Sermão de São João Evangelista (1644)

SERMÃO DE S. JOÃO EVANGELISTA

Festa do Príncipe D. Teodósio, na Capela Real, ano 1644.

Conversus Petrus, vidit illum discipulum, quem diligebat Jesus, sequentem[1].

I – Também na santidade há venturosos e desgraçados. S. João Batista, desgraçado com reis, S. João Evangelista, venturoso com príncipes. Se Cristo era amigo de João, e Pedro estava feito pontífice, por que se mostra sentido Pedro da dignidade que lhe dava Cristo? Por que se mostra sentido Cristo do cuidado que mostrava Pedro? Ser amante do Evangelista amado, ou é destino ou é obrigação dos maiores príncipes. A devoção do Príncipe D. Teodósio a S. João Evangelista valido de Cristo. Por que se inventaram os validos?

Cuidava eu que só dos que seguem ao mundo havia venturosos e desgraçados. Também na santidade há fortuna. S. João Batista foi desgraçado com reis. S. João Evangelista foi venturoso com príncipes. S. João Batista foi desgraçado com reis, porque um rei o fez nascer em uma montanha, e outro rei o fez morrer em um cárcere. S. João Evangelista foi venturoso com príncipes, porque o príncipe do céu e o príncipe da Igreja, ambos andam em competência neste Evangelho sobre o qual se lhe há de mostrar mais afeiçoado. Fez Cristo a S. Pedro príncipe universal da sua Igreja, e, apontando S. Pedro para S. João, disse: Domine, hic autem quid[2]? Senhor, se a mim me dais o pontificado, se a mim me entregais as chaves do céu, aos merecimentos de João, que lhe haveis de dar? – Que responderia Cristo a S. Pedro? Sic eum volo manere donec veniam, quid ad te[3]? Se eu quero que João se fique assim, quem vos mete, Pedro, a vós nisso? – Quem vos fez procurador de João? Quid ad te? Notável resposta de Cristo, e notável proposta de Pedro; Cristo e Pedro ambos parece que estão queixosos pelo que haviam de estar agradecidos. Na repartição dos lugares sentem-se as dignidades que se dão aos outros; nos negócios dos amigos sente-se que haja descuidados, mas não que haja cuidadosos. Pois, se Cristo era amigo de João, e Pedro estava feito pontífice, por que se mostra sentido Pedro da dignidade que lhe dava Cristo? Por que se mostra sentido Cristo do cuidado que mostrava Pedro? Os sentimentos eram diversos, mas a causa era a mesma. Sentiam-se ambos porque ambos amavam muito a S. João. Pedro sentia-se da dignidade que lhe dava Cristo, porque, como Pedro amava muito a João, queria a dignidade para ele, não para si; Cristo sentia-se do cuidado que mostrava Pedro, porque, como Cristo amava mais que todos a João, não queria que houvesse quem se mostrasse mais cuidadoso que ele. – Onde está João, dizia Pedro, por que me hão de dar o pontificado a mim? Hic autem quid?-Onde estou eu, dizia Cristo, porque há deter outrem cuidado de João? Quid ad te? – De maneira que o príncipe da Igreja e o Príncipe da glória andavam ambos em competência sobre qual havia de amar mais a S. João, porque ser amante do Evangelista amado ou é destino ou é obrigação dos maiores príncipes.

Tão qualificada, Senhor, e tão autorizada como isto tem V. A. a devoção do seu amado Evangelista S. João, autorizada com os cuidados do príncipe da Igreja, e mais autorizada com as emulações do Príncipe da glória. Contudo, Senhor, eu, quando considero a V. A. príncipe de Portugal, não deixo de ter meus escrúpulos nesta devoção. S. João foi o valido de Cristo, e um príncipe de Portugal, logo em seus primeiros anos, afeiçoado a validos! Devoção a valido, ainda que santo, em um príncipe! Escrupulosa devoção! Lá diziam os israelitas a Deus que lhe não haviam de chamar Baalim que quer dizer Senhor meu, porque, ainda que Baalim era nome de Deus, equivocava-se com Baal, que era nome do ídolo. Pois, se o nome do ídolo, ainda que posto em Deus, era perigoso, o nome de valido, ainda que posto em S. João, por que o não será? Valido, ainda que seja S. João, é valido: e afeição a valido no nosso príncipe! Pois, por certo, senhor, que não são esses os exemplos que V. A. vê. Não é essa a doutrina com que V. A. é criada. Quanto mais que, havendo de haver valido, parece que não havia de ser S. João. Os validos inventaram-se para os príncipes descansarem neles; e S. João era um valido de quem diz o evangelista: Recubuit super pectus Domini (Jo. 21, 20): que esteve encostado sobre o peito de seu Senhor, – Lindo talento de valido! Em vez de o príncipe descansar nele, ele descansa no príncipe!

II – Duas razões muito forçosas para o Príncipe N. S. se afeiçoar ao grande valido de Cristo, A primeira razão: por ser herança do Senhor D. Teodósio, seu avô. El-rei Atalarico e o valido Tolonico, patrício romano. Um dos grandes louvores do discípulo amado é ser um amigo de quem se pode testar Se os amigos são os nossos maiores bens e os bens mais nossos, por que não testamos deles? Cristo e o amigo Lázaro. S. João, herança principal do testamento de Cristo. Se Cristo chama testamento a seu sangue, por que não chama testamento a seu corpo? A qual deve mais Sua Alteza em razão de herdeiros: a el-rei, nosso Senhor, ou ao Senhor D. Teodósio? A herança de S. João e a herança de Dimas.

Com isto se representar assim eu acho duas razões muito forçosas para o Príncipe N. S. se afeiçoar a este grande valido de Cristo. A primeira, pelas partes do valido; a segunda, pela autoridade de quem o inculcou. Quis el-rei Atalarico tomar por seu valido a Tolonico, patrício romano, e escreveu-lhe assim em uma epístola, que é a nona do livro oitavo de Cassiodoro: Ad relevandam florentissimae aetatis nostrae solicitudinem visum est te viram prudentissimum adhibere, quem constar etiam domino avo nastro laudabiliter adhaesisse: Quero-vos por companheiro no governo destes meus primeiros anos – diz Atalarico a Tolonico – por duas razões porque tendes prudência para o ser, e porque o fostes primeiro do senhor Teodorico, meu avo: Quem constat etiam dominei avo nostro laudabiliter adhaesisse. – Estas mesmas são as razões que o Príncipe, que Deus guarde, tem para ser tão afeiçoado a este grande valido de Cristo. A primeira, porque tem grandes partes para o ser; a segunda, porque o foi primeiro do sereníssimo D. Teodósio, seu avo: Etiam domino avo nostro laudabiliter adhaesisse. – Sendo S. A. de muito menos anos, sonhou que lhe aparecia o senhor D. Teodósio, que lhe encomendava muito que fosse grande devoto de S. João Evangelista, de quem ele toda a vida fora devotíssimo. Não foi esta a vez primeira que felicidades de S. João tiveram princípio em sonhos. Este sonho misterioso foi o princípio desta devoção, e esta herança divina foi a que deixou a um tal neto um tal avô.

