Sermão da Segunda Dominga do Advento

Joannes in vinculis[1]

I – O outro juízo e o outro mundo. Quem pode duvidar da imortalidade da outra vida se vê nesta a maldade de Herodes levantada ao trono, e a inocência do Batista posta em prisões? Matéria do sermão: O juízo dos homens é mais rigoroso e estreito que o juízo de Deus.

Que há de haver outro juízo e outro mundo nos ensinou a Igreja Católica o domingo passado com a fé; o mesmo artigo – se me não engano – nos prova hoje com a razão. Diz o evangelista S. Mateus que o Batista, aquele grande santo, aquele grande precursor de Cristo, por mandado de Herodes, aquele mau homem e aquele mau rei, está hoje em prisões: Joannes in vinculis. Joannes in vinculis! O Batista em prisões! Logo há de haver outro juízo e outro mundo. Provo a conseqüência. Porque, se há Deus, é justo; se é justo, há de dar prêmio a bons, e castigo a maus: no juízo deste mundo vemos os maus, como Herodes, levantados, os bons, como o Batista, oprimidos: segue-se logo que há de haver outro juízo e outro mundo: outro juízo, em que se emendem estas desigualdades e injustiças; outro mundo, em que os bons tenham o prêmio de seus merecimentos, e os maus castigo de suas culpas. Oh! que altos são os segredos da providência divina! Os nossos próprios vícios faz que sejam testemunhas de nossa fé. Um dos principais fundamentos de nossa fé é a imortalidade das almas, e a nossa injustiça é a mais evidente prova da nossa imortalidade. Se os homens não foram injustos, pudera-se duvidar se eram imortais, mas permite Deus que haja injustiça no mundo para que a inocência tenha coroa e a imortalidade prova. Quem pode duvidar da imortalidade da outra vida, se vê nesta a maldade de Herodes levantada ao trono e a inocência do Batista posta em prisões: Joannes in vinculis?

Mas, assim como as prisões do Batista confirmam esta parte da doutrina que preguei no sermão passado, assim também me obrigam as mesmas prisões a retratar outra parte da mesma doutrina. Preguei que havia de haver um juízo final, em que Deus nos há de julgar a todos. Ainda o digo assim. Disse mais que este juízo de Deus havia de ser o mais rigoroso, o mais estreito e o mais terrível. Ainda o torno a dizer, porque verdadeiramente assim é. Porém, hoje, por muitas razões vos parecerá que ainda há outro juízo mais terrível, ainda há outro juízo mais rigoroso, ainda há outro juízo mais estreito que o juízo de Deus. E que juízo é este? É o juízo que pôs o Batista em prisões, o juízo dos homens: Joannes in vinculis! O Batista em prisões! – Logo, o juízo dos homens é muito mais temeroso que o juízo de Deus. Ainda esta conseqüência é mais clara que a primeira. No juízo de Deus até um ladrão se salva: no juízo dos homens até S. João Batista se condena: Joannes in vinculis. E juízo em que até a inocência do Batista sai condenada, este é o tremendo juízo. E esta será a matéria do sermão. Que o juízo dos homens é mais temeroso que o juízo de Deus.

II – O temor do juízo de Deus e o temor do juízo dos homens nos salmos de Davi. Quando o juízo de Deus se quer fazer respeitar e temer chama-se juízo de homem, como em S. Mateus.

Quem melhor que todos entendeu esta grande verdade ou novidade que tenho proposto foi o real profeta Davi. No Salmo cento e quarenta e dois diz Davi a Deus: Non intres in judicium cum servo tuo (Sal 142,2): Senhor, não entreis em juízo com vosso servo. – No Salmo quarenta e dois diz o mesmo Davi: Judica me, Deus, et discerne causam meam (Sal. 42, 1): Senhor, julgai-me vós, e decidi a minha causa. – Notável encontro de afetos: se Davi no primeiro salmo diz a Deus: -Senhor, não me julgueis – como o mesmo Davi no segundo salmo diz a Deus: – Senhor, julgai-me? – Uma vez julgai-me, outra vez não me julgueis? Que variedade, é esta? Do que acrescenta Davi se verá a razão da diferença: Judica me, Deus, et discerne causam meam de gente non santa, ab homine iníquo eripe me[2]. Julgai-me vós, Senhor, livrai-me de me julgarem os homens. – Aqui está a diferença. No primeiro caso considerava Davi o juízo de Deus absolutamente, e por isso pedia a Deus que o não julgasse, porque o juízo de Deus verdadeiramente é muito para temer. No segundo caso considerava Davi o juízo de Deus por comparação ao juízo dos homens, e por isso queria que Deus o julgasse, porque, comparado o rigor do juízo de Deus com os rigores dos juízos dos homens, muito mais rigoroso e muito mais tremendo é o juízo dos homens que o juízo de Deus. No primeiro caso tinha Davi diante de si o temor do juízo de Deus. No segundo caso tinha, de uma parte, o temor do juízo de Deus, e da outra parte o temor do juízo dos homens; e posto entre temor e temor, achou que tinha mais que temer nos juízos dos homens que no juízo de Deus. Agora entendereis o mistério daquelas palavras que deixamos de ponderar no Evangelho passado: Tunc videbunt Filium hominis venientem in nubibus caeli (Mt. 24, 30): Então verão o Filho do homem que virá nas nuvens do céu. – Cristo é homem e é Deus: pois, porque não diz virá o Filho de Deus, senão virá o Filho do homem? Porque o imenso intento de Cristo era fazer-nos o seu juízo temeroso e horrível, e muito mais temeroso e muito mais horrível ficava representado como juízo de homem que como juízo de Deus. É tanto mais temeroso o juízo dos homens que o juízo de Deus, que quando este se quer fazer respeitar e temer, quando se quer vestir de horror e assombro, quando se quer mostrar medonho e horrendo, chama-se juízo de homem: não achou outro nome mais fero, não achou outro nome mais atroz, não achou outro nome mais tremendo: Tunc videbunt Filiam hominis.

Temos provado o assunto em comum: desçamos agora às razões particulares deles, que são muito várias, muito sólidas e de muita doutrina, e pode ser que vos pareçam tão grandes e tão novas como o mesmo assunto.

III – Primeira razão de o juízo dos homens ser mais terrível que o juízo de Deus: Deus julga com o entendimento, os homens julgam com a vontade. Diferença entre vontade e entendimento. Por que razão dá o Padre Eterno o ofício de julgar ao Filho, e não ao Espírito Santo? O julgamento da luz no juízo de Deus e no juízo dos homens. Se Pilatos não achou causa em Cristo, como lhe puseram a causa escrita na cruz? Quanto vai de ser julgado com o entendimento ou com a vontade.

