as insígnias, com que nos pinta e representa a Igreja aquele grande homem, por antonomásia chamado o Apóstolo. E por quê? Por que traz Paulo em uma mão o livro, noutra a espada? Por que Paulo entre todos os outros apóstolos foi o vaso de eleição escolhido particularmente por Cristo para preparador dos gentios: Vas electionis est mihi iste, ut portet nomen meum coram gentibus – e quem tem por ofício a pregação e conversão dos gentios há de ter o livro em uma mão, e a espada na outra: o livro para os doutrinar, a espada para os defender. E se esta espada se tirar da mão de Paulo, e se meter na mão de Herodes, que sucederá? Nadará toda a Belém em sangue inocente, e isso é o que vemos.

Mas, por que não faça dúvida o nome de espada, troquemos a espada em cajado, que é instrumento próprio dos pastores – como ali somos – e respondei-me: Quem tem obrigação de apascentar as ovelhas? O pastor. E quem tem obrigação de defender as mesmas ovelhas dos lobos? O pastor também. Logo o mesmo pastor, que tem o cuidado de as apascentar, há de ter, também, o poder de as defender. Esse é o ofício do pastor, e esse o exercício do cajado. Lançar o cajado à ovelha para a encaminhar, e terçá-lo contra o lobo para a defender. E vós quereis que este poder esteja em uns, e aquele cuidado em outros? Não seja isso conselho dos lobos! Quando Davi a andava no campo apascentando as suas ovelhas, e vinha o urso, ou o leão para lhas comer, que fazia? Ia a Jerusalém buscar um ministro de el-rei Saul, para que lhas viesse defender? Não seria Davi, nem pastor, se assim o fizesse. Ele era o que as apascentava, e ele quem as defendia. E defendia-as de tal sorte, que das gargantas e das entranhas das mesmas feras as arrancava; porque se o lobo ou o leão lhe tinham engolido o cordeiro pela cabeça, tirava-lho pelos pés, e se lho engoliam pelos pés, tirava-lho pelas orelhas. Assim diz o profeta Amós como quem tinha exercitado o mesmo ofício – que faz e fazer quem é pastor: Quomodo si eruat pastor de ore leonis duo crura, aut extremum rei auriculae.

E porque algum político, mau gramático e pior cristão, não cuide que a obrigação do pastor é somente apascentar, como parece o que significa a derivação do nome, saiba que só quem apascenta e defende é pastor, e quem não defende, ainda que apascente, não. Faz Cristo comparação entre o pastor e o mercenário, e diz assim: Bonun pastor animam suam dat pro ovibus suis (Jo. 10, 11 s): O bom pastor defende as suas ovelhas, e dá por elas a vida, se é necessário. Mercenarius autem, et qui non est pastor: Porém o mercenário, e o que não é pastor, que faz? Videt lupum venientem, et lupus rapit, et dispergit oves (Ibid. 12): Quando vê vir o lobo para o rebanho, foge, e deixa-o roubar e comer as ovelhas. – O meu reparo agora, grande reparo, é dizer Cristo que o mercenário não é pastor: Mercenarius autem, et qui non est pastor. – O mercenário, como diz o mesmo nome, é aquele que por seu jornal apascenta as ovelhas. Pois, se o mercenário também apascenta as ovelhas, por que diz Cristo que não é pastor? Porque ainda que as apascenta não as defende: vê vir o lobo e foge. E é tão essencial do pastor o defender as ovelhas, que se as defende é pastor, se as não defende não é pastor: Non est pastor. Como Cristo tinha falado em bom pastor, cuidava eu que havia de fazer a comparação entre bom pastor e mau pastor, e dizer que o bom pastor é aquele que defende as ovelhas, e o mau pastor é aquele que as não defende. Mas o Senhor não fez a comparação entre ser bom ou ser mau, senão entre ser, ou não ser. Diz que o que defende as ovelhas é bom pastor, e não diz que o que as não defende é mau pastor: por quê? Porque o que não defende as ovelhas não é pastor bom nem mau. Um lobo não se pode dizer que é bom homem, nem que é mau homem, porque não é homem. Da mesma maneira, o que não defende as ovelhas não se pode dizer que é bom pastor nem mau pastor, porque não é pastor: Non est pastor E sendo assim que a essência do pastor consiste em defender as ovelhas dos lobos, não seria coisa muito para rir, ou muito para chorar, que os lobos pusessem pleito aos pastores por que lhes defendem as ovelhas? Lá dizem as fábulas que os lobos se quiseram concertar com os rafeiros, mas que citassem aos pastores, se lhes quisessem armar demanda, porque lhes defendiam o rebanho. Isto não o disseram as fábulas: di-lo-ão as nossas histórias.

Mas quando disseram isto dos lobos, também dirão dos pastores que muitos deram as vidas pelas ovelhas: uns afogados das ondas, outros comidos dos bárbaros, outros mortos nos sertões, de puro trabalho e desamparo. Dirão que todos expuseram e sacrificaram as vidas pelos bosques, e pelos desertos entre as serpentes; pelos lagos e pelos rios entre os crocodilos; pelo mar e por toda aquela costa, entre parcéis e baixios os mais arriscados e cegos de todo o Oceano. Finalmente, dirão que foram perseguidos, que foram presos, que foram desterrados, mas não dirão, nem poderão dizer, que faltassem à obrigação de pastores, e que fugissem dos lobos como mercenários: Mercenarius autemfugit, E esta é a razão e obrigação, por que eu falo aqui, e falo tão claramente. S. Gregório Magno, comentando estas mesmas palavras: Mercenarius autem fugit, – diz assim: Fugit, quia injustitiam vidit, et tacuit;fugit, quia se sub silentio abscondít: Sabeis – diz o supremo Pastor da Igreja, – quando foge o que não é verdadeiro pastor? Foge quando vê injustiças, e, em vez de bradar contra elas, as cala; foge, quando, devendo sair a público em defesa da verdade, se esconde, e esconde a mesma verdade debaixo do, silêncio. – Bem creio que alguns dos que me ouvem teriam por mais modéstia e mais decência que estas verdades e estas injustiças se calassem, e eu o faria facilmente como religioso, sem pedir grandes socorros à paciência; mas, que seria, se eu assim o fizesse? Seria ser mercenário, e não pastor: Fugit, quia mercenarius est; seria ser consentidor das mesmas injustiças que vi, e, estando tão longe, não pude atalhar: Fugit, quia injustitiam vidit, et tacuit; seria ser proditor das mesmas ovelhas que Cristo me e entregou, e de que lhe hei de dar conta, não as defendendo, e escondendo-me onde só as posso defender: Fugit, quia se sub silentio abscondit.