Já outra vez, ao pé da cruz, foi S. João Evangelista deixado em herança, e, a meu ver, este é um dos grandes louvores do discípulo amado: ser um amigo de quem se pode testar. Um dos grandes escândalos que tenho do mundo é por que se não há de testar dos amigos? Na morte testam os homens de todos os seus bens, e por essa mesma razão parece que haviam de testar dos amigos em primeiro lugar porque, entre todos os bens, nenhum bem há maior que os amigos, e entre todas as coisas nossas, nenhuma é mais nossa que os amigos. Pois, se os amigos são os nossos maiores bens e os bens mais nossos por que não testamos deles? A razão é esta: porque os bens de que testam e podem testar os homens são aqueles que permanecem depois da morte, e os amigos ainda que sejam os nossos maiores bens, são bens que se acabam com a vida. O maior amigo permanece até à morte: depois da morte ninguém é amigo. Morreu Lázaro estando Cristo ausente, e é muito de reparar o modo com que Cristo, Senhor nosso, deu esta nova aos apóstolos. A primeira vez disse: Lazarus amicus noster dormit (Jo. 11, 11): Lázaro, nosso amigo, dorme. – Daí a pouco explicou-se mais, e disse: Lazarus mortuus est (Jo. 11, 14); Lázaro é morto. – Notável diferença! Quando Cristo diz que Lázaro dorme, chama-lhe amigo nosso: Lazarus, amicus noster, dormit – quando diz que Lázaro é morto, não lhe chama amigo: Lazarus mortuus est. – Pois, se lhe chama amigo quando disse que dormia, por que não lhe chama amigo quando disse que morrera? Por que quando disse que dormia supunha-o vivo, que o dormir em rigor é de quem vive; quando disse que morrera declarava-o morto, e o nome de amigo acaba-se com a vida: depois da morte ninguém é amigo. Lázaro vivo é amigo: Lazarus amicus noster: – Lázaro morto é Lázaro: Lazarus mortuus est. – E como as amizades humanas são bens que não permanecem depois da morte, por isso os homens não testam destes bens, por isso se não deixam os amigos em testamento. Só S. João Evangelista foi exceção desta regra, como de todas. Fez Cristo seu testamento na hora da morte, e a principal herança de que testou foi S. João: Mulier, ecce filius tuus[4]. – Sabia que o amor do seu amado não se havia de acabar com a vida: por isso foi a herança principal de seu testamento.

No Sacramento da Eucaristia consagrou Cristo igualmente seu corpo e sangue; mas no modo da consagração reparo eu em unia diferença grande, A consagração do cálix chamou-lhe Cristo testamento: Hic calix novum testamentum est in meo sanguine[5]:: – à consagração do corpo não lhe chamou testamento: Hoc est corpus meum[6] – e não disse mais. Pois, se Cristo chama testamento ao sangue, por que não chama testamento ao corpo? E se testou do sangue, por que não testou do corpo? A razão muito a nosso intento é esta: porque as finezas do corpo de Cristo acabaram com a morte; as finezas do sangue de Cristo ainda depois da morte, perseveraram. O corpo de Cristo concorreu à redenção padecendo; o sangue de Cristo concorreu à redenção derramando-se: Pois, por isso testou Cristo de seu sangue, e não testou de seu corpo, porque o corpo depois da morte não padeceu; o sangue depois da morte ainda se derramou: Exivit sanguis[7]. – Essa foi a causa por que advertidamente o evangelista, falando da lança, não disse que ferira, senão que abrira: Latus ejus aperuit[8]porque a lançada não foi ferida para o corpo, foi porta para o sangue: não foi ferida para o corpo, porque o corpo não a sentiu; foi porta para o sangue porque o sangue saiu por ela. Exivit sanguis. – E como no corpo, de morto não havia sentimento para padecer, e no sangue, depois da morte, ainda havia impulsos para sair, por isso testou Cristo de seu sangue, e não de seu corpo. Hic calix novum testamentúm est in meo sanguine. – O divino João, que bem mostrais ser sangue de Cristo na fineza de vossa amizade! Não se acabaram vossas finezas com a morte, antes, depois que Cristo morreu por vós, morrestes vós mais por ele: por isso testou de vós vosso Mestre, por isso testaram de vós nossos príncipes.

Ora, eu me pus a considerar, em razão de herdeiro, a qual devia mais o Príncipe, que Deus guarde, se a el-rei, nosso senhor, se ao senhor D. Teodósio? Enquanto herdeiro de el-rei, nosso senhor, a herança é o reino de Portugal; enquanto herdeiro do senhor D. Teodósio, a herança é S. João Evangelista. Pois, a qual deve mais S. A. em razão de herdeiro? Não há dúvida, senhor, que em razão de herdeiro deve V. A. mais ao senhor D. Teodósio que a el-rei nosso senhor. Provo em próprios termos. Quando Cristo fez o seu testamento na cruz teve duas coisas de que testar: testou do reino, e testou de S. João. Saibamos: e a quem deixou estes dois legados? O reino deixou-o a Dimas; S. João deixou-o a sua Mãe. – Pois, como assim, Senhor, parece que se haviam de trocar os legados: o discípulo bastava deixá-lo a um amigo; o reino convinha deixá-lo à Mãe. Pois, por que deixa o discípulo à Mãe, e o reino a Dimas? Porque a quem Cristo amava mais era bem que deixasse o melhor legado. E com o reino de Cristo ser o melhor do mundo, à Mãe, a quem amava mais, deixou a João, a Dimas, a quem amava menos, deixou o reino, porque muito menor herança era o reino do que João. Santo Ambrósio expressa extremadamente: Matri dixit: Ecce filius tuus; latroni dixit: Hodie mecum eris in paradiso – pluris putans quod pietatis officia dividebat, quam quod regnum caelete donabat: À Mãe, a quem amava mais, deu a João; a Dimas, a quem amava menos, deu o reino, porque, pondo em fiel balança, de uma parte o reino do céu, de outra parte a João, entendeu Cristo que dava mais a sua Mãe em lhe dar a João, do que a Dimas em lhe dar o reino: Pluris putans quod pietatis officia dividebat, quam quod regnum caeleste donabat, – E se S. João, sem lisonja, é melhor herança que o reino do céu, sem ingratidão podemos dizer que é melhor herança também que o nosso de Portugal. Esta é a primeira razão, e mui justificada, que S. A. tem para ser mui afeto ao grande valido de Cristo, por ser herança do senhor D. Teodósio, seu avô. A segunda é pelas boas partes que em S, João se acham para valido, como agora veremos.