Primeiramente, o juízo dos homens é mais temeroso que o juízo de Deus porque Deus julga com o entendimento, os homens julgam com a vontade. Quando entre o entendimento de Deus e a vontade dos homens não houvera aquela infinita distância, bastava só a diferença que há entre vontade e entendimento para ser grande a desigualdade destes juízos. Quem julga com o entendimento pode julgar bem e pode julgar mal: quem julga com a vontade nunca pode julgar bem. A razão é muito clara. Porque quem julga com o entendimento entende mal, julga mal, se entende bem, julga bem. Porém, quem julga com a vontade, ou queira mal ou queira bem, sempre julga mal: se quer mal, julga como apaixonado; se quer bem, julga como cego. Ou cegueira, ou paixão: vede como julgará a vontade com tais adjuntos. No juízo divino não é assim: julga só o entendimento, e tal entendimento. Declarando o mesmo Cristo, Senhor nosso, os seus poderes supremos de juiz universal do mundo, diz que o pai deu todo o juízo ao Filho. Pater omne judicium dedit Filio (Jo. 5, 22). Pergunto: e por que o não deu o Padre ao Espírito Santo? Para um juízo perfeito requerem-se três coisas: ciência para examinar, justiça para julgar, poder para executar. Pois, se a pessoa do Filho e a do Espírito Santo têm a mesma sabedoria, a mesma justiça, a mesma onipotência, por que razão dá o Padre Eterno o ofício de julgar ao Filho, e não ao Espírito Santo? A razão moral e altíssima é esta. Porque o Espírito Santo procede por ato de vontade, e o Filho é gerado por ato de entendimento, e o julgar – ainda que seja Deus que julga – pertence ao entendimento, e não à vontade. Ao Espírito Santo, que procede por vontade, deu-lhe o Padre o despacho das mercês: Dator munerum; ao Filho que se produz por entendimento, deu-lhe o juízo das culpas: Omne judicium dedit Filio– porque o dar, para que se agradeça, há de proceder da vontade, e o condenar, para que se não erre, há-o de regular o entendimento. Ainda não está dito: ouvi uma coisa grande. Quando o Padre ab aeterno gera o Filho, gera-o por puro ato de entendimento, sem intervenção ainda da vontade; quando o Padre e o Filho produzem o Espírito Santo, produzem-no por ato da vontade, mas já com suposição do entendimento. Pois, por isso o dar se atribui à Terceira Pessoa, e o julgar à Segunda, porque o dar há de ser da vontade, mas com suposição de entendimento; o julgar há de ser só do entendimento, sem intervenção nenhuma da vontade. Eis aqui um ditame da justiça punitiva e distributiva. O condenar só por entendimento, sem vontade; o dar mui por vontade, mas com entendimento. E seria. bem que o dar fosse por entendimento, e que no condenar entrasse também a vontade? Não porque daí nasceria o que acontece algumas vezes, que nem as mercês obrigam nem os castigos emendam. Condenar com vontade é passar além de justo: dar sem vontade, a quem de liberal. Ao primeiro, vai escrupulosa a justiça; no segundo, fica desairosa a liberalidade.

De maneira que em Deus a vontade e o entendimento têm repartidos os ofícios: o entendimento, julga, a vontade dá. Nos homens não passa assim. O entendimento está deposto de seu ofício, a vontade serve a ambos: a vontade é a que dá, e a vontade é a que julga. A queixa de ser a vontade a que dá deixemo-la aos cobiçosos e aos pretendentes; a sem razão de ser a vontade a que julga, é a que faz o juízo humano mais formidável que o divino. Veio uma vez a luz ser julgada no juízo dos homens, e vinha ela muito confiada, porque já antigamente tinha aparecido diante do juízo de Deus, e saiu dele com grandes aprovações: Fiat lux. Et facta est lux. Et vidit Deus lucem quod esset bona[3]. Com estas abonações do juízo de Deus entrou a luz no juízo dos homens. E como vos parece que sairia deles? Disse-o Cristo no capítulo terceiro de S. João e foi necessário que o mesmo Cristo o dissesse, para que nós o crêssemos: Venit lux in mundum, et dilexerunt homines magis tenebras quam lucem (Jo. 3, 19): Veio a luz ao mundo, e os homens antepuseram as trevas à luz. – Há tal sem-razão! Há tal cegueira! Há tal maldade! Quem houvera de crer de juízos racionais uma sentença tão bárbara como esta, se o não afirmara o mesmo Cristo? Há coisa mais formosa, há coisa mais útil, há coisa mais necessária no mundo que a luz? Pelo contrário, há coisa mais feia há coisa mais horrenda, há coisa mais inútil, há coisa mais cheia de inconvenientes que as trevas? Não são as trevas a capa dos latrocínios, terceiras dos adultérios, as cúmplices e as consentidoras dos menores insultos, das maiores enormidades que se cometem no mundo? Pois, como é possível que homens com olhos e com entendimento antepusessem as trevas à luz? As mesmas palavras de Cristo deram a razão: Dilexerunt homines magis tenebras, quam lucem. – Dilexerunt: julgaram com a vontade, e não com o entendimento, e onde a vontade é juiz, tais como estas são as sentenças. Que havia de fazer uma cega, senão condenar a luz? Dilexerunt magis: amaram mais. Eis aqui todo o juízo dos homens: amaram mais ou amaram menos. Se amaram, ainda que seja as trevas, as trevas hão de ser melhores que a luz; se não amaram, ainda que seja a luz, a luz há de ser pior que as trevas. Oh! quantas vezes renova o mundo esta sentença! Quantas vezes vêm a juízo a luz e as trevas, e sai condenada a luz! Vede que segurança pode ter o merecimento, ou que imunidade a inocência em tal juízo! O sumo merecimento e a suma inocência o diga.

Presentado Cristo ante Pilatos, tirou ele as testemunhas, examinou as acusações, e declarou a Cristo por inocente: Ego nullam causam invenio in homine isto (Lc. 23, 14): Eu nenhuma causa acho neste homem. – Daí a pouco levaram a Cristo ao calvário, pregaram-no em uma cruz: Et imposuerunt super caput ejus causam ipsius scriptam (Mt. 27, 37): E puseram nela – diz o texto – a sua causa escrita. – Pois, se Pilatos não achou causa em Cristo: Ego nullam causam invenio – como lhe puseram a causa escrita na cruz: Imposuerunt causam ejus scriptam? Aqui vereis quanto vai de ser julgado com o entendimento ou com a vontade. Depois que Pilatos declarou a inocência de Cristo, devolveu as acusações ao juízo da vontade dos príncipes dos sacerdotes: Jesum vero tradidit voluntati eorum[4] – e como Cristo foi julgado no juízo da vontade, logo lhe acharam causa para o crucificar. No juízo do entendimento, ainda que era entendimento de Pilatos, não se achou causa a Cristo: no juízo da vontade, ainda que era o julgado Cristo, achou-se-lhe causa. E por que acha mais a vontade, sendo cega, que o entendimento, sendo lince? Porque o entendimento acha o que há: a vontade acha o que quer. Conforme a vontade quer, assim acha. Se a vontade quer favorecer, achará merecimento em Judas; se a vontade quer condenar, achará culpas em Cristo. Que culpas tinha o Batista contra Herodes para o meter em prisões? Mas tinha contra si a sua vontade, que era a maior culpa de todas. Bem entendia Herodes que era inocente o Batista, mas não quero ir por aqui: ou Herodes entendia a que era inocente o Batista, ou não o entendia; se o não entendia, vede a cegueira da vontade, que o fazia entender contra a razão; se o entendia, vede a tirania da vontade, que o fazia obrar contra o que entendia. De uma maneira ou doutra, sempre o Batista tinha certas as prisões: Joannes in vinculis. Segunda razão de o juízo dos homens ser mais terrível que o juízo de Deus: no juízo de Deus geralmente basta só o testemunho da própria consciência; no juízo dos homens a própria consciência não vale testemunha. O coração no] juízo de Cristo e no juízo de José. Quem leva a calúnia nas obras, que importa que tenha as defesas no coração?