§VI

E porque na apelação deste pleito, em que a injustiça e violência dos lobos ficou vencedora, é justo que também eles sejam ouvidos, assim como ouvistes balar as ovelhas, no que eu tenho dito, ouvi também uivar os mesmos lobos, no que eles dizem. Dizem que o chamado zelo com que defendemos os índios é interesseiro e injusto: interesseiro, porque o defendemos para que nos sirvam a nós; e injusto, porque defendemos que sirvam ao povo. Provam o primeiro, e cuidam que com evidência, porque vêem que nas aldeias edificamos as Igrejas com os índios; vêem que pelos rios navegamos em canoas equipadas de índios; vêem que nas missões por água e por terra nos acompanham e conduzem os índios: logo, defendemos e queremos os índios para que nos sirvam a nós! Esta é a sua primeira conseqüência, muito como sua, da qual, porém, nos defende muito facilmente o Evangelho. Os Magos, que também eram índios, de tal maneira seguiam, e acompanhavam a estrela, que ela não se movia, nem dava passo sem eles. Mas, em todos estes passos, e em todos estes caminhos, quem servia, e a quem? Servia a estrela aos Magos, ou os magos à estrela? Claro está que a estrela os servia a eles, e não eles a ela. Ela os foi buscar tão longe, ela os trouxe ao Presépio, ela os alumiava, ela os guiava, mas não para que eles a servissem a ela, senão para que servissem Cristo, por quem ela os servia. Este é o modo com que nós servimos aos índios, e com que dizem que eles nos servem.

Se edificamos com eles as suas Igrejas, cujas paredes são de barro, as colunas de pau tosco, e as abóbadas de folhas de palma, sendo nós os mestres e os obreiros daquela arquitetura, com o cordel, com o prumo, com a enxada, e com a serra e os outros instrumentos – que também nós lhes damos – na mão, eles servem a Deus a si, nós servimos a Deus e a eles, mas não eles a nós. Se nos vem buscar em uma canoa, como têm por ordem, nos lugares onde não residimos, sendo isso, como é, para os ir doutrinar por seu turno, ou para ir sacramentar os enfermos, a qualquer hora do dia ou da noite, em distância de trinta, de quarenta e de sessenta léguas, não nos vêm eles servir a nós: nós somos os que os imos servir a eles. Se imos em missões mais largas a reduzir e descer os gentios, ou a pé, e muitas vezes descalços, ou embarcados em grandes tropas à ida, e muito maiores à vinda, eles e nós imos em serviço da Fé e da República, para que tenha mais súditos a Igreja e mais vassalos a Coroa; e nem os que levamos, nem os que trazemos, nos servem a nós, senão nós a uns e a outros, e ao rei e a Cristo. E porque deste modo, ou nas aldeias, ou fora delas, nos vêem sempre com os índios, e os índios conosco, interpretam esta mesma assistência tanto às avessas que, em vez de dizerem que nós os servimos, dizem que eles nos servem.

Veio o Filho de Deus do céu à terra a salvar o mundo, e sempre andava acompanhado e seguido dos mesmos homens a quem veio salvar. Seguiam-no os apóstolos, que eram doze; seguiam-no os discípulos, que eram setenta e dois; seguiam-no as turbas, que eram muitos milhares: e quem era aqui o que servia ou era servido? O mesmo Senhor o disse: Non veni ministrari, sed ministrare (Mt. 20, 28): Eu não vim a ser servido, senão a servir. – E todos estes que me seguem e me assistem, todos estes que eu vim buscar e me buscam, eu sou o que os sirvo a eles, e não eles a mim. Era Cristo mestre, era médico, era pastor, como ele disse muitas vezes. E estes são os mesmos são ofícios em que servem aos gentios e cristãos aqueles ministros do Evangelho. São mestres, porque catequizam e ensinam a grandes e pequenos, e não uma, senão duas vezes ao dia; e quando o mestre está na aula ou na escola, não são os discípulos os que servem ao mestre, senão o mestre aos discípulos. São médicos, porque não só lhes curam as almas, senão também os corpos, fazendo-lhes o comer e os medicamentos, e aplicando-lhos por suas próprias mães às chagas ou às doenças, por asquerosas que sejam; e quando o médico cura os enfermos, ou cura deles, não são os enfermos os que servem o médico, senão o médico aos enfermos. São pastores, porque têm cuidado de dar o pasto às ovelhas e a criação aos cordeiros, vigiando sobre todo o rebanho de dia e de noite; e quando o pastor assim o faz, e nisso se desvela, não são as ovelhas as que servem ao pastor, senão o pastor às ovelhas. Mas, porque isto, não serve aos lobos, por isso dizem que os pastores se servem.

