São Francisco Xavier – Sermão undécimo, do seu dia

Euntes in mundum universum praedicate Evangelium omni creature.[1]

I – Os dois mapas universais que o Senhor e restaurador do mundo deu aos seus apóstolos para caminhar e pregar. Duas graves questões fundadas nas palavras de Cristo aos apóstolos. Os apóstolos e a evangelização do universo. O número dos séculos e o número dos apóstolos. São Francisco Xavier, décimo-quinto apóstolo. Argumento do sermão: Se foram mais admiráveis os pés de Xavier no que andaram, ou a língua de Xavier no que pregou.

Dois mundos em um mundo: o mundo que fez o Verbo incriado: Mundos per ipsum factus est[2] – e o mundo que, depois de humanado, o não conheceu: Et mundos eum non cognovit[3] – são os dois mapas universais que o Senhor e restaurador de ambos deu aos seus apóstolos: o primeiro para termo de suas peregrinações: Euntes in mundum universum – o segundo para ouvinte de suas pregações: Praedicate omni creaturae. Muito têm que caminhar os pés destes peregrinos, pois é o mundo todo: Mundum universum. E muito têm que doutrinar as línguas destes pregadores, pois são as gentes também todas: Omni creaturae. Os pés e os passos louva Isaías: Quam pulchri super montes pedes annuntiantis et predicantes pacem, annuntiantis bonum[4]! – E as línguas e as vozes admira Davi: In omnem terrain exivit sonus eorum, et in fines orbis terrae verba eorum[5]. – Mas Isaías só diz que viu os pés subir os montes: Quam pulchri pedes super montes! – E Davi, posto que fala nos fins da terra, não diz que chegaram a ela as vozes, senão que para ela saíram: In omnem terrain exivit sonus eorum. – Daqui nascem duas graves questões, fundadas nas palavras que propus, uma sobre o ir, outra sobre o pregar. A primeira: se andaram os pés dos apóstolos tanta terra, quanta Cristo lhes não mediu, pois foi todo o mundo: Euntes in mundum universum. – A segunda: se pregaram as suas línguas a tantas nações, quantas o mesmo Senhor lhes sinalou, que foram sem exceção todas as criarias: Praedicate omni creaturae. – Os doutores antigos não têm aqui voto adequado, porque Cristo não falou só dos apóstolos em suas pessoas, senão também nas de seus sucessores, de que os antigos não tiveram nem podiam ter inteira notícia Os modernos, não só fundados na história eclesiástica e profana, mas na evidente experiência, constantemente resolvem que até o século todo de mil e quatrocentos anos depois da Redenção, nem os pés dos apóstolos e varões apostólicos tinham pisado as últimas terras do mundo, nem as gentes habitadoras das mesmas terras tinham ouvido as vozes das suas línguas. Parece que o número dos séculos se ajustou com o dos apóstolos. Os apóstolos foram catorze, porque ao sagrado número dos doze da primeira eleição – substituído em lugar de Judas, S. Macias – acrescentou Cristo, depois de estar no céu, S. Paulo e S. Barnabé. E assim como os apóstolos foram catorze, assim foram também catorze os séculos em que o mundo, em tanta antigüidade não conhecido, nem com as pisadas de seus pés, nem com as vozes das suas línguas se podia santificar. Agora, divino assunto desta minha indigna oração, começaremos a ouvir o vosso heróico nome. Chegou, enfim, na era de mil e quinhentos o século décimo-quinto, e com ele apareceu no mundo Francisco Xavier, décimo-quinto apóstolo. Do reino de Cristo, diz Davi, seu pai: Dominabitur a mari usque ad mare, et a flumine usque ad terminos orbis terrarum (SI. 71, 8): Que dominará de mar a mar, e do rio até os fins da terra – E que é de mar a mar? É do mar Atlântico, o último da Europa, até o mar Eoo, o último da Ásia. E que é do rio até os fins e termo da terra? É do rio Tejo, onde se embarcou Xavier, até o Japão, onde ele foi o primeiro pregador que pôs os pés, e o primeiro de cuja língua se ouviu o nome de Cristo. Assim o propuseram na causa da sua canonização ao Papa Gregório Décimo-Quinto os auditores da Sagrada Rota, por estas notáveis palavras: Pregou o Evangelho nas ilhas do Japão, aonde o nome de Cristo nunca antes fora ouvido, e então se cumpriu a primeira vez a profecia do salmo: In omnem terram exivit sonus eorum. – Até aqui aquele notável testemunho. E como entre todos os ministros da propagação da fé católica, no ir foram tão singulares os pés, e no pregar tão singular a língua de S. Francisco Xavier, que nenhum outro se pode comparar com ele, parece que nos não fica que dizer na matéria do nosso tema, sendo ela tão ampla, que contém dois mundos, o elementar que se anda, e o racional a que se prega. Ora já que Xavier é incomparável nesta glória, e ninguém se pode comparar com ele, só resta compararmo-lo consigo mesmo, e uma parte sua com outra parte. Comparando, pois, os pés de Xavier com a sua língua, e a língua com os pés, a questão ou problema do meu discurso será este: Se foram mais admiráveis os pés de Xavier no que andaram: Euntes in muniam universum – ou a língua de Xavier no que pregou: Praedicate Evangelium omni creaturae.

II – A peregrinação do sábio e o desterro do néscio. Quão admiráveis foram os passos de Xavier no que caminharam. O número dos passos de Xavier O que diz a aritmética da terra. Como puderam uns pés humanos caminhar tanto em tão pouco tempo? Que glória imensa seria a de Xavier quando o mesmo Deus lhe contava os passos.

O ir pelo mundo não é a mesma coisa para todos, diz Sêneca. Se o homem for sábio, é peregrinação; se for néscio, é desterro: Sapiens peregrinatur, stultus exulat[6]. – É peregrinação, se for sábio, porque terá muito que aprender do que vir e experimentar, e será para ele a mesma peregrinação estudo. Pelo contrário, se for néscio, não tirará outro fruto das terras que andar, senão estar fora da pátria, e isto propriamente é desterro. Quanto à peregrinação, ela é um dos livros que o mesmo Espírito Santo inculcou para se aprender a verdadeira sabedoria: In terram alienigenarum gentium pertransiet[7] – porque a geografia do mundo melhor se aprende vista no mesmo mundo, que pintada no mapa. Assim o fizeram os dois maiores e mais famosos mestres de uma e outra filosofia, Platão e Aristóteles. E quando os maiores mestres vão aprender do mundo, manda Cristo a seus discípulos que o vão ensinar: Euntes in mundum universum praedicate omni creaturae.

Foram os primeiros apóstolos às partes do mundo que lhes couberam, e ó nosso à sua. E como primeiro é o ir que o ensinar, antes que ouçamos as maravilhas da língua de Xavier no que pregou, vejamos os passos dos seus pés, e quão admiráveis foram no que caminharam. Mas como poderá ser isto sem cansar a memória nem enfastiar os ouvidos, repetindo agora por junto o que em outros discursos temos visto por partes? Já que a medida desta peregrinação, e o termo sem termo deste itinerário não é menor que o mundo todo: Euntes in mundum universum – façamos um petipé, não de centos, mas de milhares de léguas, e medindo com fiel compasso as distâncias de umas terras a outras, andadas e tornadas a andar muitas vezes, desfazendo assim o novelo daquele mundo novo em linhas matemáticas, por elas, como pelo fio de Ariadna, nos poderemos sair de tão intrincado labirinto, e reduzir a número compreensível a suma, que verdadeiramente é imensa.

Os que mais estreitamente fazem esta conta, dizem que andou S. Francisco Xavier no Oriente trinta e três mil léguas. Mas porque estes medem só as distâncias de umas terras a outras por linha direita, sem as quebras ou demasias que nas subidas dos montes, nos rodeios das enseadas, e em outros passos dificultosos têm todos os caminhos, mais certa é a medida dos que adiantam este cômputo, quando menos a trinta e seis mil léguas. Isto diz a aritmética da terra; mas quem poderá compreender a do céu? No Apocalipse se faz menção de medida dos homens e medida dos anjos: Mensura hominis, quae est angeli (Apc. 21, 17). – Os homens grosseiramente medem por léguas e por milhares; os anjos medem por passos e um por um. Nas vidas dos padres do ermo lemos de um santo velho, que, cansando-se de ir buscar água à fonte, por estar longe de sua choupana, determinou fazer outra mais vizinha, e, indo para a mesma fonte com este pensamento, ouviu uma voz, que o seguia, dizendo: Um, dois, três, quatro – e, voltando, viu que em um anjo, que lhe ia contando os passos, com que mudou tanto do intento que tivera, que passou a choupana para mais longe. Oh! longes descaminhos de Xavier! Aquele anjo, como o do Apocalipse, media os passos a modo dos homens: Mensura hominis, quae est angeli -e assim os contava. Mas que glória imensa seria a do nosso peregrino, quando, não os homens, nem só os anjos, senão o mesmo Deus lhe contava os passos, como de si dizia o santo Jó: Tu quidem gressus meos dinumerasti[8].