III – Segunda razão que S. A. tem para ser mui afeto ao grande valido de Cristo: as boas partes que em prerrogativa do Evangelista amado: ser amado sendo evangelista. Por que diz S. João por fim de seu Evangelho que tudo o que diz nele é verdade? As três mentiras de Sansão a Dalila. Não deve o príncipe esperar, como Dalila, pela terceira mentira, Não há de ser amado quem cala as verdades que os outros dizem, senão quem diz as verdades que os outros calam, como fez S. João entre os evangelistas.

A primeira boa parte que eu reconheço em S. João para valido é ser evangelista. Os validos hão de ser evangelistas. O ofício dos evangelistas é dizer verdade, e os validos hão de ter o dizer verdade por ofício. Alguns homens têm havido evangelistas, muitos homens têm havido validos, mas valido e evangelista juntamente, só S. João o foi. A razão ou sem-razão disto é porque os que são validos não querem ser evangelistas, e os que são evangelistas não chegam a ser validos. Só em S. João se ajuntaram estas duas propriedades, das quais se compõe a maior prerrogativa sua. Sabeis qual é a mais singular prerrogativa do Evangelista amado? É ser amado sendo evangelista. Reparo eu muito no nosso Evangelho em uma coisa em que não vejo reparar: Et scimus quia verum est testimonium ejus[9]diz S. João, por fim de seu Evangelho, que tudo o que diz nele é verdade. Ociosa advertência ao que parece, por certo. Leiam-se todos os evangelistas, e nenhum se achará que fizesse semelhante advertência. Pois, se os outros evangelistas não dizem que é verdade o que escreveram, por que diz S. João que é verdade o que escreveu? Não tinha igual autoridade? Não era evangelista, como os demais? Sim, era, mas era evangelista amado; e porque o amor podia fazer suspeitosa a verdade, advertiu que, ainda que era amado, era verdadeiro: Discipulum quem diligebat, et scimus, quia verum est testimonium ejus. – Ordinariamente, nas cortes dos príncipes, os que contrafazem a verdade são os que granjeiam o amor. Na corte de Cristo não é assim: os que têm por profissão ser verdadeiros são os que têm por prêmio ser amados. Ó que grande glória de Cristo! Ó que grande glória de João! Grande glória de Cristo, que o seu amado seja um evangelista; grande glória de João, que, sendo evangelista, seja o amado! Mas isto não se acha em toda a parte: só na corte do céu e na de Portugal; só no Príncipe da Glória e no nossos príncipe. O que importa, senhor, é que seja sempre assim. Os amados sejam só os evangelistas, e quem não for evangelista não seja amado.

E qual é a razão por que os evangelistas devem ser os amados? A razão é evidente: porque o maior merecimento para ser amado é amar, e a maior prova de amar é falar verdade. Perguntou Dalila a Sansão, por três vezes, em que parte tinha vinculada sua fortaleza, e que remédio podia haver para ser vencido? Respondeu Sansão a primeira vez, que se o atassem fortemente com nervos; a segunda vez, que se o atassem com cordas, a terceira vez que se o atassem com os cabelos; mas de todas as três vezes rompeu ele com facilidade as ataduras. E que faria Dalila, vendo-se assim enganada? Queixou-se muito de Sansão, disse que sabia de certo que a não amava, e fez-lhe este argumento: Quomodo dicis quod amas me? Per tres vices mentitus es mihi (Jz. 16, 15): Como dizes tu, Sansão, que me amas, se me mentiste três vezes?- Bem tirada conseqüência: mentiste-me, logo não me amas. A conseqüência é clara, por que amar é entregar o coração, mentir é encobri-lo. Bem se segue logo que quem não fala verdade não ama, porque, como há de entregar o coração quem o encobre? De maneira que da verdade de cada um pode julgar o príncipe o seu amor, com advertência, porém, que não deve esperar, como Dalila, pela terceira mentira: Per tres vices mentitus es mihi. – Pela primeira falsidade em que o vassalo for achado, há de cair logo da graça do príncipe, e cair para sempre. Parece demasiado rigor, porque a graça de Deus não se perde por qualquer mentira: bem pode um homem não falar verdade, e mais ficar em graça de Deus. Contudo, no príncipe não é bem que seja assim. Por quê? Porque para Deus, que conhece os corações, bem pode haver mentiras veniais; mas para quem os não conhece, todas é bem que sejam mortais, e que por todas se perca a graça. A graça consiste no amor: quem não fala verdade, não ama. Logo, onde se prova o desamor, bem é que se perca a graça. Perca-se a graça onde se provar o desamor, que é a mentira; ganhe-se a graça onde só se provar o amor que é a verdade, e andem juntos, como em S. João, o título de evangelista com o de amado.