Quanto aos interesses não tenho eu que dizer, porque todos os nossos haveres eles os têm em seu poder. Assim como nos prenderam e desterraram, assim se apoderaram também das nossas choupanas e de quanto nelas havia. Digam, agora, o que acharam. Acharam ouro e prata, mas só a dos cálices e custódias. Nos altares acharam sacrários, imagens e relíquias; nas sacristias omamentos, não ricos, mas decentes e limpos; nas celas de taipas pardas e telhas vã, alguns livros, catecismos, disciplinas, cilícios, e uma tábua ou rede em lugar de camas, porque as que levamos de cá se dedicaram a um hospital, que não havia; e se nos nossos guarda-roupas se acharam alguns mantéus e sotainas remendadas, eram de algodão, grosseiro, tinto na lama, como o calçado de peles de veado e porco montês, que são as mesmas galas com que aqui aparecemos. Finalmente, é certo que os Magos achariam no presépio mais pobreza, mas mais provado desinteresse não. Diz o evangelista que os Magos, abrindo os seus tesouros, ofereceram a Cristo ouro, incenso e mirra:Apertis thesauris suis obtulerunt ei munera, aurum thus, et myrrham (Mt. 2,11). Mas não sei se repamis que, dizendo-se que os tesouros foram oferecidos, não se diz se foram aceitados ou não. A opinião comum dos doutores é que sim; contudo, outros duvidam e com fundamento, porque daí a poucos dias, indo a Virgem Mãe apresentar o seu primogênito no Templo, conforme a lei, e dispondo a mesma lei que os pobres oferecessem duas rolas ou dois pombinhos, e os que tivessem mais posses um cordeiro, a Senhora não ofereceu cordeiro, senão, como diz o texto: Par turturum, aut duos pullos co1umbarum, Donde parece se colhe que a Santa Família do presépio não aceitou os tesouros dos Magos, porque se tivera ouro, oferecera cordeiro. De maneira que é certo e de fé que os tesouros se ofereceram, mas ficou em opinião e em dúvida se se aceitaram ou não. Por isso eu digo que, sendo tão grande a pobreza do presépio, a nossa naquelas terras está mais provada. Na pobreza do presépio é certo que houve tesouros, e é duvidoso se foram acertados: na nossa nem há esta certeza, nem pode haver esta dúvida, porque os Magos que trazemos a Cristo, e a gente a quem servimos é tão pobre e tão miserável que nem eles têm que oferecer nem nós temos que aceitar.

Resta a segunda parte da queixa, em que dizem que defendemos os índios, porque não queremos que sirvam ao povo. A tanto se atreve a calúnia, e tanto cuida que pode desmentir a verdade! Consta autenticamente nesta mesma corte, que no ano de 1655 vim eu a ela só, a buscar o remédio desta queixa, e a estabelecer – como levei estabelecido por provisões reais – que todos os índios, sem exceção, servissem ao mesmo povo, e o servissem sempre, e o modo, a repartição e a igualdade com que o haviam de servir para que fosse bem servido. Vede se podia desejar mais a cobiça, se com ela pudesse andar junta a consciência. Não posso, porém, negar que todos nesta parte, e eu em primeiro lugar, somos muito culpados. E por quê? Porque, devendo defender os gentios que trazemos a Cristo, como Cristo defendeu os Magos, nós, acomodando-nos à fraqueza do nosso poder, e à força do alheio, cedemos da sua justiça, e faltamos à sua defensa. Como defendeu Cristo os Magos? Defendeu-os de tal maneira que não consentiu que perdessem a pátria, nem a soberania, nem a liberdade; e nós não só consentimos que os pobres gentios que convertemos percam tudo isto, senão que os persuadimos a que o percam, e o capitulamos com eles, só para ver se se pode contentar a tirania dos cristãos: mas nada basta. Cristo não consentiu que os Magos perdessem a pátria, porque reversi sunt in regionem suam; e nós, não só consentimos que percam a sua pátria aqueles gentios, mas somos os que, à força de persuasões e promessas que se lhes não guardam os arrancamos das suas terras, trazendo as povoações inteiras a viver ou a morrer junto das nossas. Cristo não consentiu que os Magos perdessem a soberania, porque reis vieram e reis tornaram, e nós não só consentimos que aqueles gentios percam a soberania natural, com que nasceram e vivem isentos de toda a sujeição, mas somos os que, sujeitando-os ao jugo espiritual da Igreja, os obrigamos também ao temporal da coroa, fazendo-os jurar vassalagem. Finalmente, Cristo não consentiu que os Magos perdessem a liberdade, porque os livrou do poder e tirania de Herodes, e nós não só não lhes defendemos a liberdade, mas pacteamos com eles, e por eles, como seus curadores, que sejam meios cativos, obrigando-se a servir alternadamente a metade do ano. Mas nada disto basta para moderar a cobiça e tirania dos nossos caluniadores, porque dizem que são negros, e hão de ser escravos.

Já considerei algumas vezes por que permitiu a divina Providência, ou ordenou a divina Justiça, que aquelas terras e outras vizinhas fossem dominadas dos hereges do Norte. E a razão me parece que é porque nós somos tão pretos em respeito deles, como os índios em respeito de nós e era justo que, pois fizemos tais leis, por ela se executasse em nós o castigo. Como se dissera Deus: já que vós fazeis cativos a estes, porque sois mais brancos que eles, eu vos farei cativos de outros, que sejam também mais brancos que vós. A grande sem-razão desta injustiça declarou Salomão em nome alheio com uma demonstração muito natural. Introduz a etiopisa, mulher de Moisés, que era preta, falando com as senhoras de Jerusalém, que eram brancas, e por isso a desprezavam, e diz assim: Filiae Jerusalem, nolite considerare quod fusca sim, quia decoloravit me sol: Se me desestimais porque sois brancas, e eu preta, não considereis a cor, considerai a causa: considerai que a causa desta cor é o sol, e logo vereis quão inconsideradamente julgais. – As nações, umas são mais brancas, outras mais pretas, porque umas estão mais vizinhas, outras mais remotas do sol. E pode haver a maior inconsideração do entendimento, nem maior erro do juízo entre homens, que cuidar eu que hei de ser vosso senhor, porque nasci mais longe do sol, e que vós haveis de ser meu escravo, porque nascestes mais perto?

Dos Magos, que hoje vieram ao presépio, dois eram brancos e um preto, como diz a tradição; e seria justo que mandasse Cristo que Gaspar e Baltasar, porque eram brancos, tornassçm livres para o Oriente, e Belchior, porque era pretinho, ficasse em Belém por escravo, ainda que fosse de S. José? Bem o pudera fazer Cristo, que é Senhor dos senhores; mas quis-nos ensinar que os homens de qualquer cor todos são iguais por natureza, e mais iguais ainda por fé, se crêem e adoram a Cristo, como os Magos. Notável coisa é que, sendo os Magos reis, e de diferentes cores, nem uma nem outra coisa dissesse o Evangelista. Se todos eram reis, por que não diz que o terceiro era preto? Porque todos vieram adorar a Cristo, e todos se fizeram cristãos, e entre cristão e cristão não há diferença de nobreza, nem diferença de cor. Não há diferença de nobreza, porque todos são filhos de Deus; nem há diferença de cor, porque todos são brancos. Essa é a virtude da água do batismo. Um etíope, se se lava nas águas do Zaire, fica limpo, mas não fica branco, porém na água do Batismo sim, uma coisa e outra: Asperges me hyssopo, et mundabor: ei-lo aí limpo. – Lavabis me, et super nivem dealbabor: ei-lo aí branco. Mas é tão pouca a razão e tão pouca a fé daqueles inimigos dos índios, que, depois de nós os fazermos brancos pelo batismo, eles os querem fazer escravos por negros.