Antes que passe adiante, quero aqui tirar uma dúvida, e é concordar os passos do tempo, que tanto corre, com os dois pés de Xavier, que correram muito mais que ele. Como pode ser que em dez anos que o grande apóstolo viveu na índia, andasse e corresse tanto? A mais célebre peregrinação que temos na Sagrada Escritura é a de Moisés, desde o Egito à Terra de Promissão, e é certo que em quarenta anos não caminhou Moisés a centésima parte do que Xavier em tão poucos. Se este maravilhoso herói não vivera em nossos tempos, havíamos de cuidar e fazer uma de duas suposições: ou multiplicando-lhe os anos, crendo que houvesse vivido duzentos, e trezentos, como os patriarcas que sucederam a Noé, ou multiplicando-lhe a mesma pessoa, imaginando que este Xavier não fosse um só homem, senão muitos Xavieres, assim como foram muitos os Hércules, que correram o mundo alimpando-o dos monstros que o infestavam, e tudo se atribui a um só Hércules. Sendo, porém, sem dúvida que Xavier foi um só homem, como puderam uns pés humanos caminhar tanto em tão pouco tempo? De Mercúrio dizem os poetas gentios que tinha asas nos pés, mas isto é fábula. Dos de Xavier podemos afirmar que ele as tinha, não fabulosas, senão verdadeiras, e tão velozes, diz Isaías, como as da águia: Assument pennas sicut aquilae[9]. – E para quê? Não para voar, senão para correr, e andar tanto como se voasse: Current et non laborabunt, ambulabunt et non deficient[10].

Tornando, pois, não ao número dos passos de Xavier, que só Deus podia contar, mas às léguas que contaram os homens, a todos os doze apóstolos disse Cristo, Senhor nosso, que fossem a todo o mundo, mas a nenhum que fosse a todo, senão dividido por partes, como fizeram; e se eles não saíssem de Jerusalém, andou tanto o Apóstolo do Oriente, que pudera suprir o caminho de todos doze, não em parte do mundo, senão em todo. Não é encarecimento, senão demonstração evidente, porque o diâmetro de todo o mundo, como do Oriente a Poente, ou do Setentrião ao Meio-dia, em que se atravessa todo de parte a parte, não tem mais de três mil léguas; e em trinta e seis mil, que foi o menos que Xavier andou, podia dar e repartir três mil a cada um dos apóstolos. Este é um modo de andar todo o mundo. O outro, e maior, é não atravessá-lo pelo diâmetro, mas rodeá-lo esfericamente por toda a circunferência. E este rodeio, dando volta a todo o mundo, fazem, não uma, senão quatro vezes trinta e seis mil léguas. A primeira nau que deu volta a todo o mundo, mais digna de se colocar entre as estrelas que a fabulosa Argos, foi a do valoroso português que deu o nome ao estreito. Não ele, mas ela, chamada a Vitória, chegou às praias de Espanha, e ali se mostrava e via com admiração, e quase com reverência, aquele prodigioso lenho. E que diremos de um homem, cujos passos caminharam tanto, que puderam dar volta quatro vezes a toda a redondeza do mundo?

III – As maravilhas da língua de Xavier Como conseguiu Xavier o que imaginou Arquimedes. A grande volta que deu ao mundo a língua de Xavier. O estado em que se achava o grande mundo do Oriente antes de lá entrar o seu apóstolo. A conversão do Oriente e a conversão de Nínive.

Não há dúvida que muito admiráveis foram os pés de Xavier, mas muito mais admirável foi a sua língua, porque, se os pés andando puderam dar volta ao mundo, a língua pregando fez que o mundo desse volta. Arquimedes, aquele prodigioso matemático, dizia que, se pudesse firmar um pé fora do mundo, lhe faria dar uma volta: Tollerem, si consisterem. – E isto é o que fez Xavier. Pôs-se fora do mundo, porque o .deixou; pôde-se firmar fora dele, porque se firmou em Deus: Dominus firmamentum meum[11]. – E não com outro instrumento que o de sua língua, fez que o mundo desse volta. – Verte impios, et non erunt (Prov. 12, 7): Se quereis que não haja maus nem maldades no mundo, dai-lhe uma volta – diz o Espírito Santo. Isto quer dizer aquele verte, como trasladam os melhores intérpretes: in orbem gyra[12]. – E para que vejamos como lhe fez dar esta volta Xavier, ouçamos primeiro o estado em que se achava aquele novo e grande mundo, do Oriente, antes de lá entrar o seu apóstolo. Constava de cristãos e infiéis de diversas seitas. E, começando pelos chamados cristãos, referirei por suas próprias palavras o que escreviam e choravam naquele tempo as informações mais autênticas. A corrupção dos costumes se reduzia àqueles três vícios capitais, dos quais diz o evangelista S. João: Mundus in maligno positus est[13]: cobiça, ambição, torpeza. Quanto à cobiça, nos tratos e contratos, o de mais proveito era o mais lícito. As culpas provadas em juízo eram o pão – como diz Oséias – de que se sustentavam os juízes, pesando-se para a absolvição na mesma balança, de uma parte o delito, da outra o dinheiro. Quanto à ambição, era honra e nobreza a impunidade das leis humanas e divinas. E o matar homens, para ter que gastar com largueza, se reputava por valor, como o não guardar verdade, nem palavra, por fidalguia. Quanto à torpeza, vivia o senhor com suas escravas, cinco e seis das portas a dentro, como se com elas legitimamente se recebera, nem isto se estranhava em Goa mais que em Marrocos, obrigando a outras a pagar tal tributo, ou jornal cada dia, que não o podendo granjear com o trabalho, traziam vendida a honestidade. Para desafogar as consciências de tão profundo e escandaloso abismo, não havia cuidado nem lembrança. Muitos passavam anos sem acudir aos sacramentos, e faze-lo fora da quaresma era a maior hipocrisia.

Assim achou Xavier a cristandade, ou o nome dela na índia. E que poder, que indústria, que máquinas eram necessárias para fazer dar volta a esta Nínive, mais dificultosa de se converter, que merecedora de ser subvertida? Mas já vejo vir navegando Jonas, não forçado e violento no ventre da baleia, mas obediente a Deus, e revestido do espírito de Cristo, parecendo-lhe vagarosas, não as barbatanas, ou remos do monstro, senão as asas dos mesmos ventos, para sair em terra, e dar felicíssimo princípio à sua heróica missão. Chega, enfim, põe os pés em Goa Xavier, e agora verão eles nos do mesmo Jonas quanto mais poderosa é a sua língua. A cidade de Nínive era tão grande, diz S. Jerônimo, declarando o texto, que escassamente se podia rodear ou andar todo o circuito dela em três dias inteiros: Tanti ambitus, ut vix trium posset itinere circumiri. – E acrescenta o mesmo santo, que assim o fez Jonas, lembrado do preceito de Deus, e do seu naufrágio, correndo com tanta pressa, que em um dia fez o caminho de três: Jonas praecepti, et superioris naufragii memor, viam trium dierum unius diei festinatione complevit. – Não podiam andar mais maravilhosos os pés no que caminharam. E foram eles os que converteram a Nínive? De nenhum modo. A língua foi a que converteu o rei: Pervenit verbum ad regem Ninive[14]. – E a língua a que persuadiu o povo a que cresse em Deus: Crediderunt viri Ninivitae in Deum[15]. – Ao nosso ponto agora: de maneira que os pés puderam dar volta a toda Nínive, mas a que fez que Nínive desse volta foi a língua. Para que entendam os pés, posto que de Xavier, que ainda que pudessem dar muitas voltas ao mundo, fazer que o mundo desse volta só o podia a sua língua.

Assim o fez nesta primeira parte e cabeça daquele mundo, e com tanta brevidade que, pregando só ametade dos quarenta dias da pregação de Jonas – porque chegou a Goa em seis de maio de mil e quinhentos e quarenta e dois, e no fim do mesmo mês partiu para a Costa da Pescaria – ficou aquela cidade tão outra do que era, como se nela se trocassem os habitadores, ou nos habitadores as almas. A freqüência das confissões era tão contínua, que não bastavam ao santo os dias e as noites para as ouvir; os três vícios, de que acima falamos, todos convertidos nas virtudes contrárias. A ambição e invejas, em concórdia e amizades; a cobiça, em restituições e grossas esmolas; a incontinência, em se alimparem as casas de tudo o que encontra a honestidade cristã. Enfim, outra volta como a de Nínive. A Nínive racional – que as cidades são os homens, e não as paredes – tinha duas faces: uma superior, outra inferior, uma que se via, outra que se não via; a superior, e que se via, era vivendo todos na infame seita de Epicuro, de que Sardanapalo, então rei de Nínive, era o sectário mais bruto; a inferior, e que se não via, era a lei da razão, que estava sepultada, esquecida, e metida debaixo dos pés. Mas tanto que deu volta aquele grande e desordenado corpo, no mesmo ponto desapareceu o que se via, e ressurgiu o que se não via, e, deixando de ser o que era, começou o que devia ser. Dizem todos os nossos historiadores que quem pouco antes tivesse visto a Goa, e agora a visse, não a conheceria. E é pelas mesmas palavras o que disse S. Crisóstomo de Nínive: Sane si quis tunc ingressus fuisset civitatem Ninivitarum, qui prius eamdem probe novisset, nequaquam agnovisset eam. Adeo repent a turpissima vita ad pietatem resilierat[16].

IV – O novo céu, a terra e o mar novo, de que fala São João no Apocalipse. A idolatria de Roma e a idolatria do Oriente. Com que forças fez guerra Xavier aos deuses e templos pagãos?