Não sou amigo de deixar dúvidas na minha doutrina. Todos me estão pondo contra esta uma grande instância. S. Mateus, S. Marcos, S. Lucas também foram evangelistas, contudo, não alcançaram privilégios de amados: logo, S. João não foi amado por ser evangelista, e, se foi amado por evangelista, qual é a maior razão? A maior razão é esta: porque S. João Evangelista, como notou S. Jerônimo, disse no seu Evangelho muitas coisas que os outros evangelistas deixaram de dizer; e dizer as verdades que os outros dizem não é ação que mereça singular amor mas dizer as verdades que os outros deixam de dizer, quem isto faz merece ser singularmente amado. As verdades que disse S. Mateus disse-as S. Marcos, disse-as S. Lucas; as verdades que disse S. Marcos, disse-as S. Lucas, disse-as S. Mateus; as verdades que disse S. Lucas, disse-as S. Mateus, disse-as S. Marcos, mas muitas verdades que disse S. João não as disse S. Mateus nem S. Marcos, nem S. Lucas: ele só as disse. E quem sabe dizer as verdades que todos os outros calam, ele só merece ser mais amado que todos. Não há de ser o amado quem cala as verdades que os outros dizem, senão quem diz as verdades que os outros calam. Assim o fez S. João, e por isso foi o singularmente amado: Discipulum quem diligebat,

IV – A segunda qualidade de valido que teve S. João: ser um valido que ficou assim. Por que fez Deus a Eva do lado de Adão. Não há coisa que mais cresça, nem mais depressa, que os lados dos príncipes. A estatura das palmas alentadas pela natureza, a estatura dos santos inspirados pela graça, e a estatura dos validos assoprados pela fortuna. Em todo este elemento em que vivemos, não há parte tão fértil e tão fecunda como aqueles dois pés de terra ao lado dos príncipes, Se o valimento de S. João estava tão declarado, como duvidavam ainda os apóstolos, e contendiam sobre qual dos doze era o maior? Se a mãe pedia a S. João a cadeira, e mais o lado, por que lhe não deu Cristo o lado e mais a cadeira?

A segunda qualidade de valido que teve S. João, e a que eu admiro muito neste grande santo, é ser um valido que ficou assim: Sic eum volo manere. – Perguntou S. Pedro a Cristo: Domine, hic autem quid? Senhor, se a mim me fazeis príncipe da vossa Igreja, S. João, o vosso valido, que há de ser? Respondeu o Senhor: Sic eum volo manere: Quero que fique assim. – Esta é, a meu ver, uma das grandes excelências do evangelista: ser um valido, que ficou assim. Ser valido, e ficar logo de outra maneira, isso acontece a todos, mas ser valido, e ficar assim como dantes, é similaridade de S. João. S. Pedro, que media a S. João pelos outros validos, imaginava que havia de crescer muito com o valimento: Hic autem quid? – Mas S. João, que se media consigo, ficou assim como dantes era; Sic eum voto manere.

Uma das circunstâncias em que reparo muito na criação do mundo, é formar Deus a Eva do lado de Adão. Não a pudera formar da cabeça, para que fora entendida? Não a pudera formar das mãos, para que fora executiva? Não a pudera formar dos pés, para que fora diligente? Pois, por que a forma do lado? Porque o lado de Adão era a parte mais acomodada para o que Deus pretendia. Deus, de uma pequena parte de Adão, queria fazer subitamente uma Eva que fosse tão grande como ele; pois, por isso a formou do lado, e não doutra parte, porque é propriedade dos lados crescer muito em pouco tempo. Ainda agora costa, é já Eva? Ainda agora uma parte tão pequena do lado de Adão, e já tão grande, como o mesmo todo de que era parte? Sim, porque a costa era parte do lado de Adão. Adão era príncipe universal de todo o criado, e não há coisa que mais cresça, nem mais depressa, que os lados dos príncipes. Veja-se em José com el-rei Faraó; veja-se em Amã com el-rei Assuero; veja-se em Daniel com el-rei Dario. E que, sendo tão natural o crescer nos lados dos príncipes, que S. João, que era o lado do maior príncipe do mundo, não tratasse de acrescentamento, e se deixasse ficar assim: Sic eum volo manere? Grande excelência do Evangelista!

Três coisas há neste mundo que sempre crescem, e nunca ficam assim: uma faz a natureza: outra faz a graça, outra faz a fortuna. A natureza, as palmas; a graça dos santos; a fortuna, os validos. A estatura da alma santa, diziam as outras almas suas companheiras que era semelhante a palma: Statura tua assimilata est palmae[10]E por que mais a palma a outro corpo bizarro e vistoso, de quantos criou nos campos a natureza? Por que todas as outras árvores que sejam os cedros mais gigantes do Líbano, têm limite no crescer e termo na estatura: só a palma não, sempre cresce. Tais são as almas dos santos. Como a virtude não tem termo, como a perfeição não tem limite, sempre estão crescendo na virtude, sempre estão subindo na perfeição, sempre se estão renovando e melhorando -a claritate in claritatem[11]como diz S. Paulo. – Esta é a estatura das palmas alentadas pela natureza; esta é a estatura dos santos inspirados pela graça, e esta a estatura dos validos assoprados pela fortuna. Estatura que, por mais crescida e por mais remontada até as nuvens que a vejamos, sempre crescem mais e mais. E se não lembrai-vos dos três que agora dizia. Deu Jacó por bênção a José que crescesse sempre: Filius accrescens Joseph filius accrescens[12]E onde se cumpriu esta bênção? Na privança e valimento de faraó. Amã grão-privado de Assuero, até o dia em que acabou, cresceu, e porque não teve mais para onde crescer, acabou. Pareceu desgraça, e foi natureza, que assim acontece à palma, ou crescer ou acabar. Daniel, na privança de Dario, tendo subido a ser um dos três supremos príncipes de toda a monarquia, ainda o rei queria que crescesse mais, e que fosse ele só sobre todos: Porro rex cogitabat constituere eum super omne regnum[13]. – Ofenderam-se os grandes de tanto crescer, e o remédio que inventaram para que não crescesse mais Daniel, foi buscarem-lhe ocasião com que o tirassem do lado do rei. Não é frase só da nossa língua, senão do mesmo texto sagrado: Unde principes et satrapae quaerebant occasionem ut invenirent Danieli ex latere regis[14]Do lado o queriam tirar, porque do lado lhe vinha o crescer. Não sei que influência tem o lado do príncipe, que em todo este elemento em que vivemos, não há parte tão fértil e tão fecunda como aqueles dois pés de terra: tudo ali se dá, tudo ali medra, tudo ali cresce. Crescem os parentes, os amigos, os criados; crescem as honras, os postos, os títulos; cresce a casa, a fazenda, o regalo; cresce o poder, o domínio, o respeito, a adoção, e, sobretudo, cresce a estatura dos mesmos adorados, Ontem pigmeus, hoje homens, amanhã gigantes, o outro dia colossos. Pesa-me desta última comparação, porque quando lhes acrescentei a grandeza, lhe tirei a alma, Não assim o maior valido do maior Príncipe, S. João: Sic eum voto manere. – Sempre ficou na mesma estatura, sempre se conservou do mesmo tamanho, e nem aparência de maioria lhe granjeou o lado.Levantou-se questão entre os apóstolos qual deles fosse maior: Quis eorum videretur esse major (Le. 22.24)? – Esta questão, a meu juízo, foi o maior louvor de S. João. Que seja S, João sem questão o valido, e que ainda esteja em questão quem é o maior! Grande louvor de valido! Naquela mesma hora, e naquele mesmo lugar em que se levantou a questão, que foi à mesa da Ceia, tinha Cristo feito pública entrega do seu lado a S. João, e naquela mesma hora, e naquela mesma mesa se tinha S. Pedro valido de sua valia, para saber por ele o segredo do traidor, e ele o tinha perguntado a Cristo. Pois, se o valimento de S. João, estava tão declarado, se o lado do seu Príncipe lhe estava tão publicamente entregue todo, e só a ele, como duvidam ainda os apóstolos, e contendem sobre qual dos doze é o maior? Não está claro que o maior entre todos é João? Assim havia de ser, se João não fora um valido que ficou assim. Era S. João tanto do seu tamanho sempre, tão medido com a sua estatura, e tão igual só consigo que, por mais que cresciam os valimentos, ele sempre se ficava assim como dantes era: na valia era, sem contenda, o maior, mas na maioria, como os demais: Quis eorum videretur esse major – E notai que a contenda, em rigor não foi sobre quem era o maior, senão sobre quem o parecia: Quis eorum videretur – E tinha crescido e medrado tão pouco S. João com o seu valimento, que todos os outros apóstolos não só podiam pleitear com ele a maioria, senão ainda as aparências. De sorte que no cume da sua privança, e no mais subido e remontado do seu valimento, não só não era maior, mas nem o parecia, Quis eorum videretur – Só isto é ficar assim.