Não é minha tenção que não haja escravos, antes procurei nesta corte, como é notório e se pode ver da minha proposta, que se fizesse, como se fez, uma junta dos maiores letrados sobre este ponto, e se declarassem, como se declararam por lei – que lá está registada – as causas do cativeiro lícito. Mas, porque queremos só os lícitos, e defendemos os ilícitos, por isso nos não querem naquela terra, e nos lançam dela. O mesmo sucedeu aS. Paulo, se bem a terra não era de cristãos. Em Filipos, cidade de Macedônia, havia uma escrava possuída do demônio, o qual falava nela e dava oráculos, e adivinhava muitas coisas, e por esta habilidade ganhava muito a escrava a seus senhores. Compadeceu-se dela S. Paulo, que ali se achava em missão com seu companheiro Sila; lançou fora o demônio daquele corpo duas vezes cativo. E que prêmio ou agradecimento teve ele e seu companheiro deste benefício? Amotinou-se contra eles todo o povo, prenderam-nos, maltrataram-nos, e lançaram-nos da cidade. Pois, por que os apóstolos lançam o demônio fora da escrava, por isso os lançam a eles fora da terra? Porventura Paulo e Sila tiraram a escrava a seus senhores, ou disseram que não era escrava, e que os não servisse? Nem por pensamento. Pois, por que os maltratam, por que os prendem, por que os desterram? Porque os senhores da escrava não só queriam a escrava, senão a escrava e mais o demônio. Aqui bate o ponto de toda a controvérsia, e por isso não concordamos, Nós queremos que tenham escravos, mas sem demônio: eles não querem escravos senão com o demônio. E por quê? O mesmo texto dá a razão, que em uns e outros é a mesma: Quia exivitspes quaestus eorum (At. 16,19): Porque, tendo a escrava sem o demônio, perdiam toda a esperança dos seus interesses. Os escravos lícitos e sem demônio, são r poucos: os ilícitos, e com o demônio, são quantos eles querem cativar, e quantos cativam; e como o seu interesse posto que interesse infernal consiste em terem escravos como demônio, por isso querem antes o demônio que os apóstolos, e por isso os lançam de si: Quia exivit spes quaestus eorum, perduxerunt Paulum et Si1am.

Convencidos e confundidos desta evidência, ainda falam, ainda replicam. E que dizem? O que se não atreveu a dizer Herodes, posto que o fez. Dizem que se não podem sustentar, nem o Estado se pode conservar doutro modo. Vede que razão esta para se ouvir com ouvidos católicos, e para se articular e apresentar diante de um tribunal ou rei cristão! Não nos podemos sustentar doutra sorte, senão com a carne e sangue dos miseráveis índios! Então eles são os que comem gente? Nós, nós somos os que os imos comer a eles. Esta era a fome insaciável dos maus criados de Jó: Quis det de carnibus ejus, ut saturemur e esta era a injustiça e crueldade de que Deus mais se sentia em seus maus ministros: Qui devorant plebem meam sicut escam panis. E porque os pregadores do Evangelho, que são os que vão buscar estas inocentes vítimas, e as não querem entregar ao açougue e matadeiro: fora, fora das nossas terras. Quando Cristo chamou aos apóstolos, disse-lhes que os havia de fazer pescadores de homens: Faciam vos fieri piscatores hominum (Mt. 4,19). Assim nos fez, e assim o fazemos nós, e nisso se ocupam as nossas redes e se cansam os nossos braços. Mas, para que entendem e se desenganem todos, lá e cá, que esses homens não os havemos nós de pescar para que eles os comam, advirtam e notem bem que se Cristo chamou aos apóstolos pescadores, também lhes chamou sal: Vos estis sal terrae. Pois os pescadores hão de ser sal, e os apóstolos sal, e juntamente pescadores? Sim. O pescador pesca, o sal conserva. E esta é a diferença que há entre os pescadores de homens e os pescadores de peixes: os pescadores de peixes pescam os peixes para que se comam; os pescadores de homens hão de pescar os homens para que se conservem. Veja-se em todo o resto daquela América se houve alguns índios que se conservassem, senão os da nossa doutrina. Por isso nos não querem a nós, por isso querem os que lhos ajudam a comer: e estas são as nossas culpas.

O justo castigo que os homens nos dão por elas bem se vê: o que Deus lhes há de dar a eles, e o prêmio com que nos há de pagar a nós, o mesmo castigo também o tem prometido. Antevia Cristo, como sabedoria infinita, que os seus apóstolos, a quem mandava pregar pelo mundo, haviam de encontrar com homens tão inimigos da verdade e da justiça, que os não consentiriam consigo, e os lançariam das suas terras – bem assim como os gerasenos lançaram das suas ao mesmo Cristo – e, para que estivessem e fossem prevenidos, primeiramente deu-lhes a instrução do modo com que se haviam de haver em semelhantes casos: Quicum que non receperint vos, neque audirint sermones vestros, exeuntes foras de domo, vel civitate, excutite pulverem de pedibus vestris, in testimonium illis (Mt. 10, 14; Lc. 9,5; Mc. 6,11): Quando os homens, quaisquer que sejam, nao receberem vossa doutrina, e vos lançarem de suas casas e cidades, o que haveis de fazer autenticamente diante de todos é sacudir o pó dos sapatos, para que esse pó seja testemunha de que pusestes os pés naquela terra, e ela vos lançou de si. – Assim o fizeram S. Paulo e S. Barnabé, quando foram lançados de Pisídia, e assim o fiz eu também. E que mais diz Cristo para que os mesmos apóstolos se não desconsolassem, antes se gloriassem muito destes desterros, e da causa deles? – Sabeis, lhes diz o mesmo Senhor, que quando os homens assim vos aborrecerem, e vos apartarem e lançarem de si, então sereis bem-aventurados, porque então sereis meus verdadeiros discípulos; e depois o sereis também, porque no céu tereis o galardão que vos não sabe nem pode dar a terra: Beati eritis cum vos oderint homines, et cum separa verint vos, et exprobraverint, etejecerint nomen vestrum tanquam malum propter Filium hominis. Gaudete, etexultate: ecce enim merces vestra multa es incaelo.