A segunda razão de o juízo dos homens ser mais terrível que o juízo de Deus, é porque no juízo de Deus geralmente basta só o testemunho da própria consciência: no juízo dos homens a própria consciência não vale testemunha. Vede que grande é a fidalguia do juízo de Deus. Apareceis diante do tribunal divino: acusam-vos os homens, acusam-vos os anjos, acusam-vos os demônios, acusam-vos vossas próprias obras, acusam-vos o céu, a terra, o mundo todo: se a vossa consciência vos não acusa, estai-vos rindo de todos. No juízo dos homens não é assim. Tereis a consciência mais inocente que a de Abel, mais pura que a de José, mais justificada que a de S. João Batista; mas, se tiverdes contra vós um Caim invejoso, um Putífar mal informado, ou um Herodes injusto, há de prevalecer a inveja contra a inocência, a calúnia contra a verdade, a tirania contra a justiça, e por mais que vos esteja saltando e bradando dentro no peito a consciência, não vos hão de valer seus clamores. Vede que comparação tem esse rigor com o do juízo de Deus. Acho eu muita graça aos pregadores que para nos representarem a terribilidade do juízo divino, trazem aquela autoridade ou oráculo de Deus a Samuel: Homo videt ea quae parent, Dominus autem intuetur cor (1 Rs. 16, 7): Os homens vêem só os exteriores, porém Deus penetra os corações. – Antes, por isso mesmo é muito mais para temer o juízo dos homens: se os homens conheceram os corações, se aos homens se lhes pudera dar com o coração na cara, então não havia que temer seus juízos. Que maior descanso e que maior segurança que trazer um homem sempre consigo no seu coração a sua defesa? – Acusais-me, condenais-me, infamais-me, quereis mil testemunhas, pois ei-las aqui – e mostra-lhes o coração: Bona conscientia mille testes[5]. Sabeis vós para quem não era boa invenção a de os homens verem os corações? Para os traidores, para os hipócritas, para os lisonjeiros, para os mentirosos, e para outra gente desta ralé; mas para os zelosos, para os verdadeiros, para os honrados, para os homens de bem, ó que grande costume, ó que grande felicidade fora! Mas, como para a consciência no juízo humano não vale testemunha, quem leva a calúnia nas obras que importa que tenha as defesas no coração?

A maior defesa e justificação que Cristo teve da sua inocência, foi o depoimento de Pilatos, quando, pedindo água, lavou as mãos, e pronunciou que ele era inocente no sangue daquele justo: Accepta aqua, lavit manus coram populo, dicens: Innocens ego sum a sanguine justi hujus (Mt. 27, 24). Reparou nesta água e neste sangue S. Cirilo Jerosolimitano, e disse, com opinião singular, que aquela água e aquele sangue que saiu do lado de Cristo na cruz, faziam alusão a esta água e a este sangue: Erant haec duo de latere, judicanti aqua, clamantibus vero sanguis. A água significava a água com que Pilatos lavou as mãos: Accepta aqua, lavit manus; o sangue significava o sangue que o mesmo Pilatos declarou por justo, e os acusadores tomaram sobre si: Sanguis ejus super nos (Mt. 27, 25). De maneira que, assim como cá o réu ou o homiziado traz no seio os papéis de sua defesa, assim Cristo meteu no coração aquela água e aquele sangue, em que consistiam os testemunhos autênticos de sua inocência. Ora, vede agora sair a Cristo do pretório de Pilatos, acompanhado de grande tropel de justiças, e vereis, na representação daquela tragédia, o que cada dia acontece no mundo. O inocente caminhava para o suplício, o pregão dizia as culpas, o coração levava as defesas. As culpas do pregão eram falsas, as defesas do coração eram verdadeiras; mas, como o coração no mundo não vale testemunha, morreu crucificada a inocência. Quantos treslados deste processo se forma cada dia no juízo humano! Por isso os inocentes padecem e os culpados triunfam. Quem mais inocente que José, quem mais culpado que a egípcia? Mas a culpada mostrava os indícios na capa, e o inocente tinha as defesas no coração; por isso ela triunfa e ele padece. Morre, enfim, Cristo na cruz, abre-lhe uma lança o peito, fica o coração patente, e então saíram em público as suas defesas: Exivit sanguis et aqua[6]. Pois agora, depois de Cristo morto? Sim, agora, que essa é a diferença que há de um juízo a outro juízo. No juízo depois da morte, que é o juízo de Deus, então valem as defesas do coração: no juízo desta vida, que é o juízo dos homens, nenhuma valia tem. Oh! desgraçada sorte a do coração humano! Poder ser julgado dos homens para a culpa, e não poder ser visto dos homens para a defesa! Se assim é, que muito se não defende a maior inocência: Joannes in vinculis?

V – Terceira razão: no juízo de Deus as nossas boas obras defendem-nos: no juízo dos homens o maior inimigo que temos são as nossas boas obras. Os juízos de Abel e os Juízos de Davi. Por que Davi queria que o julgasse Deus, e não os homens? A estranha resposta de Cristo aos discípulos do Batista. A ofensa dos pecados e a ofensa da virtude. É mais seguro ir com pecados ao juízo de Deus, que com milagres ao juízo dos homens. As cinco culpas do Batista.

O terceiro motivo de maior temor que há no juízo dos homens, comparado com o de Deus, é que no juízo de Deus as nossas boas obras defende-nos, no juízo dos homens o maior inimigo que temos são as nossas boas obras. Demos revista a alguns exemplares do juízo humano, e constar-nos-á desta verdade. O primeiro condenado que houve no juízo dos homens foi Abel. E por que culpas? Por que o seu sacrifício agradou mais a Deus do que o de Caim. Há tal crime como este? Se Abel fora como Caim, ele tivera os seus dias mais bem logrados. Não há maior delito no mundo que o ser melhor. Ao menos eu, a quem amara das telhas abaixo, antes lhe desejara um grande delito que um grande merecimento. Um grande delito muitas vezes achou piedade; um grande merecimento nunca lhe faltou a inveja. Bem se vê hoje no mundo; os delitos com carta de seguro, os merecimentos homiziados. Vamos a outro exemplar. Saul condenou tantas vezes a morte a Davi, e chegou a lhe tirar ele mesmo às lançadas. E por que crimes? Por que se cantava pelas ruas de Jerusalém que Davi era mais valente que Saul: Percussit Saul mille, David autem decem millia[7]. Este prêmio tirou Davi de matar um grande gigante com uma funda. Mais venturosos haviam de ser os tiros se não deram tamanho estalo. Ao gigante derrubou-o a pedra, e a Davi o sonido. Eis aqui por que Davi queria que o julgasse Deus, e não os homens: no juízo de Deus perdoam-se os pecados como fraquezas; no juízo dos homens castigam-se as valentias como pecados. Graças a Deus que já nos vamos emendando deste. Vamos ao terceiro exemplar. Mas para que é ir mais longe, se temos o maior exemplo de todos no Evangelho?