Mas neste ficar assim de S. João, quem ficou mais acreditado, o lado ou o valido? Eu cuido que ambos. Assim como nos validos, que não ficam assim, tanto é o descrédito dos validos como o dos lados, assim neste grande valido, que ficou assim, tão acreditado ficou o lado como o valido, Não fiava tão delgado como isto a mãe de S. João, e, fiada no sangue que corre pelas veias, pediu a Cristo para cada um de seus filhos um dos lados, e uma das maiores cadeiras do reino: Dic ut sedeant hi duo filii mei, unus ad deveram, et alius ad sinistram in regno tuo[15]. – Não deferiu Cristo por então, mas a seu tempo, de ametade desta petição Fez dois despachos: deu um lado a S. João, e deu uma cadeira a S. Pedro. Pois, se a mãe pedia para S. João a cadeira e mais o lado, por que lhe não deu Cristo o lado e mais a cadeira? E já que lhe não quis dar ambas as coisas que pedia, senão uma só, por que lhe não deu a cadeira, senão o lado? Deu-lhe o lado, e não a cadeira, para acreditar o lado; e deu-lhe o lado, sem a cadeira, para acreditar a S. João. Se Cristo, amando a S. João mais que a todos, lhe não dera o lado, senão a cadeira, mostrava que estimava mais a cadeira que o lado: e era desacreditar o lado; e se lhe desse o lado e a cadeira juntamente, mostrava que S. João não só estimava e queria o lado, senão também a cadeira: e era desacreditar a S. João. Por isso lhe não deu a cadeira, senão o lado, e por isso lhe deu o lado sem a cadeira. Querer antes a cadeira que o lado, é afrontar o valido; querer o lado e não querer a cadeira, é honra do valido e mais do lado. Isto é o que ninguém faz, isto é o que fez João, e isto é o que Cristo queria: que fosse seu valido S. João, e que, sendo valido seu, se ficasse assim: Sic eum volo manere.

V – A terceira qualidade admirável do Evangelista: ser um valido que fez do segredo ignorância. Se Cristo disse a S. João quem o havia de trair, como diz que isto ninguém o soube dos que estavam à mesa? O segredo encomendado à memória, e o segredo encomendado ao esquecimento. Por que diz Cristo que não sabe quando há de ser o dia do juízo? Foi tão escrupuloso valido em matéria de segredo S. João que nem quis dizer os segredos que lhe disseram, nem quis dizer que lhe disseram segredos. Os segredos de S. Paulo e os segredos de S. João.

A terceira qualidade admirável que resplandece no Evangelista, foi ser um valido que fez do segredo ignorância. Um dos argumentos de seu valimento, que S. João alega neste Evangelho, foi perguntar a Cristo: Quis est qui tradet te (Jo. 21, 20)? Quem era o traidor que o havia de entregar? – Respondeu-lhe o Senhor, que era Judas, e acrescenta o evangelista: Hoc autem nemo scivit discumbentium (Jo. 13, 28): que isto ninguém o soube dos que estavam à mesa. – Logo não o soube o mesmo S. João, que era um dos que estavam a ela. É conseqüência de Santo Agostinho. Pois, se Cristo o disse a S. João, como é possível que S. João o não soubesse? Claro está que o soube. Pois, se o soube S. João, como diz que o não soube: Hoc autem nervo scivit? – A razão é esta: porque o que Cristo disse a S. João disse-lho em segredo, e S. João o que sabe em segredo não o sabe. Nos outros homens o saber em segredo é saber: em S. João o saber em segredo é ignorar: Nemo scivit, – Nenhum segredo é segredo perfeito se não o que passa a ser ignorância, porque o segredo que se sabe pode-se dizer, o que se ignora, não se pode manifestar. Esta é a causa de os homens comumente não saberem guardar segredos, porque encomendam o segredo à memória, sendo que o haviam de encomendar ao esquecimento. O segredo encomendado à memória corre perigo; o segredo encomendado ao esquecimento está seguro. A razão é porque o segredo encomendado à memória é cautela, e o que se guarda com cautela pode-se perder: o segredo encomendado ao esquecimento é ignorância, e o que, se ignora totalmente não se pode manifestar o perfeito segredo é só o que chega a ser ignorância, e tal era o de S. João: Hoc autem nemo scivit discumbentium, – Busquei prova a este pensamento, e só em um Homem-Deus a achei.