Passando à segunda e maior parte deste vastíssimo corpo, que são os gentios e idólatras, divididos em tantas seitas, quem nos declarará, e como, a grande volta que deram? Diz S. João que viu – como já tinha profetizado Isaías – um céu novo, uma terra nova, e um mar novo: Vidi caelum novum et terram novam. Primum enim caelum, et prima terra abut, et mare jam non est[17].E quando se viu esta grande mudança, sendo sempre o céu o mesmo, a terra a mesma, o mar o mesmo? Aguda e profundamente S. Jerônimo. Diz que se viu quando os apóstolos e seus sucessores converteram a idolatria de Roma e Grécia gentílicas, porque então deu volta o mun­do, e se tornou a pôr no estado em que Deus o criara. Deus criou este mundo em tal forma, e com tal ordem, que o homem servisse e adorasse a Deus, e todas as outras criaturas do céu, da terra, e do mar servissem ao homem. Mas a idolatria – de que foi o primeiro mestre o demônio, quando disse: Eritis sicut dii[18] – fingindo mais deu­ses que um – de tal modo perturbou esta ordem, que os homens deram a divindade de Deus às criaturas, e, devendo elas servir aos homens, os homens as serviram e adoraram a elas. Assim o fez no céu, na terra e no mar. No céu tinha Deus posto estrelas, na terra plantas, no mar peixes, e de tudo isto fez a idolatria deuses e deu­sas. A Júpiter deus do céu, a Plutão deus da terra, a Netuno deus do mar. E para que não faltasse geração a estes deuses, posto que os idólatras lhes chamavam imortais, a Júpiter ajuntaram Juno, a Plutão Proserpina, a Netuno Tétis. E, assim como no céu, com segundo grau de divindade, ao sol fizeram Apolo, à lua Diana, e aos outros planetas Saturno, Marte, Mercúrio, Vênus, e a multidão das outras estrelas, a que na Escritura se chama militia caeli, assim na terra e no mar beatificaram outras deidades, de ambos os sexos, terrestres e marítimas.

A estes monstros levantavam templos, dedicavam altares, consagravam sacerdotes, ofereciam sacrifícios, e, o que mais admira, é que, sendo os gregos e romanos os homens mais sábios do mundo, e os judeus os mais alumiados, todos aqueles, e a maior parte destes, cressem tão cega e obstinadamente nestas quimeras do céu, do mar e da terra, que as adorassem como verdadeiros deuses, e, aos que lhes não oferecessem incenso, castigassem como ateus e sacrílegos, abrasados em fogo, comidos das feras, e martirizados com os mais esquisitos tormentos. – Mas, chegado o tempo – como ensinou S. Paulo aos areopagitas – em que o verdadeiro Deus quis desfazer as trevas desta ignorância, e tirar do mundo todos os deuses falsos por meio da pregação do Evangelho, derrubados os celestes do céu, afogados os marítimos no mar, e sepultados os terrestres no inferno, então apareceram o céu, a terra, o mar, reduzidos à pureza e verdade de seu nascimento – envergonhando-se o sol e a lua, como diz Isaías, de terem sido adorados e foi tão estupenda esta volta universal de todo o criado, que o mesmo céu, a mesma terra, e o mesmo mar pareceram criados de novo: Ecce ego creo caelos novos, et terram novam[19]. – E diz o texto sagrado: criados de novo, não só com autoridade, mas com energia e elegância divina, porque criar é produzir de nada, e como a idolatria é nada, e os ídolos nada, deste nada tomou Deus a reproduzir o céu, a terra e o mar, tirando-os de não ser ao ser, passando-os da mentira à verdade, e restituindo-os do que aparentemente eram ao que realmente tinham sido.

Porém, se compararmos a idolatria romana com a do Oriente, muito maior e mais admirável volta foi a que fez dar àquele novo mundo a pregação e língua de Xavier. Os romanos dedicaram um templo a todos os deuses, por isso redondo, em que tudo o que se admira não é sombra do que dedicou aos seus, ajudada do poder e da arte, a superstição dos orientais. A grandeza do Panteão de Roma não iguala os maiores templos da cristandade, e, sendo milhares os daquelas nações, os que vencem toda a admiração são os cavados e abertos em uma só pedra, com abóbadas, naves e torres, entre os quais se contam em um três mil celas da mesma pedra, única e continuada, para os que têm cuidado do culto e serviço dele. E admira-se muito em Roma que o portal do mesmo Panteão seja de um só mármore. Mais admiração merecem as dez ou doze colunas do mesmo pórtico, que não podem abraçar dois homens, com proporcionada altura, de uma só peça. Mas se delas se pode gloriar a potência de Agripa, que ali as trouxe e levantou, como ficaria muda toda a soberba romana, se soubesse, como sabemos, que em um templo ou varela da índia, chamado do Bugio – por ser dedicado a tão ridículo deus – só o claustro, que serve de recolher as reses que se hão de sacrificar, tem setecentas colunas lavradas de mármore, também de uma só peça, e igual grandeza? Da estupenda e monstruosa dos altares, baste dizer que em um só do Japão se contam quinhentos ídolos dourados, cada um com cem braços, como o Briareu.

Estas eram as muralhas, torres e castelos com que a idolatria oriental estava armada e guarnecida neles de infinitos ministros, chamados sacerdotes brâmines, jogues, bonzos, todos rendosamente sustentados a soldo dos reis e dos povos, com os opulentos tesouros, que os mares e terras por natureza, e os homens por artes lhes pagam em tributo. E, sendo maior este poder no invisível que no que se via – porque em cada ídolo, posto que de pedra ou metal, e ao parecer morto, morava e vivia um demônio – com que forças lhes podia fazer guerra Xavier, sendo tão desiguais as suas? Contra a fortaleza daqueles templos, em qualquer parte onde chegava levantava uma igrejinha fundada sobre quatro esteios cortados do mato, e coberta com a ramada das árvores; contra a multidão, grandeza e riqueza dos ídolos e imagens arvorava uma cruz seca; contra os inumeráveis exércitos dos sacrílegos sacerdotes, aparecia ele só, descalço, e tão pobremente vestido, como quem se sustentava de esmola; e nesta desproporção e desigualdade tão extrema do que se via, em soando e se ouvindo a voz e pregação de Xavier, como ao som das trombetas de Josué, se arrasaram os muros de Jericó, assim caía a máquina dos templos, os ídolos se desfaziam em cinza, os demônios, que não podiam morrer, fugiam, emudeciam os camis, e totoquês, e os nomes de Xaca e Amida, ouvindo-se em toda a parte o do verdadeiro Deus, criador do céu e da terra, e sendo recebida, crida e adorada em cidades e reinos inteiros a divindade de Cristo. Tão poderosas e eficazes eram as vozes de Xavier, e tais os triunfos da sua língua!

V – O modo singular e maravilhoso com que Deus fortificou os pés de Xavier, para que pudessem dar tantas voltas ao mundo. Xavier, piedoso tirano de si mesmo. Os cordéis com que se atou S. Francisco Xavier e as cadeias de S. Pedro. A primeira novena do santo. Os saltos que deram os pés de Xavier pela salvação das almas.

Mas, se a triunfante língua de Xavier foi tão gloriosa na volta que fez dar ao mundo pregando: praedicate – parece que se não podem gloriar menos os seus pés do modo singular e maravilhoso com que Deus os fortificou, para que pudessem dar tantas voltas ao mesmo mundo andando: euntes. – No famoso Cântico de Ana, mãe de Samuel, que tem por fim a propagação universal do império de Cristo: Dominus dabit imperium regi suo, et sublimabit cornu Christi sui[20]diz imediatamente antes a mesma profetisa, que Deus para isso há de conservar os pés dos seus santos: Pedes sanctorum suorum servabit (1 Rs. 2, 9). – O que literalmente não só se pode, mas deve entender dos pés de S. Francisco Xavier. Tendo ele já passado o cabo das vãs esperanças, com que o mundo o detinha, o primeiro livro, por onde deu princípio ao novo estudo, foi o dos exercícios espirituais de Santo Inácio. Nestes exercícios se lembrou o novo cavaleiro de Cristo de outro, em que as suas grandes forças e destreza se avantajavam muito, e era a agilidade de correr e saltar, gentileza naquele tempo muito estimada na corte de Paris. Para mortificar, pois, e castigar esta vaidade, de que se prezava tanto, inventou o seu fervor uns cordéis, primeiro cheios de nós, com os quais fortissimamente se atou e apertou por baixo dos joelhos, e com que não dava passo sem grande moléstia e dor. Assim atado se pôs a caminho de Paris para Veneza, onde Santo Inácio o esperava com os outros seus companheiros, em cumprimento do voto que tinham feito de passar a Jerusalém. E a poucas jornadas, que todos faziam a pé, e com o que tinham recolhido dos próprios estudos aos ombros, não podendo Xavier dar mais um passo adiante, declarada por força a causa, que a humildade dissimulava e encobria, foi logo chamado cirurgião, o qual, com pasmo de tal gênero de penitência, vendo as grandes chagas e inchação dos joelhos, e quão profundamente se tinham penetrado e escondido nelas os cordéis, disse que se não podia intentar a cura sem cortar muito pela carne, e sem manifesto perigo da vida, pelo muito concurso das veias e nervos naquela parte; em conclusão, que, tendo chegado as feridas a tal estado, só Deus lhe podia dar o remédio, a que ele se não atrevia. Com este lastimoso desengano se puseram em oração os nove companheiros – que foi a primeira novena de S. Francisco Xavier – e, perseverando toda a noite com as instâncias ao céu, que a caridade e necessidade da viagem pedia, não tinha bem amanhecido – coisa maravilhosa! – quando os cordéis apareceram quebrados por todos os nós, a inchação igual, as chagas perfeitamente sãs, e o enfermo com as forças tão inteiras, que, sem perder jornada, dando as devidas graças a Deus, continuaram todos seu caminho.