Mandou o Batista do cárcere dois discípulos seus que fossem perguntar a Cristo se era ele o Messias: Tu es, qui venturus es, na alium expectamus[8]? Suspendeu o Senhor a resposta, porque havia ao redor grande multidão de enfermos que esperavam, e, depois de os sarar a todos milagrosamente, voltou-se para os embaixadores do Batista, e disse-lhes assim: Ite, renuntiate Joanni quae audistis, et vidistis (Mt. 11, 4): Ide, dizei a João o que ouvistes e vistes. – Caeci vident, claudi ambulant, mortui resurgunt: Os cegos vêem, os mancos andam, os mortos ressuscitam. Et beatus qui scandalizatus non fuerit in me (ibid. 5): E bem-aventurado o que se não escandalizar em mim. – Aqui reparo: Et beatus qui scandalizatus non fuerit: E bem-aventurado o que não se escandalizar? – E que tinha feito Cristo para se escandalizarem os homens? Se Cristo arrancara olhos, e fizera cegos, se cortara pés, e fizera mancos, se tirara vidas, matara homens, então tinham razão de se escandalizar de Cristo; mas, por sarar, por remediar, por ressuscitar? Sim. Porque não há coisa de que mais se escandalizem os homens, que de haver quem faça milagres. Antigamente escandalizavam os pecados e edificavam as virtudes: hoje as virtudes escandalizam, e queira Deus que os pecados não edifiquem. Deus vos livre de vossas boas obras, e muito mais das grandes: os pecados sofremo-los facilmente; os milagres não os podemos sofrer. E por quê? Porque os pecados são ofensas de Deus, e os milagres são ofensa nossa. Bem seguro eu que havia mais de quatro enfermos em Jerusalém que não quiseram ser sarados, só por que Cristo não fosse o milagroso. Não atirara Saul a lança contra Davi, que lhe tirara a enfermidade, se lhe não doera mais o milagre do que lhe agradava a saúde.

Oh! quanto mais seguro é ir com pecados ao juízo de Deus, que com milagres ao juízo dos homens! Em Deus há misericórdia, na inveja há perdão. Que levou a Madalena ao juízo de Cristo? Pecados. E como saiu? Perdoada: Remittuntur ei peccata multa[9]. Que levou Cristo ao juízo dos homens? Milagres. E como saiu? Condenado: Quia hic honro multa signa facit[10]. Com que escaparão os homens do juízo dos homens, se Deus com milagres não escapa? Ainda dizia mais o processo de Cristo: Ecce totus mundus post eum vadit (Jo. 12, 19): Que era tal, que ia todo o mundo após ele. – Se disseram que ele ia após o mundo, condenassem-no muito embora: mas, porque o mundo ia após ele! Eis aí quais são os crimes do juízo dos homens. Se fordes após o mundo, ninguém vos há de condenar: se o mundo for após vós, não vos há de valer sagrado. Que disse hoje Cristo do Batista? Que se despovoam as cidades para o buscar, para o ver: Quid existis in desertum videre[11]? Que não era cana verde que se movesse com o vento; Arundinem vento agitatam[12]? Que não era homem da corte, que vestisse sedas, senão cilícios: Hominem mollibus vestitum[13]? Que era mais que profeta: Plus quam prophetam. Finalmente, que era anjo: Ecce ego mitto angelum meum[14]. – Ah! sim, meu santo precursor, e vós tendes cinco culpas tão grandes como estas, e tão provadas! Mau pleito levais ao juízo dos homens: a vós vos tirarão dos olhos e dos ouvidos do mundo, a vós vos fecharão em um cárcere: Joannes in vinculis.

VI – Quarta razão: Deus julga o que conhece: os homens julgam o que não conhecem. O juízo dos homens e os juízos dos demônios. Os julgamentos de Ana, por Eli, de Naamão Siro, por Ezequias, e de Amã, por Assuero. Os homens julgam e condenam não só pelo que nunca nos passou pelo pensamento, senão também pelo que nunca lhes passou pelo pensamento a eles. O julgamento dos irmãos de José. Os juízos de Nabot, em Samaria, e de Susana, em Babilônia.

A quarta consideração de ser mais temeroso o juízo dos homens que o juízo de Deus, é porque Deus julga o que conhece, os homens julgam o que não conhecem. Um dos maiores rigores do dia do Juízo, é que os mesmos demônios hão de ser ali nossos acusadores; mas eu antes me quisera ver acusado de demônios que ver-me julgado de homens. O demônio no dia do juízo há-nos de acusar de todas as nossas obras, há-nos de acusar de todas as nossas palavras, mas, em chegando aos pensamentos há de tapar aboca o demônio, porque os pecados de pensamento são reservados só a Deus. Eis aqui até onde chega o demônio quando acusa, e o homem quando julga. Julga-vos as obras, julga-vos as palavras e até o mais íntimo pensamento vos julga e vos condena. Há tal temeridade de juízo? Que julgue o homem as obras que vê, que julgue as palavras que ouve, que seja embora; mas que queira julgar os pensamentos, onde não chega com algum sentido do corpo, nem com alguma potência da alma! Esta é uma das mais graves razões por que o juízo dos homens é mais para temer que o juízo de Deus: Deus julga os pensamentos, mas conhece-os; o homem não pode conhecer pensamentos, e julga-os.

Dir-me-eis que os homens julgam os pensamentos pelas obras, e que pelas obras, que se vêem, bem se podem julgar os pensamentos, que se não vêem. Se assim fora não eram tanto para temer os juízos dos homens; mas vede quanto ao contrário das obras julgam ainda os melhores homens os pensamentos. Estava Ana, mãe de Samuel, orando no Templo com os afetos e efeitos que costumam os afligidos: e que juízo vos parece que faria o sumo sacerdote Heli desta oração? Julgou que era intemperança, e que os movimentos que fazia Ana com a boca, tinham a causa na mesma boca, e não no coração lastimado donde saíam: Existimavit illam temulentam, et ait: Usquequo ebria eris[15]? Veio Naamão Siro à terra de Judéia, para que o profeta Eliseu o curasse da lepra: e que juízo faria el-rei Ezequias desta jornada de Naamão? Julgou que era mandado cautelosamente por seu rei, para que, tornando-se sem a saúde que viera buscar, tomasse daqui ocasião de queixa, e da queixa passasse a rompimento de guerra, e lhe viesse conquistar o reino: Animadvertite, et videte quod occasiones quaerat adversum me[16]. Lançou-se Amã aos pés da rainha Ester, pedindo que lhe valesse contra a indignação de el-rei, de cuja graça se via tão inopinadamente caído: e que juízo faria Assuero desta ação de Amã? Julgou-a tanto contra toda a razão, e contra o decoro que a si mesmo se devia, que em nenhum pensamento pode caber o pensamento que lhe veio, nem há palavras com que se possa explicar sem dissonância: Etiam reginam vult opprimere, me praesente, in domo mea[17]. Eis aqui como interpretam os homens as ações, e como julgam por elas os pensamentos. Ana orava a Deus, e a sua oração foi julgada por intemperança; Naamão buscava a saúde, e a sua confiança foi julgada por hostilidade; Amã pedia perdão, e o seu arrependimento foi julgado por sacrilégio. Nem chorar o arrependido, nem curar-se o enfermo, nem orar o necessitado está isento de ser mal julgado dos homens. Ana pedia o remédio de sua esterilidade a Deus, Naamão pedia o remédio de sua enfermidade a Eliseu, Amã pedia o remédio de sua infelicidade a Ester, e nem em Ester o ser rainha, nem em Eliseu o ser santo, nem o mesmo Deus o ser Deus lhes valeu aos miseráveis para que escapassem. Nem com os reis, nem com os santos, nem com Deus se pode tratar sem ser mal julgados dos homens. Tão injusto é o juízo humano em interpretar intenções, tão atrevido e tão temerário é em julgar pelas obras os pensamentos!