Fala Cristo da incerteza do dia do Juízo, e diz assim: De die autem illo nemo scit, negue angeli, neque Filias (Mc. 13, 32): O dia do Juízo ninguém o sabe: nem os anjos, nem o mesmo Filho do homem. – Este texto é um dos mais dificultosos que tem o Testamento Novo, tão dificultoso que se cansaram nele todos os quatro doutores da Igreja, contra a heresia dos arianos. Dizer Cristo, que nem o mesmo Cristo sabe quando há de ser o dia do Juízo: notável proposição! Cristo, enquanto Deus, sabe quando há de ser o dia do Juízo, porque a ciência divina é comum, e igual em todas as três divinas pessoas; Cristo enquanto homem também sabe quando há de ser o dia do Juízo, porque, ainda que a ciência de Cristo enquanto homem não é infinita, é universal e perfeitíssima, e conhece todos os futuros e decretos divinos. Pois, se Cristo enquanto Deus e enquanto homem sabe quando há de ser o dia do Juízo, por que diz que o não sabe: De die autem illo nervo scit, neque Filias? – A exposição deste passo, mais recebida de todos os doutores, é esta: porque, ainda que o Filho de Deus sabia muito bem quando havia de ser o dia do Juízo, sabia-o de maneira que não queria revelar este segredo aos apóstolos, e nas pessoas divinas, como Cristo, o saber em segredo é ignorar. S. Hilário: Quod Filius hominis nescit, sacramentum est quod taceat. O que Cristo chama ignorância do dia do Juízo, não é ignorância, é segredo – mas chama-se o segredo ignorância, porque nas pessoas divinas o encobrir é como o ignorar. O mesmo passou em S. João – que dele e de Deus falam com o mesmo estilo os evangelistas: – quis dizer que encobrira, e disse que ignorara: Hoc autem nervo scivit discumbentium.

Ainda não está encarecido o fino do segredo de S. João. Tomemos ao nosso texto: Qui recubuit supra pectus Domini, et dixit: Quis est qui tradet te[16]. – Diz S. João que viu S. Pedro aquele discípulo amado do Senhor, o qual na Ceia esteve reclinado sobre seu peito, e lhe perguntou quem era o traidor. – Reparo. Parece que S. João não havia de dizer que era aquele que perguntou a Cristo quem era o traidor, senão que era aquele a quem Cristo disse quem era o traidor, Fundo a dúvida, porque o intento de S. João era provar que ele era o amado de Cristo, e o amor de Cristo para com S. João não se prova com S. João perguntar o segredo a Cristo, senão com Cristo revelar o segredo a S. João. Pois, se Cristo revelou o segredo a S. João, por que não diz S. João que Cristo lhe revelou o segredo? Por que diz somente que ele lho perguntou: Et dixit: Quis est qui tradet te? – Não se podia subir a mais em matéria de segredo. Foi tão escrupuloso valido em matérias de segredo S. João, que nem quis dizer os segredos que lhe disseram, nem quis dizer que lhe disseram segredos. Que os perguntara, sim; que lhos disseram não. Não dizer um homem o segredo que sabe é muito; mas não dizer que sabe o segredo que sabe é guardar segredo às coisas, mas não dizer que sabe o segredo é guardar segredo ao segredo. A vista de S. Paulo se verá melhor esta fineza de S. João. A S. Paulo arrebatou-o Deus ao terceiro céu, e revelou-lhe grandes segredos: Audivi arcana verba, quae non licet homini loqui (2 Cor. 12, 4): Ouvi segredos que se não podem contar. – Ora, vede quanto vai de S. Paulo a S. João. S. Paulo não disse os segredos que ouvira, mas disse que ouvira segredos: Audivi arcana verba, quae non licet homini loqui. – S. João não disse os segredos que lhe disseram, nem disse que lhe disseram segredos; que os perguntara só disse: Et dixit: Quis est qui tradet te? – S. Paulo guardou segredo às coisas, porque não disse as revelações, mas não guardou segredo ao segredo, porque disse que lhas revelaram. S. João guardou segredo às coisas, porque não disse quem era o traidor, e guardou segredo ao segredo, porque não disse que lhe descobriam quem era. Que muito, logo, que sendo tão secretário S. João, fosse tão valido! Discipulum quem diligebat Jesus. Et dixit: Quis est qui tradet te?

VI – Quarta e última qualidade do Evangelista: ser valido que quis a graça por amor da graça. Por que não quis Deus que ficasse a substância do pão no Sacramento e andasse o pão junto com a graça. O maior abuso e o maior risco que tem a graça dos príncipes, é andarem o pão e a graça juntos. A prova da graça de Jônatas a Davi. O coração do príncipe há-se de estimar pelo rendimento, e não pelas rendas ou pelo rendoso. Por que calou o Evangelista o nome de João? O amor da graça e o amor da glória em Moisés e em S. João. Razões por que, encarecendo S. João o amor que havia entre ele e Cristo, para prova deste amor, diz que adormeceu sobre o peito do Senhor.

A quarta e última boa parte que admiro em S. João é ser valido que quis a graça por amor da graça, Logo me explicarei mais. No Sacramento da Eucaristia deixou Cristo as fontes de sua graça mas é muito de reparar que não quis Cristo que ficasse ali a substância do pão. Fundo o reparo. Menos milagres eram necessários para estar o corpo de Cristo e a substância de pão juntamente, que para estar o corpo de Cristo sem a substância de pão. Pois, se com menos milagres se podia fazer cabalmente o mistério, Deus, que sempre acurta de milagres, por que não quis que ficasse a substância do pão no Sacramento? Eu não vos direi à verdadeira razão, mas dir-vos-ei uma moralidade muito verdadeira. Todos os Sacramentos são instrumentos da graça, e este de mais graça que todos; e não quis Cristo que a graça se desse junta com o pão nem que o pão andasse junto com a graça. O maior abuso e o maior risco que tem a graça dos príncipes, é andarem o pão e a graça juntos. Se no altar se dera o pão a moios, ainda que não fora consagrado, muitas comunhões se haviam de fazer por amor do pão, que se não fazem por amor da graça. Querer a graça por amor da graça é devoção; querer a graça por amor do pão é fome. Por isso há tantos famintos, ou tantos esfaimados da graça. Todos querem ser cheios de graça, mas não de graça vazia: Gratia Dei in me vacua non fuit[17]dizia S. Paulo, em bem mais honrado sentido. A graça há de ser para vos encherdes as obrigações da graça, e não para a graça vos encher a vós, ou vós vos encherdes com ela, Então seria a graça menos custosa a quem a dá, e mais bem avaliada em quem a logra. Por isso Cristo não quis que o pão andasse junto com a graça. Mas, porque os onipotentes do mundo não fazem esta separação como puderam, sem grande milagre, chegou a graça a transubstanciar-se tanto no pão, que ninguém busca já a graça por amor da graça, senão a graça por amor do pão: e pela medida do pão, ou pelo pão sem medida, se avalia a graça. Por que tem hoje mais pão que todos quem ontem não tinha um pão? Porque está mais na graça que todos. Oh! que grosseria tão grande! Mas que bem acudiu Cristo a este inconveniente! No mesmo Sacramento, ainda que não está pão quanto à substância, está pão quanto aos acidentes; porém, a graça não se mede com o pão. Muitas vezes quem comunga uma hóstia muito grande leva pouca graça, e quem comunga uma partícula muito pequena leva muita graça, para que entendam os homens que a graça não se deve medir com o pão.