Este é o prêmio com que Cristo – bendito ele seja – nos há de pagar, e paga já de contado, a paciência destas injúrias, remunerando de antemão, no seguro de sua palavra, estes trabalhos com aquele descanso, estes desterros com aquela pátria, e estas afrontas com aquela glória, para que ninguém nos tenha lástima quando o céu nos tem inveja. Mas, por que os autores de tamanhos escândalos não cuidem que eles e suas terras hão de ficar sem o devido castigo, conclui, finalmente, o justo juiz com esta temerosa sentença: Amen dico vobis. Tolerabilius erit terrae Sodomorum, et Gomorrhaeorum, quam illi civitati (Mt. 10,15): De verdade vos digo que o castigo das cidades de Sodoma e Gomorra, sobre as quais choveram raios, ainda foi mais moderado e mais tolerável do que será o que está aparelhado, não só para as pessoas, senão para as mesmas terras donde os meus pregadores forem lançados. – Tal é a sentença que tem decretada a divina justiça contra aquela mal aconselhada gente, por cujo bem e remédio eu tenho passado tantos mares e tantos perigos. Praza à divina misericórdia perdoar-lhes, pois não sabem o que fazem. E para que lhes não falte o perdão da parte assim como meus companheiros e eu lho temos já dado muito de coração, assim, agora, lho torno a ratificar aqui publicamente: Coram Deo, et hominibus, em nome de todos.

§VII

Suposto, pois, que não peço nem pretendo castigo, e o que só desejo é o remédio, quero acabar este largo, mas forçoso discurso, apontando brevemente os que ensina o Evangelho. O primeiro e fundamental de todos era que aquelas terras fossem povoadas com gente de melhores costumes, e verdadeiramente cristã. Por isso no Regimento dos Governadores a primeira coisa que muito se lhes encarrega é que a vida e procedimento dos portugueses seja tal que com o seu exemplo e imitação se convertamos gentios. Assim está disposto santissimamente, porque, como diz S. João Crisóstomo, se os cristãos viveram conforme a lei de Cristo, toda a gentilidade estivera já convertida: Nemo profecto gentilis esset, si ipsi, ut oportet, Christiani esse cura remus. – Mas é coisa muito digna, não sei se de admiração, se de riso, que no mesmo tempo em que se dá este regimento aos governadores, e nos mesmos navios em que eles vão embareados, os povoadores que se mandam para as mesmas terras são os criminosos e malfeitores tirados do fundo das enxovias, e levados a embarcarem grilhões, a quem já não pode fazer bons o temor de tantas justiças! E estes degradados, por suas virtudes, e talvez marcados por elas, são os santinhos que lá se mandam, para que com o seu exemplo se convertam os gentios, e se acrescente a cristandade. Aqueles samaritanos, que acima dissemos impediam a edificação do Templo, eram degradados por el-rei Salmanazar, de Assíria e Babilônia, para povoadores da Samaria, que ele tinha conquistado e diz a História Sagrada que o que lã fizeram foi ajuntar os costumes que levavam da sua terra com os que acharam em Sarnaria, e assim eram meios fiéis, e meios gentios: Et cum Dominum colerent, diis quoque suis serviebant juxta consuetudinem genti um, de quibus translati fuerant Samariam. Isto mesmo se experimenta, e é força que suceda nas nossas conquistas, com semelhantes povoadores. Mas, como este erro fundamental já não pode ter remédio, vamos aos que de presente e para o futuro nos ensina o Evangelho.

O primeiro é a boa eleição dos sujeitos a quem se comete o governo. E para que a eleição seja boa, que parte hão de ter os eleitos? Eu me contento com uma só. E qual? Que sejam ao longe o que prometem ao perto. Herodes encomendou muito aos Magos que fizessem diligência pelo Rei nascido que buscavam, e que, tanto o achassem, lhe fizessem logo aviso, para que também ele o fosse adorar: Ut et ego veniens adorem eum. Ah! hipócrita! Ah! traidor! E para tu adorares a Cristo é necessário que vás onde ele estiver: Ut et ego veniens? Tanto podia Heiudes adorar a Cristo desde Jerusalém, onde ele estava, como em Belém, ou em qualquer outra parte onde o Senhor estivesse; mas estes são e estes costumam ser os Herodes. Em Belém e ao perto adoram; desde Jerusalém, e ao longe, não adoram. Antes de ir, e quando vem, adoram: Ut et ego veniens: – mas enquanto estão lá tão longe, nem adoram, nem têm pensamentos de adorar, como Herodes; e se não maquinam contra orei em sua pessoa, maquinam contra ele e suas leis, à custa da vida e sangue dos inocentes. Bom Daniel e fiel ministro de seu Senhor. Estava Daniel em Babilônia, e diz o texto sagrado que todos os dias três vezes abria as janelas, que ficavam para a parte de Jerusalém, e prostrado de joelhos adorava: Apertisfenestris in coenaculo suo contra Jerusalem, tribus temporibus in die flectebat genua sua, et adorabat (Dan. 6, 10). De Babilônia não se podia ver Jerusalém, distante tantos centos de léguas quantas há desde o Monte Sion ao Rio Eufrates; pois, por que adorava Daniel para a parte de Jerusalém? Porque Jerusalém naquele tempo era a corte de Deus, o Templo o seu palácio, e o Propiciatório, sobre asas de querubins, o seu trono; e essa era a obrigação de fiel ministro: adorar a seu Senhor, e adorá-lo sempre, e adorá-lo de toda a parte, ainda que fosse tão distante como Babilônia. Em Jerusalém adorava Daniel de perto, em Babilônia adorava de longe; isto é o que nota e encarece a Escritura, não que adorasse de perto, que isso fazem todos, mas que adorasse de longe, e de tão longe. E porque ao longe há poucos Daniéis e muitos Herodes, por isso convém que os que hão de governar em leiras tão remotas sejam aqueles que façam ao longe o que prometem ao peito.