Quem se não lembrará neste passo das cadeias de S. Pedro? Preso S. Pedro, e atado a duas cadeias, quando se esperava só pela manhã para que ele saísse a morrer, diz o texto de S. Lucas que toda a Igreja fazia oração pela sua vida a Deus: Oratio autem fiebat sine intermissione ab Ecclesia ad Deum pro eo[21]. – E da mesma maneira naquela noite também fazia oração a Deus pela vida de Xavier a Companhia toda, porque toda – como então pusillus grex[22]se continha naquele pequeno número. Lá Herodes era o ímpio tirano de Pedro, cá Xavier era o piedoso tirano de si mesmo. Lá foi tão eficaz a oração de toda a Igreja, que em uma noite, por meio de um anjo, as cadeias de Pedro se quebraram, e lhe caíram das mãos: Ceciderunt catenae de manibus ejus (At. 12, 7) – e cá foi tão eficaz a oração de toda a Companhia, que em outra noite os cordéis de Xavier se romperam, e lhe caíram aos pés. Mas, se Pedro fazia tantos milagres, por que não foi ele o que se soltou das cadeias? E se Xavier havia de fazer tantos, por que não foi também o primeiro seu o da soltura de seus cordéis? Porque quis Deus autorizar mais a ambos com que não fossem eles os autores, senão que fosse a vida de Pedro milagre de toda a Igreja e a vida de Xavier milagre de toda a companhia. De tantas causas justas, e tais, não podiam resultar senão grandes efeitos. Da oração de toda a Igreja um Pedro vivo, e soltas as suas mão das cadeias, com que o prendeu Herodes; da oração de toda a Companhia um Xavier vivo, e soltos os seus pés dos grilhões com que ele mesmo se prendeu. Se S. Pedro quebrara as suas cadeias, fora este um dos milagre de S. Pedro. Se Xavier rompera os seus cordéis, fora este um dos milagres de Xavier. Mas seja Pedro o milagre de toda a Igreja, e Xavier o milagre de toda a Companhia, para que quando a Igreja se quiser ostentar milagrosamente, mostre a Pedro, e quando a Companhia lhe importar provar que também ela faz milagres, mostre a Xavier.

Só houve em um e outro caso uma bem notável diferença, que foi obrar Deus o milagre de Pedro por um anjo, e o de Xavier por si mesmo. Se Deus então revelara aos anjos que aquele caminhante chagado, caído, e tão preso que não podia dar passo, era o vaso de eleição destinado por sua providência para apóstolo de todo o Oriente, não há dúvida que os anjos da guarda daquela infinidade de almas, todos e cada um à contenda – ambitioso famulatu – como de Santo Hilário – se haviam de oferecer para o ir curar, tendo-se por mais ditoso o que tivesse a ventura de ser o seu Rafael. Mas que não cometendo Deus, nem concedendo a soltura dos cordéis de Xavier, como a das cadeias de S. Pedro a algum anjo, ele por si mesmo quisesse ser o autor do milagre, e curar tão mimosa e amorosamente as chagas daqueles joelhos! Que motivo podia ser o que obrigasse a Majestade divina à condescendência de tão particular favor? O favor e o motivo posto que tão soberano, por outro da estimação de Deus no mesmo gênero, se pode entender facilmente. Curou Deus por si mesmo os joelhos de Xavier, como ele por si mesmo os castigara, porque Xavier era aquele prodigioso homem que lhes havia de fazer dobrar os joelhos a tantos milhares de gentes que os dobravam aos ídolos. Quando Elias brasonava de ser ele só o que seguia e defendia as partes de Deus, sendo todos os mais idólatras, apagou-lhe Deus as labaredas deste seu fogoso espírito, dando-lhe em rosto com sete mil que tinha na mesma terra, os quais não dobravam os joelhos a Baal. Elias dizia: Derelictus sum ego solus[23] – e Deus, com a mesma palavra: Derelinquam mihi in Jerusalem septem millia virorum, quorum genua non sunt incurvata ante Baal[24]. – E, se Deus tanto estimava ter sete mil homens que não dobrassem os joelhos aos ídolos na terra, onde só era conhecido: Notus in Judaea Deus[25]que estimação faria dos joelhos de um homem, que em tantas terras e nações, aonde nunca chegara o conhecimento do verdadeiro Deus, lhe havia de fazer dobrar os joelhos, não a sete mil idólatras, nem a setenta mil, nem a setecentos mil, senão a tantos milhares, que deles se podia inferir, como o mesmo Deus tinha prometido, que o fariam todos: Mihi curvabitur omne genu[26]!

E porque os pés, que sem aqueles joelhos se não podiam mover, os tinha Xavier enfraquecido tão mortalmente, para castigar a vaidade, posto que venial, com que se prezava de correr e saltar, que faria Deus com a cura das suas mãos? Santificando com elas a mesma vaidade, e contrapondo elegantemente o prêmio ao castigo, fortificou de tal sorte os mesmos pés, que corressem muito mais ligeiros do que dantes corriam, e dessem muito maiores saltos do que dantes neles se admiravam. Quando o Salvador do mundo, com os passos da sua humanidade, satisfazia às obrigações de tão piedoso nome, acudindo sem descansar a toda a parte onde o chamava a salvação das almas, uma que mereceu ver a velocidade dos mesmos passos, diz que vinha saltando de monte em monte, e passando os outeiros em claro: Ecce isle venit, saliens in montibus, transiliens colles (Cânt. 2, 8). – S. Gregório Papa se convidou para contar e medir estes saltos, dizendo: Vultis ipsos ejus saltus agnoscere[27]? – Mas nem ele, nem Santo Ambrósio e S. Bernardo os pudera fazer maiores que a terra de Israel, posto que nela houvesse o Monte Sião, o Tabor, o Olivete, o Calvário, e o chamado Mons Christi, que o mesmo Senhor santificou com o seu nome, por haver nele promulgado a sua lei. Mas ‘como a missão do mesmo Salvador lhe não permitia pôr os pés fora das raias daquela terra: Non sum missus nisi ad oves, quae perierunt domus Israel[28] – e a de Xavier se estendia desde o Poente até o Oriente, a todos os fins da terra, agora direi eu com maior admiração – pois o mesmo Cristo assim o quis: Vultis ipsos ejus saltus agnoscere? Quereis ver os saltos que deram os pés de Xavier pela salvação das almas? – Vede e medi bem quanto vai de monte a monte: saliens in montibus. – Que salto como de Lisboa a Moçambique! Que salto como de Moçambique a Goa! Que salto como de Goa a Meliapor! Que salto como de Meliapor a Cambaia! Que salto como de Cambaia a Malaca! Que salto como de Malaca a Amboíno! Que salto como de Amboíno ao Japão! Que salto como do Japão à China! E que salto como – muitas vezes sem guardar esta ordem – do primeiro termo do Oriente até o último, com distância de mais de duas mil léguas de monte a monte! Por isso o profeta Isaías não só admirava os pés, senão os pés sobre os montes: Quam pulchri super montes pedes annuntiantis et praedicantis bonum[29]!

VI – Os prodígios com que a língua de Xavier, milagrosamente dotada, assombra os ouvidos do mundo. Quantas línguas falavam os homens no tempo de Xavier A particular energia e primor com que o Espírito Santo infundiu na língua de Xavier a ciência das línguas de todos os homens. O dom das línguas em S. Paulo e em Xavier. Os três dons da língua de Xavier: as línguas dos homens, a língua dos anjos e a língua de Deus.

Estas últimas palavras: annuntiantis et praedi, cantis bonum – nos obrigam já a passar do que correram e saltaram os pés ao que pregou a língua. E se o milagre que Deus fez nos pés de Xavier foi fecundo de tantas maravilhas, não foram menos nem menores os prodígios com que a língua, também milagrosamente dotada, assombrou os ouvidos do mundo. Naquele milagre obrou a Sabedoria divina como médico, neste como mestre. S. Paulo faz menção de dois gêneros de línguas: línguas de homens e línguas de anjos: Si linguis hominum loquar, et angelorum[30]. – E tanto foi a língua de Xavier neste segundo gênero angélica, como no primeiro mais que humana.