Oh! que bem governado andaria o mundo, se víssemos pobres de pão os que vemos ricos da graça! Mas só na de Deus é isto: na graça dos homens querem eles que seja de outra maneira. Ninguém teve mais graça com o seu príncipe que Davi com Jônatas, E qual foi a prova dessa graça? O texto sagrado diz: Spoliavit se Jonathas tunica, qua erat indutus, et dedit eam David (1 Reis 18, 4): Despojou-se Jônatas de seus vestidos, e deu-os a Davi. – De sorte que a prova da graça do príncipe são os despojos: spoliavit se. – Notável coisa! Que cuidem os homens que não têm a graça do príncipe, senão quem lhe leva até os vestidos! E que tenha a graça despojos, como se fora guerra! Os despojos são sinais de haver vencido ao inimigo: e que a graça dos amigos dos príncipes tenha os mesmos sinais! Por isso eu temo que este modo de conquistar a graça é fazer guerra: só quem faz guerra quer despojos. Quem conquista a graça pela graça contenta-se com o coração. Veja-se no nosso Evangelista. Conquistou a graça de Cristo; e veio-se a rematar a conquista em quê? Em lhe render Cristo o coração: Recubuit supra pectus ejus. – Muito estimou S. João o coração do seu príncipe mas estimou-o, porque se lhe rendeu, e não porque lhe rendia. O coração do príncipe há-se de estimar pelo rendimento, e não pelas rendas; há-se de estimar nele o rendido, e não o rendoso. Só S. João soube estimar a graça do príncipe, como se há de estimar: a graça por amor da graça; e nada mais.

Três ou quatro vezes fala S. João em si neste Evangelho, e sempre se chama aquele discípulo; nunca se chama João: discipulus ille. Pois, por que se não chama S. João pelo seu nome? Apertemos a dúvida. S. João neste Evangelho fala em Cristo, fala em Pedro, e fala em si: a Cristo chama-lhe Cristo, a Pedro chama-lhe Pedro, mas a si não se chama João. Pois, se a Cristo chama Cristo, e a Pedro Pedro, a João por que lhe não chama João? A razão é porque João quer dizer graça; e amou S. João a graça tanto por amor de si mesma, que nem o nome de graça quis ter com ela. Os que amam a graça dos príncipes mais desinteressadamente, ao menos querem com a graça o nome, querem com a graça as vozes; mas S. João amou a graça do seu príncipe tão finamente desinteressado, que quis a graça ainda sem o nome, quis a graça ainda sem as vozes. Por isso calou o nome de João, porque era nome de graça. A graça por amor da graça, este é o timbre do Evangelista.

O mais fino amor da graça consente consigo outro amor, que é amor à graça por amor da glória. Só S. João passou adiante, e até do amor da glória quis separar o amor da graça. Moisés dizia a Deus: Si inveni gradam in oculis tuis, ostende mini faciem suam (Ex. 33, 13): Senhor, se achei graça em vossos olhos, mostrai-me o vosso rosto – em que consiste a glória. – E S. João, que dizia? vidimus gloriam ejus gloriam quasi unigeniti a Patre, plenum gratiae (Jo. 1, 14): Vimos a sua glória, como glória do Unigênito do Padre, cheio de graça. – De sorte que Moisés amava a graça de Deus como graça de um Deus cheio de glória; e S. João amava a glória de Deus como glória de um Deus cheio de graça. Vai muito de uma consideração à outra, porque amar a graça por amor da glória é querer gozar o prêmio; amar a glória por amor da graça é querer segurar o amor. Qual é a melhor coisa que tem a bem-aventurança? A melhor coisa que tem a bem-aventurança, não é o gozar a glória, é o segurar a graça, porque os bem-aventurados não podem perder a graça de Deus; e isto é o que considerava S. João. Moisés considerava a graça como penhor da glória; S. João considerava a glória como seguro da graça. O amor de Moisés era interessado, porque ordenava a graça à glória, encaminhava o amor a vista. O amor de S. João era fino e puro, porque queria a graça por amor da graça, queria amar sem atenção a ver.

Daqui se entenderá um mistério grande e nunca assaz entendido do nosso Evangelho? Discipulum quem diligebat, qui et recubuit in coena supra pectus Domini[18]. – Encarece S. João o amor que havia entre ele e Cristo, e para prova desse amor diz que adormeceu sobre o peito do Senhor. Boa prova de amor, por certo! Amar é desvelo, adormecer é descuido. Pois, como pode ser, que o descuido seja prova de desvelo, e que o adormecer seja prova do amar? Adormeceu, logo amou: é boa conseqüência esta? Sim, porque S. João adormeceu com o peito reclinado sobre o peito de Cristo, e não pode haver mais fino nem mais provado amor que aquele que entrega o coração e fecha os olhos. Entregar o coração com os olhos abertos é querer a vista por prêmio do amor; entregar o coração com os olhos fechados é não querer no amor nem o prêmio da vista. Donde se infere claramente que teve mais perfeita circunstância o amor de S. João que o amor dos bem-aventurados, porque os bem-aventurados amam com os olhos abertos, S. João amou com os olhos fechados. Os bem-aventurados amam com as satisfações da vista, S. João ama sem os interesses de ver. Se é boa a minha conseqüência, digam-no os mesmos serafins da glória. Viu Isaías os dois serafins que assistem ao trono de Deus, e diz que com duas asas voavam, e com outras duas cobriam o rosto: Duabus volabant, et duabus velabant faciem (Is. 6, 2). – Pois, se todos os anjos estão sempre vendo a Deus como cobriam estes serafins os olhos? É que como os serafins no céu são por antonomásia os amantes, queriam, ao menos na representação, oferecer a Deus um amor mais fino que o dos outros espíritos bem-aventurados. E amor mais fino que o amor dos bem-aventurados é abrir o coração e fechar os olhos: Duabus volabant – eis aí o coração aberto: Duabus velabant – eis aí os olhos fechados. Os outros bem-aventurados amam com o coração aberto e com os olhos abertos; mas os serafins, que os vencem no amor, amam com o coração aberto e com os olhos fechados. Bem assim como S. João, de quem aprenderam esta fineza: Discipulum quem diligebat, qui recubuit supra pectus Domini.