Julgar mal uma obra boa, grande maldade é; mas julgar, ou bem ou mal, um pensamento que não pode ser conhecido ainda é maior tirania. Se não conheces nem podes conhecer o pensamento, como te atreves, homem, a julgá-lo? É tão reservado a só Deus o juízo dos pensamentos, que nem de toda a Igreja Católica fiou Deus o julgar um pensamento: Ecclesia non judicat de interno. E o que Deus não fia dos pontífices, o que não fia dos Concílios, o que não fia de toda a Igreja, que é julgar meus pensamentos, isso faz o juízo de qualquer homem. Parece-vos muito isto? Parece-vos muito que os homens julguem pensamentos, e que condenem só por pensamentos? Ora, aguardai, que ainda não disse nada. E quantas vezes vos julgaram e condenaram os homens pelo que nunca vos passou pelo pensamento? Eis aqui outra maior diferença dos dois juízos: Deus julga e condena por pensamentos, os homens julgam e condenam pelo que nunca passou pelo pensamento. Passou-lhe alguma hora pelo pensamento a José atrever-se à honra de seu senhor? Passou-lhe alguma hora pelo pensamento a Daniel querer maquinar contra o império dos assírios? Passou-lhe alguma hora pelo pensamento a Cristo-que também nisto quis dar-nos exemplo – querer-se fazer rei temporal, de que tantas vezes fugira? E, contudo, José, por se atrever à honra de seu senhor, está em um cárcere; Daniel, por maquinar contra o império, está no lago dos leões; Cristo, por se querer fazer rei, está posto em uma cruz. Com este rigor nem uma comparação tem o juízo de Deus. Para Deus condenar por pensamento é necessário que haja pensamento que seja mau, e que se consinta: para o homem condenar do mesmo modo não é necessário que se consinta, nem que seja mau, nem que haja pensamento. Pode-se imaginar maior rigor na injustiça, maior crueldade que esta? Eu cuidava que não, mas ainda passa adiante a sutileza e a crueldade do juízo dos homens. Não só vos condenam os homens pelo que não vos passou pelo pensamento a vós, mas condenam-vos pelo que nem lhes passou pelo pensamento a eles. Mais claro: não só vos condenam os homens pelo que vós nunca imaginaste, mas condenam-vos pelo que nem eles imaginam de vós.

Chegaram os irmãos de José ao Egito, apareceram diante dele, e depois que disseram quem eram, e a que vinham, José, mui ao de ministro, e com aspecto severo, disse: – Vão presos esses homens. – Presos nós, senhor Vice-Rei – replicaram eles tremendo. – E por quê? –Exploratores estis (Gên. 42, 9): Sois espias: – vindes a explorar os reinos de Faraó, meu senhor. – As palavras não eram ditas, e já os dez irmãos estavam com os pés e mãos em outros tantos grilhões e algemas. Pergunto agora: estes homens imaginaram alguma hora de vir ser espias ao Egito, e explorar os reinos de Faraó? Claro está que nunca tal imaginaram. Eram uns pobres lavradores que vinham, fugindo à fome, comprar quatro grãos de trigo para manter a vida e deitar à terra. Pergunto mais: e José imaginava deles que fossem espias e exploradores? Ainda isto é mais claro e mais certo. Nunca tal imaginou José porque conhecia mui bem que eram os filhos de Jacó seu pai. Pois, se estes homens nunca imagiram em ser espias, e se a José nunca lhe passou pela imaginação que o fossem, como os manda prender? É possível que hão de estar uns inocentes arrastando cadeias em uma masmorra, pelo que nem eles imaginaram nem imaginou deles quem ali os meteu? Assim passa. Na história de José era aquele rigor fingido; mas, ainda mal, porque tantas tragédias se representam no mundo, em que as mesmas injustiças são verdadeiras. Diga-o a de Nabot em Samaria, e a de Susana em Babilônia. Porventura imaginava Jezabel que Nabot blasfemara o nome de Deus e de el-rei? Não imaginava tal coisa. E, contudo, Jezabel fez condenar a Nabot pelo que nem ele imaginou nunca, nem ela imaginava dele. Porventura os juízes de Babilônia imaginaram de Susana que violara a fé que devia a Joaquim, no crime de que a acusavam? Não lhes passou tal pela imaginação. E, contudo, foi condenada e levada ao suplício Susana, pelo que nem ela imaginou, nem imaginaram dela os mesmos que a condenaram. Quantas vezes julgais, condenais, infamais e destruis um inocente pelo que nem imaginou, nem vós imaginais dele? Sabeis de certo que não fez o crime, e infamais-lo, e acusais-lo, e condenais-lo, como se o fizera. Se condenar por culpas duvidosas é injustiça, condenar por inocência conhecida, que tirania será? A que usa o juízo dos homens com o Batista: Joannes in vinculis. Quinta razão: da diferença entre o juízo de Jesus e o juízo dos homens. Deus não julga senão o fim: os homens não esperam pelo fim para julgar. Resposta do pai de famílias aos criados na parábola do trigo e da cizânia. O princípio e o fim das quatro pessoas notáveis que morreram no dia da Paixão. Quem quiser julgar bem há de aguardar pelos fins. Advertência de S. Paulo aos coríntios. No juízo de Deus, com a mudança dos procedimentos, mudam-se os nomes; no juízo dos homens, por mais que os procedimentos se mudem, os nomes não se mudam jamais. O apelido de Simão Leproso.

A quinta razão e diferença que acho entre o juízo de Deus e o juízo dos homens é aquela que, parece, fez o juízo de Deus mais temeroso, que é o ser juízo final. Juízo final! Oh! que temerosa palavra! Mas daí mesmo tiro eu quanto mais temeroso é o juízo dos homens que o juízo de Deus. Deus não julga senão no fim; os homens não esperam pelo fim para julgar. Grão rigor! Semeou cizânia o inimigo na seara do pai de famílias, e que aconteceu? Vede a diferença do senhor aos criados. Os criados muito fervorosos. – Vis, imus, et coligimus ea (Mt. 13, 28)? – Senhor, quereis que vamos e arranquemos logo a cizânia? – O pai de família, muito repousado: Sinite utraque crescere usque ad messem (ibid. 30): Deixar nascer, deixar crescer, deixar amadurecer. Lá virá o tempo da messe; então se reconhecerá qual é o trigo e qual a cizânia. – Eis aqui qual é Deus no julgar, e quais são os homens. Deus não condena senão no fim: os homens não esperam pelo fim para condenar. Deus, para colher, espera pelo agosto: os homens segam em janeiro. Os que mais timoratamente procedem em julgar antes do fim, são aqueles que regulam os fins pelos princípios; mas como os sucessos do mundo e da vida, e muito mais os que dependem do alvedrio, não guardam proporção alguma, todo este juízo é incerto, e todo injusto.