Em um instante infundiu o Espírito Santo na língua de Xavier a ciência das línguas de todos os homens, e, para saber quantos milagres se encenaram neste primeiro milagre, era necessário saber quantas línguas falavam os homens naquele tempo. No tempo da tone de Babel, em que as línguas se multiplicaram, e dividiram, foram as línguas originais setenta e duas. No tempo dos apóstolos eram mais que as da Tone de Babel, e no tempo de Xavier mais que as do tempo dos apóstolos, porque em um e outro tempo, corrompendo-se as originais, de cada uma delas nasceram muitas outras, como vemos na latina. E quando a ciência de Xavier se não entendesse mais que às línguas de toda a Asia, em que não há dúvida, bastavam só as do Arquipélago Índico, em que são tantas as línguas como as ilhas, para as línguas serem inumeráveis, e tantos os milagres como as línguas. No capítulo décimo das suas visões diz o profeta Daniel que viu um homem cujo corpo era formado de todo gênero de luzes, e a voz de suas palavras, não como de um só homem, senão como de uma multidão de gente: Et vox sermonum ejus ut vox multitudinis[31]. – E que homem mais parecido a este prodigioso homem que Xavier? Todo formado de luzes, como feito por Deus para alumiar o Oriente, e com a voz, não de um só homem, senão de muitos, quantos eram aqueles, e quão diversos nas línguas, a quem por meio da sua havia de alumiar? Neste sentido é célebre um provérbio turquesco, que diz: Quantas línguas sabe um homem, tantos homens é. E Plínio, pelo contrário, no mesmo sentido disse que o estrangeiro, na terra onde não sabe a língua, não é homem: Linguae varietas efficit ut externus alieno non sit hominis vice. – Assim seria Xavier, se entrara no Oriente só com a lingua natural espanhola; mas, como falava todas as línguas, era tanta a multidão de homens para eles, quantas eram as nações diversas dos que o ouviam: Et vox sermonum ejus ut vox multitudinis.

Esta mesma é a primeira parte do dom de línguas, que o Espírito Santo infundiu nos apóstolos. Mas, posto que eles falassem todas, é muito notável a particular energia e primor com que o mesmo Espírito Santo as comunicou a Xavier. S. Paulo dizia que dava graças a Deus de falar em todas as línguas daqueles com quem tratava: Gratias ago Deo meo, quod omnium vestrum lingua loquor (1 Cor. 14, 18). – Contudo, a Epístola aos hebreus, notam todos os expositores, que no estilo e na frase é muito mais elegante que as outras. E por quê? Porque ele, dizem os mesmos, era hebreu, e falava na sua língua natural. Agora ouçamos ao eminentíssimo Cardeal de Monte, o qual, relatando em consistório ao Papa Gregório Décimo-Quinto o que constava dos atos ou processos da sua canonização, diz assim: Diversarium gentium línguas, quas non didicerat, cum eas Evangelii causa adiret, ita eleganter et expedite loquebatur, ac si ibi natus et educatus esset; et contigit non raro, ut eum concionantem, diversarum nationum homines sua quisque lingua plane et polite audierint. – De sorte que Xavier, não só falava todas as línguas expedite: correntemente – que é o que a Igreja canta dos apóstolos: Verbis ut essent proflui – senão também eleganter et polite: em estilo elegante e polido, no qual se descobrem dois primores particulares deste dom do céu. A elegância em respeito de S. Paulo, que falava mais elegantemente a língua que lhe era natural; e Xavier com tanta elegância pregava nas estranhas, e aos estranhos nas suas, como se nascera e fora criado entre eles: Ac si ibi natus et educatus esset. – Ao elegante, que consiste no estilo e frase, se ajunta o polido, que pertence ao som e assento da pronunciação, a que os latinos chamam dialeto, de que temos o exemplo em S. Pedro, o qual, sendo hebreu, pronunciava a língua hebréia de Jerusalém e da corte com tanta diferença, que por ela conheceu a ancila que era de Galiléia: Nam et loquela tua manifestum te facit[32]. – Assim se fala a mesma língua italiana em Nápoles e Veneza, mas com diferente consonância da romana. Isto baste quanto ao primeiro grau do dom de línguas, que é falar um homem a de todos, a que S. Paulo chama linguis hominum.

A outra, a que o mesmo apóstolo dá nome de língua de anjos, é muito mais maravilhosa, porque, falando um homem em uma só língua própria ou estranha, os que o ouvem, sendo de diferentes nações, ouve cada um a sua. Assim, ouvindo a S. Pedro os partos, medos e elamitas, diziam mais pasmados que admirados: Quomodo nos audivimus unusquisque linguam nostram, in qua nazi sumus[33]? – A maravilha consiste em que, sendo a lingua na boca de quem a fala uma só nos ouvidos dos que a ouvem sejam tantas, quantas e quão diversas forem as suas, com outros tantos milagres. E por que se chamam estas línguas, línguas de anjos? Porque os anjos falam por conceitos, que são imagens naturais das coisas, as quais imagens conhecem todos. Pelo contrário, as palavras pronunciavas, como também escritas, são imagens artificiais das mesmas coisas, e não as podem entender senão os que souberem a arte. A língua em que falava Xavier também era artificial, mas todos a entendiam, como se foram as suas palavras imagens naturais do que dizia, e por isso língua de anjo, suprindo Deus com tantos milagres, não só quantos eram os ouvintes, senão os ouvidos, o som da voz, e a dearticulação das palavras, quais eram as da língua de cada um. Muitos teólogos, e entre eles o grande Nazianzeno, querem que esta mudança se fizesse no ar, e não nos ouvidos, porque no tal caso seriam os milagres dos ouvintes, e não do pregador. Mas o merecimento do milagre, como o do benefício, está em quem o faz, e não em quem o recebe. Se o santo sara o enfermo e ressuscita o morto, posto que o enfermo receba a saúde, e o morto a vida, o milagre não é do enfermo, nem do morto, senão do santo. Assim como o maná na boca do que o comia sabia ao que ele desejava, assim a voz de Xavier nos ouvidos do que a ouvia soava ao que ele entendia. E por isso, este modo de falar se chamava língua de anjos, diz Cartusiano, como o maná pão de anjos.

Mas tudo isto não basta para explicar as maravilhas da língua de Xavier. Pro­pondo-lhe os letrados do Japão várias questões em matérias muito diversas, a todos satisfazia com uma só resposta. E se isto era não só falar com língua dos homens, como no primeiro caso, nem só com língua dos anjos, como no segundo, que dire­mos? Ocorria-me dizer que falava também com língua de Deus. Da língua ou falar de Deus diz Davi: Semel locutus est Deus; duo haec audivi (SI. 61, 12): Deus falou uma vez, eu ouvi duas coisas. – E neste sentido se podia aplicar a Xavier o que diz S. Pedro: Si quis loquitur, tanquam sermones Dei[34]. -Porém, as palavras de Deus, quais são as da Sagrada Escritura, ainda que tenham mais que um sentido literal – o qual não é certo, senão depois de interpretado por autor canônico – não bastam estes dois sentidos, para que se responda com eles mais que a outras tantas questões; e Xavier, com as mesmas palavras, satisfazia não só a duas, ou quatro, ou dez questões, senão a muitas mais, e de indústria excitadas em matérias muito diversas. Que novo dom era logo, e que novo milagre este da língua de Xavier?

O que só se pode entender é que eram as suas palavras, não como as palavras, senão como a palavra de Deus. Deus tem muitas palavras, e uma só palavra. As muitas palavras, são aquelas com que fala pelos profetas e pelas Escrituras; a palavra uma e única é a eterna Palavra, ou o eterno Verbo, que ab aeterno gerou. Neste sentido entende Santo Agostinho o semel locutus est Deus (Si. 61, 12): Apud se – diz ele – semel Deus locutus est, quia unum Verbum genuit, unum Verbum habet, ubi omnes thesauri sapientiae et scientiae absconditi.E como nesta palavra única de Deus estão encerrados todos os tesouros da divina e infinita sabedoria, assim como o autor do salmo ouviu dela ou nela duas coisas, assim todos podem ouvir quantas quiserem saber, e não com largos discursos, senão com uma simples inteligência, mais propriamente vendo que ouvindo, ao modo com que os bem-aventurados no céu: Omnia vident in Verbo. – Este, pois, ou semelhante a este, era o terceiro dom da língua de Xavier, ao qual o mesmoVerbo comunicava um raio ou sombra da sua mesma luz, pelo qual, alumiado ele, e por ele os que o ouviam, mais vendo que ouvindo as respostas das suas questões e perguntas, ficavam satisfeitos todos, por muitos que fossem. Assim o escreveu o mesmo santo, posto que não declarou o modo, sendo a língua de Xavier uma como chave dos tesouros da sabedoria e ciência divina, que os abria quando era necessário, para alumiar e tirar as dúvidas de todos aqueles a quem pregava.

VII – Algumas maravilhas obradas pelos pés e pela língua de Xavier Os pés de Xavier e as amarguras do mar A língua de Xavier e as amarguras da terra. O livro doce de que fala o Apocalipse. Como convertia a língua de Xavier as doçuras em amarguras? As doçuras da pátria e os ecos vivos da voz de Xavier.