VII – O maior encarecimento que se pode dizer de um valido: João fez muitas coisas grandes sem Cristo visivelmente presente, Cristo não fez as maiores coisas sem João. Como se valia o Príncipe dos apóstolos de S. João, e como se vale dele o Príncipe D. Teodósio.

E como em S. João havia tantas qualidades de amante e tão grandes partes de valido, que muito que o amasse tanto o Príncipe da glória, Cristo, que muito que o amasse tanto o Príncipe da Igreja, Pedro! Para que acabemos por onde começamos, o maior encarecimento que se pode dizer de um valido é o que disse Cúrcio de Epaminondas, privado de Alexandre Magno: Multa ille sine rege prospere, rex sine illo mihil magnae rei gessit: Foi tão grande homem Epaminondas que, sendo valido de Alexandre Magno, ele fez muito grandes coisas sem Alexandre; Alexandre nenhuma coisa grande fez sem ele. – Outro tanto podemos dizer de S. João, com toda a propriedade: sendo valido, não de Alexandre, mas do mesmo Cristo, João fez muitas coisas grandes sem Cristo visivelmente presente; Cristo não fez as maiores coisas sem João. S. João sem Cristo venceu os tormentos de Roma, sem Cristo bebeu os venenos de Éfeso, sem Cristo padeceu os desterros de Patmos, sem Cristo converteu e reduziu a Cristo a Ásia, sem Cristo ensinou a todo o mundo e propagou a lei do amor de Cristo. Grandes coisas fez S. João sem Cristo: Multa ille sine rege prospere. – Pelo contrário, Cristo sem São João apenas fez coisa grande. Fez Cristo o primeiro milagre nas bodas, e aí estava S. João; ressuscitou Cristo a filha do Príncipe da Sinagoga, e levou consigo a S. João: instituiu Cristo o Santíssimo Sacramento da Eucaristia, que foi a maior de suas maravilhas, e tinha a S. João sobre o peito; transfigurou-se Cristo no Tabor, e S. João assistiu naquela glória; derramou sangue Cristo no Horto, e S. João acompanhou-o naquela pena; enfim, remiu Cristo o mundo morrendo na cruz, e não teve outrem a seu lado, senão S. João: Rex sine illo nihil magnae rei gessit.

E se isto sucedeu ao Príncipe da glória, que muito que ao Príncipe da Igreja acontecesse o mesmo? Arrojou-se S. Pedro ao mar para buscar a seu Mestre, mas S. João foi o que lhe mostrou a Cristo. Quis saber S. Pedro na Ceia quem era o traidor, mas S, João foi o que perguntou; atreveu-se S. Pedro a entrar no átrio do pontífice, mas S. João foi o que o introduziu; resolveu-se S. Pedro a reconhecer a sepultura de Cristo, mas S. João foi o que o guiou. De maneira que o Príncipe da glória e o Príncipe da Igreja, ambos se valiam de S. João, mas com esta diferença: o Príncipe da glória valia-se de S. João como de valido, o Príncipe da Igreja valia-se de S. João como de valedor. E o nosso Príncipe, como? Por ambos os títulos. Tem V. A. senhor, em S. João, valido e valedor: valido para a devoção, valedor para a necessidade. Restituiu Deus a V. A é a seus reinos em tempo que é necessário defendê-los com a espada na mão. Deu a fortuna a V A. por competidor um príncipe Baltasar, tão poderoso como o de Babilônia. Mas sabida coisa é que bastaram três dedos com uma pena para fazer tremer a Baltasar. Oh! que acomodada empresa para o nosso príncipe! Três dedos de S. João com uma pena e uma letra que diga: Contra Balthasarem satis. – Com amor e entendimento tudo se acaba. Esta pena é da, fênix do amor, esta pena é da águia dos entendimentos. Com esta pena se escreverá a sentença de uma demanda tão justa; com esta pena se confirmarão as escrituras de nossa conservação; com esta pena se farão autênticos os vaticínios, que tão gloriosamente falam da coroa de V. A. neste feliz reinado. Finalmente – que finalmente aqui vem a parar tudo – com esta pena, que é de um evangelista, que tem por nome graça – se firmarão a V. A. depois de cumpridíssimos anos, os decretos da glória.

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[1] Voltando Pedro, viu que o seguia aquele discípulo que Jesus amava (Jo. 21, 20).
[2] Senhor, e este que (ibid. 21 )?
[3] Eu quero que ele fique assim até que eu venha; que tens tu com isso (ibid. 22)?
[4] Mulher, eis aí teu filho (Jo. 19, 26).
[5] Este cálix é o Novo Testamento em meu sangue (Lc. 22, 20).
[6] Este é o meu corpo (ibid. 19).
[7] Saiu sangue (Jo. 19, 34).
[8] Abriu-lhe o lado (ibidem).
[9] E nós sabemos que é verdadeiro o seu testemunho (Jo. 21, 24).
[10]A tua estatura é assemelhada a uma palmeira (Cânt. 7, 7).
[11]De claridade em claridade (2 Cor. 3, 18).
[12] José, filho que cresce, filho que se aumenta (Gên. 49, 22).
[13] Ora, o rei cuidava em o estabelecer sobre todo o reino (Dan. 6, 4).
[14] Motivo porque os príncipes e os sátrapas buscavam ocasião de o acusar em coisa que tocasse com o rei. (ibidem.).
[15] Dize que estes meus dois filhos se assentem no teu reino, um à tua direita e outro à tua esquerda (Mi. 20, 21).
[16] Que estivera reclinado sobre o peito do Senhor, e lhe perguntara: Senhor, quem é o que te há de entregar (Jo. 21, 20)?
[17] A graça de Deus não tem sido vã em mim (1 Cor. 15, 10).
[18] Aquele discípulo que Jesus amava, que ao tempo da ceia estivera até reclinado sobre o peito do Senhor (Jo. 21, 20).

Fonte: https://www.literaturabrasileira.ufsc.br/documentos/?action=download&id=49865