No dia da paixão de Cristo morreram quatro pessoas notáveis, de que faz menção o Evangelho. Morreu Cristo, morreram os dois ladrões e morreu Judas. Ora, notai a diferença dos princípios e fins de todos. Cristo começou bem, acabou bem; o mau ladrão começou mal e acabou mal: o bom ladrão começou mal e acabou bem; Judas começou bem e acabou mal. Tais são as contingências das coisas do mundo, e a pouca proporção que guardam os fins com os princípios. Muitas vezes a bons princípios seguem-se bons fins, como em Cristo, e a maus princípios maus fins, como no mau ladrão e outras vezes, pelo contrário, a maus princípios seguem-se bons fins, como no bom ladrão, e a bons princípios seguem-se maus fins, como em Judas. Por isso quem quiser julgar bem há de aguardar pelos fins. Nos reinos passa o mesmo que nos homens. Quem julgasse o fim do reino de Saul pelos princípios diria que havia de ser felicíssimo, e foi desastrado; quem julgasse o fim do reino de Davi pelos princípios, diria que havia de ser trabalhoso e foi felicíssimo. Antes de ver o fim não se pode fazer juízo. Pedro seguiu a Cristo para ver o fim: Ut videret finem (Mt. 26, 58): se esperara até ver o fim, ele não negara. Esperai pelo fim, então negareis; mas eu vos fio que, se chegardes a ver os fins, que haveis de querer seguir e não negar. Se alguém pudera julgar antes do fim era Deus, porque conhece os futuros, e, contudo, nunca Deus jamais julgou nem condenou a ninguém, senão depois das obras. O juízo dos homens não é assim: conhece pouco do presente, menos do passado, e nada do futuro, e antes de as coisas terem ser, já estão julgadas. No mesmo dia em que se fez a eleição já está adivinhando o sucesso, já está condenada a obra, já está desacreditada a pessoa. Valha-me Deus! Ainda não fiz bem nem mal, e já me condenam! Não teremos uma pouca de paciência para esperar pelo fim? Nolite ante tempus judicare (1 Cor. 4,5): Não queirais antes do tempo – diz o apóstolo. – Já que quereis ter predestinados e precitos, como Deus, julgai também como Deus no fim das obras. Mas que ao predestinado se lhe haja de adivinhar o merecimento para se lhe dar logo o prêmio, e ao precito se lhe haja de profetizar a culpa para o condenar de antemão! Terrível juízo.

Ainda passa adiante a razão por que Deus julga no fim, e os homens não. É porque no juízo de Deus não basta a certeza do futuro para o castigo, e basta a emenda do passado para o perdão. No juízo dos homens, nem para o futuro vale a incerteza, nem para o passado a emenda. Diz o evangelista S. Marcos que veio Cristo, Senhor nosso, comer à casa de Simão Leproso. Chamava-se assim este homem, porque fora leproso antigamente, e o mesmo Senhor o sarara. Não sei se reparais na dúvida. Se este homem ainda tivera lepra, que lhe chamassem leproso, muito justo: mas, se ele estava são, por que lhe hão de chamar leproso? Porque esse é o juízo dos homens. Fostes vós leproso algum dia? Pois, ainda que Deus faça milagres em vós, leproso haveis de ser todos os dias de vossa vida. Deus poder-vos-á dar a saúde; mas o nome da enfermidade não vo-lo hão de perdoar os homens. No juízo de Deus, com a mudança dos procedimentos, mudam-se os nomes: antigamente éreis Saulo, hoje sois Paulo; no juízo dos homens, por mais que os procedimentos se mudem, os nomes não se mudam jamais. Se fostes leproso uma vez, leproso vos hão de chamar enquanto viverdes: Simonis leprosi (Mc. 14, 3). Poderá haver milagre para sarar Simão, mas milagre para tirar o leproso não é possível. Oh! grande sem razão do juízo humano, que da enfermidade vos hajam de fazer apelido! E vem a ser pior o apelido que a mesma enfermidade, porque a enfermidade, quando muito chega ate a morte: o apelido passa à descendência. O juízo de Deus terrível é, mas posso-me livrar dele emendando-me. Porém, o juízo dos homens, em que não vale emenda, quem poderá negar que é mais terrível? E se contra o juízo dos homens não vale a emenda onde a há, que remédio teria aquele inocente, em que a não podia haver, porque não havia que emendar: Joannes in vínculis?

VIII – O intento do divino Mestre quando disse aquela famosa sentença: Não temais aqueles que matam o corpo, e não podem matar a alma. Os juízos dos homens nas palavras de Cristo.

Antes que passe adiante – que não sei se mo permitirá o tempo – me ocorre que pode ocorrer, a alguém aquela famosa sentença de Cristo: Nolite timere eos qui occidunt corpus, animam autem non possunt occidere: sed potius timete eum qui potest et animam et corpus perdere in gehennam (Mt. 10, 28). Quer dizer: Não temais aqueles que matam o corpo, e não podem matar a alma; mas temei antes a quem, lançando o corpo e alma no inferno, tanto pode matar a alma como o corpo. – E quem são aqueles, e quem é este? Aqueles são os homens, este é Deus. Logo, parece que daqui se infere, contra a doutrina que até agora provamos por tantos meios, que mais temeroso e mais para temer é o juízo de Deus que o dos homens, como mais se deve temer o inferno e morte da alma, que a do corpo. Mas tão erradas como isto costumam ser as conseqüências de quem segue as suas apreensões ou afetos, e não olha para o caso de que falam os textos, e para o intento com que foram ditados ou escritos. O intento do divino Mestre nesta ocasião foi animar a fé dos primitivos cristãos, para que padecessem constantemente os tormentos e martírios dos tiranos, e para que, postos entre dois temores, um ou outro inevitável, com o maior vencessem o menor, isto é, com o temor do inferno o temor da morte. Assim o entenderam sempre padres, pontífices e intérpretes, dos quais, como tão diligente, sólido e literal abreviador de todos, só porei aqui as palavras do doutíssimo A Lápide: Quasi diceret: Nolite metu mortis, quam vobis intentabunt persecutores, negare meam fidem, aut cessare ab ejus praedicatione vobis a me imperata, vel aliquid ea indignum, committere: quia, si id feceritis, incurretis mortem tum corporis tum animae longe atrociorem et diuturniorem, scilicet aeternam in gehenna, ubi damnati moriuntur morte immortali, et vita moribunda, vivunt, et perdurant. – De sorte que a comparação não se fez aqui entre juízo e juízo, senão entre perigo e perigo, e entre pena e pena, porque, comparada a pena do inferno com a pena da morte, claro está que muito mais para temer é a do inferno. Pelo contrário, se a comparação se fizera entre juízo e juízo, isto é, entre o juízo de Deus e o dos homens, posto que os homens só possam condenar à morte, e Deus ao inferno, com a mesma evidência se segue, ainda neste caso, que mais para temer é o juízo dos homens que o de Deus, porque o juízo dos homens condenando-me à morte, pode seja injusto, e o de Deus, condenando-me ao inferno, não pode deixar de ser reto: Justus es, Domine, et rectum judicium tuum[18]. – E se ao juízo de Deus só está sujeita a culpa, e do juízo dos homens não está segura a inocência, vede qual mais se deve temer. De Deus são mais para temer os castigos, dos homens mais para temer os juízos. E destes é que nós falamos.