Vistos por modo tão admirável os milagres que Deus fez nos pés e língua de S. Francisco Xavier, vejamos agora alguma parte dos que os mesmos pés e a mesma língua fizeram. Um dos maiores trabalhos dos navegantes, é acharem-se no mesmo elemento da água sem água para beber. Mas para acudir a esta necessidade eram muitos os modos que tinha o nosso santo, com que socorria os que o invocavam. Umas vezes fazia chover com tanta abundância, que recolhiam toda a água que haviam mister. Outras os levava a ilhas e costas não conhecidas, onde as fontes e os rios lhes faziam a aguada. Uma vez mandou que enchessem todas as vasilhas da água do mar, e, lançando-lhes a bênção, como se a sua fosse de benedictionibus dulcedinis[35], de salgada se converteu em doce. Mas o milagre por todas suas circunstâncias famoso neste gênero foi que, navegando com calmas e ventos contrários, uma nau em que iam embarcadas quinhentas pessoas, todas quase expirando à sede, fazendo-se levar Xavier pelo costado em braços dos marinheiros até o mar, metendo nele um pé, o adoçou de maneira que não só naquele dia, mas em todos os que durou a viagem, se bebeu na nau sem ração. Que diria neste passo ou neste pasmo o profeta Jeremias? Encarecendo este profeta as amarguras em que se viu a cidade de Jerusalém destruída, e buscando comparação com que as declarar: Cui comparabo te[36]? – não achou outra senão a do mar: Magna est velut mare contritio tua[37]. – E, totalmente desconfiado de ter ou poder ter remédio aquele mal, acrescentou: Quis medebitur tui[38]? – Se toda a terra, desfazendo-se em rios de água doce, e se todos os rios, tantos e tão caudalosos, entrando no mar, ele com a sua amargura os converte em si, e eles não podem fazer no mar a menor mudança, que médico haverá que possa curar esta amargura, e com que medicamento: Quis medebitur tui? – Ora, profeta santo, pois conheceis os futuros, não desconfieis. Virá tempo em que haja neste mundo um homem chamado Francisco Xavier, que curará as amarguras do mar, e não com outro medicamento ou instrumento, senão com meter nele o pé. O Caldeu lê: Poculum tuum sicut mare. – Se naquele aperto se pusera em leilão no convés um púcaro de água, tudo quanto levava a nau não era bastante preço para o comprar. Antes, se poriam em armas todos os navegantes e se dariam batalha sobre quem o havia de levar. E todas estas vidas salvou duas vezes Xavier, só com molhar um pé no mar, e o fazer doce.

E que diremos da sua língua? Também a língua de Xavier faz doces muitas amarguras, e, porventura, maiores. Que amargura como a da morte? O mors, quam amara est memoria tua[39]! – Mas, assim como na boca do leão morto fabricaram as abelhas os favos, assim adoçava Xavier as amarguras da morte, de tal modo que, sendo o primeiro martírio inventado no Japão contra os que criam no Deus crucificado a cruz, os mesmos que pouco antes tinham sido idólatras, a abraçavam com tais demonstrações de alegria, que bem se via a doçura que naquele não duro, senão doce lenho – dulce lignum – e naqueles não duros, senão doces ferros – dulces clavos – tinha destilado a língua de Xavier: Favus distillans labia tua[40]. – Que amarguras como a das afrontas. Das com que injuriava Fenena a Ana, mãe de Samuel, diz a Escritura que lhe chegavam as amarguras à alma: Cum esset Anna amaro animo (1 Rs. 1, 10). – E, sendo que as afrontas no Japão se sentem tanto mais que a morte, que o remédio de se desafrontarem grandes e pequenos é matarem-se com suas próprias mãos, tão doces tinha feito a pregação de Xavier as afrontas, que com os ferretes nas faces, com as orelhas cortadas, e com os pregões mais infames, saíam dos cárceres e tribunais dos tiranos, não menos contentes e triunfantes que os primitivos apóstolos, tendo as mesmas afrontas pela maior honra e dignidade: Ibant apostoli gaudentes a conspectu concilii, quoniam digni habiti sunt pro nomine Jesu contumeliam pati[41]. – Que maior amargura que a morte, não só cruel, mas natural dos filhos, cuja vida estimam os pais mais que a própria? Assim dizia Noemi depois de ter perdido os seus, que lhe trocassem o nome de formosa no de amarga: Ne vocetis me Noemi – id est, pulchram – sed vocate me Mara – id est, amaram – quia amaritudine valde replevit me Omnipotens. Egressa sum plena, et vacuam reduxit me Dominus[42]. – E tão fora estavam de chorar esta tão natural amargura os pais do Japão, tão fortes como Matatias, e as mães, tão constantes como a mãe dos Macabeus, que eles e elas, como rindo-se do tirano Antíoco, os exortavam, ou ao breve tormento das fogueiras, ou ao dilatado das covas, que Nero e Diocleciano não souberam inventar. Que amargura, finalmente, como a das confiscações e perdas da riqueza, da nobreza, dos estados e das coroas, das quais dizia Jó nas suas: Implet me amaritudinibus[43]? – porque a cada bem deste mundo, que Deus lhe tirava, lhe metia uma amargura no coração – e, sendo estas tão amargas ao mestre da paciência, na escola de Xavier eram tão doces, que os ricos, os nobres, os príncipes, os reis, eles e seus sucessores, com tanta alegria no rosto como no coração, as desprezavam todas, ainda que fossem as próprias coroas, igualando na primeira infância da fé a da maioridade de Moisés, quando não quis ser filho da filha de Faraó, estimando por maior riqueza que os tesouros do Egito a pobreza a paciência de Cristo: Fide Moyses grandis factus negavit se esse filium filiae Pharaonis, magis eligens affligi cum populo Dei, et majores divitias aestimans thesauro Aegyptiorum, improperium Christi[44].

Já daqui podem entender os pés de Xavier que, se eles são tão milagrosos que um só basta para adoçar as amarguras do mar, não é menos poderosa a língua de Xavier para fazer doces as da terra, que não são menos dificultosas de tragar, nem menos amargas. Mas não é este o maior milagre com que ela quer acudir por si, ou eu por ela. O que digo, trocando a semelhança em contrariedade, é que se os pés de Xavier fazem as amarguras doces, a língua de Xavier pode fazer as doçuras amargas. Se isto é mais ou menos, outrem o julgue, que eu o que só quero provar é o milagre e o modo. Em uma das visões do seu Apocalipse, deu um anjo a S. João um livro, dizendo-lhe que o comesse, e que na boca o acharia doce como o mel, mas que no estômago lhe amargaria: Dixit mihi: Accipe libram, et devora illum: et faciet amaricari ventrem tuum, sed in ore tuo erit dulce tanquam mel (Apc. 10, 9). – Fê-lo assim S. João, experimentando na boca a doçura do livro, e no estômago a amargura. E sem perguntar que livro era aquele, e que mistério continha, o anjo lhe disse que importava que ele tornasse a pregar a muitos povos, a muitas gentes, a muitas línguas e a muitos reis: Et dixit mihi: Oportet te iterum prophetare gentibus, et populis, et linguis, et regibus mulos (ibid.). – Pois, por que S. João há de pregar a tanta diversidade de ouvintes, por isso há de comer um livro, que primeiro é doce, e depois amargoso, e doce na boca, e amargoso no estômago? Sim. Porque naquele livro se continha a matéria, o intento e o fim do que havia de pregar. A matéria eram doçuras e amarguras, e o intento e fim era que o mesmo que dantes fora doce se convertesse em amargo. Se o anjo falara com S. Francisco Xavier, nem lhe pudera dizer nem esperar dele outra coisa. Ao menos o auditório, que aqui se descreve, é o mesmo a que ele pregou: muitos povos, muitos reis, muitas gentes, e de diversas línguas. A língua distingue o doce do amargo, e a língua de Xavier, não só distinguia, mas extinguia as doçuras, para as converter em amarguras. O intento dos seus sermões era converter os apetites em arrependimentos, as delícias em contrições, os gostos em pesar, o mel em fel, e tudo o que tem ou teve de doce o pecado, nas amarguras da penitência. Quantos soldados, depois de crucificarem a Cristo, e lhe jogarem as vestiduras, se recolhiam do mesmo Calvário batendo nos peitos! Quantos Zaqueus publicanos e onzeneiros, não só restituíam o alheio, mas repartiam o seu largamente aos pobres! Quantas Madalenas, depois de ser laços e escândalo das cidades, trocando o amor profano pelo divino, prostradas aos pés de Cristo, os regavam de lágrimas! Quantos Davis – para que não faltassem os reis – despida a púrpura, e cobertos de cilícios e cinza, emendavam a fealdade das culpas, que não puderam encobrir, com outras maiores! Assim convertia a língua de Xavier as falsas e enganosas doçuras do apetite nas verdadeiras amarguras e desenganos da penitência.

Mas por que se gostava o doce na boca, e o amargo se sentia no estômago: In ore tuo erit dulce tanquam mel, et faciet amaricari ventrem tuum? – Porque os mesmos manjares na boca se gostam, no estômago se digerem. Esta digestão muito miúda, muito distinta, e muito particular de cada vício, com a brevidade do que deleita, e a eternidade da pena, com o céu perdido no que passou, e o inferno merecido no que não há de passar, estes eram os relâmpagos daquela luz, estes os trovões daquela voz, com que o tremor dos raios se convertiam em chuva: Fulgura in pluviam fecit[45]. – Que chuva é esta, senão as lágrimas dos ouvintes, chuva verdadeiramente do céu? Pôs Deus o gosto em um sentido cego, e o amargo no sentido da vista, para que veja o pecador com os olhos abertos o que devorou com eles fechados, não sendo outra coisa o amargoso das lágrimas que o líquido digerido do indigesto dos gostos. Assim digeria os de quarenta anos passados nas delícias da corte, de que era senhor, Ezequias: Recogitabo tibi omnes annos meos in amaritudine animae meae[46]cuidando agora, e tornando a cuidar, o que então lhe não dera cuidado, e sendo agora amargura sobre amargura para a alma o que então era gosto sobre gosto para os sentidos. Mas por que se não veja esta eficácia da língua de Xavier só na doçura enganosa dos pecadores, que doçura mais inocente e mais lícita que a da pátria, ainda nos penedos da Ítaca, ou nos frios da Gética sempre doce?

Nescio qua natale solum dulcedine cunctos
Allicit, immemores nec sinit esse sui
[47].