Mas costuma isto ser tanto pelo contrário, que só o verem-se tão longe lhes tira todo o temor do rei e toda a reverência do seu nome. Entraram os Magos por Jerusalém perguntando: Ubi est qui natus est rex Judaeorum? E que efeitos causou em Herodes esta voz do nome real?Audiens autem Herodes rex, turbatus est (Mt. 2,3): Tanto que ouviu nomear rei, turbou-se, perdeu as corés, e ficou fora de si de medo. – Assim havia de ser o nome de rei, ou pronunciado, ou escrito, em qualquer parte da sua monarquia, por distante que seja. Havia de ser um trovão prenhe de raios, que fizesse tremer as cidades, as fortalezas, os portos, os mares, os montes, quanto mais os homens. Mas os que se vêem além da linha ou debaixo dela, fazem tão pouco caso destas trovoadas que, em vez de tomarem do coração de Herodes o turbatus est, tomam da boca dos Magos o Ubi est. Onde está el-rei? Em Portugal? Pois se ele lá está, nós estamos cá. lua se jactet in au1a. Mande ele de lá o que mandar, nós faremos cá o que nos bem estiver. São como aqueles hereges que, construindo a seu sabor o verso de Davi, diziam: Caelum caeli Domino, terram autem dedit filiis hominum:Esteja-se Deus no seu ‘céu, que nós estamos cá na nossa leira. – E que há de fazer a pobre leira com tais governadores? O que eles quiserem, ainda que seja muito contra si, e muito a seu pesar. Não temos o texto longe.

Turbatus estllerodes, et omnis Jerosolyma cum lllo (Ml. 2,3): Perturbou-se Herodes e toda a Jerusalém com ele. Perturbar-se Herodes, rei intruso e tirano, temendo que o legítimo Senhor o privasse da coroa, que não era sua, razão tinha; mas que se perturbe juntamente Jerusalém, quando era a melhor e mais alegre nova que podia ouvir? Não suspirava Jerusalém e toda a Judéia pela vinda do Messias? Não gemia debaixo da violência de Herodes? Não desejava sacudir o jugo, e libertar-se de sua tirania? Pois, por que se perturba, ou mostra perturbada, quando Herodes se perturba? Porque tão despótica como isto é a sujeição dos tristes povos debaixo do domínio de quem os governa, e mais quando são tiranos. Hão de fazer o que eles querem, e hão de querer o que eles fazem, ainda que lhes pese. Dizem que os que governam são espelho da república; não é assim, senão ao contrário. A república é o espelho dos que a governam. Porque, assim como o espelho não tem ação própria, e não é mais que uma indiferença de vidro, que está sempre exposta a retratar em si os movimentos de quem tem diante, assim o povo, ou república sujeita, se se move, ou não se move, é pelo movimento ou sossego de quem a governa. Se Herodes se não perturbara, não se havia de perturbar Jerusalém: perturbou-se porque ele se perturbou: Turbatus est Herodes, et omnis Jerosolyma cum illo. O perturbado foi um, e as perturbações foram duas: Uma em Herodes e outra em Jerusalém: em Herodes foi ação, em Jerusalém reflexo, como em espelho. Por isso o Evangelista exprimiu só a primeira: Turbatus est – e debaixo dela entendeu ambas. Assim que, todas as vezes que Jerusalém se inquieta, Herodes tem a culpa, e se acaso a não tem toda, tem a primeira. Et omnis Jerosolyma cum illo: ou com ele, porque ele faz a inquietação ou com ele, porque a manda; ou com ele, porque a consente, ou com ele, porque a dissimula, ou com ele, quando menos, porque, devendo e podendo, a não impede, mas sempre e de qualquer modo com ele: cum illo. De maneira, enfim, que na eleição destes eles consiste a paz, o sossego e o bom governo das conquistas. E este é o primeiro remédio do Evangelho, ou o primeiro Evangelho do remédio.

O segundo remédio é que as congregações eclesiástiças daquele estado sejam compostas de tais sujeitos, que saibam dizer a verdade, e que a queiram dizer. Para Herodes responder à proposta e pergunta dos Magos, que fez? Congregans omnes principes sacerdotum, et scribas populi, sciscitabatur ab eis ubi Christus nasceretur.A proposta e pergunta era em que lugar havia de nascer o Messias, e para isso fez uma congregação ou junta, em que entraram as pessoas eclesiásticas de maior autoridade e letras que havia em Jerusalém. Era Herodes tirano, e contudo, mostrou estas duas grandes partes de príncipe que perguntava, e perguntava a quem havia de perguntar: as matérias eclesiástica aos eclesiásticos, e as das letras aos letrados, e destes aos maiores. Por isso compôs a congregação de sacerdotes e professores de letras, mas não de quaisquer sacerdotes, nem de quaisquer letrados, senão dos que no sacerdócio e na ciência, na sinagoga e no povo, tinham os primeiros lugares: Congregans omnes príncipes sacerdotum, et scribas populi. E que se seguiu desta eleição de pessoas tão acertada? Tudo o que se pretendia.