Também falou dos mesmos juízos o mesmo Cristo, e não em outro, senão no mesmo texto, imediatamente antes, em admirável comprovação do que digo. Afrontavam os escribas e fariseus aos discípulos do Senhor com nomes tão injuriosos e blasfemos como a seu mestre, e chegavam a dizer e pregar, e apregoar ao mundo que as maravilhas que ele e eles obravam eram feitas em virtude e com poderes de Belzebu, príncipe dos demônios. E para que a inocência e constância, ainda noviça, dos apóstolos, vendo-se tão indignamente caluniada e condenada pelo juízo dos homens – e não de quaisquer, senão dos mais autorizados, e dos que entre os demais professavam religião e letras – não desmaiasse, com que razões os animaria e consolaria o divino Mestre, para que não fizessem caso da temeridade daqueles juízes? A razão foi uma só, e digna de seu autor: Si pairem familias Beelzebub vocaverunt: quanto magis domesticos ejus? Ne ergo timueritis eos. Nihil enfim est opertum, quod non revelabitur: et occultum, quod non scietur[19]. Não vos deveis admirar que, sendo vós os discípulos e eu o Mestre, e sendo vós os servos e eu o Senhor, vos tratem e vos julguem a vós os homens, como me tratam e me julgam a mim. Mas, para que não temais nem façais caso dos seus juízos e das afrontas que vos dizem, sabei que Deus manifestara a vossa verdade e as suas calúnias, ou no dia do juízo, ou ainda antes: Nolite tamen eorum probra irrisiones et sannas timere, quia tandem Deus vestram fidem et veram religionem patefaciet non tantum in die judicii, sed etiam in hac vira – comenta o mesmo autor, com S. Crisóstomo, Teofilato e Eutímio. Oh! argumento verdadeiramente divino, e outra vez digno da soberania do seu autor! De maneira que a consolação e apelação que tem o juízo dos homens, é para o juízo de Deus, e, debaixo desta esperança certa, ensina Cristo a seus discípulos que os não temam: Ne timueritis eos? Sim. Logo, se o juízo de Deus é o seguro que nos dá o mesmo Deus para não temer os juízos dos homens, bem se conclui que o juízo dos homens é o formidável, e o que se deve temer, e não o de Deus, nestas circunstâncias. O dos homens temer-se porque, quando menos, pode ser falso e injusto; e o de Deus esperar-se sem temor porque sempre é justo e reto.

IX – Paralelos entre o juízo de Deus e os juízos dos homens.

Tudo isto ficou já convencido com as razões que ponderamos antes de responder a esta réplica, restando muitas outras com que se podia provar e amplificar a mesma verdade, mas, porque nem o tempo dá lugar, nem eu vo-las quisera totalmente dever, partamos o trabalho. Eu as aponto, discorrei-as vós.É mais temeroso o juízo dos homens que o juízo de Deus porque o juízo de Deus é juízo de um só dia: o juízo dos homens é juízo de toda a vida. Todos os dias, para os que vivem entre os homens, são dias do juízo.O juízo de Deus há de ser em um só lugar, o juízo dos homens é em todos os lugares. Julgam-vos na casa e julgam-vos na rua; julgam-vos na praça e julgam-vos na igreja; julgam-vos na corte e julgam-vos no monte; julgam-vos no mundo e julgam-vos na religião; julgam-vos em todos os lugares onde estais e nos lugares onde não estais também vos julgam. Enfim, para o juízo de Deus há de ir ao vale de Josafá todo o mundo: para o juízo dos homens todo o mundo é vale de Josafá. O juízo de Deus começa a julgar desde os anos do uso da razão por diante: o juízo dos homens muito antes do uso da razão julga e condena. Digam-no as lágrimas de Raquel e o sangue dos inocentes de Belém. Faltavam-lhes cinco anos para o alvedrio, e bastaram-lhes dois para o cutelo: A bimatu, et infra[20].

Ainda depois do uso da razão, não nos julga Deus mais que as duas partes da vida, porque a terceira parte que nos leva aquela morte cotidiana, a que chamamos sono, como não é capaz de pecar nem de merecer, não a julga Deus. No juízo dos homens não é assim: nem dormindo nos isentamos de sua jurisdição. Dormindo estava José quando sonhou, e por que sonhou o condenaram à morte seus irmãos: Ecce somniator venit: venite occidamus eum[21].Deus no seu juízo há de vir a julgar os vivos e os mortos: os homens no seu juízo julgam os vivos, julgam os mortos e julgam os por nascer. Não vos lembra a história do cego de seu nascimento, a quem Cristo deu vista? Ainda não era nascido, e já o faziam pecador: Domine quis peccavit, hic aut parentes ejus, ut caecus nasceretur[22]? Deus julga somente do fato: os homens até do impossível. Antes do dia do juízo ver-se-ão muitos sinais. Erunt signa in sole, et luna[23] – mas notai a diferença. No juízo de Deus, os sinais dizem com o juízo: no juízo dos homens, o juízo não diz com os sinais. No juízo de Deus dizem os sinais com o juízo porque os sinais são de rigor e o juízo é rigoroso; no juízo dos homens, o juízo não diz com os sinais, porque os sinais são de amizade e o juízo é de ódio. Vede-o em Judas: os sinais eram abraços, e o juízo traições: Traditor autem dedit eis signum: Quemcumque osculatus fuero, ipse est, tenete eum[24]. Deus, no seu juízo, é verdade que há de lançar os homens ao inferno, mas há de ser dizendo-lhes muinto clara e descobertamente Ite, maledicti, in ignem aeternum[25]. Os homens não fazem assim no seu juízo; estão-vos dizendo: Venite benedicti[26]: Bendito e bem vindo sejais – e no mesmo tempo estão-vos metendo e desejando debaixo do inferno.Deus julga como juiz: os homens julgam como judiciários. Entre o juiz e o judiciário há esta diferença que o juiz supõe o caso, o judiciário adivinha-o. Quantos vemos hoje julgados e condenados por adivinhação, não pelo que fizeram, senão pelo que se adivinha que haverão de fazer!

O juízo de Deus, sendo Deus por natureza imutável, se nós nos convertemos e nos mudamos, muda-se: o juízo dos homens, sendo os homens a mesma mudança, por mais que nós nos mudemos, não se muda. Mudou-se a Madalena, e no juízo de Cristo ficou santa; mas, no juízo do fariseu, tão pecadora como dantes era: Quoniam pecatrix est[27] No juízo de Deus havemos de ser julgados pelos mandamentos: quem guardou os mandamentos pode estar seguro. No juízo dos homens não aproveita guardar os mandamentos. Fizestes o que vos mandaram, e muito melhor do que vo-lo mandaram, e sobre isso sois julgado e condenado. Como a sem-razão é tão moderna, não há exemplo dela nas Escrituras: tê-lo-ão os vindouros, se o crerem. Deus julga a cada um pelo que é: os homens julgam a cada um pelo que são. Mais claro: Deus julga-nos a nós por nós: os homens julgam-nos a nós por si. Donde se segue que, para serdes bem julgado no juízo de Deus, basta que vós sejais bom; mas, para serdes bem julgado no juízo dos homens, é necessário que ninguém seja mau. Terrível juízo em que, para eu não sair condenado, é necessário que todo o mundo seja inocente! No juízo de Deus basta ser bom no último instante da vida para ser eternamente bom: no juízo dos homens basta ser mau em qualquer tempo da vida para ser eternamente mau. Se fostes bom, e sois mau, julgam-vos mal pelo que sois; se fostes mau, e sois bom, julgam-vos mal pelo que fostes; e se sois e fostes sempre bom, julgam-vos mal pelo que podeis vir a ser. Há juízo tão cruel como este? As culpas em profecia, e o profeta em prisões: Joannes in vinculis.

X – O pregados, o mau médico e o conselheiro. Qual o remédio para nos livrarmos do juízo dos homens? O juízo com que nos julgamos uns aos outros é lei que pusemos a Deus, para que ele, por ela, nos julgue também a nós. Fruto do sermão: temer muito o juízo temerário, não o juízo em que somos julgados, que isso não é culpa nossa, mas o juízo em que nós julgamos, que é a nossa condenação.