E, contudo, olhem os pés de Xavier para esse mesmo mar, que fizeram doce, e verão quantos discípulos do mesmo espírito, esquecidos da doçura das mais deleitosas pátrias do mundo, a trocam, não pelas amarguras de qualquer mar, senão pelas imensas dos mais distantes, dos mais inclementes, dos mais pe­rigosos, dos mais indômitos, dos mais feros, enfim, dos mares mais mares, isto é, dos mais amargosos de todos, milagre imortal cada ano da língua de Xavier, ou dos ecos sempre vivos da sua voz.

VIII – Os pés de que os de Xavier se valeram para ir onde não podia, e as línguas de que se socorreu Xavier para pregar. Os canacapoles, ou procuradores da Igreja. A língua dos acenos, a língua dos escritos e a língua das obras de caridade.

Mas, tornando aos seus pés, que direi deles, quando vejo que não para des­cansar, senão para mais andar, se ajudam de outros pés? E da mesma língua, que cuidarei, quando não para emudecer, ou respeitar, senão para mais pregar se socorre de outras línguas? S. Paulo, quando Saulo, enganado do seu falso zelo – mas grande – não se contentando de pelejar pela fé, que defendia só com duas mãos, teve traça para o fazer com as mãos de todos, como diz Santo Agostinho. E por que seriam menos diligentes na propagação da verdadeira os pés de Xavier, contentando-se com serem só dois, e ainda menos a língua, com ser só uma?

Quando era chamado no mesmo tempo a enfermos, e endemoninhados, a par­tos perigosos, e a outras aflições e trabalhos, que nele tinham o remédio certo, e não podia ir o santo por sua própria pessoa, valia-se dos pés dos seus meninos da doutri­na, e, levando algum sinal de que eram enviados por ele, obravam as mesmas mara­vilhas que o mesmo Xavier costumava. Depois que teve muitos companheiros da mesma profissão, também caminhava com os seus pés, indo aonde não podia ir, e assistindo onde não podia estar. Na Costa da Pescaria, quando tinha um só compa­nheiro, vendo que os povos eram trinta, e que, não podendo assistir mais que em dois, ficavam vinte e oito sem assistência, inventou a residência dos que na língua malabar se chamam canacapoles, que vale o mesmo que procuradores da Igreja, os quais, sendo de boa vida, e bem instruídos nos ministérios da fé, os ensinavam todos os dias, batizavam em caso de necessidade, ajudavam a bem morrer, e supriam quanto sem o caráter do sacerdócio pode fazer um cristão. E para que estes ofícios tão importantes se perpetuassem, se valeu Xavier – quem tal imaginara! – dos reais pés da mesma rainha de Portugal. Para os chapins da mesma rainha, como diz a frase da corte portuguesa, se pagavam dos tributos daquela costa quatro mil fanes, que montam da nossa moeda quatrocentos cruzados, e estes alcançou o santo para salá­rio dos canacapoles, concluindo, na carta com que os pediu: – E as almas que por este me se salvam, são, Senhora, os chapins, com que Vossa Alteza entrará segura­mente no céu. – Não creio que pode haver caso em que mais literalmente se entenda aquela sentença dos Cânticos: Quam pulchri sunt gressus tui in calceamentis, filia principis[48]! – Era a rainha D. Catarina, em toda a propriedade filha do príncipe, como filha de Filipe, primeiro conde de Flandres, pai de Carlos Quinto, e seu: e louvar-lhe o Espírito Santo o airoso dos passos pelo calçado – in calceamentis – mais parece que se deve aos chapins que aos passos.

Em todos estes pés, de que os de Xavier se valeram, também tinha a sua parte a língua, porque não eram pés de figuras mudas. As outras línguas, para que não tinham uso todas as suas, sendo tantas, foram primeiramente acenos, pelos quais se entendeu e deu a entender aos bárbaros de Socotorá, com tanta satisfação, que assim catequizou e batizou muitos deles. Outra língua, tanto mais eloqüente quanto mais copiosa, foi a sua pena: Lingua mea calamus scribae[49]não só porque todas as nações a que Xavier pregou a fé, como se não falara, mas escrevera, lhes ficou tão impressa, que nunca a deixaram, nem porque escreveu cento e quinze epístolas admiráveis, que andam im­pressas pelo mundo, e durarão até ao fim dele, senão porque copiados por sua mão, e vertidos em todas as línguas os mistérios e artigos da fé católica, nos navios os fixava ao pé do mastro grande, e nas cidades nos lugares mais públicos, sendo, naquela breve escritura, tantas as bíblias e versões que ensinavam a fé e nome do verdadeiro Deus, quantas as folhas desencadernadas que no mar e na terra se liam. Nem se devem passar em silêncio os troféus de nossa Redenção, que nos escolhos das praias e no mais alto . dos montes arvorava com tantos pregões do Crucificado, quantas eram as cruzes, servindo também dê língua à de Xavier até os paus e as pedras. Mas, o que mais me edifica e faz devoção é que, tendo o santo aquele dom, ou dons de línguas tão sublimes, contudo, as aprendia e estudava palavra por palavra, para que a seu exemplo o fizessem muitos outros, por cujas línguas também falasse. Finalmente, a língua mais universal com que a de Xavier mudamente se desafogava, era a que, encobrindo as demais, e escrevendo das Ilhas do Moro aos outros religiosos da Companhia, declarou com esta cláusula: – Aqui estou batizando somente os inocentes que morrem, e não catequizando os adultos, porque lhes não sei a língua; procuro, contudo, fazer-lhes as obras de caridade que posso, que é língua que todos entendem.

IX – A missão dos pés e da língua de S. Francisco Xavier A fineza com que Cristo premiou a Xavier o não se despedir de sua mãe. Por que Cristo, perdido de sua Mãe, não vai buscar a sua Mãe, e, perdido de Xavier, vai buscar a Xavier? De que modo os três Cancros: do céu, da terra e do mar, se uniram e conjuraram em honrar a Xavier.

Esta é a relação – mais larga do que eu quisera, e mais breve do que devera ser – do muito que obraram os pés e língua de S. Francisco Xavier: eles indo por todo o mundo: Euntes in mundum universum – e ela pregando a todas as criaturas: Praedicate Evangelium omni creaturae. – E porque entre tantas e tão gloriosas ações não deixou de haver uma omissão, seja ela o remate de tudo.

Partindo de Roma em companhia do embaixador de Portugal, que por ordem de el-rei pedira ao Sumo Pontífice e a Santo Inácio alguns missionários do seu instituto, assim edificou e admirou no caminho a ele[50], e a todos os da sua família, não só com exemplo das virtudes, mas com milagres e profecias, que então lhe começaram a dar o nome de padre santo – canonização fora de Roma, que ela não pode dar em vida. – Levava o embaixador a estrada por junto a Pamplona, em Navarra, onde ainda vivia, já viúva, D. Maria Aspilcoeta e Xavier, sua mãe, e pedindo-lhe com grandes instâncias a quisesse visitar, e despedir-se com sua bênção, pois se não haviam de ver mais nesta vida, de nenhum modo o pôde alcançar. E esta foi a omissão dos pés e da língua: dos pés, em não querer ir, e da língua, em não querer falar a sua mãe. Eu, por parte desta piedosa demanda, também alegara a Xavier o exemplo do mesmo Cristo, o qual, tendo-se mostrado sempre tão alheio do afeto de carne e sangue, ainda com sua mesma Mãe, contudo, no último apartamento, se despediu dela com tão singular demonstração de amor de filho. Porém, Xavier, entendendo com altíssima reverência que o que é devido à Mãe de Deus para nenhuma outra mãe faz exemplo, julgou que nesta parte não devia seguir o de Cristo. E o mesmo Cristo fez tanto caso e estimação deste mais que natural desapego, que, entendo eu – deixai-me assim dizer – o quis gratificar e pagar, dizendo assim consigo: Xavier, caminhando a me servir, andou tão fino que se não quis despedir de sua mãe, como eu me despedi da minha? Pois a fineza que eu não fiz por minha mãe, hei de fazer por ele.

Para que tenhais mão na censura do pensamento, ouvi a prova. Perdeu a Virgem Santíssima a seu benditíssimo Filho na viagem ou romaria de Jerusalém buscou com grande dor três dias, até que o achou no Templo, e a razão que o Senhor deu de ficar, e o acharem ali, foi estar em serviço de seu Pai: Nesciebatis quia in his quae Patris mei sunt, oportet me esse[51]? – De maneira – e é o que pondero – que, perdendo a Virgem Maria a Cristo, a Mãe buscou o Filho, e não o Filho a Mãe. E isto é o que ele fez, ou não fez então. Passemos agora do templo ao mar, e de Jerusalém à índia. Navegando Xavier aqueles mares, foi tão terrível a tempestade, que todos se davam já por perdidos, e, valendo-se o santo de um Cristo de metal, que trazia sobre o peito, lançou aquela âncora ao mar, presa por uma amarra tão delgada como o pedia o peso da âncora. Obedeceram os ventos e os mares ao império do que já os tinha repreendido no Tiberíades, e, depois que cessou a tempestade, indo Xavier a recolher a sua âncora, achou que, quebrada a amarra, ela se tinha ido ao fundo. Oh! que nova tormenta e tormento! Que faria o amoroso servo sem o Senhor do seu peito e do seu coração? Tomou porto o navio, não sabemos depois de quantos dias, e, caminhando Xavier pela praia com a dor que merecia a sua perda, eis que vê sair do mar um caranguejo, o qual com o crucifixo preso e levantado nas tenazes, o meteu nas mãos do santo. Deixo os extremos de devoção e amor com que prostrado de joelhos, e abraçado com o seu Senhor, se deteve extático e fora de si Xavier por espaço de meia hora, como testemunhou quem o acompanhava, porque me chama o meu ponto. De sorte que a Virgem Maria perdeu a Cristo, e Xavier perdeu a Cristo; mas Cristo, quando o perde sua Mãe, não busca a sua Mãe, e quando o perde Xavier, busca a Xavier. Logo, é certo e provado que fez Cristo uma fineza por Xavier, que não fez por sua Mãe. E para maior propriedade e correspondência do caso, fez esta fineza um crucifixo, isto é, Cristo crucificado, porque era em prêmio, parte do desa­pego, e parte da reverência com que Xavier não quis imitar o exemplo com que Cristo, também crucificado, se despediu tão amorosamente de sua Mãe. Oh! Deus, nunca mais admirável nem mais amante! Oh! homem, o mais mimoso, o mais favorecido, e o mais honrado de Deus!