O primeiro efeito, e muito notável, foi que, sendo tantos, todos concordaram. Raramente se vê uma junta em que não haja diversidade de pareceres, ainda contra a razão e verdade manifesta, principalmente quando se conhece a inclinação do rei, como aqui estava conhecida a de Herodes na sua perturbação; e, contudo, todos os desta grande junta concordaram na mesma resposta, todos alegaram o mesmo texto e todos o entenderam no mesmo sentido: At iIli dixerunt ei: ln Bethlehem Judae: sic enim scriptum est per projhetam: Ei tu Bethlehem terra Juda, etc.. E porque todos concordaram sem discrepância, deste primeiro efeito se seguiu o segundo, e principalmente pretendido, que era encaminhar os Magos com certeza ao lugar do nascimento de Cristo, para que infalivelmente o achassem e adorassem, como acharam e adoraram. Tanto importa que semelhantes congregações sejam compostas de homens que tenham letras. Cuida-se cá que para aquelas partes bastam eclesiásticos que saibam a forma do batismo e a doutrina cristã, e não se repara que eles são os que nos púlpitos pregam de público, eles os que absolvem de secreto nos confessionários onde é maior o perigo e que eles, por disposição das leis reais, são os intérpretes das mesmas leis, de que dependem as liberdades de uns, as consciências de outros e a salvação de todos. E se estes, como sucede ou pode suceder, não tiveram mais letras que as do A B C, que conselhos, que resoluções, que sentenças hão de ser as suas? Pergunto: se os sacerdotes e letrados de Jerusalém se dividissem em opiniões, se uns dissessem que o Messias havia de nascer em Belém, outros em Nazaré, outros em Jericó, se uns voltassem para Galiléia, outros para Judéia, outros para Sarnaria, que haviam de fazer os Magos? É certo que neste caso ou desesperados se haviam de tornar para as suas terras, como muitos se tornam, ou que, perseverando em buscar a Cristo, no meio de tanta confusão o não achariam, Uma das principais causas por que está Cristo tão pouco achado, ou porque está tão perdido naquelas conquistas, é pela insuficiência dos sujeitos eclesiásticos que lá se mandam. Cristo, uma vez que se perdeu, achou-se entre os doutores, e onde estes faltam, que lhe há de suceder? Entre doutores achou-se depois de perdido; onde eles faltam, perder-se-á depois de achado. E isto é o que vemos. Por isso Herodes, depois que fez aquela congregação de homens tão doutos, logo supôs que os Magos sem dúvida haviam de achar a Cristo: Ei cum inveneritis, renuntiate mihi.

Este é, como dizia, o segundo remédio que nos descobre o Evangelho. E se acaso nos descontenta, por ser praticado de tão ruim autor como Herodes – sem advertir que muitas vezes os maus governam tão bem como os bons, e melhor que os muito bons – imitemos ao menos o exemplo do nosso grande conquistador el-rei Dom Manoel, de felicíssima memória, tão amplificador do seu império, como do de Cristo, de quem lemos que o primeiro sacerdote que enviou às conquistas foi o seu próprio confessor. Não fio a salvação daquelas almas senão de quem fiava a própria consciência, porque sabia que estava igualmente obrigado em consciência a tratar delas, e dos meios proporcionados à sua salvação. Mas, para que é recorrer a exemplo meramente humano, onde temos presente o do mesmo Rei e Salvador do Universo? No tempo do nascimento de Cristo dividiu-se o mundo em duas nações, em que se compreendiam todas: a judaica e a gentílica; e para o Senhor fundar em ambas a nova Igreja cristã, que vinha edificar e propagar, bem sabemos quais foram os sujeitos que escolheu. Aos pastores, que eram judeus, mandou um anjo: aos Magos, que eram gentios, mandou uma estrela. E por que estrelas e anjos entre todas as criaturas? Porque as estrelas são luz, os anjos são espíritos. Quem não tem luz, não pode guiar: quem não tem espírito, não pode converter. E nós queremos converter o mundo sem anjos e com trevas. Notou muito bem aqui a glosa, que assim o anjo como a estrela foram missionários trazidos do céu: e de lá era bem que viessem todos; mas já que os não podemos trazer do céu, como Cristo, por que não mandaremos os melhores ou menos maus da leira?

O terceiro e último remédio, e que sendo um abraça muitos e que todos os que forem necessários para a boa administração e cultura daquelas almas, se lhes devem, não só conceder, mas aplicar efetivamente, sem os mesmos gentios, ou novamente cristãos – nem outrem por eles – o pedirem ou procurarem. Diz com advertência e mistério particular o nosso texto que, estando os Magos dormindo, se lhes deu a resposta do que haviam de fazer para se livrarem das mãos de Herodes: Ei responso acce pio in somnis ne redirent ad Herodem. Na palavra responso accepto reparo muito. Os Magos em Belém perguntaram alguma coisa? Pediram alguma coisa? Falaram alguma coisa? Ao menos no ponto particular de Herodes, sobre que foram respondidos, é certo que nem uma palavra só disseram. Pois, se não falaram, se não pediram, se não propuseram ou perguntaram, como se diz que foram respondidos: Responso accepto? Esse é o mistério e o documento admirável de Cristo a todos os reis que trazem gentios à fé. Os Magos eram gentios ou cristãos novamente convertidos da gentilidade, e os gentios ou cristãos novamente convertidos, onde há fé, razão, e justiça, hão de ser respondidos, sem eles falarem, hão de ser despachados, sem eles requererem, hão de ser remediados, sem eles pedirem. Não há de haver petição, e há de haver despacho, não há de haver requerimento, e há de haver remédio, não há de haver proposta e há de haver resposta: Responso accepto.

Sim. Mas se eles não requerem, quem há de requerer por eles? Muito bom procurador: quem requereu neste caso. S. Jerônimo diz que o autor da resposta foi o mesmo Cristo por sua própria pessoa; Santo Agostinho diz que foi por medição e mistério de anjos, e tudo foi. Foi Cristo como verdadeiro rei, e foram os anjos como verdadeiros ministros. Nos outros casos, e com os outros vassalos, os reis e os ministros são os requeridos: neste caso e com esta gente, os reis e os ministros hão de ser os requerentes. Eles são os que lhes hão de requerer a fé, eles os que lhes hão de requerer a liberdade, eles os que lhes hão de requerer a justiça, eles, finalmente, os que lhes hão de requerer, negociar e fazer efetivo tudo quanto importar à sua conversão, quietação e segurança, sem que aos mesmos gentios, ou antes ou depois de convertidos, lhes custe o menor cuidado. Que cuidavam ou que faziam os Magos, quando foram respondidos? É circunstância muito digna de que a considerem os que têm a seu cargo este encargo: Etresponso accepto in somnis. Os Magos estavam dormindo, bem ignorantes do seu perigo e bem descuidados do seu remédio, e no mesmo tempo o bom rei, e os bons ministros estavam traçando e dispondo os meios, não só da salvação de suas almas, senão da conservação, descanso e segurança de suas vidas.