Tenho acabado o sermão, e parece que me tem acontecido nele o que sucede aos maus médicos e aos maus conselheiros. O mau médico encarece a enfermidade, e não lhe dá remédio: o mau conselheiro exagera os inconvenientes, e não dá meio com que os melhorar. O ofício de pregador é de curar e de aconselhar. Tenho encarecido a enfermidade, tenho ponderado os inconvenientes, tenho mostrado a cegueira, a sem-razão, a injustiça e a tirania do juízo dos homens; mas que é do remédio, para nos livrarmos deste juízo? Se não há remédio ainda é mais temerosa esta última circunstância que todas as que até agora temos considerado. Verdadeiramente dificultosa e impossível coisa, parece, achar remédio para escapar do juízo dos homens, sendo tantos, tão livres e tão temerários.

Mas ouçamos o que resolve nesta matéria o Todo-Poderoso, com sabedoria infinita: Nolite judicare, ut non judicemini, In quo enim judicio judicaveritis, judicabimini (Mt, 7, 1 s): Se não quereis que vos julguem, não julgueis, porque com o mesmo juízo com que julgardes, sereis julgados. – Esta sentença de Cristo, Senhor nosso, ou se pode entender do juízo dos homens para com os homens, ou do juízo de Deus para com eles. Se se entender do juízo de Deus para com os homens, é absoluta e, universalmente verdadeira; mas se se entender do juízo dos homens para com os homens, não. Donde se torna confirmar, outra e mil vezes, que mais rigoroso e mais para temer é o juízo dos homens que o de Deus. No juízo de Deus para com os homens é verdadeira, porque, como altamente disse S. João Crisóstomo, o juízo com que nós julgamos uns aos outros é lei que pusemos a Deus para que ele por ela nos julgue também a nós: Legem prius ipse posuisti, severius de his, quae proximus peccaverit, judicando – porque, se nós julgarmos com benignidade aos nossos próximos, também Deus nos julgará benignamente; mas, se nós os julgarmos severamente, também ele nos julgará com severidade. De sorte que no juízo de Deus para com os homens esta regra é geral, sem exceção, porém, no juízo dos homens para com os homens tem tão pouca certeza, nem ainda probabilidade, que até o mesmo Cristo, sendo tão benigno em julgar e perdoar a todos, não escapou de ser tão injustamente julgado e condenado por eles. Se Cristo, suma inocência, teve um Anás, um Caifás, um Pilatos e um Herodes, que o julgaram e condenaram, que homem haverá tão inocente e justo, que por estes quatro juízes não tenha quatrocentos que o julguem e condenem?

Contudo, esta mesma sentença, ainda que universalmente não é certa no juízo dos homens para com os homens, por ditame natural da razão, e por providência particular de Deus, muitas vezes se verifica neles: Nolite judicare, et non juticabimini: nolite condemnare, et non condemnabimini (Lc. 6, 37): Não julgueis, e não sereis julgados: não condeneis, e não sereis condenados. – Sabeis por que muitas vezes somos julgados, e tão injustamente julgados? Porque tantas vezes somos juízes, e injustíssimos juízes: porque julgais as obras alheias, por isso vos julgam as vossas obras; porque julgais as palavras alheias, por isso vos julgam as vossas palavras: porque julgais até os pensamentos alheios, por isso vos julgam e vos condenam até o que não vos passou pelo pensamento. Diz S. Tiago na sua Canônica, que S. Miguel se não atreveu a julgar Lúcifer. Se um serafim se não atreve a julgar um demônio, como se há de atrever um homem a julgar outro homem?

Se queremos julgar, viremos os olhos para a parte de dentro, que ainda mal, porque tanto acharemos que julgar, que examinar e que condenar. Se nos julgarmos sem paixão a nós, eu vos prometo que teremos tanto que fazer e tanto que pasmar que não nos fique nem tempo, nem ânimo para julgar a outrem. Ora, cristãos, por reverência de Deus, pelo que devemos a Cristo, pela obrigação que temos a nossas almas, que seja o fruto deste sermão temer muito um juízo temerário, não o juízo em que somos que isso não é culpa nossa, mas o juízo em que nos julgamos, que é a nossa condenação: In quo alterum judicas te ipsum condemnas, diz S. Paulo[28]: Quando julgamos os outros, condenamo-nos a nós. E quantos condenados estão hoje no inferno só por um juízo temerário! Deus, por sua misericórdia, nos livre de um escândalo como este, tão fácil e tão ordinário, em que tantas vezes tropeça a caridade, em que tão gravemente se embaraçam as consciências, em que tão perigosamente se perde a graça, e, com ela, a glória.

_________

[1]João no cárcere (Mt. 11, 2)
[2] Na vulgata: Ab homine iniquo erue me: – Julgai-me, ó Deus, e separa a minha causa de uma gente não santa; livrai-me do homem iníquo (Sl. 42,1)
[3] Faça-se a luz. E foi feita a luz. E viu Deus que a luz era boa (Gen. 1, 3)
[4] E abandonou Jesus à vontade deles (Lc. 23, 25)
[5] A boa consciência são mil testemunhas.
[6] Saiu sangue e água (Jô 19, 34)
[7] Saul matou mil, e Davi dez mil (Rs. 18, 7)
[8] Tu és o que hás de vir, ou é outro o que esperamos (Mt. 11,3)
[9] Perdoados lhe são seus muitos pecados (Lc. 7, 47).
[10] Que este homem faz muitos milagres (Jo. 11, 47)
[11] Que saíste vós a ver no deserto (Mt. 11, 7)
[12] Uma cana agitada do vento (ibid. 7)
[13] Um homem vestido de roupas delicadas (ibid. 8)?
[14] Eis aí envio eu o meu anjo (ibid. 10).
[15] Julgou que ela estava bêbada. E disse-lhe: Até quando estarás tu bêbada (1 Rs. 1, 13)?
[16] Adverti, e vede que anda buscando ocasião de romper comigo (4 Rs. 5, 7).
[17] Até, estando eu presente, que na minha casa fazer violência à rainha (Est. 7, 8).
[18] Tu és justo, Senhor, e é reto o teu juízo (Sl. 118, 137).
[19] Se eles chamaram Belzebu pai de família, quanto mais aos seus domésticos? Pois, não os temais, porque nada há encoberto que se não venha a descobrir, nem oculto que se não venha a saber (Mt. 10, 25 s).
[20] Os que tivessem dois anos, e daí para baixo (Mt. 2, 16).
[21] Eis aí vem o jogador. Vinde, matemo-lo (Gen. 37, 19 s)
[22] Senhor, que pecado fez este, ou fizeram seus pais, para nascer cego (Jo. 9, 2)?
[23] E haverá sinais no sol e na lua (Lc. 21, 25)
[24] O traidor tinha-lhes dado uma senha: Aquele a quem eu der um ósculo, este é que é: prendei-o (Mc. 1444).
[25] Ide, malditos, para o fogo eterno (Mt. 25, 41).
[26] Vinde, malditos (Ibid. 34)
[27] Porque é pecadora (Lc. 7, 39).
[28] No mesmo em que julgas a outro, a ti mesmo te condenas (Rom. 2, 1).

Fonte: https://www.literaturabrasileira.ufsc.br/documentos/?action=download&id=49811