Aquele caranguejo era verdadeiro, e não o fabuloso, que os astrólogos com o mesmo nome puseram no trópico chamado de Cancro. Chama-se trópico de Cancro, porque, chegando ali o sol, torna para trás, e não pode passar dali. E o mesmo digo eu do divino Sol, Cristo. Quando Cristo, perdido de sua Mãe, não vai buscar a sua Mãe, e perdido de Xavier, vai buscar a Xavier, então é que as finezas do Sol divino chegaram ao trópico, porque até ali podiam chegar, mas não passar dali: ponham-se duas colunas, uma no céu, outra na terra, que digam: Non plus ultra.

No céu há um Cancro, na terra outro cancro, e no mar outro. E todos três se uniram em honrar a Xavier. O Cancro do céu, que faz o trópico austral, e é o limite do curso do sol, está em vinte e três graus da Linha para o sul; o cabo da Boa Esperança está em trinta e cinco, e, sendo que o maior conquistador da antiguidade não chegou da Europa à Linha equinocial, Xavier, não só passou o Cabo da Boa Esperança duzentas léguas além do curso do sol, mas dali voltou até às ilhas do Japão, que foi o trópico de suas peregrinações, maior carreira ou zodíaco que o do sol duas mil léguas. O cancro da terra é aquele apostema peçonhento, feio e asqueroso, o mais cruel roedor da carne humana. E sucedeu que, afrontando de palavra a Xavier um homem descomedido, lhe respondeu o santo: – Deus vos guarde a boca. – Mas, não ouvindo Deus a oração, e verificando a profecia, subitamente lhe soltou e apareceu um cancro na mesma boca blasfema, o qual, roendo-lha toda, medonha e asquerosamente lhe queimou e cauterizou a língua. O cancro do mar, finalmente, é o que fez o milagre tão novo e inaudito, com que em suma todos os três cancros, do céu, da terra e do mar, se uniram e conjuraram em honrar a Xavier. O do céu, encarecendo suas peregrinações, o da terra, vingando suas injúrias, e o do mar aliviando e premiando suas saudades.

X – Conclusão: o que devem fazer os príncipes e os eclesiásticos, à imitação de Xavier, para a propagação do Evangelho de Cristo.

Chegado o nosso discurso ao trópico, e não podendo passar adiante, acabe para memória dos ouvintes com dois brevíssimos documentos. Nota a história que, reparando algum crítico nos muitos caminhos e viagens que Xavier fazia a tão diferentes e remotas partes, dissera que, se ele caminhara menos, tivera convertido mais. Ao que respondeu com profundíssima prudência o santo, como prelado dos seus companheiros: que ia primeiro ver e conhecer todas aquelas terras, para saber aonde mandava, e a quem. Oh! reis e príncipes do mundo, que mandais a tantas partes, e tão remotas dele, os vossos ministros: como podeis não errar as eleições das pessoas e dos lugares, se não sabeis a quem mandais, nem aonde. E que direi dos que por profissão e instituto, ou por outras obrigações, que ainda podem ser maiores, depois de terem ouvido da boca de Cristo: Euntes in mundum universum praedicate Evangelium omni creaturae[52] – por não deixar a pátria, nem as cortes, e por não ter valor, como Jonas, para trocar os aplausos vãos de Jerusalém pela pregação tão importante de Nínive, nem as pegadas dos pés de Xavier lhe excitem os passos, nem os ecos das suas vozes o silêncio da língua, mas como estátuas mudas, imóveis, e sem alma, nem se doam ao longe de ver perder tantas, nem ao perto, e dentro em si, temam a condenação da sua?

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[1] Ide por todo o mundo, pregai o Evangelho a toda a criatura (Mc.16,15).
[2] O mundo foi feito por ele (Jo. 1, 10).
[3] E o mundo não o conheceu (ibid.).
[4] Que formosos são sobre os montes os pés do que anuncia e prega a paz, do que anuncia o bem (Is. 52, 7).
[5] O seu som se estendeu por toda a terra, e as suas palavras até às extremidades do mundo (SI. 18, 5).
[6] Seneca. de Reined. Fortuit.
[7] Percorrerá a terra de nações estranhas (Eclo. 39, 5).
[8] Em verdade tu contaste todos os meus passos (Jó 14, 16).
[9] Tomarão asas como de águia (Is. 40, 31).
[10] Correrão e não se fatigarão, andarão e não desfalecerão (ibid.).
[11] O Senhor é a minha firmeza (SI. 17, 3).
[12] Salazar, ibid.
[13] O mundo está posto no maligno (1 Jo. 5, 19).
[14] Chegou esta nova ao rei de Nínive (Jon. 3, 6).
[15] Creram os nivitas em Deus (ibid. 5).
[16] D. Chrysost. lib. de orando Deo.
[17] E vi um céu novo e uma terra nova, porque o primeiro céu e a primeira terra se foram, e o mar já não é (Apc. 21, 1).
[18] Sereis como uns deuses (Gên. 3, 5).
[19] Eis aqui estou eu, que crio uns céus novos e uma terra nova. (Is. 65, 17).
[20] O Senhor dará o império ao seu rei, e sublimará a glória do seu Cristo (1 Rs. 2, 10).
[21] Entretanto pela igreja se fazia sem cessar oração a Deus por ele (At. 12, 5).
[22] Pequenino rebanho.
[23] Eu fiquei só (3 Rs. 19, 10. 14).
[24] Eu me reservarei para mim em Jerusalém (em Israel, na Vulgata) sete mil homens, que não dobra­ram os joelhos diante de Baal (ibid. 18).
[25] Conhecido é Deus na Judéia (SI. 75, 2).
[26] Todo o joelho se dobrará diante de mim (Is. 45, 24).
[27] Quereis conhecer os saltos que ele deu?
[28] Eu não fui enviado senão às ovelhas que pereceram da casa de Israel (Mt. 15, 24).
[29] Que formosos são sobre os montes os pés do que anuncia e prega o bem (SI. 52, 7).
[30] Se eu falar as línguas dos homens e dos anjos (1 Cor. 13, 1).
[31] E o som das suas palavras era como o ruído de uma multidão (Dan. 10, 6).
[32] Porque até a tua linguagem te dá bem a conhecer (Mt. 26, 73).
[33] Como assim os temos ouvido nós falar cada um na nossa língua em que nascemos (At. 2, 8).
[34] Se algum fala, seja como palavras de Deus (1 Pdr. 4,11).
[35] Bênçãos de doçuras (SI. 20, 4).
[36] A quem te compararei (Lam. 2, 13)?
[37] Grande é como o mar o teu desfalecimento (ibid.).
[38] Quem te remediará (ibid.)?
[39] Ó morte, quão amarga é a tua memória (Eclo. 41, 1)!
[40] Os teus lábios são como favo que destila (Cânt. 4, 11).
[41] Saíam os apóstolos gozosos de diante do conselho, por terem sido achados dignos de sofrer afron­tas pelo nome de Jesus (At. 5, 41).
[42] Não me chameis Noemi – isto é, formosa – mas chamai-me Mara – isto é, amargosa – porque o Todo-Poderoso me encheu de extrema amargura. Eu saí daqui cheia, e o Senhor me faz voltar vazia (Ri. 1, 20 s.).
[43] Enche-me de amargura (Jó 9, 18).
[44] Pela fé é que Moisés, depois de grande, disse que não era filho da filha de Faraó, escolhendo antes ser afligido com o povo de Deus, e tendo por maiores riquezas o opróbrio de Cristo que os tesouros dos egípcios (Hebr. 11, 24 s.).
[45] Fez os relâmpagos para a chuva (SI. 134, 7).
[46] Repassarei diante de ti pela memória todos os meus anos, com amargura da minha alma (Is. 38, 15).
[47] Não sei com que doçuras a terra natal atrai a todos, impedindo que dela se esqueçam.
[48] Que airosos são os teus passos, ó filha do príncipe, no calçado que trazes (Cânt. 7,1)!
[49] A minha língua é pena de escrivão (SI. 44, 2).
[50] Falta no original a preposição a.
[51] Não sabeis que importa ocupar-me das coisas que são do serviço de meu Pai (Lc. 2, 49)?
[52] Ide por todo o mundo, pregai o Evangelho a toda a criatura (Mc. 16, 15).

Fonte: https://www.literaturabrasileira.ufsc.br/documentos/?action=download&id=49908