E se alguém me perguntar a razão desta diferença e da maior obrigação deste cuidado, acerca dos gentios e novos cristãos das conquistas, em respeito ainda dos mesmos vassalos portugueses e naturais, muito me espanto que haja quem a ignore. A razão é porque o reino de Portugal, enquanto reino e enquanto monarquia, está obrigado, não só de caridade, mas de justiça, a procurar efetivamente a conversão e salvação dos gentios, à qual muitos deles, por sua incapacidade e ignorância invencível, não estão obrigados. Tem esta obrigação Portugal enquanto reino, porque este foi o fim particular para que Cristo o fundou e instituiu, como consta da mesma instituição. E tem esta obrigação enquanto monarquia, porque este foi o intento e contrato com que os Sumos Pontífices lhe concederam o direito das conquistas, como consta de tantas bulas apostólicas. E como o fundamento e base do Reino de Portugal, por ambos os títulos, é a propagação da fé e conversão das almas dos gentios, não só perderão infalivelmente as suas todos aqueles sobre quem carrega esta obrigação, se se descuidarem ou não cuidarem muito dela, mas o mesmo reino e monarquia, tirada e perdida a base sobre que foi fundado, fará naquela conquista a ruína que em tantas outras partes tem experimentado, e no-lo tirará o mesmo Senhor que no-lo deu, como a maus colonos: Auferetur a vobis regnum Dei, et dabitur genti facienti fructus ejus.

Mas, para que é falar nem trazer à memória reino, quando se trata de remédio de tantos milhares de almas, cada uma das quais pesa mais que todo o reino? Tomemos o exemplo naquele Rei que hoje chamou os reis, e naquele Pastor que ontem chamou os pastores. Falando lsaías de Cristo como rei, diz que trazia o seu império ao ombro: Cujus imperium super humerum ejus e falando S. Lucas do mesmo Cristo como Pastor, diz que foi buscar a ovelha perdida sobre os ombros: Imponii in humeros suos gaudens. Pois, um império sobre um ombro, e uma ovelha sobre ambos os ombros? Sim. Porque há mister mais ombros uma ovelha que um império. Não pesa tanto um império como uma ovelha. Para o império basta meio rei: para uma ovelha é necessário todo, E que pesando tanto uma só ovelha, que pesando tanto uma só alma, haja consciências eclesiásticas e seculares que tomem sobre seus ombros o peso da perdição de tantas mil? Venturoso Herodes, ou menos desventurado, que já de hoje em diante não serás tu o exemplo dos cruéis! Que importa que tirasse a vida Herodes a tantos inocentes, se lhes salvou as almas? Os cruéis e os tiranos são aqueles por cuja culpa se estão indo ao inferno tantas outras; e se um momento se dilatar o remédio das demais, lá irão todas. No céu viu S. João que estava as almas dos inocentes pedindo a Deus vingança do seu sangue: Usquequo, Domine, non vindicas san guinem nostrum? E se almas que estão no céu vendo e gozando a Deus, pedem vingança, tantas almas que estão ardendo no inferno, e arderão por toda a eternidade, que brados darão a Deus? As almas também tem sangue, que é o que Cristo derramou por elas, e que brados dará à Justiça Divina este divino sangue, quando tão ouvidos foram os do sangue de Abel?

§VIII

Nos ecos destes mesmos brados queria eu ficasse suspensa a minha oração, mas não é bem que ela acabe em brados e clamores, quando o Evangelho nos mostra o céu tão propício, que se ouvem na terra os silêncios. Assim lhes aconteceu aos Magos, e assim espero eu me suceda a mim, pois sou tão venturoso como eles foram, que no fim da sua viagem acharam muito mais do que esperavam. Buscavam o Rei nascido: Ubi est qui natus est rex e acharam o Rei nascido, e a Rainha Mãe: Ivenerunt puerum cum Maria Matre ejus. E como a soberana Mãe era a voz do rei na sua menoridade, e a volta que os Magos fizeram para as suas terras, correu por conta da mesma Senhora foi esta missão que tomou por sua, tão bem instruída, tão bem fundada, e tão gloriosa em tudo, que dela e das que dela se foram propagando, disse Salomão nos seus Cânticos: Emissiones tuae paradisus. Até agora, Senhora, porque as missões se não fizeram em nome e debaixo da real proteção de Vossa Majestade, os tormentos de pena e dano que aquelas almas padeceram se podiam chamar missões do inferno; agora as mesmas missões, por serem de Vossa Majestade, serão paraíso: Emissiones, tuae paradisus. Assim o ficam esperando da real piedade, justiça e grandeza de Vossa Majestade, aquelas tão perseguidas e desamparadas almas, e assim o confiam e têm por certo os que, tendo-se desterrado da pátria por amor delas, padecem hoje na pátria tão indigno desterro. E para acabar corno comecei, com a última cláusula do Evangelho, o que ele finalmente diz é que os Magos tornaram para a sua terra por outro caminho: Per aliam viam reversi sunt in regionem suam (Mi. 2,12). A terra foi a mesma, mas o caminho diverso; e isto é o que só desejam os que não têm por suas outras terras mais que as daquela gentilidade, a cuja conversão e doutrina, por meio de tantos trabalhos, têm sacrificado a vida. Voltar para as mesmas terras, sim, que o contrário seria inconstância, mas em forma que o caminho seja tão diverso que triunfe e seja servido Cristo, e não Herodes. Se os Magos voltassem pelo mesmo caminho, triunfaria o tirano, perigaria Cristo; e os Magos, quando escapassem, não fariam o fruto que fizeram nas mesmas terras, convertendo-as, como as converteram todas, à fé e obediência do Rei que vieram adorar, e de cujos pés não levaram nem quiseram outro despacho. Tudo isto se conseguiu, e tão felizmente, e se conseguirá também agora com a mesma felicidade, se o oráculo for o mesmo. Mande o soberano oráculo tornem para a mesma região, e mande eficazmente que seja outro o caminho: Per aliam viam reversi sunt in regionem suam.

Fonte: https://www.literaturabrasileira.ufsc.br/documentos/?action=download&id=49782